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Entrevistas
Home Archive by Category "Entrevistas"

Category: Entrevistas

Entrevistas
21/05/2011By AJA

Entrevista a José Afonso em 1984

    José Afonso entrevistado por Daniel Ribeiro e Belino Costa em 1984.
    Uma entrevista apresentada a 22 de Maio de 1990 no programa “Via África” .

    [audio:https://aja.pt/programasradio/ViaAfrica.mp3]

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    Entrevistas
    18/05/2011By AJA

    Entrevista a José Afonso de 31.12.1984

      Do arquivo do Diário de Lisboa, disponível na Fundação Mário Soares. Ler entrevista completa.
      Obrigado pela dica, LD.

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        BibliografiaBiografiaEntrevistasViriato Teles
        16/01/2010By AJA

        “As Voltas de um Andarilho” na rádio

        Viriato Teles entrevistado nos programas “À Volta dos Livros”, de Ana Aranha e “A Força das Coisas”, de Luís Caetano, a propósito da reedição do seu livro “As Voltas de um Andarilho”.

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        EntrevistasViriato Teles
        30/11/2009By AJA

        Entrevista a Viriato Teles pelo blogue Portugal Rebelde

        Depois de Lisboa, Viriato Teles vai estar no próximo dia 5 de Dezembro na cidade do Porto, para apresentar a reedição do livro “As Voltas de um Andarilho – Fragmentos da vida e obra de José Afonso” (Assírio & Alvim, 2009). O médico e guitarrista Rui Pato, que foi o principal e mais regular acompanhante de José Afonso nos anos 60, estará presente nesta apresentação. O Portugal Rebelde esteve recentemente à conversa com Viriato Teles e revela-lhe agora em “Discurso Directo” algumas das razões da edição de “As Voltas de um Andarilho”.
        Portugal Rebelde – O que podemos encontrar de novo na reedição de “As voltas de um andarilho – Fragmentos da vida e obra de José Afonso”?
        Viriato Teles – Além de algumas correcções de pormenor, acrescentei alguns outros textos e um novo conjunto de fotografias, incluindo algumas que até agora nunca tinham sido publicadas. Destaco sobretudo as fotos do Carlos Gil, um grande repórter fotográfico, meu amigo e do Zeca, infelizmente também já desaparecido. E as do Luís Paulo Moura tiradas durante o último espectáculo de José Afonso, em Maio de 1983 no Coliseu do Porto. São, na sua maioria, retratos que até hoje nunca tinham sido publicados. Além disso, incluí uma relação, tão exaustiva quanto possível, das versões de temas de Zeca gravados por outros intérpretes, desde os anos 60 até hoje. Consegui recensear à volta de 300 versões, incluídas em mais de 200 discos gravados por diferentes artistas de Portugal, Brasil, Espanha, França, Alemanha, Estados Unidos. Na verdade, a obra de Zeca é muito mais universal do que se pensa, e este levantamento prova de que ele é seguramente um dos autores portugueses mais cantados pelo mundo fora. O que não espanta, se pensarmos naquilo que a “revolução dos cravos”, que é como o nosso 25 de Abril é conhecido fora de Portugal, representou para o mundo nos anos 70. Não é exagero dizer que foi um dos mais importantes movimentos revolucionários da segunda metade do século XX, e José Afonso, através da “Grândola” e não só, foi o seu mais genuíno porta-voz.
        PR – Sei que seguiu muito de perto as voltas deste “andarilho”. Que memórias guarda do homem e do músico José Afonso?
        VT – Além do criador genial que todos podemos ainda hoje apreciar, era um ser humano de excepção e uma pessoa de grande coerência ética e estética. Tê-lo conhecido e ter privado com ele em alguns momentos da sua vida foi, obviamente, um privilégio e contribuiu muito para a minha formação. Guardo uma recordação muito viva do modo como se relacionava com o mundo, da sua inquietude permanente, do seu enorme sentido de humor. Tudo isso ajudou a fazer de mim aquilo que sou hoje. Porque nós somos quem somos, mas somos também fruto daquilo que nos rodeia e do que colhemos das pessoas que cruzam as nossas vidas, e nesse sentido eu reconheço que tive sorte, já que conheci algumas pessoas fantásticas. E não falo apenas de gente que conheci episodicamente no decurso da minha vida profissional, mas de alguns amigos que fui conquistando dentro e fora dos jornais, como o Adriano Correia de Oliveira, o Fernando Assis Pacheco, o Carlos Paredes, o Afonso Praça, a Edite Soeiro, o Miguel Serrano, o Luís Pignatelli – para citar apenas alguns dos que já partiram. Todos eles, cada um à sua maneira, foram importantes para mim.
        PR – Como é que explica que as músicas de José Afonso de há 40 anos, mantenham a mesma frescura e modernidade que tinham quando foram escritas?
        VT – Isso acontece porque, por um lado, “o Zeca era mesmo genial”, como muito bem explica o Sérgio Godinho no prefácio do meu livro. As canções do Zeca, mesmo as mais datadas, mostraram ser capazes de resistir ao tempo de um modo que só excepcionalmente acontece no mundo da música popular. Um ouvinte que chegasse agora de Marte poderia pensar que o “Cantigas do Maio” foi gravado na semana passada, porque não há nada nesse disco que acuse o “peso” da idade. E isso é o que distingue os génios dos criadores vulgares. Por outro lado, as próprias palavras que o Zeca canta mantêm, infelizmente, toda a actualidade, e isso também talvez seja uma razão para que muitas pessoas continuem a identificar-se com estas canções, que falam de problemas que nunca deixaram de existir. Porque ainda há muitos “meninos do bairro negro” e continuam a existir uma data de “vampiros”, mesmo que por vezes andem por aí de face oculta…
        PR – Que canções do “Zeca” escolhia como músicas da sua vida?
        VT – Ui! São tantas que a escolha se torna virtualmente impossível. Dependendo da altura, poderia escolher o “Menino d’Oiro”, que é um tema referencial da minha infância, ou a “Canção de Embalar”, que foi a primeira música do Zeca que dei a ouvir ao meu filho. Ou o “Por Trás Daquela Janela” ou o “Fui à Beira do Mar” ou o “Maio Maduro Maio”, porque todas elas são das canções mais belas que conheço. Ou o “Nefretite Não Tinha Papeira” e o “Primo Convexo”, porque também gosto muito da vertente surrealista do Zeca. Sinceramente, é uma escolha muito complicada…
        PR – “A música é comprometida quando o músico, como o cidadão, é um homem comprometido”. Foi este o caminho que José Afonso nunca deixou trilhar?
        VT – Sem dúvida. Ele manteve-se coerente e lúcido até ao fim, nunca deixou de lutar pela “cidade sem muros nem ameias”, a “capital da alegria” que foi, afinal, a razão de ser da existência de todos os que procuraram fazer do mundo um lugar melhor para se viver. E se, por um lado, estou de acordo com os que dizem que não se pode reduzir José Afonso à intervenção política – porque a sua música vale por si mesma, independentemente de outras razões – também creio que o oposto é igualmente redutor. Não se pode olhar para a música de Zeca e esquecer o resto, as circunstâncias que lhe deram origem. Ou seja: nem o revolucionário deve sobrepor-se ao artista, nem o músico deve fazer esquecer o militante. Se houve coisa que ele nunca quis ser foi uma unanimidade, e não podemos ignorar o carácter utilitário que ele sempre atribuiu à sua música, como factor de agitação de massas. Escolheu o lado esquerdo da vida, viveu e morreu nele, e é aí que deve continuar.
        PR – José Afonso morreu há mais de duas décadas. Sente que há uma nova geração, que ainda não descobriu a vida e a obra deste “andarilho”?
        VT – O Zeca morreu há 22 anos, mas de certo modo está hoje mais vivo do que nunca. Creio que a nova geração já o descobriu, pelo menos em parte, e a prova disso está em que nos últimos dez anos foram gravadas tantas versões de músicas dele como as que foram feitas ao longo das duas últimas décadas do século passado. Isso acontece pelas razões que apontei atrás: a modernidade que esta música continua a ter e que exerce um natural fascínio junto dos mais novos, mas também, julgo eu, porque muitos desses jovens se identificam com as preocupações expressas nestas músicas. Claro que nem todos apreendem o Zeca da mesma maneira, e não há mal nenhum nisso, bem pelo contrário. O importante é que quem hoje parte para a redescoberta das suas canções esteja disponível para ver não apenas a letra e a música, mas também a “alma” que existe em cada uma delas.
        PR – O “Zeca” será recordado para sempre como um símbolo da liberdade?
        VT – Mal estaremos quando assim não for. Espero bem que sim, porque o é, de facto. E não só em Portugal. Ainda há poucos dias, numa entrevista na RTP 2, o Luís Sepúlveda falava da importância que José Afonso e a revolução portuguesa tiveram para os chilenos, durante os tempos difíceis da ditadura de Pinochet, e que a “Grândola” era ouvida em segredo e cantada nas prisões, como um hino de resistência. Na pesquisa que fiz para este livro encontrei mais de 60 versões da “Grândola”, gravadas por artistas de pelo menos uma dúzia de países, desde Espanha à Finlândia, Brasil, Holanda, Chile, Alemanha, Suécia, Estados Unidos… Em versões instrumentais, corais, de jazz, rock, sei lá! Além das que nunca chegaram a ser gravadas e outras que provavelmente existirão e ainda não descobri. Isto ajuda a compreender a dimensão universal deste homem e desta obra. Em Portugal habituámo-nos a pensar em ponto pequeno, e por isso já ouvi dizer que o Zeca é «o nosso Pete Seeger» ou «o nosso Bob Dylan». Mas eu creio que é o inverso: com todo o respeito que tenho por ambos, eles é que são os Zecas norte-americanos…
        Portugal Rebelde

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        EntrevistasFrancisco Fanhais
        20/06/2009By AJA

        Entrevista a Francisco Fanhais

        in “A nosa terra”, 18.6.09 (semanário galego, nº 1364)

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        EntrevistasVídeo
        05/04/2009By AJA

        Novo vídeo no canal do Youtube

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        Entrevistas
        08/07/2007By AJA

        Zeca Afonso: conjugar o verbo ser

        Excertos substanciais da entrevista concedida por José Afonso ao jornalista e escritor José Amaro Dionísio em Junho de 1985.

        É belo, talentoso e honesto – e declinar esta adjectivação em português conduz facilmente a esse estado de orgulho e humildade que a história cultural do país tem rematado demasiadas vezes pela tragédia e quase sempre pela excomunhão. Aqui como em qualquer parte do mundo tirar-se-ia maior proveito do ser canhestro, medíocre e torpe, a trindade gloriosa dos winners que nesta viragem dos dias os media de bom senso e gosto corrente à falta de ideais um pouco menos fossilizados voltam a identificar com a trafulhice da política e dos negócios. Contra tal maré José Afonso fez claramente questão de cultivar duas ou três ideias sem cotação na bolsa: convicções, a palavra dada, a abjecção ao parasitismo ideológico e institucional. Hoje como ontem, aqui como não importa onde, há poucas pessoas assim em cada geração. A sublinhá-lo não deixa de ser curiosa a comédia que num país socialmente aviltado e politicamente traficado, onde os princípios sofrem sorrateiro escárnio no dicionário do lucro, José Afonso tenha sido uma referência ética para essa geração de esquerda que hoje está no poder, nos vários poderes, para aí cultivar a mistificação intelectual, a desonestidade moral e uma repugnante falta de escrúpulos a troco das migalhas da “democracia burguesa” que nos tempo áureos do seu esquerdismo tal esquerda acusava o intérprete de Cantigas de Maio de defender. E acusava-o porquê? Porque em pleno fascismo ele participava em reuniões e espectáculos de agitação ao lado de pessoas ou integrando organizações que para os puros da revolução e do marxismo-leninismo-maoísmo não estavam à altura dos horizontes vermelhos que profetizavam. Activista de “uma festa colaborante”, bateu-se por ela. Terno e agressivo, sarcástico e sensual, cantor de raízes populares e de Edmundo Bettencourt, credor de um trabalho fortemente personalizado mas sempre aberto à criação colectiva, sentimental irónico, andarilho dos grandes espaços, implacável quando confrontado com a hipocrisia, humilde, precário, contraditório e teimoso mas nunca sectário, atrevido frente à doença, José Afonso vive como só os melhores sabem viver: solitário e solidário, intransigente e dialéctico, leal nos ódios e nas paixões. O resultado ele sabe qual é:

        Tudo está vazio e morto
        Na abalada dos caminhos
        E os homens estão sozinhos.

        E di-lo à sua maneira nesta entrevista. A biografia deste país excessivas vezes subalterno é flagrante na persistência de um Portugal dos Pequeninos, feito de episódios a submissões estrangeiras, impérios castrados, fugas reais, governos humilhantes, obediências servis, uma congénita incapacidade de revolta colectiva e individual. Mas há também um Portugal dos grandes, habitado por essas resistências discretas que ao indecoro do salve-se quem puder tem preferido ao longo da história o desenlace da solidão moral e física, do exílio interior e exterior, muitas vezes do suicídio. José Afonso é uma criatura desse Portugal dos grandes. Sê-lo-á para sempre, porque homens assim nunca morrem. (…) Fisicamente debilitado aos 55 anos, ergue no entanto a mesma cabeça altiva que pequenas e grandes multidões conhecem de três décadas de cantorias e confrontos, dezena e meia de álbuns, centenas de milhar de discos, espectáculos sem conta, várias vezes cantor do ano e vários discos de ouro, bandeira enfim do 25 de Abril. Pessoalmente lembro-me dele de calças arregaçadas a apanhar caranguejos na Ria de Faro em certos fins de tarde mais soalheiros, era então professor numa escola da cidade e eu seu aluno – que apenas agora, quase trinta anos depois, volta a encontrá-lo cara a cara. Um dia, talvez na cantina, ouvi-lhe uma coisa que na altura me pareceu despropositada mas cujo sentido não tardaria a perceber – e que em 1968 se tornou um facto. Algo como isto: se correrem comigo do ensino não há problema, agarro numa viola e vou cantando por aí a fora. Estávamos em 1961 e ele era praticamente desconhecido.

        Direita, esquerda. São noções que ainda determinam a sua relação com o mundo?

        Não de forma maniqueísta. Nunca fiz isso e hoje ainda menos. Estamos sempre a mudar dentro daquilo que somos profundamente. A verdade é que a minha formação de origem é cristã. Até ao fim da adolescência eu ia regularmente à missa, assistia ao santo ofício, confessava-me. Hoje passa-se algo como o regresso às origens, não porque me tenha tornado de novo católico praticante, evidentemente, mas percebo que no fundo tenho uma concepção religiosa do universo. Vi um dia destes O Evangelho Segundo São Mateus, de Pasolini, e fiquei perturbado. E estou a ler autores como São João da Cruz e São Francisco de Assis. Há uma espécie de reencontro com os ensinamentos de Cristo, não o Cristo institucional e eclesiástico da minha infância, mas o Cristo dos que têm fome e sede de justiça.

        E o marxismo, o leninismo, o maoísmo, a extrema esquerda?

        Há um cruzamento dos dois tipos de formação. O marxismo, em sentido lato, não esgota o que eu penso, muito embora continue a reconhecer as suas descobertas fundamentais, como o conceito da alienação, a mais-valia, até mesmo a luta de classes. E há ainda o existencialismo. Fiz aliás a tese de licenciatura, má, sobre Sartre, e em particular sobre O Ser e o Nada. De resto nunca disse que era marxista, stricto sensu – aliás seria incapaz de ler alguma coisa como O Capital, no seu conjunto. O meu envolvimento nas coisas foi sempre de carácter existencial, a partir da observação directa de situações que me revoltaram e que têm a ver com o mundo do trabalho, da família, ou com noções muito gerais como a luta anti-imperialista, o direito dos povos à autonomia, etc. É algo que passa mais pela sensibilidade, pela maneira como cada um se move no mundo, do que por questões de principio ou de filosofia.

        É uma imagem bastante mais tolerante do que aquela que se cola ao seu perfil público.

        Não renego nada do que fiz, mas também não receio corrigir a minha imagem perante mim próprio adoptando atitudes nas quais me sinto bem e combatem os meus álibis internos e autojustificativos.

        Que álibis?

        Finalmente sou um pequeno-burguês, filho de um juiz supremo que fez carreira nas colónias. Isto e uma infância vivida na solidão deixa marca de cuja importância muitas vezes só nos damos conta muito tarde. Quando fui preso tive bem consciência das minhas limitações.

        Que limitações?

        Bem, não estou a fazer uma confissão para que me absolvam, mas tenho mais pés de barro do que se poderá pensar.

        Mas você é tido como um intelectual que sempre esteve do lado oposto ao poder, de todos os poderes, e que age de acordo com as suas convicções. Corajoso e frontal.

        São palavras.

        Enfim, é o que pensa muita gente.

        Frontal, sim. Corajoso, não. O medo foi sempre um sentimento que conviveu comigo. O medo a que se sobrepunha uma sensação de angústia, género “como é que me vou comportar em tal ou tal situação?”. Pouco depois dos Acordos de Alvor fiz uma digressão com o Fausto a Angola e vivemos situações difíceis. Também aí tive medo, várias vezes.

        Disse-se na altura que lhe tinham querido bater em palco.

        Ou mais do que isso. Tudo começou numa conferência de imprensa em que eu defendi o MPLA contra os outros movimentos. A partir daí as provocações acompanharam-nos por todo o lado. Tipos da UNITA, da PIDE, que ainda por lá andavam, da FNLA, etc. Foram uns bons cagaços.

        Mas alguma vez deixou de fazer, por medo, alguma coisa que entendia dever fazer?

        Em geral não. Mas houve uma vez, durante a campanha de Otelo, em 76, o carro dele tinha sido baleado ali para os lados de Lamego e a certa altura põe-se o problema de ir ou não ir a Viseu. Dizem-nos que a cidade estava agitada com uma data de retornados que nos queriam limpar o sebo. Bem, eu fui dos que fez pressão para não irmos, e não fomos.
        (…) Após o 25 de Abril pus-me à disposição das comissões de trabalhadores, moradores, de grupos, para animar as lutas que faziam nos seus locais de trabalho. Então recebia cartas, telefonemas, deputações de facções opostas que reivindicavam a liderança das lutas e a justeza das teorias que apresentavam. Acabei por ser obrigado a analisar montes de documentos antes de decidir se havia de ir cantar ou não ao sítio tal, e como. Mas este tipo de coisas não se passou só comigo, há pessoas que se desgastaram bastante mais. Os tipos do GAC, por exemplo. Ou o Adriano. O Adriano chegava a ter de andar à porrada por essas aldeias fora. Houve casos em que o padre da terra utilizava a missa para avisar a população contra os comunistas que iam chegar. Em Maceira da Nazaré as pessoas puseram-se uma noite ao largo durante o espectáculo, ou na soleira da porta, ou atrás das janelas, empoleiradas, etc, por causa do padre. E cantámos com microfones mais do que rudimentares ligados a cornetas de circo em vez de colunas. Era uma coisa que acontecia com frequência, e se perguntávamos aos organizadores “mas vocês querem que a gente cante com cornetas?”, os tipos admiravam-se muito. “O quê? Vocês duvidam desta aparelhagem? Olhem que isto faz um berreiro dos diabos!”. E fazia, claro. Era um cagaçal de tal ordem que acabávamos por pedir que desligassem aquilo e púnhamo-nos a cantar vira. Apareciam então uns velhinhos do asilo ou coisa parecida que fazem pares à boca de cena e dançavam… Outras vezes, como éramos um grupo que defendia a iniciativa popular, convidámos para cantar quem quisesse. E aconteciam coisas do diabo, do género um tipo a cantar fados marialvas à brava depois de nós termos acabado de fazer uma prelecção a favor da igualdade de sexos. Ou uma voz lá atrás a gritar “A gente quer é gajas!”. Esta das gajas foi num foyer, em Paris, numa sessão para portugueses, marroquinos e espanhóis. Estava a casa cheia. No fim eles vinhem até junto do palco e punham-se a olhar para as nossas mulheres. Os comentários eram de desarmar qualquer um. A pouco e pouco perdi por completo as esperanças de atribuir aos cantores qualquer papel providencial, senti-me mais como uma Supico Pinto de esquerda a distribuir engodos. Uma vez na Marinha Grande estava eu a cantar “Ò meu Potugal tão lindo / Ó meu Portugal tão belo / Metade é Jorge de Brito / Metade é Jorge de Melo” e aparece ao meu lado um espontâneo coxo que à cadência da música atirava a perna incrivelmente longe e gritava “Não há pai para o coxo / Não há pai para o coxo…”. São momentos verdadeiramente memoráveis das campanhas de politização da Música Popular Portuguesa.

        Se voltasse a cantar faria um percurso diferente?

        Não voltaria a cantar.

        Em nenhuma circunstância?

        Em nenhuma circunstância. Para o público, não. Até porque possivelmente não teria nada de novo a apresentar. E acho que as coisas devem acabar quando não adiantam nada. De resto sou obrigado a concluir que o meu trabalho como cantor é menor… A crítica em geral reduz-me ao autor das Cantigas de Maio, o que quer dizer que antes e depois não fiz nada que preste. É uma bela crítica de música, a nossa! Tem-me proporcionado notáveis baboseiras sobre o trabalho de colegas, trabalho esse que em qualquer país decente seria suficiente para afirmar o mérito dum cantor, pelo menos.

        Não voltaria a cantar, é claro nesse ponto e já explicou porquê. Mas está arrependido de ter participado em toda essa actividade de agitação?

        De forma alguma, e que isso fique também claro. Não me arrependo de nada do que fiz. Mais: eu sou aquilo que fiz. Embora com reservas acreditava o suficiente no que estava a fazer, e isso é o que fica. De resto nunca confundi as coisas, sempre disse o que hoje continuo a dizer: uma viola é uma viola, uma canção é uma canção, e não se pode confundir isso com armas e granadas. Nenhum instrumento musical faz tiro curvo.

        Que pode pedir a uma canção então?

        Que faça bem aquilo que tem a fazer, que é do domínio da fruição musical, com o que isso implica de voz, arranjos, ritmos, intenção, energia. No meu caso o que fiz foi procurar conciliar isso com as raízes da nossa cultura musical reflectindo uma certa ordem de preocupações sociais, de solidariedade e afectividade.

        Musicalmente fez o que queria fazer?

        Não. Gostaria de ter trabalhado muito mais na investigação dos instrumentos, das lendas, da música regional. E fiz demasiadas sessões sem concretizar o que queria, como se depreende do que estou a contar.

        Na última fase da sua carreira manifestou desejo de suscitar o interesse dos jovens para o seu trabalho. Em que consistiria essa fase?

        Gostaria de ajudar a mostrar à juventude que há alternativas, no estrito campo da fruição musical, a certas correntes puramente comerciais, como a maior parte do rock que nos metralha os ouvidos de manhã à noite. A música irlandesa nunca passou por aqui, tal como a occitana, a afro-cubana, e mesmo muito da música africana.

        Tem pena de não ter realizado esse trabalho?

        Não. Afinal de contas tudo o que fiz como cantor foi porque não pude continuar a ser professor. Em resumo foi cantor porque deixei de ser professor e finalmente sou coisa nenhuma porque deixei de ser cantor. Estou preparado portanto para renunciar de boa vontade ao que não fiz.

        Esse tom de renúncia não se aplica contudo à política.

        Não, embora hoje confira um papel mais modesto à luta política. Pode modificar estruturas, mas não remove uma sociedade, não transforma um homem noutro homem. Admito que a revolução seja uma utopia, mas no meu dia a dia procuro comportar-me como se ela fosse tangível. Continuo a pensar que devemos lutar onde existe opressão, seja a que nível for. De resto tenho pouca autoridade para falar porque a minha contribuição foi bem pobre. Nunca estive na luta armada, nem sequer fui torturado.

        Mas esteve preso várias vezes.

        Sempre pequenas detenções. A maior foi de 21 dias. Estive incomunicável mas nunca me torturaram fisicamente.

        A propósito de prisões e luta armada. Qual é a sua posição sobre a guerrilha urbana, o chamado terrorismo?

        Penso que é um recurso legítimo. Sabemos hoje que os programas de partidos, as promessas eleitorais, a igualdade dos cidadãos perante a lei, o parlamentarismo, enfim, todas essas tretas são armadilhas de uma imensa minoria que vive luxuosamente à custa de uma imensa maioria. O Estado democrático revelou-se tão arbitrário como qualquer outro, serve antes de mais nada para impor as leis relativamente às quais se constitui em excepção. Por outro lado embora haja partidos que se aproximam mais dos interesses dos trabalhadores e outros que são contra esses interesses a verdade é que a escolha entre os partidos A, B, C ou D acaba por não oferecer uma alternativa de fundo aos privilégios de Estado uma vez que todos eles se movem segundo a mesma lógica que cria um fosso entre o cidadão comum e os senhores do Poder. Perante um quadro destes acho absolutamente legítima a guerrilha urbana. Não faz a revolução, presta-se mesmo a alguns equívocos, mas tem ao menos a vantagem de radicalizar a indignação e sobretudo de repor pontos de equilíbrio numa relação de forças em que o cidadão comum é permanentemente ludibriado pelo discurso e pelas artimanhas dos profissionais da política. Só é pena que a guerrilha urbana em Portugal seja tão incipiente e não tenha ainda apontado as armas para onde deve apontar. A partir da altura em que o fizer talvez a classe política se dê conta de que os brandos costumes do bom povo português não são uma fatalidade do destino.
        (…) Admito-o hoje sem reticências: não temos revolucionários, não temos sido um povo de grandes revolucionários. Mas uma esquerda que não consegue juntar mais dumas mil pessoas numa manifestação contra a visita de Ronald Reagan é uma esquerda que não existe.

        Admite que a fim e ao cabo os povos têm os governos que merecem?

        Tenho oscilado entre recusar essa conclusão e admiti-la. É um facto que no povo português há uma tendência para a subserviência, para se curvar perante a autoridade, para o compadrio, os favores, para o deixar andar. Mas tudo isso existe ao lado de uma certa truculência e dignidade. Conheço muito bem os alentejanos, por exemplo. São pessoas pobres, talvez sem grande combatividade, mas existe nelas uma dignidade perturbante. Não é fácil pisá-las, embora pareça fácil abusar delas durante muito tempo.

        Segundo a antiga Comissão de Extinção da PIDE/DGS os processos efectivamente levados a tribunal por actividade política antes do 25 de Abril não chegaram a atingir 3 mil pessoas ao longo de 48 anos. É um quadro um pouco diferente daquele que a oposição gostava de publicitar e que ainda hoje reivindica.

        Antes do 25 de Abril nós conhecíamos de Norte a Sul do país as pessoas que se atreviam a lutar realmente contra o regime – e eram de facto muito menos do que se gostava de dizer. Alguns intelectuais afirmam ainda hoje que a nossa geração, a minha geração, foi muito castigada, mas eu não penso isso. Mesmo a repressão foi adaptada aos bons costumes deste povo. Não se mata um governante em Portugal há 75 anos. Isso diz tudo, se pensarmos que tivemos o regime fascista mais longo da história contemporânea.

        Por outro lado esses intelectuais estão hoje no Poder. Um pouco por todo o lado, dos gabinetes ministeriais ao IPC, da Gulbenkian ao Governo de Macau, da Comissões da CEE às empresas públicas e à Comunicação Social. Na noite da vigília a Otelo Saraiva de Carvalho esteve lá você, o Vítor Wengorovius, Luís Galvão Teles, Luís Moita e poucos mais. Que é feito dos seus amigos de Coimbra, das baladas, da resistência, do famoso PREC?

        Pela minha parte não tenho grande coisa a dizer sobre isso. Acho que os intelectuais deste país têm os Soares que merecem. É realmente uma geração que gosta de se apresentar a si mesma como vítima da desilusão. Para mim é uma atitude de traição, que não têm a coragem de confessar e por isso inventaram grandes malabarismos. Depois encostam-se ao PS, ao PSD ou a qualquer outra muleta do poder. Digamos que são pessoas que não me interessam.

        O que acaba por ser curioso é que você contesta a democracia parlamentar com a mesma veemência com que contestou o fascismo.

        O problema é que os direitos formais têm cada vez menos conteúdo prático. As liberdades formais não servem para nada se não tiverem consequências no dia a dia das pessoas. Teoricamente não há censura, não existe repressão policial ao nível da política, pode-se portanto falar, escrever, etc. Mas os mecanismos de coerção e discriminação permanecem. Mais subtis, mais pulverizados, mas permanecem. O que não quer dizer que eu não preferia a democracia formal ao fascismo, é evidente. Mas no fundo a liberdade é antes de mais nada a liberdade de se viver melhor. Por isso a liberdade para o doutor Mário Soares é uma coisa e para o tipo que está sem salários ou sem emprego ou sem casa é outra. Em quase toda a região de Setúbal há fome, mulheres casadas e raparigas prostituem-se para comer. Que sentido faz falar a estas pessoas da liberdade da democracia? Claro, há uma data de gente que vive melhor do que antes do 25 de Abril, mas à custa de clientelismos partidários e favores políticos que não afirmam propriamente os trunfos dum regime. (…)

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        EntrevistasViriato Teles
        10/02/2006By AJA

        O que é preciso é criar desassossego

        A conversa que se segue aconteceu em finais de Novembro de 1985, por ocasião da gravação de Galinhas do Mato, e foi originalmente publicada no Se7e. Foi das últimas entrevistas que José Afonso concedeu, numa altura em que o seu estado de saúde se agravava dia após dia. Apesar disso, falava do futuro com algum entusiasmo e uma força interior que quase faziam esquecer a enfermidade sem cura que o atormentava.
        A sua inclusão no livro Zeca Afonso: As voltas de um andarilho justifica-se, a meu ver, por isso mesmo, por esse sentido dialéctico exemplar que as suas palavras transmitem. Propositadamente, mantive intacto o diálogo original, apesar do carácter datado e circunstancial de algumas das suas declarações – nomeadamente as relativas a questões de ordem política, como o seu apoio à candidatura presidencial de Lourdes Pintasilgo, cuja campanha então se iniciara.

        Parte significativa desta conversa refere-se, como é óbvio, ao derradeiro disco de José Afonso, produzido por José Mário Branco e Júlio Pereira, que também nele participam como intérpretes, ao lado de Helena Vieira, Né Ladeiras, Luís Represas, Janita Salomé e as duas filhas deste, Marta e Catarina. Foi «um trabalho de equipa muito bonito», nas palavras de Zé Mário. «Uma coisa que transcendeu a própria ternura», acrescenta Júlio Pereira. Tal como a cavaqueira que se segue.

        – Este disco vai, se calhar, surpreender muita gente, que te julgava acabado para a música…

        –Talvez. Eu, a princípio, achei que não valia a pena, não estava a ver-me assim no papel de compositor. Por mim punha uma pedra no assunto e ficaria o ‘Como Se Fora Seu Filho’ o meu último disco. Mas a verdade é que tinha por aí algum material, disperso por algumas cassetes, que, se calhar era pena ficar aqui perdido. E achei que as pessoas que estavam mais próximas de mim, até em termos de assiduidade, de acompanharem e se interessarem pelas coisas que eu aqui tinha eram, de facto, o Zé Mário Branco e o Júlio Pereira. E foram eles que insistiram nessa ideia, que seria necessário utilizar essas músicas para um novo disco.

        – Além do que agora foi gravado, existem ainda outros inéditos…

        – Sim, algumas coisas. Umas que ainda são dos meus primeiros tempos de professorado, em Setúbal, outras feitas em África ou no barco, quando fui colocado em Moçambique. Há coisas que são só pequenos trechos musicais, não são propriamente canções.

        – Este disco tem também canções dessa altura?

        – Tem. O tema ‘Galinhas do Mato’, por exemplo, é, talvez, o mais representativo. Tem uma certa sugestão africana de ritmos e coros, é uma música que eu pus na prateleira, à espera de um dia ter um texto que se enquadrasse. E há o ‘Tu Gitana’, uma música que eu fiz com uma ‘letra-robot’, a letra de uma canção de Vila Viçosa que eu cantei muito em Coimbra, no grupo que deu origem ao Coral da Faculdade de Letras. Descobri que essa letra se coadunava perfeitamente com aquela música que eu tinha feito.

        – É essa que é cantada, no disco, pela Helena Vieira…

        – É e, aliás, acho que é admiravelmente cantada. Estas duas músicas são talvez de 1968, portanto anteriores a quase todas as que eu fiz para o ‘Como Se Fora Seu Filho’. A mais recente é, talvez, a ‘Alegria da Criação’, que foi feita para a peça Fernão, Mentes?”.

        – Dizia eu que este disco pode surpreender muita gente. Até porque é feito segundo um esquema que creio ser mais ou menos inédito em Portugal: é, digamos, um disco de autor, com a maioria das interpretações entregues a outros cantores…

        – Isso é uma coisa que, para lá das condicionantes que obrigaram a que assim fosse, me dá um certo contentamento. Até porque, neste caso, se pode escolher a voz apropriada para cada tipo de canção. O ‘Tu Gitana’, por exemplo, nunca poderia ser cantado por mim, nem mesmo quando eu tinha voz para cantar. Tem uma tessitura, uma escala de tal ordem que só uma mulher com uma voz educada como a Helena Vieira a poderia cantar.

        – O Júlio Pereira e o José Mário Branco coordenaram o trabalho de arranjos. Vocês mantiveram-se em contacto com regularidade?

        – Sim, sim. O Júlio, por exemplo, não dava um passo que fosse fora do meu conhecimento. E a ‘Alegria da Criação’ é uma canção cujo arranjo coral e instrumental se deve ao Zé Mário. É claro que muito embora eu tenha concebido muitos dos arranjos, ao longo deste meu trabalho, não conseguiria fazer este disco sem a participação do Júlio e do Zé Mário, que foram uns excelentes colaboradores. Estávamos em contacto telefónico quase permanente e, no estúdio, estive regularmente a par do que se foi fazendo. Mas o trabalho de bases foi feito por eles, embora eu soubesse o que quer o Júlio, quer o Zé Mário iam fazer. Eles gravavam previamente o que faziam e eu dava sugestões a partir daí, imitando sons, dando imagens, sei lá… É muito, difícil explicar isto tudo, é um processo empírico…

        – Estás, portanto, satisfeito?

        – Eh, pá! Pela primeira vez, isto deu-me um prazer bastante grande. Talvez pelo facto de serem outras pessoas a cantar, mas também pelo tipo de músicas… O ‘Agora’ ou o ‘Galinhas do Mato’, por exemplo, eram coisas que estavam na prateleira e cheguei a admitir não poder gravar. ‘Galinhas do Mato’ é uma canção demasiado africana, demasiado ligada às minhas memórias de infância, e pensei que não encontraríamos uma solução instrumental para ela. Mas, afinal, com a ajuda de um computador, conseguiu-se.

        – Um computador?

        – Um computador, nas mãos do Júlio Pereira. Mete sons vários, desde o kissange, percussões e outros sons mais ou menos electrificados ou plastificados mas que são exactamente tipo som artesanal. E tivemos que recorrer às vozes das mulheres do Coro de Oeiras, um bocadinho modificadas, de modo a criar aquele ambiente africano. E, além disso, contámos com as filhas do Janita que, no caso presente, parecem duas pretinhas a cantar… Eu fiquei surpreendido porque, no final, o resultado é de tal ordem que eu me senti transportado aos meus quatro ou cinco anos, quando estive no planalto do Bié. E há outras coisas: uma música chamada ‘Tarkovsky’, em que utilizámos quase arbitrariamente o nome do cineasta russo porque, a dada altura, eu pensei criar um ambiente, num coro sem palavras, que tivesse um pouco de África e da Rússia. Imagina-te no ‘Andrei Rubliov’ ou, de uma forma geral, nos filmes do [Andrei] Tarkovsky. E lá se fez, com a ajuda da trompa do Adácio Pestana e da voz do Janita.

        – Essa música representa, de algum modo, uma homenagem ao Tarkovsky?

        – De certo modo. Até porque os filmes dele me impressionaram bastante e deixa-me dizer-te que estou convencido que dificilmente ele poderia fazer, no Ocidente, os filmes que, apesar de todas as limitações que teve, fez na União Soviética. Aquele ‘peso’, aquela ligação telúrica à ‘mãe Rússia’, aqueles personagens espantosos que ele criou, tudo isto é difícil reproduzir aqui, quer na Europa, quer nos Estados Unidos. Por isso a música também é uma homenagem. Sabes?, eu quando falo de coisas de música, falo também muito de questões extramusicais, para dar o ambiente. Socorro-me muito de imagens, de espaços e até da mímica. Quando estou diante de um tipo que vai cantar as minhas coisas bamboleio-me, faço caretas para ele se situar na interpretação que idealizei. Foi um trabalho de equipa excelente, sem qualquer tipo de asperezas, com um entendimento espantoso entre a malta…

        – Coisa que nem sempre é fácil, na música…

        – Pois não. Isto é tudo um bocado confuso, o que nós fazemos é sempre uma coisa muito periclitante: meter em três minutos uma canção e conseguir um efeito único… Mas que a música, entre aspas, ‘popular portuguesa’ continua viva acho que sim. E a prova é que têm saído coisas, cada músico tem qualquer coisa de seu, não se confunde com outro. Há uma marca pessoal, que é desejável.

        – ‘Música popular portuguesa’ entre aspas? Porquê?

        – Porque esse conceito é muito polémico. Não sei se lhe chame música de texto, música social, música de intenção política, música de intervenção. São tudo conceitos muito indefinidos, mas música popular é ainda mais polémico. Senão voltamos outra vez para a discussão sobre música popular e música tradicional e eu não quero entrar nisso. Prefiro dizer ‘a música da minha área’ ou ‘da nossa área’, abrangendo um conjunto de colegas ou ex-colegas que sempre estiveram nestas coisas, que sempre tiveram um percurso próprio.

        – A própria intenção e a intervenção política são hoje, por vezes, postas de parte por alguns colegas teus…

        – Pois é, mas também não quero entrar nessa área. Isso é um problema de consciência. Eu sempre disse que a música é comprometida quando o músico, como cidadão, é um homem comprometido. Não é o produto saído do cantor que define esse compromisso mas o conjunto de circunstâncias que o envolvem com o momento histórico e político que se vive e as pessoas com quem ele priva e com quem ele canta. Tipos como o Daniel Viglietti, por exemplo, são cantores com um inegável perfil político e militante, também. Se isso é viável e de que maneira não sei…

        – Mas tu, por exemplo, continuas activo a comprometido politicamente. Ainda há poucos dias apelaste ao voto na APU para as eleições autárquicas…

        – Não consigo nem pretendo estar fora das coisas. Este meu apelo ao voto na APU, não é um apelo paternalista, mas fruto da constatação directa, através da minha experiência como cidadão, que as vereações mais honestas, que dão prioridade a coisas essenciais como saneamentos básicos, escolas e jardins de infância, são efectivamente as da APU. Posso citar Coruche, Moura, Seixal, Mértola… E, tomando estes casos como padrão, eu não hesito em dizê-lo às pessoas, se é que a minha presença tem alguma força. Uma coisa é a minha actividade musical, a fruição lúdica da música, outra coisa é o homem político que sou. Agora como é que as duas coisas se harmonizam, ainda estou para saber…

        – As Presidenciais estão também a chegar. Já tomaste posição?

        – Decidi ontem [22 de Novembro de 1985] apoiar a engenheira Maria de Lourdes Pintasilgo. A política não é o reino do absoluto, estamos numa conjuntura que não aponta para nenhuma acção popular e revolucionária. Afirmar isto era pura demagogia. Portanto eu apoio um candidato que dê margem para determinadas movimentações a que eu chamo de contra-poder… E começo a desconfiar a sério da rigidez partidária. Entendo que, efectivamente, há partidos mais aconselháveis que outros e sou de opinião que não há conciliação entre uma perspectiva de esquerda e uma perspectiva de direita, autoritarista e reaccionária. Continuo a perfilhar convictamente estes pontos de vista, mas isso não me impede de apoiar uma personagem interessante, de grande carisma pessoal como é a Lourdes Pintasilgo. Que, a meu ver, está muito mais ligada a uma conotação de esquerda, de mudança, do que os outros. Há quem se esqueça que o Salgado Zenha foi o arauto do antigonçalvismo, do antipêcêpismo, da ‘Carta Aberta’. E que foi pela boca dele que se fizeram os mais duros ataques à CGTP. Há quem se esqueça, mas eu não tenho falta de memória, pelo menos nestas coisas… Podes escrever isto tudo que eu disse…

        – E lá estamos nós a falar de política…

        – Como é que da política se chega à música e da música à consciência? Eh, pá, eu acho que as coisas podem estar ou não ligadas, depende do lado para onde estivermos virados. Mas o que é preciso é criar desassossego. Quando começamos a procurar álibis para justificar o nosso conformismo, então está tudo lixado! E, quando isso acontecer comigo, eu até agradeço que os meus amigos me chamem à atenção e me critiquem. No campo da música continuo interessadíssimo, nesta área e fora dela. Acho que, por exemplo, é necessário que exista um grupo como o Opus Ensemble, um músico como o Victorino d’Almeida. Ou como o Rão Kyao, embora nem sempre goste das últimas coisas dele – mas isso é outro problema. E, na área do chamado rock português, em relação à qual eu sou muito reticente, há, por exemplo, os Jáfumega, que eu vi há tempos e de quem gostei bastante, fiquei sinceramente impressionado. Estou interessado, sim, pelo que por cá se faz. Acho que, acima de tudo, é preciso agitar, não ficar parado, ter coragem, quer se trate de música ou de política. E nós, neste país, somos tão pouco corajosos que, qualquer dia, estamos reduzidos à condição de ‘homenzinhos’ e ‘mulherzinhas’. Temos é que ser gente, pá!

        Entrevista de Viriato Teles
        Se7e – 27 de Novembro de 1985

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