José Afonso por Carlos Gil



O Núcleo AJA Lisboa – Associação José Afonso tem patente, até dia 29 de Junho, a exposição “𝗝𝗼𝘀𝗲́ 𝗔𝗳𝗼𝗻𝘀𝗼, 𝗼 𝗖𝗼𝗻𝗰𝗲𝗿𝘁𝗼 𝗱𝗼 𝗖𝗼𝗹𝗶𝘀𝗲𝘂”, com fotografias de 𝗖𝗮𝗿𝗹𝗼𝘀 𝗠𝗮𝗿𝘁𝗶𝗻𝘀, no emblemático concerto de José Afonso no Coliseu de Lisboa, a 𝟮𝟵 𝗱𝗲 𝗝𝗮𝗻𝗲𝗶𝗿𝗼 𝗱𝗲 𝟭𝟵𝟴𝟯.
A exposição inclui alguns registos, captados com câmara analógica, incluindo retratos do palco e da plateia, dos capitães de abril presentes e da atuação final de “Grândola, Vila Morena”, um momento histórico para um Portugal livre há menos de uma década.
Sobre o dia do concerto, Carlos Martins recorda “todos os corações a chorarem de alegria imensa, num banho de liberdade, democracia e muita alegria”. Economista de profissão e fotógrafo amador há 35 anos, Carlos Martins chegou a conhecer José Afonso, durante a luta associativa dos seus tempos de juventude. Agradece à fotografia por lhe ter apresentado “um verdadeiro laboratório da espécie humana que somos”, que lhe permitiu captar vários momentos inesquecíveis.
A exposição pode ser visitada às 𝘀𝗲𝗴𝘂𝗻𝗱𝗮, 𝗾𝘂𝗮𝗿𝘁𝗮𝘀, 𝘀𝗲𝘅𝘁𝗮𝘀 𝗲 𝘀𝗮́𝗯𝗮𝗱𝗼𝘀 das 𝟭𝟲𝗵 𝗮̀𝘀 𝟭𝟵𝗵.
É já no próximo sábado, dia 14, que inicia a exposição “𝗭𝗲𝗰𝗮 𝗻𝗮𝘀 𝗖𝗮𝗹𝗱𝗮𝘀”, uma mostra de fotografias sobre a presença de José Afonso nas Caldas da Rainha. Fotos da autoria de José Nascimento que registam José Afonso em tratamento nas Termas, no Concerto da Amnistia e na Festa da Amizade.A organização é da Núcleo AJA Caldas da Rainha – Associação José Afonso e do Centro Hospitalar do Oeste EPE.

Fotografias de um concerto de José Afonso em Bruxelas no ano de 1978, com a participação de Fausto Bordalo Dias.
Haverá por aí alguém com memória deste concerto e que possa acrescentar alguma informação?
Fonte: 25APRILPTLAB
Laboratório Interativo da Transição Democrática Portuguesa.
Fotos: ©Álvaro Miranda
Partilhamos aqui um conjunto de fotos do arquivo da Associação José Afonso, ao qual faltava uma contextualização completa. No entanto, graças à generosa partilha de Luís De Paula Campos no Grupo de Amigos de José Afonso, o “puzzle” ficou praticamente resolvido. Trata-se de um “álbum”, datado provavelmente de 1966, onde José Afonso, na altura professor no Liceu Pêro de Anaia, na Beira, em Moçambique, ensaia com o célebre conjunto “Os Rebeldes” no Grupo Dramático Eduardo Brazão, ao lado da Catedral.
Se alguém quiser acrescentar alguma informação adicional…
Muito obrigado ao Luís De Paula Campos e a todos/as que nos ajudam neste caminho de descoberta da vida e obra de José Afonso.
José Afonso, acompanhado à viola por Levy Batista, em Chinguar, Angola, 1958, durante a digressão da Tuna Académica da Universidade de Coimbra (TAUC). À esquerda de José Afonso, sentado, está David Leandro, e atrás, José Niza, ambos parte do grupo que acompanhava José Afonso, assim como Sousa Rafael.Esta foi uma das fotografias que a simpática direcção do Orfeon Académico de Coimbra partilhou connosco depois de uma visita aos seus arquivos na Associação Académica de Coimbra. Em breve partilharemos mais algumas descobertas.

Fotografia partilhada no Grupo de Amigos de José Afonso e que regista José Afonso num reencontro com uma antiga aluna, Cecília Almeida.


Passou a dimensão de um cantautor de um tempo em que a palavra era uma arma.
Passado o tempo que tudo estratifica, agora 35 anos depois da morte não o ter levado, José Afonso está para além de qualificações, enquadramentos ou sentimentos de propriedade privada.
O trovador de “Venham mais cinco” e tantas outras obras de notável inspiração, é hoje considerado um dos autores populares mais respeitados em termos mundiais.
A sua música e o pensamento profundamente solidário com a nossa condição de sociedade carente de tanta coisa, ganha actualidade em cada estrofe que cantou.
Os jovens músicos respeitam-no, admiram-no e recriam a sua obra, sem complexos ou restrições de facção.
José Afonso partiu há 35 anos e, insisto, a sua morte deu vida e cada vez mais alma, a tudo o que cantou.
É só ouvi-lo de espírito aberto, para sentirmos o quanto amou o seu/nosso país e o seu contributo para que sem utopias, cada um de nós traga outro amigo também.
Júlio Isidro, 23.02.2022



Júlio Pereira
Fotos de Kok Nam.
Concerto de José Afonso, a 1 de Junho de 1983, no 51º aniversário do “Diário do Alentejo”, que se realizou no salão dos Bombeiros de Beja.
Fotografia: António Cunha
Muito obrigado ao José Manuel Lopes pela partilha.
José Afonso, em 1975, numa sessão de canto popular no salão paroquial de Unhais da Serra.
Foto e testemunhos partilhados por António Duarte, que acompanha José Afonso na guitarra.
Eu saíra em Março de 75 da tropa. ainda vi o ataque ao RaL1. Deve ter isto acontecido na primavera de 75. Pedi ao Fausto e Zeca para virem até cá, para, na Covilhã, a caminho das Penhas da Saúde, no ex-sanatório, onde estavam albergadas cerca de 400 pessoas que vieram de Africa, os chamados retornados, fizéssemos uma sessão de canto. Veio também um grupo de teatro de Setúbal. Solicitei apoio às assistentes sociais e também à ACM, Associação Crista da Mocidade, para nos darem dormida. Veio também a Zélia. Almoçamos na Covilhã e seguimos para a serra. a ideia era, depois do canto, jantarmos no sanatório com os retornados. Já há uns dias que andara por ali e não me apercebera que havia indivíduos revoltados com a vinda apressada para Portugal. Por uma questão de precaução pedi ao grupo que não se falasse em comunismo, situação que embaraçou o grupo, pois a peça de teatro falava disso. A sessão iniciou-se e quando chegou a vez do Zeca cantar, ele disse, com cabeça baixa e consternado face ao ambiente – Bem vou cantar uma canção de amor! E cantou o Milho Verde! Uma voz soou na sala: – Não queremos aqui comunistas! Seguiu-se um silêncio, depois as crianças e mulheres começaram a sair da sala, até que ficou quase vazia. Valeu-me a sorte de que eu conhecia lá muita gente e pedi ajuda. Na altura o Fausto, tipo inteligente, se apercebera de que havia gente da Unita, MPLA e FNLA na sala, daí a divisão das pessoas. Saímos porta fora e as assistentes sociais deram-me duas cadernetas de tikes restaurant, foi a nossa sorte. Com elas fomos jantar e depois dormir. Eu também dormi com eles na camarata da ACM. Na manhã do outro dia a Zélia veio ter comigo para me informar que o Zeca não estava bem da garganta. Bem, o Zeca tinhas dessas coisas, era mesmo assim e desvalorizámos a situação. Depois seguimos para Unhais da Serra, onde o calor das pessoas e o ambiente favorável nos compensou do dia anterior. E pronto! Hoje, quando penso nisso, arrepio-me! De qualquer modo foi uma vitória e um trabalho musical em terreno minado. O Fausto escreveu um dia sobre isso, num livro qualquer que agora não me lembro. Aquela atitude do tipo que gritou, tinha a ver com o facto de o Zeca ter ido a Angola, havia pouco tempo, soube depois!
Fotografia de Francisco Carrola

Nos meados dos anos sessenta (1965), aluno do então 4º ano do liceu, em Lourenço Marques, vi na pauta que esse ano teria como professor de geografia e história um tal de José ( nota: a pauta omitiu o nome Afonso) Cerqueira dos Santos, ilustre desconhecido. O professor, soube depois, tinha sido proíbido de ensinar no então continente e desterrado em Moçambique, sob condição, da PIDE, de não se meter em política. Sentado na primeira fila da aula, reparei no primeiro dia de aulas que o professor trazia um par de peúgas de cores diferentes. Penteava-se com os dedos. O ar era displicente, o sorriso cúmplice e doce. Tais ingredientes, por serem nesse tempo contra a corrente, fascinaram-me. Apresentou-se timidamente e omitiu a actividade no mundo das cantigas. Era um professor excepcional. Incitava-nos à investigação e a questionar tudo, desde os manuais a ele mesmo. Retive para sempre uma frase:” Não estou aqui para impingir, mas para insistir e resistir, convosco de preferência”.
Um dia, na discoteca Baily, em Lourenço Marques, descobri entre os velhos discos em saldo, um single com o meu professor agarrado a uma velha viola. Zeca Afonso. Duas músicas: “Menino do Bairro Negro” e “Natal dos Simples”: Comprei o disco. Na aula seguinte, quando os colegas tinha saído, confrontei o professor com o disco. Disparou, estupefacto: “Onde é que arranjaste isso?”. Expliquei o que se tinha passado. O espanto do mestre era legítimo – ele fora expulso de Portugal e proscrito nas rádios justamente por causa daquele disco e das posições que defendia em defesa dos humilhados, contra a hipocrisia intelectual dominante, todos os dogmatismos e o regime fascista.
Havia, no então Rádio Clube de Moçambique, um programa em que semanalmente eram divulgados os cantores mais votados. Elvis Presley liderava. Organizei no liceu uma votação para o disco do nosso professor. Teve adesão maciça. Na semana seguinte, Zeca Afonso liderava o “Hit Parade” e assim esteve durante nove semanas. Tive que emprestar o disco ao radialista João de Sousa, mais tarde meu colega, que desconhecia o autor. A PIDE acordou. Mandaram confiscar o móbil do crime, sentenciando a proibição do cantor. Por essa altura, já eu andava em tertúlias clandestinas com o meu professor. Ele cantava. Eu dizia o “Mostrengo” de Fernando Pessoa. Imaginam o resultado: no fim do ano, a PIDE decretou novo exílio ao professor, que foi ensinar para o Liceu Pêro de Anaia, na cidade da Beira, a mais de 500 quilómetros. Depois, seria recambiado para Portugal e definitivamente banido do ensino.”
Guilherme Pereira
Foto e texto retirado daqui
Fotos de Sérgio Valente partilhadas por Teodósio Dias.
A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.
A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.
A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.
A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.
José Carlos Ary dos Santos
No dia 29 de Janeiro de 1983, já vão 26 anos, à hora a que publico este texto, o Zeca estava nos bastidores do Coliseu dos Recreios de Lisboa, preparando-se para entrar em palco e dar o seu derradeiro concerto.
O “meu” Zeca particular e intransmissível é outro. Está vivo, nunca está doente (excepção feita a umas sinusites teimosas), pratica judo, canta como ninguém, faz-me acreditar que em 1973 já estávamos a um passo da liberdade, ilumina os meus vinte e um anos, faz cantigas que ficaram na História, à minha frente e com a minha modesta “ajuda” técnica, faz-me gravar o meu primeiro disco e leva-me para cantar com ele em locais incríveis e proibidos…
Como sou uma perfeita negação na arte do culto da imagem e uma desgraça na gestão de “carreira”, até há bem pouco tempo nem sequer uma fotografia tinha em que estivesse com ele.
Um amigo, em boa hora, resolveu oferecer-me esta grande imagem, recordação de um “Canto Livre” realizado num quartel da região de Lisboa, em 1975, com Zeca Afonso, Vitorino e um estreante (eu mesmo, o guedelhudo da ponta esquerda). O amigo em causa, era militar nesse quartel e foi um dos que se “arvorou” em cantor e foi connosco para cima do estrado, cantar a Grândola.
Todos achávamos que o mundo e a vida estavam apenas a começar, que a reacção não passaria, que a noite não voltaria às nossas ruas e que iríamos ter o Zeca a cantar connosco para sempre…
Fotografia e texto de Torcato Ribeiro
Fotografias e texto enviados por Torcato Ribeiro.
Encontradas AQUI
No café Santa Maria em FAro. Na fotografia, da dirtª para a esqª Zeca Afonso, Badu, Horácio Santos e Maria Paula, Engº Acácio Monteiro e esposa e Luis Valentim.
Fotografia encontrada aqui

Zeca Afonso, em visita a Londres para as comemorações do 5º aniversário do jornal “Luta Comum”, participa numa manisfestação promovida pela Amnistia Internacional
TIRADA EM: 7 Março 1977
LUGAR: Pavilhão do Clube Naval Setubalense
DESCRIÇÃO: Canto livre realizado para marcar o aniversário dos incidentes, em Setúbal, do dia 7/3/75
Foto tirada no II FESTIVAL DE LA CANCIÓN IBÉRICA (da esquerda para a direita):
Carlos Correia (Bóris), Zeca Afonso, Miro Casabella, Carlos Carlsen, Poni Micharvegas, Paco Ibañez, María del Mar Bonet. De costas as jornalistas Tina Blanco e Mercedes Arancibia.