Reedição “Ao vivo no Coliseu”

Data da edição Digital + CD duplo: 10 de Maio
Data da edição LP triplo gatefold: 30 de Maio
Após a primeira série de reedições da obra musical de José Afonso, que contemplou 11 álbuns editados entre os Outonos de 2021 (“Cantares do Andarilho” de 1968) e de 2023 (“Fados de Coimbra e Outras Canções” de 1981), a Mais 5 anunciou para este ano um segundo ciclo editorial que prossegue a cronologia da obra gravada de José Afonso.
Assim, este segundo ciclo inclui a primeira edição completa, sem cortes e remasterizada, do mítico concerto de José Afonso em 1983 no Coliseu de Lisboa, nos formatos digitais bem como num CD duplo e LP triplo.
Gravado ao vivo no dia 29 de Janeiro de 1983 no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, esta nova edição reúne diferentes fontes sonoras de forma a reconstituir, pela primeira vez, o concerto na íntegra – 1 hora e 53 minutos. Foram utilizadas fitas analógicas de filmagens inéditas para cinema, de Luís Filipe Rocha, com gravação de som de Carlos Alberto Lopes, que o engenheiro de masterização Florian Siller misturou às outras gravações previamente editadas, do concerto no Coliseu, com gravação de José Fortes e a sua equipa. Este processo de recuperação de áudio e de masterização foi levado a cabo em Dezembro de 2023, no Soundgarden Tonstudio, sob a supervisão de Nuno Saraiva (Mais 5) e da família de José Afonso.
Esta edição é uma nova oportunidade de ouvir e sentir este concerto, como se lá estivéssemos. Que melhor momento para o fazermos, agora que celebramos os 50 anos da Liberdade em Portugal?
Os 11 álbuns de José Afonso, reeditados e remasterizados pela “Mais 5” entre 2021 e 2023, estão a partir de hoje disponíveis em CD e LP na loja da AJA.

No próximo dia 14 de Abril, dá-se início na Casa Da Cultura | Setúbal a uma série de tertúlias promovida pela Associação José Afonso sobre a obra discográfica de José Afonso antes do 25 de Abril.
Todas as conversas serão moderadas pelo investigador musical e autor de programas radiofónicos e televisivos João Carlos Callixto. Os convidados para esta primeira conversa serão Francisco Fanhais, presidente da Associação José Afonso e cantor, assim como José Fortes, um dos mais prestigiados técnicos de som portugueses.
A reedição da discografia de José Afonso, foi alvo de um artigo no jornal alemão Badische Zeitung. Um artigo que inicia da seguinte forma:
Quando se pensa em música portuguesa, a primeira coisa que nos vem à cabeça é o fado. Mas não se faz justiça à cultura musical do país se a reduzirmos ao canto agridoce que é comercializado com sucesso internacionalmente. As canções de José Afonso (1929-1987) vão muito para além do velho cliché da Saudade…
Notícia Antena1 | Uma conversa para evocar “Com as Minhas Tamanquinhas”
Nuno Galopim conduziu uma emissão especial da Antena 1 na Casa da Cultura, em Setúbal, sobre o mais recente álbum de José Afonso a ser reeditado.
Recupere aqui esta emissão especial na RTP Play
A Casa da Cultura, em Setúbal, foi o cenário para acolher mais uma sessão de lançamento, com debate, de um título da presente campanha de reedições da obra discográfica de José Afonso que a Antena 1 está a acompanhar.
Estiveram presentes, nesta conversa, que teve moderação de Nuno Galopim, José Pacheco Pereira, Jorge Abegão, Rui Vieira Nery e B Fachada. Este último abriu a sessão ao cantar, sem qualquer acompanhamento instrumental, a canção Os Fantoches de Kissinger, que abre precisamente o alinhamento deste disco editado em 1976 por José Afonso.
José Pacheco Pereira recordou depois como, bem antes deste disco, teve os seus primeiros contactos com José Afonso e evocou o quadro político no qual nasceram as canções de Com As Minhas Tamanquinhas, retrato depois continuado por Rui Vieira Nery, que acrescentou ainda ao mapa político e social da época um olhar sobre os caminhos que a música tomou neste disco.
Jorge Abegão, que é o responsável pela reunião da obra poética de José Afonso que acaba de conhecer uma nova edição em livro, dirigiu atenções às palavras do músico e aos seus significados. B Fachada juntou ainda as suas experiências pessoais como músico que aqui reconhece uma obra de referência.
Juntos, os quatro refletiram assim sobre memórias que correspondem ao primeiro álbum de José Afonso com canções compostas depois do 25 de abril e que refletem os acontecimentos imediatos que se seguiram.
«Com as minhas tamanquinhas»
Lançamento do álbum e inauguração de exposição de João de Azevedo
No Domingo, dia 27 de Novembro, será celebrada na Casa Da Cultura de Setúbal esta edição, juntamente com as ilustrações de João de Azevedo que deram a capa ao LP em 1976 e agora também aos novos singles digitais que o antecederam em todas as plataformas de streaming. Em parceria com a Antena 1, será gravada uma sessão de entrevistas por Nuno Galopim.

O álbum «Com as minhas tamanquinhas» será editado em Portugal e Espanha em CD, LP e Digital – pela primeira vez em todas as plataformas de streaming e download – no dia 25 de Novembro de 2022.
Em Espanha, será distribuído pela Popstock com um lançamento especial através da Nordesia na Galiza, com apresentação na Cultural em Pontevedra dia 26.
Em Portugal, será celebrado na Casa da Cultura de Setúbal no dia 27 de Novembro, com gravação de entrevistas por parte da Antena1. Este momento de celebração irá também expor o trabalho gráfico e de ilustração de João Azevedo, autor da capa do álbum, cujas peças estão também na origem das novas capas dos singles digitais do álbum “Com as Minhas Tamanquinhas”.
A mais5.net/ continuará em 2023 este ciclo de edições, agora com distribuição também na Alemanha, França e EUA.

João de Azevedo vai voltar à Casa Da Cultura | Setúbal. O motivo prende-se com o próximo lançamento de mais um álbum de José Afonso. João de Azevedo fez a capa do disco «Com as minhas tamanquinhas», trabalho que vai ser apresentado em nova edição no fim da semana. O título da exposição aborda o desafio que fiz ao João de desenvolver a ideia da capa do disco. Ele fez vinte trabalhos. Nesta exposição vão estar ainda alguns desses e mais alguns feitos posteriormente. A exposição vai estar por cá até ao fim do ano. Abre domingo, dia 27, às 18h, no espaço João Paulo Cotrim. Apareçam.
Via www.blogoperatorio.blogspot.pt

Integrada na programação do 2º aniversário da Biblioteca de Alcântara, acontecerá no próximo dia 30 uma emissão em directo da Antena1 dedicada à reedição do LP «Coro dos Tribunais».
A entrada é livre. Apareçam.
15:00 Abertura de portas
16:00 Emissão Antena 1
17:00 Recepção / Audição de LPs
19:00 Encerramento
A Biblioteca de Alcântara fica na rua José Dias Coelho, 27-29.

De 24 de Junho a 4 de Julho, a Biblioteca/ Espaço Cultural Cinema Europa, na Rua Francisco Metrass, 28D, em Lisboa dedica um ciclo a José Santa-Bárbara e José Afonso.
Na próxima sexta-feira inaugura a exposição “Santa-Bárbara – Capista de Zeca” acompanhado do lançamento de “Venham mais cinco” a partir das 15h00 na Biblioteca / Espaço Cultural Cinema Europa.
No dia 30, José Santa-Bárbara e João Morais conversam em torno dos discos de José Afonso e das obras presentes nas capas nos discos.
A exposição estará patente até 4 de Julho.

José Mário Branco, na “Playlist da TSF”, conta como nasceu o tema «O homem voltou» do disco «O coro dos tribunais»
Vídeo completo aqui: https://bit.ly/36cKbSq

Um homem na idade madura, de aspecto entre o intelectual e o desportivo, licenciado em Histórico-Filosóficas, ele é o “boom” sem precedentes no mundo português do disco. As suas canções inspiram-se nas canções do povo tendo em atenção a ampla realidade do país. Pela voz de José Afonso temos notícias.
A paisagem geográfica e, sobre essa, a paisagem humana de Portugal, povoam os versos de José Afonso. O sentimento, a esperança e o desespero, a rebeldia e o pão, o mar e as árvores e os ventos dos ilimites latejam nas suas canções. As suas palavras contam-nos histórias de homens e de mulheres, de crianças e de pássaros, de conflitos, histórias de vida e de morte – bem junto de nós.
TRAZ OUTRO AMIGO TAMBÉM é o novo álbum de José Afonso. Inclui as seguintes canções com texto e música do cantor de «Menina dos olhos tristes»: TRAZ OUTRO AMIGO TAMBÉM, CANTO MOÇO, OS EUNUCOS, AVENIDA DE ANGOLA, CANÇÃO DO DESTERRO (EMIGRANTES), CARTA A MIGUEL DJÉDJE E CANTIGA DO MONTE: com música de J.A. e texto de Jorge de Sena: com música de J.A. e texto de Camões: VERDES SÃO OS CAMPOS: e duas canções do folclore da Beira-Baixa (Malpica): MARIA FAIA E MODA DO ENTRUDO. O texto de Jorge de Sena é o poema EPÍGRAFE PARA A ARTE DE FURTAR!
Este álbum, que conta com a colaboração musica de Carlos Correia (Bóris) e de Filipe Colaço, foi gravado e fabricado nos estúdios da Pye.
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CD: 10€ + portes | Vinil: 17€ + portes

Este texto pode ser lido deslizando a página aqui em baixo ou, se preferir, pode ler na página original: Uma vontade de Zeca: Canções revolucionárias para o séc. XXI
Londres é provavelmente a cidade de que mais gosto e, possivelmente, a que melhor conheço. Por “snobismo”, até costumo dizer que conheço melhor Londres do que o Porto, o que não é mentira.
Visitei Londres mais de 100 vezes, seja por motivos profissionais (a maior parte das vezes), seja em férias e/ou simplesmente por gosto.
Foi a cidade seguinte ao baptismo de voo para Paris, no dia 22 de Março de 1970, desta feita num quadrimotor que partiu junto à costa francesa, atravessou a Mancha e aterrou na costa fronteiriça: voo de estudantes, bem mais divertido por causa do barulho e dos constantes poços de ar e consequentes trepidações..
Em Londres – não esquecer que estávamos no final da década de 60 – fiquei em casa das irmãs da Milú (Mãe dos meus filhos João Pedro e António Luís), Nina e Manuela, no número 8 de Oakley Street, a rua de Albert Bridge, perpendicular à King’s Road, um dos berços da swinging London e onde viriam a viver, anos mais tarde, David Bowie, George Best e Bob Marley.
A Nina e a Manela estudavam em Londres e trabalhavam no Chelsea Kitchen, um dos restaurantes da moda, que era gerido por um português de Luanda, Jorge Castilho.
Era um novo mundo à minha frente: saí da ditadura do Estado Novo, agora mesclada de “primavera marcelista”, para aterrar no “olho do furacão”, no coração dos “anos 60”: Londres! O que poderia eu mais desejar?
Nem sei como sintetizar em 3.000 caracteres o que vi e como vi essas férias da Páscoa londrinas! Vou focar-me, por isso, num episódio muito particular que talvez mais interesse aos leitores da Gazeta da Beira.
E o que foi esse “episódio muito particular”?
Tão-só a gravação do LP “Traz Outro Amigo Também”, de José Afonso.
Rui Pato, habitual viola do cantor, disse-me que Arnaldo Trindade, editor discográfico de José Afonso, tinha tanta confiança na potencialidade do cantor que lhe sugeriu um “bom estúdio à sua escolha”, tendo José Mário Branco, seu futuro produtor, escolhido o estúdio da Pye Records, em Londres, não muito longe de Marble Arch.
Da equipa habitual de José Afonso só quem não conseguiu participar na aventura foi ironicamente Rui Pato, castigado com o serviço militar obrigatório na sequência da crise académica de 1969, em Coimbra. Também Luís Colaço, guitarrista dos Álamos e militante do MPLA, teve dificuldades em embarcar e chegou atrasado. Foi salvo in extremis pelo presidente do RCP, Botelho Moniz, onde Colaço era funcionário.
Carlos Correia, conhecido como Bóris, foi o substituto de Rui Pato. Tinha sido companheiro de Colaço nos Álamos, pelo que, como se diz na gíria futebolística, se encontravam “entrosados”.
Foram delirantes aqueles dias londrinos, a começar pelas demonstrações de judo que eu e José Afonso (outro fanático da modalidade) fazíamos em casa das irmãs Videira, servindo um colchão como “dojo” (e nós de pijama) e a Manela a pôr as moedas no “meter” da electricidade para não ficarmos às escuras! A Inglaterra vivia ainda “noutro mundo”, como os Beatles cantavam em “Lovely Rita”.
Os estúdios da Pye eram do mais moderno que havia à época e os seus técnicos super-jovens, altamente competentes, que ficavam de boca aberta a ouvir cantar José Afonso, mesmo sem perceber patavina. O que mais os deslumbrava era a simplicidade da música e o facto de o cantor se enganar constantemente na letra.
No estúdio ao lado, os Status Quo gravavam o seu primeiro álbum de “hard rock” (“Ma Kelly’s Greasy Spoon”) pelo que se entende o ar atónito dos jovens técnicos que até entornaram uma chávena de café no gravador principal, sem se ralarem muito! Num segundo (expressão idiomática) tudo ficou OK.
Luís Pinheiro de Almeida, in Gazeta da Beira, 13.05.2021


“Traz Outro Amigo Também”, quarto LP de José Afonso, demorou cerca de um mês a ser gravado em Londres, em 1970, nos estúdios da Pye, não mencionados no disco.
Além de mim, assistiu também à gravação do álbum José Labaredas, homem bom do Couço, fadista por gosto, companheiro de Manuela Videira e amigo de Zeca.
Esta “família”, incluindo a Nina e a Milú, irmãs da Manuela, vadiou pela cidade, gozando o mais possível a “swinging London”, tendo sido surpreendida com “encontros imediatos”.
Fomos, por exemplo, a um festival anti-nuclear (Festival da Páscoa pela Paz) que se desenrolou no dia 29 de Março de 1970, em Victoria Park e onde encontrámos Gilberto Gil, exilado em Londres juntamente com Caetano Veloso.
Os nomes mais sonantes do Festival, apresentado pelo famoso John Peel, já falecido, eram os de Yoko Ono e John Lennon (que só declamaram), Arthur Brown, Liverpool Scene, Viet-Rock Group Of Keele University, Greek Arts Theatre.
Há um EP de José Afonso, “No Vale de Fuenteovejuna”, cuja capa é uma fotografia tirada nesse festival com José Afonso, Gilberto Gil, Luís Filipe Colaço e Zélia, mulher de Zeca, com cachecol pela cabeça.
Aliás, há duas capas deste mesmo EP, um pormenor curioso representativo dos tempos ditatoriais que então se viviam. Além desta capa que acabo de descrever há uma segunda, com a foto de Luís Colaço tapada e, ainda por cima, com um erro (ver imagens).
A foto, de José Labaredas, não foi tirada em Hyde Park, como se diz, mas sim em Victoria Park. Ninguém sabe exactamente por que razão a foto foi tapada, nem o próprio Arnaldo Trindade, que foi o editor do disco, sabe, mas sendo Luís Filipe Colaço militante do MPLA a quem a PIDE criou dificuldades em Lisboa no embarque para Londres, presume-se que a razão esteja por aí.
Há mais 4 EPs de José Afonso com fotos do Festival, num dos quais, “Menina Dos Olhos Tristes”, se vê ainda Manuela Videira.
Há outra curiosidade neste Festival. Apesar de ter sido um Festival Pela Paz, ou por causa disso, foi onde os skinheads (cabeças rapadas, grupo racista de extrema-direita) fez a sua apresentação pública.
Estávamos calmamente a assistir aos concertos quando veloz e rapidamente um arrastão de skinheads passou por nós, Quando démos por isso, estava um negro no chão a sangrar. Tenebroso!
Voltando aos brasileiros exilados, José Labaredas organizou um almoço ou um jantar (já não me lembro muito bem) num restaurante português em Beauchamp Place (onde a princesa Diana ia às compras), uma das mais castiças ruas londrinas. “Fado” era o nome do restaurante.
À mesa, um grupo grande de 9 pessoas, entre as quais, José Afonso, Gilberto Gil e… Caetano Veloso.
“Caldo verde lembro-me que comemos todos e também pastéis de bacalhau”, recorda Luís Filipe Colaço.
Falou-se muito de música e também de política, pois ambos os países viviam então em ditadura.
Caetano Veloso confessou que estava a ser pressionado pelos amigos no Brasil a escrever uma canção sobre os seus dias de exilado em Londres. “Não sei como fazê-lo, sinto-me bloqueado!”.
Foi então que José Afonso veio em seu socorro e lhe deu um lamiré, nascendo assim “London London”, que começou a ser sucesso na voz de Gal Costa.
I’m lonely in London, London is lovely so
I cross the streets without fear
Luís Pinheiro de Alameida, Gazeta da Beira, 10/06/2021
O CEDA – Centro de Estudos Documentais do Alentejo, em parceria com a Junta de Freguesia de Charneca de Caparica e Sobreda, assinala a passagem dos 50 anos da edição do disco «Cantigas do Maio» de José Afonso.
«O Canarinho é um caso curioso» – comenta José Mário Branco quando lhe pedi para contar a sua participação neste tema. «para mim», prosseguiu, «é paradigmático da noção que eu tenho de que as obras de arte são acontecimentos que podem parecer fortuitos. Nada naquela cantiga indica que possa ter alguma importância. alguma carga extra-musical, de mensagem, e, no entanto, é muitas vezes esse o segredo do Zeca e de qualquer grande músico: tornar-se um estímulo para acontecimentos. Aquilo é música pura. Havia dados seguros e conversados com o Zeca que eram a pulsação rítmica de base dada pelas percussões e o coro das mulheres que lhe propus, tendo em conta uma imagem que me ficou da minha primeira ida ao Alentejo aos 17 anos. A imagem era: eu vou por um caminho, vejo a planície pelo lado das colinas e ouço algures vindo detrás dessas colinas mulheres que andam a trabalhar cantando. Isto era a base. No entanto, faltava qualquer coisa que integrasse a componente africana, o carácter exótico não europeu contido na melodia. Estive até à última sem conseguir resolver este problema. Passei noites sem dormir. e no último dia da gravação, quando me levantei de manhã, meti num saco plástico todas as flautas de madeira que encontrei e fui para o estúdio sozinho. Fiz as flautas em sistema de multipista, acumulando-as. Depois foi praticamente acrescentar a outra voz que aparece – a do Janita – que é o contraponto individual à voz das mulheres, como se o rancho das mondadeiras cruzasse o pastor solitário.»
in “Livra-te do medo – estórias e andanças do Zeca Afonso” de José A. Salvador
Canção musical de tipo estrófico, ilustrativa do Movimento da Balada, em compasso 6/8 e tom de Mi Menor, de melodia muito sentimental, ilustrativa do choro dos mortos regressados das frentes de combate em Angola, Guiné e Moçambique durante a Guerra Colonial (1961-1974). A 6ª estrofe (“O soldadinho já volta”) enforma mesmo de alguma morbidez na vocalização de José Afonso. O coro adquire uma coloração funérea. De acordo com as declarações prestadas por Rui Pato (17/01/2006), esta composição foi concebida por José Afonso tendo por motivo nuclear a contestação à Guerra Colonial iniciada em 1961. Daí o enorme sucesso colhido nas hostes anti-regime, seja na gravação Adriano de 1964, seja no registo José Afonso de 1969.
Adriano Correia de Oliveira ouviu a 1ª versão desta canção ao próprio José Afonso e pediu-lhe autorização para a gravar, tendo seguido nessa gravação de 1964 orientações facultadas pelo próprio autor.
Ao contário do que fomos inicialmente levados a pensar, a gravação Adriano, de 1964, não pode ser considerada uma variante feita por Adriano sobre uma qualquer matriz original. A versão Adriano de 1964 é , para todos os efeitos, a 1ª versão desta canção, tal qual a concebia o próprio José Afonso. Quando José Afonso regressou de Moçambique (Agosto de 1967) realizou uma revisão da versão primitiva, versão essa profusamente interpretada nos incontáveis espectáculos que realizou com Rui Pato até à respectiva fixação fonográfica de 1969.
José Afonso gravou esta canção pela primeira vez em 1969, com um notável arranjo e acompanhamento de Rui Pato na viola nylon: EP “Menina dos Olhos Tristes”, Porto, Orfeu, STAT-803, ano de 1969. Remasterização no CD “José Afonso. De Capa e Batina”, Lisboa, Movieplay JA 8000, ano de 1996, Faixa nº 9. O livreto transcreve o poema, mas não exactamente como José Afonso o canta. José Afonso segue uma dicção escorreita, apenas adulterando no 2º verso da 3ª quadra “Olhe” para “Ólhó”.
Esta canção surge primeiramente fonografada por Adriano Correia de Oliveira, acompanhado na viola nylon por Rui Pato, em 1964. Em comparação com a versão definitiva de 1969, Adriano adopta uma sequência diferente nas estrofes, interpretando um trauteio diferente do adoptado por José Afonso em 1969. A 3ª copla aparece como se fosse a 2ª. Adriano gravou diversas obras ainda em gestação embrionária (de José Afonso e de Machado Soares), cujas versões ultimadas divergem das incursões de Adriano. Exemplificam estas situações peças como “Canção Vai e Vem” (cf. diferenças com “Balada da Esperança”), “Senhora Partem Tão tristes” (cf. registo de Fernando Gomes Alves), ou até mesmo adulterações de obras de autor como a “Canção dos Malmequeres” (de António Menano), vertida em “Balada do Estudante”. Como é sabido, José Afonso radicou-se em Moçambique nos finais de Setembro de 1964, e talvez por isso mesmo não chegou a gravar a canção de sua autoria, abrindo assim a porta à versão Adriano.
Coteje-se a letra interpretada por Adriano com a transcrição presente em Mário Correia, “Adriano Correia de Oliveira. Vida e Obra”, Coimbra, Centelha, 1987, pág. 103. Primeiro registo vinil presente no EP “Menina dos Olhos Tristes”, Porto, Orfeu, EP-ATEP 6275, ano de 1964, com arranjo e acompanhamento de Rui Pato na viola de cordas de nylon. Fez-se outra edição no LP “Adriano Correia de Oliveira”, LP-SB, ano de 1964; remasterização no duplo Lp vinil “Memória de Adriano Correia de Oliveira”, Porto, Orfeu/Riso e Ritmo Discos, ano de 1982, Disco 1, Face B, faixa 5. Na referida reedição constam as autorias correctas mas omitem-se o ano da gravação e o instrumentista. Remasterização compact disc na antologia “Adriano. Obra Completa”, Lisboa, Movieplay/Orfeu 35.003, ano de 1994 (CD “A Noite dos Poetas”, Orfeu 35.010, 1994, faixa 1), cuja coordenação esteva a cargo de José Niza. Neste caso omite-se a data da primeira gravação, mas identifica-se Rui Pato como instrumentista e arranjista. São ainda conhecidas as seguintes remasterizações:
-CD “Clássicos da Renascença. Adriano Correia de Oliveira”, Lisboa, Movieplay, MOV 31. 028, ano de 2000, faixa nº 13;
-CD “Adriano. Vinte Anos de Canções (1960-1980)”, Lisboa, Movieplay, MOV 30. 441, ano de 2001, faixa nº 6.
Quanto ao autor da letra, Reinaldo Ferreira, ou melhor, Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira, nasceu em Barcelona a 20 de Março de 1922. Veio a falecer de cancro pulmonar em Lourenço Marques, Moçambique, em 30 de Junho de 1959. Era filho do famoso jornalista e romancista policial “Repórter X”. Radicou-se em Lourenço Marques (Maputo) em 1941, cidade onde terminou os estudos liceais. Trabalhou como funcionário público e animador de programas radiofónicos na Rádio Clube de Moçambique. Adoeceu em 1958 e após tentativa infrutífera de tratamente na África do Sul, faleceu em 1959. Era de sua autoria o delicioso e muito conservador texto “Uma casa portuguesa”, gravado em disco por Amália Rodrigues.
Autor de poemas belíssimos, a obra de Ferreira, “Poemas”, foi editada em 1960 na cidade de Lourenço Marques, em 1962 na Portugália (com prefácio de José Régio) e em 1998 na Vega. Ignoramos em que data Ferreira compôs a sua linda e triste “Menina”, sendo de aceitar que tivesse por horizonte a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) mas nunca a Guerra Colonial que não chegou a conhecer. Também não sabemos quando, nem em que circunstâncias José Afonso acedeu ao poema. Pode ter conhecido uma versão em manuscrito ou de página de jornal nas suas idas a Moçambique em 1949 (Orfeon), 1956 (TAUC), 1958 (TAUC a Angola) e 1960 (Orfeon a Angola). O mais certo é que tenha adquirido a edição lisboeta de 1962, ligada ao nome de José Régio. A Guerra Colonial tinha rebentado no ano anterior em Luanda (04/02/1961) e estava na memória a Operação Dulcineia (assalto ao Santa Maria, 21/01/1961).
Esta canção de José Afonso não mereceu qualquer trabalho de regravação após 1974 junto das vozes juvenis e respectivas formações activas em Coimbra.Para saber mais sobre o poeta Reinaldo Ferreira consulte http://alfarrabio.di.uminho.pt.reinaldo/.
José Anjos de Carvalho e António M. Nunes | Agradecimentos: Dr. Rui Pato.
Texto retirado do blog: http://guitarradecoimbra.blogspot.com
“Cantar Alentejano” é dedicado a Catarina Eufémia, uma lendária comunista que foi morta a tiro pela PIDE numa vila alentejana, Baleizão, em 1954. Ela lutava pela semana de trabalho de 40 horas. Ainda hoje, o PCP comemora o dia da sua morte.
Todavia, segundo E.Engelmayer, esta canção não serve para comemorar e idealizar uma pessoa. A morte de Catarina simboliza o sofrimento dos agricultores alentejanos. A sua dependência dos latifundiários apresentava bastantes semelhanças com a escravidão. A revolução só dificilmente pôde alterar esta situação. Por exemplo, o salário mínimo que foi introduzido depois do 25 de Abril, não abrangia os trabalhadores rurais. Por isso, estes organizaram-se por iniciativa própria, sobretudo no Alentejo. Os sindicatos rurais que nessa altura surgiram, também apoiavam as ocupações espontâneas de terras incultas. Na segunda fase do período dito de excepção, o governo começou a legalizá-las. Os proprietários pouco podiam fazer contra as ocupações, pois foram promulgados decretos que consagraram o princípio de que as terras deviam ser usadas para produzir tudo o que fosse necessário para a economia. Entendia-se por “tudo o necessário” tanto o rendimento como os empregos. (…) isto não era o caso em muitas terras. O abandono das terras era considerado agora um delito grave, e os trabalhadores rurais podiam ocupar as terras, alegando que as trabalhariam ao serviço da economia nacional.
José Afonso tinha uma ligação especial com o Alentejo. Como membro do coro universitário de Coimbra, Orfeon, passou por lá em excursões, e viveu lá como professor do ensino secundário. Conheceu assim as péssimas condições em que vivia a população agrária. (…)os trabalhadores rurais do Alentejo eram mais progressistas, já antes do 25 de Abril. Este fenómeno é atribuído ao facto de que a maior parte deles não possuía a terra que trabalhava, como também às circunstâncias de trabalho (colectivo e em grandes explorações) e à vida em aldeias de assalariados. Surgira já nos anos da Primeira República (1910-1926) uma tradição de organização e de luta sindical e política. Isto explica por que é que o PCP tinha uma muito maior implantação no Sul, onde persistia uma “fome da terra”.José Afonso reconhecia nesta população que tão duramente lutava pela subsistência, um grande potencial revolucionário e dedicou várias canções a esta região, como p.ex. “Cantar Alentejano” e “A mulher da erva”. Também a famosa canção “Grândola, viIa morena” trata de uma vila alentejana.
in “A canção de intervenção portuguesa – Contribuição para um estudo e tradução de textos” de Oona Soenario, 1994-1995, Universidade de Antuérpia

A Associação José Afonso lamenta profundamente o falecimento do nosso associado João Azevedo, artista plástico, detentor de uma técnica de desenho e pintura poderosos, tendo por base cores fortes e magnéticas que definiam ambientes de variadas culturas e marcavam fortemente o seu estilo.
João Azevedo conheceu José Afonso, em Itália, quando ele e Francisco Fanhais aí estiveram para gravar o disco República. João Azevedo viria a escrever, posteriormente, um texto de apresentação do disco, tendo em vista a sua reedição, que devido a várias vicissitudes ainda não aconteceu. Foi nessa altura que José Afonso o convidou para fazer as ilustrações do disco “Com as minhas tamanquinhas”, disco esse pelo qual Zeca nutria um apreço muito íntimo, dado o seu especial pendor interventivo e de protesto. Deste contacto nasceu entre ambos uma relação de amizade, identificação e de luta pelos mesmos objectivos.
Para além desta colaboração, João Azevedo realizou Exposições de pintura no Núcleo de Lisboa da AJA: uma em 2015 denominada “Com as minhas tamanquinhas”, variações à volta dos pássaros míticos e crocodilos; outra em 2018, pelo 6º aniversário do Núcleo sob o tema “Refugiados/atravessamentos” cujo mote foi dado pelos acontecimentos trágicos no Mediterrâneo, na Ásia e nas fronteiras terrestres da Europa.
João Azevedo durante a vida realizou variadíssimas exposições a nível internacional e nacional. Neste âmbito, salienta-se uma exposição na Casa da Cultura, promovida pela Câmara Municipal de Setúbal, em 2019, sob o título “Ó Zeca canta para o povo!”. Dessa última exposição, quatro quadros estão ainda hoje patentes na parede principal da sede da AJA Lisboa.
Participou também numa evocação de Zeca na “Conversa de amigos”, com José Santa-Bárbara e Josefina Carvalho.
João de Azevedo era o autor de todas as capas das agendas da Associação SOS Racismo, cuja capa de 2020 o autor dedicou aos “genocídios modernos e atuais”, mais uma vez reveladoras do cidadão do mundo atento que transportava o seu envolvimento, solidariedade e até uma ironia pungente.
Dos muitos trabalhos realizados salienta-se ainda a ilustração do livro “Táxi”, de Fernando Cabral Martins. A obra, um conjunto de contos metafísicos sobre a vida num táxi, foi o mote para a conversa que o artista plástico e o escritor tiveram, em Agosto de 2019, no Espaço Ilustração, na Casa da Cultura de Setúbal.
João Azevedo nasceu em 1950, na Figueira da Foz e daí partiu para o mundo que habitou e observou, qual andarilho na senda do Zeca. Viveu em Itália, Holanda, Moçambique, Níger, Timor, onde trabalhou como consultor nacional e internacional, para a Comissão Europeia e para a Organização das Nações Unidas, como perito de cooperativas e de avaliação.
Como já se disse, acima, essas suas muitas paragens sempre foram fonte inspiradora dos seus trabalhos que exprimiam uma constante interpelação e inquietação do homem perante o mundo.
Estava no Senegal quando a morte também o interpelou. Morreu um mês depois, em Lisboa, no dia 25 de Abril de 2020.
GMP
Segundo Fernando Lopes-Graça, esta canção lúdica foi recolhida em Canas de Senhorim, na Beira Alta, com o título Vira-te pr’aqui ó Rosa, com uma só estrofe:
Vira-te pr’aqui, ó Rosa
Ó cravo já ‘stou virado
É o brio dos rapazes
Usar o chapéu de lado
Ainda segundo Lopes-Graça: É um dos exemplares do nosso folclore em que a letra se nos afigura bem inferior à melodia. Na nossa versão à capella, que faz parte do repertório do Coro da Academia de Amadores de Música, substituímos a insípida letra original por quadras populares, que nos parecem corresponder mais cabalmente ao tónus heróico da melodia. José Afonso adoptou justamente esse texto, introduzindo-lhe apenas ligeiras alterações.
in “A música tradicional na obra de José Afonso” de Mário Correia
Elfiede Engelmayer dá a explicação deste texto: trata-se de uma velha mulher do Alentejo que ganhava a vida com a venda de erva. José Afonso conheceu-a quando ela já tinha mais de setenta anos. Todos os dias, andava pelas ruas e estradas com uma cesta de erva cuja venda era o seu sustento e com que se alimentava o gado. Esta “profissão” desapareceu com a modernização da agricultura. A canção relata o encontro entre o cantor e a mulher. Na segunda estrofe, ele vê-a a subir a estrada, vindo na sua direcção. Na terceira, eles trocam algumas palavras e depois ela prossegue o seu caminho sem ouvir o comentário do cantor. Na primeira estrofe, a “vela condenada pela onda” simboliza que ela não tem, e nunca teve, futuro.
in “A canção de intervenção portuguesa – Contribuição para um estudo e tradução de textos” de Oona Soenario, 1994-1995, Universidade de Antuérpia
(…)o motivo de “dormir ao relento” é usado frequentemente nos textos de José Afonso, o que este texto vem ilustrar. Mas fazem-se outras referências à vida de quem se opõe ao regime e à PIDE:
“Gaivotas em terra” é uma expressão utilizada para anunciar uma tempestade e, em sentido mais figurado, para anunciar uma catástrofe ou um período conturbado. José Afonso quer advertir o ouvinte de que o pensamento em si é somente o primeiro passo para a mudança. Se algumas pessoas dizem que a revolução não se faz com canções, o mesmo se pode dizer do pensamento, embora este seja a base em que ela assenta.
A “estátua” já é uma referência mais directa e concreta à PIDE. Trata-se de uma técnica de tortura que se aplicava para extrair confissões. O detido tinha de ficar de pé por horas seguidas, sem que se pudesse apoiar. Se adormecia, era logo acordado com um sons agudos e súbitos. Outra referência a esta técnica faz-se no texto “Por trás daquela janela”.
Além de “dormir ao relento”, a vida isolada do oposicionista exprime-se através da imagem do homem que é torturado à vista de outras pessoas, sem que ninguém o venha ajudar. A sua actividade clandestina define-se como a luta por uma melhor distribuição dos bens (“caminhos do pão”). Por muito fraco que seja o sistema autoritário (“a fraca figura”), tem de lutar sozinho, pois não encontra com quem lutar.
in “A canção de intervenção portuguesa – Contribuição para um estudo e tradução de textos” de Oona Soenario, 1994-1995, Universidade de Antuérpia
Quanto à interpretação dos textos de José Afonso, baseio-me sobretudo na dissertação de E. Engelmayer, “Utopie und Vergangenheit: das Liedwerk des portugiesischen Sãngers José Afonso”.
A canção “O cavaleiro e o anjo” foi publicada no álbum “Cantares do andarilho”, em 1968, durante a ditadura. Descreve a vida de quem era perseguido pela PIDE (o “eu”). Por causa da censura, era impossível referir-se directamente aos problemas da época, pelo que José Afonso o fazia de modo indirecto:
A frase “Ao romper do dia” refere-se à hora preferida da PIDE, para prender pessoas: cedo da madrugada. Por isso, o som de passos a essa hora era bastante ameaçador.
Os membros da PIDE são indicados como “anjos”, uma espécie de anjos da morte, o que também explica o uso de “negro”. Evoca-se assim a associação com a morte, reforçada pela imagem da “espada”.
Quem andava fugido da PIDE passava, na maior parte das vezes, as noites em casas diferentes. Por isso, José Afonso fala em “hospedaria”.
Outra referência à vida do fugitivo encontra-se com a frase “Dorme ao relento”. Nos textos de José Afonso, “dormir ao relento” forma uma espécie de “leitmotiv”, quando pretende retratar a sua vida ou a de outros.
Às vezes, é dificil ver a quem se dirige o “eu”. Parece haver aqui três interlocutores, o “eu”, outro fugido e os homens da PIDE. A terceira estrofe pode-se considerar como uma autopresentação do “eu” a quem entrou na hospedaria, talvez ao vento, talvez a outro perseguido ou os homens da PIDE. No entanto, é mais provável que seja outro perseguido, já que, na quarta estrofe, o “eu” lhe dá o conselho de fugir da morte (a PIDE) e de combater com os membros da resistência. Também podemos pensar noutra situação, imaginando que é outro fugitivo que se dirige ao “eu” anterior. No entanto, toma-se um pouco mais provável serem os homens da PIDE com a quinta estrofe, quando o “eu” se parece dirigir ao anjo negro.
Aliás, a tentação do anjo negro também pode ser interpretada de diferentes maneiras. Pode ser que o perseguido se sinta cansado do seu modo de viver, e que esteja próximo de entregar-se ao perseguidor. Assim, entraria num pacto com o anjo negro, renunciando à resistência contra o regime criminoso. No entanto, se interpretarmos o anjo negro como um verdadeiro anjo da morte, toma-se possível que o “eu” veja a morte como uma libertação. Seja como for, ao :fim da estrofe, o “eu” consegue resistir à tentação quando decide que vai ficar.
in “A canção de intervenção portuguesa – Contribuição para um estudo e tradução de textos” de Oona Soenario, 1994-1995, Universidade de Antuérpia
Balada com refrão, em compasso ¾ e tom de Lá Menor. Esta é a primeira composição verdadeiramente da autoria de José Afonso. Segundo ele próprio nos diz, passou a designar as suas primeiras canções por “baladas”, não porque soubesse o significado do termo, mas para as distinguir do “chamado Fado de Coimbra” que começara por cantar desde os anos do Liceu D. João III em meados da década de 1940. José Afonso fez a composição, mas faltava-lhe o título. Parece que terá pensado em designá-la inicialmente por BALADA DO RIO (MONDEGO). Em troca de ideias com o Dr. António Menano, recentemente regressado de Moçambique, José Afonso seguiu a sugestão de Balada do Outono (Cf. “O Comércio do Funchal”, 01/06/1970).
A título explicativo, o próprio autor facultou os seguintes dados relevantes que nos permitem situar esta composição num período imediatamente anterior à ruptura estética que se intensificou após a campanha presidencial do General Humberto Delgado: “Mais propriamente Balada do Rio. Dominada ainda pelo velho espírito coimbrão, é o produto de um estado perpétuo de enamoramento ou como tal vivido, uma espécie de revivescência tardia da juventude. O trovador julga-se imprescindível, como um protagonista que a si próprio se interpela para convocar a presença das águas dos ribeiros e dos rios, testemunhas vivas do seu solitário cantar. A imagem do Basófias (nome porque é conhecido o Rio Mondego, na gíria coimbrã), que incha e desincha quando lhe apetece, deve ter influído na gestação da partitura. Uma certa disposição fisiológica propensa à melancolia explica o começo das dores sem falar na albumina anunciadora de futuras e promissoras partogéneses “ (Cf. “Cantares de José Afonso”, 2ª edição, Lisboa, AEIST, 1969, pág. 22). Na obra que acabamos de citar, a letra dos dois versos iniciais é Águas / E pedras do rio, letra essa que veio a ocorrer numa gravação realizada por José Mesquita em 1979.
Balada gravada pela primeira vez nos inícios de 1960, por José Afonso, acompanhado à guitarra por António Portugal/Eduardo de Melo e, à viola, por Manuel Pepe/Paulo Alão: EP “Balada do Outono”, Rapsódia, EPF 5085 – EP0089F, de 12 de Março de 1960. O registo de 1960 tem sido profusamente reeditado: LP “Baladas e Fados de Coimbra. José Afonso”, Porto, Edisco, EDL 18. 020, ano de 1982, Lado B, Faixa nº 6; CD “Dr. José Afonso. Os Vampiros”, Porto, Edisco, ECD-001, ano de 1987, faixa nº 12. A referida remasterização é omissa quanto à matriz original, ano de gravação e instrumentistas.
Na primeira gravação, o trabalho de guitarra protagonizado por António Portugal é francamente desinteressante, limitando-se a curtas intervenções na abertura e no meio da peça. Quase todo o acompanhamento é suportado pelas violas, certamente a insistências do próprio autor. Não está clarificado o local da composição. Tudo indica que terá sido feita após a apresentação da candidatura de Humberto Delgado à Presidência da República (8/06/1958) e a viagem que o autor efectuou com a TAUC a Angola (Agosto/Setembro de 1958). À data da gravação (12/03/1960), efectuada em Coimbra, José Afonso trabalhava como docente provisório na Escola Técnica de Alcobaça (de 3/10/1959 a 30/07/1960). O acompanhamento, muito vincado nos solos das violas de Paulo Alão (nylon) e Manuel Pepe, abre a janela simbolicamente ao Movimento da Balada, reforçado em meados de 1961 com as gravações de “Minha Mãe” e “Balada Aleixo”.
Jorge Tuna aproveitou parte da melodia de “Balada do Outono” para trecho de abertura da sua “Rapsódia de Fados”, presente no EP “Coimbra à Noite”, RAPSÓDIA, EPF 5.179, de 13 de Agosto de 1962, gravado com Jorge Tuna/Jorge Godinho (gg) e Durval Moreirinhas/José Tito Mackay (vv). Este “pot pourri” encontra-se disponível no CD “Jorge Tuna. Coimbra”, Porto, Edisco, ECD 133, ano de 2000, faixa nº 1, sem quaisquer dados indicativos do ano de gravação ou da matriz fonográfica original.
Em finais dos anos 60 foi editado um LP de “Baladas e Canções”, Porto, OFIR, MAS 301, ano de 1967, contendo uma versão instrumental de “Balada do Outono” em viola nylon tocada por Rui Pato, versão essa disponível no CD “Baladas e Canções. José Afonso acompanhado à viola por Rui Pato”, Lisboa, EMI-Valentim de Carvalho, 7243 8 36617 2 5, ano de 1996, faixa nº 4. Nos dois casos, as faixas foram retiradas da matriz EP “Baladas e Canções”, Porto, OFIR, MAS 4.016, ano de 1964.
O autor voltou a gravar esta balada em 1981, acompanhado à guitarra por Octávio Sérgio e, à viola, por Durval Moreirinhas: LP “José Afonso – Fados de Coimbra”, Orfeu, FPAT 6011. O arranjo para guitarra de acompanhamento é de Octávio Sérgio, em tudo superior ao de 1960, de tal arte que passou a ser correntemente tocado por quase todas as formações activas nas décadas de 1980-1990.
Das gravações de José Afonso são ainda conhecidas as seguintes remasterizações:
-LP “José Afonso. Fados de Coimbra e outras canções”, Riso e Ritmo Discos, Lda., RR LP 2188, ano de 1987, Lado B, faixa nº 1, extraído do registo de 1960;
-CD “Coimbra Serenade”, Edisco, ECD 5, editado em 1992, extraído do registo de 1960 (remasterização do LP “Coimbra Serenade”, RAPSÓDIA, LDF 006, Lado A, Faixa nº 5, sem data, que se vendia em 1987/1988 a 600$00);
-CD “José Afonso – Fados de Coimbra”, Movieplay, SO 3003, editado em 1996, extraído do registo de 1960;
-CD “Fados e Guitarradas de Coimbra”, Volume I, Lisboa, Movieplay, MOV. 30.332, 1996, disco nº 1, faixa nº 7, extraído do registo de 1981;
-CD “José Afonso. Fados de Coimbra e outras Canções”, Movieplay, JÁ 8011, ano de 1996, faixa nº 6, com livreto assinado por José Niza, extraído do registo de 1981;
-Col. “Um Século de Fado”/Ediclube, CD Nº 4/Coimbra, emi 7243 5 20638 2 6, editado em 1999, extraído do registo de 1960.
José Afonso gravou a Balada do Outono uma 3ª vez, durante o concerto de 1983 no Coliseu de Lisboa, correndo no mercado tiragens provenientes desse espectáculo realizado no dia 29 de Janeiro de 1983:
-LP duplo “José Afonso ao vivo no Coliseu”, DIAPASÃO, DIAP 16050/1, ano de 1983, LP 1, Lado A, Faixa nº 5, acompanhado por Octávio Sérgio/Lopes de Almeida (gg) e António Sérgio/Durval Moreirinhas (vv). Deste registo se fizeram as seguintes remasterizações:
-CD “Zeca Afonso no Coliseu”, Strauss, ST 1021010035, ano de 1993;
-cassete “Zeca Afonso no Coliseu”, Strauss, ST 1021010036, ano de 1993.
Gravações disponíveis em compact disc de outros cantores:
-CD “Fados e Baladas de Coimbra – Coimbra tem mais encanto”, Vidisco, 11-80-1304, editado em 1991, a partir das gravações efectuadas por José Mesquita no LP “Fados e Baladas de Coimbra por Antigos Estudantes, RODA, SSRL 9001, ano de 1979, Lado A, Faixa nº 3, com acompanhamento da formação António Brojo/Jorge Gomes (gg) e Manuel Dourado/Aurélio Reis (vv). José Mesquita canta na parte introdutória o texto original “Águas e pedras do rio, meu sono vazio não vão acordar.”;
-CD “Fernando Machado Soares”, Philips, 838 108-2, sem data, compilação dos LP’s de 1986 e 1988, faixa nº 13. Remasterização efectuada a partir do LP “Serenata”, Polygram Discos, ano de 1988, faixa nº 3, acompanhado por José Fontes Rocha (g) e Durval Moreirinhas (v). Vocalização ultra-romântica, servida por um toque de guitarra banalíssimo;
-CD “Amanhecer em Coimbra – Tertúlia do Fado de Coimbra”, Porto, Edisco, ECD 15, ano de 1993, faixa nº 6. Canta Victor Nunes, acompanhado por José dos Santos Paulo/Álvaro Aroso (gg), José Carlos Teixeira/Eduardo Aroso (vv). O arranjo é da autoria de José S. Paulo. Vocalização eficaz de Victor Nunes. No livreto de acompanhamento do disco conta-se uma pequena história sobre a origem desta peça, relacionando a sua feitura com a viagem de José Afonso a Angola integrado na digressão do Orfeon, em Agosto de 1960. No entanto, esta informação não sintoniza com a data da 1ª gravação da obra, cujo disco foi preparado meses antes, em 12 de Março de 1960;
-CD “Meu Menino, Meu Anjo”, Porto, Fortes & Rangel, DCD 1038, ano de 1998, faixa nº 11. Grupo activo no Porto, com os cantores Nuno Oliveira e Delfim Lemos. Acompanhamento por Rui Vilas Boas (g) e Castro Lopes (v). A ficha técnica não identifica o cantor, sendo o arranjo transladado a partir de Octávio Sérgio (1981);
-duplo CD “José Mesquita. Coimbra das Canções, Trovas e Baladas”, Coimbra, sem editor, Janeiro de 2000, disco nº 2, faixa nº 2. O acompanhamento é feito por Carlos Jesus (g), Luís Filipe/Humberto Matias (vv), traduzindo-se numa presença excessiva do som da guitarra. No livreto do CD nº 2, embora a letra transcrita inicie com “Águas e pedras do rio”, José Mesquita canta a mesma letra que foi gravada por José Afonso. Saliente-se que do ponto de vista da melodia José Mesquita não canta exactamente a versão do autor José Afonso, mas sim uma adaptação do próprio José Mesquita sobre um arranjo do Maestro José Firmino;
-CD “Quinteto de Coimbra. Guitarra e Canção de Coimbra”, Coimbra, Edição Quinteto de Coimbra/Casa de Fados, Lda., ano de 2001, faixa nº 3. A ficha técnica do disco não explicita quem seja o intérprete. A formação é constituída por Patrick Mendes/António Ataíde (vozes), Ricardo Dias (g) e Nuno Botelho/Pedro Lopes (vv). Predomina o trabalho instrumental das violas, salpicado nos separadores pela guitarra de Ricardo Dias, a seguir inequivocamente o arranjo de Octávio Sérgio (1981), embora tal se não mencione. O trabalho vocal é demasiado arrastado, com modulações em estilo soul ou até jazísticas e evitáveis esmorecimentos nas notas graves;
Não confundir esta composição com outra de Carlos Carranca, com letra e música diferentes: “Balada de Outono” (Canto os raios do Sol), letra de Carlos Carranca, música de José Reis, CD “Poesia para Todos. Carlos Carranca”, Cascais, Edição da Câmara Municipal de Cascais, sem data (2004), faixa nº 9, datando a referida composição de 1998.
“Balada do Outono” foi muito cantada a quatro vozes na década de 1990 pelo Coro dos Antigos Orfeonistas do OAC, tendo por base uma harmonização do Maestro José Firmino sobre o arranjo de Octávio Sérgio (1981). Esta versão foi gravada pelos Antigos Orfeonistas no Palácio de São Marcos, dias 30 de Abril e 1 de Maio de 1994, com regência de Augusto Mesquita e piano de Filipe Teixeira Dias, no CD “Coro dos Antigos Orfeonistas da Universidade de Coimbra, Polygram/Philips, 522662-2, de 1994.
José Anjos de Carvalho e António M. Nunes | Agradecimentos: Sandra Cerqueira (Edisco, SPA, Dr. José Reis (Pardalitos do Mondego), Dr. Rui Pato, Doutor José Mesquita.
Texto retirado do blog: htttp://guitarradecoimbra.blogspot.com
As campanhas de Trás-os-Montes decorreram em Maio/Junho de 75. Ouço Luís Rocha que apenas conhecia pelas imagens do filme …Cerromaior… À medida que se desenrola a nossa conversa passam-me pela memória as emoções provocadas pelo seu cinema: a força das imagens e dos gestos. A secura da opressão no Alentejo. A revolta. Os olhares. Luís Rocha em discurso directo: Partimos no meu carro, eu, o Fanhais e o Zeca eficámos em Bragança integrados nas campanhas de dinamização cultural. Era a operação Maio-Nordeste, creio. Assisti à penetração do MFA no maior feudo do reaccionarismo. Foi uma época única na história daquele ano. Recordo particularmente as minas da Ribeira, sobre as quais vim mais tarde a fazer um filme, situadas entre Coelhoso e Parada. Tratava-se de umas minas, uma coisa sinistra, o mais miserável que algum dia vi, onde se vivia e trabalhava em condições infra-humanas. Os patrões tinham deixado “cair” as minas e os mineiros estavam ali sem saber o que fazer. Os mineiros reivindicavam o trivial: exames médicos que não eram feitos há anos e reforma. Registavam-se casos de silicose em barda. Chegámos ao fim da tarde, e foi o primeiro sítio em Portugal onde verifiquei que o Zeca Afonso não foi reconhecido. Era o MFA que estava presente… entretivemo-nos a conversar sobre as minas e quando nos vinhamos embora, já noite, um mineiro jovem contou-nos a intervenção da PIDE ali. Esse jovem dispôs-se a levar- -nos a uma aldeia onde nos contaram a história da perseguição a um mineiro feita directamente pela PIDE e pelo capataz a pedido do patrão. Eu e o Fanhais “obrigámos” o Zeca a fazer uma canção sobre o acontecimento. Como de costume ele protestou dizendo que “não era capaz de afazer para o dia seguinte”. – Fechámo-lo no quarto e na manhã seguinte tinha feito “Em Terras de Trás-os-Montes”, canção que integrou o seu álbum “Com as Minhas Tamanquinhas – Luís Rocha prossegue a narração da estada junto dos mineiros: No dia seguinte voltámos a reunir com essas pessoas, que acabaram por identificar o Zeca quando ele cantou a Grândola, o Fanhais também cantou, mas a reacção inimaginável foi quando o Zeca cantou perante eles a canção que tinha acabado de fazer sobre a história das minas da Ribeira e sobre a actuação pidesca contra um dos mineiros.
«Em terras de Trás-os-Montes/ Entre Coelhoso e Parada! Uma história verdadeira! Foi ali mesmo contada! Algemado por dois pides/ Na manhã de vinte e três/ Lá vai Manuel Augusto/ Sem mesmo saber porquê/ Com ele vai Marcolino/ Bufo dos dominadores/ Ide às minas da Ribeira! Vereis quem são os Senhores/ etc… Ao ouvirem estas quadras. revela Luís Rocha, desencadeia-se uma tentativa de tomada de poder pelos mineiros. De facto, tentaram autogerir as minas, mas o processo político posterior gorou esses propósitos. Outro episódio a que assistimos, suponho que no concelho de Vinhais, foi uma ocupação de terras por 30 a 40 mulheres que estavam sem trabalho porque o patrão tinha desaparecido. Durante os dez dias em que participámos na campanha o Zeca viveu-os com intensa felicidade. Tenho na memória essa ideia de intensa felicidade, de tal modo que quando regressámos de Moncorvo a Setúbal ele começou a ficar inquieto à medida que nos aproximávamos da sua casa. Tivemos que parar o carro várias vezes porque ele precisava de sair para caminhar um pouco e não disfarçava o seu nervosismo.
in “Livra-te do medo – Estórias e andanças do Zeca Afonso” de José Salvador, 1984, A Regra do Jogo Edições
Contrariamente ao que o nome no título sugere, não se trata aqui de uma pessoa que realmente existiu. “Gastão” é um tipo , criado para retratar o “bom cidadão” sob o fascismo. Ele reúne em si todas as qualidades do oportunista, de quem se adapta ao sistema vigente para obter beneficios individuais, sem se preocupar com o sofrimento das outras pessoas. Ele não apoia a Igreja por ser um católico devoto, nem tolera os abusos do seu patrão por ser um empregado dedicado. Todos os seus actos resultam de cálculos muito precisos ou, como é o caso com a sua “mãe que era entrevada”, da sua vontade de sair do fastio da vida quotidiana. A ausência total de qualidades humanas como a solidariedade e a generosidade, e também a sua disposição doentia, fazem dele uma caricatura. No entanto, o texto contém um aviso: Gastão nasceu pobre, num bairro da lata em Alverca. Ao ascender a uma posição mais favorável na vida (“no solestício de Junho”) passou a identificar-se com a classe dominante, dando-se até ares de nobreza (“sobrinho do Fernão Peres de Trava) e fixando residência no Palácio da Pena, em Sintra, a cidade onde a aristocracia tradicionalmente passava as férias. Há ainda outros textos em que José Afonso assinala que o inimigo da emancipação do povo não é um conceito abstracto, mas sim concreto e vivo, personificado por todos aqueles que se conformam com o sistema (p. ex. “Tenho um primo convexo”). Mas é Sérgio Godinho que realmente se destaca por tão vivamente pintar as figuras autoritárias, oportunistas, etc., na sociedade portuguesa.
in “A canção de intervenção portuguesa – Contribuição para um estudo e tradução de textos” de Oona Soenario, 1994-1995, Universidade de Antuérpia
A 1ª versão fonográfica desta peça emblemática do “Canto e da Guitarra de Coimbra” na década de 1920 foi gravada em Lisboa, no mês de Dezembro de 1929, por Edmundo Alberto Bettencourt, acompanhado em Guitarra Toeira de Coimbra de 17 pontos por Artur Paredes e Afonso de Sousa e, em violão aço, por Mário Faria da Fonseca: discos de 78 rpm Columbia, BL 1005 e GL 108 – WP 634. A etiqueta do disco contém as seguintes indicações: “Canção da Beira-Baixa” e “Arranjo de Arthur Paredes”. Em boa verdade, estamos perante duas canções tradicionais raianas cujas melodias foram acopladas, como aliás o próprio título do fonograma original sugere: SENHORA DO ALMOTÃO, uma, e SENHORA DA PÓVOA, outra, ambas da Beira-Baixa, reunidas numa só, tipo suite, funcionando a 2ª como refrão.
Quem primeiramente divulgou estes dois temas em Coimbra, a partir de 1915, foi o barítono, sócio do Orfeon Elias de Aguiar e membro do Grupo de Artur Paredes, José Roseiro Boavida. Boavida interpretava as duas canções separadamente, por vezes auto-acompanhando-se no violão de acordas de aço, e mantendo-se dentro das versões tradicionais. Com a entrada de Bettencourt para o Grupo de Artur Paredes, na transição de 1922 para 1923, as duas canções foram adaptadas ao estilo de Coimbra e coladas, passando a ser cantadas por Bettencourt: compasso ternário (3/4), primeira parte em Sol menor e “refrão” festivo em Ré Maior.
Na “versão Bettencourt”, gravada em 1929, há diferenças de título, de tonalidade, de letra e de arranjo de acompanhamento, em comparação com a versão gravada por José Afonso em 1981. Em Bettencourt, o título original e integral é “Senhora do Almotão e Senhora da Póvoa”. Na 1ª copla não se observam discrepâncias. Porém, na 2ª, José Afonso modifica substancialmente o 2º verso (“Minha tão linda arraiana” passa a “Ó minha linda raiana”), vertendo as conjugações verbais da 2ª pessoa do singular (“vira”, “queiras”) na 2ª pessoa do plural (“virai”, “queirais”). O mesmo procedimento se observa logo no 1º verso da 3ª estrofe. José Afonso, na gravação de 1981, interpreta este tema em compasso ternário (3/4), tom e meio abaixo de Bettencourt, com a 1ª parte em Mi menor e o refrão em Si Maior. O cantor foi servido por um belíssimo arranjo de guitarra concebido por Octávio Sérgio, de belo efeito auditivo na introdução, no intervalo entre a 3º e a 4º estrofes e no remate. Se no registo de 1981 já se notavam em José Afonso sinais de degenerescência vocal, tais sintomas surgem bastante agravados pela progressão da doença na gravação ao vivo de “Senhora do Almortão” durante o concerto no Coliseu de Lisboa, realizado em 29 de Janeiro de 1983. “Senhora do Almortão” é a 3ª das cinco peças integradas no LP “José Afonso ao vivo no Coliseu”, DIAPASÃO, DIAP 16050/1, ano de 1983, Disco 1, Lado A, faixa nº 3. Os acompanhamentos são feitos por Octávio Sérgio/Lopes de Almeida (gg) e António Sérgio/Durval Moreirinhas (vv). Posteriormente a referida antologia vinil foi remasterizada em compact disc: CD “Zeca Afonso no Coliseu”, Strauss, ST 1021010035, ano de 1993.
A Senhora do Almotão, venerada em Idanha-a-Nova, tem a sua festa 15 dias após a Páscoa. Em tempos antigos, esta canção não se cantava com refrão mas, ultimamente, têm-lhe acrescentado algumas formas de refrão. A canção tem variantes, podendo a melodia ser em tom maior ou em tom menor. Conforme se disse, no disco de Bettencourt consta Almotão e não Almurtão. Uma outra forma de grafia popularizada é Almortão. Todas são correctas mas, a primeira parece-nos preferível.
A Senhora da Póvoa, festejada na antiga aldeia de Vale de Lobo, hoje Vale da Senhora da Póvoa, Concelho de Penamacor, recai na 2ª feira de Pentecostes. A canção em epígrafe também tem variantes musicais e literárias.
Existe transcrição musical da versão popular da “Senhora do Almurtão” em Rodney Gallop, “Cantares do Povo Português”, Lisboa, Instituto de Alta Cultura, 1960, págs. 94-95; idem, Michel Giacometti e Fernando Lopes Graça, “Cancioneiro Popular Português”, Lisboa, Círculo de Leitores, 1981, versão de Idanha-a-Nova, em compasso 2/4 e tom de Fá menor (reprodução em Rosa Maria Torres, “As canções tradicionais portuguesas no ensino da música”, Lisboa, Caminho, 1998, pág. 174; idem, para a versão de Penamacor, págs. 186-187). Há solfas, com variantes, da Senhora da Póvoa, em Rodney Gallop, “Cantares do Povo Português”, Lisboa, 1960, págs. 100-101. Uma versão da Senhora da Póvoa”, de Atalaia do Campo, consta em Fernando Lopes Graça, “A canção popular portuguesa”, 4ª edição, Lisboa, Caminho 1991, pág. 158 (1ª edição de 1953).
José Afonso conhecia uma das versões melódicas populares locais de “Senhora do Almortão”, tendo efectuado a respectiva gravação no LP “Cantares de Andarilho”, Porto, Orfeu RT LP 18029, ano de 1968, Face B, Faixa nº 4, acompanhado à viola por Rui Pato. Por seu turno, a versão melódica gravada por Bettencourt aparece com notação musical manuscrita em Carlos Manuel Simões Caiado, “Antologia do Fado de Coimbra”, Coimbra, 1986, págs. 164-165, verificando-se na referida solfa omissão de notas musicais. A letra impressa na pág. 164 também não corresponde inteiramente ao fonograma Bettencourt.
A gravação de Edmundo Bettencourt encontra-se disponível em vinil: LP “Fados de Coimbra – Edmundo Bettencourt”, Lisboa, EMI 2402451, ano de 1984, Lado 1, faixa nº 1, e em cassete. Este trabalho de remasterização não identifica os instrumentistas que são Artur Paredes/Afonso de Sousa (gg) e Mário Faria da Fonseca (violão), o que é pena, pois o arranjo de Artur Paredes é magnífico e pioneiro para a época. Obra disponível também em compact disc:
-Heritage, “Fados from Portugal”, HT CD 15, Londres, Interstate Music, 1992;
-“Arquivos do Fado”, Macau, Tradisom, Vol. II, TRAD 005, ano de 1994, faixa nº 1, cópia da edição londrina Heritage;
-Col. “Um Século de Fado”/Ediclube, CD Nº 1, EMI 7243 5 20633 2 1, de 1999;
-CD “O Poeta e o Cantor”, 560 5231 0047 2 5, Valentim de Carvalho, ano de 1999, Faixa nº 5.
Vários cantores gravaram esta linda canção mas, por vezes, a letra aparece a(du)lterada, incluindo versões impressas em livro, consequência de aprendizagens de outiva.
A gravação de José Afonso, correspondente à versão agora transcrita, encontra-se nos seguintes suportes:
-LP “José Afonso. Fados de Coimbra e outras canções”, Porto, Orfeu, 1981.
-LP “José Afonso. Fados de Coimbra e outras canções”, Riso e Ritmo Discos, Lda., RR LP 2188, ano de 1987, Face A, faixa nº 3, indicando na contracapa os nomes de Octávio Sérgio/Durval Moreirinhas (disco que em 1987-88 se vendia a 1.240$00);
-CD “José Afonso – Fados de Coimbra”, Movieplay, SO 3003;
-CD “Fados e Guitarradas de Coimbra”, Lisboa, MOVIEPPLAY, MOV. 30.332-B, ano de 1996, disco nº 2, faixa nº 1, sendo a recompilação orientada por José Niza;
-CD “Fados de Coimbra e outras canções”, Lisboa, Movieplay, JA 8011, ano de 1996, faixa nº 3.
A gravação do concerto dado no Coliseu de Lisboa em 1983 veio editada no LP “José Afonso ao vivo no Coliseu”, DIAPASÃO, DIAP 16050/1, ano de 1983, Lp 1, Lado A, faixa nº 3; idem, CD “Zeca Afonso no Coliseu”, STRAUSS, ST 1021010035, ano de 1993; também na cassete “Zeca Afonso ao vivo no Coliseu”, STRAUSS, ST 1021010036, ano de 1993.
Outros registos:
-CD “Do Choupal até à Lapa – Grupo de Fados da Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra da Madeira”, EMLI, s/n e s/d, de ca. 1994 (canta Luis Filipe Costa Neves).
Dos vários aproveitamentos conferidos a este espécime, destaquemos uma rapsódia de Artur Paredes (década de 1920) e uma outra de Jorge Tuna (década de 1960)
(José Anjos de Carvalho e António M. Nunes | Agradecimentos: D. Maria José Bettencourt, Maestro João Anjo, Dr. Afonso de Sousa, José Moças (Tradisom).
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Canção com uma espécie de refrão atípico que resulta da repetição do terceto final de cada estrofe, em compasso 6/8 e tom de Mi menor, gravada por José Afonso, acompanhado à viola nylon por Rui Pato: EP Baladas de Coimbra, Porto, Rapsódia, EPF 5.182, Outubro de 1962, Lado 2, Faixa nº 3. A gravação decorreu em Coimbra, no antigo Convento de São Jorge, local onde os técnicos da editora montaram os dispositivos de captação sonora. A melodia é melancólica, remetendo para um estado de espírito depressivo vivido pelo autor na data da feitura da obra, conforme nos corroborou Rui Pato.
De acordo com declarações do próprio José Afonso, tratar-se-á de uma canção inspirada no repertório do cantor e compositor francês Georges Brassens (1921-1981), cujo título e letra interpelam a moral social vigente e a prática de frequência das casas de prostituição do Terreiro da Erva em Coimbra. cf. “Os cantares de José Afonso”, Lisboa, 1ª edição, 1968; idem, 2ª edição, Lisboa, Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico, 1969, págs. 46-47: “Balada de inspiração Brassens, define simultaneamente um estado de espírito e uma autobiografia, uma crise de consciência (destruição do sentimento de remorso) e um meio social (os prostíbulos do “Terreiro da Erva” ou os seus sucedâneos mais ou menos bem iluminados” (sic). Até à entrada da década de 1960 era nestas casas que estudantes e jovens mancebos em dia de inspecção militar faziam a sua iniciação sexual. O local da feitura da composição foi Faro, cidade onde José Afonso então residia e trabalhava como professor.
A letra integral é de árdua transcrição, pois nas estrofes o autor oscila entre a sextilha (1ª, 2ª, 4ª, 5ª, 7ª) e os 11 versos (3ª, repetida na 6ª e na 8ª). Rui Pato mitiga a influência de Brassens, a qual se teria feito sentir mais tarde (nesta fase havia mais de Jacques Brel e de Léo Ferré e ainda não as “brassenzadas” do tipo “Eu tive o Diabo na mão”), recordando ter-se deslocado propositadamente a Faro para ensaiar com José Afonso (informes de 12/01/2006). Rui Pato passou um mês de férias no Verão/1962 com José Afonso em Faro. Foi nas deambulações em improvisada jangada à Ilha do Farol que José Afonso alicerçou os rudimentos desta canção. José Afonso começou pela letra e só depois improvisou os rudimentos da melodia. Rui Pato recorda-se bem dos trauteios nascentes junto ao areal da Ilha do Farol, com José Afonso tomado de amores pela futura companheira Zélia Maria Agostinho.
As estrofes assimétricas, alternando entre 6 e 11 versos, a longa debitação da letra, o “refrão” atípico, a obsidiante presença da viola nylon, tudo foi pensado para erigir o tema em obra de protesto contra o que era convencional cantar-se e gravar-se em Coimbra. Tendo forma, No Lago do Breu rejeita abertamente a fórmula estrófica dos temas mais convencionalmente clássicos da CC. Nada de repetições canónicas, nada mudanças de frase antecipadamente reconhecíveis, nada de langorosos ais. O autor escuda-se no efeito surpresa e com ele se torna um intérprete surpreendente. O trabalho de acompanhamento é relativamente simples, pois José Afonso queria fazer alguns acordes na sua viola, embora soubesse antecipadamente que não conseguia seguir os dedos de Rui Pato. Fez-se a gravação com a viola de Rui Pato “meio desafinada” por forma a que José Afonso pudesse cantar e fazer no braço da sua viola os singelos acordes que sabia executar.
A referida gravação veio a ser remasterizada no LP Baladas e Fados de Coimbra, EDISCO, EDL 18.020, ano de 1982, Face B, Faixa nº 3, fonograma omisso quanto ao ano da gravação, matriz original e instrumentista. Versão disponível em compact disc: CD OS VAMPIROS, Edisco, 1987, faixa nº 9, com o título adulterado para “No Largo do Breu” (sic) e inclusão da letra no respectivo livreto. A letra, na edição em off-set das AAEE, de 1969, de “Cantares DE JOSÉ AFONSO” e em “JOSÉ AFONSO. Textos e Canções”, e na publicação Assírio e Alvim, de 1983, não está conforme os discos supra. O título nos discos é No Lago do Breu e, não, “Lago do Breu” como vem em Textos e Canções.
Este tema foi gravado também pelo cantor português activo em França Germano Rocha, em 1964, acompanhado à guitarra por Ernesto de Melo e Jorge Godinho e, à viola, por José Niza Mendes e Durval Moreirinhas (EP BLY 76153 e LP XBLY 86112, ambos da editora Barclay). A letra adoptada por Germano Rocha não corresponde à versão de José Afonso, e o título original aparece encurtado para “Lago do Breu”.
No site http://alfarrabio.um.geira.pt/zeca/cancoes/16.html, encontra-se uma transcrição incompleta da letra gravada por José Afonso, com título encurtado para “Lago do Breu” (cf. também o endereço https://aja.pt/discografia.htm, para as fontes fonográficas do autor conhecidas até ao ano de 2005, cujo rol está incompleto) e omissão integral dos refrões. A versão de das edições de 1968 e 1969 encontra-se no “Arquivo de Música de Língua Portuguesa”, da Universidade do Minho (http://natura.di.uminho.pt).
Este espécime foi gravado na Capela do Palácio de São Marcos da Reitoria da UC por Serra Leitão, no tom de Mi Menor, acompanhado pela formação José dos Santos Paulo/Octávio Sérgio (gg) e Aurélio Reis/Humberto Matias/José Tito Mackay (vv) no CD “15 anos depois… Antigos Tunos da Universidade de Coimbra”, Coimbra, ano de 2000, faixa nº 15. Neste registo, com introdução e arranjo de José dos Santos Paulo, o título sofreu adulteração para LARGO DO BREU (sic), sendo a identificação dos instrumentistas totalmente omissa.
A solfa desta canção encontra-se impressa na brochura do antigo sócio da TAUC António Carrilho Rosado Marques, “Cantares de José Afonso. Acompanhamentos para viola”, Évora, Edição do Autor, 1998, págs. 18-19.
José Anjos de Carvalho e António M. Nunes | Agradecimentos: Dr. Octávio Sérgio, Prof. José dos Santos Paulo, Dr. Rui Pato.
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Composição musical de inspiração estrófica, ainda apegada ao efeito de repetição assente na redondilha maior, mas ensaiando contido tentame de ruptura expresso no solo de viola de acompanhamento e na inclusão de um trauteio entre coplas. O último elemento como que introduz na leitura da obra artística um elemento de perburbação: estrófica? com refrão? “Minha Mãe” configura uma ponte simbólica entre o antes clássico (quadra, efeito de repetição) e o depois (solo de viola, trauteio) e o debutante Movimento da Balada. José Afonso elabora a composição em compasso quaternário (4/4), espraiando-se num sentimental Ré Menor. O trauteio é interpretado em ternário.
O trauteio não é fácil de captar. José Afonso não separa distintamente as sílabas e não é claro se diz sempre “la-rã-rã”. Algumas vezes parece ouvir-se “na-rã-nã”, “na-rã-la” ou até “na-rã-lã”.
A presente transcrição de letra segue “Cantares de José Afonso”, Lisboa, Edição das AAEE, 1969, e também “José Afonso. Textos e Canções”, Lisboa, Assírio e Alvim, 1983, p. 34.
A autoria da música, oficialmente reclamada por José Afonso (1929-1987), levanta algumas dúvidas, pois o Juiz Conselheiro Alcindo Costa (relato de 18/06/2003) diz ter aprendido uma melodia semelhante a esta por volta dos sete anos em Trás-os-Montes, em plena década de 1930. O mais certo é José Afonso ser o autor da melodia na parte corresponde às estrofes, tendo reelaborado uma melodia de origem popular provincial no que respeita ao trauteio. Nos embalos populares era costume as mães rematarem os dísticos com estorpecedores “ó-ó-ós” e “na-nã-nã-nãs”, sendo plausível que José Afonso tenha escutado este tipo de trauteios quando viveu em Belmonte (1938-1940). Dúvidas não subsistem, todavia, quanto ao sentido canto com que parece evocar a figura materna, Maria das Dores, ausente da vida do menino e adolescente nos períodos 1930-1933, 1936-1937, e longamente a partir de 1938. Em comentário aos textos publicados em 1969, subscreveu “A uma mãe não canonizada por nenhuma data oficial, nem institucionalizada por nenhuma nota oficiosa”.
A primeira gravação conhecida deste tema foi efectuada por José Afonso no teatro da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra no Verão de de 1961, sendo o cantor acompanhado à viola por José Niza e Durval Moreirinhas: LP “Coimbra Orfeon of Portugal”, USA, Monitor MP-596, ano de 1962; reeditado na cassete “Orfeão Académico de Coimbra”, Ovação, OV-K77046, ano de 1987, Lado A, Faixa nº 3; idem, no Cd “Orfeão Académico de Coimbra”, Ovação, OV-CD-012, ano de 1991 (estas reedições são omissas quanto à data da gravação e instrumentistas). Notam-se claras divergências entre o registo do autor e gravações de terceiros, diferenças estas que também ferem o trauteio. Assim, conforme os gostos e arranjos, ora se escuta “la-ra-ra”, “la-ra-rá, “lã-rã-rã”…
O mesmo tema foi gravado por Adriano Correia de Oliveira no EP “Fados de Coimbra”, Porto, Orfeu, ATEP 6077, ano de 1962, acompanhado à viola por Rui Pato. Reedições: antologia Cd “Adriano. Obra Completa”, Lisboa, Movieplay, 35.003, ano de 1994 (“Adriano. Fados e baladas de Coimbra”, Lisboa, Movieplay, 35.004, 1994, faixa nº 12). Adriano grava uma espécie de variante do original: nas coplas bisa o 1º dístico; suprime a 3ª quadra e adultera o 2º trauteio.
Espécime regravado pelo próprio José Afonso, acompanhado por Rui Pato na viola nylon: EP “Baladas e Canções”, Porto, Ofir, AM 4.016, ano de 1964 e LP “Baladas e Canções”, Porto, Ofir, AMS 301, ano de 1967. Foi este registo remasterizado no CD “José Afonso. Baladas e Canções”, Lisboa, EMI-VC 724383661725, ano de 1996.
Outros registos:
-José Maria Lacerda e Megre, CD “Coimbra Eterna”, Porto, STRAUSS, ST 5190, ano de 1998, faixa nº 18, acompanhado por Assis e Santos/Moniz Palme (gg), Mário Ribeiro/Manuel Costa (vv). Vocalização excessivamente arrastada, como que modificando a linha melódica. O cantor bisa os primeiros dísticos das quadras e o acompanhamento de guitarra parece-nos excessivamente próximo do concebido em 1956-1957 por Machado Soares para o tema SERRA d’ARGA;
-Frederico Vinagre, fadista profissional activo em Lisboa, no CD “Frederico Vinagre. Fados de Coimbra”, Lisboa, Metro-Som, CD 151, ano de 2001 (remasterização de um Lp da década de 1980, com Octávio Sérgio e Durval Moreirinhas);
-José Henrique Dias, LP “De Coimbra… por Bem”, Lisboa, Discossete, LP-800, ano de 1991, Lado A, faixa nº 3. Este registo foi vertido no CD “Fados de Coimbra e Tunas Académicas. Raízes e Tradições”, CDSETE, Cd 3, ano de 2001;
-CD “Quinteto de Coimbra. Guitarra e Canção de Coimbra”, Coimbra, Casa de Fados, ano de 2001, faixa nº 7. Formação profissional constituída por Patrick Mendes/António Ataíde (vozes), Ricardo Dias (g) e Nuno Botelho/Pedro Lopes (vv). Registo próximo de Adriano Correia de Oliveira, com repetição dos primeiros dísticos das quadras;
-António Jesus, CD “António Jesus. O canto, a guitarra e os amigos”, Coimbra, AEMINIUM Records 004, ano de 2002.
Não confundir esta composição com duas outras cuja melodia é distinta:
-Minha Mãe (Minha mãe é pobrezinha), gravada na década de 1920 pelo estudante de Medicina da Universidade do Porto Carlos Leal;
-Minha Mãe (Oh minha mãe, minha mãe), espécime da década de 1940, da autoria de Manuel Julião, gravado por Manuel Branquinho.
José Anjos de Carvalho e António Manuel Nunes.
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Esta canção foi dedicada ao comunista Alftedo Matos quando este se encontrava preso pela PIDE. Ele foi torturado com o método da “estátua” (ver JA!), sem poder dormir durante dias seguidos. Muitos detidos morreram na prisão ou, quando saíram, nunca mais conseguiram reintegrar-se na sociedade. Destaca-se nesta canção o isolamento do preso, o muro que existe entre o silêncio cá fora e os gritos lá dentro. Também José Afonso foi preso pela PIDE e esteve na prisão de Caxias, onde escreveu as canções que figuram no disco “Venham mais cinco”. Porque viveu sempre a realidade do regime ditatorial (contrariamente aos cantores que se exilaram, como Sérgio Godinho e José Mário Branco), José Afonso escreveu mais textos sobre a sorte dos membros da oposição (comunista) Além disso, como ele próprio foi vítima da perseguição, descreve-a de modo mais pormenorizado. É este o caso em “Por trás daquela janela”. As suas próprias experiências fazem com que ele possa catar a situação de Alfredo Matos com tanta compreensão e familiaridade. Acentua-se assim a força quase invencível da convicção que o ajudou a resistir à perseguição e que deve servir para encorajar os companheiros: o sofrimento (“Mais dura a pedra moleira/ E a fé tua companheira”; “E o seu perfil anuncia/Naquela parede fria”) tem sentido, tempos virão em que se poderá cantar e viver livremente.
in “A canção de intervenção portuguesa – Contribuição para um estudo e tradução de textos” de Oona Soenario, 1994-1995, Universidade de Antuérpia
O álbum “Coro dos tribunais” saiu pouco tempo depois do 25 de Abril, mas contém quase só canções anteriores a essa data. Pode-se considerar um tanto ultrapassado pelos acontecimentos, pois anuncia-se em “Só ouve o brado da terra” a iminência da revolução. A ditadura e a opressão da população (agrária) portuguesa são transmitidas pelas metáforas do “clarim da morte”, da “noite assassina”, de “quem domina sem nos vencer”. A exploração é-nos transmitida na terceira estrofe (“Andam os lobos à solta”) e na última estrofe. A estes elementos negativos opõem-se a revolta nascente (“Agora é que pinta o bago/ Agora é que isto vai aquecer”), os que a apoiam e que nunca perderam o contacto com a terra (“Quem dentro dela! Veio a nascer”, o pastor, o “Homem de costas vergadas”) e a solidariedade do cantor com o sofrimento do povo.
José Afonso traduz nesta canção o seu alinhamento com a população agrária. Isto nada tem a ver com a linguagem idealizante da propaganda oficial, com a qual se pretendia transmitir uma imagem dum mundo agrário harmonioso. Sendo da geração anterior à de Sérgio Godinho e José Mário Branco, ainda podia optar pela cultura rural (em vez da urbana) como portadora da sua intervenção e de um conteúdo revolucionário. O cantor escolheu ir para “uma canção que seguisse na esteira da canção tradicional rural”, inspirando-se e desenvolvendo temas e elementos da cultura rural. Como ele próprio assinalou: “Isso é, afinal, a face de um povo, e não há que ser rejeitada.” José Afonso teve a oportunidade de conhecer a vida tradicional do campo, viajando com o coro do Orfeon enquanto estudante, como professor em várias localidades e, o que é muito importante, cantando em todo o país. Este conhecimento traduz-se p.ex. em “A mulher da erva”.
A industrialização portuguesa fez-se tardiamente, e é só na segunda metade deste século que as suas consequências se fizeram sentir, sobretudo a partir dos anos 60. Já em 1981, José Afonso reconhece o progressivo e irreversível desaparecimento do mundo português que ele evoca em tantas canções: “Custa-me ver no meu país este massacre contra-cultural de que estamos a ser vítimas (…) Tenho uma certa nostalgia de uma certa imagem de Portugal que me foi dada por Raul Brandão, Camilo Castelo Branco, pelo próprio Eça de Queiroz (…), pela poesia popular portuguesa, (…), pelas adegas que hoje estão a ser substituídas pelos snack-bares, pelos cinemas de bairro que estão a ser substituídos pelos estúdios (…). Com as suas canções, ele queria conservar a cultura sem ser conservador.
in “A canção de intervenção portuguesa – Contribuição para um estudo e tradução de textos” de Oona Soenario, 1994-1995, Universidade de Antuérpia
(…)De facto, Otelo Saraiva de Carvalho escolheu entre três canções de José Afonso: “Grândola”, “Traz outro amigo também” e “Venham mais cinco”. As últimas duas fazem um apelo ao ouvinte para participar na luta. O que levou o estratego do 25 de Abril à escolha de “Grândola” foi a frase: “O povo é quem mais ordena”, um princípio importante para ser proclamado nos primeiros minutos da revolução 57. Além disso, estava proibida a radiodifusão das outras duas canções.
Como foi assinalado atrás, esta canção é a mais conhecida deste autor, pelo que o público continuava a pedi-la, onde quer que José Afonso actuasse. Às vezes, ele recusava apresentá-la, porque não queria fazer disso uma espécie de ritual para idealizar o passado. Ou então pedia ao próprio público que a cantasse, o que condiz com a mensagem e o modo de representação da canção: José Afonso utilizou a tradição musical alentejana, onde se canta muitas vezes em coro polifónico. Nesta forma, há um cantor que canta a primeira estrofe, e o coro canta a segunda. Também o estilo do texto é conforme à tradição alentejana: duas estrofes sempre se espelham uma à outra. Grândola é uma vila no Baixo Alentejo, que serve de exemplo de uma sociedade onde extiste igualdade, liberdade e fraternidade. Na frase “O povo é quem mais ordena”, José Afonso fala do poder popular que persistiu ao longo da ditadura, em centros culturais onde não havia directores e as responsabilidades eram partilhadas. Para o cantor, estas formas de relações humanas comprovavam que a ideologia da classe dominante não tinha penetrado no povo. Estes centros remontavam à época anterior ao Salazarismo, quando desempenhavam um papel importante a nível cultural e de consciencialização. O regime fascista dissolveu muitos deles ou reduziu as suas actividades ao desporto outras coisas “inofensivas”. No entanto, alguns houve que continuaram o seu trabalho clandestinamente, como foi o caso de Grândola, onde José Afonso actuou algumas vezes.
in “A canção de intervenção portuguesa – Contribuição para um estudo e tradução de textos” de Oona Soenario, 1994-1995, Universidade de Antuérpia

O músico José Afonso também influenciou no ensino, mas os alunos não o tratavam por senhor doutor. Zeca era antes um amigo. Em Faro, o repórter Mário Antunes esteve à conversa com Maria do Carmo Henrique, aluna de José Afonso no final dos anos 50 do século XX. Maria do Carmo tinha então 15 anos e foi à porta de sua casa que Zeca Afonso viu um carreiro de formigas e começou a trautear a canção.

A Associação José Afonso (AJA), com o apoio da Câmara Municipal de Setúbal, vai inaugurar a exposição “Desta canção que apeteço – Obra discográfica de José Afonso 1953//1985″.
As obras agora expostas são o resultado de uma pesquisa levada a cabo pela AJA sobre toda a obra discográfica de José Afonso, desde a edição, em 1953, do seu primeiro registo fonográfico, nos estúdios da Emissora Regional de Coimbra, até 1985, data do seu último disco: Galinhas do Mato. O que se expõe resulta do trabalho possível perante um objeto de estudo revestido de alguma complexidade. Consideramos que a panorâmica a expor não deixa de se constituir como uma base sólida para o estudo e discussão de uma das obras mais marcantes da música popular mundial. Entre outros motivos de interesse, no evento, destacamos, desde logo, a participação da cantora Sofia Vitoria.
A mostra guiada estará a cargo de Miguel Gouveia, coautor da exposição e membro dos corpos sociais da AJA. Contamos convosco no dia 8 de Novembro, pelas 16 horas, na Galeria Municipal 11 (antigo quartel do 11), Avenida Luísa Todi, em Setúbal.
Admito que a revolução seja uma utopia, mas no meu dia a dia procuro comportar-me como se ela fosse tangível. Continuo a pensar que devemos lutar onde exista opressão seja a que nível for.
José Afonso em entrevista a Viriato Teles, in “Sete”, 27/11/85
A 7 de Março de 1975 na cidade de Setúbal, onde se respirava a vontade e a luta pela revolução, é anunciado um comício do PPD que leva a movimentações de populares, apontados como militantes de partidos de extrema-esquerda que haviam tido a sua formação politica no Circulo Cultural.
“Foi na cidade do Sado”, canção de Zeca, revela-se como um documento sobre os acontecimentos deste dia, relatando a indignação contra a intervenção abusiva da policia que levou à morte um jovem e várias pessoas feridas.
A autoria da letra desta canção é assumida como colectiva, sendo feita pelo Zeca e por vários protagonistas dos confrontos. A música é do próprio Zeca.
A edição do single Viva o poder popular é realizada pela LUAR, revertendo os fundos conseguidos para a mesma organização.
in Albérico Afonso Costa, 2013
Foi na cidade do Sado
No pavilhão do Naval
Havia uma bronca armada
Pelas bestas do capital
Aos sete do mês de Março
Quinta-feira já se ouvia
Dizer a boca calada
que o PPD era a CIA
(…)
Amigo arrebenta a porta
Que te vão para matar
As bestas já fazem fogo
Lá fora tens de lutar
Os gases lacrimogéneos
E os tiros que então partiram
Mais os cordões da policia
os PPDes protegiam
(…)
O Núcleo da Associação José Afonso Região de Aveiro tem o prazer de realizar a apresentação do dvd/cd Foi na cidade do Sado/Viva o Poder Popular (edição da Associação José Afonso) em Aveiro, no próximo dia 24 de Novembro de 2013, às 15 horas e 30 minutos, no espaço bar Posto7 com os testemunhos do Coronel Andrade da Silva – Capitão de Abril – e de Camilo Mortágua – um dos fundadores da LUAR.
Rui Oliveira oferece-nos um momento musical.
Convidamos a juntarem-se a nós nesta iniciativa e partilharmos os testemunhos sobre esta data marcante.
O Núcleo da Associação José Afonso Região de Aveiro
Casa cheia, na apresentação do CD/DVD “Viva o Poder Popular”, editado pela Associação José Afonso, no passado dia 20, na Casa da Cultura, em Setúbal.
À visualização do DVD, seguiram-se as intervenções de João Pires (realizador), Albérico Afonso (historiador), Coronel Andrade e Silva (elemento do MFA) e Helena Afonso (testemunha dos acontecimentos de 7 de Março, em Setúbal). O debate foi o “espaço” seguinte, onde o público presente foi bastante interventivo. A sessão finalizou com uma intervenção musical a cargo de Vítor Sarmento.
A Associação José Afonso (AJA) edita em CD, “Viva o Poder Popular”, originalmente editado em 1975 pela já extinta LUAR. Com letra popular e música de José Afonso, “Viva o Poder Popular” inclui dois temas, o que dá o título ao CD e “Foi na cidade do Sado”.
A canção “Foi na cidade do Sado” refere os acontecimentos ocorridos a 7 de março de 1975 em Setúbal, nessa data qualificada como a “cidade vermelha”. A letra é assumidamente coletiva e foi feita pelo Zeca em conjunto com alguns dos protagonistas dos confrontos. Segundo o historiador Albérico Afonso, traduz-se num «documento que guarda não só um testemunho de indignação contra a intervenção desproporcionada da polícia, que matou um jovem e feriu quase duas dezenas de pessoas, constituindo-se, ao mesmo tempo, como um relato histórico e cronológico do ocorrido: a marcação de um comício do PPD para a cidade de Setúbal (…) o pressentimento de um conflito, “havia uma bronca armada com as bestas do capital”; o boicote ao comício, “eram para aí quatrocentos, gritando em plenos pulmões, abaixo o capitalismo, não queremos mais tubarões”; a resposta do PPD “lá dentro sessenta manos do PPD exibiam matracas e armas de fogo”; a intervenção policial que, naquela altura, se dizia ter sido previamente acordada com o PPD “ a um sinal combinado, já quente a polícia vem.”».
Já a canção “Viva o Poder Popular” é, claramente, um manifesto cantado em defesa de ideais de soberania popular: “Dêm as pipas ao povo só ele as sabe guardar”; de união e de revolução, “Não tenhas medo da morte que daqui ninguém arreda”; e, também, de crítica aos “barões de vida boa”, aos “caciques” e aos “bufos”, à palavra socialismo que “de colarinho à sueca” anda “sempre muito aperaltada”.
50 anos de “Os Vampiros” de José Afonso em concerto
Hoje na Aula Magna, em Lisboa, músicos como Rui Pato, João Afonso, Manuel Freire ou Francisco Fanhais celebram Os Vampiros.
O cinquentenário da primeira edição de Os Vampiros, de José Afonso, é hoje assinalado em Lisboa com um espectáculo na Aula Magna, pelas 21h. Organizado pela Associação José Afonso (AJA) e pela Reitoria da Universidade, com o apoio do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa (SPGL), o concerto evocativo contará com a participação de músicos e cantores como Rui Pato, João Afonso, Luís Pastor, Manuel Freire, Francisco Fanhais, o Ensemble VOCT, Lourdes Guerra, Pedro Fragoso, Rogério Pires, Sérgio Caldeira, Pedro Syroh e o poeta José Fanha.
José Afonso (1929-1987) gravou Os Vampiros em Coimbra, no Mosteiro de S. Jorge de Milreu, acompanhado à viola por Rui Pato (que participa no concerto de hoje). A canção foi editada em 1963 num EP com etiqueta Discos Rapsódia, juntamente com outras três canções (Menino do bairro negro, Canção vai… e vem e As pombas) sob o título genérico Dr. José Afonso em Baladas de Coimbra.
Quatro anos depois do lançamento do disco, José Afonso escreveu no livro Cantares (ed. Nova Realidade, 1967) estas palavras para justificar a canção Os Vampiros: “Numa viagem que fiz a Coimbra apercebi-me da inutilidade de se cantar o cor-de-rosa e o bonitinho (…). Se lhe déssemos uma certa dignidade e lhe atribuíssemos, pela urgência dos temas tratados, um mínimo de valor educativo, conseguiríamos talvez fabricar um novo tipo de canção cuja actualidade poderia repercutir-se no espírito narcotizado do público, molestando-lhe a consciência adormecida em vez de o distrair. Foi essa a intenção que orientou a génese de Vampiros”.
O que o inspirou? “A fauna hiper-nutrida de alguns parasitas do sangue alheio serviu de bode expiatório. Descarreguei a bílis e fiz uma canção para servir de pasto às aranhas e às moscas. Casualmente acabou-se-me o dinheiro e fiquei em Pombal com um amigo chamado Pité. A noite apanhou-nos desprevenidos e enregelados num pinhal que me lembrou o do rei e outros ambientes brr herdados do Velho Testamento.”
1953 – José Afonso gravava nos Estúdios do Emissor Regional de Coimbra da antiga Emissora Nacional dois “78 rotações” para a “etiqueta” Melodia. Era a sua primeira vez! Durante anos, na discografia oficial, “De Capa e Batina”, edição da Moviplay, na primeira faixa, “Fado das Águias”,cuja letra e música era atribuída a José Afonso, um erro. A exposição “Desta Canção que Apeteço” – que estuda e reúne toda a obra discográfica do Zeca entre 1953 e 1985 – produzida pela Associação José Afonso, em parceria com o Município de Grândola, repôs a verdade histórica: nos dois trabalhos atrás referidos não está gravado qualquer original do Zeca. Da qualidade artística (ou não) desses quatro fados– nos falará o Octávio Fonseca e Silva, musicólogo e co-autor com Guilhermino Monteiro, João Lóio e José Mário Branco do Livro “José Afonso – Todas as Canções”. Ao Octávio Fonseca, Carlos Andrade, João Teixeira, José Silva e ao Carlos Carvalho e `”Mila”, aqui do “espaço de liberdade” que é “Pedra Nova – Todos “velhos” companheiros de estrada da Associação José Afonso – em especial do seu núcleo do norte – um forte abraço e um registo muito sentido do que é ser-se solidário. Seguem-se deambulações de uma máquina de fotos, que só funciona em manual, numa casa cheia, em que com muita pena alguns não puderam entrar, não cabiam.
Já disponíveis mais dois programas de António Macedo dedicados às gravações de José Afonso. Desta vez “Venham mais cinco” e “Coro dos tribunais”, os últimos de uma série fundamental para melhor compreender a discografia de José Afonso. OUVIR AQUI
Que se esqueça o ícone, aceita-se. Mas não esqueçam a música, a inacreditável habilidade de usar a voz como instrumento, de brincar com as palavras, de trabalhar o ritmo.
No início da década de 1960 José Afonso começa a libertar-se do fado de Coimbra, de que tinha sido intérprete, criando canções em que a guitarrra portuguesa não tinha lugar. Trabalhou a balada numa série de singles e a canção política, como é notório em “Os Vampiros”. Mas só em 1968, com “Cantares do Andarilho”, conseguiu fazer um LP em que explorasse do princípio ao fim a demanda de afundar na tradição e vir à tona com nova música na boca. Ouvindo hoje o disco é difícil aos mais novos identificar nele qualquer ideia de ruptura. Para nos apercebermos da cisão que Zeca traça aqui com o passado é vital recordar que até então a música portuguesa era dominada pelo fado e pelo nacional-cançonetismo – e que o folclore, sendo ocasionalmente gravado e bastante ouvido pelo povo, carecia de exposição e legitimação. “Cantares do Andarilho” é acima de tudo um disco de baladas mas, por exemplo, em “Saudadinha”, que (pasme-se) é resgatado da tradição açoreana, ainda há marcas da da anterior incursão de Zeca pelo fado, seja no ataque de Rui Pato à viola, na projecção da voz e nas pausas na linha melódica. O brilhantismo de Zeca chega logo ao primeiro tema, “Natal dos Simples”: há uma perfeição tímbrica admirável, um ligeiro falsete no fim de cada frase, controladíssimo, qualidades postas ao serviço de uma melodia inventiva, quase infantil na sua capacidade de brincar com as sílabas e o ritmo. Onde é que Zeca foi buscar isto? Ouça-se o primeiro tema tradicional do disco, “Resineiro engraçado”: do registo melódico quase pueril, ao ritmo saltitão passando pelo uso de vocábulos inesperados (“ó i ó ai”), está lá muita coisa. Mas isto não explica “Canção de Embalar” (cujo título denuncia a raiz de uma parte desta música) ou “Vejam Bem” – dois temas extraordinários em que a voz de Zeca adquire uma tonalidade assombrada, uma tristeza infinda que regressaria, vez após vez, aos seus discos.
“Contos Velhos Rumos Novos” (1969) tem título ajustado, pois Zeca não quis repetir as ideias que lhe haviam ocupado os anos anteriores. O trabalho com as palavras torna-se ainda mais aprofundado, o que explica em parte o menor número de temas com música e letra originais: “Bailia” parte de uma trova do século XIII, “No Vale de Fuenteovejuna” usa palavras de Lope de Vega (um dos fascínios de Zeca, que sempre se interessou pela cultura espanhola) e ainda há, além dos temas populares, letras de Luís de Andrade (a arrasadora “Era de noite e levaram”) e Ary dos Santos (“A cidade”). Em algumas das faixas compostas por Zeca vê-se para onde a escrita dele estava a ir, em particular no maior peso rítmico de “Vai, Maria, vai” e “Era de noite e levaram”. Logo no tema de abertura, “Bailia”, a trompa concede maior riqueza rítmica. Em outras faixas existe ainda cavaquinho, harmónica (pungente e perfeita em “A Cidade”) e as marimbas que (e talvez seja arriscado dizer isto) africanizam “Já o tempo se habitua”.
Quando José Afonso chega a “Traz Outro Amigo Também” (1970) é um compositor feito – e a prová-lo está a altíssima percentgem de temas exclusivamente seus no disco. Ocasionalmente ainda se sentem as marcas do passado fadista (ouça-se “Maria Faia”), mas o seu talento para manipular a tradição aprimorara-se, como é visível na espantosa “Canto Moço”. Na faixa homónima ao disco Zeca produzia uma balada dulcíssima; em “Carta a Miguel Djé-Djé” fazia uma homenagem a um seu antigo empregado dos tempos de África e são claras as influências africanas no canto. A sua revolta interior é traduzida em dois temas tristíssimos, rasgados por dentro, como “Epígafre para a arte de roubar” e “Moda do Entrudo”. Em “Os Eunucos” volta a criar um libelo político duríssimo. Perante tudo isto não é difícil concluir a imensa variedade musical e lírica de que Zeca já era capaz.
Zeca tem então condições para fazer um disco com Zé Mário Branco como produtor, e uma cada vez maior amplitude instrumental: “Cantigas do Maio” (1971). Logo em “Senhor Arcanjo” percebe-se que África estava para durar na obra de Zeca: as percussões, o baixo a rolar a guitarra repetitiva, isto quase lembra o Caetano de “Transa”. “Ronda das Mafarricas” está em ligação directa com esse som e África surge igualmente em “Maio, maduro, Maio” – não de forma explícita, mas no uso lúdico dos vocábulos a seguir ao refrão, uma ideia que encaixa de forma gloriosa no tom pastoral do tema. Agora ouça-se o tema que dá nome ao disco: como é possível passar de “Senhor Arcanjo” para esta tristeza trespassada pela morte, como? Podiam escrever-se tratados sobre “Cantigas do Maio”, a canção: sobre a figura (de acordeão?) que abre o tema e instala logo um negrume infindo; sobre o modo como o mesmo acordeão cavalga no refrão e a tristeza torna-se rebuliço, tumulto interior; sobre esse medo de morrer que não arreda de nenhum compasso. “Cantigas do Maio” é um disco tão extraordinário que por vezes há quem esqueça temas como “Canto alentejano”, entalado entre “Milho verde” e a sequência “Grândola, vila morena” e “Maio, maduro, Maio”. Mas ouçam o cuidadíssimo trabalho de viola e a voz de Zeca, as suas subidas arrepiantes, a forma como segura uma nota lá em cima em vibrato. Isto é a técnica (ainda com resquícios de fado), o talento, aos serviço da emoção. Quase dói pensar que a seguir vem aquele coro de “Grândola, vila morena”, capaz, ainda hoje, mesmo sem pensar em política, de arrasar o mais cínico. Que depois de tudo isto o disco ainda feche com uma canção da grandeza de “Coro da Primavera” – quase nem parece deste mundo. Os sopros têm uma dimensão teatral mas as percussões introduzem uma leve nuance africana; depois o refrão namora com o cante mas o órgão parece saído do psicadelismo. Se quiserem, essa canção serve como símbolo de como Zeca não era redutível à imensa música que tinha ouvido e amado.
Terceira obra-prima seguida, “Eu Vou Ser Como a Toupeira” (1972) abre com “A morte saiu à rua”, cujo arranjo de sopros ecoa as aventuras do tropicalismo. Mas o tema assenta em voz, viola e percussões e é impressionante o balanço que estes três instrumentos alcançam – um balanço igualmente presente em “Sete fadas me fadaram”. O carácter político de “A morte saiu à rua” retorna no experimentalismo de “O avô cavernoso” (que tem ligações musicais com “Ó Ti Alves”), na viola de traços africanados de “No comboio descendente” e em “Eu vou ser como a toupeira”, feita de um adufe e voz. Já o lado mais doce de Zeca está presente em “Fui à beira-mar” e em “Ó minha amora madura”. O seu ludismo é notório na brincadeira achinesada de “É para Urga”.
Por esta altura era notório que Zeca conseguia fazer uma canção com qualquer coisa. Ou, mais propriamente, com tudo. Já não havia definição para a sua música, já não recorria a géneros musicais, já tinha inventado um mundo. Que se esqueça o ícone, aceita-se. Mas não esqueçam a música, a inacreditável habilidade de usar a voz como instrumento, de brincar com as palavras, de trabalhar o ritmo. Porque Zeca era, de facto, um caso único de sobredose de talento.

Ouça aqui as emissões especiais dedicadas à edição remasterizada dos discos de José Afonso pertencentes à década de 70.
Realização de António Macedo.

Até 1971 e José Afonso entregar-se nas mãos de José Mário Branco – regressando de França com uma obra-prima na mala -, esta que se segue não era exactamente uma questão. O percurso de José Afonso era um somatório de experiências no sentido da consolidação de uma linguagem própria, primeiro soltando as amarras que temporariamente o haviam prendido a Coimbra, depois avançando com timidez para uma canção de magnetismo suficiente para atrair a música africana e as músicas populares portuguesas. Mas depois de Cantigas do Maio, de uma construção musical ambiciosa e sofisticada, e de um feito prodigioso para a história da música deste país, o caminho bifurca-se: passa a haver um Zeca Afonso do palco e um José Afonso do estúdio.
Nas suas actuações, Zeca far-se-ia sempre acompanhar por um viola e pouco mais, reduzindo a sua música ao osso, a uma função eminentemente política e a uma extensão da fraternidade – as canções como prolongamento de uma partilha maior de valores, lutase e crenças. Daí que, em 1972, quando avança para a gravação de Eu Vou Ser Como a Toupeira, o músico pareça querer recuperar igualmente essa ideia de espelho fiel: olha-se o estúdio e vê-se o palco. Ao contrário do que acontecera em Paris com José Mário Branco, aqui não há músicos de sessão, há antes uma convocatória distribuída entre amigos e companheiros de estrada portugueses e galegos. José Jorge Letria, que muitos palcos partilhara já com Zeca, foi um dos que seguiu para Madrid. As suas palavras caem dentro dessa definição: “Creio que ele procurava um compromisso entre o total improviso do palco e a rigidez planificada do estúdio de Hérouville. Para ele o clima era este – trabalho de grupo. Ele era um obcecado com o colectivo porque queria sempre diluir o seu protagonismo natural e legítimo. Ele era mais um. Era um companheiro, um camarada, um militante de base”.
A decisão é, de facto, levada quase até às últimas consequências. Em Eu Vou Ser Como a Toupeira a ficha técnica não nos diz quem tocou o quê. O “trabalho de grupo” varre para debaixo do tapete os protagonismos, as maiores contribuições e esconde também quem, na verdade, mal deixou a sua marca no disco. Há uma recusa de hierarquização. A obra colectiva é, no entender de José Jorge Letria, “uma expressão política do pensamento político” de José Afonso. Ele que subia a um palco e anunciava “Eu não sou um cantor, sou um animador”, ele que subia a um palco e declarava “Eu não faço espectáculos, faço sessões populares”, ele que olhava para as salas onde era convidado a actuar como “tribunas de comício” e para os concertos como “actos essencialmente políticos e não tanto artísticos”. Letria e Fanhais andavam com ele “numa roda-viva, sobretudo nas zonas operárias, desde os estaleiros de Viana até à Marinha Grande e ao Alentejo e Margem Sul”. Nessa altura, no período chamado “pós-Zip” – pós-69 -, actuavam juntos três e quatro vezes por semana.
Depois desses concertos, não raras vezes, Zeca acabava a pernoitar em casa de Letria, para os lados da Avenida de Roma, Lisboa. Foi nesse contacto mais íntimo e longe dos ouvidos indiscretos que o seu companheiro de tantos palcos tomou contacto com o método de composição: “Ele normalmente ia a trautear, a assobiar as canções e então precisava urgentemente de um gravador que tivesse ali ao pé para assobiar, trautear, registar uma estrofe ou duas”. “Depois”, acrescenta Carlos Alberto Moniz, “enchia a cassete, virava o lado, aquilo acabava e virava outra vez – chegava a levar quatro banhos de música e, claro, ia apagando as primeiras ideias”. As canções eram depois construídas em torno
dessa referência melódica base.
O ambiente de pouca planificação atravessa a semana de gravação nos Estúdios Cellada.
As músicas, segundo recordava José Niza, eram alinhavadas de véspera, no hotel, e levadas para estúdio sem uma forma final muito rígida. Os ensaios, lembra, Moniz, nunca foram algo que Zeca apreciasse especialmente. Tanto que o grupo chega a encontrar-se antecipadamente com o galego Benedicto Garcia em Setúbal, mas apenas “dois ou três dias antes” da partida para Madrid. Moniz conta até que, nessa mesma altura, e antes de um concerto importante na Fête de l’Humanité, em Paris, no mesmo palco por onde passariam Mikis Theodorakis ou Leonard Cohen, tinham passado uma semana na Fuzeta para ensaiar. Mas os ensaios acabavam sempre empurrados para fora dos dias. “O Zeca punha o seu kimono e íamos todos correr para a areia primeiro, antes de ensaiar. Como
pessoa talentosa que era, inventava tudo para não ensaiar. Corríamos na areia, ele ensaiava os passos de judo e depois à noite, antes do ensaio, era capaz de vir dizer ‘hoje dá ali um filme bestial’. Eu a pensar que era um Truffaut ou um Renoir e era um filme de kung fu. Mas íamos todos ver o kung fu e, no final, ele dizia ‘Bestial, agora que a gente descomprimiu o ensaio vai correr bem’ e ensaiávamos às tantas”.
A maioria dos músicos vai chegando de comboio à capital espanhola e ao grande apartamento que Arnaldo Trindade lhes alugara na Torre de Madrid -arranha-céus numa das principais artérias da cidade -, enquanto Zeca parte com Carlos Alberto Moniz e a sua mulher Maria do Amparo num dois cavalos vermelho. Para Letria, “ele percebe com o José Mário que há um horizonte orquestral que tem de aproveitar e que vai enriquecer a sua música. A partir desse momento acaba o clima de happening que caracteriza as gravações dele. Mas, apesar de tudo, o Eu Vou Ser Como a Toupeira ainda é marcado por esse clima, uma situação em que chegamos ao estúdio e nada está pré-programado”. Até por isso, Letria chega a pôr-lhe a questão de não ser “propriamente o instrumentista que Zeca
precisava de ter”, alguém como fora Bóris até aí e seria Yório Gonçalves daí em diante, na posição de guitarrista-âncora.
Só que o espírito que atravessava os vários quartos do apartamento conservava ainda “um ambiente de euforia colectiva que tinha muito de república coimbrã, daquela Coimbra académica, boémia, conspirativa”. À noite fazia-se o brainstorming em torno das canções, procedia-se a uma distribuição de funções e papéis – “amanhã avançamos com esta, tu tocas esta guitarra, tu tocas aquela, tu fazes a percussão” – e iam-se juntando ideias voadas de todos os lados, dando sustento e corpo à ideia de criação colectiva. A presença dos músicos galegos nesse grupo adquiriria uma dimensão simbólica – o papel de Benedicto (do grupo Voces Ceibes), Pepe Ébano ou Maîte é, ao contrário do de Carlos Villa, de uma diminuta relevância musical, fortificando e oficializando sobretudo a relação próxima com aquela região. Ainda hoje, de resto, José Afonso é celebrado na Galiza como um dos seus.
Mas de onde vinham estes dois pilares – José Jorge Letria e Carlos Alberto Moniz – com quem nunca tinha gravado antes? “Ao Zé Letria que também sofre de azia” – assim se lê na dedicatória que lhe faz de um poema escrito em Maio de 1973 na prisão de Caxias – conhecera-o em 1968, recém-regressado de Moçambique, num convívio universitário da Faculdade de Direito de Lisboa. Como também ele era um fazedor de canções em português, rapidamente integrou o pequeno grupo dos cantores de intervenção. Moniz, chegado dos Açores para estudar Agronomia, apresentava-se sempre na primeira fila das noites organizadas pela associação de estudantes no anfiteatro da sua faculdade, de guitarra descansada no colo, à espera que alguém desse por ele e o chamasse para o palco. Esse alguém foi Adriano Correia de Oliveira. “Não és tu o puto dos Açores?”. Moniz soltou um tímido “Sou”. “Então amanhã temos gravação”. Na gravação, de temas tradicionais açorianos, conheceu Zeca que com o mesmo desprendimento o informa: “vais tocar comigo também”. O terceiro pilar, José Niza, era um velho conhecido que acompanhava desde as digressões da Tuna Académica de Coimbra em 1958.
A partir daí, chegados ao estúdio, era sobretudo o instinto musical de Zeca que guiava o grupo, que seguia atrás de si. Na descrição de Letria “havia ali uma grande imprevisibilidade e um grande improviso, mas que correspondia a uma coisa em que todos acreditávamos muito que era uma intuição apuradíssima que ele tinha. Às vezes parecia uma coisa pouco sustentada e até ridícula, mas aquilo correspondia sempre a uma coisa estruturada, profunda, sentida, porque ele era realmente um génio musical. Nas palavras não mexia; agora, não cantava duas vezes a mesma coisa da mesma maneira”. O resto, na verdade, estava em permanente mutação, até porque os períodos de estúdio eram de grande ansiedade e nervosismo para José Afonso – que podia perder-se (nos seus passeios pela cidade ou em idas ao cinema), ter uma crise a que chamava “uma pedra no diafragma” ou outro acontecimento inesperado. Gravar, acredita Letria, era para Zeca “um martírio”. E só o fazia, acredita ainda, para justificar o adiantamento de Arnaldo Trindade.
Na verdade, acredita ainda mais um pouco, não sentia necessidade de registar as canções.
Apesar disso, era exigentíssimo, destoando em grande escala do comportamento tipo que estamos habituados a associar aos músicos mais canónicos: “estão sentados, a ouvir, não querem barulhos, sentados à frente da mesa de mistura e absolutamente concentrados”.
“O Zeca não”, ressalva. “Era um peripatético, andava permanentemente em circulação, de mãos nos bolsos, e tanto andava na régie como no estúdio. Mas com uma atenção permanente e total. E portanto vinham-lhe umas centelhas, umas iluminações, umas sugestões e isto mudava tudo”. Um desses momentos iluminados aconteceria quando, à procura de um som de percussão que não conseguiam encontrar, Zeca ouviu às tantas Niza num momento de pausa na régie a mastigar um bocadillo de presunto e percebeu que era esse o som que procurava, gravando-se então José Niza a comer com microfone cuidadosamente apontado à sua boca. Essas centelhas, no entanto, exigiam frequentemente aos instrumentistas uma descodificação em que importava uma sintonia mais poética do que propriamente musical. Segundo Moniz, “o Zeca conseguia transmitirnos o que queria, como os publicitários quando querem um jingle, dizendo coisas como ‘queria assim um som castanho, com um ataque entre o ferro e o bronze’. E a gente conseguia”.
Daí que as canções tenham chegado ao estúdio de Cellada não com uma forma final, fechada, mas antes em aberto, erguendo-se a partir dos esboços preparados mas abertas para as ideias em resposta àquilo que ia ficando cravado no esqueleto de cada tema. Um dos exemplos perfeitos deste método terá sido “No Comboio Descendente”, música sobre poema de Fernando Pessoa, congregador de uma série de palpites, sugestões e ideias que tornaram o seu registo especialmente sinuoso. Letria lembra igualmente “Ó Ti Alves”, com um forte cunho de Carlos Alberto Moniz, e que se socorre de parte de um pregão como tentativa de Zeca “aproximar-se o mais possível do clima de algumas canções numa perspectiva neo-realista dos sons que ouvira em África na infância ou mesmo mais tarde”.
Esse cunho, ressalva Moniz, faz de Eu Vou Ser Como a Toupeira um disco algo irregular, a que – para o bem e para o mal – falta “uma unidade nos arranjos”. Num tema é o cunho de Moniz que sobressai, noutro é o de Benedicto, noutro ainda é o de Niza, etc. Um dos temas que, curiosamente, não levantou dificuldades de maior foi aquele que serve de arranque ao álbum: “A Morte Saiu à Rua”. Na verdade, o problema com a canção fora anterior à partida para Madrid. Tentando ludibriar a censura, e depois de lhe perceber as manhas, José Niza pede a Zeca Afonso que o municie de poemas propositadamente mais carregados politicamente que não estão sequer previstos seguir para gravação. Servem apenas de manobra de distracção preparada para saciar a sede de cortes dos censores, preservando intacto o grupo de canções originalmente pensado para as gravações. No caso de Eu Vou Ser Como a Toupeira acontece que “A Morte Saiu à Rua”, tema-charneira do disco, é censurado num primeiro momento. Niza convida então o ex-coimbrão Pedro Feytor Pinto, ligado à censura, para um almoço no restaurante A Varanda do Chanceler. O acordo de cavalheiros entre ambos solta o tema e permite que todos aqueles que faziam parte do plano de gravação passem incólumes, sem riscos feitos a lápis azul.
E passou também, naturalmente, o tema que baptizou o álbum. Em entrevista ao próprio José Jorge Letria, então jornalista no República, Zeca reconhecia ter de se fazer modelo das toupeiras. Havia que “abrir galerias subterrâneas, ir rasgando caminho”. A canção, por muito bonita que fosse, não podia ser mero adorno.”
Gonçalo Frota, Maio de 2012*
* Texto escrito a propósito da reedição da obra de José Afonso pela editora Art Orfeu.
Inauguração da Exposição “Desta Canção que Apeteço”, obra discográfica de José Afonso 1953/1985, em Viana do Castelo, com o apoio da Câmara Municipal.
A sessão contou com uma visita guiada pela Helena Carmo, em nome da AJA, falou o sócio fundador da AJA, Otelo Saraiva de Carvalho e pela Câmara Municipal, a Dra. Maria José Guerreiro, vereadora da cultura, do Município de Viana do Castelo.
Os onze álbuns do cantautor português José Afonso começam a ser reeditados a partir de segunda-feira com o lançamento de “Cantares de Andarilho” (1968) e “Contos velhos, rumos novos” (1969), os dois primeiros registos do músico.
A editora Orfeu vai reeditar, ao longo dos próximos doze meses, todos os álbuns de José Afonso publicados entre 1968 e 1981, assinalando desta forma os 25 anos da morte do compositor.
Os onze álbuns foram restaurados e remasterizados digitalmente, pelo engenheiro de som António Pinheiro da Silva, e a edição conta com novos textos que contextualizam o momento em que foram feitos no percurso de José Afonso.
Antes de gravar “Cantares de Andarilho”, em Lisboa, José Afonso gravou vários EP de baladas em Coimbra, onde estudou e se tornou num dos nomes da canção da cidade, viveu e deu aulas em Moçambique, país na altura em convulsão e onde disse ter vivido o “batismo político”.
Sem recorrer à guitarra portuguesa, e sem formação musical, José Afonso gravou “Cantares de Andarilho” com a colaboração do guitarrista Rui Pato, que o acompanharia também em várias atuações ao vivo.
O álbum, que inclui um texto de apresentação do escritor Urbano Tavares Rodrigues, tem no alinhamento temas como “Natal dos Simples”, “Canção de embalar”, “Senhora do Almortão” e “Vejam bem”, pensado originalmente para concorrer ao festival da canção de 1967.
Como o contrato com a Orfeu e com o editor Arnaldo Trindade estipulava a edição de um disco novo por ano, José Afonso editou em 1969 “Contos velhos, rumos novos”, o álbum em que se denota a influência de África e da tradição popular portuguesa.
Com Rui Pato à viola, José Afonso, então com 40 anos, acrescentou outros instrumentos, como o bombo e a harmónica, ampliando a riqueza musical das canções.
Do álbum fazem parte “Bailia”, “S. Macaio”, “Qualquer dia” e “A cidade”, canção feita com José Carlos Ary dos Santos.
De acordo com o plano editorial da Orfeu, na segunda quinzena de maio sairão “Traz outro amigo também” (1970), “Cantigas do Maio” (1971) e “Eu vou ser como a toupeira” (1972).
Durante o mês de outubro está previsto o lançamento de “Venham mais cinco” (1973), “Coro dos tribunais” (1974) e “Com as minhas tamanquinhas” (1976).
Entre março e abril de 2013, serão editados os últimos três álbuns: “Enquanto há força” (1978), “Fura fura” (1979) e “Fados de Coimbra” (1981).
José Afonso morreu a 23 de fevereiro de 1987, aos 57 anos, vítima de esclerose lateral amiotrófica.
Entre Abril de 2012 e Abril de 2013, a Orfeu, selo recuperado pela Movieplay, vai reeditar 12 álbuns de José Afonso.
Do plano fazem parte os discos Cantares de Andarilho (1968), Contos Velhos Rumos Novos (1968), Traz Outro Amigo Também (1970), Cantigas do Maio (1971), Eu Vou Ser Como a Toupeira (1972), Venham Mais Cinco (1973), Coro dos Tribunais (1974), Com as Minhas Tamanquinhas (1976), Enquanto Há Força (1978), Fura Fura (1979) e Fados de Coimbra e Outras Canções (1981).
Às lojas voltará também De Capa e Batina , conjunto de EPs de fados de Coimbra, já editados em CD.
Na BLITZ de fevereiro, já nas bancas, José Mário Branco, que trabalhou com José Afonso de 1970 em diante, e o jornalista Gonçalo Frota, que está a escrever os textos que acompanharão as reedições, falam da necessidade de recuperar José Afonso, o músico, por vezes ofuscado pelo ícone de resistência política.
“[Chamar-lhe cantor de intervenção] é uma maneira de diminuir o alcance da obra dele, porque a obra do Zeca tem algumas canções políticas, contestatárias, de protesto, de testemunho de lutas concretas. Mas tem muito mais que isso: tem canções de amor, canções poéticas, canções de todo o género”, lembra José Mário Branco.
“A influência do José Afonso hoje entra pelos olhos dentro, do B Fachada à Cristina Branco, aos Deolinda… é muito evidente que a influência que esta obra deixou é absolutamente transversal e esmagadora”, salienta Gonçalo Frota, destacando ainda a influência da música africana na música do autor de Cantigas do Maio .
“Hoje em dia toda a gente anda a ir buscar África. Parece que é o grande maná, para toda a banda pop-rock indie que queira parecer moderna para o mundo. E este homem andava a fazer isto na década de 70!”.
O catálogo da exposição discográfica “Desta canção que apeteço – Obra discográfica de José Afonso 1953//1985” já se encontra à venda na AJA.
Enviem um email para a AJA com o vosso pedido.
Preço: 15€ + portes
Arnaldo Trindade mostra-nos uma dedicatória: “Adversariamente, mas com admiração, José Afonso”. Afonso, tal como Adriano Correia de Oliveira, tal como muitos dos autores editados por Arnaldo Trindade, defendia a esquerda revolucionária. Trindade, por sua vez, tinha em mente “uma ideia democrática americana” – hoje, confessa, não sabe como se há-de definir. Estavam, porém, do mesmo lado da barricada. Claramente: “Era preciso ir mais à frente para conseguir mudar o sistema, para conseguir a utopia que sempre defendi, tal como Zeca Afonso, de uma sociedade mais igualitária. A nossa política era a utopia”.
Era. Arnaldo Trindade que, enquanto editor, era responsável perante a PIDE pelas edições, assumia essa responsabilidade sem constrangimentos. Até porque, apesar de “em momentos mais complicados” ter de correr a esconder os discos debaixo da cama dos filhos, o seu “único disco proibido” foi, conta, “Je t’aime, moi non plus”, de Serge Gainsbourg e Jane Birkin – apareceu o oficial da PIDE e apreendeu-o, mas não sem antes reservar “três ou quatro para si”.
Excerto de entrevista de Mário Lopes a Arnaldo Trindade. Texto completo aqui.
Arnaldo Trindade, o principal editor discográfico de José Afonso, será o entrevistado de José Fialho Gouveia, no programa “Bairro Alto”.
RTP2 |2011-09-20 | 23:42h
Miguel Torga, Eugénio de Andrade, Adriano Correia de Oliveira, Zeca Afonso, Fausto, Sérgio Godinho. São apenas alguns dos nomes que fazem parte do catálogo da editora Orfeu, nascida nos anos 50 e que revolucionou o mercado discográfico português. O seu fundador, Arnaldo Trindade, nascido no Porto em 1934, é o convidado do Bairro Alto de hoje. Desativada nos anos 80, a Orfeu está de volta com o objectivo de voltar a disponibilizar algumas das obras marcantes que fazem parte do seu catálogo, não perdendo de vista o lançamento de novos valores. Mais informação

José Afonso e Adriano Correia de Oliveira com Arnaldo Trindade