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Luís Pinheiro de Almeida
Home Archive by Category "Luís Pinheiro de Almeida"

Category: Luís Pinheiro de Almeida

DiscografiaLuís Pinheiro de AlmeidaTestemunhos
20/02/2022By admin-aja

Londres, a cidade de que mais gosto I

Londres é provavelmente a cidade de que mais gosto e, possivelmente, a que melhor conheço. Por “snobismo”, até costumo dizer que conheço melhor Londres do que o Porto, o que não é mentira.

Visitei Londres mais de 100 vezes, seja por motivos profissionais (a maior parte das vezes), seja em férias e/ou simplesmente por gosto.

Foi a cidade seguinte ao baptismo de voo para Paris, no dia 22 de Março de 1970, desta feita num quadrimotor que partiu junto à costa francesa, atravessou a Mancha e aterrou na costa fronteiriça: voo de estudantes, bem mais divertido por causa do barulho e dos constantes poços de ar e consequentes trepidações..

Em Londres – não esquecer que estávamos no final da década de 60 – fiquei em casa das irmãs da Milú (Mãe dos meus filhos João Pedro e António Luís), Nina e Manuela, no número 8 de Oakley Street, a rua de Albert Bridge, perpendicular à King’s Road, um dos berços da swinging London e onde viriam a viver, anos mais tarde, David Bowie, George Best e Bob Marley.

A Nina e a Manela estudavam em Londres e trabalhavam no Chelsea Kitchen, um dos restaurantes da moda, que era gerido por um português de Luanda, Jorge Castilho.

Era um novo mundo à minha frente: saí da ditadura do Estado Novo, agora mesclada de “primavera marcelista”, para aterrar no “olho do furacão”, no coração dos “anos 60”: Londres! O que poderia eu mais desejar?

Nem sei como sintetizar em 3.000 caracteres o que vi e como vi essas férias da Páscoa londrinas! Vou focar-me, por isso, num episódio muito particular que talvez mais interesse aos leitores da Gazeta da Beira.

E o que foi esse “episódio muito particular”?

Tão-só a gravação do LP “Traz Outro Amigo Também”, de José Afonso.

Rui Pato, habitual viola do cantor, disse-me que Arnaldo Trindade, editor discográfico de José Afonso, tinha tanta confiança na potencialidade do cantor que lhe sugeriu um “bom estúdio à sua escolha”, tendo José Mário Branco, seu futuro produtor, escolhido o estúdio da Pye Records, em Londres, não muito longe de Marble Arch.

Da equipa habitual de José Afonso só quem não conseguiu participar na aventura foi ironicamente Rui Pato, castigado com o serviço militar obrigatório na sequência da crise académica de 1969, em Coimbra. Também Luís Colaço, guitarrista dos Álamos e militante do MPLA, teve dificuldades em embarcar e chegou atrasado. Foi salvo in extremis pelo presidente do RCP, Botelho Moniz, onde Colaço era funcionário.

Carlos Correia, conhecido como Bóris, foi o substituto de Rui Pato. Tinha sido companheiro de Colaço nos Álamos, pelo que, como se diz na gíria futebolística, se encontravam “entrosados”.

Foram delirantes aqueles dias londrinos, a começar pelas demonstrações de judo que eu e José Afonso (outro fanático da modalidade) fazíamos em casa das irmãs Videira, servindo um colchão como “dojo” (e nós de pijama) e a Manela a pôr as moedas no “meter” da electricidade para não ficarmos às escuras! A Inglaterra vivia ainda “noutro mundo”, como os Beatles cantavam em “Lovely Rita”.

Os estúdios da Pye eram do mais moderno que havia à época e os seus técnicos super-jovens, altamente competentes, que ficavam de boca aberta a ouvir cantar José Afonso, mesmo sem perceber patavina. O que mais os deslumbrava era a simplicidade da música e o facto de o cantor se enganar constantemente na letra.

No estúdio ao lado, os Status Quo gravavam o seu primeiro álbum de “hard rock” (“Ma Kelly’s  Greasy Spoon”) pelo que se entende o ar atónito dos jovens técnicos que até entornaram uma chávena de café no gravador principal, sem se ralarem muito! Num segundo (expressão idiomática) tudo ficou OK.

Luís Pinheiro de Almeida, in Gazeta da Beira, 13.05.2021

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DiscografiaLuís Pinheiro de AlmeidaTestemunhos
20/02/2022By admin-aja

Londres, a cidade de que mais gosto II

“Traz Outro Amigo Também”, quarto LP de José Afonso, demorou cerca de um mês a ser gravado em Londres, em 1970, nos estúdios da Pye, não mencionados no disco.

Além de mim, assistiu também à gravação do álbum José Labaredas, homem bom do Couço, fadista por gosto, companheiro de Manuela Videira e amigo de Zeca.

Esta “família”, incluindo a Nina e a Milú, irmãs da Manuela, vadiou pela cidade, gozando o mais possível a “swinging London”,  tendo sido surpreendida com “encontros imediatos”.

Fomos, por exemplo, a um festival anti-nuclear (Festival da Páscoa pela Paz) que se desenrolou no dia 29 de Março de 1970, em Victoria Park e onde encontrámos Gilberto Gil, exilado em Londres juntamente com Caetano Veloso.

Os nomes mais sonantes do Festival, apresentado pelo famoso John Peel, já falecido, eram os de Yoko Ono e John Lennon  (que só declamaram), Arthur Brown, Liverpool Scene, Viet-Rock Group Of Keele University, Greek Arts Theatre.

Há um EP de José Afonso, “No Vale de Fuenteovejuna”, cuja capa é uma fotografia tirada nesse festival com José Afonso, Gilberto Gil, Luís Filipe Colaço e Zélia, mulher de Zeca, com cachecol pela cabeça.

Aliás, há duas capas deste mesmo EP, um pormenor curioso representativo dos tempos ditatoriais que então se viviam. Além desta capa que acabo de descrever há uma segunda, com a foto de Luís Colaço tapada e, ainda por cima, com um erro (ver imagens).

A foto, de José Labaredas, não foi tirada em Hyde Park, como se diz, mas sim em Victoria Park. Ninguém sabe exactamente por que razão a foto foi tapada, nem o próprio Arnaldo Trindade, que foi o editor do disco, sabe, mas sendo Luís Filipe Colaço militante do MPLA a quem a PIDE criou dificuldades em Lisboa no embarque para Londres, presume-se que a razão esteja por aí.

Há mais 4 EPs de José Afonso com fotos do Festival, num dos quais, “Menina Dos Olhos Tristes”, se vê ainda Manuela Videira.

Há outra curiosidade neste Festival. Apesar de ter sido um Festival Pela Paz, ou por causa disso, foi onde os skinheads (cabeças rapadas, grupo racista de extrema-direita) fez a sua apresentação pública.

Estávamos calmamente a assistir aos concertos quando veloz e rapidamente um arrastão de skinheads passou por nós, Quando démos por isso, estava um negro no chão a sangrar. Tenebroso!

Voltando aos brasileiros exilados, José Labaredas organizou um almoço ou um jantar (já não me lembro muito bem) num restaurante português em Beauchamp Place (onde a princesa Diana ia às compras), uma das mais castiças ruas londrinas. “Fado” era o nome do restaurante.

À mesa, um grupo grande de 9 pessoas, entre as quais, José Afonso, Gilberto Gil e… Caetano Veloso.

“Caldo verde lembro-me que comemos todos e também pastéis de bacalhau”, recorda Luís Filipe Colaço.

Falou-se muito de música e também de política, pois ambos os países viviam então em ditadura.

Caetano Veloso confessou que estava a ser pressionado pelos amigos no Brasil a escrever uma canção sobre os seus dias de exilado em Londres. “Não sei como fazê-lo, sinto-me bloqueado!”.

Foi então que José Afonso veio em seu socorro e lhe deu um lamiré, nascendo assim “London London”, que começou a ser sucesso na voz de Gal Costa.

I’m lonely in London, London is lovely so
I cross the streets without fear

Luís Pinheiro de Alameida, Gazeta da Beira, 10/06/2021

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Luís Pinheiro de AlmeidaRui Pato
06/07/2010By AJA

Rui Pato

Antes de tudo e de mais, o Rui Pato foi meu companheiro de brincadeiras de infância no Bairro S. José, em Coimbra, futuro Bairro Marechal Carmona, actual Bairro Norton de Matos, no Calhabé.
Por causa dele, cheguei a partir a cabeça do meu irmão mais velho à pedrada.
Rui de Melo Rocha Pato nasceu em Coimbra, no dia 04 de Junho de 1946, filho do jornalista-fotógrafo Rocha Pato, chefe da delegação de Coimbra de “O Primeiro de Janeiro” e, mais tarde, do “Diário Popular”.
Pertence à “geração de viragem” da “canção de Coimbra”, tendo sido o acompanhante à viola de José Afonso, por escolha deste, na primeira fase da sua carreira na balada, de 1962 a 1969.
Rui Pato tinha apenas 16 anos quando acompanhou José Afonso em “Menino de Oiro”, “Tenho Barcos, Tenho Remos”, “No Lago Do Breu” e “Senhor Poeta”, em 1962.
A dupla com José Afonso foi interrompida pela PIDE em 1970 quando a polícia política impediu que Rui Pato seguisse para Londres para gravar “Traz Outro Amigo Também”, na sequência da crise académica de 69.
(Em vão o esperei em Março desse ano em Londres. Em sua substituição foi o Bóris, Carlos Correia – nota do signatário).
Rui Pato conheceu José Afonso através do Pai, que era amigo de Zeca. Rocha Pato doou a sua correspondência com Zeca ao Centro de Documentação 25 de Abril, da Universidade de Coimbra. Numa ida a Coimbra, no início da década de 60, José Afonso mostrou aos amigos um outro tipo de música, sem o “espartilho da guitarra de Coimbra”.
Tratava-se de uma grande liberdade rítmica, que necessitava apenas de uns leves acordes de viola para sublinhar o poema que era o mais importante da canção. Coube a Rui Pato executar esses leves acordes de viola.
Mas Rui Pato não se limitou, exclusivamente, a acompanhar José Afonso. Entre 1960 e 1971 foi também um dos principais acompanhantes de Adriano Correia de Oliveira.
Reputado pneumologista, Rui Pato é hoje presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar de Coimbra, EPE.
Este ano, surpreendeu os amigos em confraternização na Praia de Mira com uma vibrante interpretação à viola de “Apache”, um clássico dos Shadows.
Foi-lhe então perguntado se, à margem de José Afonso, alguma vez espreitou o ié-ié e a guitarra eléctrica, ao que respondeu que chegou a fazer parte de um conjunto, os Beatnicks, que fazia o tradicional percurso dos bailes de estudantes.
Mais recentemente, Rui Pato confessou que já não tem guitarras eléctricas:
Embora já tenha passado na adolescência por outros tipos de guitarras, actualmente não tenho nenhuma eléctrica, nem tão pouco uma acústica. Só tenho guitarras clássicas. Aqui convém esclarecer que a guitarra de Coimbra, a de fado, assim como a guitarra de Lisboa, não têm nada a ver com a guitarra de que estamos a falar.
Estamos a falar de “violas”, ou seja, guitarras clássicas. Neste aspecto, uma guitarra clássica só tem alguma categoria se fôr fabricada por especialistas (lutiers), com madeiras raras que estiveram em estufa a secar mais de uma dezena de anos .
Os grandes mestres da sua fabricação são espanhóis (Ramirez, Rubio, etc) , mas existem alguns grandes fabricantes na América do Sul, incluindo o Brasil, onde há fabricantes excepcionais (Di Giorgio).
Claro que existem fabricantes industriais de boas guitarras feitas em série, muito mais baratas, mas… não têm nada a ver…
Tenho actualmente três guitarras (violas): uma Odemira, da fábrica Luso-Espanhola, fabricada em 1967, uma do Luís Filipe Roxo, fabricada em 1980, e uma (a melhor de todas), de um fabricante de Braga , o Jorge Ulisses, feita em 1999.
Quando for rico, quero ter uma Ramirez, do modelo topo de gama!
PS – Há precisamente 10 anos – 29 de Setembro de 1998 – recebi uma missiva de Rui Pato, onde referia a nossa amizade de calções nas praças da nossa infância.

Colaboração de Luís Pinheiro de Almeida

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Caetano VelosoLuís Pinheiro de AlmeidaTestemunhos
10/02/2006By AJA

O «London London» de Zeca

Londres, 1970, talvez. José Afonso gravava Traz Outro Amigo Também nos estádios da Pye. Ao lado, os Status Quo registavam o segundo álbum, Spare Parts mas tinham de o interromper de quando em quando para não prejudicar o andamento mais sereno de Zeca. Dois jovens técnicos tratavam do Zeca e do Bóris. E nem quando verteram um copo de café no gravador ficaram aflitos. Aflitos ficavam quando amiúde José Afonso tinha de interromper a gravação porque se esquecia da letra do que estava a cantar.
Londres fervilhava. Era o fim dos Beatles, do «Chelsea Drugstore» que os Stones cantavam, o aparecimento dos skinheads, a morte lenta dos hippies, da Carnaby Street e de King’s Road.
Mas havia outros motivos de interesse. Para Londres convergiam os exilados políticos de outros países, nomeadamente do Brasil. Entre eles, Gilberto Gil e Caetano Veloso que cedo conviveram com Zeca.
Nos intervalos das gravações, o Zeca jogava judo comigo em casa da Nina, em Oakley Street, no coração de Chelsea. A irmã, Manuela, cuidava das moedas no meter para não faltar a electricidade. O seu companheiro, José Labaredas, homem bom do Couço, amigo do Zeca, cantador de fados de Lisboa, assistia. Todos juntos éramos uma família. Faltava Rui Pato, meu vizinho da instrução primária em Coimbra. Por causa da crise académica de 1969, onde fora um dos dirigentes estudantis, a PIDE não o deixara sair do País.
Uma noite, fomos todos jantar a um dos restaurantes portugueses de Beauchamp Place, mesmo ao lado do Harrods. Ou foi no Fado ou na Caravela, já não me lembro. Eu, o Zeca Afonso, o Zé Labaredas, a Nina, a Manuela, a Milu, todas irmãs, o Gilberto Gil e o Caetano Veloso. Caldo-verde lembro que comemos.
No meio dos pastéis de bacalhau, Caetano Veloso confessou que estava atrapalhado. Os seus amigos do Brasil perguntavam-lhe como era a vida em Londres. Ele queria responder com uma canção, mas não sabia como.
E foi nessa noite londrina, num recanto bem português, que José Afonso trauteou o que viria a ser o famoso «London London» de Caetano Veloso. Sem créditos, a não ser para os que assistiram ao parto da canção.
Luís Pinheiro de Almeida

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