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Viriato Teles
Home Archive by Category "Viriato Teles"

Category: Viriato Teles

AJA LisboaViriato Teles
16/02/2014By AJA

Encontro com Viriato Teles

CartazZecaAndarilho

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25 anos (1987-2012)TestemunhosViriato Teles
25/02/2012By AJA

25 anos com Zeca

Nestes dias em que tanto se fala de José Afonso e do seu génio, gosto sobretudo de recordar que, para além da música, o Zeca era acima de tudo um homem. Um homem empenhado nas grandes lutas do seu tempo, com certeza, que procurou viver de modo integral – o que só se alcança quando se assume viver com as fragilidades, as virtudes, os defeitos, as grandezas e as contradições comuns a todos os homens.

Há hoje uma tendência, por parte de alguns dos seus/meus amigos (e porventura ainda mais dos que nunca o conheceram, à parte umas quantas adultas e descompassadas bestas que ainda não desistiram de demonizá-lo como perigoso agitador comunista), uma tendência, dizia, para um certo culto da memória de Zeca Afonso que tende a transformá-lo numa «unanimidade nacional» ou, pior ainda, numa espécie de «santo de madeira», como diria Nicanor Parra. E isso é mau e injusto – uma inverdade, como agora se diz em linguagem jornalístico-parlamentar – porque o Zeca nunca quis ser unânime. Ele escolheu conscientemente o lado da vida onde queria estar, mesmo sabendo que isso implicava um preço a pagar. E pagou-o, com juros elevadíssimos, como bem sabemos.

O Zeca era um homem preocupado como poucos com os problemas dos seus iguais. O que não o impedia de ter um sentido de humor frequentemente sibilino, de que aliás há testemunho em várias das suas canções ou em pormenores que fazia incluir nos discos – fossem as estrambólicas introduções improvisadas de temas como Senhor Arcanjo ou Rio Largo de Profundis, ou detalhes imperceptíveis a olhares menos atentos – e deixem só que lembre, de passagem e porque a propósito, a ficha técnica da edição original do álbum Coro dos Tribunais (Orfeu, 1974) onde, a par dos vários instrumentos, incluiu uma subtil referência aos «gases e flatulências» executados, digamos assim, no estúdio por ele próprio, pelo Adriano, o Fausto e o Carlos Moniz – o que ainda hoje é recordação gaudiosa, como bem se entende…

O José Afonso que conheci era um homem que conjugava uma grande aptidão para o diálogo com uma inamovível capacidade de indignação. E era, claro, um indivíduo complexo, por vezes difícil, intransigente consigo mesmo e com os outros, mas também capaz da complacência, com muito mais dúvidas do que certezas. E é essa dimensão que faz dele um ser de excepção, para lá do genial poeta e compositor e cantor que foi – e continua a ser. Ou, se quisermos, como escreveu Baptista-Bastos sobre Che Guevara: «havia nele qualquer coisa de divino porque era simplesmente um homem».
Recordemo-lo assim, então, porque é assim que se mantém vivo tudo aquilo que nos legou.

Viriato Teles

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25 anos (1987-2012)ColóquiosViriato Teles
17/02/2012By AJA

Relembrar Zeca Afonso

Relembrar Zeca Afonso

No dia 23 Fevereiro às 18h, a BMRR/ espaço Cidade Universitária vai “Relembrar Zeca Afonso” por Viriato Teles, jornalista e escritor.

Sessão de evocação de Zeca Afonso pelo 25º aniversário do seu desaparecimento.

Biblioteca-Museu República e Resistência – Espaço Cidade Universitária
Ver Morada
Local: Auditório
Data: 2012-02-23 às 18:00
Contactos: Tel: 21 780 27 60
bib.galveias@cm-lisboa.pt

Observações: Entrada livre.
 

Viriato Teles com José Afonso

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BibliografiaBiografiaEntrevistasViriato Teles
16/01/2010By AJA

“As Voltas de um Andarilho” na rádio

Viriato Teles entrevistado nos programas “À Volta dos Livros”, de Ana Aranha e “A Força das Coisas”, de Luís Caetano, a propósito da reedição do seu livro “As Voltas de um Andarilho”.

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BibliografiaBiografiaViriato Teles
10/12/2009By AJA

“As Voltas de um Andarilho” por Teresa Sá Couto

As Voltas de um Andarilho – Fragmentos da vida e obra de José Afonso de Viriato Teles: eis um documento raro sobre um sonho agarrado à vida concreta, firmado no telurismo português e braços estendidos a outros lugares do mundo onde despontava a utopia; uma voz sobre uma das vozes da resistência ao fascismo, que rasgou as sombras e iluminou quem nelas vivia; um diálogo entre gerações sobre «o que faz falta», o idealismo, a persistência na luta pela Liberdade.

Viriato Teles e José Afonso (1980)

«Mais uma vez, a luz. Mas aqui, desta vez, sem misticismo. Para o Viriato tratou-se só de erguer a lâmpada sobre as extraordinárias funções do Zeca, e nisso encontrar quem nós temos saudades de ser», diz Sérgio Godinho no Prefácio titulado «A que distância está o Zeca?». E luz é o substantivo genesíaco que nomeia esta obra alagada de memória, que palavras emissárias e imagens perpetuam, para grande felicidade nossa. Na base, uma segura, minuciosa e depurada investigação da vida de José Afonso, que casa factos reais com lugares interiores, só mensuráveis pelo tempo, porque é a narração do tempo que aqui encontramos, o tempo social, político, insurrecto. Depois, a mestria da composição, marca iniludível da escrita de Viriato Teles, que transforma entrevistas e reportagens em edifícios sensoriais e de comprometimento ímpar com o leitor.
Editada em 1999, e esgotadíssima, a obra é republicada pela Assírio & Alvim «com algumas actualizações, correcções e acrescentos», assim dito por Viriato Teles. Clara é também a missão que o jornalista e escritor cumpre soberanamente: «participar, tanto quanto possível, na luta contra o esquecimento, que é como se sabe um dos vícios portugueses mais comuns».
A voz e o legado
Além da história da vida de José Afonso, Viriato Teles transmite-nos um exemplo de vida de quem fez do compromisso com o seu tempo uma forma de se manter vivo. Um exemplo testemunhado por Viriato, pelo estreito contacto com Zeca, documentado nas entrevistas que lhe fez e nos encontros «sem marcação nem “agenda” prévia, ao sabor dos acasos e das lutas».
Desvenda-se na raiz o homem nascido para encarnar uma aspiração que tatuou numa existência andarilha, mobilizado pelo apelo solidário do Outro, na demanda da “irmandade”. O «trovador de muitos sonhos», que nos anos 60, em Coimbra, criava baladas e «abria uma revolução musical e poética que abalou a estrutura da canção ligeira portuguesa», cedo terá percebido que a música seria uma forma de chegar às populações. A esta juntou o gosto de «ensinar os filhos dos outros», com a leccionação em História e o envio de recados através das aulas.
«Um provocador, por instinto», refere Viriato Teles. «A música é comprometida quando o músico, como cidadão, é um homem comprometido», e «o que é preciso é criar desassossego»; «acima de tudo, é preciso agitar, não ficar parado, ter coragem, quer se trate de música ou de política. E nós, neste país, somos tão pouco corajosos que, qualquer dia, estamos reduzidos à condição de “homenzinhos” e “mulherzinhas”. Temos é que ser gente, pá!», diz Zeca, regista-o Viriato, dizendo-nos também que Zeca se esquivava constantemente a falar de música, sendo ela o ponto de partida para outras divagações:
«Praticamente nunca canto por gosto», diz Zeca em 1980, «Prefiro estudar, agradar-me-ia tirar outro curso, às vezes até me passa pela cabeça que gostava de mudar de personalidade, como as personagens de Pirandello». Eram (e são) caminhos de um homem livre que «vive na recusa do oportunismo, na análise permanente das suas posições, na interrogação constante», portador da consciência contra o conformismo, «um verdadeiro e incorrigível independente»; era o timbre de um homem livre, que afirmou ser o seu próprio “comité central”, que decidiu, em 1985, apoiar a candidatura de Maria de Lurdes Pintassilgo à Presidência da República, que apoiou as lutas anti-imperialistas na América Latina, que se ligou a «grupos de apoio à Reforma Agrária, nomeadamente na Alemanha e na Holanda» e fez parte do Comité Central de Apoio à Frente Polisário.
Com a destreza que lhe é característica, Viriato Teles capta e regista em breves linhas a síntese perfeita do homem José Afonso: Zeca, na sua casa em Azeitão, «simultaneamente bem-disposto e mordaz, por vezes até impiedoso”, perante o “perguntador”», entre a viola, a um canto, um retrato de Che Guevara, na parede e «uma faiança com o texto de Grândola Vila Morena», a encher o espaço todo.
É sobre este homem que, com alguma vergonha pela iniquidade lusa, vem a lição da Galiza: a grande homenaxe, uma «festa rubra, viva e alegre», em Maio de 1987, “um testemunho de solidariedade”, uma lição que culminou, em Maio de 2009, com a inauguração, em Santiago de Compostela, do Parque José Afonso, perto do local onde em 10 de Maio de 1972 Zeca cantou pela primeira vez em público Grândola Vila Morena.
Por cá, a intemporalidade das suas mensagens clareia-se no interesse das novas gerações de músicos e nas constantes versões das suas cantigas. Na Discografia Anotada do autor de “Os Filhos da Madrugada”, Viriato Teles mostra-nos o «Zeca para além de Zeca», o registo dos intérpretes de Zeca até à actualidade, desde Adriano Correia de Oliveira, que interpretou a Balada da Esperança, em 1961, até Rão Kyao, com os temas “Balada de Outono” e “Menino d’Oiro”, de 2009.
Teresa Sá Couto
As Voltas de um Andarilho – Fragmentos da vida e obra de José Afonso
Viriato Teles, Assírio & Alvim, 2009
Retirado do blogue Orgia Literária

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BibliografiaLançamentosViriato Teles
10/12/2009By AJA

Os lançamentos do livro “As voltas de um andarilho” de Viriato Teles

Ver fotos do lançamento em Lisboa

Ver fotos do lançamento no Porto

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Viriato Teles
04/12/2009By AJA

Amanhã, no Porto

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EntrevistasViriato Teles
30/11/2009By AJA

Entrevista a Viriato Teles pelo blogue Portugal Rebelde

Depois de Lisboa, Viriato Teles vai estar no próximo dia 5 de Dezembro na cidade do Porto, para apresentar a reedição do livro “As Voltas de um Andarilho – Fragmentos da vida e obra de José Afonso” (Assírio & Alvim, 2009). O médico e guitarrista Rui Pato, que foi o principal e mais regular acompanhante de José Afonso nos anos 60, estará presente nesta apresentação. O Portugal Rebelde esteve recentemente à conversa com Viriato Teles e revela-lhe agora em “Discurso Directo” algumas das razões da edição de “As Voltas de um Andarilho”.
Portugal Rebelde – O que podemos encontrar de novo na reedição de “As voltas de um andarilho – Fragmentos da vida e obra de José Afonso”?
Viriato Teles – Além de algumas correcções de pormenor, acrescentei alguns outros textos e um novo conjunto de fotografias, incluindo algumas que até agora nunca tinham sido publicadas. Destaco sobretudo as fotos do Carlos Gil, um grande repórter fotográfico, meu amigo e do Zeca, infelizmente também já desaparecido. E as do Luís Paulo Moura tiradas durante o último espectáculo de José Afonso, em Maio de 1983 no Coliseu do Porto. São, na sua maioria, retratos que até hoje nunca tinham sido publicados. Além disso, incluí uma relação, tão exaustiva quanto possível, das versões de temas de Zeca gravados por outros intérpretes, desde os anos 60 até hoje. Consegui recensear à volta de 300 versões, incluídas em mais de 200 discos gravados por diferentes artistas de Portugal, Brasil, Espanha, França, Alemanha, Estados Unidos. Na verdade, a obra de Zeca é muito mais universal do que se pensa, e este levantamento prova de que ele é seguramente um dos autores portugueses mais cantados pelo mundo fora. O que não espanta, se pensarmos naquilo que a “revolução dos cravos”, que é como o nosso 25 de Abril é conhecido fora de Portugal, representou para o mundo nos anos 70. Não é exagero dizer que foi um dos mais importantes movimentos revolucionários da segunda metade do século XX, e José Afonso, através da “Grândola” e não só, foi o seu mais genuíno porta-voz.
PR – Sei que seguiu muito de perto as voltas deste “andarilho”. Que memórias guarda do homem e do músico José Afonso?
VT – Além do criador genial que todos podemos ainda hoje apreciar, era um ser humano de excepção e uma pessoa de grande coerência ética e estética. Tê-lo conhecido e ter privado com ele em alguns momentos da sua vida foi, obviamente, um privilégio e contribuiu muito para a minha formação. Guardo uma recordação muito viva do modo como se relacionava com o mundo, da sua inquietude permanente, do seu enorme sentido de humor. Tudo isso ajudou a fazer de mim aquilo que sou hoje. Porque nós somos quem somos, mas somos também fruto daquilo que nos rodeia e do que colhemos das pessoas que cruzam as nossas vidas, e nesse sentido eu reconheço que tive sorte, já que conheci algumas pessoas fantásticas. E não falo apenas de gente que conheci episodicamente no decurso da minha vida profissional, mas de alguns amigos que fui conquistando dentro e fora dos jornais, como o Adriano Correia de Oliveira, o Fernando Assis Pacheco, o Carlos Paredes, o Afonso Praça, a Edite Soeiro, o Miguel Serrano, o Luís Pignatelli – para citar apenas alguns dos que já partiram. Todos eles, cada um à sua maneira, foram importantes para mim.
PR – Como é que explica que as músicas de José Afonso de há 40 anos, mantenham a mesma frescura e modernidade que tinham quando foram escritas?
VT – Isso acontece porque, por um lado, “o Zeca era mesmo genial”, como muito bem explica o Sérgio Godinho no prefácio do meu livro. As canções do Zeca, mesmo as mais datadas, mostraram ser capazes de resistir ao tempo de um modo que só excepcionalmente acontece no mundo da música popular. Um ouvinte que chegasse agora de Marte poderia pensar que o “Cantigas do Maio” foi gravado na semana passada, porque não há nada nesse disco que acuse o “peso” da idade. E isso é o que distingue os génios dos criadores vulgares. Por outro lado, as próprias palavras que o Zeca canta mantêm, infelizmente, toda a actualidade, e isso também talvez seja uma razão para que muitas pessoas continuem a identificar-se com estas canções, que falam de problemas que nunca deixaram de existir. Porque ainda há muitos “meninos do bairro negro” e continuam a existir uma data de “vampiros”, mesmo que por vezes andem por aí de face oculta…
PR – Que canções do “Zeca” escolhia como músicas da sua vida?
VT – Ui! São tantas que a escolha se torna virtualmente impossível. Dependendo da altura, poderia escolher o “Menino d’Oiro”, que é um tema referencial da minha infância, ou a “Canção de Embalar”, que foi a primeira música do Zeca que dei a ouvir ao meu filho. Ou o “Por Trás Daquela Janela” ou o “Fui à Beira do Mar” ou o “Maio Maduro Maio”, porque todas elas são das canções mais belas que conheço. Ou o “Nefretite Não Tinha Papeira” e o “Primo Convexo”, porque também gosto muito da vertente surrealista do Zeca. Sinceramente, é uma escolha muito complicada…
PR – “A música é comprometida quando o músico, como o cidadão, é um homem comprometido”. Foi este o caminho que José Afonso nunca deixou trilhar?
VT – Sem dúvida. Ele manteve-se coerente e lúcido até ao fim, nunca deixou de lutar pela “cidade sem muros nem ameias”, a “capital da alegria” que foi, afinal, a razão de ser da existência de todos os que procuraram fazer do mundo um lugar melhor para se viver. E se, por um lado, estou de acordo com os que dizem que não se pode reduzir José Afonso à intervenção política – porque a sua música vale por si mesma, independentemente de outras razões – também creio que o oposto é igualmente redutor. Não se pode olhar para a música de Zeca e esquecer o resto, as circunstâncias que lhe deram origem. Ou seja: nem o revolucionário deve sobrepor-se ao artista, nem o músico deve fazer esquecer o militante. Se houve coisa que ele nunca quis ser foi uma unanimidade, e não podemos ignorar o carácter utilitário que ele sempre atribuiu à sua música, como factor de agitação de massas. Escolheu o lado esquerdo da vida, viveu e morreu nele, e é aí que deve continuar.
PR – José Afonso morreu há mais de duas décadas. Sente que há uma nova geração, que ainda não descobriu a vida e a obra deste “andarilho”?
VT – O Zeca morreu há 22 anos, mas de certo modo está hoje mais vivo do que nunca. Creio que a nova geração já o descobriu, pelo menos em parte, e a prova disso está em que nos últimos dez anos foram gravadas tantas versões de músicas dele como as que foram feitas ao longo das duas últimas décadas do século passado. Isso acontece pelas razões que apontei atrás: a modernidade que esta música continua a ter e que exerce um natural fascínio junto dos mais novos, mas também, julgo eu, porque muitos desses jovens se identificam com as preocupações expressas nestas músicas. Claro que nem todos apreendem o Zeca da mesma maneira, e não há mal nenhum nisso, bem pelo contrário. O importante é que quem hoje parte para a redescoberta das suas canções esteja disponível para ver não apenas a letra e a música, mas também a “alma” que existe em cada uma delas.
PR – O “Zeca” será recordado para sempre como um símbolo da liberdade?
VT – Mal estaremos quando assim não for. Espero bem que sim, porque o é, de facto. E não só em Portugal. Ainda há poucos dias, numa entrevista na RTP 2, o Luís Sepúlveda falava da importância que José Afonso e a revolução portuguesa tiveram para os chilenos, durante os tempos difíceis da ditadura de Pinochet, e que a “Grândola” era ouvida em segredo e cantada nas prisões, como um hino de resistência. Na pesquisa que fiz para este livro encontrei mais de 60 versões da “Grândola”, gravadas por artistas de pelo menos uma dúzia de países, desde Espanha à Finlândia, Brasil, Holanda, Chile, Alemanha, Suécia, Estados Unidos… Em versões instrumentais, corais, de jazz, rock, sei lá! Além das que nunca chegaram a ser gravadas e outras que provavelmente existirão e ainda não descobri. Isto ajuda a compreender a dimensão universal deste homem e desta obra. Em Portugal habituámo-nos a pensar em ponto pequeno, e por isso já ouvi dizer que o Zeca é «o nosso Pete Seeger» ou «o nosso Bob Dylan». Mas eu creio que é o inverso: com todo o respeito que tenho por ambos, eles é que são os Zecas norte-americanos…
Portugal Rebelde

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Viriato Teles
16/11/2009By AJA

“As voltas de um andarilho”, sobre José Afonso


Uma “reportagem biográfica” é como o jornalista Viriato Teles classifica o seu livro “As voltas de um andarilho – Fragmentos da vida e obra de José Afonso”, com lançamento terça-feira na Biblioteca-Museu República e Resistência, Lisboa.

“Este livro, tal como um primeiro esboço realizado em 1983 e a edição de 1999, não é, nem pretende ser, uma biografia de Zeca Afonso”, disse Viriato Teles à agência Lusa, qualificando-o antes como uma “reportagem biográfica” que reúne “fragmentos da vida e obra” do cantautor, como indica o subtítulo, acrescentando tratar-se de uma edição revista e actualizada da publicada em 1999.
Para Viriato Teles, a edição que vai agora para as bancas é “apenas um pequeno contributo para que a memória de José Afonso não se apague”, embora lhe pareça que o o músico “está hoje mais vivo do que nunca, incluindo junto dos mais jovens, que se identificam cada vez mais com a obra” do autor de “Baladas de Coimbra”, “Coro dos Caídos” ou de “Cantares de Andarilho”.
Prova disso é a quantidade de versões de canções do autor que têm sido publicadas depois da morte de José Afonso,e que atingiram um pico bastante elevado em 2007, ano do 20.º aniversário da sua morte, quando saíram “sete ou oito discos” dedicados à obra do compositor, sustenta.
“A obra do Zeca mantém-se viva, não apenas pela universalidade da música, como pela modernidade e actualidade das letras. Afinal de contas o “Menino do Bairro Negro” e “Os vampiros” continuam actuais e andam por aí, assim como continuam actuais todos os pressupostos cantados pelo Zeca”, justifica.
Viriato Teles fundamenta a obra agora editada com o facto de este ano se assinalar o 80.º aniversário do nascimento de José Afonso, razão por que considerou oportuno actualizar a edição de 1999, há muito esgotada, “corrigindo e actualizando o que era necessário”, incluindo a publicação de uma “listagem tão exaustiva quanto possível de toda a discografia do Zeca, e novas fotografias, algumas das quais inéditas”.
Entre os dados que se mantêm da edição de 1999 conta-se o prefácio de Sérgio Godinho, em que o músico considera José Afonso “um génio”.
Uma listagem da discografia que contabiliza temas de José Afonso em mais de 200 discos (à data da escrita do livro, que só inclui discos dos quais houvesse no mínimo duas referências e que já está desactualizada, já que desde que a obra foi para a tipografia mais temas de José Afonso surgiram noutros trabalhos discográficos, observa.
José Afonso nasceu em Aveiro a 02 de Agosto de 1929 e morreu em Setúbal na madrugada de 23 de Fevereiro de 1987.

Diário de Notícias

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80 anos de ZecaViriato Teles
16/11/2009By AJA

Lançamento no Porto

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Viriato Teles
13/11/2009By AJA

Lançamento do livro “As voltas de um andarilho”

Traz outro amigo também.

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BibliografiaViriato Teles
06/11/2009By AJA

“As volta de um andarilho” – o sítio do livro

Visitem o sítio que acompanha o livro de Viriato Teles: “As voltas de um andarilho”.

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LançamentosViriato Teles
04/11/2009By AJA

Lançamentos do livro “As voltas de um andarilho” de Viriato Teles

Lisboa – dia 17 de Novembro, pelas 19h, no Museu da República e Resistência, com apresentação de João Paulo Guerra e intervenção musical dos Couple Coffee.

Porto – dia 5 de Dezembro, pelas 16h, no espaço Tane Timor (na Ribeira), com apresentação de Rui Pato e uma intervenção musical de João Teixeira.

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BibliografiaViriato Teles
09/10/2009By AJA

Reedição de “As voltas de um andarilho”

Uma das obras fundamentais sobre José Afonso: “As voltas de um andarilho” de Virato Teles, será reeditada, desta vez pela Assírio & Alvim. Esta edição, revista e aumentada, estará à venda no final deste mês. Até lá, poderão saber mais um pouco em: http://andarilho.viriatoteles.net/

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Cristina BrancoTestemunhosViriato Teles
17/12/2007By AJA

ZECA DE CORPO E ALMA – Texto de Viriato Teles para o espectáculo de Cristina Branco

Se é verdade que a melhor maneira de avaliar o talento de um autor é pela capacidade que a sua obra tem de suportar a erosão do tempo, então não pode haver quaisquer dúvidas acerca da genialidade de José Afonso. As suas canções resistiram como poucas às transformações culturais e sociais que o mundo viveu nos últimos 50 anos, e nem os temas mais conjunturais, resultantes de condições históricas e políticas específicas, padecem daquele mal que torna algumas músicas tão datadas que, passadas as circunstâncias que lhes deram origem, não conseguem ser ouvidas senão como simples documentos ou provas testemunhais de uma época. E o certo é que na história universal da música popular, são poucos os compositores que conseguiram uma intemporalidade tão completa como sucede com José Afonso: juntemos-lhe Lennon e McCartney, Brel e Ferré, Roger Waters e Paul Simon, Chico Buarque e Frank Zappa – e veremos que a lista fica quase completa.
Este facto faz com que a sua obra seja particularmente apetecível para muitos intérpretes, sobretudo os mais jovens, que encontram aqui quase tudo aquilo que um cantor exigente e de bom gosto pode desejar: uma imensidão de temas belíssimos, consistentes, actuais e de uma modernidade que não se apaga. Além disso, Zeca Afonso é um compositor de características genuinamente populares, mas que nem por isso deixa de ser profundamente eclético: a sua música reúne os elementos essenciais da tradição lusitana aliados ao jazz, às músicas populares de África e da Europa, aos grandes clássicos e ao que de melhor produziram os contemporâneos – tal como a sua poesia conjuga os cancioneiros medievais com a escola brechtiana, a lírica tradicional com a lógica dos surrealistas, a intervenção política e o experimentalismo mais ousado.
Assim, não é de admirar que, no ano em que se cumpre o 20º aniversário do desaparecimento físico de Zeca, surjam diversos projectos, dos mais diferentes intérpretes, todos eles tendo por base a obra ímpar do criador de Grândola, Vila Morena. É uma obra tão rica e tão plural que fazê-lo se torna, convenhamos, uma tentação. E, aberto como era às novas tendências e a encorajar os mais novos, José Afonso teria decerto aplaudido todos os que, partindo do seu trabalho, procuram ir mais longe – nos arranjos, nas interpretações, nas atitudes – e tentam não apenas recriar as suas músicas, mas, de certo modo, voltar a inventá-las.
É o que se passa com Cristina Branco. Acompanhada por um conjunto de músicos de excepção (que são também responsáveis pelos arranjos das dezasseis canções que integram este trabalho), Cristina não se limita a ser a voz, mas procura igualmente dar corpo às músicas que interpreta. Fá-lo com zelo, grande entrega e um talento exemplar. Além disso, não se limitou a escolher algumas canções de Zeca, mas escolheu estas, o que torna o desafio ainda mais difícil: é que, se cantar José Afonso nunca é fácil, interpretar este conjunto de temas constitui um risco que só um(a) grande intérprete consegue vencer.
Ora a Cristina, já o sabíamos, é uma grande intérprete. É-o, pelo menos, desde há dez anos, quando se revelou publicamente como cantora. Cantora de fados, numa primeira fase, mas que rapidamente mostrou que queria (e podia) ser muito mais do que isso. Que já seria bastante – mas não o bastante, nem para ela, nem para nós.
Dona de uma voz clara e personalizada, senhora de um estilo próprio, a Cristina não é, nem quer ser, uma cantora igual às outras. Mas também não tem de fazer nada de especial para ser diferente: basta-lhe ser como é, sem afectações e sem se deixar corromper pelos vícios que fizeram com que várias fadistas da era pós-Amália se tornassem como que clones umas das outras. Felizmente, a Cristina resistiu a essas tentações de facilidade e por isso aí está agora, tal como é: inteira, consistente, respeitada pelos seus pares e, mais importante, pelo seu público. Afinal, não há nada mais difícil do que a simplicidade, como nos ensinou o Zeca – e como nos mostra a Cristina.
A experiência agora concretizada de dedicar um concerto à música de José Afonso é o resultado lógico de um percurso, deste percurso de Cristina Branco. Na verdade, a música de Zeca está presente desde o início no trabalho e na vida da cantora: logo na sua primeira gravação de estúdio, o álbum «Murmúrios», cantou As Pombas, e mais recentemente, em «Ulisses», nos brincou com uma primeira e muito fiel versão de Era Um Redondo Vocábulo, uma das mais emblemáticas e mais complexas canções de José Afonso.
Tenho para mim que o mais difícil de cada vez que alguém pretende fazer novas versões de temas antigos – sobretudo de canções tão marcantes como são, por regra, todas os de Zeca – é que não basta ser fiel à forma e ao conteúdo dos originais, mas é sobretudo importante manter intacto o seu espírito. Porque cada canção tem uma alma própria, que é preciso respeitar e manter intacta, por maiores que sejam as transformações, legítimas, que o corpo possa sofrer. E é isso que se sente neste concerto: cada tema aparece numa versão remoçada, criativa e, frequentemente, muito arrojada. Em alguns casos haverá decerto quem questione as soluções
adoptadas – que foram estas, mas poderiam com igual legitimidade ser outras – mas a verdade é que, em todas as interpretações, a alma da canção está lá.
Viriato Teles

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TestemunhosViriato Teles
19/02/2007By AJA

Vinte anos sempre com Zeca

Duas décadas já se passaram sobre o desaparecimento físico de José Afonso, e no entanto parece que foi ontem. Apesar disso, desde essa triste madrugada de Fevereiro de 1987, o mundo mudou como nenhum de nós podia então imaginar que mudasse. Desde o fim da União Soviética – que, nessa altura, quase todos nós ainda acreditávamos ser eterna ou, pelo menos, muito duradoura – até à unipolarização dos dias de hoje e à consequente submissão do mundo à vontade imperial da superpotência sobejante, tudo se tornou bem diferente do que poderia supor-se vinte anos atrás.Vinte anos é a idade de uma geração. E a geração desta idade, afundada em incertezas e com muito menos esperanças do que as que a antecederam, dificilmente consegue vislumbrar uma qualquer «cidade sem muros nem ameias» onde o presente e o futuro façam sentido. Não é uma geração rasca, mas é sem dúvida uma geração à rasca, afogada no quotidiano globalizado do consumo e da precariedade.O mundo mudou imenso, de facto, nestes vinte anos. Mas não tanto que tenha feito com que as canções de José Afonso ficassem fora de moda ou se tornassem meros documentos de um tempo passado. E não só porque universalidade e intemporalidade são duas características centrais de toda a obra de Zeca – as suas músicas de há quarenta anos mantém hoje a mesma frescura e a mesma modernidade que tinham quando foram escritas – mas porque a vida real se encarregou de negar todos os sonhos que, num dia de Abril, chegámos a acreditar que estavam prestes a concretizar-se. Trinta anos depois do «dia inicial», os vampiros e os eunucos voltaram a estar activos e dominantes. E se hoje não temos (ainda) um outro avô cavernoso a comandar as nossas vidas, é só porque a mãe Europa não deixa. A verdade é que muitos dos pressupostos políticos e sociais que ditaram a criação de tantas canções do Zeca voltaram a instalar-se no nosso quotidiano. E também por isso estas palavras permanecem tão dolorosamente actuais.Mas não é por isso – não só por isso – que estas canções se mantêm dentro do prazo de validade. A verdade é que todas elas possuem essa qualidade única que distingue os grandes mestres dos criadores vulgares: a capacidade de resistir ao tempo e de o ultrapassar. Re-ouvindo hoje o legado de José Afonso, dificilmente encontramos os chamados temas «datados». E no entanto eles existem (sobretudo nos discos da segunda metade da década de 70, muito marcados pelas lutas do período revolucionário), mas as marcas temporais das situações concretas que lhes deram origem não chegam para fazer com que, actualmente, essas músicas percam o interesse ou se nos apresentem como meros documentos testemunhais de uma época.Pelo contrário: as canções de Zeca, mesmo aquelas que reflectem e retratam determinados episódios ou momentos históricos específicos, conseguem sempre ter uma dimensão musical e poética que não se confina nunca ao seu próprio tempo. Desde «A Morte Saiu à Rua» até ao mobilizador «Coro da Primavera», todas elas foram capazes de resistir ao grande juízo do tempo e se nos apresentam hoje como obras tão ou mais modernas do que muitas produções dos nossos dias. E a prova está na quantidade de jovens músicos que continuam a ter em Zeca uma referência essencial.É tudo isto que esta exposição também nos recorda, a par com a evocação de uma vida ímpar de um ser humano excepcional, política e socialmente comprometido com os mais nobres ideais. A tudo isto acresce o facto de se tratar de uma iniciativa com a marca de uma instituição que fez história e ocupa um lugar de destaque no universo cultural português: o MC-Mundo da Canção, que desde há quase 40 anos tem desempenhado um papel central na divulgação da melhor música que se faz em Portugal e no Mundo. Tal como o Zeca – que, vinte anos depois, teima em permanecer vivo através das palavras e da música que hoje são património de todos nós – também o MC se recusa a morrer e promete continuar. De pé, enfrentando todas as adversidades, disposto a resistir, sempre. Ou, pelo menos, enquanto há força.

Viriato Teles

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Viriato Teles
10/06/2006By AJA

Contas à vida – Viriato Teles

Uma reflexão a vinte vozes sobre os 30 anos do PREC

Entrevistas com Alberto Pimenta, Alice Vieira, António Pinho Vargas, Baptista-Bastos, Edmundo Pedro, Fausto Bordalo Dias, Fernando Relvas, Francisco Louçã, Isabel do Carmo, João Soares, José Mário Branco, José Medeiros, Luís Filipe Costa, Manuel Freire, Maria Teresa Horta, Mário Alberto, Padre Mário de Oliveira, Odete Santos, Otelo Saraiva de Carvalho e Vasco Gonçalves.

Edição SeteCaminhos, 2005

http://viriatoteles.com.sapo.pt/

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BibliografiaViriato Teles
12/04/2006By AJA

O humor na Música popular portuguesa

Obra de Viriato Teles, onde se incluem os temas de José Afonso: “Gastão era perfeito”, “Nefretite não tinha papeira”, “O homem da gaita”, “Os meninos nazis”, “Viva o poder popular”.
Esta obra pode ser consultada na AJA e, à semelhança d’ “A música popular na obra de José Afonso” de Mário Correia, fazem parte da colecção “Cadernos de música popular portuguesa” da Câmara Municipal da Amadora.

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EntrevistasViriato Teles
10/02/2006By AJA

O que é preciso é criar desassossego

A conversa que se segue aconteceu em finais de Novembro de 1985, por ocasião da gravação de Galinhas do Mato, e foi originalmente publicada no Se7e. Foi das últimas entrevistas que José Afonso concedeu, numa altura em que o seu estado de saúde se agravava dia após dia. Apesar disso, falava do futuro com algum entusiasmo e uma força interior que quase faziam esquecer a enfermidade sem cura que o atormentava.
A sua inclusão no livro Zeca Afonso: As voltas de um andarilho justifica-se, a meu ver, por isso mesmo, por esse sentido dialéctico exemplar que as suas palavras transmitem. Propositadamente, mantive intacto o diálogo original, apesar do carácter datado e circunstancial de algumas das suas declarações – nomeadamente as relativas a questões de ordem política, como o seu apoio à candidatura presidencial de Lourdes Pintasilgo, cuja campanha então se iniciara.

Parte significativa desta conversa refere-se, como é óbvio, ao derradeiro disco de José Afonso, produzido por José Mário Branco e Júlio Pereira, que também nele participam como intérpretes, ao lado de Helena Vieira, Né Ladeiras, Luís Represas, Janita Salomé e as duas filhas deste, Marta e Catarina. Foi «um trabalho de equipa muito bonito», nas palavras de Zé Mário. «Uma coisa que transcendeu a própria ternura», acrescenta Júlio Pereira. Tal como a cavaqueira que se segue.

– Este disco vai, se calhar, surpreender muita gente, que te julgava acabado para a música…

–Talvez. Eu, a princípio, achei que não valia a pena, não estava a ver-me assim no papel de compositor. Por mim punha uma pedra no assunto e ficaria o ‘Como Se Fora Seu Filho’ o meu último disco. Mas a verdade é que tinha por aí algum material, disperso por algumas cassetes, que, se calhar era pena ficar aqui perdido. E achei que as pessoas que estavam mais próximas de mim, até em termos de assiduidade, de acompanharem e se interessarem pelas coisas que eu aqui tinha eram, de facto, o Zé Mário Branco e o Júlio Pereira. E foram eles que insistiram nessa ideia, que seria necessário utilizar essas músicas para um novo disco.

– Além do que agora foi gravado, existem ainda outros inéditos…

– Sim, algumas coisas. Umas que ainda são dos meus primeiros tempos de professorado, em Setúbal, outras feitas em África ou no barco, quando fui colocado em Moçambique. Há coisas que são só pequenos trechos musicais, não são propriamente canções.

– Este disco tem também canções dessa altura?

– Tem. O tema ‘Galinhas do Mato’, por exemplo, é, talvez, o mais representativo. Tem uma certa sugestão africana de ritmos e coros, é uma música que eu pus na prateleira, à espera de um dia ter um texto que se enquadrasse. E há o ‘Tu Gitana’, uma música que eu fiz com uma ‘letra-robot’, a letra de uma canção de Vila Viçosa que eu cantei muito em Coimbra, no grupo que deu origem ao Coral da Faculdade de Letras. Descobri que essa letra se coadunava perfeitamente com aquela música que eu tinha feito.

– É essa que é cantada, no disco, pela Helena Vieira…

– É e, aliás, acho que é admiravelmente cantada. Estas duas músicas são talvez de 1968, portanto anteriores a quase todas as que eu fiz para o ‘Como Se Fora Seu Filho’. A mais recente é, talvez, a ‘Alegria da Criação’, que foi feita para a peça Fernão, Mentes?”.

– Dizia eu que este disco pode surpreender muita gente. Até porque é feito segundo um esquema que creio ser mais ou menos inédito em Portugal: é, digamos, um disco de autor, com a maioria das interpretações entregues a outros cantores…

– Isso é uma coisa que, para lá das condicionantes que obrigaram a que assim fosse, me dá um certo contentamento. Até porque, neste caso, se pode escolher a voz apropriada para cada tipo de canção. O ‘Tu Gitana’, por exemplo, nunca poderia ser cantado por mim, nem mesmo quando eu tinha voz para cantar. Tem uma tessitura, uma escala de tal ordem que só uma mulher com uma voz educada como a Helena Vieira a poderia cantar.

– O Júlio Pereira e o José Mário Branco coordenaram o trabalho de arranjos. Vocês mantiveram-se em contacto com regularidade?

– Sim, sim. O Júlio, por exemplo, não dava um passo que fosse fora do meu conhecimento. E a ‘Alegria da Criação’ é uma canção cujo arranjo coral e instrumental se deve ao Zé Mário. É claro que muito embora eu tenha concebido muitos dos arranjos, ao longo deste meu trabalho, não conseguiria fazer este disco sem a participação do Júlio e do Zé Mário, que foram uns excelentes colaboradores. Estávamos em contacto telefónico quase permanente e, no estúdio, estive regularmente a par do que se foi fazendo. Mas o trabalho de bases foi feito por eles, embora eu soubesse o que quer o Júlio, quer o Zé Mário iam fazer. Eles gravavam previamente o que faziam e eu dava sugestões a partir daí, imitando sons, dando imagens, sei lá… É muito, difícil explicar isto tudo, é um processo empírico…

– Estás, portanto, satisfeito?

– Eh, pá! Pela primeira vez, isto deu-me um prazer bastante grande. Talvez pelo facto de serem outras pessoas a cantar, mas também pelo tipo de músicas… O ‘Agora’ ou o ‘Galinhas do Mato’, por exemplo, eram coisas que estavam na prateleira e cheguei a admitir não poder gravar. ‘Galinhas do Mato’ é uma canção demasiado africana, demasiado ligada às minhas memórias de infância, e pensei que não encontraríamos uma solução instrumental para ela. Mas, afinal, com a ajuda de um computador, conseguiu-se.

– Um computador?

– Um computador, nas mãos do Júlio Pereira. Mete sons vários, desde o kissange, percussões e outros sons mais ou menos electrificados ou plastificados mas que são exactamente tipo som artesanal. E tivemos que recorrer às vozes das mulheres do Coro de Oeiras, um bocadinho modificadas, de modo a criar aquele ambiente africano. E, além disso, contámos com as filhas do Janita que, no caso presente, parecem duas pretinhas a cantar… Eu fiquei surpreendido porque, no final, o resultado é de tal ordem que eu me senti transportado aos meus quatro ou cinco anos, quando estive no planalto do Bié. E há outras coisas: uma música chamada ‘Tarkovsky’, em que utilizámos quase arbitrariamente o nome do cineasta russo porque, a dada altura, eu pensei criar um ambiente, num coro sem palavras, que tivesse um pouco de África e da Rússia. Imagina-te no ‘Andrei Rubliov’ ou, de uma forma geral, nos filmes do [Andrei] Tarkovsky. E lá se fez, com a ajuda da trompa do Adácio Pestana e da voz do Janita.

– Essa música representa, de algum modo, uma homenagem ao Tarkovsky?

– De certo modo. Até porque os filmes dele me impressionaram bastante e deixa-me dizer-te que estou convencido que dificilmente ele poderia fazer, no Ocidente, os filmes que, apesar de todas as limitações que teve, fez na União Soviética. Aquele ‘peso’, aquela ligação telúrica à ‘mãe Rússia’, aqueles personagens espantosos que ele criou, tudo isto é difícil reproduzir aqui, quer na Europa, quer nos Estados Unidos. Por isso a música também é uma homenagem. Sabes?, eu quando falo de coisas de música, falo também muito de questões extramusicais, para dar o ambiente. Socorro-me muito de imagens, de espaços e até da mímica. Quando estou diante de um tipo que vai cantar as minhas coisas bamboleio-me, faço caretas para ele se situar na interpretação que idealizei. Foi um trabalho de equipa excelente, sem qualquer tipo de asperezas, com um entendimento espantoso entre a malta…

– Coisa que nem sempre é fácil, na música…

– Pois não. Isto é tudo um bocado confuso, o que nós fazemos é sempre uma coisa muito periclitante: meter em três minutos uma canção e conseguir um efeito único… Mas que a música, entre aspas, ‘popular portuguesa’ continua viva acho que sim. E a prova é que têm saído coisas, cada músico tem qualquer coisa de seu, não se confunde com outro. Há uma marca pessoal, que é desejável.

– ‘Música popular portuguesa’ entre aspas? Porquê?

– Porque esse conceito é muito polémico. Não sei se lhe chame música de texto, música social, música de intenção política, música de intervenção. São tudo conceitos muito indefinidos, mas música popular é ainda mais polémico. Senão voltamos outra vez para a discussão sobre música popular e música tradicional e eu não quero entrar nisso. Prefiro dizer ‘a música da minha área’ ou ‘da nossa área’, abrangendo um conjunto de colegas ou ex-colegas que sempre estiveram nestas coisas, que sempre tiveram um percurso próprio.

– A própria intenção e a intervenção política são hoje, por vezes, postas de parte por alguns colegas teus…

– Pois é, mas também não quero entrar nessa área. Isso é um problema de consciência. Eu sempre disse que a música é comprometida quando o músico, como cidadão, é um homem comprometido. Não é o produto saído do cantor que define esse compromisso mas o conjunto de circunstâncias que o envolvem com o momento histórico e político que se vive e as pessoas com quem ele priva e com quem ele canta. Tipos como o Daniel Viglietti, por exemplo, são cantores com um inegável perfil político e militante, também. Se isso é viável e de que maneira não sei…

– Mas tu, por exemplo, continuas activo a comprometido politicamente. Ainda há poucos dias apelaste ao voto na APU para as eleições autárquicas…

– Não consigo nem pretendo estar fora das coisas. Este meu apelo ao voto na APU, não é um apelo paternalista, mas fruto da constatação directa, através da minha experiência como cidadão, que as vereações mais honestas, que dão prioridade a coisas essenciais como saneamentos básicos, escolas e jardins de infância, são efectivamente as da APU. Posso citar Coruche, Moura, Seixal, Mértola… E, tomando estes casos como padrão, eu não hesito em dizê-lo às pessoas, se é que a minha presença tem alguma força. Uma coisa é a minha actividade musical, a fruição lúdica da música, outra coisa é o homem político que sou. Agora como é que as duas coisas se harmonizam, ainda estou para saber…

– As Presidenciais estão também a chegar. Já tomaste posição?

– Decidi ontem [22 de Novembro de 1985] apoiar a engenheira Maria de Lourdes Pintasilgo. A política não é o reino do absoluto, estamos numa conjuntura que não aponta para nenhuma acção popular e revolucionária. Afirmar isto era pura demagogia. Portanto eu apoio um candidato que dê margem para determinadas movimentações a que eu chamo de contra-poder… E começo a desconfiar a sério da rigidez partidária. Entendo que, efectivamente, há partidos mais aconselháveis que outros e sou de opinião que não há conciliação entre uma perspectiva de esquerda e uma perspectiva de direita, autoritarista e reaccionária. Continuo a perfilhar convictamente estes pontos de vista, mas isso não me impede de apoiar uma personagem interessante, de grande carisma pessoal como é a Lourdes Pintasilgo. Que, a meu ver, está muito mais ligada a uma conotação de esquerda, de mudança, do que os outros. Há quem se esqueça que o Salgado Zenha foi o arauto do antigonçalvismo, do antipêcêpismo, da ‘Carta Aberta’. E que foi pela boca dele que se fizeram os mais duros ataques à CGTP. Há quem se esqueça, mas eu não tenho falta de memória, pelo menos nestas coisas… Podes escrever isto tudo que eu disse…

– E lá estamos nós a falar de política…

– Como é que da política se chega à música e da música à consciência? Eh, pá, eu acho que as coisas podem estar ou não ligadas, depende do lado para onde estivermos virados. Mas o que é preciso é criar desassossego. Quando começamos a procurar álibis para justificar o nosso conformismo, então está tudo lixado! E, quando isso acontecer comigo, eu até agradeço que os meus amigos me chamem à atenção e me critiquem. No campo da música continuo interessadíssimo, nesta área e fora dela. Acho que, por exemplo, é necessário que exista um grupo como o Opus Ensemble, um músico como o Victorino d’Almeida. Ou como o Rão Kyao, embora nem sempre goste das últimas coisas dele – mas isso é outro problema. E, na área do chamado rock português, em relação à qual eu sou muito reticente, há, por exemplo, os Jáfumega, que eu vi há tempos e de quem gostei bastante, fiquei sinceramente impressionado. Estou interessado, sim, pelo que por cá se faz. Acho que, acima de tudo, é preciso agitar, não ficar parado, ter coragem, quer se trate de música ou de política. E nós, neste país, somos tão pouco corajosos que, qualquer dia, estamos reduzidos à condição de ‘homenzinhos’ e ‘mulherzinhas’. Temos é que ser gente, pá!

Entrevista de Viriato Teles
Se7e – 27 de Novembro de 1985

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TestemunhosViriato Teles
10/02/2006By AJA

Um pássaro igual a ti

Provavelmente, o mundo está mesmo feito às avessas! Anda um tipo como este Zeca a vida inteira a dar a voz e o corpo pelas causas dos outros, passam-se anos a fio de viola às costas a cantar as utopias sonhadas no dia-a-dia, e acaba tudo assim. Estupidamente, numa madrugada de chuva indecisa, como se nada tivesse acontecido antes, como se tudo o passado não fosse senão um sonho longínquo.
Nós, no entanto, sabemos que não foi um sonho. Crescemos a ouvir Menino de Oiro e Os Vampiros, aprendemos de cor os versos de Vejam Bem e de Grândola. Aprendemos, com o Zeca Afonso de todos os cantares andarilhos, a saborear o gosto dos encantos e das emoções, a desejar e a lutar pelas cores da liberdade.
Com Zeca e os seus companheiros aprendemos, ainda, que é muito menos fácil formular perguntas que encontrar respostas. Que as veleidades da ‘vida artística’, na qual ele nunca se encaixou, são como os foguetes de romaria, que desaparecem no ar após um instante de brilho e que, portanto, o importante é estar vivo, ter como única certeza a inquietação permanente.
Há coisas assim, que parecem impossíveis. Depois vêm as inevitáveis cortesias-de-velórios, mas quanto a isso estamos conversados. Afinal somos um país de homenagens póstumas, não é? Que o digam o Adriano, Jorge de Sena, Fernando Pessoa. Que o diga agora o Zeca, ele que foi sempre tão dado a encolerizar-se com estas coisas.
Veja-se a Televisão, que esperou a sua morte para mostrar, lacrimosa, as suas cantigas. Veja-se o poder, que tudo lhe negou em vida, para descobrir agora (só agora, ó céus?) que, afinal, Zeca é um símbolo da democracia e da resistência antifascista! E proclama hossanas em sua glória, como se já não bastasse a dor que ficou.
Felizmente, os que aprenderam com Zeca as mais belas lições de liberdade já se aperceberam também de todo o ridículo que se esconde por detrás destes lamentos hipócritas. E sabem que José Afonso, poeta e trovador, não é dos que morrem assim, sem mais aquelas.
Sabemos que o sonho permanece, em cada esquina, em cada rosto, em bisca da terra da fraternidade. Quanto a ti, Zeca, faz como sempre fizeste até aqui: não lhes ligues, ri-te deles, lá desse cantinho onde agora te encontras, provavelmente a contar ao Adriano as últimas cá de baixo. Afinal, já sabes como é: o mundo está mesmo feito às avessas. Se assim não fosse ainda agora por cá te teríamos, a mandar vir como era teu hábito contra “essa cambada engravatada e escolopêndrica” que insiste em controlar a gente. E até vão fazer de ti nome de rua, imagina!
Olha: lá fora, aqui mesmo a dois passos desta mesa de onde te recordo, há um pássaro a recolher-se da chuva que, teimosa, vai caindo. Ou serão lágrimas? Seja como for, o pássaro é igualzinho a ti: por mais que tentem, ninguém consegue impedi-lo de voar.
Viriato Teles

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