Visão Biografia: José Afonso

José Afonso lembrado na exposição “Primaveras Estudantis” (patente até 25 de abril no Convento São Francisco, em Coimbra) através de uma das fotografias de um concerto nos jardins da Associação Académica de Coimbra, que foi palco de vários encontros culturais durante a crise académica de 1969, e que contaram com a presença de José Afonso e Rui Pato, entre outros.
A fotografia é acompanhada da seguinte legenda: “Zeca Afonso durante um espectáculo em solidariedade com os estudantes. A fotografia foi impressa como postal e vendida, tendo a receita revertido em favor do cantor e compositor, impedido de trabalhar pelo regime fascista”
Nesse dia, José Afonso terá deixado a seguinte mensagem:
“Lembra-te que o dia de amanhã é o dia de hoje que tu ontem tanto temias”.

A página da cronologia da vida e obra de José Afonso, seguindo a apresentada por João Afonso dos Santos no livro “José Afonso – Um Olhar Fraterno”, acaba de ser actualizada. Visitar página.

Partilhamos aqui um conjunto de fotos do arquivo da Associação José Afonso, ao qual faltava uma contextualização completa. No entanto, graças à generosa partilha de Luís De Paula Campos no Grupo de Amigos de José Afonso, o “puzzle” ficou praticamente resolvido. Trata-se de um “álbum”, datado provavelmente de 1966, onde José Afonso, na altura professor no Liceu Pêro de Anaia, na Beira, em Moçambique, ensaia com o célebre conjunto “Os Rebeldes” no Grupo Dramático Eduardo Brazão, ao lado da Catedral.
Se alguém quiser acrescentar alguma informação adicional…
Muito obrigado ao Luís De Paula Campos e a todos/as que nos ajudam neste caminho de descoberta da vida e obra de José Afonso.
José Afonso, acompanhado à viola por Levy Batista, em Chinguar, Angola, 1958, durante a digressão da Tuna Académica da Universidade de Coimbra (TAUC). À esquerda de José Afonso, sentado, está David Leandro, e atrás, José Niza, ambos parte do grupo que acompanhava José Afonso, assim como Sousa Rafael.Esta foi uma das fotografias que a simpática direcção do Orfeon Académico de Coimbra partilhou connosco depois de uma visita aos seus arquivos na Associação Académica de Coimbra. Em breve partilharemos mais algumas descobertas.

« Rosas de Ermera» disponível na RTP Play.
Partindo das memórias dos irmãos sobreviventes e das músicas de José Afonso, Luís Filipe Rocha conta-nos a história da família em Timor durante a II Guerra Mundial. Um documentário essencial para compreendermos a vida e obra de José Afonso.


Júlio Pereira
Fotos de Kok Nam.
Zeca Afonso passou pela Estudantina de S. Domingos de Rana antes do 25 de abril. Atraves de testemunhos de Arnaldo Trindade, José Jorge Letria, Jose Manuel Tengarrinha, Tozé Brito e José Rodrigues, recordamos esses tempos da censura e a escolha de “Grândola Vila Morena” para ser a senha da Revolucao.
Reportagem: Laís Castro e Ana Laura Imagem e Edição: Ana Laura

Nos meados dos anos sessenta (1965), aluno do então 4º ano do liceu, em Lourenço Marques, vi na pauta que esse ano teria como professor de geografia e história um tal de José ( nota: a pauta omitiu o nome Afonso) Cerqueira dos Santos, ilustre desconhecido. O professor, soube depois, tinha sido proíbido de ensinar no então continente e desterrado em Moçambique, sob condição, da PIDE, de não se meter em política. Sentado na primeira fila da aula, reparei no primeiro dia de aulas que o professor trazia um par de peúgas de cores diferentes. Penteava-se com os dedos. O ar era displicente, o sorriso cúmplice e doce. Tais ingredientes, por serem nesse tempo contra a corrente, fascinaram-me. Apresentou-se timidamente e omitiu a actividade no mundo das cantigas. Era um professor excepcional. Incitava-nos à investigação e a questionar tudo, desde os manuais a ele mesmo. Retive para sempre uma frase:” Não estou aqui para impingir, mas para insistir e resistir, convosco de preferência”.
Um dia, na discoteca Baily, em Lourenço Marques, descobri entre os velhos discos em saldo, um single com o meu professor agarrado a uma velha viola. Zeca Afonso. Duas músicas: “Menino do Bairro Negro” e “Natal dos Simples”: Comprei o disco. Na aula seguinte, quando os colegas tinha saído, confrontei o professor com o disco. Disparou, estupefacto: “Onde é que arranjaste isso?”. Expliquei o que se tinha passado. O espanto do mestre era legítimo – ele fora expulso de Portugal e proscrito nas rádios justamente por causa daquele disco e das posições que defendia em defesa dos humilhados, contra a hipocrisia intelectual dominante, todos os dogmatismos e o regime fascista.
Havia, no então Rádio Clube de Moçambique, um programa em que semanalmente eram divulgados os cantores mais votados. Elvis Presley liderava. Organizei no liceu uma votação para o disco do nosso professor. Teve adesão maciça. Na semana seguinte, Zeca Afonso liderava o “Hit Parade” e assim esteve durante nove semanas. Tive que emprestar o disco ao radialista João de Sousa, mais tarde meu colega, que desconhecia o autor. A PIDE acordou. Mandaram confiscar o móbil do crime, sentenciando a proibição do cantor. Por essa altura, já eu andava em tertúlias clandestinas com o meu professor. Ele cantava. Eu dizia o “Mostrengo” de Fernando Pessoa. Imaginam o resultado: no fim do ano, a PIDE decretou novo exílio ao professor, que foi ensinar para o Liceu Pêro de Anaia, na cidade da Beira, a mais de 500 quilómetros. Depois, seria recambiado para Portugal e definitivamente banido do ensino.”
Guilherme Pereira
Foto e texto retirado daqui
Conheci-o na Beira, aí por alturas de 1959. Era professor do Liceu. Pediu-me para lhe arranjar um guitarrista, pois sabia compor, cantar e de que maneira, mas os seus conhecimentos na guitarra eram parcos, como me confessou.
Falei com o Fernandes, amigo, que tinha um conjunto que tocava no Beira Terrace nos fins de semana e feriados.
O Fernandes era pai da Zizi, uma cantora de muito mérito e que num concurso promovido pelo Rádio Clube de Moçambique, “Moçambique a cantar” ou coisa parecida, foi destronada por uma cançonetista bastante inferior, mas que era filha do então Presidente da Câmara Municipal da Beira. Para ser agradável ao Zeca, que já tinha nome pelas canções que se ouviam muito em segredo, o Fernandes lá tentou o guitarrista. Não soubemos se o conseguiu ou não pois entretanto fomos transferidos para Lourenço Marques. Aqui, decorridos alguns meses encontrámo-nos de novo nas tertúlias do Café Continental, onde na companhia do Dr. Filipe Ferreira, Dr. Barradas, mais tarde professor do Conservatório Nacional, Armando Morais, o médico dos C.F.M., Zeca Afonso, sempre só e nós, com as respectivas esposas, conversávamos sobre os problemas que então nos inquietavam. E eram muitos. A guerrilha no norte, a política na Metrópole, a incerteza de um futuro que muitos de nós acreditávamos ser de crise grave, a polícia secreta, que sabíamos estar ali ao nosso lado tentando escutar as nossas conversas, as injustiças que havia em determinados sectores da Administração Pública, nomeação de pessoas colocadas directamente pelo Governo Central em lugares que gostaríamos de ver ocupados por moçambicanos, a falta de liberdade de imprensa que era obrigada a publicar notícias, que só poderiam ser compreendidas pelas entrelinhas, a leitura do Le Monde, que o Armando Morais recebia directamente do Consulado Geral da França em Lourenço Marques e que era proibida e que passávamos uns aos outros para ler sofregamente pois dava especial realce às notícias sobre Portugal, a politica ultramarina do governo de então e a forma como era entendida a guerrilha pelas nações europeias e Estados Unidos e a possível independência de Moçambique, tendo em vista a posição dos Democratas de Moçambique, bem como as ideias oriundas da Frelimo, tudo bem reflectido pelos vários comentadores do Le Monde.
O Zeca muito dado a explosões de revolta, exprimia-se quase sempre em voz alta, não se importando que estivessem ou não na vizinhança os pides que vigiavam o local. Alguns não disfarçavam e olhavam em desafio para a nossa mesa, como se fossemos nós agentes do mal…Sabíamos quem eram, pois não era normal que para ali viesse tanta gente, desconhecida, com aquela côr “muito branca”…de quem chegara recentemente da Metrópole.
As nossas tertúlias do Café Continental!… Ainda hoje nos lembramos de como nos faziam bem…
Consulte aqui o dossiê de 12 textos disponibilizados pela Câmara Municicpal de Setúbal no seu sítio.

«Mandei-lhes um telegrama. Podes pôr isso lá no jornal?»
Olhei José Afonso ainda surpreso pelas suas palavras ciciadas quando o visitei em finais de Junho de 1986. A doença avançava a olhos vistos e fitei-o de novo sem perceber totalmente o alcance da sua pergunta.
Instantes depois tudo se esclarecia: o cantor desejava publicitar que enviara ao Presidente da Guiné-Bissau Nino Vieira um telegrama de apoio para que não fossem fuzilados os seis condenados à morte envolvidos no caso Paulo Correia. Ao tomar esta atitude, José Afonso invocou razões de humanidade e as tradições humanísticas do PAIGC fundado por Amilcar Cabral.
Mesmo aqui, na aparente dissonância em relação ao Partido no poder em Bissau, José Afonso não questionava o processo político guineense nem o apoio que mantinha em relação a todos os movimentos de libertação africanos das ex-colónias portuguesas.
De resto, a realidade colonial que conheceu de perto, sobretudo em Moçambique, foi marcante na sua formação política e até na sua música.
Sempre de costas para o poder, apenas se lhe reconhecem dois períodos, ou situações, em que lhe concedeu o seu apoio: no período de 25 de Abril a 25 de Novembro, colaborando activamente com as iniciativas da 5ª Divisão e do MFA em relação aos regimes de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e S. Tomé. Esta postura perante os vários e sucessivos poderes, aqui e além fronteiras, é um dos aspectos mais salientes da sua obra.
Curiosamente, apenas uma vez José Afonso concede comparecer a um jantar de Estado, no Palácio da Ajuda: aquando da visita de Samora Machel a Portugal, com quem na ocasião estabelece uma breve conversa.
Era um homem em desobediência civil permanente assumindo-a no sarcasmo e na ironia com que encarava o pomposo da realidade, da vida, da morte ou do Estado.
E todo este olhar perante o mundo se desdobra em sucessivas canções desde a época coimbrã ao período pós-25 de Abril, abrindo perspectivas inovadoras na música popular portuguesa e acabando por constituir um ponto de referência política e ética para várias gerações.
Exigente em tudo o que fazia, excessivo no juizo crítico e na vigilância que impunha a si próprio, José Afonso sempre se escusou a admitir ser um mito. Em todo o caso, para além da sua vontade, ele é hoje, mais do que nunca, um mito do imaginário referencial, quer dos seus admiradores quer de quantos dele divergiam.
«Eu um mito?» – interroga-se um dia. «Só sinto que sou mito quando me falam disso. O facto é que em muitos ambientes fui bem estimado e em outros hostilizado de modo grosseiro».
Envolvido na timidez dos seus gestos e na sobriedade das suas atitudes, o autor de «Menino do Bairro Negro» tem uma infância repartida por Aveiro, onde nasceu em 1929, Angola, Moçambique, onde o pai desempenhou sucessivamente funções de Procurador da República e de Juiz.
A experiência africana infantil permanece-lhe na memória assim como a imagem do pai, de quem fica afastado largos anos, quando este parte para Timor durante a II Guerra e para Moçambique mais tarde.
Todo o espaço de liberdade e subversão transmitido pela realidade física africana transparece na sua obra e nas suas obsessões, assim como muitas das suas referências surrealizantes expressas nas suas canções.
Do pai herda o rigor ético e a pesquisa da informação cultural que passa pelos clássicos portugueses (ao fim da tarde, ele reunia os filhos – João e Zeca e Mariazinha – e lia-lhes poemas de Camões…) e por escritores como Proust e Romain Rolland. Mas para além disso, José Nepomuceno transmite ao filho José Afonso o grande prazer de conversar. «Meu pai queria que eu fosse doutor e não cantador. No final da sua vida já aceitava, quando soube que eram canções contra o regime. Mas o pai de José Afonso morreria sem nunca o ter ouvido cantar.
No quotidiano, do autor da «Canção do Medo» entravam inúmeras histórias, recordações e vivências que contava aos amigos durante largas conversas.
Conversador, contador de histórias, José Afonso não esqueceu os tempos passados em Belmonte, onde um tio lhe vestiu a farda da Mocidade Portuguesa sem lhe esconder as suas tendências salazaristas e pró-hitlerianas.
Quando José Afonso começa a cantar, em Coimbra, por volta do 6.º ano do liceu, está próximo o seu casamento com Amália, de quem vem a ter os seus dois primeiros filhos. O casal encontra dificuldades de ordem diversa e pela primeira vez o cantor experimenta na carne as agruras da vida. Matrimónio desfeito, dificuldades económicas, remete os filhos para Moçambique, onde são recebidos em casa dos pais. Sua irmã Mariazinha, a quem o liga um afecto particular, desempenha um papel particular nesta conjuntura.
Em Coimbra, José Afonso passa pelas Repúblicas, onde conhece a solidariedade e a boémia académica. Tem os primeiros contactos com clubes recreativos e joga futebol («Entreguei-me totalmente à mística da chamada Briosa»), acompanhando a Académica um pouco por toda a parte.
E canta, em serenatas, «em festarolas de aldeia, outras vezes em casa… Era um sujeito qualquer que queria convidar uns tantos estudantes de Coimbra, enchia-nos a barriga de vinho, e a malta cantava…». Nos finais dos anos 40, quando Carmona passa de comboio por Coimbra em campanha contra Norton de Matos, Zeca, de emoção, cchora que «nem um vitelo» ao ver o antigo chefe de Estado. É o tempo das boleias, da capa e batina («Porque um tipo de capa e batina era rei nas estradas») que lhe permite os primeiros contactos com os meios miseráveis do Porto, no Bairro do Barredo, que motivará a canção «Menino do Bairro Negro».
Sem uma postura ainda politizada, José Afonso é sensível aos dramas sociais que as suas viagens lhe desvendam.
Só em 58/59 com o surgimento de Humberto Delgado e a crise académica de 1962 – já José Afonsoi dava aulas e conhecera Zélia – se processa uma viragem na sua evolução político-cultural. O alvoroço político provocado tanto pelo general Humberto Delgado como pelo movimento estudantil de 62 reflectem-se na própria obra de José Afonso. É de 1958 a publicação do seu primneiro disco – «Baladas de Coimbra», com «Menino d’Oiro», «No largo do Breu», «Tenho barcos, tenho remos» e «Senhor Poeta», canções que se desviam da tradição coimbrã pura, tanto nas temáticas como na interpretação. Zeca é apenas acompanhado à viola por Rui Pato. Como tantas vezes sucederá ao longo da sua vida, apenas suportado por cordas de viola. Não havia as guitarras de Coimbra que Adriano Correia de Oliveira, por exemplo, nunca abandonaria.
Os discos posteriores aprofundam esta experiência. Continua Rui Pato, a acompanhá-lo sozinho, e os poemas são mais empenhados do ponto de vista social: «Menino do Bairro Negro» e depois «Vampiros», uma balada emblemática das suas posições antifascistas.
Evidentemente que nesta época José Afonso não abandonou o lirismo de Coimbra – que de resto o acompanha um pouco por toda a vida, assim como o fado de Coimbra, como se verifica em 1980 quando publica o seu album «Fados de Coimbra», dedicados à memória do seu pai e de Edmundo Bettencourt (um dos seus poetas preferidos). Mas a componente social continua a marcar preferencialmente a sua obra.
As dificuldades económicas que atravessou em Coimbra obrigaram-no a abandonar os estudos e a daegrinação docente iniciada em Mangualde acaba por conduzi-lo até ao Algarve, onde convive com Luiza Neto Jorge, António Ramos e Zélia, com quem – «um pouco ao jeito siciliano» – acaba por casar contra a vontade da família da noiva.
A companhia da Zélia é determinante na evolução do poeta. Abrindo-lhe espaço para os seus devaneios criativos, escutando-lhe os rumores e os humores, envolvendo-o numa serena e profunda ternura, Zélia seguiu-lhe o percurso e apoiou-o onde a sua acção foi indispensável. Seria ela a sugerir-lhe o regresso a Moçambique para assim poder acompanhar os filhos do primeiro casamento. E em 1964 José Afonso está de novo no então Lourenço Marques onde uma vez mais sente o peso da exploração colonial.
De Lourenço Marques salta para a Beira. Aí assiste revoltado às festividades dos colonos portugueses que apoiam a independência unilateral da Rodésia de Jan Smith. Apesar da presença do irmão João Afonso e dos amigos do cineclube local que chegam a encenar Brecht com músicas suas, José Afonso não resiste e volta a Lisboa em 1967 na disposição, como revelou a Adelino Gomes, à chegada, de ser apenas e exclusivamente professor.
Instalado em Setúbal, os seus desígnios não serão satisfeitosw e a expulsão do ensino oficial por motivos políticos impele-o para as cantigas. O destino era-lhe um tanto traçado pelas perseguições da Polícia Política. E abre-se um novo ciclo, marcado pelo aparecimento em 1968 do album «Cantares do Andarilho».
Até ao 25 de Abril, assistimos a um dos períodos mais fecundos e brilhantes da sua actividade artística que se confundia (ou fundia) com uma intensa actividade de agitação política clandestina, sobretudo os núcleos da LUAR e do PCP da Margem Sul.
Preso diversas vezes pela PIDE («como sabes eu estou preso mas também não sou um homem mau. Viste como foi. Não sejas rabugenta e ajuda o Pedro», escreve ele de Caxias à sua filha Joana em 1973), desenvolve uma dupla acção de agitação cultural e política que o leva a colectividades, clubes recreativos, associações culturais e sindicatos colaborando activamente no movimento constitutivo da Intersindical.
É neste período contactado da margem sul para aderir ao PCP mas recusa, invocando a sua condição de classe. «Respondi que não poderia ser elemento do PCP por várias razões, uma das quais era a minha origem de classe pequeno-burguesa. A única coisa que sabia de certeza eram as minhas limitações e não me arriscava a fraquejar. Se um dia fosse preso e denunciasse camaradas isso constituiria para mim uma experiência da qual nunca me sairia bem. Nunca perdoaria a mim próprio um momento de fraqueza desses. No fundo, gostava também de me movimentar numa certa margem de invenção. E pressentia que existiam outras forças embora o PCP fosse hegemónico naquela zona».
A escusa de José Afonso consagrava, afinal, a sua rebeldia permanente, o seu imaginário sem rédeas e possivelmente incompatível com qualquer disciplina partidária. E sugeria algo que sempre o perseguiu e de que sempre procurou libertar-se: o medo, embora a sua vida e prática social ilustrem a coragem da sua postura. Mas o facto de não aderir ao PC não impediu que as forças maoístas de vários quadrantes o classificassem depreciativamente, de, antes do 25 de Abril, «Amália do PC».
Mas também não o impediu de colaborar, antes e depois do 25 de Abril, com o seu PCP. O seu não alinhamento organizativo concedia-lhe uma grande margem de manobra suportado pelo seu talento artístico. Canta na Festa do Avante, em 1980, e durante a sua enfermidade Álvaro Cunhal, embora sem o visitar, coloca à sua disposição os seus préstimos caso houvesse notícia de cura para sua doença na URSS, como em tempos se admitira.
A CGTP vai um pouco mais longe e mantém-lhe um apoio inequívoco incluindo o de carácter material, como de resto várias outras entidades não oficiais, amigos e admiradores anónimos.
Sucessivamente publicará «Contos Velhos, Rumos Novos», «Traz Outro Amigo Também» e «Cantigas do Maio», com que inicia uma colaboração activa com José Mário Branco que se prolongou até hoje.
Este album marcará particularmente a sua carreira, pois nela se incluem «Cantar Alentejnao», canção mais conhecida por Catarina, e «Grândola Vila Morena». É sobretudo a partir deste trabalho que o chamado «nacional-cançonetismo», já na era marcelista, sente a necessidade de encontrar respostas musicais do regime face ao contar José Afonso.
Mas nascem novos cantores: José Mário Btranco, Sergio Godinho, Luis Cilia, Fanhais, Manuel Freire e mais tarde Vitorino, Fausto, Júlio Pereira e Janita Salomé, um grupo heterogéneo que comunga o mesmo referencial e o mesmo propósito: José Afonso e o alargamento dos espaços da música popular portuguesa.
Num outro plano, Adriano Correia de Oliveira, embora fiel às formas tradicionais de Coimbra, opta por dar voz à poesia de Manuel Alegre, que Zeca Afonso curiosamente nunca cantou.
Mas José Afonso e os outros cultores da chamada MPP criaram também um grau de exigência maior por parte do público, que se reflectiu tanto no panorama da música ligeira como no próprio fado. Amália pasa a cantar Camões, Alexandre O’Neill, Homem de Mello, David Mourão-Ferreira, e na chamada canção ligeira surgem intérpretes de maior qualidade como Paulo de Carvalho ou Fernando Tordo.
Ninguém ficou indiferente à acção musical de José Afonso, que até ao 25 de Abril ainda publicaria «Eu vou ser como a toupeira» e «Venham mais cinco».
O 25 de Abril, desencadeado por «GRândola Vila Morena», surpreende-o e «obriga-o» a participar activamente em todas as acções de massas. Ocupações de casas e terras no Alentejo, manifestações, comícios, acções de dinamização no nordeste, a tudo José Afonso se entrega de forma esgotante. Canta por toda a parte e só em 1975 volta a publicar um album – «Coro dos Tribunais» – com canções que fizera em Moçambique para a peça de Brecht e outros originais, como «Lá no Xepangara», que o revela ligado ao ritmo e tendências de África. Aqui, desempenha especial colaboração Fausto, também ele directo conhecedor dessas experiências musicais africanas.
Até ao 25 de Novembro é um verdadeiro rodopio, prevalecendo uma colaboração estreita entre o cantor e a LUAR. O desencanto posterior – jamais calará, por exemplo, o «escândalo dos salários em atraso», ou a situação de miséria da população trabalhadora da região de Setúbal, onde vive até morrer – os próprios acontecimentos que o levaram a escrever ao PAIGC, para Bissau, e posterior evolução política encenada pelos vários Governos constitucionais abrem-lhe espaço para se dedicar mais cuidadosamente à sua obra.
Os albuns «Com as minhas Tamanquinhas», «Enquanto Há Força» e «Fura-Fura», são verdadeiras crónicas do período revolucionário e pós-revolucionário. A história que se fez confunde-se com a sua vida e obra: sendo protagonista de tantos acontecimentos, é também o seu jogral / narrador.
Politicamente, manifesta o seu apoio claro a Otelo Saraiva de Carvalho em 1976 e em 1981, e estabelecdeu com ele uma amizade profunda. Nas eleições de 1986, José Afonso apoia Maria de Lurdes Pintasilgo, que corresponde às suas convicções, e confiança nas organizações populares de base, cujo papel social a ex-primeira-ministra se propunha enriquecer.
Com mos seus dois últimos albuns publicados em vida, «Como se Fora seu Filho» e «Galinhas do Mato» (este já com a colaboração vocal de outros cantores), José Afonso prossegue as suas vertentes estéticas e políticas. Por um lado, um grande enriquecimento musical a que não é estranho no primeiro caso a colaboração de Fausto, Júlio Pereira e José Mário Branco e, no segundo, a destes dois últimos. Por outro lado, José Afonso continua a sua actividade cronista e aponta a sua proposta utópica que sempre perseguiu em vida. A construção da cidade sem barreiras de homens iguais e livres é cantada em «Utopia» inserta no primeiro daqueles albuns.
Em cada disco que saía José Afonso encontrava motivo de crítica. Nunca um disco o satisdfez completamente. Depois de publicados, como confessava, era incapaz de se ouvir e de ouvi-los. Esta exigência sobre si próprio não o poderá agora assumir quando ainda este ano for publicado um novo album da sua autoria, para o qual deixou originais e todas as indicações. Provavelmente na capa seria ironizada a figura do presidente da Câmara de Lisboa, Nuno Abecassis – cuja vereação, posinal, já concedeu o nome de uma da rua da capital a José Afonso.
Mesmo depois de morto, José Afonso continua assim de costas viradas para o poder – que à boa tradição portuguesa se preocupa em fazer agora o que lhe recusou em vida.
Texto de José A. Salvador publicado a 28 de Fevereiro de 1987 no jornal «Expresso».

Diário de Coimbra | 27.2.2012
Via blogue de Octávio Sérgio
Artigo na revista Domingo, do jornal Correio da Manhã, de 19.02.2012
Do homem para quem um amigo era “maior que o pensamento” ficaram mais do que belas canções. “Confesso que o que me marcou foi o calor humano. Ele estava sempre rodeado de gente e a possibilidade de se crescer com debates contraditórios, que ele promovia, sobre temas que envolviam a nata da música e da literatura, arquitectos, operários e pastores, foi um privilégio”, recorda Helena Afonso.
A segunda dos quatro filhos de Zeca ainda se emociona ao falar do legado que supera em muito as ausências forçadas de um pai que, no tempo do antigo regime, decidiu cantar à esquerda. “O essencial era a transmissão através de afectos, conhecer pessoas, afastar o medo… Havia quem passasse lá por casa em períodos difíceis, na clandestinidade, e deixasse umas notas”, diz.
Vinte e cinco anos depois da morte, o cantor que se tornou o arauto da revolução de Abril ascendeu ao estatuto de lenda. A mensagem política superou o músico e o poeta. Mas essa faceta ficou nos mais próximos, que retêm na memória “a pessoa com enorme empenhamento humano, acentuada empatia pelos outros e sensível ao que se passava à sua volta”.
O tio, “que tirava do frigorífico um caril de frango e comia sem aquecer, que passou uma fase vidrado na macrobiótica e recebia com imensa alegria na casa branca de Azeitão” influenciou o sobrinho João Afonso, o único da família que também seguiu a música.
Já doente com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), nos últimos anos, José Afonso lamentava “que o reduzissem a cantor de intervenção, panfletário”, lembra Helena.

Aqui fica o primeiro de 13 vídeos, onde ficaram registados esses dois dias.
Toda a informação sobre o colóquio aqui
Veja os restantes vídeos na página Youtube da AJA
Caros amigos de José Afonso,
Só mais tarde, em Setembro de 1984, voltei a encontrar o Zeca em Tavira, na companhia do Pedro, mas já muito debilitado pela doença que o minava.
Aqui deixo o meu testemunho da breve passagem e relação do grande Zeca com Aljustrel.
Cordiamente
Francisco Colaço
Por Francisco Naia
“In Revista Memória Alentejana, Out.2007”
No café Santa Maria em FAro. Na fotografia, da dirtª para a esqª Zeca Afonso, Badu, Horácio Santos e Maria Paula, Engº Acácio Monteiro e esposa e Luis Valentim.
Fotografia encontrada aqui
Biografia retirada do livro de José Niza, “Fado de Coimbra II”, da colecção “Um Século de Fado” da Ediclube, saída em 1999.
Retirada do blog http://guitarrasdecoimbra.blogspot.com/
“Quem visita a cidade de Faro e não experimenta o peixe assado na casa de pasto Chalavar é o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa”, diz Victor Lourenço, pescador e proprietário do típico restaurante farense.
O “Chalavar” começou por ser um restaurante de rua, com caixas de fruta de madeira transformadas em mesas e cadeiras, onde se assava num pequeno fogareiro o peixe que sobrava da faina diária dos pescadores.
O peixe fresco da campanha diária começou a ser famoso junto dos comerciantes que vendiam no mercado as hortaliças e frutas e que passavam ali para fazer troca directa de produtos verdes por peixe fresco, recorda o dono do restaurante.
“Foi assim que nasceu a salada montanheira [tomate, pimento, cebola, pepino cortados aos cubos e temperados com azeite, vinagre e óregãos]. Trocávamos peixe por saladas e o restaurante nasceu”, afirma Victor Lourenço, acrescentando que mais tarde, na década de 1970, adquiriu o antigo restaurante da Dona Rita, já frequentado pelos cantores e músicos José Afonso e Janita Salomé.
O restaurante, dividido entre um pátio ao ar livre, a sala Zeca Afonso forrada de imagens do músico e uma sala maior no interior, ganhou um livro de honra em 1988, onde figuras públicas e políticas portuguesas comentam a qualidade do peixe e a hospitalidade no serviço.
“Pelas melhores amêijoas do mundo, pelo salmonete escolhido e sobretudo pela hospitalidade e fraternidade”, foi a frase escrita no livro de honra pelo antigo secretário-geral do Partido Comunista Português (PCP), Álvaro Cunhal, em 1992.
Francisco Fanhais, ex-padre e contemporâneo de Zeca Afonso, Pedro Afonso, filho do cantor Zeca Afonso, a pintora algarvia Margarida Tengarrinha, a cantora Lena d´Água (1980), o músico Rodrigo Leão (1990) e o grupo Madredeus ou o capitão de Abril Rosa Coutinho (1991) foram outras personalidades portuguesas a passarem pelo restaurante e a degustarem os sabores do mar no “Chalavar”.
O primeiro reitor da Universidade do Algarve também era um apreciador do peixe assado daquele restaurante familiar, e deu o mote para se transformar na “tasca oficial da semana académica” por onde passaram milhares de alunos e professores daquela academia, recorda Víctor Lourenço.
O segredo do sucesso do Chalavar está no peixe fresco selvagem – “aqui de cultivo só o salmão”, afirma o proprietário, que garante que “isto é para continuar até ao fim da vida”.
Retirado de O Barlavento online
1930 – Os pais ausentam-se para Angola. José Afonso permanece em Aveiro, por razões de saúde, confiado a uns tios.
1933 – Por exigência da mãe, com três anos e meio é enviado para Angola, onde o pai é procurador da República.
1933/36 – Permance em Angola, onde inicia os estudos da instrução primária.
1936 – Regressa a Aveiro, para casa de umas tias. “Aos sete anos volto para a Europa, para Aveiro, é a escola primária. Foi violentamente traumatizante: o professor pendurava-me pelas orelhas porque eu era distraído”.
1937 – “Aos oito anos regresso a África. Agora é Moçambique, não é Angola. Pouco tempo ali estou mas é de novo o paraíso. Somos eu, o meu irmão, a minha irmã… Também nesse tempo vamos com a família à África do Sul e vemos as feras em liberdade… Eu sonhava nunca mais abandonar aquela terra.”
1938 – Vai para Belmonte, para casa do tio Filomeno que era Presidente da Câmara. Aí conclui a quarta classe. O tio fá-lo envergar a farda da Mocidade portuguesa. “Uma terra horrível. Um período fechado. Privado de contactos. Eu não podia sequer dar-me com os meninos da vila. Fiz ali a 4ª classe”.
1940 – Entra para o Liceu D. João III, em Coimbra. Vai morar para casa de uma tia. ” O ambiente era muito conservador: mulheres de escapulário ao pescoço Proibições…”. A família parte de Moçambique para Timor, onde o pai vai exercer as funções de juiz. Mariazinha vai com eles, enquanto o seu irmão João vem para Portugal. Com a ocupação de Timor pelos japoneses, José Afonso fica sem notícias dos pais durante três anos, até ao final da 2ª guerra mundial, em 1945.
1945 – Começa a cantar serenatas como “bicho”, designação da praxe de Coimbra para os estudantes liceais. Vida de boémia e fados tradicionais de Coimbra.
1946/1948 – Completa o curso dos liceus, após dois chumbos. Entretanto, conhece Maria Amália, com quem vem a casar. Viagens com o Orfeão e com a Tuna Académica.
1949 – Matricula-se no curso de Ciências Histórico-Filosóficas, na Faculdade de Letras de Coimbra. Vai a Angola e Moçambique integrado numa comitiva do Orefeão Académico.
1953 – Grava os seus dois primeiros discos de fado de Coimbra, em 78 rotações.
Nasce o seu primeiro filho José Manuel, fruto do seu casamento com Maria Amália de Oliveira
1953/1955 – Em Mafra cumpre o serviço militar obrigatório. Depois é colocado num quartel em Coimbra. Grandes dificuldades para sustentar a família, como refere em carta enviada aos pai em Moçambique. A crise conjugal é muito sentida. Após o serviço militar, já com dois filhos, José Manuel e Helena, tenta concluir o curso
1955/56 – Começa a dar aulas em Mangualde. Inicia-se o processo de separação e posteriormente divórcio de Amália.
1956/57 – Professor em Aljustrel e Lagos
1958 – Já é professor em Faro, quando vem a Coimbra gravar o seu primeiro disco “Baladas de Coimbra/Menino d’oiro”, um single acompanhado à viola por Rui Pato. Em dificuldades económicas, envia os dois filhos para Moçambique, para junto dos avós. Neste ano fica impressionado com a campanha eleitoral de Humberto Delgado.
1959 – Começa a frequentar colectividades e a cantar regularmente em meios populares.
1960 – Edita o EP “Balada de outono”
1961/62 – Segue atentamente a crise estudantil deste último ano. Convive em Faro com Luiza Neto Jorge, António Barahona, Ramos Rosa e namora com Zélia, que será sua segunda mulher. Edita os Eps “Coimbra e “Baladas de Coimbra”
1961/ 62 – No Algarve conhece Zélia, a sua segunda mulher e com quem viria a ter dois filhos, Joana e Pedro
1963 – Grava “Os Vampiros”.
Termina o curso com uma tese sobre Jean- Paul Sartre, “Implicações substancialistas na filosofia sartriana”, na qual obtém onze valores.
Até 1964, manteve sempre ligação à vida académica coimbrã. Participa em várias digressões da Tuna e do Orfeão Académico. Continua na faculdade como estudante voluntário.
1964 – Vai para Moçambique ao encontro dos pais e dos seus dois filhos, na companhia de Zélia. Dá aulas em Lourenço Marques e na Beira. Aqui musicou Brecht. Em Moçambique nasce a sua filha Joana.
1967 – Desembarca em Lisboa esgotado pelo sistema colonial. Deixa o filho mais velho, José Manuel, confiado aos avós em Moçambique. Colocado como professor em Setúbal sofre uma grave crise de saúde que o leva a ser internado em Belas. Quando sai da clínica, tinha sido expulso do ensino oficial. Neste ano é publicado o LP “Baladas e canções”, onde se reúnem temas de EP’s anteriores. É publicado o livro “Cantares de José Afonso” pela Nova Realidade.
1968 – Expulso do ensino, dedica-se a dar explicações e a cantar com mais assiduidade nas colectividades da margem Sul, onde é nítida a influência do PCP. Grava para a Orfeu o LP “Cantares do Andarilho”.
1969 – A Primavera Marcelista abre perspectivas ao moviemnto sindical. José Afonso participa activamente neste movimento, assim como nas acções dos estudantes em Coimbra. Lança o LP “Contos Velhos Novos Rumos” e edita o single “Menina dos olhos tristes”, que contém a canção popular “Canta Camarada”
1970 – Grava em Londres “Traz outro amigo também”. Rui Pato impedido de sair de Portugal é substituido na viola por Carlos Correia (Boris).
1971 – Num dos estúdios mais caros da Europa, os de Herouville, em Paris, é feita a gravação de “Cantigas do Maio”. Cabe a José Mário Branco, exilado em França, os arranjos e a direcção musical do disco. A editora Nova Realidade publica o livro “Cantar de novo”.
1972- Madrid é o local escolhido para gravar “Eu vou ser como a toupeira”. É editado o livro “José Afonso” pela editora Paisagem.
1973 – Está vinte dias preso em Caxias, onde escreve entre outros textos “Era um redondo vocábulo”. Pelo Natal publica o disco “Venham Mais Cinco” gravado em Paris, de novo sob a direcção de José Mário Branco. Foi o último disco de José Afonso antes da revolução de Abril.
1974 – No dia 24 de Março José Afonso participa no I Encontro da Canção Portuguesa, em Lisboa. Debaixo do olhar atento da PIDE, passaram pelo palco do Coliseu alguns dos nomes mais sonantes do canto de intervenção, como Adriano Correia de Oliveira, José Barata Moura, Fernando Tordo, José Carlos Ary dos Santos, Fausto, Vitorino.
No dia 25 de Abril é derrubado o regime fascista de Marcelo Caetano, pelo Movimento das Forças Armadas. Grândola Vila Morena , do disco “Cantigas do Maio”, é escolhida como senha para o arranque do movimento, passando na madrugada de 25 na Rádio Renascença. Sai o disco “Coro dos Tribunais”, com arranjos de Fausto.
1975 – Lança o single “Viva o Poder Popular”, em colaboração com a LUAR.
1976 – Grava o LP “Com as minhas Tamanquinhas”. Segundo José Niza, este disco representa “uma espécie de repositório e balanço das experiências vividas e recentes”. É a ressaca do PREC. Apoia a candidatura de Otelo Saraiva de Carvalho à presidência.
1977 – Não há disco.
1978 – É o ano de “Enquanto há força”, novamente dirigido por Fausto. Este LP conta com a participação de numerosos músicos e cantores portugueses.
1979- Vai viver para Azeitão. Sai “Fura, Fura”, com arranjos de José Afonso e Júlio Pereira. Deste disco, oito faixas são temas para as peças de teatro “José do Telhado” (A Barraca, 1978) e “Guerras do Alecrim e Manjerona” (A Comuna, 1979)
1981 – Grava o último disco para a Orfeu. Chama-se “Fados de Coimbra e outras canções”. Dedica-o a Edmundo Bettencourt e a seu pai. Começam-se a conhecer sintomas da doença do cantor.
1983 – A 29 de Janeiro dá um espectáculo no Coliseu dos Recreios, para uma sala completamente cheia. Do espectáculo resultará o disco “José Afonso ao vivo no Coliseu”. Grava “Como se Fora seu Filho”. Recusa a Ordem da Liberdade.
É publicado o livro “Textos e canções” pela Assírio e Alvim
1984 – A doença agrava-se. ”Livra-te do medo, estórias e andanças de Zeca Afonso” de José Salvador, é publicado pela Regra do Jogo.
1985 – Sai o seu último álbum, “Galinhas do Mato” com arranjos musicais de Júlio Pereira e Fausto. José Afonso só canta algumas faixas, devido ao seu estado de saúde estar prejudicado pela doença de que sofre, uma esclerose lateral amiotrófica.
1987 – José Afonso morre na madrugada do dia 23 de Fevereiro, no Hospital de Setúbal.

“Ó pá, desculpa lá isso!”.Atrevo-me a dizer que é verdade que o bom senso me desaconselha a reproduzir certas palavras de Zeca Afonso sobre Belmonte. Creio mesmo que, em tempo de Comemorações dos 500 anos do Achamento do Brasil, por Pedro Álvares Cabral, navegador de raiz belmontense, seria politicamente correcto… omitir.
Mas é certo que a sua intransigência na defesa de princípios e valores tornaria imperdoável desvirtuar as suas memórias. Vénias rituais nunca couberam na voz em que ressoava a poesia e o apelo à fraternidade. É, por isso, proibido, imoral, esconder a fala do mistério duma relação com as gentes e um lugar…
Em 1938, diz “…fui para casa de meu tio (em Belmonte) onde vivi o pior ano da minha vida, o mais desgraçado. O meu Tio era Presidente da Câmara, comandante da Legião, germanófilo (…)”*. Foi um período “fechado”. Sentia-se só, privado de contactos. Lembranças que não oculta, justifica e ilumina em busca de outra verdade: o tio que assinava o “Sinal” e outras revistas, que faziam o elogio do esforço bélico alemão, que sintonizava a Rádio Paris colaboracionista… “teve uma coisa boa: ensinou-me cantigas populares antigas da Beira; ouvi-o cantar líricas de óperas (…)”*; acrescenta: “foi ele que me incutiu o gosto pela música”*.
O prisma das cores é múltiplo e de Belmonte ficaram imagens polícromas. E guardou também o Professor Tavares “… que gostaria de ver porque era um indivíduo sério”; e os jogos populares (canicho e bilharda) em que não participava por ser “sobrinho do senhor doutor”.
Na vila acontece-lhe a primeira “paixoneta”, por Helena Cabeças que “… me desapareceu furtada por um indivíduo com muito mais experiência do que eu”*; a segunda nasce também na localidade, por uma rapariga judia: “Nutri por ela uma paixão inexprimível e inenarrável”*. Amores que não eram confessados e eram vividos em tempo de passar férias na casa do Tio.
Sem dúvida que o passado que se conta, não pode ser se não imperfeito… e, (quantas vezes!) contraditório. Todavia, o saber que diz aquele Belmonte, a ternura com que acalentou as memórias desvelam a verdade de um lugar e de um tempo com versões verdadeiras…
Talvez, por isso, ainda em Abril, em 1974, veio à Beira e a Belmonte festejar a Esperança de um tempo novo. No Castelo teve uma recepção inigualável. Toda a gente sabia quem era Zeca Afonso, a liberdade rodopiava por ali a propiciar intimidades, cumplicidades, fraternidade. Zeca estava do lado dos desfavorecidos, ninguém ignorava. Na vila tinha sido o “sobrinho do Senhor doutor”. No Castelo , ouviu, então: “Ó meu sacana não te lembras, quando me atiraste um calhau às costas?” O Zeca olhou-o estremecido; condoído abraçou-o, e saiu-lhe “Ó pá, desculpa lá isso!”.
Guardou esta história e lembrava-a, quando nos juntávamos.
As “meninas Martinho”, como dizia, tinham também lugar no álbum da memória. A última vez que falámos, quando desaparecia a esperança de voltar à Beira, pediu: “Dêem um abraço às meninas Martinho”. E no dia em que a Zélia Afonso, veio a Belmonte para participar na homenagem da Câmara Municipal, ao Zeca, em 1990, Judite Martinho ofereceu-lhe uma peça que confeccionara com carinho “… uma lembrança para o enxoval da filha, da menina”.
Em Belmonte, uma placa lembra Zeca Afonso; foi colocada em frente da casa doutro amigo – Zeca Argentina -, junto da Escola Primária mais antiga, num largo que, pelo Natal, ouve a voz do Zeca:
“Muita neve cai na serra,
Muita neve cai na serra,
Só se lembra dos caminhos velhos,
Quem tem saudades da terra.”.
Nota: * José A. Salvador, Livra-te do medo, Lisboa, A Regra do Jogo, 1984
Maria Antonieta Garcia – 20.4.00
Havia uma chaminé. E uma amurada. E um convés. Era um barco a vapor, está bem de ver. Ronceiro, ainda a cheirar à revolução industrial. Adornava, da proa à ré, consoante a vaga. Tropicalizava-se o Atlântico, a cada milha navegada. A carreira do costume, da metrópole às colónias, nos anos trinta. A bordo, seguia um miúdo de calções. Zeca Afonso, a roçar os 3 anos. Sozinho, naquele lençol oceânico, que cobria, sabe-se lá, que assombros, que mostrengos. Instalada em Angola, a família mandara-o vir de Aveiro. Retirado do aconchego caseiro de primas e tias maternas, embarcou neste seu baptismo naval, entregue a um tio afastado, recém-casado, mais atento aos recolhimentos da lua-de-mel do que ao puto de calções. Com tanto de aflito como de desamparo, ancorou-se na mão de um velho missionário, o «homem das barbas brancas», de quem nunca mais se há-de esquecer.
Quarenta anos depois. Sozinho, outra vez. Só que no lugar dos horizontes abertos, Zeca Afonso tem-nos apertados, entre as quatro paredes da cela, em Caxias. E regressa a este ancoradouro de infância, «ao velho vapor ronceiro em que apenas um velho missionário se lembrara de que uma criança existia. O velho desapareceu, inesperadamente, num pequeno porto do Zaire e deixou-me só» – escreveu em Prosema II. Mais cedo ou mais tarde, regressamos sempre à viagem inicial.
Como se fosse a marca antecipada do seu destino de andarilho, serve agora de cais de embarque para uma viagem no tempo, 20 anos passados sobre a sua morte (23 de Fevereiro de 1987). É a primeira etapa do concerto Redondo Vocábulo a oriente (Macau e Banguecoque), do sobrinho João Afonso e do pianista João Lucas. Em ano de homenagens: reedita-se uma colectânea (Farol Música), Cristina Branco editará em disco as músicas de Zeca que tem cantado com uma banda de jazz, no S. Luiz, em Lisboa, sucedem-se, por todo o País, concertos, debates, homenagens dispersas. Curtas para um autor de músicas que desafiam todas as genealogias e se tornaram património fundamental da cultura portuguesa. Zeca Afonso foi compositor, tão incatalogável na arte como na política. Foi anarquista por vocação, solidário por devoção, poeta por inquietação.
Também o irmão, João Afonso, dois anos mais velho, na biografia «fraternal» que escreveu, haveria de iniciar a narrativa de uma vida, com o levantar de âncora do Mouzinho (o nome do navio), e com aquele deambular pelo convés do pequeno navegador solitário. Convencido, diz, de que «Zeca bebeu aqui, nesta infância remota de embarcado alguma coisa do seu vezo de andarilho». E acrescenta: «Zeca tem a divagação no sangue, é um espírito nómada, espartilhado entre as quatro paredes deste nosso espaço sedentário, comprimido contra o oceano.» Daí aquele seu ar abstracto, o seu temperamento aéreo, a sua propensão errante, o seu aparente desprendimento, o desassossego «de embalar a trouxa e zarpar». «Dessa sorte de navegar, no mar ou em terra, se embeberam as suas canções, numa obsessão inconsciente.»
«O Zeca era um génio. Não gosto de empregar esta palavra levianamente. Somos todos geniais. Pois. Mas o Zeca era ‘mesmo’ genial. E muito queria que isto não fosse um consenso mas um dado adquirido. A diferença é subtil, mas fundamental» (nas palavras de Sérgio Godinho). Ou nas de outro compagnon de route, José Mário Branco: «Sempre cuidando (e com que mestria!) dos aspectos formais das suas canções, ele sobrelevava sistematicamente a sua potencial utilidade para as pequenas e grandes causas da Humanidade. Sentia-se mais à vontade na pele de testemunha activa do seu tempo do que na de um poeta prospector de eternidades. Certamente por saber, como sempre souberam os grandes, que é sempre do solitário combate contra a matéria que acaba por nascer o sentido da obra criada.»
Muita água haveria de correr por baixo do vapor Mouzinho, do primeiro ao último cais. Águas revoltas, outras enremoinhadas, outras mais mansas, outras turvas… Muitas vezes havia de navegar Zeca Afonso, abaixo da linha de água, afundado no lodaçal da ditadura. Muitas vezes, haveria de correr nos rápidos do PREC, a acudir às solicitações das colectividades, a «avisar a malta», a arrastar a voz à custa de infusões de eucalipto. Muitas vezes, gritou «terra à vista», outras tantas viu desaparecer o «bom porto» do seu horizonte. E tudo se acabou estupidamente, numa madrugada de chuva indecisa, sem nunca ter atracado na «cidade sem muros nem ameias» da sua utopia. «Alguma coisa do que sou e fui foi em viagem», disse Zeca Afonso ao jornalista José A. Salvador. Cantor maldito, autor da canção-senha da revolução, foi alvo de silenciamentos sistemáticos, pela ditadura e também pela democracia. Confirmam-no os parcos registos, testemunhos das suas raríssimas passagens pela RTP ou as censuras explícitas nas rádios – por ignorância, esquecimento, má-fé, ou pura pequenez.
«Sou, no fundo, fruto de muitas gentes, de muitos lugares, de muitos dissabores», disse uma vez Zeca Afonso. A VISÃO traça-lhe agora o itinerário musical e sentimental, através de dez apeadeiros. Um percurso pisado «com as tamanquinhas do Zeca», numa expressão roubada ao CD de homenagem dos Couple Coffee, que será editado em Março. A vocalista da dupla é Luanda, 38 anos, filha de Alípio de Freitas, o revolucionário celebrizado pela canção com o seu nome. Afinal, «somos nós os teus cantores».
AVEIRO
«Este rio este rumo esta gaivota/ que outro fumo deverei seguir/ na minha rota?» Utopia, in Como Se Fora seu Filho (1983).
José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos nasceu a 2 de Agosto de 1929, na «parte da cidade voltada para o realismo e para o mar». Filho de um magistrado e de uma directora de escola infantil, foi irmão do meio de três. Colocado o pai em Angola, a família deixou-o pequeno, confiado a uns tios. De saúde frágil, não o queriam os pais em terras tórridas e carregadas de paludismo. Até que as precauções cederam às saudades e a mãe mandou-o vir. E lá segue Zeca, desamparado, no tal Mouzinho, ao encontro de uns pais e irmão de quem não se lembra e de uma irmã que, entretanto, aparecera. A casa onde nasceu era escola (dirigida pela mãe), passou a banco; agora, confirma o irmão, já não existe. Só há três anos a autarquia deu o seu nome a uma rua de um bairro novo de Aveiro. Aliás, não faz tenções de participar em qualquer homenagem.
ANGOLA
«Um homem novo/veio da mata/ de armas na mão/ não é soldado/ de profissão/ É guerrilheiro/ na sua aldeia/ A mãe o diz/ duma fazenda/ faz um país»
Um Homem Novo Veio da Mata, in Enquanto Há Força (1978)
«África é uma pátria mítica para mim, antes de ser pátria política, uma África revolucionária e socialista.» As trovoadas, que fendiam os céus e incendiavam o capim. As travessias dos rios em barcaças. As nuvens de gafanhotos. As viagens pelas picadas. A bicharada oculta pelo mato. As febres quartãs. Os gaviões que filavam de alto os pintos e desafiavam as fisgadas dos irmãos Afonso… Do Cuíto, a família mudou-se para a paisagem domesticada de Luanda, ainda assim cheia de potencialidades para uma infância à solta, em horizontes rasgados. Depois ainda há-de seguir para Moçambique, onde, conta o irmão João Afonso à VISÃO, Zeca colheu as mais marcantes memórias infantis, como os mergulhos do fim de tarde ou o sabor de uma manga verde.
BELMONTE
«Gastão era perfeito/ conduzido por seu dono/ em sonolências afeito/ às picadas dos mosquitos» Gastão era Perfeito, in Venham mais Cinco (1973)
O dealbar dos anos 40 vem encontrar o «menino zequinha» como porta-bandeira, a fazer a saudação nazi, de calças à golfe, bivaque e um cinturão com um grande S (farda da Mocidade Portuguesa), a marcar o passo no pelotão de miúdos pelas ruas de Belmonte. Na terra e na família pontificava o tio Filomeno (que lhe inspirou a canção em epígrafe), presidente da Câmara, comandante da Legião, homem de ardente vassalagem a Salazar, admirador de Franco e germanófilo. «Londres comme Cartago sera détruite!», assim soavam as emissões nocturnas na «telefonia» lá de casa. Quase todas as noites partia um comboio para a Alemanha hitleriana. Era o negócio do volfrâmio. Mas disto, Zeca, com 10 anos, ainda não percebia nada. Só sabia que aquele regresso à metrópole (por causa dos estudos) foi sentido como um degredo. Ainda por cima, sendo ele ali visto como «um menino agasalhado», sobrinho do senhor doutor, que não podia participar nos jogos com os outros miúdos da vila. Fez aí a quarta classe, espartilhado entre a chateza dos dias, o acanhamento da paisagem, a monotonia das missas, paixonetas por declarar, e uma tia que lhes racionava a água, de guarda ao jarro, atrás da porta, «como um índio sioux»: «O pior ano da minha vida». Da escola guardava recordações traumatizantes, «enxurros monumentais de porrada». Zeca era distraído, patologicamente distraído. O professor tinha o hábito de o suspender pelas orelhas, «como se aquela tormentosa ascensão tivesse o mérito inverso de o fazer descer à terra», conta João Afonso: «A imensidade africana que Zeca trazia na cabeça e nos sentidos já não cabia nos parâmetros concretos do didactismo escolar.»
COIMBRA
«Águas/ das fontes calai/ Ó ribeiras chorai/ Que eu não volto/ a cantar» Balada do Outono in Baladas e Canções (1967)
Noitada na sala de bilhar do Café da Brasileira, em Coimbra. Muitas das canções de Zeca Afonso hão-de nascer assim, instigadas pelo colectivo, e pelo entusiasmo, noite fora. É preciso alguém que o acompanhe à viola. Zeca liberta as canções dos «pruridos coimbrões», do lirismo convencional e lamechas, do narcisismo autocomplacente dos que envergam capa e batina, como se fossem capas de cavaleiro andante. Levanta-se uma urgência súbita: precisava-se de alguém que tocasse viola. Ergue-se um adolescente que, por acaso, estava ali com o pai. É o princípio de uma amizade e de uma parceria de oito anos; «uma das mais enriquecedoras experiências da minha vida», conta hoje Rui Pato, 58 anos, médico pneumologista, presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar de Coimbra, que começou, nessa mesma noite, a acompanhar Zeca Afonso. «Imagine-se o que representou para mim, com apenas 14 anos, essa oportunidade de lidar de perto com dois mestres como Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira.» Ele estava no 4.º ano do liceu, Zeca já homem feito, licenciado (em Histórico-Filosóficas), já defendera a sua tese sobre Sartre, já se tinha casado e separado (dois filhos), feito a tropa? Já tinha corrido o circuito das repúblicas e da boémia coimbrã, já enveredara pelo semiproletariado das aulas e explicações, num regime de sobrevivência endurecido, já estava debaixo de olho da PIDE. «Tenho uma soma de experiências que daria para uma novela dostoievskiana», escreve em 1962. Zeca e Pato partem pelo País, em concertos (sobretudo em colectividades populares e associações de estudantes), à boleia ou de comboio («havia sempre alguém que nos dizia ‘apareçam na estação, na composição tal…’, e estava lá sempre um camarada que nos transportava de borla»). Dentro da caixa da viola seguiam Avantes! e outros jornais clandestinos. A visão poético-estudantil, «do herói da capa e batina», esmoreceu à medida que tomava contacto com as desigualdades sociais. A sua música também mudou. «Ele costumava dizer que não queria o canto amarrado nos arames da guitarra», conta Rui Pato. Foi o momento de viragem de Zeca Afonso, de rebelião, quase. «Carrego essa mágoa há anos, a de eu próprio não ter tido a clarividência suficiente para perceber, na altura, o passo histórico que se estava a dar», continua.
MAFRA
«Ao cair da madrugada/ No quartel da guarda/ Senhor General/ Mande embora a sentinela/ Mande embora e não lhe faça mal» Ronda dos Paisanos, in Baladas e Canções (1967)
A tropa foi o buraco negro na sua biografia. Um tempo vácuo. Aborrecia-se mortalmente, não atinava com a culatra, com o percutor, o dente de armar, nem com formaturas e rotinas pautadas a toque de clarinete… «Fui o menos classificado de todo o curso por falta de aprumo militar», contava. Limitou-se a criar anticorpos, nas palavras do irmão, «contra todas as formas de constrangimento pessoal». A incompatibilidade com as tecnologias era quase genética. Nunca usou relógio, só muito tarde conseguiu acertar nos botões REC e PLAY do gravador, inventou um sistema de pautas para consumo próprio. E quando, anos mais tarde, em Moçambique, se meteu a tirar a carta de condução, o instrutor, depois de tantos alheamentos e ausências, voltou-se para ele e perguntou: «O senhor é assim a modos que poeta, não é?» Outra vez, entrou em casa, dirigiu-se ao frigorífico e sentou-se a comer pudim. E estranhou: a mulher não costumava fazer pudim… Tinha entrado na casa de um vizinho.
ALGARVE
«Somos filhos da madrugada/ Pelas praias do mar nos vamos/ À procura de quem nos traga/ Verde Oliva de flor no ramo», Canto Moço in Traz Outro Amigo Também (1970)
João Afonso está convencido de que esta música terá nascido dos passeios de barco que o irmão fazia com os amigos António Barahona e Luíza Neto Jorge pelas praias do Algarve. Zeca falava de «fase de euforia, uma das mais felizes da sua vida». Na Fuzeta, monta a sua «tenda contemplativa», percorre quilómetros à beira-mar, às vezes vai directamente para a escola, a pingar. Umas das suas grandes paixões, o ensino. «Queria pôr os alunos a funcionar como pessoas, incutir-lhes o espírito crítico, fazer com que exercitassem a sua imaginação à margem dos programas oficiais.» A cantoria, como lhe chamava, nunca a «superlativizou»: «Quando me dizem que aquilo que faço tem interesse, enfim, respeito a opinião das pessoas, e digo que sim senhor, tem interesse?», explicou ao jornalista Viriato Teles. Os algarvios viam passar o forasteiro, despassarado, com olhos de sonâmbulo, abismado pela paisagem. Desconfiados ainda mais, quando este começou a namorar Zélia, uma filha da terra, sua futura mulher (de quem tem mais dois filhos). Foi um namoro clandestino, «à siciliana», em cada esquina um mirone, em cada rosto um informador.
GRÂNDOLA
«Em cada esquina um amigo/ Em cada rosto igualdade» Grândola, Vila Morena, in Cantigas do Maio (1971)
Uma única vez Zeca Afonso se deslocou à vila alentejana, antes de compor a canção. Foi lá actuar, com Rui Pato, em 1964, a convite da Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense: «Um local quase sem estruturas nenhumas, com uma biblioteca de evidentes objectivos revolucionários, uma disciplina generalizada e aceite entre todos os membros, o que revelava já uma grande consciência e maturidade política.» Gravou a canção que deu notoriedade àquela terra, num castelo-estúdio dos arredores de Paris. Os passos iniciais foram captados na gravilha, às três da manhã. Cantou-a pela primeira vez a na Galiza e, quando soube que fora senha para o arranque dos capitães revoltosos de 1974, n ia 25 de Abril, já Zeca Afonso tinha arrancado para o Carmo, misturado entre as chaimites e os arroubos da massa anónima, a assistir ao último acto do Estado Novo. «Só mais tarde, quando recomeçaram os ataques fascistas e a Grândola era cantada nos momentos de maior perigo ou entusiasmo, me apercebi de tudo o que ela significava – e naturalmente tive uma certa satisfação.»
MOÇAMBIQUE
«O barco foi andando/ e a Nanga vi/ Foi a saudade aumentando/ longe daí/ A gente/ na minha terra não canta assim/ como eu ouvi» Carta a Miguel Djéjé, in Traz Outro Amigo Também (1970).
Duas encomendas do correio faziam estalar a mais completa felicidade na casa dos sobrinhos de Zeca (filhos da irmã mais nova, Mariazinha), em Moçambique. «Os livros do Tintin e os discos do meu tio», conta João Afonso, 40 anos, também cantor. Um dia, apareceu-lhes em carne e osso. Regressa às paisagens indomesticadas da infância, aos cheiros, às cores, aos ritmos, mas era-lhe doloroso, trabalhar numa ordem social que abominava: «O meio do branco colonizador.» Dava aulas aos meninos de família e fora do período lectivo ministrava as suas lições – o único branco a fazê-lo – numa associação de negros. «Infiltrei-me em alguns meios e ia conseguindo, com as minhas cantigas, dar os meus habituais recados.» Ao olhos da PIDE, Zeca passou de sujeito incómodo a tipo perigoso.
CAXIAS
«Era um redondo vocábulo/ Uma soma agreste/ Revelavam-se ondas/ em maninhos dedos/ polpas seus cabelos/ resíduos de lar» Era um Redondo Vocábulo in Venham Mais Cinco (1973)
Até que um dia, já em Portugal, a PIDE bateu-lhe à porta e o filho mais velho veio abrir. Há muito que estes agentes da (des)ordem lhe atazanavam a vida e obrigavam o cantor andarilho a tornar-se ainda mais andarilho, a mudar de poiso constantemente. Embicaram com uma quadra (cantada mas nunca gravada) que lhes dizia directamente respeito – «Na Rua António Maria / da primaz instituição/ vive a maior confraria/ desta válida nação» –, passando ao largo de outras músicas com óbvias e gravosas referências, como o Avô Carvernoso ou o Vejam Bem… A PIDE não consegue catalogá-lo, nem no PCP, nem na LUAR, nem enquanto católico de esquerda. Mais tarde, numa altura em que os tempos não estão para independências pessoais, em que é quase obrigatório ter rótulos, e andar de cliché atrelado, faz a sua afirmação de independência política: «Eu sou o meu próprio comité central.» Era ele mesmo, sem etiquetas. Tal como a sua música. Confinado às quatro paredes da cela durante 21 dias, alarga os horizontes através do lápis e do papel. Escreve poemas e prosemas, de labirínticas significações, a letra do Redondo Vocábulo, e a do Bombons de Todos os Dias, uma música «de um surrealismo afonsino marcado», que se manteve inédita até ao ano passado, quando o sobrinho João a resgatou de uma velha cassete caseira, guardada por um amigo galego, agora gravado no novo disco Outra Vida.
AZEITÃO
«Estamos na Europa civilizada/ já cá faltava uma maison/ pour la patrie p’lo Volskswagem/ acabou-se a forragem/ Viva o Patron!» Década de Salomé, in Galinhas do Mato (1985)
Porta aberta na casa de Zeca Afonso, em Azeitão. As pessoas entravam, instalavam-se na sala – e traziam um amigo também. Nos últimos tempos, quando a doença (esclerose lateral amiotrófica) já lhe tolhia os movimentos e a fala, Alípio de Freitas é um dos convivas naquela sala. Faz-lhe um relatório completo das notícias, dos acontecimentos, das fofocas políticas? O andarilho já não pode ir ao mundo, vai o mundo até ele. Ainda que aquele não fosse de todo o mundo com que sonhou, «Zeca continuava a achar que era possível mudá-lo». Era um «utópico céptico», nas palavras de João Afonso. As portas (as de Abril) fecharam-se, achava ele, mas continua a comportar-se como se as janelas também servissem de saídas de emergência, «como se a revolução fosse possível». Deixara para trás um período de febril agitação, de peregrinação por todo o País, em concertos pelas aldeias fora, «quando a população se juntava para resolver o problema da escola ou de calcetar a rua». Levou a solidariedade ao limite, tocou em condições inverosímeis, esfalfou-se, extenuou-se, esforçou a garganta, passou noites em branco, teve por única compensação a satisfação militante. Alípio era amigo, não de longa data, «mas era como se fosse». Não se conheciam quando Zeca compôs a música sobre o revolucionário português preso, torturado, há anos incomunicável na terrível fortaleza de Santa Cruz, na Baía da Guanabara, Rio de Janeiro (Alípio de Freitas in Com as Minhas Tamanquinhas, 1976). Quando finalmente, em 1980, é libertado, Alípio, hoje com 78 anos (a idade que Zeca teria), professor universitário e presidente da Associação José Afonso, foi ao seu encontro: «Não dissemos nada. Abraçámo-nos. Com a nítida sensação de que já nos conhecíamos? Foi como se nos tivéssemos reencontrado após uma longa viagem.» Provavelmente aquela em que havia uma chaminé, uma amurada e um «missionário das barbas». A primeira viagem – aquela a que todos regressamos.
Ana Margarida de Carvalho / VISÃO nº 729 23 Fev. 2007
FONTES: Um Olhar fraterno, João Afonso, Caminho; Textos e Canções, Relógio de Água; As Voltas de um Andarilho, de Viriato Teles, Ulmeiro; O Rosto da Utopia, de José A. Salvador, Terramar; Associação José Afonso; Farol Música
Myriam Zaluar | 2007-02-18
“Parece que em princípio ninguém se lembra do acto de nascimento. Cientificamente não se pode confirmar que um indivíduo que nasce tenha a percepção do seu próprio nascimento. Agora que existe uma imagem persistente, uma luz muito difusa, translúcida e que através dessa luz figuras mal definidas se debruçam sobre mim e a minha mãe…, tenho uma ideia disso. Há muitos anos que tenho essa impressão.»Faro 1961 – 1964
José Afonso
José Afonso