Visão Biografia: José Afonso

Notícia Antena1 | Uma conversa para evocar “Com as Minhas Tamanquinhas”
Nuno Galopim conduziu uma emissão especial da Antena 1 na Casa da Cultura, em Setúbal, sobre o mais recente álbum de José Afonso a ser reeditado.
Recupere aqui esta emissão especial na RTP Play
A Casa da Cultura, em Setúbal, foi o cenário para acolher mais uma sessão de lançamento, com debate, de um título da presente campanha de reedições da obra discográfica de José Afonso que a Antena 1 está a acompanhar.
Estiveram presentes, nesta conversa, que teve moderação de Nuno Galopim, José Pacheco Pereira, Jorge Abegão, Rui Vieira Nery e B Fachada. Este último abriu a sessão ao cantar, sem qualquer acompanhamento instrumental, a canção Os Fantoches de Kissinger, que abre precisamente o alinhamento deste disco editado em 1976 por José Afonso.
José Pacheco Pereira recordou depois como, bem antes deste disco, teve os seus primeiros contactos com José Afonso e evocou o quadro político no qual nasceram as canções de Com As Minhas Tamanquinhas, retrato depois continuado por Rui Vieira Nery, que acrescentou ainda ao mapa político e social da época um olhar sobre os caminhos que a música tomou neste disco.
Jorge Abegão, que é o responsável pela reunião da obra poética de José Afonso que acaba de conhecer uma nova edição em livro, dirigiu atenções às palavras do músico e aos seus significados. B Fachada juntou ainda as suas experiências pessoais como músico que aqui reconhece uma obra de referência.
Juntos, os quatro refletiram assim sobre memórias que correspondem ao primeiro álbum de José Afonso com canções compostas depois do 25 de abril e que refletem os acontecimentos imediatos que se seguiram.
A direita não vai à bola com ele. O Portugal de lés a lés. Orgias de ritmo. O nosso pai. Ponte entre Portugal e África. Não era grande poeta. Assim falam os que eram adolescentes quando Zeca morreu. Por João Bonifácio
a Um homem começa um dia a executar o que por menoridade semântica chamamos “obra”. Mas é possível que esse homem nunca tenha a certeza de escapar ao julgamento do tempo: tudo tem um certo intervalo em que o seu reinado se edifica. O que lhe farão os que vêm depois? É essa a pergunta que fazemos hoje que passam 20 anos sobre a morte de Zeca Afonso, a quem as homenagens oficiais consagram o epíteto de “maior génio da música portuguesa”. Perguntámos aos que estavam a tornar-se homens quando Zeca morreu e aos que estavam a nascer quando Zeca nos deixou. A ideia é saber como Zeca sobrevive e é recebido pelos filhos da liberdade.”A influência que ele tem nos músicos é total. Só isso lhe garante uma certa posteridade.” A frase é do poeta Pedro Mexia, 34 anos alinhados à direita. A auscultação entre músicos parece dar-lhe razão. Victor Afonso, 34 anos, que edita discos de electrónica enquanto Kubik, chama-lhe “espírito criativo e irrequieto”. Afonso estudou Zeca desde cedo, primeiro “aos dez anos nas aulas de guitarra clássica”, depois “no curso de educação musical, nas cadeiras de etnografia, não porque o Zeca fizesse música verdadeiramente etnográfica mas porque partia dela para lhe atribuir elementos de uma grande modernidade estética”.
Esse lado etnográfico parece ser particularmente reconhecido, e mesmo entre poetas: Mexia realça o “trabalho de campo [de recolhas] de Zeca, até porque a cultura popular que vinha do Estado Novo era muito artificial”. E o também poeta José Miguel Silva, 38 anos alinhados à esquerda, destaca “o papel muito importante na revitalização da música popular portuguesa”, chamando a atenção “para uma tradição que estava um bocado esquecida”.
Miguel Almeida, 33 anos, fanático da obra de Zeca, não tem dúvidas em reafirmar o lado camaleónico do compositor: “Há ali muita Beira (a de cá e a de Moçambique), África a rodos, Portugal de lés a lés e um sentido musical enorme, sem medo de experimentar. Tens no Zeca desde canções despidas, completamente espectrais, fantasmagóricas, a orgias de ritmo.” Mas, e faz questão de vincar isto, “ele não era uma ilha isolada, era uma parte do Portugal em que vivia, e por isso hoje faz-me alguma confusão esta tentativa de separar o músico do político, de o branquear. Não havia Zeca sem luta contra o fascismo, sem revolução, sem o afirmar destemido de ideais que hoje nos podem parecer deslocados e anacrónicos.”
Valete, o rapper
Zeca, para todos os efeitos, é um símbolo político, “essa figura física capaz de responder aos acontecimentos do seu tempo” (José Miguel Silva). Para um rapper como Valete, vindo dos subúrbios de Lisboa, e empenhado em olhar a realidade social, possuidor de toda a discografia de Zeca a partir dos anos 70, isso é muito importante: “A minha escola, progressista e de intervenção, é uma continuação da escola dele e do Zé Mário, que leva para a música, mais que o entretenimento, o intervir e o consciencializar. Se o Zeca não existisse nós também não existíamos. São os nossos pais.”
Mas nem toda a gente o descobriu assim. Quando Cristina Branco, 34 anos, fadista (ou nem por isso) descobriu “o lado empenhado dele”, na altura “em que se desperta para a consciência política”, isto é, na adolescência, essa revelação “não foi um choque”. Por várias razões, mas uma acima de todas: “Na casa dos meus pais sempre se ouviu o Zeca, em particular as canções próprias para crianças, as canções de embalar.” A fadista cresceu em Almeirim numa família de esquerda.
Mudemos de agulha para alguém dois anos mais velho, “ferozmente neutro”, e que cresceu em Coimbra: o cantautor JP Simões. “A princípio inspirou-me um certo aborrecimento – e só depois fiquei fã.” Esse depois deu-se na altura do liceu, em que o “ouvia imenso”. Mas lá por meio dos anos 80, as coisas, entre os adolescentes, estavam muito barricadas: JP acha que havia “um grupo que cantava o Zeca Afonso”, um género de pessoas “que se vestia como amante da natureza”. Zeca era, conclui, “refém de um contexto partidário e estético”. Afonso tem a mesma impressão: “Nos anos 80 toda essa gente era vista como “cantores de esquerda”. Havia um preconceito, que não sei se haverá ainda hoje.” Simões: “As coisas estavam encaixotadas nos seus formalismos e como as posições políticas vêm de famílias, é provável que os de direita não o ouvissem – mas ele já ultrapassou esse bicórnio da política nacional.” Cristina Branco: “Houve quase um complexo em relação a tudo isso e uma necessidade de deixar passar sem explicar o que era o Zeca.”
E hoje? Mexia: “As pessoas da direita ideológica não vão à bola com ele.” Valete acha que os amigos não ouvem Zeca: “Vivo nos subúrbios, tenho amigos de segunda geração de imigrantes e tenho amigos brancos da minha idade, ouviram falar, mas poucos têm contacto com a discografia, tem muito pouca presença na juventude.”
O músico Kalaf, que reconhece que as pessoas que lhe estão próximas “não o ouvem de todo”, acredita que o esquecimento de Zeca se deve a “ter sido comunista, e saiu de moda ser comunista”. Kalaf, poeta e cantor que nasceu em Angola, chegou a Zeca “pela versão que os Tubarões fizeram do Venham mais cinco, com o Ildo Lobo a cantar. Tinha talvez uns 17 anos. Devia estar a chegar a Portugal.” “Ele fazia a ponte de Portugal para África, não deixando de ser músico português”, explica Kalaf. Sentiu-se “atraído pela poesia dele, pelos textos”.
Palavras: a Mexia interessa-lhe “a ligação com as cantigas de amigo, letras que podiam ser poemas medievais – a maneira como ele pegava naquilo tinha imensa força, e deu dignidade à cultura popular portuguesa”. Mais uma vez, José Miguel Silva tem opiniões similares: Zeca “não será um grande poeta”, mas “as letras dele têm uma grande força emotiva”.
Preconceitos
Simões vê nele um homem cuja qualidade principal é “o lirismo, no sentido mais amplo, no sentido de cantar o mundo com as suas cambiantes”. Afonso chama-lhe “cronista acutilante” e admira “a forma como ele fazia fintas à censura.” Cristina Branco também não sobrevaloriza a questão política: “Vejo-o como um observador da vida, uma pessoa extremamente simples.” Bernardo Soares, engenheiro, 33 anos, também fanático de Zeca, encontra na sua obra “uma forma de se ser português, uma condição que ali está, decantada, sintetizada, omnipresente, mas diluída numa outra condição eventualmente superior: a condição humana… E não se destrinça onde começa o Homem e acaba o Português ou vice-versa, com as contradições todas de uma e de outra coisa”.
Camané, fadista, 40 anos (também homem das esquerdas) acha que “houve algumas pessoas que tentaram ignorar a dimensão artística do Zeca por questões políticas”, o que não lhe parece correcto, porque “a dimensão artística é superior”. Mas o que afastava Mexia da música de Zeca era uma questão quase geracional: “Eu tinha um preconceito com a música portuguesa.” Curioso que também José Mário Silva tenha uma experiência similar à de Mexia: “Nessa altura, em que ele morreu, estava muito voltado para a música anglo-saxónica, ouvi-o depois.” Esse problema nunca existiu para Camané: lembra-se “perfeitamente” da morte de Zeca, “de falarem de todas as dificuldades que passou, da doença que ele teve, do último concerto no Coliseu; durante muito tempo falou-se muito desse concerto, foi muito emocionante e ele já não tocava muito tempo ao vivo, foi uma espécie de despedida”.
Mas não é preciso viver os acontecimentos para senti-los da mesma forma: Mariana Pereira tem 22 anos e está a acabar Economia no ISEG (Lisboa). Quando ouve o concerto do Coliseu ainda lhe vêm lágrimas aos olhos: “A minha mãe não quis ir porque sabia que ele ia falecer dentro de pouco tempo – tudo isso me transporta àquele tempo que não vivi.” Para ela Zeca “ainda é muito o 25 do Abril, as memórias que ouvia contar”. Lembra-se de ouvir o avô a cantá-lo. Mariana não conhece muitas pessoas com quem se passasse o mesmo. Diz que nunca falou com pessoas da sua geração sobre Zeca. “Senti-me muito diferente das outras pessoas da minha idade, talvez por esse enquadramento familiar.”
A confiar no testemunho dela, fará sentido a pergunta de Mexia: “Como é que Zeca irá sobreviver ao ocaso das ideias e da política?” Voltando ao fã Bernardo Soares e à sua ideia de portugalidade: “Quase 900 anos depois ainda cá andamos às cabeçadas a isto tudo. As canções do Zeca apontam outro caminho.”
Entre as pessoas que ouvimos, Cantigas do Maio é o disco mais destacado. Depois vêm Eu Vou Ser Como A Toupeira e Venham Mais Cinco e Traz Outro Amigo Também. No que toca a canções, as opiniões são mais variadas, mas duas ficam aqui registadas; entre uma e outra perfaz-se um arco que une morte e liberdade.
O engenheiro Bernardo Soares, fã de Zeca, relembra um tema do último disco de Zeca, Galinhas do mato: “É difícil conter a comoção quando, em Alegria Da Criação, Janita Salomé, substituindo o já debilitado Zeca, canta “de nada me arrependo/ só a vida/ me ensinou a cantar/ esta cantiga”, irrompendo de seguida as vozes do coro Cramol com toda a sua telúrica pujança. E a cantiga é uma e só uma, a de um voo picado sobre a condição humana.” Da morte para a liberdade, o testemunho de Victor Afonso, músico: “Houve uma música que me tocou particularmente, que é, passe o cliché, o Grândola – não é só a questão da referência política. Como estudante de música, se formos rigorosos, é uma composição que sintetiza toda a arte do Zeca: em termos de composição, arranjos, linha melódica, modulações, e repetitividade rítmica, é tão complexa e mesmo assim transporta uma tão grande carga emocional. É perfeita.”
Além de uma dupla compilação que reúne os 30 melhores temas de José Afonso, uma série de discos de homenagem estão a ser preparados. Cristina Branco vai transpor para disco o espectáculo no Teatro São Luiz. A formação traz arranjos que imprimem um tom quase blues (Outubro). O italiano David Zaccaria recria a obra de Zeca num disco (Abril), com Dulce Pontes e Uxía. A orquestra Drumming, com arranjos de Pinho Vargas, Laginha e Sassetti dará um espectáculo (25 de Abril) na Casa da Música. Se resultar, há disco. Os brasileiros Couple Coffee vão editar C”as tamanquinhas do Zeca (Março). Os Frei Fado d”El Rei lançam (Abril) um disco de versões, Senhor poeta.
Há mais de vinte homenagens a Zeca entre hoje e amanhã (lista completa na página da Associação José Afonso, www.aja.pt, ou em www.vejambem.blogspot.com). Destacamos três: hoje, no Entroncamento, no Cine-Teatro São João (21h30), João Afonso, o sobrinho, interpreta a obra do tio. Amanhã, em Coimbra, há (21h00) uma tertúlia na livraria Almedina Estádio, com músicos que o acompanharam (Rui Pato e Carlos Correia), músicos da época (Manuel Freire) e amigos (José Mesquita e Abílio Hernandez). No mesmo dia, em Guimarães, no Centro Vila Flor, concerto com José Mário Branco, João Afonso e Amélia Muge.
O artista português Alexandre Farto, que assina Vhils, voltou na semana passada à escola secundária onde estudou, no Seixal, para criar numa das paredes, com a ajuda de alunos daquele estabelecimento, um retrato do cantor Zeca Afonso
O convite para fazer uma intervenção no edifício partiu da escola, da professora Maria Dâmaso, que deu aulas a Alexandre Farto quando este frequentava a Secundária José Afonso, na área de Artes, mas a ideia de fazer o trabalho em conjunto com alunos partiu do artista, recordou o próprio em declarações à Lusa.
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Amigos e admiradores estiveram presentes na abertura da nova sede da Associação José Afonso, na Rua de São Bento.
José Afonso tem “nova casa” em Lisboa. E mesmo em frente ao Parlamento. Eram mais ou menos 16.00 quando, ontem, iam chegando ao n.º 170 da Rua de São Bento admiradores de um dos mais consagrados artistas da música de intervenção portuguesa.
Estavam ali para inaugurar a sede da Associação José Afonso (AJA) em Lisboa – a casa-mãe, digamos assim, é na Casa da Cultura de Setúbal -, num espaço patrocinado pelo município da capital. “A associação tem um núcleo grande em Lisboa e, por isso, achámos que fazia todo o sentido existir uma sede na capital do País, onde se possa repercutir a obra do Zeca”, explicou ao DN Vítor Sarmento, membro da AJA.
Fotografias, muitas fotografias do cantautor, dão as boas-vindas “a quem vier por bem”, como diria o próprio José Afonso. Entre os comes e bebes que animaram as conversas que se estenderam até perto das 22.00, houve tempo para folhear e – no caso de alguns – comprar livros sobre o compositor, recordar as músicas dos CD expostos ou envergar uma T-shirt com o rosto do artista.

Isaltina Padrão | Diário de Notícias
Fotografia © Natacha Cardoso/Global Imagens
50 anos de “Os Vampiros” de José Afonso em concerto
Hoje na Aula Magna, em Lisboa, músicos como Rui Pato, João Afonso, Manuel Freire ou Francisco Fanhais celebram Os Vampiros.
O cinquentenário da primeira edição de Os Vampiros, de José Afonso, é hoje assinalado em Lisboa com um espectáculo na Aula Magna, pelas 21h. Organizado pela Associação José Afonso (AJA) e pela Reitoria da Universidade, com o apoio do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa (SPGL), o concerto evocativo contará com a participação de músicos e cantores como Rui Pato, João Afonso, Luís Pastor, Manuel Freire, Francisco Fanhais, o Ensemble VOCT, Lourdes Guerra, Pedro Fragoso, Rogério Pires, Sérgio Caldeira, Pedro Syroh e o poeta José Fanha.
José Afonso (1929-1987) gravou Os Vampiros em Coimbra, no Mosteiro de S. Jorge de Milreu, acompanhado à viola por Rui Pato (que participa no concerto de hoje). A canção foi editada em 1963 num EP com etiqueta Discos Rapsódia, juntamente com outras três canções (Menino do bairro negro, Canção vai… e vem e As pombas) sob o título genérico Dr. José Afonso em Baladas de Coimbra.
Quatro anos depois do lançamento do disco, José Afonso escreveu no livro Cantares (ed. Nova Realidade, 1967) estas palavras para justificar a canção Os Vampiros: “Numa viagem que fiz a Coimbra apercebi-me da inutilidade de se cantar o cor-de-rosa e o bonitinho (…). Se lhe déssemos uma certa dignidade e lhe atribuíssemos, pela urgência dos temas tratados, um mínimo de valor educativo, conseguiríamos talvez fabricar um novo tipo de canção cuja actualidade poderia repercutir-se no espírito narcotizado do público, molestando-lhe a consciência adormecida em vez de o distrair. Foi essa a intenção que orientou a génese de Vampiros”.
O que o inspirou? “A fauna hiper-nutrida de alguns parasitas do sangue alheio serviu de bode expiatório. Descarreguei a bílis e fiz uma canção para servir de pasto às aranhas e às moscas. Casualmente acabou-se-me o dinheiro e fiquei em Pombal com um amigo chamado Pité. A noite apanhou-nos desprevenidos e enregelados num pinhal que me lembrou o do rei e outros ambientes brr herdados do Velho Testamento.”
Senha de Abril só regressou para quem a esqueceu
Na manifestação de hoje vai voltar a ouvir-se “Grândola Vila Morena”. A TSF conversou com Zélia Afonso e com o presidente da Associação José Afonso, que sublinham que é preciso lutar.
Zélia Afonso não tem dúvidas e defende que é necessário «combater o que nos está a acontecer e se for com a “Grândola Vila Morena” acho que pode ser uma voz de luta e de protesto».
A viúva de Zeca Afonso lembra que a música não nasceu para ser hino de luta, mas não considera «desajustado» o uso de “Grândola Vila Morena” nas manifestações.
Zélia Afonso diz ainda à TSF que «gostaria que ele [Zeca Afonso] estivesse presente. Sou capaz de imaginar, mas não quero pronunciar-me sobre isso, acho que não é honesto».
O presidente da Associação José Afonso, Francisco Fanhais, que gravou o original com o músico, diz à TSF que só pode lamentar que «nos queiram quebrar o sonho e condenar à tristeza».
Francisco Fanhais destaca a necessidade de lutar e manifesta «um apoio incondicional a esta manifestação popular, que ultrapassa as convocatórias dos partidos e das sindicais».
Quanto ao facto da música “Grândola Vila Morena” ser, nos últimos tempos, a canção escolhida para diversos protestos, o presidente da Associação José Afonso sublinha que este «só pode ser um regresso para aqueles que ao longo todos estes anos esqueceram que a fraternidade tem de se construir todos os dias».

Grândola, a caminhada de um poema
A Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, na continuação dos festejos do seu 52.º aniversário, promove “um espectáculo de fino gosto musical com que deliciará o público”. Na primeira parte, o guitarrista Carlos Paredes, acompanhado à viola por Fernando Alvim, e não, como anunciado no cartaz, pelo ciclista Júlio Abreu. Depois dele, o “Dr. Zeca Afonso”, descrito como um “inovador” com “belas e estranhas baladas”.
Era impossível sabê-lo então, mas aquele concerto em Grândola foi uma data marcante para José Afonso. Foi ali que conheceu Carlos Paredes e se impressionou com o seu talento. E foi o contacto com a colectividade e o convívio com os grandolenses que o inspiraram a escrever um poema de homenagem à cidade. Quatro dias depois do concerto, remeteu-o a um dos dirigentes da colectividade. Tratava-se, como não será difícil de adivinhar, de Grândola, Vila Morena.
Passos no saibro do castelo
Sete anos depois, o poema vagueava pela Normandia, um entre os que seriam seleccionados para o novo álbum de José Afonso. No Strawberry Studio, montado num castelo em Herouville e por onde tinham passado os Pink Floyd e os Rolling Stones, José Afonso, que contava pela primeira vez com a direcção musical de José Mário Branco, gravava Cantigas do Maio.
Disco maior na história da música portuguesa, abrindo-a a novas influências e nova instrumentação, teve no seu centro uma canção despojada a nada mais que vozes e ritmo marcado por passos arrastados.
Grândola, Vila Morena, que desde 1964 tinha perdido uma estrofe (“Capital da cortesia / Não se teme de oferecer / Quem for a Grândola um dia / Muita coisa há-de trazer”) e ganho outra (“À sombra de uma azinheira / Que já não sabia a idade / Jurei ter por companheira / Grândola, a tua vontade”), transpôs para som a homenagem do poema.
Como descrito no livro José Afonso – O Rosto da Utopia, de José A. Salvador, José Mário Branco sugeriu que fosse cantada à moda dos coros masculinos alentejanos, com cada quadra repetida por ordem inversa dos versos. Como acompanhamento, o som de pés arrastando-se pelo chão, aquele que os membros dos coros produziam no balanço que lhes marca o cantar.
Eis então, numa madrugada de Outubro de 1971, José Afonso, José Mário Branco, o guitarrista Carlos Correia (Bóris), Francisco Fanhais e restante equipa, “armados” com oito microfones, caminhando sobre o saibro que rodeava o castelo.
O poema tornava-se canção e, três anos depois, a canção tornava-se senha. Os passos gravados num castelo francês já eram outra coisa. A marcha dos militares no dia 25 de Abril.
A letra
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade
Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade
Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Texto publicado na edição impressa de 25 de Abril de 2010
Mário Lopes | Público
A Associação José Afonso, criada para preservar o legado musical e cívico do autor de “Grândola, Vila Morena”, anunciou hoje que apoia a manifestação ‘Que se Lixe a Troika’, convocada para o próximo 02 de março em várias cidades.
“A Associação José Afonso vem por este meio declarar o seu apoio às iniciativas populares previstas para o próximo dia 02 de Março, sob o lema ‘Que se Lixe a Troika! O Povo é Quem mais Ordena!’”, refere um comunicado hoje divulgado por aquela associação, que comemorou 25 anos em 2012.
O movimento “Que se lixe a Troika”, que convocou a manifestação de 15 de setembro do ano passado, vai realizar este novo protesto em várias cidades do país e no estrangeiro, para contestar as medidas de austeridade do Governo.
“Porque não queremos que o presente dos cidadãos seja condicionado à inevitabilidade do sofrimento, porque não queremos um futuro condenado à tristeza, porque defendemos os sonhos contra a morte, porque lutamos pelo direito à vida contra a simples sobrevivência, porque queremos a terra da fraternidade, estaremos na rua no próximo 02 de Março”, pode ler-se na nota hoje divulgada pela Associação José Afonso.
O tema “Grândola Vila Morena”, que José Afonso, mais conhecido por Zeca Afonso, gravou em França em 1971, voltou a ser falado nas últimas semanas.
Tudo começou no passado 15 de fevereiro, dia em que o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, foi interrompido quando intervinha no debate quinzenal na Assembleia da República por um grupo de pessoas que entoou a canção, que integra o álbum “Cantigas do Maio”, lançado em 1971.
Três dias depois, foi a vez de, ser interrompido, quando discursava no Clube dos Pensadores no Porto, por protestos de cerca de duas dezenas de pessoas que cantaram “Grândola Vila Morena” e exigiram a sua demissão.
Entretanto, a canção, que foi uma das senhas da revolução do 25 de Abril de 1974, já foi utilizada em protestos contra o ministro-adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, e contra o ministro da Saúde, Paulo Macedo.
A manifestação de 02 de março foi convocada para cidades portuguesas – como Lisboa, Porto, Aveiro, Caldas da Rainha, Faro, Horta e Guarda – e estrangeiras – como Londres, Reino Unido, e Boston, Estados Unidos da América (EUA).
*Este artigo foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico aplicado pela agência Lusa
Festival José Afonso reúne artistas da cidade e do panorama nacional
Cuca Roseta, Cristina Branco, Vitorino e Janita Salomé são algumas das presenças do Festival José Afonso, que a Câmara de Coimbra promove de quinta-feira a sábado, após cinco anos de interrupção.
“Foi aqui que José Afonso nasceu para a música e a poesia”, realçou hoje à agência Lusa a vice-presidente Maria José Azevedo Santos, que detém o pelouro da Cultura da autarquia de Coimbra.
José Afonso representa “este cariz absolutamente singular e único de Coimbra no panorama ibérico”, acrescentou.
“Esta figura ímpar da cultura portuguesa não necessita de pretextos para ser lembrada, celebrada ou recriada, todavia, o ano que corre está intimamente associado ao 25º. aniversário do seu falecimento”, segundo Maria José Azevedo Santos.
A autarca salienta ter cabido a Coimbra “o privilégio de ter recebido” José Afonso “ainda muito jovem, o que permitiu moldar-lhe o paradigma de um pensamento marcado por uma cultura vasta, uma inteligência irrequieta, um poder criativo, fecundo, enfim, uma paixão pela palavra escrita, cantada ou falada, tudo sem limites”.
No primeiro dia do festival de música, na quinta-feira, “jovens músicos de Coimbra recriam José Afonso no Centro Cultural D. Dinis”.
Neste espaço dos Serviços de Ação Social da Universidade de Coimbra (UC), na Alta da cidade, vão atuar, a partir das 21:30, a Banda BioPsia, o Grupo de Cordas Castiças do Centro Cultural, Desportivo e Social de S. Frutuoso, o Coro Misto da UC, João Queirós e Rui Damasceno (poesia).
Na sexta-feira, à mesma hora, o grupo Cordis realiza um concerto com vários convidados, no auditório do Conservatório de Música de Coimbra, na base do “diálogo entre o piano e a guitarra portuguesa”.
Constituído por Paulo Figueiredo (piano) e Bruno Costa (guitarra), o duo vai atuar com Luís Formiga, Luís Oliveira, João Gentil, Vasco Alves, Edjam, Nuno Silva e o Quarteto de Cordas da Orquestra Clássica do Centro, além das vozes de Ana Sofia Varela, Sofia Vitória e Cuca Roseta, cabendo a coreografia a Paula Fidalgo.
O concerto de encerramento, no sábado, no Teatro Académico de Gil Vicente, é da responsabilidade do Coro dos Antigos Orfeonistas da Universidade de Coimbra, com a participação de mais convidados.
Passarão pelo palco, a partir das 21:30, Octávio Sérgio, Rui Pato, Durval Moreirinhas, Lopes de Almeida, Ricardo Dias, Mário Delgado, Alexandre Frazão, Bernardo Moreira, Janita Salomé, Vitorino Salomé e Cristina Branco.
Agência Lusa

Diário de Coimbra | 11.9.2012
Imagem retirada daqui
Foi na cidade do Sado, canção que Zeca Afonso dedicou a Setúbal, cidade e concelho onde viveu vários anos.
É a cidade do Sado, que a Associação José Afonso (AJA) elegeu para sua sede nacional, e é, a mesma cidade do Sado, a cidade de Setúbal, que agora reconhece o valor desta instituição cultural, atribuindo-lhe a Medalha de Honra da Cidade na área do associativismo.
Fundada em 1987, a AJA, entre outras valências, dedica-se à divulgação dos ideais preconizados pelo cantor José Afonso, que se descrevia, a si próprio, como cantor, poeta e andarilho.
A atribuição de medalhas tem por objetivo assinalar o trabalho desenvolvido em prol do desenvolvimento e/ou da notoriedade da cidade de Setúbal. A AJA, sendo uma estrutura de âmbito nacional, com parcerias internacionais e com núcleos organizados de norte a sul do país, dinamiza a sua ação centrada em Setúbal e vê assim reconhecida a atividade que tem desenvolvido, e o seu papel na história local.
Esta distinção será feita à AJA e a outras instituições e figuras sadinas no feriado municipal, dia 15 de setembro, numa cerimónia solene, a realizar no salão nobre da Câmara Municipal de Setúbal.
José Afonso e a pluralidade dos saberes musicais: discursos e lugares comuns eurocêntricos
“Saber música” é uma frase corrente nos discursos quotidianos mas envolve muito maior complexidade do que parece à primeira vista. Em primeiro lugar porque música, no singular, é uma coisa que não existe: há múltiplas práticas musicais, muitas músicas diferentes, com diferentes modos de aprendizagem e modos de inserção social. Sempre houve, mas a primazia da cultura ocidental na construção do nosso imaginário falsamente universalista impediu-nos de considerar a pluralidade das expressões e das práticas musicais do resto do mundo até há um século. As “Histórias da Música” publicadas até 1950 e mesmo depois, ostentavam esta designação e a leitura desse livros mostrava-nos que aquele termo designava apenas a história de música ocidental da tradição erudita europeia. Aqui radica a primeira forma do eurocentrismo enraizado nos discursos sobre música nos países ocidentais. Destas histórias ficavam de fora todas as outras músicas pertencentes às outras civilizações do mundo, pertencentes a outras culturas musicais, diferentes da música europeia, que se caracteriza antes de mais nada pelo uso da escrita desde o ano 1000, da notação musical que aqui teve um desenvolvimento extraordinário mas particular. Justamente sublinhando a importância decisiva nessa tradição musical da notação, Richard Taruskin usa, na sua Oxford History of Western Music de 2003, o termo “literate” para distinguir o seu traço fundamental.
Mas não foi apenas o não-ocidental que foi apagado destas narrativas. Na própria Europa e em simultâneo com a história da música escrita, ligada quase sempre às elites culturais e sociais, sempre existiu uma outra música de tradição oral, tanto rural, de raízes ancestrais, como, a partir de certa altura urbana. Estas tradições orais da Europa e do resto do mundo tiveram uma evolução lenta, sendo transmitidas de geração em geração pela via da aprendizagem pela via da transmissão oral e da memória.
Estas músicas “sem história”, por inexistência de suporte de sobrevivência material, não foi considerada nas narrativas senão sob a designação de “música popular”, uma espécie de Outro inferior, no interior das próprias sociedades europeias. É apenas no século XIX e XX que surge um estudo e recolha sistemática destas tradições orais dos diversos países, quase sempre rurais, associado aos chamados nacionalismos musicais, formas peculiares de encontrar motivos e temática diversa daquela entretanto tornada canónica, dominada em larga medida pela música alemã, como, aliás, ainda hoje se verifica.
Estes factos são conhecidos mas continuam relativamente negligenciados, mesmo nas escolas de música, de tal forma estas se restringiram durante pelo menos 200 anos ao estudo da “música clássica”, designação errada, mas cujo erro passou para a linguagem corrente da mesma forma que uma série de equívocos associados ao domínio eurocêntrico do mundo, até à segunda metade do século XX. Essa dominação verificou-se não apenas no domínio político e militar de vastas regiões como no próprio plano epistemológico. O saber ocidental via-se como o único “avançado” e vê-se ainda a si próprio como superior face a outros saberes. A disciplina universitária musicologia, criada na Alemanha no século XIX, destinava-se ao estudo da música europeia mas, já mais tarde, foi necessário criar outra disciplina, a etnomusicologia, para estudar a música dos diversos Outros. O europeu via-se a si próprio como não tendo etnia. Esta era apenas a dos outros. Este quadro epistemológico marca ainda hoje as disputas pela primazia dos saberes e o diálogo entre eles é uma das tarefas fulcrais da fase atual, a partir da assunção crítica de que nem só o saber técnico-científico, nem a visão da alta cultura ocidentais são válidos. Mas esta hegemonia resiste e persiste sob numerosas formas. Daí que surja nos discursos correntes a expressão “saber música” como algo exclusivamente referido a uma outra coisa: “saber ler música escrita”. Saber música é muito mais do que apenas isso. Caso contrário teríamos de considerar que a maior parte das práticas musicais realmente existentes no mundo seriam realizadas por pessoas que “não sabem uma nota de música”. O século XX alterou todas as ontologias da música ao obrigar a considerar tudo aquilo que antes tinha sido excluído das narrativas eurocêntricas, fundamentalmente escritas a partir do século XIX na Europa. A invenção da gravação deu a estas músicas existentes para além do seu suporte escrito outro tipo de suporte tecnológico – a gravação – que demonstrou não apenas a sua existência mas assegurou a sua perenidade, anteriormente dependente quase em exclusivo do suporte da “notação musical”.
A partir dessa transformação tecnológica assistiu-se durante todo o século passado a uma multiplicação de expressões musicais, a um aparecimento de numerosos géneros novos que agregaram de formas inusitadas algumas destas tradições e as prolongaram até hoje de tal modo que se torna apropriado falar de uma tribalização plural de muitas expressões musicais a par com a dominação global dos produtos da indústria cultural anglo-americana pop-rock. A crise da chamada música clássica, que tem preocupado vários autores sobretudo nos países de língua inglesa, não pode ser dissociada destas transformações. A ideia base destas preocupações é o progressivo deslocamento da tradição erudita para “as margens ilustres da atividade cultural”. A sua anterior hegemonia, baseada na existência da partitura como único suporte de sobrevivência histórica é ameaçada pela existência do disco e da sua crescente importância no lugar da música nas nossas sociedades, inclusivamente na própria área da “música clássica” na qual a existência de gravações passou a ser o veículo primeiro de afirmação e disseminação dos artistas tanto os que se dedicam ao repertório histórico, a grande maioria, como os que se dedicam à criação de novas obras.
É por isso que afirmar que José Afonso “não sabia uma nota de música” traduz, de forma clara, uma incompreensão das múltiplas formas dos saberes musicais, muito vastos e variados, incomensuráveis, e uma aceitação acrítica dos discursos e dos lugares comuns eurocêntricos que ainda existem fortemente enraizados. José Afonso sabia aquilo que precisava de saber e quando queria colaboradores já com uma formação compósita entre as tradições orais e escritas, coexistentes, arranjou-os. O seu instrumento principal era a voz inesquecível e a extraordinária invenção musical e poética.
António Pinho Vargas
Artigo publicado no Le Monde Diplomatique, edição portuguesa, nº 68, Junho 2012
Que se esqueça o ícone, aceita-se. Mas não esqueçam a música, a inacreditável habilidade de usar a voz como instrumento, de brincar com as palavras, de trabalhar o ritmo.
No início da década de 1960 José Afonso começa a libertar-se do fado de Coimbra, de que tinha sido intérprete, criando canções em que a guitarrra portuguesa não tinha lugar. Trabalhou a balada numa série de singles e a canção política, como é notório em “Os Vampiros”. Mas só em 1968, com “Cantares do Andarilho”, conseguiu fazer um LP em que explorasse do princípio ao fim a demanda de afundar na tradição e vir à tona com nova música na boca. Ouvindo hoje o disco é difícil aos mais novos identificar nele qualquer ideia de ruptura. Para nos apercebermos da cisão que Zeca traça aqui com o passado é vital recordar que até então a música portuguesa era dominada pelo fado e pelo nacional-cançonetismo – e que o folclore, sendo ocasionalmente gravado e bastante ouvido pelo povo, carecia de exposição e legitimação. “Cantares do Andarilho” é acima de tudo um disco de baladas mas, por exemplo, em “Saudadinha”, que (pasme-se) é resgatado da tradição açoreana, ainda há marcas da da anterior incursão de Zeca pelo fado, seja no ataque de Rui Pato à viola, na projecção da voz e nas pausas na linha melódica. O brilhantismo de Zeca chega logo ao primeiro tema, “Natal dos Simples”: há uma perfeição tímbrica admirável, um ligeiro falsete no fim de cada frase, controladíssimo, qualidades postas ao serviço de uma melodia inventiva, quase infantil na sua capacidade de brincar com as sílabas e o ritmo. Onde é que Zeca foi buscar isto? Ouça-se o primeiro tema tradicional do disco, “Resineiro engraçado”: do registo melódico quase pueril, ao ritmo saltitão passando pelo uso de vocábulos inesperados (“ó i ó ai”), está lá muita coisa. Mas isto não explica “Canção de Embalar” (cujo título denuncia a raiz de uma parte desta música) ou “Vejam Bem” – dois temas extraordinários em que a voz de Zeca adquire uma tonalidade assombrada, uma tristeza infinda que regressaria, vez após vez, aos seus discos.
“Contos Velhos Rumos Novos” (1969) tem título ajustado, pois Zeca não quis repetir as ideias que lhe haviam ocupado os anos anteriores. O trabalho com as palavras torna-se ainda mais aprofundado, o que explica em parte o menor número de temas com música e letra originais: “Bailia” parte de uma trova do século XIII, “No Vale de Fuenteovejuna” usa palavras de Lope de Vega (um dos fascínios de Zeca, que sempre se interessou pela cultura espanhola) e ainda há, além dos temas populares, letras de Luís de Andrade (a arrasadora “Era de noite e levaram”) e Ary dos Santos (“A cidade”). Em algumas das faixas compostas por Zeca vê-se para onde a escrita dele estava a ir, em particular no maior peso rítmico de “Vai, Maria, vai” e “Era de noite e levaram”. Logo no tema de abertura, “Bailia”, a trompa concede maior riqueza rítmica. Em outras faixas existe ainda cavaquinho, harmónica (pungente e perfeita em “A Cidade”) e as marimbas que (e talvez seja arriscado dizer isto) africanizam “Já o tempo se habitua”.
Quando José Afonso chega a “Traz Outro Amigo Também” (1970) é um compositor feito – e a prová-lo está a altíssima percentgem de temas exclusivamente seus no disco. Ocasionalmente ainda se sentem as marcas do passado fadista (ouça-se “Maria Faia”), mas o seu talento para manipular a tradição aprimorara-se, como é visível na espantosa “Canto Moço”. Na faixa homónima ao disco Zeca produzia uma balada dulcíssima; em “Carta a Miguel Djé-Djé” fazia uma homenagem a um seu antigo empregado dos tempos de África e são claras as influências africanas no canto. A sua revolta interior é traduzida em dois temas tristíssimos, rasgados por dentro, como “Epígafre para a arte de roubar” e “Moda do Entrudo”. Em “Os Eunucos” volta a criar um libelo político duríssimo. Perante tudo isto não é difícil concluir a imensa variedade musical e lírica de que Zeca já era capaz.
Zeca tem então condições para fazer um disco com Zé Mário Branco como produtor, e uma cada vez maior amplitude instrumental: “Cantigas do Maio” (1971). Logo em “Senhor Arcanjo” percebe-se que África estava para durar na obra de Zeca: as percussões, o baixo a rolar a guitarra repetitiva, isto quase lembra o Caetano de “Transa”. “Ronda das Mafarricas” está em ligação directa com esse som e África surge igualmente em “Maio, maduro, Maio” – não de forma explícita, mas no uso lúdico dos vocábulos a seguir ao refrão, uma ideia que encaixa de forma gloriosa no tom pastoral do tema. Agora ouça-se o tema que dá nome ao disco: como é possível passar de “Senhor Arcanjo” para esta tristeza trespassada pela morte, como? Podiam escrever-se tratados sobre “Cantigas do Maio”, a canção: sobre a figura (de acordeão?) que abre o tema e instala logo um negrume infindo; sobre o modo como o mesmo acordeão cavalga no refrão e a tristeza torna-se rebuliço, tumulto interior; sobre esse medo de morrer que não arreda de nenhum compasso. “Cantigas do Maio” é um disco tão extraordinário que por vezes há quem esqueça temas como “Canto alentejano”, entalado entre “Milho verde” e a sequência “Grândola, vila morena” e “Maio, maduro, Maio”. Mas ouçam o cuidadíssimo trabalho de viola e a voz de Zeca, as suas subidas arrepiantes, a forma como segura uma nota lá em cima em vibrato. Isto é a técnica (ainda com resquícios de fado), o talento, aos serviço da emoção. Quase dói pensar que a seguir vem aquele coro de “Grândola, vila morena”, capaz, ainda hoje, mesmo sem pensar em política, de arrasar o mais cínico. Que depois de tudo isto o disco ainda feche com uma canção da grandeza de “Coro da Primavera” – quase nem parece deste mundo. Os sopros têm uma dimensão teatral mas as percussões introduzem uma leve nuance africana; depois o refrão namora com o cante mas o órgão parece saído do psicadelismo. Se quiserem, essa canção serve como símbolo de como Zeca não era redutível à imensa música que tinha ouvido e amado.
Terceira obra-prima seguida, “Eu Vou Ser Como a Toupeira” (1972) abre com “A morte saiu à rua”, cujo arranjo de sopros ecoa as aventuras do tropicalismo. Mas o tema assenta em voz, viola e percussões e é impressionante o balanço que estes três instrumentos alcançam – um balanço igualmente presente em “Sete fadas me fadaram”. O carácter político de “A morte saiu à rua” retorna no experimentalismo de “O avô cavernoso” (que tem ligações musicais com “Ó Ti Alves”), na viola de traços africanados de “No comboio descendente” e em “Eu vou ser como a toupeira”, feita de um adufe e voz. Já o lado mais doce de Zeca está presente em “Fui à beira-mar” e em “Ó minha amora madura”. O seu ludismo é notório na brincadeira achinesada de “É para Urga”.
Por esta altura era notório que Zeca conseguia fazer uma canção com qualquer coisa. Ou, mais propriamente, com tudo. Já não havia definição para a sua música, já não recorria a géneros musicais, já tinha inventado um mundo. Que se esqueça o ícone, aceita-se. Mas não esqueçam a música, a inacreditável habilidade de usar a voz como instrumento, de brincar com as palavras, de trabalhar o ritmo. Porque Zeca era, de facto, um caso único de sobredose de talento.
JOSÉ AFONSO é um ícone, um símbolo da liberdade. Mas quando passou a património político, a sua música foi quase esquecida. Com as reedições dos discos que gravou para a Orfeu prostramo-nos perante o génio musical de um homem que era incapaz de tocar um instrumento. Um homem ferido desde a infância, que se esforçava por ser justo, sofria de insónias e que, com ou sem dinheiro, perseguido ou não, sonhava dia e noite com música – toda a música, da Beira Baixa a Moçambique. João Bonifácio foi à procura de José Afonso: o dos discos e o humano. Não a estátua.
O 40.º aniversário da primeira interpretação pública de “Gândola, vila morena”, por José Afonso, é assinalado na quinta-feira, em Santiago de Compostela, na Galiza, Espanha, numa iniciativa de homenagem ao “cantautor” português.
O tema cantado por Zeca no Burgo das Nações, em Santiago de Compostela, a 10 de maio de 1972, será agora levado ao Auditório da Galiza, na mesma cidade, por um grupo de músicos que se junta para homenagear o autor e cantor português, falecido em Setúbal há 25 anos.
O músico João Afonso, as cantoras galegas Uxía e Ugia Pedreira, a angolana Aline Frazão, o ator e encenador galego Quico Cadaval e o compositor brasileiro Fred Martins integram o cartaz do espetáculo.
A associação de percussão de Santiago de Compostela Trópico de Grelos, o etnomusicólogo galego Xico de Cariño, a cantora galega Guadi Galego, o cantor Tiago Gomes, voz do grupo Os Inspectores e letrista de A Naifa, são outros dos músicos que se associaram ao espetáculo que assinala a primeira vez que a canção foi interpretada em público, por Zeca Afonso, na primeira digressão do músico português pela Galiza, que passou então por Ourense, Lugo e Santiago de Compostela.
Trinta é o número total de músicos e compositores que se associaram à iniciativa integrada no festival “Terra da Fraternidade – Galiza a Zeca Afonso”, a decorrer em Santiago de Compostela.
O espetáculo conta ainda com a participação do ator e humorista galego Carlos Blanco, do ator, dramaturgo e fundador do Trigo Lilmpo/Acert José Rui Martins, do argumentista e diretor de cinema Pablo Portero, da companhia de teatro Chevère e da companhia galega de palhaços “Os sete magníficos más 1”.
Num testemunho sobre a primeira digressão de José Afonso à Galiza, o músico Artur Reguera, que acompanhou o compositor português naquela ronda, recorda a primeira vez que José Afonso cantou em público a canção que, dois anos mais tarde, se tornaria a senha do Movimento das Forças Armadas (MFA), na Revolução do 25 de Abril de 1974.
“Grândola, vila morena” integra o álbum “Cantigas do Maio”, gravado em França, em finais de 1971, com arranjos de José Mário Branco.
Inspirada em pessoas que José Afonso conhecera na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, encerrada pela PIDE, a polícia política do regime, a canção viria a ser interpretada em Portugal apenas a 29 de março de 1974, num espetáculo no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, ao qual assistiram militares das Forças Armadas que, por isso, a escolheram para segunda senha da “Revolução dos cravos”.
“Grândola, vila morena” foi transmitida às 00:20 de 25 de Abril de 1974, no programa Limite, da Rádio Renascença, como sinal de saída dos militares dos quartéis, cerca de hora e meia após a emissão da primeira senha da Revolução, “E depois do adeus”, ouvida às 22:55 de 24 de abril, nos Emissores Associados de Lisboa.
O festival “Terra da Fraternidade – Galiza a Zeca Afonso” começou na segunda-feira, no Burgo das Nações, e termina na sexta-feira com a realização de uma mesa redonda sobre “O génio de Zeca”, na qual participa o cantor português e presidente da Associação José Afonso, Francisco Fanhais, com músicos galegos que trabalharam com o “cantautor” português.
Agência Lusa
Os onze álbuns do cantautor português José Afonso começam a ser reeditados a partir de segunda-feira com o lançamento de “Cantares de Andarilho” (1968) e “Contos velhos, rumos novos” (1969), os dois primeiros registos do músico.
A editora Orfeu vai reeditar, ao longo dos próximos doze meses, todos os álbuns de José Afonso publicados entre 1968 e 1981, assinalando desta forma os 25 anos da morte do compositor.
Os onze álbuns foram restaurados e remasterizados digitalmente, pelo engenheiro de som António Pinheiro da Silva, e a edição conta com novos textos que contextualizam o momento em que foram feitos no percurso de José Afonso.
Antes de gravar “Cantares de Andarilho”, em Lisboa, José Afonso gravou vários EP de baladas em Coimbra, onde estudou e se tornou num dos nomes da canção da cidade, viveu e deu aulas em Moçambique, país na altura em convulsão e onde disse ter vivido o “batismo político”.
Sem recorrer à guitarra portuguesa, e sem formação musical, José Afonso gravou “Cantares de Andarilho” com a colaboração do guitarrista Rui Pato, que o acompanharia também em várias atuações ao vivo.
O álbum, que inclui um texto de apresentação do escritor Urbano Tavares Rodrigues, tem no alinhamento temas como “Natal dos Simples”, “Canção de embalar”, “Senhora do Almortão” e “Vejam bem”, pensado originalmente para concorrer ao festival da canção de 1967.
Como o contrato com a Orfeu e com o editor Arnaldo Trindade estipulava a edição de um disco novo por ano, José Afonso editou em 1969 “Contos velhos, rumos novos”, o álbum em que se denota a influência de África e da tradição popular portuguesa.
Com Rui Pato à viola, José Afonso, então com 40 anos, acrescentou outros instrumentos, como o bombo e a harmónica, ampliando a riqueza musical das canções.
Do álbum fazem parte “Bailia”, “S. Macaio”, “Qualquer dia” e “A cidade”, canção feita com José Carlos Ary dos Santos.
De acordo com o plano editorial da Orfeu, na segunda quinzena de maio sairão “Traz outro amigo também” (1970), “Cantigas do Maio” (1971) e “Eu vou ser como a toupeira” (1972).
Durante o mês de outubro está previsto o lançamento de “Venham mais cinco” (1973), “Coro dos tribunais” (1974) e “Com as minhas tamanquinhas” (1976).
Entre março e abril de 2013, serão editados os últimos três álbuns: “Enquanto há força” (1978), “Fura fura” (1979) e “Fados de Coimbra” (1981).
José Afonso morreu a 23 de fevereiro de 1987, aos 57 anos, vítima de esclerose lateral amiotrófica.
PROGRAMA:
27 de Setembro – Centro Cultural D. Dinis
Banda Biópsia
Grupo de Cordas Castiças do Centro Cultural, Desportivo e Social de S. Frutuoso
Coro Misto da Universidade de Coimbra
João Queirós | Guitarra e Voz
Rui Damasceno | Poesia
28 de Setembro – Auditório do Conservatório de Música de Coimbra
Cordis e Convidados
Luís Formiga | Bateria
Luís Oliveira | Contrabaixo
João Gentil | Acordeão
Vasco Alves | Violoncelo
Edjam | Saxofone e Flautas
Nuno Silva | Voz
Quarteto de Cordas da Orquestra Clássica do Centro
Ana Varela | Voz
Sofia Vitória | Voz
Cuca Roseta | Voz
Paula Fidalgo | Coreografia
29 de Setembro – Teatro Académico Gil Vicente
Antigos Orfeonistas de Coimbra e Convidados
Octávio Sérgio | Guitarra Portuguesa
Rui Pato | Guitarra
Vitorino | Voz
Janita Salomé | Voz
À excepção da primeira noite que será de entrada gratuita, as duas seguintes, 28 e 29, serão sujeitas a entrada de 2.50€ para estudantes e 5€ para o restante público.
Arnaldo Trindade.“O Zeca era um ‘charmeur’ com um humor extraodinário”
Em 1968, contra tudo e todos, o criador da editora Orfeu arriscou editar “um génio sensacional”. José Afonso morreu há 25 anos
Na efervescência da Invicta, um jovem Arnaldo Trindade, grande coleccionador de discos, associou à importação da marca de electrodomésticos Philco a edição discográfica própria, depois de o pai ter criado uma editora que lançava discos da Polydor. Da etiqueta Orfeu sairiam muito mais que mitos, com a edição fonográfica assente na vertente comercial e divulgação artística. Dos anos 40 para finais de 60, quando a editora da Rua da Santa Catarina arriscou engrossar o catálogo da “música de tema” com um cantor “nervoso”, que à falta da caixa de calmantes só gravou “Cantigas do Maio” graças a um truque do judo.
Como começou a sua relação com o José Afonso?
Na altura ele tinha acabado de fazer o EP com os “Vampiros” [1963], que foi o primeiro disco dele proibido. Passado uns tempos fez outra obra, o “Cantares de Andarilho”, e nenhuma editora quis gravar, por receio de o proibirem. Chegaram à minha firma através do Rui Pato, que tocava e produzia. O disco era uma maravilha.
Não teve receio de avançar?
Era um jovem e achava que se deviam fazer as coisas. Tive uma educação nos EUA, tinha a ideia do que era a liberdade, de toda a gente ter uma voz, mesmo que as ideias fossem contrárias. Não comungava totalmente com as ideias do José Afonso. Claro que também não era a favor da situação vigente. Sempre fui um social democrata. Como o José Afonso, era adepto de um mundo melhor. Aceitei gravar o álbum, contra tudo. Era tão bom que não devia ficar encalhado. Ele foi logo passar uns dias ao Porto. Era uma pessoa extraordinária, de um grande charme. Contra tudo o que possam dizer hoje, o José Afonso era um “charmeur”.
Apesar de dizerem que não tinha um feitio sempre fácil?
Tinha um feitio um bocadinho complicado, mas quando tinha um interlocutor como eu, também com um feitio complicado, era mais fácil. Gostávamos ambos de boas músicas e ele vinha de uma classe social alta, era filho de juízes. Tinha berço, educação, muito bons termos e um humor extraordinário. Disse-lhe para fazermos um contrato a sério. Ele na altura não tinha meios de sobrevivência. Tinha sido expulso da escola em que ensinava.
Estamos a falar de 1968, depois do álbum “Baladas e Canções”?
Exactamente. Esse, de 1964, não é nosso. Era inócuo, podia-se gravar porque eram só baladas. Depois com o “Andarilho” é que começou a mexer com tudo. Criei um sistema engraçado que já tinha com o Adriano Correia de Oliveira, que foi uma das pessoas que insistiu muito para fazer contrato com o Zeca.
É verdade que foi um contrato olhos nos olhos, sem papéis?
Sim, mas depois foi escrito. Eu dava um x ao Zeca, que na altura já era bastante. O José Niza, que também entrou na nossa firma, muito amigo do Zeca e do Adriano, tinha a obrigação de me trazer cantores novos. Trouxeram o Fausto, o Sérgio Godinho, o Padre Fanhais. Dessa época, só não gravei o José Mário Branco. Fez um pedido muito elevado nas condições, superior ao do Zeca, e considerei que não dava.
Quanto ganhava o José Afonso?
Era o equivalente a poder comprar três automóveis novos por ano. Quem fez esse cálculo foi o José Niza, que estava a fazer a minha biografia quando morreu.
Recorda-se de episódios durante a gravação do “Cantares de Andarilho”?
Já o tinham gravado, mas profissionalmente fomos ao Monte da Virgem, no estúdio da RTP. O Zeca era uma pessoa muito nervosa e levava sempre uma caixa de comprimidos para os nervos. Só que tinha-se esquecido da caixa. Dizia que não ia gravar. O Adriano disse-lhe para ele tirar os sapatos e começou a dar-lhe uns toques de judoca nas palmas dos pés.
Funcionou?
Ficou bom e lá gravou. O Zeca era uma pessoa muito engraçada. Era obrigação dele, e de outros contratados, vir ao Porto uma vez por mês. Deviam gravar um disco por ano para poderem receber x, e depois, claro, eram pagos pelas gravações, direitos de autor, etc.
Cumpria a visita mensal?
O Zeca nunca me falhou em nada. Era um profissional autêntico.
Conviviam fora do trabalho?
Éramos amigos. A primeira coisa que ele me ofereceu foi o “Cem anos de Solidão”, do García Marquez. Depois vinha para a minha discoteca, ouvir e comprar discos.
O que gostava de comprar?
Adorava canto gregoriano, Bach, Debussy, Stravinsky. Há um mês, em Lisboa, conheci um professor de música da Universidade de Évora que o conheceu muito bem na Holanda. Mostrou como no Zeca, não sabendo nada de música, todas as canções são musicalmente correctas. Perguntou-me se eu sabia se ele gostava de canto gregoriano. Gostava e muito! Há coisas dele que são canto gregoriano puro.
Chegou a ser incomodado pela PIDE?
Não, convivíamos bem com o problema. As letras eram subentendidas e eles eram muito iludidos. Depois, o José Niza era muito amigo do indivíduo que estava à frente do SNI [Pedro Feytor Pinto, do Secretariado Nacional de Informação]. Propúnhamos-lhe as letras que podiam levantar dúvidas e eles faziam uma pré-selecção, para evitarmos gastos e depois ir tudo para o galheiro. Nunca tivemos um disco proibido do Zeca.
Os discos vendiam-se bem?
Não se vendia bem. Começou-se a vender sobretudo a partir da pedrada no charco, com o “Cantigas do Maio”, por causa do “Grândola”. O Zeca era um cantor de elite. A qualidade dele é extraordinária e é dos melhores poetas portugueses. Estamos a falar de um tempo em que o que vendia era fado e folclore.
A que juntou a “música de tema”.
Tivemos a sorte da nossa firma não viver só da música. Era das mais importantes distribuidoras de electrodomésticos do país, da Philco, e a secção de discos fui eu que a criei, porque o meu pai e o meu tio, os proprietários, tinham mais que fazer. Gravei os maiores poetas portugueses ditos por eles mesmos. Comecei com o Miguel Torga, o José Régio, a Agustina.
Tinha noção do impacto que o “Grândola” teria?
Não. Gravei o “Cantigas do Maio” porque achei que era o melhor disco feito em Portugal. Foi o nosso maior investimento. Custou-me mil contos, o que na altura era um balúrdio, e fomos gravar aos Strawberry Studios, o maior estúdio da Europa, onde na véspera tinham estado os Stones. A produção foi do José Mário Branco e foram todos lá cantar, o Adriano, o Fausto, o Vitorino. Um detalhe engraçado foi como foi feito o som da marcha. Os pés dos músicos a deslizar no saibro do castelo, que deram aquele som importantíssimo. É uma obra-prima da música portuguesa e foi o que vendeu mais.
Sobretudo depois do “Grândola”?
Sim, fez-se um single e tudo, vendeu-se para todo o mundo, excepto para os países de leste. Como é que podiam gostar de uma música onde se dizia que “o povo é quem mais ordena”?!
Como foi o trajecto na editora depois do 25 de Abril?
Acabou-se aquela linguagem subentendida, poeticamente muito mais bonita. O Zeca envolveu-se na parte política. Mas atenção que o Zeca nunca foi nem quis ser do PCP.
Falavam sobre política?
Não discuti política com ele, mas conversávamos. Perguntava-lhe como é que ele se dava comigo não sendo eu comunista. “Também não sou comunista”, dizia-me ele. “Sou um revolucionário, e a revolução não se pode fazer sem a burguesia liberal”. Entediamo-nos muito bem. Aliás, a última coisa que ele me deixou foi um autógrafo. “Ao Arnaldo Trindade, politicamente adversários, mas amigos”. E até acrescentou “O Porto é uma nação”.
Manteve-se consigo até aos últimos álbuns?
Depois do 25 de Abril as pessoas começaram a comprar os discos não pelo que eles eram, mas sim a conotá-los politicamente. Muitos não gostavam do Zeca por ser de esquerda. Isso reflectiu-se nas vendas. O contrato dele era muitíssimo caro, para ser comercialmente possível tínhamos que vender. Disse-lhe que ele estava a encaminhar-se para coisas mais violentas e que certa parte do mercado não gostava.
Costumava dar-lhe indicações?
Nunca interferi em nada na criação, só recusei um disco que ele fez sobre a tomada da sede do PPD em Setúbal, um single editado pela LUAR [Liga de Unidade e Acção Revolucionária]. Deve ter sido por volta de 75. Aquilo era um panfleto e eu panfletos não gravo. Gravo poesia e ideias, agora mata e esfola não é comigo, nem de um lado nem de outro. Ficámos amigos na mesma. O “Fados de Coimbra” [1981] foi o último que gravei, para poder recuperar investimentos que não estavam a dar frutos.
Foi pacífico o afastamento?
Sim. Ele já andava perturbado com a doença. Quiseram fazer uma editora com todos os cantores mas não deu nada. Não existem discos sem editores e um editor tem que ser independente, como um juiz imparcial. Descobrir o que é bom, o que se vende e o que é bom mesmo que não se venda. Gravámos o José Calvário com a Orquestra Sinfónica de Londres. Veja o balúrdio. Tínhamos o melhor que havia. Só nos faltava a Amália.
Quando esteve com o José Afonso pela última vez?
Não me recordo. Ainda o via mas ele andava ocupado com a parte revolucionária. Penso que vivia numa luta íntima entre o belo da poesia e o sentido social que tinha. Era um génio sensacional desinteressado de tudo. Ia cantar a todo o lado sem levar um tostão e nem sei se não terá passado dificuldades quando deixou de gravar, com o turbilhão do PREC. Perdeu-se a utopia do início, em que ele era grande.
Por Maria Ramos Silva | Jornal i
A reedição de 11 discos de José Afonso e espectáculos musicais em várias cidades portuguesas e no estrangeiro contam-se entre as iniciativas a realizar, na quarta-feira, para assinalar os 25 anos da morte do cantor.
Lisboa, Grândola, Barreiro, Coimbra, Açores, Barcelona e Newark são alguns dos locais onde os 25 anos da morte de José Afonso são lembrados na quarta-feira, para manter «vivo o espírito do Zeca e a lição de dignidade» que transmitiu a todos, como disse à agência Lusa Francisco Fanhais, companheiro de cantigas e de estrada de José Afonso, no período antes do 25 de Abril de 1974 e actualmente dirigente da Associação José Afonso.
Considerado durante muito tempo um músico de intervenção, José Afonso é, para Francisco Fanhais e para o jornalista Viriato Teles, «muito mais do que um cantor ou um músico de intervenção».
Essa designação serve mesmo, para Francisco Fanhais, «para menosprezar toda a parte poética e musical que José Afonso revelou e é um álibi muito bom para que os divulgadores de música o possam banir com toda a tranquilidade».
«Cada uma das canções de José Afonso faz parte de um conjunto de grande valor musical e poético que, penso, está ainda por descobrir», disse Francisco Fanhais.
Também o jornalista Viriato Teles, autor do livro As voltas de um andarilho – Fragmentos da vida e obra de José Afonso, considera que José Afonso «está ao nível de um dos grandes criadores musicais do mundo».
«Ao contrário do que habitualmente fazemos, que é comprarmos os portugueses com artistas estrangeiros, eu acho que o Pete Seeger é o Zeca Afonso norte-americano», disse o jornalista, sublinhando que José Afonso «está ao nível de um Bob Dylan, John Lennon, Léo Ferré ou mesmo de um Jacques Brel».
Considerar a obra de José Afonso apenas do ponto de vista da cantiga de intervenção «é do mais redutor que existe, até porque mesmo nesse campo ele esteve sempre à frente do tempo dele», disse Viriato Teles à Lusa, acrescentando que a obra musical de José Afonso era «tão complexa do ponto de vista poético como musical».
«Talvez por não ter formação musical, a obra de José Afonso era bastante complexa, já que ela mudava de compasso a meio das cantigas e isso tornava tudo bastante difícil e especial», frisou.
Viriato Teles não hesita mesmo em afirmar que José Afonso era «um génio, tal como Carlos Paredes» e que, por isso mesmo, quando José Afonso morreu «Paco Ibañez disse que Zeca teve azar de ter nascido português».
«Se tivesse nascido nos Estados Unidos estaria ao nível desses grandes criadores mundiais», disse, na altura, Paco Ibañez, lembrou Viriato Teles.
O jornalista invoca mesmo o facto de a obra de José Afonso ser a obra de um cantor português «mais divulgada a nível mundial».
«Basta ver a quantidade de versões de canções do Zeca, e não apenas a de Grândola vila morena, que existem no estrangeiro», disse, exemplificando com os casos de Charlie Haden e Carla Bley, Nara Leão ou as de Pi de la Serra e Luis Pastor.
«Pi de La Serra e Luis Pastor consideram mesmo que José Afonso foi o pai da nova música espanhola», sublinhou.
«Se há de facto um músico português que se universalizou foi o Zeca, se calhar tanto ou mais do que Amália, embora esta tenha tido mais visibilidade», frisou Viriato Teles.
Viriato Teles e Francisco Fanhais concordam ainda num outro ponto: «Apesar de reconhecido, José Afonso não tem ainda hoje o estatuto que devia ter na música».
Para assinalar os 25 anos da morte de José Afonso, a Movieplay vai editar agora – com a etiqueta Art’Orfeumedia – versões remasterizadas, com notas adicionais aos originais, assinadas pelo jornalista Gonçalo Frota, os onze álbuns que José Afonso editou para a Orfeu, disse à Lusa fonte da editora.
Na primeira semana de Abril sairão Cantares do andarilho e Contos velhos, novos rumos, enquanto na primeira semana de Maio sairão Traz outro amigo também, Cantigas do Maio e Eu vou ser como a toupeira.
Em Outubro regressam Venham mais cinco, Coro dos tribunais e Com as minhas tamanquinhas e, em Abril de 2013, será a vez de Enquanto há força, Fura, fura e Fados de Coimbra.
Entre os espetáculos que, um pouco por todo o país, assinalam o quarto de século da morte de José Afonso, destaca-se o que decorre na quarta-feira na Academia de Santo Amaro, em Lisboa. Organizado pelo núcleo de Lisboa da Associação José Afonso, o reúne, entre outros, cantores como Zeca Medeiros, Francisco Naia e Francisco Fanhais ou o duo Couple Coffee, que recria temas de José Afonso.
Nascido a 2 de Agosto de 1929, em Aveiro, José Afonso morreu a 23 de Fevereiro de 1987, em Setúbal, aos 57 anos, vítima de esclerose lateral amiotrófica.

in Diário de Coimbra | 22.2.2012 (Clicar para aumentar)
Via: Blogue de Octávio Sérgio
Artigo na revista Domingo, do jornal Correio da Manhã, de 19.02.2012
Do homem para quem um amigo era “maior que o pensamento” ficaram mais do que belas canções. “Confesso que o que me marcou foi o calor humano. Ele estava sempre rodeado de gente e a possibilidade de se crescer com debates contraditórios, que ele promovia, sobre temas que envolviam a nata da música e da literatura, arquitectos, operários e pastores, foi um privilégio”, recorda Helena Afonso.
A segunda dos quatro filhos de Zeca ainda se emociona ao falar do legado que supera em muito as ausências forçadas de um pai que, no tempo do antigo regime, decidiu cantar à esquerda. “O essencial era a transmissão através de afectos, conhecer pessoas, afastar o medo… Havia quem passasse lá por casa em períodos difíceis, na clandestinidade, e deixasse umas notas”, diz.
Vinte e cinco anos depois da morte, o cantor que se tornou o arauto da revolução de Abril ascendeu ao estatuto de lenda. A mensagem política superou o músico e o poeta. Mas essa faceta ficou nos mais próximos, que retêm na memória “a pessoa com enorme empenhamento humano, acentuada empatia pelos outros e sensível ao que se passava à sua volta”.
O tio, “que tirava do frigorífico um caril de frango e comia sem aquecer, que passou uma fase vidrado na macrobiótica e recebia com imensa alegria na casa branca de Azeitão” influenciou o sobrinho João Afonso, o único da família que também seguiu a música.
Já doente com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), nos últimos anos, José Afonso lamentava “que o reduzissem a cantor de intervenção, panfletário”, lembra Helena.
A memória do cantor José Afonso resiste em Coimbra 25 anos depois da morte, mas também a sua música ecoa em cada esquina da cidade onde os amigos o recordam com emoção.
O médico Rui Pato tinha 16 anos quando, em 1961, começou a acompanhar José Afonso à viola, participando na gravação dos primeiros discos e em muitos espetáculos.
“As recordações que tenho desse tempo são a incompreensão e a repressão que rodeavam toda a arte que o Zeca fazia, uma coisa que eu não vejo muito descrita”, declarou Rui Pato à agência Lusa.
Nesse “período difícil”, na década de 60, “o núcleo que apoiava o Zeca era pequeno”, disse.
“Foi o período em que mais contactei com ele e que mais me marcou”, acrescentou.
O futuro pneumologista acompanhava outros cantores de Coimbra, designadamente Adriano Correia de Oliveira e António Bernardino, e os guitarristas Pinho Brojo e António Bernardino.
Pato testemunhou a “extrema penúria” em que vivia o autor de “Grândola Vila Morena”. Mesmo assim, “o Zeca não perdia o seu bom humor”.
Para o médico, “a matriz cultural e artística do Zeca Afonso é Coimbra”, onde o cantor realizou apenas dois concertos entre 1961 e 1969, quando já não vivia na cidade.
A maior parte dos seus espetáculos, com a participação de Rui Pato, realizavam-se sobretudo na zona de Lisboa, sobretudo na Margem Sul, a convite de organizações estudantis e operárias.
“Coimbra era uma terra ainda muito conservadora e o Zeca tinha traído um pouco a tradição da canção de Coimbra”, além de ser “um homem conotado com a esquerda”.
Na sua opinião, “há hoje um grande respeito pelo Zeca, como homem, músico e poeta. Tarde, mas felizmente ainda a tempo, é uma figura já metida no ADN da música portuguesa”.
Em 1961, quando Pato começou a tocar com ele, “não se imaginava que, em grande parte dos acampamentos da guerra colonial, os oficiais ouviriam as músicas” de Zeca.
“Nem ele próprio tinha a noção da importância que tudo isso viria a ter na própria evolução sócio-política” em Portugal.
Teresa Alegre Portugal, antiga professora e ex-deputada socialista, conheceu José Afonso de quem recorda “uma voz muito serena que chegava lá ao ponto impossível”.
Nos anos 50, então aluno do curso de Histórico-Filosóficas, na Universidade de Coimbra, o cantor era visita frequente da casa da então namorada do guitarrista António Portugal.
“Achei que devia reclamar uma serenata ao António. Mas foi o Zeca que a cantou, com o António a acompanhar”, contou a ex-deputada.
José Afonso “tinha um sentido de humor verdadeiramente original”, sempre “com aquela postura fora do sistema”.
Acima de tudo, “Zeca é uma das primeiras figuras de um tipo de música muito difícil de classificar”, afirmou Teresa Portugal.
Quem fala dele “como um cantor de intervenção está a limitá-lo muito. Ele vai muito para além disso”, defendeu.
“A sua obra perdura hoje e com muita força”, disse Jorge Cravo, autor do livro “José Afonso: da boémia coimbrã à solidariedade utópica (1940-1969)”.
Para este investigador, “vai havendo cada vez menos um divórcio entre José Afonso e a cidade” onde “teve uma vida um bocado ingrata”.
Afinal, foi em Coimbra “que ele começou”. Um facto reconhecido “em qualquer parte do mundo”, concluiu.
Reportagem de Casimiro Simões, Agência Lusa
Placa de azulejos na casa onde viveu José Afonso na década de 40 do século passado – um segundo andar no prédio contíguo à pastelaria Zizânia, na Avenida Dias da Silva em Coimbra. Já mostrada aqui
Entre Abril de 2012 e Abril de 2013, a Orfeu, selo recuperado pela Movieplay, vai reeditar 12 álbuns de José Afonso.
Do plano fazem parte os discos Cantares de Andarilho (1968), Contos Velhos Rumos Novos (1968), Traz Outro Amigo Também (1970), Cantigas do Maio (1971), Eu Vou Ser Como a Toupeira (1972), Venham Mais Cinco (1973), Coro dos Tribunais (1974), Com as Minhas Tamanquinhas (1976), Enquanto Há Força (1978), Fura Fura (1979) e Fados de Coimbra e Outras Canções (1981).
Às lojas voltará também De Capa e Batina , conjunto de EPs de fados de Coimbra, já editados em CD.
Na BLITZ de fevereiro, já nas bancas, José Mário Branco, que trabalhou com José Afonso de 1970 em diante, e o jornalista Gonçalo Frota, que está a escrever os textos que acompanharão as reedições, falam da necessidade de recuperar José Afonso, o músico, por vezes ofuscado pelo ícone de resistência política.
“[Chamar-lhe cantor de intervenção] é uma maneira de diminuir o alcance da obra dele, porque a obra do Zeca tem algumas canções políticas, contestatárias, de protesto, de testemunho de lutas concretas. Mas tem muito mais que isso: tem canções de amor, canções poéticas, canções de todo o género”, lembra José Mário Branco.
“A influência do José Afonso hoje entra pelos olhos dentro, do B Fachada à Cristina Branco, aos Deolinda… é muito evidente que a influência que esta obra deixou é absolutamente transversal e esmagadora”, salienta Gonçalo Frota, destacando ainda a influência da música africana na música do autor de Cantigas do Maio .
“Hoje em dia toda a gente anda a ir buscar África. Parece que é o grande maná, para toda a banda pop-rock indie que queira parecer moderna para o mundo. E este homem andava a fazer isto na década de 70!”.
O duplo álbum «Solo II», do compositor e pianista António Pinho Vargas, foi distinguido por unanimidade com o Prémio José Afonso 2010, foi hoje anunciado pela Câmara Municipal da Amadora.
O CD, editado em 2009 e que inaugurou a editora discográfica David Ferreira Iniciativas Editoriais, foi o escolhido de um conjunto de 11 finalistas, cuja lista o júri divulgou pela primeira vez.
Segundo nota da autarquia, foram ouvidos «mais de 150 álbuns editados em 2009» dos quais se selecionou um grupo de 11, tendo sido escolhido por unanimidade o de António Pinho Vargas.
Diário Digital / Lusa
A iniciativa «Amigos Maiores que o Pensamento» foi inaugurada esta quarta-feira, na escadaria da Casa da Música, no Porto, com a participação do Grupo Canto D’Aqui que interpretou temas de José Afonso e Adriano Correia de Oliveira.
Este foi o mote à celebração da obra destas duas figuras da música portuguesa, que se destacaram pelas canções de intervenção na luta contra o salazarismo.
Aliás, «Grândola Vila Morena», associado à Revolução do 25 de Abril e à queda da ditadura, foi o tema escolhido para fechar o pequeno concerto nas escadas do famoso espaço cultural da cidade do Porto.
Nascida a partir de um movimento cívico, reunindo mais de uma centena de entidades nacionais e internacionais – Escola Secundária Alexandre Herculano, as companhias de teatro Palmilha Dentada e A Barraca, entre outras – esta iniciativa pretende fazer de 2012 um ano do tributo a José Afonso e Adriano Correia de Oliveira através das mais diversas atividades, desde tertúlias, concertos, peças de teatro, exposições, passando por dramatizações, debates, intervenções poéticas e várias outras atividades, de forma a levar a novos públicos, sobretudo aos mais jovens, a importância da obra deixada pelos dois intérpretes..
Pretende-se assim, como explica Paulo Esperança, subscritor dos «Amigos Maiores», deixar bem vincadas as qualidades e o exemplos de José Afonso e Adriano Correia de Oliveira. «Tinham uma capacidade de intervenção indiscutível que, ainda hoje, pode e deve servir de estímulo para todos quantos não abdicam das causas da liberdade e da dignidade humana», declarou.
Nuno Pedro Fernandes | A Bola
Fotos de Vítor Garcez/ASF
O projeto Amigos Maiores que o Pensamento escolheu as escadas da Casa da Música para assinalar o arranque do movimento que pretende celebrar, ao longo de 2012, a obra e vida de José Afonso e Adriano Correia de Oliveira.
Em 2012, cumprem-se 25 anos sobre a morte de José Afonso e 30 anos sobre a de Adriano Correia de Oliveira e se “não se comemora a morte de amigos”, como afirmou um dos organizadores, Paulo Esperança, a vontade de “celebrar a obra e o exemplo cívico” dos dois cantores, levou já a que mais de 120 entidades e cerca de 500 pessoas tenham subscrito um manifesto intitulado “Tempos de borrasca invadem-nos a alma!”.
Na terça-feira, ouviram-se à porta da Casa da Música os bombos do grupo Ritmo de Fogo, a que se seguiu uma curta atuação dos Canto D’Aqui, já na escadaria interior do edifício. Na conferência de imprensa que se seguiu, Paulo Esperança admitiu que a escolha para a apresentação da Casa da Música, que não subscreveu o manifesto, foi feita pensando que “esta casa, que deve ser aberta à população, é uma casa onde o Zeca e o Adriano podiam perfeitamente estar com a lotação esgotada”.
Segundo Paulo Esperança, existe mesmo a possibilidade de a Casa da Música, que tem tido uma programação para 2012 dominada pela música erudita, poder vir a receber, em julho, um espetáculo que reúna a grande parte das bandas que aderiram a este movimento.
O documento que instituiu o projeto Amigos Maiores que o Pensamento afirma que a comemoração do falecimento dos dois músicos é um “pretexto de celebração, propulsor da convergência necessária entre todos os que vieram por bem e quiseram lutar por um mundo melhor, porque é tempo de ir para a rua gritar”. Interrogado sobre a natureza política do movimento, outro dos organizadores, Mário Correia, afirmou que “é evidente que o exemplo que retomamos do Zeca e do Adriano não é inocente de maneira nenhuma”, até porque “a obra deles tomou partido”, mas recusou qualquer outro movimento que não fosse de índole cultural. O manifesto que está disponível em amigosmaioresqueopensamento.wordpress.com, já foi subscrito por entidades tão diversificadas como a Escola Secundária Alexandre Herculano, as companhias de teatro Palmilha Dentada ou Barraca, a Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto e a Confraria dos Ovos Moles de Aveiro, bem como por várias associações cívicas e culturais galegas.
A ideia dos organizadores, que funcionam sem uma direção instituída, é, segundo Mário Correia, “potenciar o trabalho em rede”, permitindo que as várias instituições e pessoas possam encontrar por si formas de colaborarem nesta iniciativa.
O primeiro evento está agendado para a Taberna Svbvura, em Braga, a 26 de janeiro, ocasião em que se irão apresentar poemas de 1955, não musicados, de José Afonso. Entre outras iniciativas, está já programado um tributo aos dois músicos no Teatro Circo de Braga, a 23 e 24 de fevereiro, e a encenação da peça “Madrugada”, com música de José Mário Branco, para o Teatro Helena Sá e Costa, no Porto.
Recorte (Jornal de Leiria | 18.8.2011) retirado daqui.
Notícia LUSA
José Afonso “é uma das principais vozes poéticas do século XX” em Portugal, conclui uma investigação inédita sobre o poeta, músico e compositor que, pela primeira vez, analisou a sua obra integral, numa perspetiva literária.
Da autoria do investigador lusodescendente Alexandre Pereira Martins, a tese de doutoramento em Filologia Portuguesa foi defendida em julho na Universidade de Colónia, na Alemanha, abordando a totalidade da obra poética, musicada e a não musicada, do autor.
“O meu doutoramento procura abordar, por completo, a totalidade da poesia de José Afonso, incluindo os poemas que foram musicados, numa perspetiva filológica”, disse hoje o investigador à Agência Lusa.
Partindo da “convicção de que uma obra lírico-musical de três décadas e mais de 250 textos líricos (mais de metade não musicados), merece um enquadramento mais complexo, além dos rótulos óbvios “oposição ao Estado Novo”, “canção de intervenção”, “Revolução dos Cravos”, a investigação teve como objetivo demonstrar a estética poética que está por detrás da obra de José Afonso, assim como o percurso que o caracteriza como escritor lírico”, refere Alexandre Martins.
Segundo o docente e investigador do Instituto Luso-Brasileiro da Universidade de Colónia, caracterizar o autor de “Grândola Vila Morena” como “cantor de intervenção” “não é um rótulo errado, mas é redutor”.
Ao considerar Zeca Afonso como “uma das principais vozes poéticas” da poesia portuguesa do século passado, Alexandre Martins diz que a sua obra, “a par dos momentos mais interventivos de poesia comprometida, assim como de uma matriz popular”, apresenta “exemplos de poesia hermética, num contacto com correntes surrealizantes”.
A poética de José Afonso evidencia ainda “preocupações filosóficas e metafísicas”, conclui Alexandre Martins, que nasceu em 1974 em Colónia, onde reside.
Segundo o investigador, que tem analisado também a música popular moderna portuguesa, o seu estudo “Reconstrução da poética do cantor-autor e poeta português José Afonso (1929-1987)” é o primeiro a nível académico que analisa a obra integral de José Afonso – a discografia e a lírica não musicada – numa perspetiva filológica.
A tese vai ser publicada no início de 2012, na Alemanha, pela editora de divulgação científica Dr. Kovac, de Hamburgo, que compreende uma série dedicada aos estudos lusófonos. Está prevista também a sua tradução para edição em Portugal.
A primeira tese de doutoramento sobre as canções de José Afonso foi publicada em 1985, em Viena, pela austríaca Elfriede Engelmayer, que estudou a obra musicada entre 1968 e 1979 – recorda Alexandre Martins.
“Quando, a partir de 2005, defini o tema para o meu doutoramento, a minha convicção residia em investigar a obra lírica do José Afonso como chave para futuras investigações, visto que nela se encontram de forma produtiva e criativa as mais diversas correntes, sejam elas lírico-literárias ou de estilos musicais. Ou seja: continuando a investigação numa área, que ainda considero desprezada pelo meio académico, essa teria necessariamente de passar pela abordagem da criação poético-musical de José Afonso”, acrescenta.
Mafalda Veiga, distinguida com o Prémio José Afonso, no valor de cinco mil euros, pelo álbum “Chão” editado o ano passado, afirmou-se hoje “surpreendida e honrada” pelo galardão. “É um prémio muito importante, um motivo de orgulho e uma alegria, sinto-me feliz”, disse a cantora e compositora.
Mafalda Veiga referiu-se ao autor de “Os Índios da Meia Praia” como “um dos nossos maiores compositores que é uma referência importantíssima para qualquer pessoa que escreve e compõe em português”. Continuar a ler
Notícia Lusa
Após o lançamento do álbum de tributo a Zeca Afonso “O que faz falta” no final de 2010, Olavo Bilac (Santos e Pecadores), Nuno Guerreiro (Ala dos Namorados), Tozé Santos (Per7ume) e pelo produtor Vítor Silva, iniciaram no Coliseu do Porto a digressão que pretende homenagear e dar a conhecer à nova geração e relembrar aos mais velhos o mítico Zeca Afonso.
Foi com “Menino do bairro negro” que Nuno Guerreiro iniciou este concerto que viria a ficar para a história dos concertos do Coliseu dos Recreios.
Com um palco muito intimista, com projecções de imagens de Zeca, assim como com a voz do cantautor em pequenos extractos de entrevistas, que embora antigas, estão muito actuais.
A anteceder o tema “A morte saiu à rua”, Olavo Bilac afirmou “para nós está a ser uma noite muito especial, pois estamos a relembrar Zeca onde deu o seu último concerto” em 1983, tendo sido condecorado com a Ordem da Liberdade, que recusou.
Para Bilac as palavras de Zeca “são intemporais”. “José Afonso está conosco em alma neste palco”, acentuou.
Os três músicos interpretaram de seguida outro dos grandes temas do cantautor, “O que faz falta”, tema esse que o público presente no coliseu acompanhou cantando na íntegra. No final surgiu o primeiro estrondoso aplauso, com muitas pessoas de pé.
António Manuel Teixeira | Jornal Hardmusica
Quem são os ícones da música portuguesa das últimas décadas? Quem é que fez mesmo a diferença e marcou uma época, um estilo, uma estética? As escolhas são sempre discutíveis. Discutam-se, então.
Se Camille Paglia fosse portuguesa, que nomes escolheria para os seus ensaios sobre Sexo, Arte e a Cultura Política? Amália Rodrigues, certamente – nada se pode escrever sobre a iconografia cultural portuguesa contemporânea sem passar por Amália, a quem todas as imagens e sons da chamada “portugalidade” pedem, consciente ou inconscientemente, meças, e que David Ferreira, ex-editor da Valentim de Carvalho e da EMI, filho de um dos poetas (David Mourão-Ferreira) que ela cantou, coloca no lugar mais alto, juntamente com José Afonso: “Se tivéssemos de escolher duas montanhas da música portuguesa, são eles.”
Amália e Zeca, então: estampam-se sem dificuldade T-shirts com estas caras. Mas podemos apostar que António Variações, apesar da sua curtíssima carreira, seria outra escolha óbvia de uma Paglia.
Texto de Fernanda Câncio no Diário de Notícias | Continuar a ler
Manuel António Pina | Jornal de Notícias
24.2.2011
Isabel Peixoto | Jornal de Notícias
Nota da AJA: O derradeiro concerto de José Afonso não foi no Coliseu de Lisboa, como é hábito referir-se. Depois de Lisboa, José Afonso actuou nas Caldas da Rainha, no Coliseu do Porto, Coimbra, Évora e Barreiro. Em breve, colocaremos aqui no blogue um artigo sobre este assunto.
Lusa
Nuno Corvacho
nuno.corvacho@grandeportoonline.pt
Retirado daqui
“Um homem que devia ter morrido num lar ou numa cama em condições e a quem até os medicamentos lhe faltaram no final da vida”. É esta afirmação, feita pelo vereador da Cultura de Coimbra, Mário Nunes, que indignou a família de José Afonso.
“Lamento profundamente a infelicidade da afirmação que fez. Quero crer que não foi proferida com má-fé, mas apenas por falta de sentido de perspectiva e de conhecimento do assunto”, refere a filha do cantor, Helena Afonso, numa nota enviada ao JN, sublinhando que se trata de “um autarca com responsabilidades na área da Cultura”.
O vereador falava no passado dia 22 de Julho, na apresentação do “Memorial” em homenagem ao cantor e compositor, que inclui música, dança e poesia, a realizar na cidade dos estudantes dia 2 de Agosto, por ocasião do 80º aniversário do nascimento de José Afonso (Zeca Afonso).
Helena Afonso explica que o internamento do pai num lar “seria um acto indigno do próprio e dos parentes e amigos que o acompanharam e lhe prestaram a assistência possível, além de ser inapropriado para a sua patologia progressiva”.
Refere ainda que o célebre cantor que deu voz a “Grândola, vila morena”, falecido a 23 de Fevereiro de 1987, esteve “sempre rodeado pela família e amigos”.
Helena Afonso garante que “é redondamente falsa” a afirmação de que “até os medicamentos lhe faltaram no final da vida”, feita por Mário Nunes.
“Uma vasta rede solidária, em Portugal e no estrangeiro (onde gozava de enorme reputação e respeito), constituída por gente de muitos quadrantes, permitiu a José Afonso o acesso à medicamentação mais actualizada na época”, assegura ao JN.
João Lisboa
José Afonso
Fotobiografias Século XX
Direcção de Joaquim Vieira
Texto de Irene Flunser Pimentel
Edição Círculo de Leitores / Temas e Debates