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Todas as letras são de José Afonso, excepto quando indicado.

Algumas das letras são acompanhadas, entre outras, pelas notas explicativas que José Afonso nos deixou no livro «Cantares». Para mais contextualização e análise de outras letras, poderá pesquisar no blogue a categoria No verso dos versos.

A  B  C  D  E  F  G  I  J  L  M  N  O  P  Q  R  S  T  U  V 

A

A acupunctura em Odemira

LP Enquanto há força, 1978

Ainda bem que é verdade
Ainda bem que é mentira
A acupunctura em Odemira
Ainda bem que há quem viva
Em Odeceixe
E se peide à vontade
Na Rua Espinha de Peixe
Eu bem sei a Cergal a Super Bock
A volta ao mundo pelo Cabo de S. Roque
Em Abril águas mil
Ponto final
Ainda bem que é para breve
O festival
Ainda bem que amanhã
É o ciclorama
E o campeonato do mundo no primeiro programa
Ainda bem que apostei no totobola
Todos os dias são santos, Dona Aurora

A cidade ( José Carlos Ary dos Santos )

LP Contos velhos rumos novos, 1969

A cidade é um chão de palavras pisadas
A palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
A palavra distância e a palavra medo

A cidade é um saco um pulmão que respira
Pela palavra água pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
Pela palavra sangue pela palavra ira

A cidade tem praças de palavras abertas
Como estátuas mandadas apear
A cidade tem ruas de palavras desertas
Como jardins mandados arrancar

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
Não há rua de sons que a palavra não corra
À procura da sombra de uma luz que não há

A formiga no carreiro

LP Venham mais cinco, 1973

A formiga no carreiro
Vinha em sentido contrário
Caiu ao Tejo
Ao pé de um septuagenário
Larpou trepou às tábuas
Que flutuavam nas águas
E de cima de uma delas
Virou-se pró formigueiro
Mudem de rumo
Já lá vem outro carreiro

A formiga no carreiro
Vinha em sentido diferente
Caiu à rua
No meio de toda a gente
buliu buliu abriu as gâmbias
Para trepar às varandas
e do cimo de uma delas
Virou-se pró formigueiro
Mudem de rumo
Já lá vem outro carreiro

A formiga no carreiro
Andava à roda da vida
Caiu em cima
De uma espinhela caída
Furou furou à brava
Numa cova que ali estava
E de cima de uma delas
Virou-se pró formigueiro
Mudem de rumo
Já lá vem outro carreiro

A morte saiu à rua

LP Eu vou ser como a toupeira, 1972

A morte                               
Saiu à rua
Num dia assim
Naquele
Lugar sem nome
P’ra qualquer fim

Uma
Gota rubra
Sobre a calçada
Cai

E um rio
De sangue
Dum
Peito aberto
Sai

O vento
Que dá nas canas
Do canavial
E a foice
Duma ceifeira
De Portugal
E o som
Da bigorna
Como
Um clarim do céu
Vão dizendo
Em toda a parte
O pintor morreu

Teu sangue
Pintor
Reclama outra morte
Igual
Só olho
Por olho e
Dente por dente
Vale
À lei assassina
À morte
Que te matou
Teu corpo
Pertence à terra
Que te abraçou

Aqui
Te afirmamos
Dente por dente
Assim
Que um dia
Rirá melhor
Quem rirá
Por fim
Na curva
Da estrada
Há covas
Feitas no chão
E em todas
Florirão rosas
Duma nação.

Dedicada ao pintor Dias Coelho, assassinado pela PIDE.

A nau de António Faria

LP Como se Fora seu Filho, 1983

Vai-se a vida e vem a morte
O mal que a todos domina
Reina o comércio da china
Às cavalitas da sorte

Dinheiro seja louvado
A cruz de Cristo nas velas
Soprou o diabo nelas
Deu à costa um afogado

A guerra é coisa ligeira
Tudo vem do mal de ofício
Não pode haver desperdício
Nesta vida de canseira

Demanda o porto corsário
No caminho faz aguada
Ali findou seu fadário
Morreu de morte matada

A nau de António Faria
Leva no bojo escondida
A cabeça do corsário
Que lhes quis tirar a vida

Aljofre pérola rama
Eis os pecados do mundo
Assim vai a nau ao fundo
Sem arte a honra e a fama

Entre cristãos e gentios
Em gritos e altos brados
Para ganhar uns cruzados
Lançam-se vivas ao rio

Em vindo de veniaga
Com a vela solta ao vento
Um mouro é posto a tormento
Por não dizer quem lhe paga

Vou-me à costa à outra banda
Já vejo o rio amarelo
Foi no tempo do farelo
Agora é o rei quem manda

Faz-te à vela marinheiro
Rumo ao reino do Sião
Antes do fim de Janeiro
Hás-de ser meu capitão

Tema composto para a peça «Fernão, Mentes?» do grupo de teatro «A Barraca», e que estreou a 18 de Novembro de 1981.

A presença das formigas

LP Coro dos tribunais, 1974

A presença das formigas
Nesta oficina caseira
A regra de três composta
Às tantas da madrugada
Maria que eu tanto prezo
E por modéstia me ama
A longa noite de insónia
Às voltas na mesma cama
Liberdade liberdade
Quem disse que era mentira
Quero-te mais do que à morte
Quero-te mais do que à vida

Achégate a mim, Maruxa ( Popular, Galiza )

LP Fura Fura, 1979

Achégate a mim, Maruxa
Chégate ben, moreniña
Quérome casar contigo
Serás miña mulleriña

Adeus, estrela brilante
Compañeiriña da lua
Moitas caras teño visto
Mais como a tua ningunha

Adeus lubeiriña triste
De espaldas te vou mirando
Non sei que me queda dentro
Que me despido chorando

Adeus, ó Serra da Lapa

LP Venham Mais Cinco, 1973

Adeus ó Serra da Lapa
Adeus que te vou deixar
Ó minha terra ó minha enxada
Não faço gosto em voltar

Companheiros de aventura
Vinde comigo viajar
A noite é negra a vida é dura
Não faço gosto em voltar

Dou-te o meu lenço bordado
Quando de ti me apartar
Eu quero ir pró outro lado
Não faço gosto em voltar

O meu dinheiro contado
É para quem me levar
O meu caminho está traçado
Não faço gosto em voltar

Moirar a terra insegura?
Fugir de serra e do mar?
Meus companheiros de aventura
Tudo farei pra salvar

Agora

LP Galinhas do Mato, 1985

Agora a vinha é doce
Em vinha d´alhos

Agora a frívola foi-se
O matutino

Agora a vírgula vai-se
A virgindade

Agora a quinta descanta
A mocidade

Agora a a pérola não
Se vai embora

Agora vai a filha
E vai a sogra

Agora não cheirava
A rosmaninho

Agora o Bento está
Mesmo sozinho

Agora pinta a chuva
Na goteira

Agora a filha já
Não tem papeira

Agora rima o novo
Rumo ao velho

Agora sabe bem
Este sossego

Ailé! Ailé!

LP Coro dos tribunais, 1974

Limpa a bota
Cava a trincheira
Puxa-lhe
Pela crina
Corta as pinças
À centopeia
Põe-lhe uma pedra
Em cima

Mata a bicha
Que está bem cheia
Morde-lhe a perna
Fina
Corta a língua
Fura a traqueia
Que ela estrebucha
Ainda

Se ela assopra      
Cospe-lhe à beira
Dá-lhe c’os pés
À bruta
Ninguém topa
Que é cuspideira
Salta-lhe
P’rá garupa

Tanto cavas
A cova funda
Que há-de acabar
A bicha
Põe-lhe a terra
Sobre a corcunda
P’ra não se ver
A crista

Alegria da criação

LP Galinhas do Mato, 1985

Plantei a semente da palavra
Antes da cheia matar o meu gado
Ensinei ao meu filho a lavra e a colheita
Num terreno ao lado

A palavra rompeu
Cresceu como a baleia
No silêncio da noite à lua cheia
Vi mudar estações soprar a ventania
Brilhar de novo o sol sobre a baía

Fui um bom engenheiro um bom castor
Amei a minha amada com amor
De nada me arrependo só a vida
Me ensinou a cantar esta cantiga

Feiticeira
Mãe de todos nós
Flor da espiga
Maldita para tiranos
Amorosa te louvamos
Tens mais de um milhão de anos
Rapariga

Quando o lume nos aquece
No grande frio de Inverno
Vem até nós uma prece
Que assim de longe parece
Uma cantiga

Magistrada Nossa natural
Vitoriosa
Curandeira dos aflitos
Amante de mil maridos
Há mais de um milhão de idos
Tormentosa

Quando a fera encarcerada
Que dentro de nós suplanta
Quebra a gaiola sozinha
Voa voa endiabrada
Uma andorinha

Ali está o rio ( Luís Francisco Rebelo/ José Afonso )

LP Enquanto há força, 1978
(Baseada na peça de B. Brecht «A excepção e a regra»)

Ali está o rio
Dois homens na margem estão
Um dá um passo, outro hesita
Só um se aventura outro não

Bom negócio faz um deles
Tem o triunfo na mão
Do outro lado do rio
Só um come o fruto, o outro não

Ao outro passado o p’rigo
Novos castigos virão
Se ambos venceram o rio
Só um tubo ganha o outro não

Na margem já conquistada
Só um venceu a valer
Perdeu o outro a saúde
Mas nada ganhou p’ra viver

Quem diz “nós” saiba ver bem
Se diz a verdade ou não
Ambos vencemos o rio
A mim quem me vence é o patrão

Alípio de Freitas

LP Com as minhas tamanquinhas, 1976

Baía de Guanabara
Santa Cruz na fortaleza
Está preso Alípio de Freitas
Homem de grande firmeza

Em Maio de mil setenta
Numa casa clandestina
Com a companheira e a filha
Caiu nas garras da CIA

Diz Alípio à nossa gente:
“Quero que saibam aí
Que no Brasil já morreram
Na tortura mais de mil

Ao lado dos explorados
No combate à opressão
Não me importa que me matem
Outros amigos virão”

Lá no sertão nordestino
Terra de tanta pobreza
Com Francisco Julião
Forma as ligas camponesas

Na prisão de Tiradentes
Depois da greve da fome
Em mais de cinco masmorras
Não há tortura que o dome

Fascistas da mesma igualha
(Ao tempo Carlos Lacerda)
Sabei que o povo não falha
Seja aqui ou outra terra

Em Santa Cruz há um monstro
(Só não vê quem não tem vista
Deu sete voltas à terra
Chamaram-lhe imperialista

Baía da Guanabara
Santa Cruz na fortaleza
Está preso Alípio de Freitas
Homem de grande firmeza

Altos Altentes ( Popular )

LP Como se fora seu filho, 1983
(Cada quadra é uma adivinha popular portuguesa)

Altos altentes
Carapinos carapentes
Dá-lhe uma risada
E caem-lhe os dentes

Igrejinha pequenina
Sacristão revolvedor
A gente que nela mora
Toda veste duma cor

Carvalheira tem cem canos
Cada cano tem cem ninhos
Cada ninho tem cem ovos
Quantos são os passarinhos

Altos castelos

LP Baladas e canções, 1964

Altos castelos de branco luar
Linda menina que vai casar
Torres cinzentas que dão para o vento
Dentro do meu pensamento

Eu lá na serra não sou ninguém
Se fores p’rà guerra eu irei também
Irei também numa barca bela
Cinta vermelha e saia amarela

Na praia nova caiu uma estrela
Moças trigueiras ide atrás dela
Rola rolinha garganta de prata
Canta-me uma serenata

Um cavalinho de crina na ponta
Leva à garupa uma bruxa tonta
Duas meninas a viram passar
Mesmo à beirinha do mar


Para ser executada à viola por Rui Pato, obedecia mais às exigências duma instrumentação de tipo clássico ao gosto dos tocadores de alaúde do século XVI. Limitei-me depois a reajustar uma letra, ou melhor, um conjunto de sons que não ultrapassasse na divisão silábica a divisão musical. A ingenuidade de certas canções de roda e a gratuidade de alguns poemas surrealistas (lembrei-me duma canção de António Barahona) indicaram-me o sentido do conjunto apropriado ao canto.
José Afonso, in «Cantares»

Amor de estudante ( Popular/ João Carlos C. Gomes )

EP Balada do Outono, 1960

Dizem que amor de estudante
Não dura mais que uma hora
Só o meu é tão velhinho
Inda se não foi embora

A cabra da velha torre
Meu amor chama por mim
Quando um estudante morre
Os sinos tocam assim

Aquela moça da aldeia ( Américo Durão )

EP Coimbra, 1960

Aquela moça da aldeia
Que eu conduzi ao altar
Há-de trazer-me à ideia
Desejos de ir rezar

Amei-te só de me olhares
O coração adivinha
Deus fez as almas aos pares
E da tua vida minha

Arcebispíada

LP Enquanto há Força, 1978

Pregais o Cristo de Braga
Fazeis a guerra na rua
Sempre virados p’rò céu
Sempre virados p’rà Virgem
A Santa Cruzada manda
Matar o chibo vermelho
Contra a foice e o martelo
Contra a alfabetização
Curai de ganhar agora
Os vossos novos clientes
Além do pide e do bufo
Amigos do usurário
Além do latifundiário
Amigo do Capelão
“Abre Nuncio Vade Retro
Querem vender a nação”
“A medicina é ateia
Não cuida da salvação”
Que o diga o facultativo
Que o diga o cirurgião
Que o digam as criancinhas
“Rezas sim, parteiras não”

Se o Pinochet concordasse
Já em Fátima haveria
Mais de trinta mil vermelhos
A arder de noite e de dia
Caridade, a quanto obrigas
Só trinta mil voluntários
“Cristo reina Cristo vinga”
Nos vossos santos ovários
E também nos lampadários
E também nos trintanários
Abre Nuncio Vade Retro
Querem vender a nação

Ó Carnaval da capela
Ó liturgia do altar
Já lá vem Camilo Torres
Com o seu fusil a sangrar

Igreja dos privilégios
Mataste o Cristo a galope
Também Franco, o assassino
Mandou benzer o garrote

As noivas dos bilros

Mariana
Toda a semana
Não se cansa
De acomodar
Guardanapos
Com quadradinhos
Para quando
For a casar

Marinela
Põe-se à janela
Para quando
Alguém a quiser
Guardatrapos
Guardatrapinhos
Marinela
Põe-se a fazer

Mariazinha
Minha vizinha
Lá de cima
Do 5.º andar
Camisolas
Com três argolas
Faz p'rò noivo
Que é militar

Marialvas
Já com entradas
Entram na rua
A assobiar
Soltam vivas
Às raparigas
Que de longe
Os vêem passar

Dona Olga
Que tanto empolga
Quem a viu
Suspirar a valer
Bordadeira
Tão dobadoura
Nesta rua
Não volta a haver

Dona Inácia
De Samotrácia
Faz babetes
Pra se entreter
Com colchetes
Com ramalhetes
Desde a alva
À noite romper

Ó da marcha
Ó da marchinha
Vai a procissão
A passar
São as noivas
Numa pileca
Sempre sempre
Sempre a bordar

Santo António
Do matrimónio
Já não sabe
O que há-de fazer
Com a ruça
Da carapuça
Talvez venha
Um dia a aprender

Tema da autoria de José Afonso, no entanto apenas gravado por Carlos Alberto Moniz e Maria do Amparo no EP «3 Novas & 3 Velhas», de 1973.

As pombas

EP Baladas de Coimbra, 1963

Pombas brancas
Que voam altas
Riscando as sombras
Das nuvens largas
Lá vão
Pombas que não voltam

Trazem dentro
Das asas prendas
Nas bicos rosas
Nuvens desfeitas
No mar
Pombas do meu cantar

Canto apenas
Lembranças várias
Vindas das sendas
Que ninguém sabe
Onde vão
Pombas que não voltam

Pretendia-se que a melopeia, feita de reiterações e alongamentos em que a voz mantém as sílabas finais até se extinguir lentamente, correspondesse a um fundo independente do contexto literário e vice-versa. O poema, a melodia e o acompanhamento separam-se e reúnem-se de novo, repelidos por uma espécie de movimento ascencional sem princípio nem fim. A voz eleva-se e tenta fixar por meio de modulações adequadas o voo dos pássaros que se perde na distância.
José Afonso, in «Cantares»

As sete mulheres do Minho ( Popular )

LP Fura Fura, 1979

As sete mulheres do Minho
Mulheres de grande valor
Armadas de fuso e roca
Correram com o regedor

Essa mulher lá do Minho
Que da foice fez espada
Há-de ter na lusa história
Uma página doirada

Viva a Maria da Fonte
Com as pistolas na mão
Para matar os Cabrais
Que são falsos à nação

Tema popular, musicado por José Afonso para a peça «Zé do Telhado», levada à cena pelo grupo de teatro «A Barraca» em 1978.

Avenida de Angola

LP Traz Outro Amigo Também, 1970

Dum botão de branco punho
Dum braço de fora preto
Vou pedir contas ao mundo
Além naquele coreto

Lá vai uma lá vão duas
Três pombas a descansar
Uma é minha outra é tua
Outra é de quem n'a agarrar

Na sala há cinco meninas
E um botão de sardinheira
Feitas de fruta madura
Nos braços duma rameira

Lá vai uma lá vão duas
Três pombas a descansar
Uma é minha outra é tua
Outra é de quem n'a agarrar

O Sol é quem faz a cura
Com alfinete de dama
Na sala há cinco meninas
Feitas duma capulana

Lá vai uma lá vão duas
Três pombas a descansar
Uma é minha outra é tua
Outra é de quem n'a agarrar

Quando a noite se avizinha
Do outro lado da rua
Vem Ana, vem Serafina
Vem Mariana, a mais pura

Lá vai uma lá vão duas
Três pombas a descansar
Uma é minha outra é tua
Outra é de quem n'a agarrar

Há sempre um botão de punho
Num braço de fora preto
Vou pedir contas ao mundo
Além naquele coreto

Lá vai uma lá vão duas
Três pombas a descansar
Uma é minha outra é tua
Outra é de quem n'a agarrar

Na noite das columbinas
Leva-as na tua algibeira
Na sala há cinco meninas
Feitas da mesma maneira

Lá vai uma lá vão duas
Três pombas a descansar
Uma é minha outra é tua
Outra é de quem n'a agarrar

Adaptação dum antigo poema.
José Afonso, in «Cantares»

B

Bailia ( Airas Nunes (Séc. XIII) )

LP Contos Velhos Rumos Novos, 1969

Bailemos agora por Deus, ai velidas,
So aquestas avelaneiras frolidas
E quen fôr velida, como nós, velidas,
Se amigo amar,
So aquestas avelaneiras frolidas
Verrá bailar.

Bailemos agora por Deus, ai luadas
So aquestas avelaneiras grenadas
E quen fôr luada, como nós, luadas,
Se amigo amar,
So aquestas avelaneiras grenadas
Verrá bailar.

Bailemos agora por Deus, ai velidas,
So aquestas avelaneiras frolidas
E quen fôr velida, como nós, velidas,
Se amigo amar,
So aquestas avelaneiras frolidas
Verrá bailar.

Bailemos nós já todas tres, ai irmañas,
So aqueste ramo d' estas avelañas
E quen fôr louçana, como nós, louçanas
Se amigo amar,
So aqueste ramo d' estas avelanas
Verrá bailar.

Por Deus, ai amigas, mentr' al non fazemos,
So aqueste ramo frolido bailemos
E quen ben parecer, como nós parecemos,
Se amigo amar,
So aqueste ramo sol[o] que nós bailemos
Verrá bailar.

Balada ( Popular, Açores/ José Afonso )

EP Coimbra, 1960

Ó meu bem se tu te fores
Como dizem que te vais
Deixa-me o teu nome escrito
Numa pedrinha do cais

Quando o mê mano se foi
Sete lenços alaguei
Mai la manga da camisa
E dizem que não chorei

Meu amor vem sobre as ondas
Meu amor vem sobre o mar
Ai quem me dera morrer
Nas águas do teu olhar

Balada Aleixo ( António Aleixo )

LP Baladas e Canções, 1964

Quem canta por conta sua
Canta sempre com razão
Mais vale ser pardal na rua
Que rouxinol na prisão

Adeus que me vou embora
Adeus que me quero ir
Deita cá esses teus olhos
Que me quero despedir

Com os cegos me confundo
Amor desde que te vi
Nada mais vejo no mundo
Quando não te vejo a ti

Adeus que me vou embora
Adeus que me quero ir
Deita cá esses teus olhos
Que me quero despedir

Homenagem a António Aleixo, poeta cauteleiro, natural de Loulé.
José Afonso, in «Cantares»

Balada do Outono

EP Balada do Outono, 1960

Águas passadas do rio
Meu sono vazio
Não vão acordar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto
A cantar

Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto
A cantar

Águas do rio correndo
Poentes morrendo
P’ras bandas do mar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto
A cantar

Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto
A cantar

Mais propriamente Balada do rio. Dominada ainda pelo velho espírito coimbrão, é o produto de um estado perpétuo de enamoramento ou como tal vivido, uma espécie de revivescência tardia da juventude. O trovador julga-se imprescindível, como um protagonista que a si próprio se interpela para convocar a presença das águas dos ribeiros e dos rios, testemunhas vivas do seu solitário cantar. A imagem do “Basófias” (Nome por que é conhecido o Mondego na gíria coimbrã), que incha e desincha quando lhe apetece, deve ter influído na gestação da “partitura”. Uma certa disposição fisiológica propensa à melancolia explica o começo das dores sem falar na albumina anunciadora de futuras e promissoras “partenogéneses”.
José , in «Cantares»

Balada do sino

LP Cantares do Andarilho, 1968

Uma barquinha
Lá vem lá vem
Dim Dem
Na barquinha de Belém

Senhor Barqueiro
Quem leva aí
Dão Dim
Na barquinha d’Aladim

Levo a cativa
Duma só vez
Dois, três
Na barquinha do Marquês

Ao romper d’alva
Casada vem
Dim Dem
Na barquinha é que vai bem

Se a tem guardada
Deixe-a fugir
Dão Dim
Na barquinha do Vizir

Lá vai roubada
Lá vai na mão
Dim Dão
Na barquinha do ladrão

Resultou duma acompanhamento à viola para outra canção inacabada. A letra e a melodia retomam o gosto antigo ainda não de todo extinto das barcarolas infantis que falavam de barcos e barqueiros. Numa praceta do Alto Maé, à hora da sesta, as crianças brincavam: Que linda barquinha / Que lá vem, lá vem…
José Afonso, in «Cantares»

Barracas ocupação

LP Enquanto há Força, 1978

1. Lá vêm subindo o abismo

Lá vêm subindo o abismo
Da sombra donde vieram
Já sem medo e sem vergonha
Virados p’rà luz do dia
Será esta a nossa porta?
Perguntavam um pouco inquietos
Por terem p’la vez primeira
Quatro paredes e um tecto

Por certo ninguém lhes disse
Que são os heróis de agora
Maiores que Alexandre Magno
Numa batalha perfeita
Sem perguntar ao Estado
Qual o caminho a tomar
Correm risco correm penas
Quem sabe onde vão parar

2. Lá vêm os nossos soldados

Lá vêm os nossos soldados
Esses, sim, sabemos quem são
Os nossos filhos, os nossos irmãos
Os nossos pais, diz a criança

Não tenhamos medo
Pois ninguém melhor
Poderá resolver
esta luta

A favor de quem?
Ao lado de quem?

Vamos, coragem, chegou o momento
De preparar os nossos argumentos

Não tenhamos medo
São nossos amigos

São os nossos filhos,
Os nossos irmãos
Os nossos pais, diz a criança
Já estão a dobrar a rua
Lá vêm eles

Não tenhamos medo
Pois ninguém melhor
Poderá resolver
Esta luta

3. Maravilha Maravilha

Maravilha Maravilha
Venham ver o barco doido
Sem amarras que o segurem
Pela porta entra a maré
Venham ver a barco doido
Água cai pela chaminé

Maravilha Maravilha
Já vejo os móveis dançar
Entra a água pela porta
O telhado vai tombar
Quando o mar se enfurece
Andamos em rodopio
Sobre caminhos de prata
Correm lágrimas a fio

Benditos

LP Galinhas do Mato, 1985

Já fui neve no mar
Já fui espada na mão
Já fui a corda da lira a vibrar

Já fui servo de um Deus
Vida e morte num momento
Já nasci no barlavento
Já fui erva no chão

Bendito seja o pão
Bendita seja a flor
Benditas as portas do amor

Já fui servo de um Deus
Vida e morte de um momento
Já nasci no barlavento
Já fui erva no chão

Já fui favo de mel
Cajado de pastor
Já fui nuvem correndo no céu

Já fui ceptro de um rei
Arco-íris num instante
Já fui vento do levante
Já fui andarilho e cantor

Bendita seja a paz
Bendita sejas tu
Benditos os peixes do azul

Já fui ceptro de um rei
Arco-íris num instante
Já fui vento do levante
Já fui andarilho e cantor

C

Canção da paciência

LP Como se Fora seu Filho, 1983

Muitos sóis e luas irão nascer
Mais ondas na praia rebentar
Já não tem sentido ter ou não ter
Vivo com o meu ódio a mendigar

Tenho muitos anos para sofrer
Mais do que uma vida para andar
Beba o fel amargo até morrer
Já não tenho pena sei esperar

A cobiça é fraca melhor dizer
A vida não presta para sonhar
Minha luz dos olhos que eu vi nascer
Num dia tão breve a clarear

As águas do rio são de correr
Cada vez mais perto sem parar
Sou como o morcego vejo sem ver
Sou como o sossego sei esperar

Tema composto para a peça «Fernão, Mentes?» do grupo de teatro «A Barraca», e que estreou a 18 de Novembro de 1981.

Canção de embalar

LP Cantares do Andarilho, 1968

Dorme meu menino a estrela d’alva
Já a procurei e não a vi
Se ela não vier de madrugada
Outra que eu souber será p’ra ti

Outra que eu souber na noite escura
Sobre o teu sorriso de encantar
Ouvirás cantando nas alturas
Trovas e cantigas de embalar

Trovas e cantigas muito belas
Afina a garganta meu cantor
Quando a luz se apaga nas janelas
Perde a estrela d’alva o seu fulgor

Perde a estrela d’alva pequenina
Se outra não vier para a render
Dorme qu’inda a noite é uma menina
Deixa-a vir também adormecer

Lourenço Marques 1965. Toada medievalesca em tom menor. Letra e música ocorreram quase simultaneamente. A estrela d’alva surge acima do horizonte para os lados de Xipamanine com a cumplicidade das res­tantes. Quando os adultos dormem e as luzes se apagam nas janelas os meninos levantam-se e vão cumprimentar as estrelas.
José Afonso, in «Cantares»

Canção do desterro ( Emigrantes )

LP Traz Outro Amigo Também, 1970

Vieram cedo
Mortos de cansaço
Adeus amigos
Não voltamos cá
O mar é tão grande
E o mundo é tão largo
Maria Bonita
Onde vamos morar

Na barcarola
Canta a Marujada
– O mar que eu vi
Não é como o de lá
E a roda do leme
E a proa molhada
Maria Bonita
Onde vamos parar

Nem uma nuvem
Sobre a maré cheia
O sete-estrelo
Sabe bem onde ir
E a velha teimava
E a velha dizia
Maria Bonita
Onde vamos cair

À beira de água
Me criei um dia
– Remos e velas
Lá deixei a arder
Ao sol e ao vento
Na areia da praia
Maria Bonita
Onde vamos viver

Ganho a camisa
Tenho uma fortuna
Em terra alheia
Sei onde ficar
Eu sou como o vento
Que foi e não veio
Maria Bonita
Onde vamos morar

Sino de bronze
Lá na minha aldeia
Toca por mim
Que estou para abalar
E a fala da velha
Da velha matreira
Maria Bonita
Onde vamos penar

Vinham de longe
Todos o sabiam
Não se importavam
Quem os vinha ver
E a velha teimava
E a velha dizia
Maria Bonita
Onde vamos morrer

Sugerida em Lourenço Marques, pela leitura dum artigo da Seara Nova sobre as causas da emigração portuguesa. Tenta-se evocar a odisseia dos forçados actuais, partindo em modernas naus catrinetas, como os Mendes Pintos de outras épocas, a caminho dum destino que na História se repete como um dobre de finados.
José Afonso, in «Cantares»

Canção do mar

EP Cantares de José Afonso, 1964

Ó mar
Ó mar
Ó mar profundo
Ó mar
Negro altar
Do fim do mundo

Em ti nasceu
Ó mar
A noite que já morreu
O teu olhar

Ó mar
Ó mar
Ó mar profano
Ó mar
Verde mar
Em que me irmano

Em ti nasceu
Ó mar
A noite que já morreu
No teu olhar

O tema evocado no cenário um tanto simplista do casino da Figueira da Foz vive de uma valorização puramente sonora que lhe é dada pelo acompanhamento e pela repetição cadenciada da palavra mar. A dificuldade consistiu em fazê­-la passar ao plano abstracto como elemento omnipresente no espírito do cantor fora do ambiente convencional para que foi criada.
José Afonso, in «Cantares»

Canção do medo

LP Como se fora seu filho, 1983

Minha mãe como não morro
À vista desta carnagem
Dou por mal paga a viagem
A tais foguetes não corro

Não sei dos meu lavagantes
Nem da mulher que me espera
Quero sair desta guerra
Mesmo agora neste instante

Ai carnes do meu padrinho
Podeis temer à vontade
Que a vida do teu sobrinho
Vale bem a tua idade

E mais a tua canseira
Em me ensinares que não dorme
Aquele que mata a fome
A quem só tem caganeira

Livra-me dos teus cuidados
Rezo dois mil padre-nossos
Assim me cuidem dos ossos
Sejam eles mil diabos

Agora tenho cagaço
Como quando era menino
E me tolhiam os braços
Temores ao verbo Divino

Levanta ferro meu corpo
Vê se podes dar um passo
Valham-me todos os santos
Das caminhadas que faço

Tão pouco pode a natura
Nestas afrontas mortais
Que um homem morre mil vezes
Mil e uma já é demais

Tema composto para a peça «Fernão, Mentes?» do grupo de teatro «A Barraca», e que estreou a 18 de Novembro de 1981.

Canção longe ( Popular, Açores/ José Afonso )

EP Baladas de Coimbra, 1963

Ó meu bem se tu te fores
Como dizem que te vais
Deixa-me o teu nome escrito
Numa pedrinha do cais

Quando o mê mano se foi
Sete lenços encharquei
Mai la manga da camisa
E dizem que não chorei

Meu amor vem sobre as ondas
Meu amor vem sobre o mar
Ai quem me dera morrer
Nas águas do teu olhar

Foi a primeira balada a ser composta no edifício dos “Incas”, em Coimbra. Estavam presentes, entre outros, o Vítor Lobão, o Tomé e o Cassiano. O Tomé disse que era semelhante à música de fundo do filme “Sansão e Dalila”. Por isso, nunca a levei muito a sério, embora me tivesse agradado.
José Afonso, in «Cantares»

Cantigas do Maio ( José Afonso/ Quadra Popular)

LP Cantigas do Maio, 1971

Eu fui ver a minha amada
Lá p'ròs baixos dum jardim
Dei-lhe uma rosa encarnada
Para se lembrar de mim

Eu fui ver o meu benzinho
Lá p'ròs lados dum passal
Dei-lhe o meu lenço de linho
Que é do mais fino bragal

Eu fui ver uma donzela
Numa barquinha a dormir
Dei-lhe uma colcha de seda
Para nela se cobrir

Eu fui ver uma solteira
Numa salinha a fiar
Dei-lhe uma rosa vermelha
Para de mim se encantar

Eu fui ver a minha amada
Lá nos campos eu fui ver
Dei-lhe uma rosa encarnada
Para de mim se prender

Verdes prados, verdes campos
Onde está minha paixão?
As andorinhas não param
Umas voltam outras não

Refrão (Popular)

Minha mãe quando eu morrer
Ai chore por quem muito amargou
Para então dizer ao mundo
Ai Deus mo deu ai Deus mo levou

Canção do vai... e vem... ( Paulo Armando/ Refrão popular Algarve )

EP Baladas de Coimbra, 1963

Em rosa clara te vi
Rosa morta te deixei
Em rosa clara
Algum dia te verei

Na lua vinda te fiz
Lua finda te entreguei
Eras ela o que seria
Saberei

Ai amor amores
Tenho eu mais dum cento
Bonecas primores
Cabeças de vento

Cabeças de vento
Não as quero eu não
Ai amor amores
Do meu coração

Em noite larga te ardi
Madrugada te apaguei
Num retorno que te viva
Te amarei

Em rosa clara te vi
Rosa morta te deixei
Em rosa clara
Algum dia te verei

Ai amores, amores
Tenho eu mais dum cento
Bonecas primores
Cabeças de vento

Cabeças de vento
Não as quero eu não
Ai amor, amores
Do meu coração

O belo poema de Paulo Armando pareceu­me, como na realidade foi, inutilmente sacrificado aos compassos de uma valsa monótona e fria. Para finalizar exigia-se uma conclusão airosa; o estribilho, meio anedótico, foi colhido num livro de cancioneiro algarvio pertencente à biblioteca da Capitania de Faro. O verso Bonecas, primores, da minha lavra, substituiu o original Bonecos de palha. O resultado, um pouco cabotino, impôs-se pela necessidade de sujeitar a letra ao primado da música.
José Afonso, in «Cantares»

Canta, camarada

SINGLE Menina dos olhos tristes, 1969

Canta camarada canta
Canta que ninguém te afronta
Que esta minha espada corta
Dos copos até à ponta

Eu hei-de morrer de um tiro
Ou duma faca de ponta
Se hei-de morrer amanhã
Morra hoje tanto conta

Tenho sina de morrer
Na ponta de uma navalha
Toda a vida hei-de dizer
Morra o homem na batalha

Viva a malta e trema a terra
Aqui ninguém arredou
nem há-de tremer na Guerra
Sendo um homem como eu sou

Canta o juiz ( Luís Francisco Rebelo/ José Afonso )

(Tema não gravado)

Que o teu inimigo queira
Matar-te a sede uma vez
Não penses nisso se és homem
Faz o mesmo que este fez

A regra é dente por dente
Ninguém atende à excepção
Só os loucos não aprendem
Desta verdade a razão

Canção para a peça de Bertolt Brecht «A excepção e a regra», a partir da versão portuguesa de Luiz Francisco Rebello.

Cantar alentejano

LP Cantigas do Maio, 1971

Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer

Ceifeiras na manhã fria
Flores na campa lhe vão pôr
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou

Acalma o furor campina
Que o teu pranto não findou
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou

Aquela pomba tão branca
Todos a querem p´ra si
Ó Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti

Aquela andorinha negra
Bate as asas p´ra voar
Ó Alentejo esquecido
Inda um dia hás-de cantar

A mulher a quem é dedicada esta tentativa de A B C é uma heroína popular bem conhecida no Alentejo onde há anos se deu o facto a que o autor faz discreta mas comovida referência. Numa versão primitiva o tenente dirige­se à ceifeira e diz-lhe: Quando eu te furar a pança / Muda a dança / P’ra vocês. Para além do episódio, Catarina vive na memória dos homens e da própria terra que a viu nascer e morrer. Os versos foram modificados por carência de ele­mentos biográficos mas as ceifeiras continuam a pôr flores na campa de Catarina.
José Afonso, in «Cantares»

Cantares do andarilho ( António Quadros (pintor) )

LP Cantares do Andarilho, 1968

Já fiz recados às bruxas
Do caselho à portelada
Dei-lhes a minha inocência
Elas não me deram nada

Andei à giesta
Ao lírio maninho
Na Bouça da Fresta
No Casal Velido
Erva cidreira
À erva veludo
Na Lomba regueira
No Pinhal do Mudo

Andei ó licranço
Andei ao lacrau
No Monte do Manso
na Espera do Mau
Vibra à carocha
Ao corujão cego
Na mata da Tocha
No rio Lagedo

Fui andarilho das bruxas
Moço de S. Cipriano
Já fui morto e inda vivo
Vendi a alma ao Diabo

Era donzel e guardei-me
P´ràs filhas da feiticeira
parti-me em metade à loira
noutra metade à morena

Cantiga do monte

LP Traz Outro Amigo Também, 1970

Fragância morena
Portal de marfim
Ondina açucena
Chamando por mim

Cantiga do monte
Clareira do ar
Dançando na nuvem
Mudando em mar

Na flor da montanha
Na espuma a cair
Nos frutos de Agosto
Na boca a sorrir

Na crista da vaga
Tormento alonguei
No vento e na fraga
Só luto encontrei

Abriram-se as velas
Mal rompe a manhã
Na luz e nas trevas
Foi-se a louçã

Ai húmida prata
Meu sonho sem ver
Ai noite de Lua
Meu lume de arder

Ó finas areias
Ó clara manhã
Ó rubras papoilas
Da cor da romã

Ó rosto da terra
E abismos do mar
Ouvide o seu canto
De longe a arfar

Abriram-se as velas
Mal rompe a manhã
Na luz e nas trevas
Lá vai a louçã

Da morte zombando
Na aurora lunar
Num jardim suspenso
Do seu folgar

Canto moço

LP Traz Outro Amigo Também, 1970

Somos filhos da madrugada
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de quem nos traga
Verde oliva de flor no ramo
Navegamos de vaga em vaga
Não soubemos de dor nem mágoa
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de manhã clara

Lá do cimo de uma montanha
Acendemos uma fogueira
Para não se apagar a chama
Que dá vida na noite inteira
Mensageira pomba chamada
Mensageira da madrugada
Quando a noite vier que venha
Lá do cimo de uma montanha

Onde o vento cortou amarras
Largaremos pela noite fora
Onde há sempre uma boa estrela
Noite e dia ao romper da aurora
Vira a proa minha galera
Que a vitória já não espera
Fresca, brisa, moira encantada
Vira a proa da minha barca.

Para ser cantado pelos estudantes universitários que o autor conheceu numa digressão para que foi convidado. Destina-se a ser interpretado como música coral por duzentos figurantes de ambos os sexos e de todas as proveniências e condições.
José Afonso, in «Cantares»

Carta a Miguel Djédjé

LP Traz outro amigo também, 1970

Diga amigo Miguel
Como está você?
Em todo o Xipamanine
Já ninguém o vê
Vou dar-lhe a minha viola
Para tocar outra vez

O seu valor um dia
Você mostrou
Todo o mainato o ouvia
E até dançou
Miguel só você sabia
Tocar como já tocou

Vinha maningue gente
Para aprender
Moda lá da sua terra
Bonita a valer
O Jaime e o Etekinse
Amigos não volt´haver

Quando a noite se ouvia
Miguel tocar
Também havia a marimba
Para acompanhar
A noite
Na Ponta Geia
Amigos hei-de recordar

O barco foi andando
E a Nanga vi
Foi a saudade aumentando
Longe daí
A gente
Na minha terra
Não canta assim
Como eu ouvi

Chamaram-me cigano

LP Cantares do Andarilho, 1968

Chamaram-me um dia
Cigano e maltês
Menino, não és boa rês
Abri uma cova
Na terra mais funda
Fiz dela a minha sepultura
Entrei numa gruta
Matei um tritão
Mas tive
O diabo na mão

Havia um comboio
Já pronto a largar
E vi
O diabo a tentar
Pedi-lhe um cruzado
Fiquei logo ali
Num leito
De penas dormi
Puseram-me a ferros
Soltaram o cão
Mas tive
O diabo na mão

Voltei da charola
De cilha e arnês
Amigo, vem cá
Outra vez
Subi uma escada
Ganhei dinheirama
Senhor D. Fulano Marquês
Perdi na roleta
Ganhei ao gamão
Mas tive
O diabo na mão

Ao dar uma volta
Caí no lancil
E veio o diabo a ganir
Nadavam piranhas
Na lagoa escura
Tamanhas que nunca tal vi
Limpei a viseira
Peguei no arpão
Mas tive
O diabo na mão

Chula da Póvoa

LP Com as minhas tamanquinhas, 1976

Em Janeiro bebo o vinho
Em Fevereiro como o pão
Nem que chovam picaretas
Hás-de cair, Rei-Milhão

Adeus, cidade do Porto
Adeus muros de Custóias
Cantando à chuva e ao vento
Andei a enganar as horas

Tenho mais de mil amigos
Aqui não me sinto só
Cantarei ao desafio
Ninguém tenha de mim dó

Ó meu Portugal formoso
Berço de latifundiários
Onde um primeiro ministro
Já manda a merda os operários

Já hoje muito maroto
Se diz revolucionário
E faz da bolsa do povo
Cofre-forte do bancário

Camaradas lá do Norte
Venham ao Sul passear
Cá nas nossas cooperativas
Há sempre mais um lugar

Com as minhas tamanquinhas

LP Com as minhas tamanquinhas, 1976

A fadiga é um dom da natureza
Chiça!
Com as minhas tamanquinhas
Com as minhas
Com as minhas tamanquinhas
P´ra quem não faz fortuna
Mata as penas e faz covinhas
Pela calçada desliza o operário
A modista
O alfaiate
Metidos num alicate
Depois da festa, menina
Muita gente se amofina
E o banqueiro? A ferrugem?
E a canalha?
Meta-os na forma
Queime-os na fornalha

Como se faz um canalha

LP Com as minhas tamanquinhas, 1976

Conheci-te ainda moço
Ou como tal eu te via
Habitavas o Procópio
Ias ao Napoleão

Mas ninguém sabia ao certo
Como se faz um canalha
Se a memória me não falha
Tinhas o mundo na mão

Alguma gente enganaste
(A fé da muita amizade
Tem também as suas falhas
Hoje fazes alianças

A bem da Santa União
Em abono da verdade
A tua Universidade
Tem mesmo um nome: Traição

Um social-democrata
Não foge ao Grão-Timoneiro
Basta citar o paleio
Dum major psicopata

Já são tantos namorados
Só falta o Holden Roberto
Devagar se vai ao longe
Nunca te vimos tão perto

Nunca te vimos tão longe
Daquilo que tens pregado
Nunca te vimos tão fora
Da vida do Zé Soldado

Ninguém mais te peça meças
No fulgor dos gabinetes
Hás-de acabar às avessas
Barricado até aos dentes

És um produto de sala
Rasputim cá dos Cabrais
Estas sempre em traje de gala
A brincar aos carnavais

Nos anais do mundanismo
A nossa história recente
Falará com saudosismo
Dum grande Lugar-Tenente

São tudo favas-contadas
No país da verborreia
Uma brilhante carreira
Dá produto todo o ano

Digamos p’ra ser exacto
Assim se faz um canalha
Se a memória não me falha
Já te mandei p’rò Caetano

Contos velhinhos ( Ângelo Vieira Araújo )

SINGLE Fados de Coimbra, 1953

Contos velhinhos de amor
Numa noite branca e fria
Tantos tenho para contar
São pétalas duma flor
Desfolhadas ao luar

Contos velhinhos os meus
São contos iguais a tantos
Que tantos já nos contaram
São saudades de um adeus
De sonhos que já passaram

Coro da Primavera

LP Cantigas do maio, 1971

Cobre-te canalha
Na mortalha
Hoje o rei vai nu

Os velhos tiranos
De há mil anos
Morrem como tu

Abre uma trincheira
Companheira
Deita-te no chão

Sempre à tua frente
Viste gente
Doutra condição

Ergue-te ó Sol de Verão
Somos nós os teus cantores
Da matinal canção
Ouvem-se já os rumores
Ouvem-se já os clamores
Ouvem-se já os tambores

Livra-te do medo
Que bem cedo
Há-de o Sol queimar

E tu camarada
Põe-te em guarda
Que te vão matar

Venham lavradeiras
Mondadeiras
Deste campo em flor

Venham enlaçadas
De mãos dadas
Semear o amor

Ergue-te ó Sol de Verão
Somos nós os teus cantores
Da matinal canção
Ouvem-se já os rumores
Ouvem-se já os clamores
Ouvem-se já os tambores

Venha a maré cheia
Duma ideia
P'ra nos empurrar

Só um pensamento
No momento
P´ra nos despertar

Eia mais um braço
E outro braço
Nos conduz irmão

Sempre a nossa fome
Nos consome
Dá-me a tua mão

Ergue-te ó Sol de Verão
Somos nós os teus cantores
Da matinal canção
Ouvem-se já os rumores
Ouvem-se já os clamores
Ouvem-se já os tambores

Consultem-se os comentários ao “Canto Jovem” do qual o “Coro da Primavera” é a introdução coral e orquestral. A composição da letra resistiu a todas as tentativas de lubrificação. O rufar dos tímbales e dos tambores intervém gradualmente como simples apoio no início, contagiante e poderoso no final.
José Afonso, in «Cantares»

Coro dos caídos

EP Cantares de José Afonso, 1964

Cantai bichos da treva e da aparência
Na absolvição por incontinência
Cantai cantai no pino do inferno
Em Janeiro ou em Maio é sempre cedo
Cantai cardumes da guerra e da agonia
Neste areal onde não nasce o dia

Cantai cantai melancolias serenas
Como o trigo da moda nas verbenas
Cantai cantai guizos doidos dos sinos
Os vossos salmos de embalar meninos
Cantai bichos da treva e da opulência
A vossa vil e vã magnificência

Cantai os vossos tronos e impérios
Sobre os degredos sobre os cemitérios
Cantai cantai ó torpes madrugadas
As clavas os clarins e as espadas
Cantai nos matadouros nas trincheiras
As armas os pendões e as bandeiras

Cantai cantai que o ódio já não cansa
Com palavras de amor e de bonança
Dançai ó parcas vossa negra festa
Sobre a planície em redor que o ar empesta
Cantai ó corvos pela noite fora
Neste areal onde não nasce a aurora

Um antigo poema incompleto serviu de base à música. O conjunto constituiria como que um complemento dos vampiros entretidos, após a batalha, na recolha dos mais valiosos despojos.
José Afonso, in «Cantares»

Coro dos tribunais ( Bertolt Brecht/ Luís Francisco Rebelo )

LP Coro dos tribunais, 1974

Foram-se os bandos dos chacais
Chegou a vez dos tribunais
Vão reunir o bom e o mau ladrão
Para votar sobre um caixão
Quando o inocente se abateu
Inda o morto não morreu
Quando o inocente se abateu
Inda o morto não morreu

A decisão do tribunal
É como a sombra do punhal
Vamos matar o justo que ali jaz
Para quem julga tanto faz
Já que o punhal não mata bem
A lei matemos também
Já que o punhal não mata bem
A lei matemos também

Soa o clarim soa o tambor
O morto já não sente a dor
Quando o deserto nada tem a dar
Vêm as águias almoçar
O tribunal dá de comer
Venham assassinos ver
O tribunal dá de comer
Venham assassinos ver

Se o criminoso se escondeu
Nada de novo aconteceu
A recompensa ao punho que matou
Uma fortuna a quem roubou
Guarda o teu roubo guarda-o bem
Dentro de um papel a lei

Canção para a peça de Bertolt Brecht «A excepção e a regra», a partir da versão portuguesa de Luiz Francisco Rebello.

 

D

De não saber o que me espera

LP Fura fura, 1979

De não saber o que me espera
Tirei a sorte à minha guerra
Recolhi sombras onde vira
Luzes de orvalho ao meio-dia

Vítima de só haver vaga
Entre uma mão e uma espada
Mas que maneira bicuda
De ir à guerra sem ajuda

Viemos pelo sol nascente
Vingamos a madrugada
Mas não encontramos nada
Sol e água sol e água

De linhas tortas havia
Um pouco de maresia
Mas quem vencer esta meta
Que diga se a linha é recta

De quem foi a traição ( Hélder Costa )

LP Fura fura, 1979

José do Telhado
Sozinho e perdido
É um lobo do mato
Acossado

De quem foi a traição?
De quem foi a traição?

José do Telhado
Trocado e vendido
É um lobo
Do mato
Fugido

De quem foi a traição?
De quem foi a traição?

José do Telhado
O traidor
Que o vendeu
Bem merece
Sofrer
O castigo

De quem foi a traição?
De quem foi a traição?

José do Telhado
Vai-se vingar
O traidor vai pagar
O traidor vai pagar

Tema para a peça «Zé do Telhado», com texto de Hélder Costa, levada à cena pelo grupo de teatro «A Barraca» em 1978.

De sal de linguagem feita

LP Fura fura, 1979

De sal de linguagem feita
Numa verruma que atava
A língua presa do jeito
A forma de ser escrava
O apito do comboio
Que não dizia de onde era
O sinal, a mordedura
A visita que não vem
O corredor, o tapume
A sala vedada às feras
O frenesim das gibóias
Em guarda, o soldo, a comida,
A cozedura do pleito
O cheiro a papel selado
Um cantinho de amargura
Um raio de sol queimado,
Junto do bolso do fato
A morte a vida a vitória
Diga lá minha menina
Se acredita nesta história

Década de Salomé

LP Galinhas do mato, 1985

Vai terminar esta prosa
Estamos na década de Salomé
Será o Apocalipse ou a torneira
A pingar no bidé?

É meio-dia dia de feira
Mensal em Vila Nogueira
Estamos na década do bricolage
Diz o jornal que um emigra
Morreu afogado em Mira
Antes da data
Do mariage

Estamos na Europa
Civilizada
Já cá faltava
Uma maison
Pour la patrie
P´lo Volkswagen
Acabou-se a forragem
Viva o patron!

Já tem destino esta terra
Vamos mudar para o marché aux puces
O tempo das ceroilas está no fio
Agora só de trousses.

É meio-dia dia de feira
Mensal em Vila Nogueira
Estamos na década do bricolage
Diz o jornal que um emigra
Morreu afogado em Mira
Antes da data
Do mariage.

Saem quarenta mil ovos moles
Vilar Formoso
É logo ali
Faz-se um enxerto
Com mijo de gato
Sola de sapato
Voilá Paris!

Aos grandes supermercados
Chega cultura num bi-camion
Camões e Eça vendem-se enlatados
Lavados com "champon"

É meio-dia dia de feira
Mensal em Vila Nogueira
Estamos na década do bricolage
Diz o jornal que um emigra
Morreu afogado em Mira
Antes da data
Do mariage

Estamos na Europa
Radarizada
Já cá faltava
Uma turquês
Para o controle
Do bravo e do manso
Vivaço e do tanso
Em cada mês!

A fina flor do entulho
Largou o pêlo ganhou verniz
Será o Christian Dior o manajeiro
A mandar no país?

Estamos da Europa
Do "estou-me nas tintas"
Nada de colectivismos
Chacun por si, meu
E chacun por soi
Tê vê e cama
Depois da esgaça
Até que lhes dê a traça
A culpa é toda
Do Erre Hagá.

Levam-te à caça
Dos gambuzinos
Com dois ouriços
Em cada mão
Ai velha fibra
Do bairro de Alfama
A carcaça do Gama
Vai a leilão!

Deus te salve, Rosa ( Popular, Trás-os-Montes )

LP Contos velhos rumos novos, 1969

Deus te salve, Rosa
Lindo Serafim
Tão linda pastora
Que fazes aí?

Que fazes aqui,
No monte c´o gado?
Mas que quer, Senhor,
Nasci pr´a este fado.

No monte c´o gado,
Corre grande p´rigo
Quer a menina
Venir-se comigo?

Mas não quero, não, não,
Tão alto criado
De meias de seda
Sapato delgado.

Sapatos e meias
Tudo romperei
Por amor da menina
A vida darei

Vá-se ó magano
Não me cause mais ódio
Que há-dem vir meus amos
Trazer-me o almoço.

Que venham os teus amos
Isso é o que eu gosto
Quero que eles vejam
Que eu falo com gosto.

E

É para a urga

LP Eu vou ser como a toupeira, 1972

É para urga
Que a gente vai
Para urga caminho
Caminho para lá
Em urga os bandidos
Não me hão-de apanhar
Eu hei-de vencer
Eu hei-de vencer
Entre mim e urga
O deserto que houver
Em urga recebo
A maquia e então
Vou tirar proveito
Do meu ganha-pão

Canção para a peça de Bertolt Brecht «A excepção e a regra», a partir da versão portuguesa de Luiz Francisco Rebello (Canta o Coolie - A caminho de Urga)

Elegia ( Luís Andrade )

LP Baladas e canções, 1964

O vento desfolha a tarde
O vento desfolha a tarde
Como a dor desfolha o peito
Como a dor desfoha o peito.

Na roseira do meu peito
Na roseira do meu peito
Senhora meu bem fermosa
Senhora meu bem fermosa.

Vai-se a tarde ficam penas
Vai-se a tarde ficam penas
Na roseira do meu peito
Na roseira do meu peito.

Senhora por quem eu morro
Senhora por quem eu morro
Senhora meu bem fermosa

O Luís de Andrade toca todas as teclas. A música e a letra afiguram-se-me excepcionalmente consorciadas. Per­tencem a um tipo de reportório que inclui também as “Pombas”. A interpretação procurou seguir à risca a orientação desejada pelo autor.
José Afonso, in «Cantares»

Em terras de Trás-os-Montes

LP Com as minhas tamanquinhas, 1976

Em terras de Trás-os-Montes
Entre Coelhoso e Parada
Uma história verdadeira
Foi ali mesmo contada

Algemado por dois pides
Na manha de vinte e três
La vai Manuel Augusto
Sem mesmo saber porquê

Com ele vai Marcolino
Bufo dos Dominadores
Ide às minas da Ribeira
Vereis quem são os Senhores

Nesse lugar de trabalho
Nos confins da exploracão
Diz o Marcolino aos pides
Apertem-me esse cabrão

Não contente com a prova
Do zelo que assim mostra
Àquele rapaz honrado
Esta fala então lhe dava:

Sabemos da tua vida
Amanhã por esta hora
Irás para o forte de Elvas
Diz adeus à vida boa

Também o José António
Foi na mesma interrogado
Assassino Marcolino
Foste o primeiro culpado

Entre Parada e Coelhoso
Ainda reina a opressão
Não deixem fugir o melro
Não quebrem vossa união

Endechas a bárbara escrava ( Luís de Camões )

LP Cantares do andarilho, 1979

Aquela cativa
Que me tem cativo
Porque nela vivo
Já não quer que viva
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que pera meus olhos
Fosse mais fermosa

Nem no campo flores
Nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores
Rosto singular
Olhos sossegados
Pretos e cansados
Mas não de matar

Uma graça viva
Que neles lhe mora
Pera ser senhora
De quem é cativa
Pretos os cabelos
Onde o povo vão
Perde opinião
Que os louros são belos

Pretidão de Amor
Tão doce a figura
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor
Leda mansidão
Que o siso acompanha
Bem parece estranha
Mas bárbara não

Presença serena
Que a tormenta amansa
Nela enfim descansa
Toda a minha pena
Esta é a cativa
Que me tem cativo
E pois nela vivo
É força que viva

Enquanto há força

LP Enquanto há força, 1978

Enquanto há força
No braço que vinga
Que venham ventos
Virar-nos as quilhas
Seremos muitos
Cantai rapazes
Dançai raparigas
E vós altivas
Cantai também

Levanta o braço
Faz dele uma barra
Que venha a brisa
Lavar-nos a cara
Seremos muitos
Seremos alguém
Cantai rapazes
Dançai raparigas
E vós altivas
Cantai também

Epígrafe para a arte de furtar ( Jorge de Sena )

LP Traz outro amigo também, 1970

Roubam-me Deus
Outros o diabo
Quem cantarei

Roubam-me a Pátria
E a humanidade
Outros ma roubam
Quem cantarei

Sempre há quem roube
Quem eu deseje
E de mim mesmo
Todos me roubam

Quem cantarei
Quem cantarei

Roubam-me Deus
Outros o diabo
Quem cantarei

Roubam-me a Pátria
E a humanidade
Outros ma roubam
Quem cantarei

Roubam-me a voz
Quando me calo
Ou o silêncio
Mesmo se falo

Aqui d’El Rei

Era de noite e levaram ( Luís de Andrade )

LP Contos velhos rumos novos, 1969

Era de noite e levaram
Quem nesta cama dormia
Nela dormia

Sua boca amordaçaram
Com panos de seda fria

Era de noite e roubaram
O que nesta casa havia
Na casa havia

Só corvos negros ficaram
Dentro da casa vazia
Casa vazia

Rosa branca, rosa fria
Na boca da madrugada
Da madrugada

Hei-de plantar-te um dia
Sobre o meu peito queimada
Na madrugada

Era um redondo vocábulo

LP Venham mais cinco, 1973

Era um redondo vocábulo
Uma soma agreste
Revelavam-se ondas
Em maninhos dedos
Polpas seus cabelos
Resíduos de lar
Pelos degraus de Laura
A tinta caía
No móvel vazio
Congregando farpas
Chamando o telefone
Matando baratas
A fúria crescia
Clamando vingança
Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Na rua os meninos
Brincando e Laura
Na sala de espera
Inda o ar educa

Escandinávia Bar - Fuzeta

LP Galinhas do mato, 1985

Se o gageiro de outras eras
Subisse de novo à gávea
Diria p´rá marinhagem
Já se avista a “escandinávia”

Senhora do Bom Sucesso
Diz-me onde irei almoçar
Não quero sola de molho
Tenho as tripas a estalar

Entra naquele fiorde
Onde a terra encobre o mar
Se queres comer como um lord
No Escandinávia-bar

Sem rendas de mesa fina
O choco é bicho moderno
Naquele lugar fraterno
Goza de geral estima

Já vai passando à história
O tempo em que não entrava
Um pescador no café
Onde a finesse abancava

Nesses tempos de castigo
(Só de pensar estremeço)
Dizia cá pra comigo
nem tudo o que digo penso

Ali não entra o Tenreiro
Nem cavalos de alta roda
Mas já lá vi um torneiro
Beber whisky com soda

À puridade vos digo
Desde a noite ao romper d´alva
Comi uns chocos com tinta
Vi um búzio a bater palmas

Digo tudo quanto é franco
Em prol da sardinha assada
Vi rebentar as costuras
De um fulana alentada

Por isso não te retenhas
Se tens pressa de chegar
Senhora do Bom Sucesso
Rumo ao Escandinávia-bar

Eu dizia

LP Como se fora seu filho, 1983

Eu dizia
Quanto madura
me animavas
Seguindo a noite
Barco ou estrada
Sem rótulo
Sem luzes
Em vitória
Na mesma rota
De tanto compatriota
Entre o sol e a lua
Sereníssima
Rodavas em silêncio
noite fora
Fazíamos um norte
De vigília
Do lado da montanha
Ninguém chora

Eu marchava de dia e de noite

LP Coro dos tribunais, 1974

Eu marchava de dia e de noite
Mais do que um dia de avanço ganhei
Só o forte tem sorte
Para o fraco é o chicote
Mais que um dia de avanço ganhei
Mais que um dia de avanço ganhei

Só o forte resiste ao combate
Sabe que o coolie que não há outra lei
Ó petroléo da terra
Hei-de ter-te na guerra
Só a morte é que sabe o que eu sei
Só a morte é que sabe o que eu sei

O homem conquista a vitória
Sobre o deserto e o rio também
É ele que se vence

e domina
e alcança

O petroléo que a todos convém

A morte é para o fraco e o combate
É para o forte – foi Deus que mandou
Ao rico uma ajuda e ao pobre uma surra
Foi assim que o planeta girou
Foi assim que o planeta girou

Quem cai já não torna a cair
Deixa-o ficar porque assim está bem
À mesa da fama assentou-se quem mama
É assim porque à gente convém
É assim porque à gente convém

Só os mortos não comem a mesa
E o cozinheiro não se incomodou
E quem fez o patrão também fez o criado
Foi assim que o planeta girou
Foi assim que o planeta girou

Quando tudo te corre a prazer
Vem amigos estender-te a mão
Mas se Deus ou o Diabo
Viram tudo ao contrário
Ninguém vem levantar-te do chão
Ninguém vem levantar-te do chão

Eu vou ser como a toupeira

LP Eu vou ser como a toupeira, 1972

Eu vou ser como a toupeira
Que esburaca
Penitência, diz a hidra
Quando há seca
Eu vou ser como a gibóia
Que atormenta
Não há luz que não se veja
Da charneca

E não me digas agora
Estás à espera
Penitência diz a hidra
Quando há seca
E se te enfias na toca
És como ela

Quero-me à minha vontade
Não na tua
Ó hidra, diz-me a verdade
Nua e crua
Mais vale dar numa sargeja
Que na mão
De quem nos inveja a vida
E tira o pão

Eu, o povo ( Mutimati Barnabé João )

LP Enquanto há força, 1978

Eu, o Povo
Conheço a força da terra que rebenta a granada do grão
Fiz desta força um amigo fiel

O vento sopra com força
A água corre com força
O fogo arde com força

Nos meus braços que vão crescer vou estender panos de vela
Para agarrar o vento e levar a força do vento à produção
As minhas mãos vão crescer até fazerem pás de roda
Para agarrar a força da água e pô-la na produção
Os meus pulmões vão crescer soprando na forja do coração
Para agarrar a força do fogo na produção

Eu, o Povo
Vou aprender a lutar ao lado da Natureza
Vou ser camarada de armos dos quatro elementos

A táctica colonialista é deixar o Povo ao natural
Fazendo do Povo um inimigo da Natureza

Eu, o Povo Moçambicano
Vou conhecer as minhas grandes forças todas

F

Fado das águias ( Camilo Castelo Branco (1ª quadra) Fernando de Lemos Quintela (2ª quadra) )

SINGLE Fados de Coimbra, 1953

Ó águia que vais tão alta
Por essas terras além
Leva-me aos céus onde eu tenho
A alma da minha mãe

As lágrimas que eu chorei
Leva-mas porque são puras
São as preces que eu rezei
Com saudades e ternura

Foi na cidade do Sado

SINGLE Viva o poder popular, 1979

Foi na cidade do Sado
No pavilhão do Naval
Havia uma bronca armada
Pelas bestas do capital

Aos sete do mês de Março
Quinta-feira já se ouvia
Dizer a boca calada
Que o PPD era a CIA

Uma tarjeta laranja
Convite ao povo fazia:
Venham todos ao comício
Da Social Democracia

Eram talvez quatrocentos
Gritando a plenos pulmões:
Abaixo o capitalismo
Não queremos mais tubarões

Lá dentro sessenta manos
Do PPD exibiam
Matracas e armas de fogo
E o mais que os outros não viam

A um sinal combinado
Já quente a polícia vem
Arreia, polícia, arreia
Que o Totta-Acores paga bem

Amigo arrebenta a porta
Que te vão para matar
As bestas já fazem fogo
Lá fora tens de lutar

Os gases lacrimogénios
E os tiros que então partia
Mais os cordões da polícia
Os Pê Pê Dês protegiam

Cai morto João Manuel
De nascimento algarvio
Dezoito já eram feridos
Ficou o Naval vazio

Justiça pela noite fora
Pediu o povo na rua
Morte à polícia assassina
Amigo a vitória é tua

Aos onze do mesmo mês
Às onze horas do dia
Enquanto o João passava
Enquanto o João jazia

Do outro lado do rio
Morre o soldado Luís
Soldado filho do Povo
Vamos fazer um País

Foi no sábado passado

LP República, 1975

Foi no sábado passado
Muitos compagni vieram
À manife que fizeram
No lugar mais afamado
Ali todos juntos eram
Muitos mil do nosso lado
Aos gritos de Franco boia
(Franco, Soares, Pinochet)
Já Roma lembrava Tróia
Na garrota tutti tre
Vinguemos os cinco mortos
Morte ao fascismo: vencer!
Dia internacionalista
Não faltava o militar
Apoiando os companheiros
Portugueses e a cantar:
“Viva Portogallo Rosso”
“Criar Poder Popular”
Quisera lembrar agora
Naquela semana finda
Esquerda rivolucionária
Vanguarda e Lotta Cantinua
Toda a força a classe operária
Ouve-se em Lisboa ainda
Franco boia Franco boia
Todo o crime tem um preço
O teu regime corrupto
Pôs todo a mundo do avesso
Hoje Espanha está de luto
Mas inda agora é o começo

Fui à beira do mar

LP Eu vou ser como a toupeira, 1972

Fui à beira do mar
Ver a que lá havia
Ouvi uma voz cantar
Que ao lange me dizia

Ó cantador alegre
Que é da tua alegria
Tens tanto para andar
E a noite está tão fria

Desde então a lavrar
No meu peito a Alegria
Ouço alguém a bradar
Aproveita que é dia

Sentei-me a descansar
Enquanto amanhecia
Entre o céu e o mar
Uma proa rompia

Desde então a bater
No meu peito em segredo
Sinto uma voz dizer
Teima, teima sem medo

Fura Fura

LP Fura fura, 1979

Veio lá da terra
Um homem
Tentar a ventura
Põe a roupa
Na maleta
Lá vai de abalada
Não pensa em voltar
Faz como a formiga
Fura fura
Fura sem parar

Pela estrada fora
Era já
Meia-noite
Só cães a ladrar
A chuva na terra
O vento no mar

Um velho voltou
E disse-me adeus
Cantando e dançando
Debaixo do céu
“Que é pena, que é mágoa
Que uma ave de penas
Não possa voar”

Às vezes
Não tenho jeito
P´ra falar de amigos
Meu amigo
Passageiro
Dá-me o teu capote
Para me abrigar
Vai num barco à vela
Numa aduela
Vai fazer-se ao mar

Passaram-se os dias
Dias da
Vida dum cavalo
A galopar
E o homem a andar
E o homem a andar

Um velho voltou
E disse-me adeus
Cantando e dançando
Debaixo do céu
“Que é pena, que é mágoa
Que uma ave de penas
Não possa voar”

G

Gastão era perfeito

LP Venham mais cinco, 1973

Gastão era perfeito
Conduzido por seu dono
Em sonolências afeito
Às picadas dos mosquitos

Era Gastão milionário
Vivia em tapetes raros
Se lhe viravam as costas
Chamava logo a polícia

Em crises de malquerência
Vinha-lhe o gosto pela soda
Mas ninguém se abespinhava
Que enviuvasse às ocultas

Nem Gastão se apercebia
De quanto a vida o prendara
Entre estiletes de prata
E colchas de seda fina

Gastão era deste jeito
Fazia provas reais
Gastão era um parapeito
De Papas e Cardeais

Vinha-lhe só por fastio
Nos tiquetaques da vida
Um solene desfastio
Pela mãe que era entrevada

Mandava bombons recados
Por mensageiros aflitos
Não fora Gastão dos fracos
E já seria ministro

Conheci-o em Alverca
Num bidon de gasolina
Tinha um pneu às avessas
Mas de asma é que sofria

Nos solestícios de Junho
A quem o quisesse ouvir
Dizia que era sobrinho
Do Fernão Peres de Trava

Querem saber de Gastão?
Vão ao Palácio da Pena
Usa agora capachinho
E gosta de codornizes

Tem um sinal que o indica
Como o mais forte Doutor
Espeta o dedo no queixo

Grândola, vila morena

LP Cantigas do Maio, 1971

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade

Pequena homenagem à “Sociedade Musical Fratemidade Operária Grandolense”, onde actuei juntamente com Carlos Paredes.
José Afonso, in «Cantares»

I

Incerteza ( Eduardo Tavares de Melo )

SINGLE Fados de Coimbra, 1953

Não sei quem sejas que importa
Já trago a esperança perdida
Se és a luz que me alumia
Se és graça que me dá vida

Adeus palavra tão triste
Que a minha alma faz chorar
Adeus dizem os que partem
Sem esperança de voltar

J

Já o tempo se habitua

LP Contos Velhos Rumos Novos, 1969

Já o tempo se habitua
A estar alerta
Não há luz
Que não resista
À noite cega
Já a rosa
Perde o cheiro
E a cor vermelha
Cai a flor
Da laranjeira
À cova incerta

Água mole
Água bendita
Fresca serra
Lava a língua
Lava a lama
Lava a guerra
Já o tempo
Se acostuma
À cova funda
Já tem cama
E sepultura
Toda a terra

Nem o voo
Do milhano
Ao vento leste
Nem a rota
Da gaivota
Ao vento norte
Nem toda
A força do pano
Todo o ano
Quebra a proa
Do mais forte
Nem a morte

Já o mundo
Se não lembra
De cantigas
Tanta areia
Suja tanta
Erva daninha
A nenhuma
Porta aberta
Chega a lua
Cai a flor
Da laranjeira
À cova incerta

Nem o voo do milhano …

Entre as vilas
E as muralhas
Da moirama
Sobre a espiga
E sobre a palha
Que derrama
Sobre as ondas
Sobre a praia
Já o tempo
Perde a fala
E perde o riso
Perde o amor

L

Lá no Xepangara

LP Coro dos tribunais, 1974

Lá no Xepangara
Vai nascer menino
Dentro da palhota
Tem a seu destino

Lá no Xepangara
Fica muito bem
Deitado na esteira
Ao lado da mãe

Há-de ter um nome
Lá prò fim do ano
Se morrer de fome
Tapa-se com um pano

Se tiver já corpo
Rega-se com vinho
Se não cair morto
Chama-se menino

Se tiver umbigo
Corta-se à navalha
Tira-se uma tripa
Faz-se uma mortalha

Pretinho de raça
Sempre desconfia
Se o musungo passa
Diz muito bom dia

Quando for mufana
E já pedir pão
Dá-se uma lambada
Vem comer à mão

Mais uma patada
Vai-te embora cão
Dá-se-lhe porrada
Porque é mandrião

Lá prò fim do ano
Quando já for moço
Guarda-se o tutano
Fica pele e osso

Quando já for homem
Tira-se o retrato
Come na cozinha
Chama-se mainato

Se mudar de vida
Vai para o contrato
No fundo da mina
Fica mais barato

Quando já for velho
Chama-se tratante
Dá-se-lhe aguardente
Morre num instante

Na viagem de regresso de Moçambique para Portugal comecei a curtir saudades, como agora se diz. E durante a viagem de barco, fiz «Lá no Xipangara» canção meramente rememorativa – evocativa de personagens e lugares que inseri no meu álbum «Coro dos Tribunais».
José Afonso, in «Cantares»

Lá vai Jeremias

LP Contos velhos rumos novos, 1969

Lá vai Jeremias
Lá vai Jeremão
Lá vai senhor alferes
Melhor capitão

Ó Elvas, ó Elvas
Ó Penamacor
Neste regimento
Anda o meu amor

Além mais abaixo
Se vende aguardente
A dez reis o copo
Para toda a gente

À entrada de Elvas
Estão duas cadeiras
Para se assentarem
As moças solteiras

Ai que quebra, quebra
Que se quebra o linho
Quebra a loiça toda
Fica o prato fino

Além mais abaixo
Se vende licor
A dez reis o copo
Para o meu amor

Les Baladins

(Tema não gravado)

Les baladins
Sont venus un jour
Les trompettes et les tambours
Il y a des matelots des gamins
Aux coins des faubourgs

Vite venez
Venez mes enfants
Courez courez sans détour
Le brave jongleur va devant
Dites-lui bonjour

E i opa aiê
E i opa aiê
Sur cette ronde
Qui tombe tombez
Avec les singes
E i opa aiê
Ip ip aiê
Ip ip aiê

Nous n'avons rien

Et nous avons tout
C'est ce que dit le tambour
Il y a des tapis dans les champs
Les raisins sont murs

Pour vous donner

Nous avons volé
Des fruits de Mai bien dorés
Par les avenues des jardins
On les a gardés

E i opa aiê

E i opa aiê
Sur cette ronde
Qui tombe tombez
Avec les singes
E i opa aiê
Ip ip aiê
Ip ip aiê

Quand les citrons

Se laissent manger
Nos compagnons attendez
Les ours qui viennent
Puis on va danser

Vous allez voir

Cet après-midi
Un brigand un feu maudit
La belle qui dort enchantee
Puis on va danser

E i opa aiê

E i opa aiê
Sur cette ronde
Qui tombe tombez
Avec les singes
E i opa aiê
Ip ip aiê
Ip ip aiê

O período lourenço-marquino, canto do cisne de uma série iniciada na “Companhia Nacional de Navegação” conheceu o aparecimento de “Les Baladins”, eventualmente roubado ao título de um poema de Appolinaire para figurar no que foi depois um arremedo de “valsa musette” repenicada e saltitante.
José Afonso

M

Maio maduro Maio

LP Cantigas do Maio, 1971

Maio maduro Maio
Quem te pintou
Quem te quebrou o encanto
Nunca te amou
Raiava o sol já no Sul
E uma falua vinha
Lá de Istambul

Sempre depois da sesta
Chamando as flores
Era o dia da festa
Maio de amores
Era o dia de cantar
E uma falua andava
Ao longe a varar

Maio com meu amigo
Quem dera já
Sempre no mês do trigo
Se cantará
Qu’importa a fúria do mar
Que a voz não te esmoreça
Vamos lutar

Numa rua comprida
El-rei pastor
Vende o soro da vida
Que mata a dor
Anda ver, Maio nasceu
Que a voz não te esmoreça
A turba rompeu

Mar largo ( Popular/ Edmundo de Bettencourt )

EP Coimbra, 1960

Ó mar largo ó mar largo
Ó mar largo sem ter fundo
Mais vale andar no mar largo
Do que nas bocas do mundo

Fosse o meu destino o teu
Ó mar largo sem ter fundo
Viver bem perto do céu
Andar bem longe do mundo

Maria

EP Cantares de José Afonso, 1964

Maria
Nascida no monte
À beira da estrada
Maria
Bebida na fonte
Nas ervas criada

Talvez
Que Maria se espante
De ser tão louvada
Mas não
Quem por ela se prende
De a ver tão prendada

Maria
Nascida no trevo
Criada no trigo
Quem dera
Maria que o trevo
Casara comigo

Prouvera
A Maria sem medo
Crer no que lhe digo
Maria
Nascida no trevo
Beiral do mendigo
Maria
Nascida no trevo
Beiral do mendigo

Maria
De todas primeira
De todas menina
Maria
Soubera a cigana
Ler a tua sina

Não sei
Se deveras se engana
Quem demais se afina
Maria
Sol da madrugada
Flor de tangerina
Maria
Sol de madrugada
Flor de tangerina

O conhecimento da Zélia, num lugar do Algarve, reconciliou-me com a água fresca e com os tons maiores. Passei a fazer canções maiores.
José Afonso, in «Cantares»

Maria Faia ( Popular, Malpica, Beira Baixa )

LP Traz outro amigo também, 1970

Eu não sei como te chamas
Ó Maria Faia
Nem que nome te hei-de eu pôr
Ó Maria Faia, ó Faia Maria

Cravo não que tu és Rosa
Ó Maria Faia
Rosa não, que tu és flor
Ó Maria Faia, ó Faia Maria

Não te quero chamar Cravo
Ó Maria Faia
Que te estou a engrandecer
Ó Maria Faia, ó Faia Maria

Chamo-te antes Espelho
Ó Maria Faia
Onde espero de me ver
Ó Maria Faia, ó Faia Maria

O meu amor abalou
Ó Maria Faia
Deu uma linda despedida
Ó Maria Faia, ó Faia Maria

Abarcou-me a mão direita
Ó Maria Faia
Adeus ó prenda querida
Ó Maria Faia, ó Faia Maria

Menina dos olhos tristes ( Reinaldo Ferreira )

SINGLE Menina dos olhos tristes, 1969

Menina dos olhos tristes
O que tanto a faz chorar
O soldadinho não volta
Do outro lado do mar

Vamos senhor pensativo
Olhe o cachimbo a apagar
O soldadinho não volta
Do outro lado do mar

Senhora de olhos cansados
Porque a fatiga o tear
O soldadinho não volta
Do outro lado do mar

Anda bem triste um amigo
Uma carta o fez chorar
O soldadinho não volta
Do outro lado do mar

A lua que é viajante
É que nos pode informar
O soldadinho já volta
Está mesmo quase a chegar

Vem numa caixa de pinho
Do outro lado do mar
Desta vez o soldadinho
Nunca mais se faz ao mar

Menino D'oiro

EP Baladas de Coimbra, 1962

O meu menino é d’oiro
É de oiro fino
Não façam caso
Que é pequenino

O meu menino é d’oiro
D’oiro fagueiro
Hei-de levá-lo
No meu veleiro

Venham aves do céu
Pousar de mansinho
Por sobre os ombros
Do meu menino

Venha comigo venham
Que eu não vou só
Levo o menino
No meu trenó

Quantos sonhos ligeiros
pra teu sossego
Menino avaro
Não tenhas medo
Onde fores no teu sonho
Quero ir contigo
Menino de oiro sou teu amigo

Venham altas montanhas
Ventos do mar
Que o meu menino
Nasceu pra amar
Venha comigo venham
Que eu não vou só
Levo o menino no meu trenó

O tema parece filiar-se em longínquas raízes peninsulares. Tratado pelas mais diversas formas mas conservando a sua origem popular, surge como motivo inspirador dum conhecido fado de Coimbra.
José Afonso, in «Cantares»

Menino do bairro negro

EP Baladas de Coimbra, 1963

Olha o sol que vai nascendo
Anda ver o mar
Os meninos vão correndo
Ver o sol chegar

Menino sem condição
Irmão de todos os nus
Tira os olhos do chão
Vem ver a luz

Menino do mal trajar
Um novo dia lá vem
Só quem souber cantar
Virá também

Negro bairro negro
Bairro negro
Onde não há pão
Não há sossego

Menino pobre o teu lar
Queira ou não queira o papão
Há-de um dia cantar
Esta canção

Olha o sol que vai nascendo
Anda ver o mar
Os meninos vão correndo
Ver o sol chegar

Se até da gosto cantar
Se toda a terra sorri
Quem te não há-de amar
Menino a ti

Se não é fúria a razão
Se toda a gente quiser
Um dia hás-de aprender
Haja o que houver

Negro bairro negro
Bairro negro
Onde não há pão
Não há sossego

Menino pobre o teu lar
Queira ou não queira o papão
Há-de um dia cantar
Esta canção

Estilização decente de um refrão indecente recolhido numa parede cheia de sinais cabalísticos, desses que conservam para a posteridade as mais expressivas jóias dos géneros líricos nacionais. A negritude de que fala o poema existe nos estômagos diagnosticados por Josué de Castro no seu livro “Geopolítica da Fome”. Os meninos de ouro que habitavam os céus antes do Dilúvio descem à Terra e são condenados pelo tribunal de menores a viverem em habitações palafitas até ao dia do Juízo Final representado por uma bola de cartão que desce, desce até tocar nas montanhas.
José Afonso, in «Cantares»

Milho verde ( Popular )

LP Cantigas do Maio, 1971

Milho verde, milho verde
Milho verde maçaroca
À sombra do milho verde
Namorei uma cachopa

Milho verde, milho verde
Milho verde miudinho
À sombra do milho verde
Namorei um rapazinho

Milho verde, milho verde
Milho verde folha larga
À sombra do milho verde
Namorei uma casada

Mondadeiras do meu milho
Mondai o meu milho bem
Não olhais para o caminho
Que a merenda já lá vem

Minha mãe ( José Afonso/ Quadra popular )

LP Baladas e canções, 1964

Ó minha mãe minha mãe
Ó minha mãe minha amada
Quem tem uma mãe tem tudo
Quem não tem mãe não tem nada

Quem não tem mãe não tem nada
Quem a perde é pobrezinho
Ó minha mãe minha mãe
Onde estás que estou sózinho

Estou sózinho no mar largo
Sem medo à noite cerrada
Ó minha mãe minha mãe
Ó minha mãe minha amada

A uma mãe não canonizada por nenhuma data oficial nem institucionalizada por nenhuma nota oficiosa.
José Afonso, in «Cantares»

Moda do entrudo ( Popular, Malpica, Beira Baixa )

LP Traz outro amigo também, 1970

Ó entrudo ó entrudo
Ó entrudo chocalheiro
Que não deixas assentar
As mocinhas ao solheiro

Eu quero ir para o monte
Eu quero ir para o monte
Que no monte é qu’eu estou bem
Que no monte é qu’eu estou bem

Eu quero ir para o monte
Eu quero ir para o monte
Onde não veja ninguém
Que no monte é qu’eu estou bem

Estas casa são caiadas
Estas casa são caiadas
Quem seria a caiadeira
Quem seria a caiadeira

Foi o noivo mais a noiva
Foi o noivo mais a noiva
Com um ramo de laranjeira
Quem seria a caiadeira

Moda do entrudo ( Popular, Beira Baixa )

LP Galinhas do mato, 1985

Ó Entrudo ó Entrudo
Ó Entrudo chocalheiro
Que não deixas assentar
As mocinhas ao soalheiro

Estas casa são caiadas
Quem seria a caiadeira
Foi o noivo mais a noiva
Com um ramo de laranjeira

Lá em baixo vai o Entrudo
Em farrapos pelo chão
Que comeu um burro morto
Entre o inverno e o verão

O Entrudo foi à vila
Já não quer de lá sair
Caiu dentro de uma pipa
Dá-lhe a mão que quer subir

Lá em baixo está o Entrudo
De gordo não pode andar
Que comeu um burro morto
Entre o almoço e o jantar

Mulher da erva

LP Cantigas do Maio, 1971

Velha da terra morena
Pensa que é já lua cheia
Vela que a onda condena
Feita em pedaços na areia

Saia rota subindo a estrada
Inda a noite rompendo vem
A mulher pega na braçada
De erva fresca supremo bem

Canta a rola numa ramada
Pela estrada vai a mulher
Meu senhor nesta caminhada
Nem m’alembra do amanhecer

Há quem viva sem dar por nada
Há quem morra sem tal saber
Velha ardida velha queimada
Vende a fruta se queres comer

À noitinha a mulher alcança
Quem lhe compra do seu manjar
Para dar à cabrinha mansa
Erva fresca da cor do mar

Na calçada uma mancha negra
Cobriu tudo e ali ficou
Anda, velha da saia preta
Flor que ao vento no chão tombou

No Inverno terás fartura
Da erva fora supremo bem
Canta rola tua amargura

N

Na catedral de Lisboa ( Popular )

LP Fura fura, 1970

Na Catedral de Lisboa
Sinto os sinos repicar
Serão anos de princesa
De algum santo festejar

É a rainha que parte
Até às terras de Tomar
Na Catedral de Lisboa
Sinto os sinos repicar

Em formoso palafrém
Bem a vejo cavalgar
Um mui brilhante cortejo
Atrás dela a caminhar

Segue a estrada que vai ter
Até às terras de Tomar
Em formoso palafrém
Bem o vejo cavalgar

Dizem que a nossa rainha
O vem hoje visitar
Mal haja quem a conduz
a um tal coito se abrigar

Segue a estrada que vai ter
Até às terras de Tomar
Em formoso palafrém
Bem a vejo cavalgar

Tema popular musicado por José Afonso para a peça «Zé do Telhado», levada à cena pelo grupo de teatro «A Barraca» em 1978.

Na fonte está Lianor ( Luís de Camões )

LP Baladas e canções, 1964

Na Fonte está Lianor
Lavando a talha e chorando
Às amigas perguntando
Vistes lá o meu amor

Nisto estava Lianor
O seu desejo enganando
Às amigas perguntando
Vistes lá o meu amor

O rosto sobre uma mão
Os olhos no chão pregados
Que de chorar já cansados
Algum descanso lhe dão

Na Fonte Está Lianor
Lavando a talha e chorando
Às amigas perguntando
Vistes lá o meu amor

O arcaísmo repetitivo da melodia coadunava-se, a meu ver, com o espírito de uma redondilha do cancioneiro de Garcia de Resende, mas a métrica depurada da “medida nova” raramente se adaptava à chateza vagamente afadistada da composição. “Cantiga partindo-se” e a redondilha dentro da música não seriam uma ofensa à lírica camo­niana mas uma pequena e despretensiosa homenagem pres­tada, a séculos de distância, ao génio do seu autor.
José Afonso, in «Cantares»

Na rua António Maria

(Tema não gravado)

Na Rua António Maria
Da primaz instituição
Vive a maior confraria
Desta válida nação

E muita matula brava
Ainda teimava
Que havia de vir
Um dia assim de repente
Para toda a gente
Voltar a sorrir

Mas eles Conceição vão
Lamber as botas
Comer à mão
Do novo Pina Manique
Com outra lábia
Com outro tique

Na Rua António Maria
Convenha a todos saber
A patriótica espia
Sabe bem onde morder

Vela p'la vossa morada
No vão de uma escada
Sem se anunciar
E oferece a quem bem destina
Um quarto de esquina
Com vistas pró mar

Tem quatro letras apenas
Mas outro nome não dão
Nesta fortaleza antiga
Só não muda a guarnição

E muita matula ufana
Cuidando que a mana
Morrera de vez
Deu graças
À D. Urraca
Ao som da ressaca
Que o pagode fez

Aldeia da roupa branca
Suja de já não corar
O Zé Povo foi pra França
Não se cansa de esperar

O capataz da fazenda
Pôs a quinta à venda
Para quem mais der
E os donos marcaram tentos
Com novos intentos
Doa a quem doer

Dedicada a Conceição de Matos Conceição, presa em 1965, depois em 1968, activista política clandestina, membro do PCP, torturada pela PIDE de forma particularmente cruel. José Afonso escreveu este poema, oferecendo-lhe o texto por si manuscrito, na versão original. 

Não é meu bem

LP Fura fura, 1979

A pele é seca para curtir
Não é meu bem
A cara é magra para sorrir
Não é meu bem
A cama é boa para dormir
Não é meu bem
A corda é boa para subir
Não é meu bem
A morte é santa para cumprir
Não é meu bem
A louça é cara para partir
Não é meu bem
A cal é branca para encobrir
Não é meu bem
A banca é boa para falir
Não é meu bem
A vida é dura para resistir
Não é meu bem
A porta é boa para se abrir
Não é meu bem

Não seremos pais incógnitos

LP Coro dos tribunais, 1974

Não seremos pais incógnitos
Netos de filhos ignaros
Mas nestes livros avaros
Só moralizam os tolos
Quem tem farelos tem quintas
Diz o bom rei ao soldado
No tempo em que o rei Fernando
Passava por ser honrado

No tempo em que Dona Márcia
Filha de Mércia Condessa
Cantava Chácaras do tempo
Em que era madre abadessa
Também depunha o meirinho
Filho de D. Charlatão
Há que vidas os não via
Mas sei de que filhos são

Natal dos simples

LP Cantares do andarilho, 1968

Vamos cantar as janeiras
Vamos cantar as janeiras
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas solteiras

Vamos cantar orvalhadas
Vamos cantar orvalhadas
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas casadas

Vira o vento e muda a sorte
Vira o vento e muda a sorte
Por aqueles olivais perdidos
Foi-se embora o vento norte

Muita neve cai na serra
Muita neve cai na serra
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem tem saudades da terra

Quem tem a candeia acesa
Quem tem a candeia acesa
Rabanadas pão e vinho novo
Matava a fome à pobreza

Já nos cansa esta lonjura
Já nos cansa esta lonjura
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem anda à noite à ventura

Inspirada em parte em “Los Quatro Generales” e outras canções populares espanholas. Os acom­panhamentos apropriados deveriam incluir ruídos produzidos por guisos, pedras e matracas. Na região de Alpedrinha e nos ambientes da Beira-Serra, lá para os lados de Folgosinho, os mendigos acercam-se dos portais dos grandes senhores para cantar as janeiras e encher os alforges de pão e castanhas.
José Afonso, in «Cantares»

Nefretite não tinha papeira

LP Venham mais cinco, 1973

Nefretite não tinha papeira
Tuthankamon apetite
Já minha avó me dizia
Olha que a sopa arrefece

Nos funerais de antanho
As capicuas gritavam
E às escuras na cozinha
Já as galinhas dormiam

Manolo era o rei do fandango
Do fandaguilho picado
Maria se fores ao baile
Leva o casaco castanho

O rei João era dos tesos
Chamavam-lhe João dos Quintos
Lá na terra brasileira
Vinham quintais de Ouro Preto

Em suma a soma interessava
A quem interessa algum dia
De lingotes e pimentas
Ainda vamos ao fundo

Lá para o reino da Arábia
Havia amêndoas aos centos
Que grande rebaldaria
E a Palestina às escuras

Os Sheikes israelitas
Já que estou com a mão na massa
Lembram-me os Sheikes das fitas
Que dão porrada a quem passa

No comboio descendente ( Fernando Pessoa )

LP Eu vou ser como a toupeira, 1972

No comboio descendente
Vinha tudo a gargalhada
Uns por verem rir os outros
E os outros sem ser por nada
No comboio descendente
De Queluz à Cruz-Quebrada

No comboio descendente
Vinham todos á janela
Uns calados para os outros
E os outros sem dar-lhes trela
No comboio descendente
Da Cruz-Quebrada a Palmela

No comboio descendente
Mas que grande reinação
Uns dormindo outros com sono
E os outros nem sim nem não
No comboio descendente
De Palmela a Portimão

No dia da unidade

LP Com as minhas tamanquinhas, 1972

No dia da unidade
Joaquim Carvalho Luís
Pelas forças em parada
Lembrado foi no RAL – 1

Onze de Março sabido
Dentro e fora de fronteiras
Para todos garantido
De que já não há barreiras

Que venham dividir homens
Da mesma conformação
Por essas montanhas fora
Faremos a revolução

Numa assembleia de tropas
Delegados da unidade
Decidiram em directo
Que reinaria a igualdade

Falaram cabos e praças
Oficiais e sargentos
Houve compromisso aberto
De liquidar os intentos

Da velha ordem fascista
Dinheiro nunca lhe falta
Terão que passar por cima
Das sentinelas da malta

Seja o RAL – 1 o modelo
Duma luta popular
Se vos tocam num cabelo
Podeis connosco contar

No lago do breu

EP Baladas de Coimbra, 1962

No lago do Breu
Sem luzes no céu
Nem bom Deus
Que venha abrasar
Os ateus
No lago do Breu

No lago do Breu
A noite não vem
Sem sinais
Que fazem tremer
Os mortais
No lago do Breu

Mas quem não for mau
Não vá
Que o céu não se compra

Não vejo a razão
P’ra ser
Quem teme
e não quer
Viver
Sem luzes no céu
Só mesmo como eu
No lago do Breu

No lago do Breu
Meninas perdidas
Eu sei
Mas só nestas vidas
Me achei
No lago do Breu

Mas quem não for mau
Não vá
Que o céu não se compra

Não vejo a razão
P’ra ser
Quem teme
e não quer
Viver
Sem luzes no céu
Só mesmo como eu
No lago do Breu

No lago do Breu
A lua nasceu
Mas ninguém
Pergunta quem vai
Ou quem vem
No lago do Breu

Mas quem não for mau
Não vá
Que o céu não se compra

Não vejo a razão
P’ra ser
Quem teme e não quer
Viver
Sem luzes no céu
Só mesmo como eu
No lago do Breu

Balada de inspiração Brassens, define simultaneamente um estado de espírito e uma autobiografia, uma crise de consciência (destruição do sentimento de remorso) e um meio social (os prostíbulos do “Terreiro da Erva” ou os seus sucedâneos mais ou menos bem iluminados).
José Afonso, in «Cantares»

No vale de Fuenteovejuna ( Lope de Vega/ Natália Correia )

LP Contos velhos rumos novos, 1969

No vale de Fuenteovejuna
Cabelos aos vento estava
Seguida pelo cavaleiro
O da cruz de Calatrava
Entre a ramada se esconde
De vergonhosa e turbada

Para que te escondes
Moça formosa
Desejos???
Paredes removem

Acercou-se o cavaleiro
E ela confusa e turbada
Gelosias quis fazer
Das ramas emaranhadas

Mas como tem amores
As montanhas e os mares
Atravessa facilmente
Disse-lhe estas palavras

Para que te escondes
Moça formosa
Desejos???
Paredes removem

No vale de Fuenteovejuna
Cabelos aos vento estava
Seguida pelo cavaleiro
O da cruz de Calatrava
Entre a ramada se esconde
De vergonhosa e turbada

O

Ó altas fragas da serra

(Tema não gravado)

Ó altas fragas da serra
Donde o penedo caiu
Ninguém diga o que não sabe
Nem afirme o que não viu

Ó altas fragas da serra
Donde a penedo tombou
Ninguém diga o que não sabe
Nem afirme o que inventou

Ó negras sombras tão negras
Que estais em volta a rondar
Coitado de quem no mundo
Passa
A noite e o dia a penar

Ó sombras negras da noite
Ó vento em volta a ventar
Coitado de quem no mundo
Não
Se cansa de procurar

Coitado de quem não vê
Que a noite
Há-de um dia terminar
Tremei o donos da terra
Abri janelas em par

Letra e música de José Afonso, glosando a primeira quadra de origem popular.
José Afonso, in «Cantares»

O avô cavernoso

LP Eu vou ser como a toupeira, 1972

O avô cavernoso
Instituiu a chuva
Ratificou a demora
Persignou-se
Ninguém o chora agora
Perfumou-se
Vinte mil léguas de virgens vieram
Inutéis e despidas
Flores de malva
E a boina bem segura
Sobre a calva

Ao avô cavernoso quem viu a tonsura?
E a tenda dos milagres e a privada?
Na tenda que foi nítida conjura
As flores de malva murcham devagar
Devagar
Até que se ouvem gritos, matinadas

O Cabral fugiu para Espanha ( Popular/ Hélder Costa )

LP Fura fura, 1979

Ele que só nos trouxe a maior miséria encontra-se a pagar a sua vilania num exílio vergonhoso em terra de Espanha.
Provou-se que o povo tinha razão. E provou-se também que a unidade de todos os cidadãos há-de levar de vencida essa corte corrupta e indigna.
Temos de exigir medidas revolucionárias ao nosso governo. Não podemos permitir que o Duque de Palmela, o nosso ministro, continue nas mesmas águas turvas do Costa Cabral. Se não é capaz de tomar medidas que sirvam o povo, que vá para lá outro.

Aprende Rainha aprende
Mede bem o teu poder
Tu dum lado o povo d´outro
Qual dos dois há-de vencer

O Cabral fugiu p'ra Espanha
Com uma carga de sardinha
Com a pressa que levava
Nem disse adeus à Rainha

Viva a Maria da Fonte
Vem com esporas de prata
A cavalo na Rainha
Com o Saldanha à arreata

O Cabral fugiu para Espanha
Já lá vai para a Galiza
Com a pressa que levava
Nem disse adeus à Luísa

O Cabral queria ser rei
A mulher quer ser rainha
Foram-se os Cabrais embora
Só ficou a Luisinha

Tema popular, com adaptação de Hélder Costa e musicado por José Afonso para a peça «Zé do Telhado», levada à cena pelo grupo de teatro «A Barraca» em 1978.

O canarinho

LP Como se fora seu filho, 1983

O canarinho cai
No cantarinho ai
Do canarinho
O cantarinho cai
Na canarinho ai
Do canarinho

O alarido sai
Do arruído ai
Do alarido
O arruído sai
Do alarido ai
Do arruído

O vagabundo vai
A cada mundo ai
Do vagabundo
A cada mundo vai
O vagabundo ai
Do cada mundo

O cavalinho vai
De vagarinho ai
Do cavalinho
O vagarinho vai
De cavalinho ai
Do vagarinho

Ó cavador do Alentejo

(Tema não gravado)

Ó cavador do Alentejo
Quem te viu e quem te vê
Há muito tempo que te não vejo
Cantar sem saber porquê

Ó terras do sossego
Baleizão meu bem querer
Há muito que te não nego
Os meus olhos pra te ver

O povo Catarina o povo
Sem ter pão para comer
E o grão do teu trigo novo
Baleizão a apodrecer

Manhãs de sol no chão sagrado
- Catarina há-de saber -
Ó terras ao campo amado
Quem vos puderá valer

Feita no Algarve a pensar no Alentejo. A letra foi modificada em África, depois de um efémero mas profundo contacto com uns amigos da “Sociedade Musical Fratemidade Operária Grandolense”, aos quais muito deve o autor.
José Afonso

O cavaleiro e o anjo

LP Cantares do andarilho, 1968

Passos da noite
Ao romper do dia
Quantos se ouviram
Marchando a par
Batem à porta
Da hospedaria
Se for o vento
Manda-o entrar

Vejo uma espada
De sombra esguia
Se for o vento
Que venha só
Quem está lá fora
Traz companhia
Botas cardadas
Levantam pó

Venho de longe
Sem luz nem guia
Sou estrangeiro
Não sou ninguém
Na flor queimada
Na cinza fria
Nunca se passa
Uma noite bem

Foge estrangeiro
Da morte escura
Pega nas armas
Vem batalhar
E enquanto a lua
Não se habitua
Dorme ao relento
Até eu voltar

Há muito tempo
Que te não via
(Um anjo negro
Me vem tentar)
Batem a porta
Da hospedaria
É aqui mesmo
Que eu vou ficar

O homem da gaita

LP Com as minhas tamanquinhas, 1976

Havia na terra
Um homem que tinha
Uma gaita bem de pasmar
Se alguém a ouvia
Fosse gente ou bicho
Entrava na roda a dançar

Um dia passava
Um sujeito e ao lado
Um burro com louça a trotar
O dono e o burro
Ouvindo a tocata
Puseram-se logo a bailar

Partiu-se a faiança
Em cacos c’o a dança
E o pobre pedia a gritar
Ao homem da gaita
Que acabasse a fita
Mas nada ficou por quebrar

O Juiz de fora
Chamado na hora
“Só tenho que te condenar
Mas quero uma prova
Se é crime ou se é trova
Faz lá essa gaita tocar”

O homem da louça
Sentado na sala
Levanta-se e põe-se a saltar
Enquanto a rabeca
Não se incomodava
A sua cadeira era o par

Pulava o jurista
De quico na crista
Ninguém se atrevia A parar
E a mãe entrevada
Que estava deitada
Levanta-se E põe-se a bailar

Vá de folia vá de folia
Que há sete anos me não mexia

O homem voltou

LP Coro dos tribunais, 1974

O homem voltou ao solar do amigo
O homem queimou um cigarro na testa
O homem voltou calculando o destino
Andou mais um passo e não viu

Matava ele o tempo numa outra azinhaga
E a voz era fraca ninguém o ouvia
A larva estendia e o sol abrasava
A marcha do tempo parou

Havia uma vala na rua comprida
E a porta travava ninguém o espera
O homem cavava uma cova na vida
Ali nem o céu se calou

Trazia uma ruga na cara comprida
Não vinha pra nada não vinha por nada?
E a rua era larga e a rua era fria
Andou mais um passo e tombou

Havia uma hora que havia uma vida
Que o homem andava que o homem corria
E a porta travava e um tiro partia
A marcha do tempo parou

O homem voltou ao solar do amigo
E a casa era escura e a porta batia
O homem queimou um cigarro na testa
Andou mais um passo e tombou

Na volta era a noite
Chupava-se a vida
Que há tempo e medida
Chupava-se a vida
O homem precisa é dum´outra cantiga
Agora que o frio voltou

Ó minha amora madura ( Popular )

LP Eu vou ser como a toupeira, 1972

Ó minha amora madura
Diz-me quem te amadurou
Foi o sol, foi a geada
O calor que ela apanhou

O país vai de carrinho

LP Como se fora seu filho, 1983

O país vai de carrinho
Vai de carrinho o país
Os falcões das avenidas
São os meninos nazis

Blusão de cabedal preto
Sapato de bico ou bota
Barulho de escape aberto
Lá vai o menino-mota

Gosta de passeio em grupo
No Mercedes que o papá
Trouxe da Europa connosco
Até à Europa de cá

Despreza a ralé inteira
Como qualquer plutocrata
Às vezes sai para a rua
De corrente e de matraca

Se o Adolfo pudesse
Ressuscitar em Abril
Dançava a dança macabra
Com os meninos nazis

Depois mandava-os a todos
Com treze anos ou menos
Entrar na ordem teutónica
Combater os sarracenos

Os pretos, os comunistas
Os Índios, os turcomanos
Morram todos os hirsutos!
Fiquem só os arianos !

Chame-se o Bufallo Bill
Chegue aqui o Jaime Neves
Para recordar Wiriamu,
Mocumbura e Marracuene

Que a cruz gamada reclama
e novo o Grão-Capitão
Só os meninos nazis
Podem levar o pendão

Mas não se esqueÇam do tacho
Que o papá vos garantiu
Ao fazer voto perpétuo
De ir prà puta que o pariu

O pastor de Bensafrim

LP Baladas e canções, 1964

Ó ventos do monte
Ó brisas do mar
A história que vou contar
Dum pastor Florival
Meu irmão de Bensafrim
Natural rezava assim

Passava ele os dias
No seu labutar
E os anos do seu folgar
Serras vai serras vem
Seu cantar não tinha fim
O pastor cantava assim

Ó montes erguidos
Ó prados do mar em flor
Ó bosques antigos
Trajados de negra cor
Voa andorinha
Voa minha irmã
Não te vás embora
Vem volta amanhã
Dizei amigos
Dizei só a mim
Todos só de um lado
Quem vos fez assim

Dizei-me mil prados
Campinas dizei
A história que não contei
Serras vai serras vem
O seu mal não tinha fim
O pastor cantava assim

Ó montes erguidos
Ó prados do mar em flor
Ó bosques antigos
Trajados de negra cor
Voa andorinha
Voa minha irmã
Não te vás embora
Vem volta amanhã
Dizei amigos
Dizei só a mim
Todos só dum lado
Quem vos fez assim

Seu bem que ele vira
Num rio a banhar
Ao vê-lo vir espreitar
Nunca mais apareceu
Ao pastor de Bensafrim
Sua dor chorava assim

Ó montes erguidos
Ó prados do mar em flor
Ó bosques antigos
Trajados de negra cor
Voa andorinha
Não te vás embora
Vem volta amanhã
Dizei amigos
Dizei só a mim
Todos só dum lado
Quem vos fez assim

Letra e música de José Afonso, sendo a letra vagamente inspirada nas éclogas de Bernardim – desde crianças que mostramos uma propensão natural para as rimas em imo Num desses retornos à fase pré-Iógica das origens, o autor destas linhas travou conhecimento com um pastor que lhe narrou as suas mágoas. Um pouco a martelo, o assundo da conhecida écloga de Bemardim apareceu metamorfoseado num drama pastoril cujo nome “Bensafrim” os montes e as ervinhas repetem até aos mais humildes recantos da serra algarvia.
José Afonso, in «Cantares»

O que faz falta

LP Coro dos tribunais, 1974

Quando a corja topa da janela
O que faz falta
Quando o pão que comes sabe a merda
O que faz falta

O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta

Quando nunca a noite foi dormida
O que faz falta
Quando a raiva nunca foi vencida
O que faz falta

O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é acordar a malta
O que faz falta

Quando nunca a infância teve infância
O que faz falta
Quando sabes que vai haver dança
O que faz falta

O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é empurrar a malta
O que faz falta

Quando um cão te morde a canela
O que faz falta
Quando a esquina há sempre uma cabeça
O que faz falta

O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é empurrar a malta
O que faz falta

Quando um homem dorme na valeta
O que faz falta
Quando dizem que isto é tudo treta
O que faz falta

O que faz falta é agitar a malta
O que faz falta
O que faz falta é libertar a malta
O que faz falta

Se o patrão não vai com duas loas
O que faz falta
Se o fascista conspira na sombra
O que faz falta

O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é dar poder a malta
O que faz falta

O sol anda lá no ( Popular )

SINGLE Fados de Coimbra, 1953

O Sol anda lá no céu
Tão contente atrás da Lua
Também trago a minha alma
De castigo atrás da tua

Fui ao Mondego lavar
As penas das minhas mágoas
Minhas mágoas eram negras
Negras ficaram as águas

Ó Ti Alves

LP Eu vou ser como a toupeira, 1972

Ó Ti Alves
São poucas ou muntas
São poucas mê menino
Mas prò ano
Já são mai muntas

Ó Ti Alves
São magras ou gordas
São magras mê menino
Mas prò ano
Já são mai gordas

Ó Ti Alves
São pobres ou ricas
São pobres mê menino
Mas prò ano
Já são mai ricas

Oh! que calma vai caindo ( Popular, Malpica, Beira Baixa )

LP Contos velhos, rumos novos, 1969

Oh! que calma vai caindo
Sobre las gentes do campo
Meu amor que po lá anda
Encosta-te ao lírio branco

Andando eu a “ceifari”
Nas ladeiras do “ponsuli”
Não me venhas a “lembrari”
Menina da saia “azuli”

A rola se vai queixando
Que lhe roubaram os ovos
Naõ os puseras tu rola
Tanto ao pé dos meus olhos

Por cima ceifa-se o trigo
Por baixo fica o restolho
Menina não se enamore
De rapaz que embisga o olho

Já se está o sol a “pôri”
Para trás do cabecinho
Bem quisera o nosso amo
Prendê-lo com um baracinho

Os bravos ( Popular, Malpica, Beira Baixa )

LP Baladas e canções, 1964

Eu fui à terra do bravo
Bravo meu bem
Para ver se embravecia
Cada vez fiquei mais manso
Bravo meu bem
Para a tua companhia

Eu fui à terra do bravo
Bravo meu bem
Com o meu vestido vermelho
O que eu vi de lá mais bravo
Bravo meu bem
Foi um mansinho coelho

As ondas do mar são branca
Bravo meu bem
E no meio amarelas
Coitadinho de quem nasce
Bravo meu bem
P’ra morrer no meio delas

Os eunucos

LP Traz outro amigo também, 1970

Os eunucos devoram-se a si mesmos
Nao mudam de uniforme, sao venais
E quando os mais sao feitos em torresmos
Defendem os tiranos contra os país
Em tudo sao verdugos mais ou menos
No jardim dos harens os principais
E quando os mais sao feitos em torresmos
Nao matam os tiranos pedem mais
Suportam toda a dor na calmaria
Da olímpica visao dos samurais
Havia um dona a mais na satrapia
Mas foi lançado à cova dos chacais
Em vénias malabares à luz do dia
Lambuzam da saliva os maiorais
E quando os mais sao feitos em fatias
Não matam os tiranos pedem mais

(…)Não existe só o poder, a classe dominante, com o seu comportamento historicamente determinável. Existe também o consentimento de indivíduos que têm algumas responsabilidades intelectuais, ou políticas, com a atitude de deixar andar, que no fundo é uma atitude cúmplice. Eu tentei exprimir isso numa cantiga chamada “Os eunucos”. Isto é um país de eunucos(…) Vão acabar por se devorar a si mesmos, como diz o Brecht.
José Afonso, in «Cantares»

Os fantoches de Kissinger

LP Com as minhas tamanquinhas, 1979

Em toda parte baqueia
A muralha imperialista
Na ponta duma espingarda
Os povos da Indochina
Varrem da terra sangrenta
Os fantoches de Kissinger

Mas aqui também semeias
No pátio da tua fábrica
No largo da tua aldeia
A fome, a prostituição
São filhas da mesma besta
Que Kissinger tem na mão

Valor à Mulher Primeira
Na luta que nos espera
Só não há vida possível
Na liberdade comprada
Na liberdade vendida
A morte é mais desejada

A NATO não chega a netos
Abaixo o hidrovião
Na ponta duma espingarda
O Povo da Palestina
Mandou a Golda Meir
Uma mensagem divina

Da CIA não tenhas pena
Tem carne viva nas garras
É a pomba de Kissinger
Toda a América Latina
Se lembra das suas farras
A mesma tropa domina

A mesma tropa domina
Só um é embaixador
Mas nada nos abalança
A dormir sobre a calçada
Faz como o trabalhador
Dorme sobre a tua enxada

Faz como o atirador
Dorme sobre a espingarda

Os índios da Meia-Praia

LP Com as minhas tamanquinhas, 1976

Aldeia da Meia-Praia
Ali mesmo ao pé de Lagos
Vou fazer-te uma cantiga
Da melhor que sei e faço

De Monte-Gordo vieram
Alguns por seu próprio pé
Um chegou de bicicleta
Outro foi de marcha a ré

Quando os teus olhos tropeçam
No voo duma gaivota
Em vez de peixe vê peças
De ouro caindo na lota

Quem aqui vier morar
Não traga mesa nem cama
Com sete palmos de terra
Se constrói uma cabana

Tu trabalhas todo o ano
Na lota deixam-te mudo
Chupam-te até ao tutano
Chupam-te o couro cab’ludo

Quem dera que a gente tenha
De Agostinho a valentia
Para alimentar a sanha
De esganar a burguesia

Adeus disse a Monte-Gordo
(Nada o prende ao mal passado)
Mas nada o prende ao presente
Se só ele é o enganado

Oito mil horas contadas
Laboraram a preceito
Até que veio o primeiro
Documento autenticado

Eram mulheres e crianças
Cada um c’o seu tijolo
“Isto aqui era uma orquestra”
Quem diz o contrário é tolo
E se a má lingua não cessa
Eu daqui vivo não saia
Pois nada apaga a nobreza
Dos índios da Meia-Praia

Foi sempre a tua figura
Tubarão de mil aparas
Deixar tudo à dependura
Quando na presa reparas

Das eleições acabadas
Do resultado previsto
Saiu o que tendes visto
Muitas obras embargadas

Mas não por vontade própria
Porque a luta continua
Pois é dele a sua história
E o povo saiu à rua

Mandadores de alta finança
Fazem tudo andar pra trás
Dizem que o mundo só anda
Tendo à frente um capataz

E toca de papelada
No vaivém dos ministérios
Mas hão-de fugir aos berros
Inda a banda vai na estrada

Eram mulheres e crianças
Cada um c’o seu tijolo
“Isto aqui era uma orquestra”

Ó vila de Olhão ( José Afonso/ Quadra popular )

EP Cantares de José Afonso, 1964

Ó vila de Olhão
Da Restauração
Madrinha do povo
Madrasta é que não

Com papas e bolos
Engana o burlão
Os que de lá são
E os que pra lá vão
E os que pra lá vão
E os que pra lá vão

Ó flor da trapeira
Ó rosa em botão
Tuas cantaneiras
Bem bonitas são

Larga ó pescador
O que tens na mão
Que o peixe que levas
É do teu patrão
É do teu patrão
É do teu patrão

Limpa o teu suor
No camisolão
Que o peixe que levas
É do cais de Olhão

Vem o mandarim
Vem o capitão
Paga o pagador
Não paga o ladrão
Não paga o ladrão
Não paga o ladrão

Ó vila de Olhão
Da Restauração
Madrinha do povo
Madrasta é que não

Quem te pôs assim
Mar feito num cão
Foi o tubarão
Foi o tubarão
Foi o tubarão

Mulher empregada
Diz o povo vão
Que aquela empreitada
Não dá nada não

Ó vila de Olhão
Da Restauração
Madrinha da povo
Madrasta é que não
Madrasta é que não
Madrasta é que não

Ó pata descalça
Deixa-me da mão
Que os da tua raça
Já não pedem pão

Passa mais um dia
Todos lembrarão
Passa mais de um ano
Já não pedem pão

Ó vila de Olhão
Da Restauração
Madrinha do povo
Madrasta é que não

Fiz muitas viagens a Olhão, minha terra adoptiva. A meio do caminho da Fuzeta, entre Olhão e Marim, a vila vai-se adelgaçando, a viagem toma-se mais rápida e ruidosa, devido ao vento que entra pelas janelas. Pode-se berrar sem que ninguém nos ouça. Foi assim que nasceu esta crónica rimada. Servida pela cadência mecânica do “pouca­terra”, versa um tema alusivo às vicissitudes por que passa o mexilhão quando o mar bate na rocha. A culpa não é do mar.
José Afonso, in «Cantares»

Os vampiros

EP Baladas de Coimbra, 1963

No céu cinzento
Sob o astro mudo
Batendo as asas
Pela noite calada
Vêm em bandos
Com pés de veludo
Chupar o sangue
Fresco da manada

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

A toda a parte
Chegam os vampiros
Poisam nos prédios
Poisam nas calçadas
Trazem no ventre
Despojos antigos
Mas nada os prende
Às vidas acabadas

São os mordomos
Do universo todo
Senhores à força
Mandadores sem lei
Enchem as tulhas
Bebem vinho novo
Dançam a ronda
No pinhal do rei

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

No chão do medo
Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos
Na noite abafada
Jazem nos fossos
Vítimas dum credo
E não se esgota
O sangue da manada

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhe franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

Numa viagem que fiz a Coimbra apercebi-me da inutilidade de se cantar o cor-de-rosa e o bonitinho, muito em voga nas nossas composições radiofónicas e no nosso music­haIl de exportação. Se lhe déssemos uma certa dignidade e lhe atribuíssemos, pela urgência dos temas tratados, um mínimo de valor educativo, conseguiríamos talvez fabricar um novo tipo de canção cuja actualidade poderia repercutir-se no espírito narcotizado do público, molestando-lhe a consciência adormecida em vez de o distrair. Foi essa a intenção que orientou a génese de “Vampiros”, entidades destinadas ao desempenho duma função essencialmente laxante ao contrário do que poderá supor o ouvinte menos atento. A fauna hiper­nutrida de alguns parasitas do sangue alheio serviu de bode espiatório. Descarreguei a bilis e fiz uma canção para servir de pasto às aranhas e às moscas. Casualmente acabou-se-me o dinheiro e fiquei em Pombal com um amigo chamado Pité. A noite apanhou-nos desprevenidos e enregelados num pinhal que me lembrou o do rei e outros ambientes brr herdados do Velho Testamento.
José Afonso, in «Cantares»

P

Papuça

LP Como se fora seu filho, 1983

Olha enfia a carapuça
Mas não compres o velho fato de ananás
O estilo não se empresta e nada tem sentido
A tua falta, meu papuça
Se podes tu não podes
Tanto faz

Experimenta sair
Um pouco está bom tempo
Na Arrábida para os ninhos
Meu rapaz
Amanhã é feriado
Em Paio Pires aguça
O teu ouvido rouco-mouco
Em aguarrás

A multidão na rua
É Zé!
Ouve-se a banda tocando
O M. F. A.
Vai o Borges o Pina o Xaimite e a Bibas
Balouçando
A revolução é pra já

A bota trocada
O canta na varanda
De rota batida
Para Luanda
Só menos um furo
No cinto apertado
É já Primavera
Amar não é pecado
Na fímbria da saia
A lagartixa verde
E um dia alegre
À nossa espera, bebe

Estamos na seca
A paz é pouca
Dorme uma soneca
A tia louca

Limpa os sovacos
Com esse spray
Amanhã é dia
De «Dancing Days»

Põe nessa boca
Uma chupeta
Amanhã é dia
De «Dona Xepa»

Paz, poeta e pombas

LP Venham mais cinco, 1973

A Paz viajou em busca da silêncio
Sitiou Berlim
Abdicou em Londres
A Paz saltou dos olhos do poeta
Atacada de psicose maniaco-depressiva

Foi nessa altura que as pombas
Solicitaram nas agências as tarifas
Mas não viram mais o poeta
Que gozava na Suiça
Duma licença graciosa

A Paz saiu aos saltos para a rua
Comeu mostarda
Bebeu sangria
A Paz sentou-se em cima duma grua
Atacada de astenia

Foi nessa altura que as pombas
Solicitaram nas agências as tarifas
Mas não viram mais o poeta
Que gozava na Suiça
Duma licença graciosa

Perspective ( Paul Reverdy )

(Tema não gravado)

La même voiture
M'a-t-elle emporté

Minuit sur la Lune
Finit de sonner

J'ai vu sa figure
Et même ses mains

Comme la premiére
On pense à demain

Quand le mur s'efface
Le ciel va tomber

Je dois d'où tu viens
Tu tournes la tête

Au coin de la rue
Tout est retourné

La dernière étoile
Et dans le jardin

Mais on seront'ils
Morts sans y penser

Melodia interrompida em Pombal pela chegada de um DKW descapotável à estação de serviço da “Shell”. O resto dos preparos e dos alinhavos continuou a viagem até Lisboa em dois carros pesados do mesmo modelo.
José Afonso

Por aquele caminho

(Tema gravado por Adriano Correia de Oliveira)

Por aquele caminho
De alegria escrava
Cai um caminheiro
Com sol nas espáduas

Ganha o seu sustento
De plantar o milho
Aquece-o a chama
Dum poder antigo

Leva o solitário
Sob os pés marcado
Um rasto de sangue
De sangue lavado

Levanta-se o vento
Levanta-se a màgoa
Soltam-se as esporas
Duma antiga chaga

Mas tudo no rosto
De negro nascido
Indica que o negro
É um espectro vivo

Quem lhe dá guarida
Mostra-lhe a pintura
Duma cor que valha
Para a sepultura

Não de mão beijada
Para que não viva
Nele toda a raiva
Dessa dor antiga

Falta ao caminheiro
Dentro d'algibeira
Um grão de semente
D'outra sementeira

O sol vem primeiro
Grande como um sino
Pensa o caminheiro
Que já foi menino

Lourenço Marques 1965. Versos destinados à página literária de “Voz de Moçambique”. A música peca por manifesta ausência de identificação com o espírito dos ritmos e dos temas africanos.
José Afonso

Por trás daquela janela

 LP Eu vou ser como a toupeira, 1972

Por trás daquela janela
Por trás daquela janela
Faz anos o meu amigo
E irmão

Não pôs cravos na lapela
Por trás daquela janela
Nem se ouve nenhuma estrela
Por trás daquele portão

Se aquela parede andasse
Se aquela parede andasse
Eu não sei o que faria
Não sei

Se a minha faca cortasse
Se aquela parede andasse
E grito enorme se ouvisse
Duma criança ao nascer

Talvez o tempo corresse
Talvez o tempo corresse
E a tua voz me ajudasse
A cantar

Mais dura a pedra moleira
E a fé, tua companheira
Mais pode a flecha certeira
E os rios que vão pró mar

Por trás daquela janela
Por trás daquela janela
Faz anos o meu amigo
E irmão

Na noite que segue o dia
Na noite que segue o dia
O meu amigo lá dorme
De pé

E o seu perfil anuncia
Naquela parede fria
Uma canção de alegria
No vai e vem da maré

Por trás daquela janela
Por trás daquela janela
Faz anos o meu amigo
E irmão

Não pôs cravos na lapela
Por trás daquela janela
Nem se ouve nenhuma estrela
Por trás daquele portão

Ao Alfredo de Matos, quando se encontrava preso pela PIDE.

Q

Qualquer dia

LP Contos velhos, rumos novos, 1969

No inverno bato o queixo
Sem mantas na manhã fria
No inverno bato o queixo
Qualquer dia
Qualquer dia

No Inverno aperto o cinto
Enquanto o vento assobia.
No inverno aperto o cinto
Qualquer dia
Qualquer dia

No Inverno vou pôr lume
Lenha verde não ardia.
No inverno vou pôr lume
Qualquer dia
Qualquer dia

No Inverno penso muito
Oh que coisas eu já via
No inverno penso muito
Qualquer dia
Qualquer dia

No Inverno ganhei ódio
E juro que o não queria
No inverno ganhei ódio
Qualquer dia
Qualquer dia

Quanto é doce ( Popular )

LP Fura fura, 1979

Quanto é doce quanto é bom
No mundo encontrar alguém
Que nos junte contra o peito
E a quem nós chamemos mãe

Vai-se a tristeza o desgosto
Põe-se a um ponto na tormenta
Quando a mãe nos dá um beijo
Quando a mãe nos acalenta

E embora seja ladrão
Aquele que tenha mãe
Lá tem no meio da luta
Ternos afagos de alguém

Tema popular musicado por José Afonso para a peça «Zé do Telhado», levada à cena pelo grupo de teatro «A Barraca» em 1978.

Que amor não me engana

LP Venham mais cinco, 1973

Que amor não me engana
Com a sua brandura
Se de antiga chama
Mal vive a amargura

Duma mancha negra
Duma pedra fria
Que amor não se entrega
Na noite vazia

E as vozes embarcam
Num silêncio aflito
Quanto mais se a partam
Mais se ouve o seu grito

Muito à flor das águas
Noite marinheira
Vem devagarinho
Para a minha beira

Em novas coutadas
Junto de uma hera
Nascem flores vermelhas
Pela Primavera

Assim tu souberas
Irmã cotovia
Dizer-me se esperas
O nascer do dia

Quem diz que é pela rainha ( Popular/ José Afonso )

LP Fura fura, 1979

Quem diz que é pela rainha
Nem precisa de mais nada
Embora seja ladrão
Pode roubar à vontade
Todos lhe apertam a mão
É homem de sociedade

Acima da pobre gente
Subiu quem tem bons padrinhos
De colarinhos gomados
Perfumando os ministérios
É dono dos homens sérios
Ninguém lhe vai aos costados

Tema popular musicado por José Afonso para a peça «Zé do Telhado», levada à cena pelo grupo de teatro «A Barraca» em 1978.

R

Resineiro engraçado ( Popular, Beira Alta )

LP Cantares do andarilho, 1968

Resineiro engraçado
Engraçado no falare

Ó I ó ai eu hei d’ir à terra dele
Ó I ó ai se ele me lá quiser levar

Já tenho papel e tinta
Caneta e mata borrão

Ó I ó ai p’ra escrever ao resineiro
Ó I ó ai que trago no coração

Resineiro é casado
É casado e tem mulher

Ó I ó ai vou escrever ó resineiro
Ó I ó ai quantas vezes eu quiser

Resineiro engraçado
Engraçado no falare

Ó I ó ai eu hei d’ir à terra dele
Ó I ó ai se ele me lá quiser levar

Rio largo de profundis

LP Venham mais cinco, 1973

Rio largo de profundis
Uma neta pra nascer
Amor avenidas novas
Praça de Londres a arder
Não quero martelo e rima
Aqui no Largo da Graça
Quero ficar onde estou
Para salvar a quem passa
João, Francisco, Maria,
Cada qual um nome tem
Quando vos deu os bons dias
Ninguém responde a ninguém
Venha duma outra vontade
Lá eu soubera dizer
Amor avenidas novas
Praça de Londres a arder

Ronda das mafarricas

LP Cantigas do Maio, 1971

Estavam todas juntas
Quatrocentas bruxas
À espera À espera
À espera da lua cheia

Estavam todas juntas
Veio um chibo velho
Dançar no adro
Alguém morreu

Arlindo coveiro
Com a tua marreca
Leva-me primeiro
Para a cova aberta

Arlindo Arlindo
Bailador das fadas
Vai ao pé coxinho
Cava-me a morada

Arlindo coveiro
Cava-me a morada
Fecha-me o jazigo
Quero campa rasa

Arlindo Arlindo
Bailador das fadas
Vai ao pé coxinho
Cava-me a morada

Ronda dos paisanos

LP Baladas e canções, 1964

Ao cair da madrugada
No quartel da guarda
Senhor general
Mande embora a sentinela
Mande embora e não lhe faça mal

Ao cair do nevoeiro
Senhor brigadeiro
Não seja papão
Mande embora a sentinela
Mande embora a sua posição

Ao cair do céu cinzento
Lá no regimento
Senhor coronel
Mande embora a sentinela
Mande embora e deixe o seu quartel

Ao cair da madrugada
Depois da noitada
Senhor capitão
Mande embora a sentinela
Mande embora o seu guarda-portão

Ao cair do sol nascente
Venha meu tenente
Deixe a prevenção
Mande embora a sentinela
Mande embora e tire o seu galão

Ao cair do frio vento
Primeiro sargento
Junte o pelotão
Mande embora a sentinela
Mande embora e cale o seu canhão

Ao cair do sol doirado
Venha meu soldado
Largue o seu punhal
Vá-se embora sentinela
Vá-se embora que aí fica mal

A música ocorreu-me no WC do rápido Faro-Lisboa, depois da estação da Funcheira. Lembrei-me de algumas, semelhantes na forma e diferentes no seu conteúdo picaresco: D. Miquelina tinha uma sobrinha, Conheci uma francesa, Ó moleiro guarda a filha (esta última, minhota), cantadas em coro nos grandes festins coimbrões. Em Lisboa inteirei-me dos postos do exército, que são muitos e soantes. Rimados às parelhas dariam uma canção popular, capaz de ser entendida por soldados e generais.
José Afonso

S

S. Macaio ( Popular, Açores )

LP Contos velhos rumos novos, 1969

S. Macaio, S. Macaio deu à costa
Ai deu á costa nos baixos da Urzelina

Toda a gente, toda a gente se salvou
Ai se salvou, só morreu uma menina

S. Macaio, S. Macaio deu à costa
Ai deu á costa naponta dos Mosteiros

Toda a gente, toda a gente se salvou
Ai se salvou, só morreu dois passageiros

S. Macaio, S. Macaio deu à costa
Ai deu á costa nas pedras da Fajazinha

Toda a gente, toda a gente se salvou
Ai se salvou, só morreu uma galinha

S. Macaio, S. Macaio deu à costa
Ai deu á costa nos baixos do Maranhão

Toda a gente, toda a gente se salvou
Ai se salvou, só o S. Macaio não

Santa Maria a Sem-Par

(Tema não gravado. Destinou-se a um festival de canções no Algarve.)

Algarve o nome está lembrando
Algarve e a brisa passa a cantar
E as sombras leva-as o vento voltando
Silêncio dizem as ondas do mar

Morenas em bandos sobre açoteias
Janelas abertas sobre um palmar
Já vejo de longe as altas ameias
Já vejo Santa Maria a Sem-Par

Algarve jardim de rosas vermelhas
Algarve brancura de pedra e cal
Cidade dentro dum pátio sem telhas
Dormindo debaixo dum laranjal

Nas praias, dedos de finas areias
Teu nome lembram ao vento a passar
Já vejo de longe as altas ameias
Já vejo Santa Maria a Sem-Par
 

Este nome um tanto anacrónico é o título de uma pequena toada dedicada a Zélia e depois adaptada a um texto comercializado para ser proposto a um concurso. Os elementos figurativos, excluindo o conhecido símbolo da chaminé algarvia, foram introduzidos na canção a título coercitivo, de acordo com as normas determinadas pelo júri, que a eliminou na primeira volta.
José Afonso

Saudadinha ( Popular, Açores )

LP Cantares do andarilho, 1968

Ó Tirana saudade
Ó Tirana saudade
Ó Tirana saudade
Saudade, ó minha saudadinha
Foste nada no Faial
Foste nada no Faial
Foste nada no Faial
No Faial baptizada na Achadinha

Saudade onde tu fores
Saudade onde tu fores
Saudade onde tu fores
Saudade leva-me podendo ser
Que eu quero ir acabar
Que eu quero ir acabar
Que eu quero ir acabar
Saudade onde tu foras morrer

A saudade é um luto
A saudade é um luto
A saudade é um luto
Um amor, um amor, uma paixão
É um cortinado roxo
É um cortinado roxo
É um cortinado roxo
Que me morde, que me morde o coração

Se voaras mais ao perto

LP Venham mais cinco, 1973

Se voaras mais ao perto
Poisavas noutra vidraça
Com o teu bico dentado
Trazias mais um na asa

Vem longe o dia da monda
Não é tempo de mondar
Ó Cigana ó ciganinha
Que eu te hei-de eu dar

Andorinha de asa preta
Vai gritando em altos brados
Chega-te à minha janela
Livra-me destes cuidados

Se voara como ela
A tua sorte era a minha
Diz-me lá ó ciganita
O que nos quer a andorinha

O que nos quer a andorinha
Bem gostara de saber
O mundo é bola de fogo

Senhor arcanjo

LP Cantigas do Maio, 1973

Senhor arcanjo
Vamos jantar
Caem os anjos
Num alguidar

Hibernam tíbias
Suspiram rãs
Comem orquídeas
Nas barbacãs

Entra na porta
Menina-faia
Prova uma torta
Desta papaia

Palita os dentes
Põe-te a cavar
Dormem videntes
No Ultramar

Que bela fita
Que bem não está
A prima Bia
De tafetá

E vai o lente
Come um repolho
Parte-se um pente
Fura-se um olho

A pacotilha
Tem mais amor
À gargantilha
Do regedor

Põe a gravata
Menino bem
Que essa cantata
Não soa bem

Senhor arcanjo
Vamos jantar
Caem os anjos
Num alguidar

E as quatro filhas
Do marajá
Vão de patilhas
Beber o chá

Senhor poeta ( António Barahona/ Manuel Alegre )

LP Baladas de Coimbra, 1962

Meu amor é marinheiro
E mora no alto mar
Seus braços são como o vento
Ninguém o pode amarrar

Senhor poeta
Vamos dançar
Caem cometas
No alto mar

Cavalgam zebras
Voam duendes
Atiram pedras
Arrancam dentes

Soltam as velas
Vamos largar
Caem cometas
No alto mar

Complemento noctívago de “Tenho barcos…” Os dois versos Soltam-se as velas / Vamos largar foram intercalados na estrofe com o consentimento de Barahona a fim de ajustarem o conjunto às necessidades da composição musical.
José Afonso, in «Cantares»

Senhora do Almortão ( Popular, Beira Alta )

LP Cantares do andarilho, 1968

Senhora do Almortão
Ó minha linda raiana
Virai costas a Castela
Não queirais ser castelhana

Senhora do Almortão
A vossa capela cheira
Cheira a cravos, cheira a rosas
Cheira a flor de laranjeira

Senhora do Almortão
Eu pró ano não prometo
Que me morreu o amor
Ando vestida de preto

Senhora que o velho ( Nicolau Tolentino/ José Afonso )

LP Fura fura, 1979

Senhora que o velho
Se quer levantar
Mofina de mim
Que o ouvi escarrar
Falar e tossir
Que o ouvi escarrar

Senhora vá-se embora
Vá já para fora
senão o papão
nos há-de engolir

Morde pela calada
Cheira à cruz gamada
Anda aí à solta
Não o deixes bulir

Senhora que o velho
Se quer levantar
Dá-lhe na corneta
Até se cansar

Mofina de mim
Bem o vejo trepar
Senhora que o velho
Tem corda de sino
Se lhe dão mais corda
Vai ao alto a pino
Anda aí à solta
Não o deixes bulir.

Sete fadas me fadaram ( António Quadros (pintor) )

LP Eu vou ser como a toupeira, 1972

Sete fadas me fadaram
Sete irmãos m´arrenegaram
Sete vacas me morreram
Outras sete me mataram

Sete setes desvendei
Sete laranjinhas de oiro
Sete piados de agoiro
Sete coisas que eu cá sei

Sete cabras mancas
Sete bruxas velhas
Seter salamandras
Sete cega-regas

Sete foles
Sete feridas
Sete espadas
Sete dores
Sete mortes
Sete vidas
Sete amores
Sete estrelas me ocultaram
Sete luas, sete sóis
Sete sonhos me negaram
Aqui d´el rei é demais

Só ouve o brado da terra

LP Coro dos tribunais, 1974

Só ouve o brado da terra
Quem dentro dela
Veio a nascer
Agora é que pinta o bago
Agora é qu’isto
vai aquecer

Cala-te ó clarim da morte
Que a tua sorte
Não hei-de eu querer
Mal haja a noite assassina
E quem domina
Sem nos vencer

Cobrem-se os campos de gelo
Já não se ouve
O galo cantor
Andam os lobos à solta
Pega no teu
Cajado, pastor

Homem de costas vergadas
De unhas cravadas
Na pele a arder
É minha a tua canseira
Mas há quem queira
Ver-te sofrer

Anda ver o Deus banqueiro
Que engana à hora e
que rouba ao mês
Há milhões no mundo inteiro
O galinheiro é de
dois ou três

Solitário ( Horácio Menano )

EP Coimbra, 1960

Dizem que as mães querem mais
Ao filho que mais mal faz
Por isso te quero tanto
Que tantas mágoas me dás

Perguntas-me o que é morrer
Meu amor minha alegria
Morrer é passar um dia
Todo inteiro sem te ver

T

Tecto na montanha

 LP Cantares do andarilho, 1968

Num lugar ermo
Só no meu abrigo
Aí terei meu tecto
E meu postigo

De longe em longe
À luz das madrugadas
Duas camisas
Quem não tem lavadas?

Aí serei meu dono
E companheiro
Dizei amigos
Se não sou solteiro

E se eu morrer
O tecto que não caia
Porque um mendigo
Dorme de atalaia

De quando em quando
Chamo o perdigueiro
Dizei amigos
Quem chega primeiro

Aí terei meu poiso
À luz da veia
Aí verei o sol
Duma janela

Tenho uma trompa
Tenho uma cascata
Tenho uma estrela
No bairro da lata

Olha o mar alto
Olha a maresia
Olha a montanha
Vem rompendo o dia

Letra concebida em estado de penúria física e mental. O franciscanismo aparece no texto musicado como uma doutrina de compensação sem qualquer relação directa com a camisa lavada do autor.
José Afonso, in «Cantares»

Tenho barcos, tenho remos ( Popular )

EP Baladas de Coimbra, 1962

Tenho barcos, tenho remos
Tenho navios no mar
Tenho amor ali defronte
E não lhe posso chegar.

Tenho navios no mar
Tenho navios no mar
Tenho amor ali defronte
Não o posso consolar.

Já fui mar já fui navio
Já fui chalupa escaler
Já fui moço, já sou homem
Só me falta ser mulher.

Só me falta ser mulher
Só me falta ser mulher
Já fui moço, já sou homem
Já fui chalupa escaler.

O barco aludido pertencia a uma pequena sociedade constituída por Manuel Pité, António Barahona, António Bronze e José Afonso. Situações vividas pelos quatro, em comunidade perfeita com o mar algarvio, agruparam-se numa espécie de ciclo fraterno representativo de uma das fases mais felizes da vida do autor.
José Afonso, in «Cantares»

Tenho um primo convexo

LP Coro dos tribunais, 1974

Tenho um primo convexo
Fadado para amnistias
Em torno de ele nadam
Plantas carnívoras
Agitando como plumas
As cordas violáceas
O meu primo dormita
Glu glu entre palmeiras
Suspenso numa rede
De suor e preguiça
Corvos bicam-lhe os pés
Trincam-lhe os calos
Enquanto a tarde jaz
E a mão suspende
O gesto de acordá-lo
E a terra treme
Mas de nada o meu primo se apercebe

Teresa Torga

LP Com as minhas tamanquinhas, 1976

No centro da Avenida
No cruzamento da rua
Às quatro em ponto perdida
Dançava uma mulher nua

A gente que via a cena
Correu para junto dela
No intuito de vesti-la
Mas surge António Capela

Que aproveitando a barbuda
Só pensa em fotografá-la
Mulher na democracia
Não é biombo de sala

Dizem que se chama Teresa
Seu nome e Teresa Torga
Muda o pick-up em Benfica
Atura a malta da borga

Aluga quartos de casa
Mas já foi primeira estrela
Agora é modelo à força
Que a diga António Capela

Teresa Torga Teresa Torga
Vencida numa fornalha
Não há bandeira sem luta
Não há luta sem batalha

Tinha uma sala iluminada

LP Enquanto há força, 1978

Tinha uma sala mal iluminada
Perguntavas pelo amigo e estava a monte
A fuga era a última cartada
A pide estava ali mesmo defronte

As vezes uma dúvida rondava
Valia ou não a pena o que fazias?
Se alguém caía um outro alevantava
O tronco que tombava e renascias

A velha história ainda mal começa
Agora está voltando ao que era dantes
Mas se há um camarada à tua espera
Não faltes ao encontro sê constante

Há sempre quem se prante à tua mesa
Armado em conselheiro ou penitente
A luta agora está de novo acesa
E o caminho é só um é sempre em frente

Perdeste o treino falta-te a paciência
Ouviste antes do tempo mil fanfarras
Já os soldados fazem continência
Ao som do choradinho e das guitarras

A velha história ainda mal começa
Agora esta voltando ao que era dantes
Mas se há um camarada à tua espera
Não faltes ao encontro sê constante

Traz outro amigo também

LP Traz outro amigo também, 1970

Amigo
Maior que o pensamento
Por essa estrada amigo vem
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também

Em terras
Em todas as fronteiras
Seja benvindo quem vier por bem
Se alguém houver que não queira
Trá-lo contigo também

Aqueles
Aqueles que ficaram
(Em toda a parte todo o mundo tem)
Em sonhos me visitaram
Traz outro amigo também

À memória de Miguel Ramos.

Qualquer semelhança entre a epígrafe sintetisadora da Amizade e “Uma Casa Portuguesa Com Certeza” é com certeza pura coincidência. O autor nunca se colocou, por falta de méritos próprios, no plano polemístico da hospitalidade lusitana, o que não o impede de abrir a porta a quem quer que venha por bem, excluídos, até prova em contrário, os amigos das bibliotecas alheias.
José Afonso, in «Cantares»

Trovas antigas

LP Baladas e canções, 1964

O que mais me prende à vida
Não é amor de ninguém
É que a morte de esquecida
Deixa o mal e leva o bem

Quem se vai casar ao longe
Ao perto tendo com quem
Alva flor da laranjeira
Não a dará a ninguém

Olha a triste viuvinha
Que anda na roca a fiar
É bem feito, é bem feito
Que não tem com quem casar

No cimo daquela serra
Está um lenço de mil cores
Está dizendo viva, viva
Morra quem não tem amores

O que mais me prende à vida
Não é amor de ninguém
É que a morte de esquecida
Deixa o mal e leva o bem

Olha a triste viuvinha
Que anda na roca a fiar
É bem feito, é bem feito
Que não tem com quem casar

Dedicadas ao doutor Vítor Pereira. Correspondem à mesma época em que surgem «Ronda dos Paisanos» e «Altos Castelos». Do contacto superficial com o folclore romeno, muito semelhante na forma a certas canções raianas, provêm as origens subconscientes destas trovas. A escolha um pouco arbitrária das quadras e os solos introduzidos antes de cada quadra pela viola de Rui Pato deram ao conjunto uma feição mais ligeira, mas talvez mais genuína.
José Afonso

Tu gitana ( Cancioneiro de Elvas (1ª quadra), popular )

LP Galinhas do mato, 1985

Tu gitana que adivinhas
Me lo digas, poes no lo sê
Se saldre dessa aventura
Ô si nela moriré
Ô si nela perco la vida
Ô si nela triumfare
Tu gitana que adivinhas
Me lo digas, poes no lo sê

U

Um homem novo veio da mata

LP Enquanto há força, 1978

Um homem novo
Veio da mata
De armas na mão
Não é soldado
De profissão
É guerrilheiro
Na sua aldeia
A mãe o diz
Duma fazenda
Faz um país

Colonialismo
Não passará
Imperialismo
Não passará
Veio da mata
Um homem novo
Do M. P. L. A.

Namíbia quente
Vai despertando
Da areia ao mar
Agora ou nunca
Não há que errar
Foi em Fevereiro
Na dia quatro
Sessenta e um
Angola existe
Povo há só um

Colonialismo
Não passará…

A cor da pele
Não é motivo
Pra distinguir
Angola nova
Só há que unir
Se novos donos
Querem pôr tronos
No teu país
Dum guerreiro
Faz um juiz

Colonialismo
Não passará…

Olha o caminho
Da Polissário
De Zimbabwé
África toda
Levanta-te
Se novos donos
Querem pôr tronos
Sobre o teu chão
Por cada morto
Nasce um irmão

Colonialismo
Não passará…

Utopia

LP Como se fora seu filho, 1983

Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
Gente igual por fora
Onde a folha da palma
Afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo, mas irmão
Capital da alegria

Braço que dormes
Nos braços do rio
Toma o fruto da terra
É teu a ti o deves
Lança o teu desafio

Homem que olhas nos olhos
Que não negas
O sorriso, a palavra forte e justa
Homem para quem
O nada disto custa
Será que existe
Lá para os lados do oriente
Este rio, este rumo, esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
Na minha rota?

Tema composto para a peça «Fernão, Mentes?» do grupo de teatro «A Barraca», e que estreou a 18 de Novembro de 1981.

V

Vai, Maria vai

LP Contos velhos rumos novos, 1969

Vai, Maria vai
Maria vai
Maria vai trabalhar
Não Senhora não
Senhora não
Senhora não, Maria

Vai, Maria vai
Maria vai
A roupa branca lavar
Não Senhora não
Senhora não
Senhora não, Maria

Vai, Maria vai
Maria vai
A roupa branca enxugar
Não Senhora não
Senhora não
Senhora não, Maria

Vai, Maria vai
Maria vai
Aquele chão esfregar
Não Senhora não
Senhora não
Senhora não, Maria

Vai, Maria vai
Maria vai
O meu menino calar
Não Senhora não
Senhora não
Senhora não, Maria

Vai, Maria vai
Maria vai
Maria vai trabalhar
Não Senhora não
Senhora não
Senhora não, Maria

(…) algumas canções de origem africana eivadas de influências europeias ouvem-se frequentemente no hora nativa que a Rádio Pax transmite regularmente. Foi um pouco a sugestão desses ritmos suburbanos que me sugeriu o texto – mais um pretexto de reforço rítmico do que um conteúdo lógico para ser transmitido através da música.
José Afonso, in «Cantares»

Vejam bem

LP Cantares do andarilho, 1968

Vejam bem
Que não há
Só gaivotas em terra
Quando um homem
Se põe
A pensar

Quem lá vem
Dorme à noite
Ao relento
Na areia
Dorme à noite
Ao relento no mar

E se houver
Uma praça
De gente
Madura
E uma estátua
De febre
A arder

Anda alguém
Pela noite
De breu
À procura
E não há
Quem lhe queira
Valer

Vejam bem
Daquele homem
A fraca
Figura
Desbravando
Os caminhos
Do pão

E se houver
Uma praça
De gente
Madura
E uma estátua
De febre
A arder

Vejam bem
Que não há
Só gaivotas em terra
Quando um homem
Se põe
A pensar

Quem lá vem
Dorme à noite
Ao relento na areia
Dorme à noite
Ao relento no mar

Música do filme “O Anúncio”, a apresentar no Festival de Cinema Amador pelo Cineclube da Beira. O filme foi projectado em sessão privada, ainda incompleto e sem diálogos. Um homem procura emprego num escritório, dirige­se ao gerente de uma firma conceituada, a capatazes e mestres­de-obra. Em vão! Privado de fundos, vê-se obrigado a dormir ao relento e a roubar para comer. Na retrete de um restaurante, único lugar onde não é visto, devora apressadamente dois ovos que metera ao bolso, aproveitando-se da algazarra geral. É à luz deste contexto dramático que poderão entender-se a linha melódica e o texto rimado apensos às sequências julgadas mais expressivas.
José Afonso, in «Cantares»

Venham mais cinco

LP Venham mais cinco, 1973

Venham mais cinco
Duma assentada
Que eu pago já
Do branco ou tinto
Se o velho estica
Eu fico por cá

Se tem má pinta
Dá-lhe um apito
E põe-no a andar
De espada à cinta
Já crê que é rei
D’àquém e D’àlém Mar

Não me obriguem
A vir para a rua
Gritar
Que é já tempo
D’embalar a trouxa
E zarpar

A gente ajuda
Havemos de ser mais
Eu bem sei
Mas há quem queira
Deitar abaixo
O que eu levantei

A bucha é dura
Mais dura é a razão
Que a sustem
Só nesta rusga
Não há lugar
Pr’ós filhos da mãe

Não me obriguem
A vir para a rua
Gritar
Que é já tempo
D’embalar a trouxa
E zarpar

Bem me diziam
Bem me avisavam
Como era a lei
Na minha terra
Quem trepa
No coqueiro
É o rei

A música foi feitas nas Astúrias quando andava com o Benedicto. O texto não me recordo se foi em Caxias, se não.
José Afonso, in «Cantares»

Verdade e mentira

LP Como se fora seu filho, 1983

Neste livro do mundo
Quase perfeito
Preto e branco irmanados
De igual jeito
Quem não foi a tribunal
Quem teve mão
Nos juízes da Santa Inquisição?

Em menino te ensinaram
Mentiras que a morte leva
Para outra morte bem longe
De pensares que outra contrária
Com a tua se aglomera
Neste livro de concórdia
Só tem guarida o Infinito
Por Giordano Bruno amado
Como se fora seu filho
Acima da besta fera
Que na fogueira o lançava
Aquela verdade brilha
À morte à morte diziam
Os que não adivinhavam
Que era verdade a mentira
Até o mar se acomoda
E paciente requebra
Enquanto gritas à toa
A tua verdade cega
Conta as areias da praia
O grande mago do mundo?
Só não mente quem não sente
Que o mistério não tem fundo

Tema composto para a peça «Fernão, Mentes?» do grupo de teatro «A Barraca», e que estreou a 18 de Novembro de 1981.

Verdes são os campos ( Luís de Camões )

LP Traz outro amigo também, 1970

Verdes são os campos,
De cor de limão
Assim são os olhos
Do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

Vira de Coimbra ( Popular )

EP Balada do Outono, 1960

Dizem que amor de estudante
Não dura mais que uma hora
Só o meu é tão velhinho
Inda não se foi embora.

Coimbra pra ser Coimbra
Três coisas há-de contar
Guitarras, tricanas lindas,
Capas negras a adejar

Ó Portugal trovador
Ó Portugal das cantigas
A dançar tua dás a roda
A roda com as raparigas

Fui encher a bilha e trago-a
Vazia como a levei
Mondego que é da tua água
que é dos prantos que eu chorei.

Viva o poder popular

SINGLE Viva o poder popular, 1974

Não há velório nem morto
Nem círios para queimar
Quando isto der prò torto
Não te ponhas a cavar

Quando isto der prò torto
Lembra-te cá do colega
Não tenhas medo da morte
Que daqui ninguém arreda

Se a CAP é filha do facho
E o facho é filho da mãe
O MAP é filho do Portas
Do Barreto e mais alguém

Às aranhas anda o rico
Transformado em democrata
Às aranhas anda o pobre
Sem saber quem o maltrata

Às aranhas te vi hoje
Soldado, na casamata
Militares colonialistas
Entram já na tua casa

Vinho velho vinho novo
Tudo a terra pode dar
Dêm as pipas ao povo
Só ele as sabe guardar

Vem cá abaixo ó Aleixo
Vem partir o fundo ao tacho
Quanto mais lhe vejo o fundo
Mais pluralista o acho

Os barões da vida boa
Vão de manobra em manobra
Visitar as capelinhas
Vender pomada da cobra

A palavra socialismo
Como está hoje mudada
De colarinho a Texas
Sempre muito aperaltada

Sempre muito aperaltada
Fazendo o V da vitória
Para enganar o proleta
Hás-de vir comigo a glória

O Willy Brandt é macaco
O Giscard é macacão
O capital parte o coco
Só não ri a emigração

De caciques e de bufos
Mandei fazer um sacrário
Para por no travesseiro
Dum cura reaccionário

Não sei quem seja de acordo
Como vamos terminar
Vinho velho vinho novo
Viva o Poder Popular.