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Testemunhos
Home Archive by Category "Testemunhos"

Category: Testemunhos

Concertos de José AfonsoTestemunhos
25/01/2023By admin-aja

40 anos do concerto do Coliseu

A 29 de janeiro passam 40 anos sobre um dos últimos grandes concertos de José Afonso. Foi no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, memória que ficou fixada tanto no disco ao vivo que nasceria da gravação desse momento como nas imagens então registadas pela RTP. Ao longo da semana, a Antena 1 recorda algumas das canções desse concerto histórico e escuta o testemunho de músicos que, no palco, acompanharam José Afonso naquele serão.

Para ouvir de segunda a sexta-feira às 09h50 e 17h50 e, em compacto, num programa especial, este domingo. Um especial com produção de Ana Sofia Carvalhêda.

Saiba mais no site da Antena 1

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Fernando Assis PachecoTestemunhos
12/12/2022By admin-aja

Um que não vai em futebóis

Assis Pacheco e José Afonso em casa de Adriano C. de Oliveira, durante um encontro onde estiveram José Mário Branco, Fanhais, entre outros…

Na Coimbra dos anos 50, provinciana e falaz, já havia todos os candidatos possíveis às ortodoxias que depois nos estoquearam o lombo. Aquilo era o centro geográfico do parece mal, e digo-o com mágoa porque nasci lá, num rés-do-chão de estudante, sem saber ainda (1937), ingénuo de mim, o que me tocaria em sorte. Mas no pior pano cai a boa nódoa desses anos 50 a tenderem para 60, aos gritos chamava-se José Afonso, no liceu «Turcopês», inventor de música. Vinha de Aveiro, vinha duma serra na eira, vinha de África, de muitos sítios e de todos ao mesmo tempo, pecha de que nunca se livrou.

Abreviámos-lhe o nome para Zeca, ouvíamo-lo em silêncio e, às tantas, perdêmo-lo de vista: andava pela província a ensinar meninos, a ganhar uns tustes com que aguentar a família precoce. Os seus regressos, por vezes numa estrada à espera de um autocarro com o Orfeon ou a Tuna dentro, eram sinal de festa. Falava pouco, mas diferente, por falar nisso, encostou muita gente à parede. Outra sina sua.

O país de fora-parte conheceu-o só nos idos de 60, quando as universidades bateram com o pé no chão. Já ele, creio bem, partira para novos casos, novas causas, descobrindo que o Portugal que sobrava das escolas superiores era quase todo, e algum passava mal. Se no 25 de Abril os capitães escolheram a «Grândola» para senha do movimento foi uma naturalidade: quem, de entre os anjos de pedra lioz, poderia responder-lhes?

Ser heterodoxo, minoria de um, avesso das verdades oficiais, custa como o diabo. José Afonso está aí que não me desmente. Honra lhe seja feita, ele é da raça dos que não vão em futebóis mansos.

Fernando Assis Pacheco

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Francisco FanhaisTestemunhos
03/12/2022By admin-aja

… no coração da malta nova.

(…) Fanhais recordou um episódio que se passou com ele e o marcou até hoje. Foi numa sessão de homenagem a José Afonso em Viana do Castelo, em 1986, um ano antes de ele morrer. “Fui lá cantar, e no dia seguinte de manhã cedo estava na estação para apanhar o comboio para baixo. Chegou-se ao pé de mim um rapaz novo, daqueles que facilmente identificaria como um arrumador. Olhou-me de frente e disse: ’tiveste ontem a cantar na sessão do Zeca? Eu tam’ém lá ’tive, gramei das cantigas, pá, cantigas da pesadona. És amigo do Zeca, podes levar um recado ao Zeca?’ Eu, cada vez mais espantado, disse-lhe: posso. ‘Dá-lhe um abraço cá do rapaz e dá-lhe este recado: o Zeca não morre no coração da malta nova.’ Fiquei sem palavras.

Jornal Público
Foto: ©DR.

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Léo FerréTestemunhos
04/03/2022By admin-aja

Léo Ferré e José Afonso

Quando me sinto mais debilitado psicologicamente, quando me vou abaixo, em português muito simples, penso em momentos muito bons que tive e na imensa sorte de de os ter vivido.
Curioso, pois vi hoje mesmo e meramente por acaso, no perfil de uma conterrânea de Viseu, uma frase que muito me serve de suporte. Diz ela que quando sentirmos que já nada vale a pena para continuar, e a todos penso que isso acontecerá por vezes, é humano, quando sentirmos isso com mais força, deveremos pensar naquilo ou nas razões que nos fizeram continuar até aqui! Dou-lhe toda a razão, agradeço-lhe imenso e até lhe envio um beijinho.

Bem, mas desta vez vou alegrar-me com duas fotografias que eu tirei num concerto de Léo Ferré, no Coliseu dos Recreios , e, imaginem, sentado ao meu lado, o Zeca Afonso. De tal forma que o Léo, que por acaso eu já conhecia pessoalmente, desceu do palco e veio cantar junto ao Zeca. Mais tarde, um ano depois, já com as fotos feitas em papel, em França, estive com o Léo. Assinou-mas não com a minha esferográfica, mas com um marcador grosso, verde, dele. E pediu-mas. Enviei-lhas depois de Lisboa e agora, alguém que terá tratado do seu espólio, as deve ter encontrado e dito: mas que raio de coisas são estas, para que quereria ele estas fotos aqui guardadas?
Engraçadíssimo, é que numa das fotos, vê-se perfeitamente o meu querido amigo Zaluar. E ele insiste para que a foto se inclua num livro que o meu amigo editor Baptista Lopes estará para “dar à luz”! A foto está disponível, o autor do livro e o editor que resolvam, eu dá-la-ei com gosto.
Mas ao Zeca também lhe dei a foto com o Léo. No dia do concerto do Coliseu, lá atrás na confusão dos camarins, no final de um concerto que quase me vale a vida e que tive o enorme prazer de fotografar todinho. Sempre à socapa, que eu só gosto de fotografia, não sou profissional, sou economista, proíbem-me cometer estes crimes!
Para vosso deleite, os que com isto se deleitam, ficam as fotos e a minha imensa alegria por ter sido “conhecido”, apenas isso, conhecido do Zeca e do Léo.
Vejam a carita simples e meiga do Zeca olhando para a minha lente! E a dedicatória do Léo: “à toi, Carlos. Léo “.

Carlos Pereira Martins

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FotografiaTestemunhos
23/02/2022By admin-aja

Em cada esquina um amigo

Passou a dimensão de um cantautor de um tempo em que a palavra era uma arma.
Passado o tempo que tudo estratifica, agora 35 anos depois da morte não o ter levado, José Afonso está para além de qualificações, enquadramentos ou sentimentos de propriedade privada.
O trovador de “Venham mais cinco” e tantas outras obras de notável inspiração, é hoje considerado um dos autores populares mais respeitados em termos mundiais.
A sua música e o pensamento profundamente solidário com a nossa condição de sociedade carente de tanta coisa, ganha actualidade em cada estrofe que cantou.
Os jovens músicos respeitam-no, admiram-no e recriam a sua obra, sem complexos ou restrições de facção.
José Afonso partiu há 35 anos e, insisto, a sua morte deu vida e cada vez mais alma, a tudo o que cantou.
É só ouvi-lo de espírito aberto, para sentirmos o quanto amou o seu/nosso país e o seu contributo para que sem utopias, cada um de nós traga outro amigo também.

Júlio Isidro, 23.02.2022

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Testemunhos
21/02/2022By admin-aja

Zeca sempre

Em 1987, José Afonso embalou a trouxa e zarpou. O cantor, poeta e compositor partiu minado por uma doença incurável. Morreu pobre e abandonado pelas instituições. Vítima dos novos “vampiros” que destroçaram a cidade sem muros nem ameias. Mas a sua voz limpa e comprometida continua viva. E assim continuará para lá de todos os chacais.

Tivesse eu ainda a minha velha máquina de escrever e esta crónica seria ali escrita. Em homenagem ao artesão da palavra e da vida, que fazia música “como quem faz um par de sapatos”. Fui, sou, um dos índios do Zeca. Corri meio mundo para o ver e ouvir. A ele e ao Adriano; ao Zé Mário (Branco) e ao Francisco Fanhais; ao Pedro Barroso e ao Samuel; ao Luís Cília e ao Manuel Freire – a todos aqueles que cantavam e cantam a esperança e o sonho.

José Afonso, homem fraterno e justo, esteve sempre ao lado dos mais frágeis de nós. E, por isso, foi banido de cena e das rádios quando o mês de Novembro aqui chegou. E se vingou! Foi a segunda tentativa de assassínio que o Zeca sofreu. Antes tinha sido expulso pela ditadura da antiga Escola Industrial e Comercial de Setúbal, onde fora professor.

Fotografia de Maurício Abreu.

E foi ali que a 24 de Fevereiro de 1987 uma multidão homenageou o músico, compositor, poeta e combatente, que morrera na madrugada anterior, aos 57 anos, no hospital da cidade. Não em silêncio, mas de punho erguido, com cravos vermelhos, entoando “Grándola, Vila Morena” e muitas das outras canções da sua autoria.

Fui um dos 30 mil que estiveram em Setúbal. Com o meu amigo Joaquim Meirim (1935-2001), treinador de futebol, que sempre alinhou à esquerda, e para quem o Zeca escreveu um poema, quando estava preso em Caxias, em 1972. Ei-lo:

Meirim

À sombra que está
Há quem incline a cabeça
Há quem na vertical
Diga que sim não está mal
Minha tia era
Dessa razão

Dizia humilde contrita
Não subas
Ao parapeito de Judas
E o vendilhão era recto
Não pretendia ser mais
Que um funcionário correcto
Pois na instrução
O César tinha razão
Só não tinha a dele
Verdade diga-se
E sede
Da pura apocalíptica
Depois quem lhe fez a cama
Foi um menino de mama.

No final dessa tarde cinzenta e nebulosa à beira Sado, a multidão gritou em uníssono: “Zeca estará sempre vivo”. E um grupo de jovens, de cravos vermelhos nas mãos, ergueu uma enorme faixa branca onde se lia “Zeca, não morrerás entre nós”. Pois não, Zeca sempre.

Soares Novais

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DiscografiaLuís Pinheiro de AlmeidaTestemunhos
20/02/2022By admin-aja

Londres, a cidade de que mais gosto I

Londres é provavelmente a cidade de que mais gosto e, possivelmente, a que melhor conheço. Por “snobismo”, até costumo dizer que conheço melhor Londres do que o Porto, o que não é mentira.

Visitei Londres mais de 100 vezes, seja por motivos profissionais (a maior parte das vezes), seja em férias e/ou simplesmente por gosto.

Foi a cidade seguinte ao baptismo de voo para Paris, no dia 22 de Março de 1970, desta feita num quadrimotor que partiu junto à costa francesa, atravessou a Mancha e aterrou na costa fronteiriça: voo de estudantes, bem mais divertido por causa do barulho e dos constantes poços de ar e consequentes trepidações..

Em Londres – não esquecer que estávamos no final da década de 60 – fiquei em casa das irmãs da Milú (Mãe dos meus filhos João Pedro e António Luís), Nina e Manuela, no número 8 de Oakley Street, a rua de Albert Bridge, perpendicular à King’s Road, um dos berços da swinging London e onde viriam a viver, anos mais tarde, David Bowie, George Best e Bob Marley.

A Nina e a Manela estudavam em Londres e trabalhavam no Chelsea Kitchen, um dos restaurantes da moda, que era gerido por um português de Luanda, Jorge Castilho.

Era um novo mundo à minha frente: saí da ditadura do Estado Novo, agora mesclada de “primavera marcelista”, para aterrar no “olho do furacão”, no coração dos “anos 60”: Londres! O que poderia eu mais desejar?

Nem sei como sintetizar em 3.000 caracteres o que vi e como vi essas férias da Páscoa londrinas! Vou focar-me, por isso, num episódio muito particular que talvez mais interesse aos leitores da Gazeta da Beira.

E o que foi esse “episódio muito particular”?

Tão-só a gravação do LP “Traz Outro Amigo Também”, de José Afonso.

Rui Pato, habitual viola do cantor, disse-me que Arnaldo Trindade, editor discográfico de José Afonso, tinha tanta confiança na potencialidade do cantor que lhe sugeriu um “bom estúdio à sua escolha”, tendo José Mário Branco, seu futuro produtor, escolhido o estúdio da Pye Records, em Londres, não muito longe de Marble Arch.

Da equipa habitual de José Afonso só quem não conseguiu participar na aventura foi ironicamente Rui Pato, castigado com o serviço militar obrigatório na sequência da crise académica de 1969, em Coimbra. Também Luís Colaço, guitarrista dos Álamos e militante do MPLA, teve dificuldades em embarcar e chegou atrasado. Foi salvo in extremis pelo presidente do RCP, Botelho Moniz, onde Colaço era funcionário.

Carlos Correia, conhecido como Bóris, foi o substituto de Rui Pato. Tinha sido companheiro de Colaço nos Álamos, pelo que, como se diz na gíria futebolística, se encontravam “entrosados”.

Foram delirantes aqueles dias londrinos, a começar pelas demonstrações de judo que eu e José Afonso (outro fanático da modalidade) fazíamos em casa das irmãs Videira, servindo um colchão como “dojo” (e nós de pijama) e a Manela a pôr as moedas no “meter” da electricidade para não ficarmos às escuras! A Inglaterra vivia ainda “noutro mundo”, como os Beatles cantavam em “Lovely Rita”.

Os estúdios da Pye eram do mais moderno que havia à época e os seus técnicos super-jovens, altamente competentes, que ficavam de boca aberta a ouvir cantar José Afonso, mesmo sem perceber patavina. O que mais os deslumbrava era a simplicidade da música e o facto de o cantor se enganar constantemente na letra.

No estúdio ao lado, os Status Quo gravavam o seu primeiro álbum de “hard rock” (“Ma Kelly’s  Greasy Spoon”) pelo que se entende o ar atónito dos jovens técnicos que até entornaram uma chávena de café no gravador principal, sem se ralarem muito! Num segundo (expressão idiomática) tudo ficou OK.

Luís Pinheiro de Almeida, in Gazeta da Beira, 13.05.2021

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DiscografiaLuís Pinheiro de AlmeidaTestemunhos
20/02/2022By admin-aja

Londres, a cidade de que mais gosto II

“Traz Outro Amigo Também”, quarto LP de José Afonso, demorou cerca de um mês a ser gravado em Londres, em 1970, nos estúdios da Pye, não mencionados no disco.

Além de mim, assistiu também à gravação do álbum José Labaredas, homem bom do Couço, fadista por gosto, companheiro de Manuela Videira e amigo de Zeca.

Esta “família”, incluindo a Nina e a Milú, irmãs da Manuela, vadiou pela cidade, gozando o mais possível a “swinging London”,  tendo sido surpreendida com “encontros imediatos”.

Fomos, por exemplo, a um festival anti-nuclear (Festival da Páscoa pela Paz) que se desenrolou no dia 29 de Março de 1970, em Victoria Park e onde encontrámos Gilberto Gil, exilado em Londres juntamente com Caetano Veloso.

Os nomes mais sonantes do Festival, apresentado pelo famoso John Peel, já falecido, eram os de Yoko Ono e John Lennon  (que só declamaram), Arthur Brown, Liverpool Scene, Viet-Rock Group Of Keele University, Greek Arts Theatre.

Há um EP de José Afonso, “No Vale de Fuenteovejuna”, cuja capa é uma fotografia tirada nesse festival com José Afonso, Gilberto Gil, Luís Filipe Colaço e Zélia, mulher de Zeca, com cachecol pela cabeça.

Aliás, há duas capas deste mesmo EP, um pormenor curioso representativo dos tempos ditatoriais que então se viviam. Além desta capa que acabo de descrever há uma segunda, com a foto de Luís Colaço tapada e, ainda por cima, com um erro (ver imagens).

A foto, de José Labaredas, não foi tirada em Hyde Park, como se diz, mas sim em Victoria Park. Ninguém sabe exactamente por que razão a foto foi tapada, nem o próprio Arnaldo Trindade, que foi o editor do disco, sabe, mas sendo Luís Filipe Colaço militante do MPLA a quem a PIDE criou dificuldades em Lisboa no embarque para Londres, presume-se que a razão esteja por aí.

Há mais 4 EPs de José Afonso com fotos do Festival, num dos quais, “Menina Dos Olhos Tristes”, se vê ainda Manuela Videira.

Há outra curiosidade neste Festival. Apesar de ter sido um Festival Pela Paz, ou por causa disso, foi onde os skinheads (cabeças rapadas, grupo racista de extrema-direita) fez a sua apresentação pública.

Estávamos calmamente a assistir aos concertos quando veloz e rapidamente um arrastão de skinheads passou por nós, Quando démos por isso, estava um negro no chão a sangrar. Tenebroso!

Voltando aos brasileiros exilados, José Labaredas organizou um almoço ou um jantar (já não me lembro muito bem) num restaurante português em Beauchamp Place (onde a princesa Diana ia às compras), uma das mais castiças ruas londrinas. “Fado” era o nome do restaurante.

À mesa, um grupo grande de 9 pessoas, entre as quais, José Afonso, Gilberto Gil e… Caetano Veloso.

“Caldo verde lembro-me que comemos todos e também pastéis de bacalhau”, recorda Luís Filipe Colaço.

Falou-se muito de música e também de política, pois ambos os países viviam então em ditadura.

Caetano Veloso confessou que estava a ser pressionado pelos amigos no Brasil a escrever uma canção sobre os seus dias de exilado em Londres. “Não sei como fazê-lo, sinto-me bloqueado!”.

Foi então que José Afonso veio em seu socorro e lhe deu um lamiré, nascendo assim “London London”, que começou a ser sucesso na voz de Gal Costa.

I’m lonely in London, London is lovely so
I cross the streets without fear

Luís Pinheiro de Alameida, Gazeta da Beira, 10/06/2021

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ImprensaTestemunhos
22/02/2021By admin-aja

Zeca, anda ver o sol chegar

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ImprensaTestemunhos
06/08/2019By admin-aja

Zeca Afonso é património cultural

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ImprensaTestemunhos
23/02/2017By admin-aja

Zeca Afonso: O que dizem dele os jovens.

A direita não vai à bola com ele. O Portugal de lés a lés. Orgias de ritmo. O nosso pai. Ponte entre Portugal e África. Não era grande poeta. Assim falam os que eram adolescentes quando Zeca morreu. Por João Bonifácio

a Um homem começa um dia a executar o que por menoridade semântica chamamos “obra”. Mas é possível que esse homem nunca tenha a certeza de escapar ao julgamento do tempo: tudo tem um certo intervalo em que o seu reinado se edifica. O que lhe farão os que vêm depois? É essa a pergunta que fazemos hoje que passam 20 anos sobre a morte de Zeca Afonso, a quem as homenagens oficiais consagram o epíteto de “maior génio da música portuguesa”. Perguntámos aos que estavam a tornar-se homens quando Zeca morreu e aos que estavam a nascer quando Zeca nos deixou. A ideia é saber como Zeca sobrevive e é recebido pelos filhos da liberdade.”A influência que ele tem nos músicos é total. Só isso lhe garante uma certa posteridade.” A frase é do poeta Pedro Mexia, 34 anos alinhados à direita. A auscultação entre músicos parece dar-lhe razão. Victor Afonso, 34 anos, que edita discos de electrónica enquanto Kubik, chama-lhe “espírito criativo e irrequieto”. Afonso estudou Zeca desde cedo, primeiro “aos dez anos nas aulas de guitarra clássica”, depois “no curso de educação musical, nas cadeiras de etnografia, não porque o Zeca fizesse música verdadeiramente etnográfica mas porque partia dela para lhe atribuir elementos de uma grande modernidade estética”.
Esse lado etnográfico parece ser particularmente reconhecido, e mesmo entre poetas: Mexia realça o “trabalho de campo [de recolhas] de Zeca, até porque a cultura popular que vinha do Estado Novo era muito artificial”. E o também poeta José Miguel Silva, 38 anos alinhados à esquerda, destaca “o papel muito importante na revitalização da música popular portuguesa”, chamando a atenção “para uma tradição que estava um bocado esquecida”.
Miguel Almeida, 33 anos, fanático da obra de Zeca, não tem dúvidas em reafirmar o lado camaleónico do compositor: “Há ali muita Beira (a de cá e a de Moçambique), África a rodos, Portugal de lés a lés e um sentido musical enorme, sem medo de experimentar. Tens no Zeca desde canções despidas, completamente espectrais, fantasmagóricas, a orgias de ritmo.” Mas, e faz questão de vincar isto, “ele não era uma ilha isolada, era uma parte do Portugal em que vivia, e por isso hoje faz-me alguma confusão esta tentativa de separar o músico do político, de o branquear. Não havia Zeca sem luta contra o fascismo, sem revolução, sem o afirmar destemido de ideais que hoje nos podem parecer deslocados e anacrónicos.”
Valete, o rapper
Zeca, para todos os efeitos, é um símbolo político, “essa figura física capaz de responder aos acontecimentos do seu tempo” (José Miguel Silva). Para um rapper como Valete, vindo dos subúrbios de Lisboa, e empenhado em olhar a realidade social, possuidor de toda a discografia de Zeca a partir dos anos 70, isso é muito importante: “A minha escola, progressista e de intervenção, é uma continuação da escola dele e do Zé Mário, que leva para a música, mais que o entretenimento, o intervir e o consciencializar. Se o Zeca não existisse nós também não existíamos. São os nossos pais.”
Mas nem toda a gente o descobriu assim. Quando Cristina Branco, 34 anos, fadista (ou nem por isso) descobriu “o lado empenhado dele”, na altura “em que se desperta para a consciência política”, isto é, na adolescência, essa revelação “não foi um choque”. Por várias razões, mas uma acima de todas: “Na casa dos meus pais sempre se ouviu o Zeca, em particular as canções próprias para crianças, as canções de embalar.” A fadista cresceu em Almeirim numa família de esquerda.
Mudemos de agulha para alguém dois anos mais velho, “ferozmente neutro”, e que cresceu em Coimbra: o cantautor JP Simões. “A princípio inspirou-me um certo aborrecimento – e só depois fiquei fã.” Esse depois deu-se na altura do liceu, em que o “ouvia imenso”. Mas lá por meio dos anos 80, as coisas, entre os adolescentes, estavam muito barricadas: JP acha que havia “um grupo que cantava o Zeca Afonso”, um género de pessoas “que se vestia como amante da natureza”. Zeca era, conclui, “refém de um contexto partidário e estético”. Afonso tem a mesma impressão: “Nos anos 80 toda essa gente era vista como “cantores de esquerda”. Havia um preconceito, que não sei se haverá ainda hoje.” Simões: “As coisas estavam encaixotadas nos seus formalismos e como as posições políticas vêm de famílias, é provável que os de direita não o ouvissem – mas ele já ultrapassou esse bicórnio da política nacional.” Cristina Branco: “Houve quase um complexo em relação a tudo isso e uma necessidade de deixar passar sem explicar o que era o Zeca.”
E hoje? Mexia: “As pessoas da direita ideológica não vão à bola com ele.” Valete acha que os amigos não ouvem Zeca: “Vivo nos subúrbios, tenho amigos de segunda geração de imigrantes e tenho amigos brancos da minha idade, ouviram falar, mas poucos têm contacto com a discografia, tem muito pouca presença na juventude.”
O músico Kalaf, que reconhece que as pessoas que lhe estão próximas “não o ouvem de todo”, acredita que o esquecimento de Zeca se deve a “ter sido comunista, e saiu de moda ser comunista”. Kalaf, poeta e cantor que nasceu em Angola, chegou a Zeca “pela versão que os Tubarões fizeram do Venham mais cinco, com o Ildo Lobo a cantar. Tinha talvez uns 17 anos. Devia estar a chegar a Portugal.” “Ele fazia a ponte de Portugal para África, não deixando de ser músico português”, explica Kalaf. Sentiu-se “atraído pela poesia dele, pelos textos”.
Palavras: a Mexia interessa-lhe “a ligação com as cantigas de amigo, letras que podiam ser poemas medievais – a maneira como ele pegava naquilo tinha imensa força, e deu dignidade à cultura popular portuguesa”. Mais uma vez, José Miguel Silva tem opiniões similares: Zeca “não será um grande poeta”, mas “as letras dele têm uma grande força emotiva”.
Preconceitos
Simões vê nele um homem cuja qualidade principal é “o lirismo, no sentido mais amplo, no sentido de cantar o mundo com as suas cambiantes”. Afonso chama-lhe “cronista acutilante” e admira “a forma como ele fazia fintas à censura.” Cristina Branco também não sobrevaloriza a questão política: “Vejo-o como um observador da vida, uma pessoa extremamente simples.” Bernardo Soares, engenheiro, 33 anos, também fanático de Zeca, encontra na sua obra “uma forma de se ser português, uma condição que ali está, decantada, sintetizada, omnipresente, mas diluída numa outra condição eventualmente superior: a condição humana… E não se destrinça onde começa o Homem e acaba o Português ou vice-versa, com as contradições todas de uma e de outra coisa”.
Camané, fadista, 40 anos (também homem das esquerdas) acha que “houve algumas pessoas que tentaram ignorar a dimensão artística do Zeca por questões políticas”, o que não lhe parece correcto, porque “a dimensão artística é superior”. Mas o que afastava Mexia da música de Zeca era uma questão quase geracional: “Eu tinha um preconceito com a música portuguesa.” Curioso que também José Mário Silva tenha uma experiência similar à de Mexia: “Nessa altura, em que ele morreu, estava muito voltado para a música anglo-saxónica, ouvi-o depois.” Esse problema nunca existiu para Camané: lembra-se “perfeitamente” da morte de Zeca, “de falarem de todas as dificuldades que passou, da doença que ele teve, do último concerto no Coliseu; durante muito tempo falou-se muito desse concerto, foi muito emocionante e ele já não tocava muito tempo ao vivo, foi uma espécie de despedida”.
Mas não é preciso viver os acontecimentos para senti-los da mesma forma: Mariana Pereira tem 22 anos e está a acabar Economia no ISEG (Lisboa). Quando ouve o concerto do Coliseu ainda lhe vêm lágrimas aos olhos: “A minha mãe não quis ir porque sabia que ele ia falecer dentro de pouco tempo – tudo isso me transporta àquele tempo que não vivi.” Para ela Zeca “ainda é muito o 25 do Abril, as memórias que ouvia contar”. Lembra-se de ouvir o avô a cantá-lo. Mariana não conhece muitas pessoas com quem se passasse o mesmo. Diz que nunca falou com pessoas da sua geração sobre Zeca. “Senti-me muito diferente das outras pessoas da minha idade, talvez por esse enquadramento familiar.”
A confiar no testemunho dela, fará sentido a pergunta de Mexia: “Como é que Zeca irá sobreviver ao ocaso das ideias e da política?” Voltando ao fã Bernardo Soares e à sua ideia de portugalidade: “Quase 900 anos depois ainda cá andamos às cabeçadas a isto tudo. As canções do Zeca apontam outro caminho.”
Entre as pessoas que ouvimos, Cantigas do Maio é o disco mais destacado. Depois vêm Eu Vou Ser Como A Toupeira e Venham Mais Cinco e Traz Outro Amigo Também. No que toca a canções, as opiniões são mais variadas, mas duas ficam aqui registadas; entre uma e outra perfaz-se um arco que une morte e liberdade.
O engenheiro Bernardo Soares, fã de Zeca, relembra um tema do último disco de Zeca, Galinhas do mato: “É difícil conter a comoção quando, em Alegria Da Criação, Janita Salomé, substituindo o já debilitado Zeca, canta “de nada me arrependo/ só a vida/ me ensinou a cantar/ esta cantiga”, irrompendo de seguida as vozes do coro Cramol com toda a sua telúrica pujança. E a cantiga é uma e só uma, a de um voo picado sobre a condição humana.” Da morte para a liberdade, o testemunho de Victor Afonso, músico: “Houve uma música que me tocou particularmente, que é, passe o cliché, o Grândola – não é só a questão da referência política. Como estudante de música, se formos rigorosos, é uma composição que sintetiza toda a arte do Zeca: em termos de composição, arranjos, linha melódica, modulações, e repetitividade rítmica, é tão complexa e mesmo assim transporta uma tão grande carga emocional. É perfeita.”

Além de uma dupla compilação que reúne os 30 melhores temas de José Afonso, uma série de discos de homenagem estão a ser preparados. Cristina Branco vai transpor para disco o espectáculo no Teatro São Luiz. A formação traz arranjos que imprimem um tom quase blues (Outubro). O italiano David Zaccaria recria a obra de Zeca num disco (Abril), com Dulce Pontes e Uxía. A orquestra Drumming, com arranjos de Pinho Vargas, Laginha e Sassetti dará um espectáculo (25 de Abril) na Casa da Música. Se resultar, há disco. Os brasileiros Couple Coffee vão editar C”as tamanquinhas do Zeca (Março). Os Frei Fado d”El Rei lançam (Abril) um disco de versões, Senhor poeta.

Há mais de vinte homenagens a Zeca entre hoje e amanhã (lista completa na página da Associação José Afonso, www.aja.pt, ou em www.vejambem.blogspot.com). Destacamos três: hoje, no Entroncamento, no Cine-Teatro São João (21h30), João Afonso, o sobrinho, interpreta a obra do tio. Amanhã, em Coimbra, há (21h00) uma tertúlia na livraria Almedina Estádio, com músicos que o acompanharam (Rui Pato e Carlos Correia), músicos da época (Manuel Freire) e amigos (José Mesquita e Abílio Hernandez). No mesmo dia, em Guimarães, no Centro Vila Flor, concerto com José Mário Branco, João Afonso e Amélia Muge.

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Testemunhos
23/02/2017By admin-aja

Já nos deixou há 30 anos…

Foto tirada com o meu amigo, Zeca Afonso, em 1960, em S. Tomé, numa recepção aos estudantes de Coimbra do Orfeão, promovida por gente de Lafões, nomeadamente umas senhoras parentes da Sr.ª D.ª Margarida Barros

Já nos deixou há trinta anos, Zeca Afonso, um bom exemplo de um Santo Moderno

O meu querido amigo Zeca Afonso, sobre quem já escrevi diversos artigos na imprensa e em revistas, nomeadamente na excelente revista cultural da cidade do Porto, “O Tripeiro”, em 20 de Julho de 2000, aquando da inauguração de uma rua com o seu nome, já faleceu há três décadas, entrando a sua pessoa no rol dos imortais, acarinhada pelas páginas da história portuguesa. Claro que determinado sector, sempre escravizado pelas suas cegas preferências políticas, continua a insistir apenas na sua vertente de cantor interventivo, única faceta que nele vislumbraram no
decorrer das décadas em que andou a palmilhar por este mundo, esquecendo o Zeca, andarilho da liberdade, cantando o desespero da vida portuguesa em rimas excepcionais. E limitam-se a olhar para as suas baladas e letras como simples armas de arremesso político que criou uma autêntica insurreição espiritual. Tal será uma tremenda injustiça em relação à sua faceta de poeta e da sua personalidade mística que pairava, como uma carícia da aragem, na sociedade onde vivia, preocupado apenas com as misérias e as dores alheias, bem como com o próximo, representado
por qualquer um, conhecido ou não, que precisasse de auxílio. E se não tinha meio de ajudar, sublimava o seu sofrimento e frustração numa balada cantada com paixão, sem qualquer intuito narcisista ou comercial, È bom que tal fique claro!!!. Todos sabemos que, para a sua imagem, foi um bem ser arvorado em líder revolucionário de determinado tipo de esquerda, pois o seu nome e a sua música não sofreram qualquer oposição sectária,
sendo-lhe permitido, sem contra tempos, entrar no Olimpo como um Apolo da poesia e da música que marcou indelevelmente uma geração, tornando-o numa fascinante personalidade da magia cultural portuguesa. Na verdade, esse apoio de determinado sector político redundou numa vantagem para a sua imagem, repito, não acontecendo o que se verificou com outras figuras do Fado de Coimbra cujo perfil não obedecia às respectivas centrais sectárias de pensamento, razão porque que tudo fizeram para que fossem afastadas das nossas recordações e da memória da
colectividade. E, deste modo, o nome do Zeca Afonso pôde gravitar para sempre na órbita da poesia com grande audição, com o foro de um dos mais sublimes cantores do nosso Século. Se fosse vivo, não se poderiam espantar se o seu nome aparecesse como candidato português ao Prémio Nobel.

O Zeca Afonso, no anarquismo da sua vida quotidiana, tinha estranhas ideias sobre o sistema político ideal, confundindo muita e variada gente, com o seu pensamento, principalmente os bem pensantes que sempre aproveitavam para o criticar pela sua vida e pelo seus hábitos. Tinha casado e tinha filhos que precisava de sustentar e por causa de quem levava uma vida de enorme carência material. E, além de nada ter, o pouco que possuía,
dava aos que considerava ainda mais necessitados do que a sua pessoa, com um espírito de solidariedade absurdo, despindo a camisa e o único agasalho que tinha, para aquecer o primeiro pedinte que topasse na rua, a tiritar de frio. Ainda por cima, era caluniado por esse espírito de S. Vicente de Paula, que o Zeca admirava e invejava por não ter coragem para levar uma idêntica vida de militância mística. Alguns que dele diziam mal, utilizavam-no para os seus fins políticos, sacando-lhe os poucos cobres que consigo trazia, invocando uma falsa necessidade e nunca se importando em saber se o Zeca tinha ou não almoçado ou quais os seus problemas económicos.


Não havia espectáculo de angariação de meios para fins políticos para que não fosse arrebanhado, não vendo no fim qualquer compensação palpável, o que me revoltava de sobremaneira. Antes do 25 de Abril foi explorado por uma conhecida editora chegando, em desespero de causa, a recorrer a um seu amigo advogado para que, judicialmente, pusesse cobro à ignóbil exploração de que estava a ser vítima. Porém, nesse aspecto, a revolução abriu-lhe a porta a uma significativa melhoria económica, atendendo ao êxito das suas baladas. Igualmente, um novo relacionamento
amoroso veio trazer-lhe a compreensão necessária de um lar equilibrado, sendo aceite como era, pela sua mulher, o que serviu de lenitivo à sua vida de sacrifício, provocada pela doença que o começou a atormentar. Convém recordar que apesar da sua maneira estranha de reagir à vida que o rodeava e às suas ideias utópicas, tocadas pelo sobrenatural, o Zeca era de uma lealdade extrema com os seus amigos. Recordo bem uma discussão havida muito antes do 25 A, sobre a possível independência de Angola, numa república de Coimbra, formada por naturais dos territórios africanos, onde a discussão começou a descambar para caminhos menos sensatos, e que o Zeca, apesar de não concordar bem com a opinião do amigo que o acompanhava, colocou-se imediatamente ao seu lado, para o que desse e viesse. Além do mais, o Zeca tinha uma visão mística da sociedade. Aspirava viver de modo muito especial, procurando permanentemente o sobrenatural, para se conseguir manter como era, isto é, com a sua
personalidade intocável. Embora muitos pensem o contrário, procurava Deus intensamente. Recordo ter me confessado ter passado a noite de Natal, deitado numa duna de Mira, enxergando as estrelas e suplicando a Deus lhe transmitisse a Paz Divina. Ele estava nos antípodas em relação a qualquer posicionamento político. Era um combatente extremista contra a fome que grassava no mundo, contra a violência de qualquer tipo, não suportando o sofrimento do seu irmão, o egoísmo da sociedade de consumo, o racismo, e as descriminações de qualquer género. Após a
descolonização desastrada, em que Cabinda foi transformada numa colónia de Angola, pelos interesses internacionais, e o seu povo submetido à força pelas armas cubanas, apesar de se sentir muito abalado pela doença, confessou que só restava ir para Cabinda de armas na mão, combater pela liberdade do seu Povo. E foi acrescentando que se eu fosse para a guerrilha, lutar contra os novos opressores do Povo de Cabinda, igualmente iria…! Era o espírito do antigo cavaleiro andante a explodir na defesa dos mais fracos. Meu bom amigo Zeca Afonso, um manancial de virtudes,
apesar de todos os defeitos que os seus detractores lhe possam assacar. No fundo, suspirava por uma sociedade monástica, onde todos seriam iguais e se ajudariam na alegria e na desgraça. È paradigmático, o que escreveu numa carta ao José Maria Lacerda e Megre, nosso comum amigo.”Gostaria de optar com uma remessa de gajos amigos por qualquer coisa vital, uma república de confrades ou irmãos colaços.”. talvez nas terras de Moçambique, pois gostaria de morrer nas plagas africanas com um veleiro a passar ao largo, ouvindo o mestre gritar “Acima, acima gajeiro, acima ao mastro real, vê se vês terras de Espanha, areias de Portugal”. No fundo, no seu misticismo, sonhava com um paraíso na terra, onde encontrasse a paz, com os bons costumes tradicionais de cada região, rodeado de amigos independentes e livres de espírito, completamente entregues ao serviço do próximo. Na verdade, e tornando a repetir o que já tive oportunidade de escrever., foi uma das figuras mais marcantes do nosso tempo, um poeta e um trovador de uma rara sensibilidade, um homem bom e principalmente um autêntico franciscano “à futrica”, que passou por esta vida para auxiliar o próximo, distribuir amizade pura e sincera aos seus iguais, cantar a beleza, lutar contra as injustiças e tentar melhorar, à sua maneira, a comunidade onde nasceu. Em cada canto tem um nome de rua e, principalmente, amigos verdadeiros e milhares de admiradores que recordam a sua personalidade singular, com grande saudade!

António Moniz de Palme | Gazeta da Beira

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DiscografiaTestemunhos
08/02/2017By admin-aja

As formigas de Zeca Afonso

Clique na imagem para ouvir esta reportagem.

O músico José Afonso também influenciou no ensino, mas os alunos não o tratavam por senhor doutor. Zeca era antes um amigo. Em Faro, o repórter Mário Antunes esteve à conversa com Maria do Carmo Henrique, aluna de José Afonso no final dos anos 50 do século XX. Maria do Carmo tinha então 15 anos e foi à porta de sua casa que Zeca Afonso viu um carreiro de formigas e começou a trautear a canção.

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No verso dos versosRui PatoTestemunhos
12/12/2016By admin-aja

Os vampiros

O destino é uma espécie de relacionamento – um jogo entre a conexão divina e a perseverança pessoal. Metade escapa ao nosso controlo, a outra metade está inteiramente nas nossas mãos. Digo isto pensando no êxito de “Os Vampiros”, de Zeca Afonso, que tive o privilégio de acompanhar desde o primeiro minuto. A música foi construída não para fazer uma revolução ou para formar oposicionistas, mas com o objectivo de criar algo disruptivo em relação ao fado de Coimbra daqueles tempos. Não tínhamos ideia do que viria a representar, do ponto de vista político e artístico. Éramos ingénuos e despretensiosos. O impacto de “Os Vampiros” foi como um choque em cadeia numa auto-estrada, um a seguir ao outro. Quando percebemos que rapidamente se tornara num hino dos opositores ao regime e em fermento para os movimentos de esquerda, ficámos assustadíssimos. Íamos para casa atormentados pelo diabinho que sopra ao ouvido as respostas evasivas que não demos em consciência. Nem o Zeca era um Che Guevara nem as nossas primeiras músicas eram óbvias nas suas intenções. E foi o que foi. Inesquecível. Inesquecível a amizade que estabeleci com o Zeca, ele que não pôs apenas toda a sua poesia nos seus discos, mas muita poesia na sua vida… Inesquecíveis os primeiros tempos, em que pensávamos que podíamos fintar a censura, e depois mais tarde, em que já era impossível fugir da lupa da PIDE e da repressão. Inesquecível a forma como gravámos as primeiras músicas, num convento abandonado na margem esquerda do Mondego, cheio de galinhas, ou os ensaios de “Os Vampiros”, numa viagem de comboio, sabendo hoje que a pulsação rítmica desta música foi influenciada pelo andamento pendular dos carris. Sobretudo, inesquecível é que tantos anos mais tarde a actualidade de “Os Vampiros” continua intacta. Basta raspar um pouco a superfície e o significado brota de novo, fresco como no primeiro dia.

Rui Pato

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Testemunhos
04/02/2014By AJA

É bonito ter Amigos que não morrem!

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Conheci o Zeca, de quem me tornei amigo de peito, em finais dos anos 60, em Paris, onde vivi uns anitos, graças ao inconfundível espírito europeísta/hitleriano, e nunca orgulhosamente só, do rabugento e santificado ditador Salazar.
Com o Zeca partilhei algumas inesquecíveis e enriquecedoras viagens na vida com enorme prazer, determinação e muita disponibilidade e entrega. O Zeca era assim. Nunca parava. O seu espírito, a sua poesia, a sua música e o seu exemplo são intemporais, universais e não se podem catalogar. Zeca foi, é e será um exemplo em qualquer lugar e em qualquer tempo deste mundo e continua a fazer parte da vida. O seu espírito, a sua poesia, a sua música e o seu exemplo são intemporais e universais. É uma saudável característica da eternidade dos grandes artistas.
Zeca Afonso foi perseguido, expulso da carreira docente, maltratado e preso pela desprezível, estuporada e hitleriana ditadura salazarenta, mas nuca desistiu, por que …era um inquebrantável defensor da “terra da fraternidade”, do “traz outro amigo” e da “cidade sem muros nem ameias…” e não só! Após o 25 de Abril/74, o Zeca já não se pertence e não tem mãos, nem pés, a medir para percorrer o Portugal que despertou para a Liberdade, tantas eram as solicitações que lhe eram dirigidas. Era espantoso e belo!
O Zeca tinha a música no sangue, o desejo da felicidade da humanidade no coração, o génio e a conquista da utopia na cabeça e a genica no corpo. Era um desassossegado contagioso com alguma boa malícia e humor sarcástico à mistura, e, como ele dizia: “Ó malta, isto já lá não vai só com cantigas”, e teve razão como se verificou no 25 de Abri de 74.
O Zeca era um homem bom e de coragem e de afectos, e, também, terno, solidário e falava sempre da esperança. A sua música, a sua postura e a sua vivência activa eram a síntese do seu desassossego e tornavam-se numa arma que metia, e ainda mete, medo a muita gente vampiresca, salazarenta e saudosista, e davam, e ainda dá, coragem a muita mais.
A amizade, a lealdade, a determinação, a solidariedade e a terra da fraternidade eram Ele. Foi um grande homem de acção cívica. Era um vulcão em constante erupção que espalhava lavas de solidariedade, de candura e de boa revolta, de vontades, de prazer de viver e da utopia e criava à sua volta como que uma ilha de afectos.
Pois é, Zeca, pregaste-nos uma partida ao teres partido tão cedo, com 58 anos, apesar de continuares carinhosamente entre nós, por que, como dizia J.P. Sartre “estar morto é ficar entregue aos vivos”. A vida não pára, nosso bom e querido Amigo, e às vezes sabe bem sermos beliscados pele memória e a Zecafonia faz bem! Margarite Yourcenar disse: “A memória da maior parte dos homens é um cemitério abandonado, onde jazem, sem honras, mortos que eles deixaram de amar”, o que não acontece com o Zeca, por que ele é o passado sempre presente, vigoroso e actual. A memória, às vezes, torna-se viva e ajuda-nos a reinventar a vida e a preparar o futuro, por que, como alguém disse, as vitórias do esquecimento são sempre derrotas da liberdade.
Lembrar-te e ouvir-te, Zeca, continua a tornar-nos “ filhos da madrugada”. Que bonito!
Por isso, meu enorme amigo, é imperiosos reviver as tuas andanças com emoção e saudade para que a memória se não apague, por que, como disse um amigo comum, só morreu o corpo do Zeca.

José Casimiro Ribeiro (Guimarães)

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Testemunhos
24/07/2013By AJA

Discurso de abertura do concerto “Os vampiros” 50 anos

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Discurso de abertura do Concerto na Aula Magna de Tributo a José Afonso, pelo Professor Doutor António Sampaio da Nóvoa, reitor da Universidade de Lisboa.
Lisboa, 20 Junho 2013

Não tencionava falar-vos. Apenas receber-vos nesta Aula Magna, junto com o Zeca.
Mas o Francisco Fanhais disse-me que tinha de vos dirigir duas palavras. Estas palavras foram-me oferecidas durante o dia.
De manhã, quando vinha para a Reitoria, o meu pai chamou-me a atenção para o facto de que, neste mesmo ano de 1963, tinha sido publicada a Pacem in Terris. E que nela se escrevia:
Quando alguém toma consciência dos seus direitos, assume também uma responsabilidade: o dever, a obrigação, de lutar por esses direitos. Por si e pelos outros.
E aqui estava o Zeca. Claro e límpido nesta frase. Autêntico, generoso, a lutar por direitos inalienáveis (irrevogáveis.., acho que irrevogáveis não se pode dizer!), a lutar pela liberdade, uma liberdade que não existe sem direitos.
E depois, durante a tarde, alguém deixou na Reitoria, em meu nome, um ramo de cravos vermelhos, apenas com uma palavra: Obrigado. Estes cravos vermelhos que berram em violenta beleza (Clarice Lispector).
Sei que eram para o Zeca. Para o seu sonho, para a forma como lutou e como nos fez lutar pela liberdade.
E lembrei-me que, nesse mesmo ano de 1963, quando o Zeca denunciava os vampiros, também Martin Luther King o fazia, do mesmo modo, ainda que do outro lado do Atlântico, deixando-nos a todos o seu sonho.
É assim com o Zeca. Há sempre outro amigo também. Pode ser uma pessoa, pode ser uma ideia, pode ser um combate, sempre pela liberdade, sempre pela justiça social.

Calados e quietos é que não!
Conformados é que não!

Já nos livramos do medo e hoje

Somos nós os teus cantores
Da matinal canção

E agora que

Venha a maré cheia, Duma ideia, Pra nos empurrar
Que venha um pensamento, P’ra nos despertar

O Zeca está em nós, está connosco, com os seus sonhos, as suas denúncias, a sua imensa autenticidade, a sua imensa generosidade.

Que venham mais cinco!
Zeca, somos nós os teus cantores.

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BiografiaGrândolaTestemunhos
24/04/2013By admin-aja

Zeca Afonso e Grândola Vila Morena…

Zeca Afonso passou pela Estudantina de S. Domingos de Rana antes do 25 de abril. Atraves de testemunhos de Arnaldo Trindade, José Jorge Letria, Jose Manuel Tengarrinha, Tozé Brito e José Rodrigues, recordamos esses tempos da censura e a escolha de “Grândola Vila Morena” para ser a senha da Revolucao.

Reportagem: Laís Castro e Ana Laura Imagem e Edição: Ana Laura

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Concertos de José AfonsoTestemunhos
03/03/2013By AJA

Sobre um concerto em Viana do Alentejo

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Até as cantigas eram recebidas de armas nas mãos…

Há precisamente quarenta anos, no dia 3 de Março de 1973 e a pouco mais de um ano da eclosão da Revolução dos Cravos, Viana do Alentejo assistiu àquele que terá sido o mais participado e mediático acto colectivo de resistência contra a ditadura ocorrido na nossa terra: o espectáculo de “canto livre” onde deveria ter actuado, entre outros, o cantor José Afonso.

A ideia desse espectáculo tinha nascido um mês antes, no dia 31 de Janeiro, durante um jantar que decorreu no Monte Alentejano, em Évora, onde se reuniram largas dezenas de oponentes ao regime a pretexto de celebrarem aquela data histórica. Esses jantares, embora vigiados de muito perto pela polícia política – a tenebrosa PIDE -, estavam autorizados desde a chamada “primavera marcelista”, uma tentativa de reciclagem do Estado Novo que, contudo, deixou tudo na mesma… Muito amigo de Francisco Pinto de Sá (pai do anterior presidente da Câmara Municipal de Montemor-o-Novo), Zeca Afonso participou, cremos que a seu convite, nesse jantar, tendo actuado no final. Acompanhavam-no José Jorge Letria (actual presidente da Sociedade Portuguesa de Autores), o jovem cantor açoriano Carlos Alberto Moniz e a sua companheira de então, a Maria do Amparo.

O Cine Teatro Vianense pertencia, desde 1970, à família Baião, muito ligada aos meios de oposição ao regime. Um dos seus elementos, então estudante em Évora, estava presente nesse jantar, pelo que em conversa com os “cantautores” logo ali delineou a possibilidade de organizarem uma sessão de “canto livre” naquela sala, marcando-se o dia 3 de Março, um sábado de Carnaval, para a sua realização. Sendo sobejamente conhecido que o Zeca Afonso encabeçava uma longa lista de artistas proibidos pelo regime, o espectáculo foi cautelosamente divulgado como sendo de “variedades”, procurando-se assim iludir a vigilância da PIDE. A sua “comissão organizadora” era composta pelo António Murteira, de Évora e pelos jovens Luís Filipe Branco e Francisco Baião, estes dois últimos de Viana.

A partir de Évora foi organizada uma excursão, em autocarro alugado nos “Belos”: o bilhete, vinte escudos, incluía o transporte e a entrada na sessão. Os folhetos de divulgação foram mandados fazer na Tipografia Diana – infelizmente não se conhece nenhum exemplar. O programa incluía, para além de José Afonso, a participação de José Jorge Letria, do grupo vocal “Intróito” (tinham sido lançados, anos antes, no famoso programa da televisão “Zip-Zip” e tinham também participado no Festival da Canção de 1970), um grupo de “free-jazz” da linha do Estoril, os “M.S.A” (em que tocava um outro Chico Baião, mais tarde conhecido como mentor dos “Ortigões”) e o Grupo Coral dos Vindimadores da Vidigueira, este último então liderado pelo saudoso poeta Manuel João Mansos.

As licenças para a sessão foram tiradas na Câmara Municipal pelo Luís Filipe, que vivia em Viana e trabalhava nos escritórios dos “Moinhos de Santo António”. Conseguiu-as sem dificuldade de maior, certamente porque naquela altura se realizavam com alguma regularidade espectáculos de variedades no Cine-Teatro Vianense – a maioria a favor da construção do campo de jogos do Sporting -, pelo que aquele bem pode ter passado por ter sido apenas mais um. Mas também e sobretudo porque o funcionário da câmara que as emitiu, na altura ainda há pouco tempo naquelas funções, desconhecia por completo o interdito que pairava sobre tal naipe de artistas.

A poucos dias do espectáculo e com centenas de bilhetes já vendidos o regime percebeu, finalmente, que tinha autorizado algo que não o devia ter sido. O Luís Filipe foi então mandado chamar à Câmara, sendo-lhe comunicado pelo Andrade, o chefe da Secretaria, que afinal ainda era necessário submeter “à apreciação superior” a lista das canções que iriam ser interpretadas. Alinhavado esse rol de cantigas, no qual os organizadores da sessão tiveram o cuidado de não fazer incluir temas que, à partida, ainda comprometeriam mais as já escassas hipóteses de realização da sessão (nem pensar em incluir, por exemplo, temas como “Os Vampiros” ou a “Menina dos Olhos Tristes”), foi o mesmo entregue na Câmara. A resposta apenas chegou no próprio dia do evento, às onze horas da manhã: apesar de já estar autorizada, a realização do espectáculo estava agora proibida!

Em entrevista ao Jornal de Viana do Alentejo, publicada no seu número 4 de Março/Abril de 1973, o Luís Filipe Branco conta as peripécias desses dias:

“Do dia 27 [de Fevereiro de 1973], ficaram todas as autorizações em ordem: na Secção de Finanças, na Câmara e na Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais.

No dia 28 recebemos uma comunicação assinada pelo chefe da Secretaria da Câmara, em que nos informava que teríamos que apresentar os títulos das canções. No dia 29 fui apresentar os títulos requeridos, mas como o chefe da Secretaria estava ausente, voltei no dia seguinte. Apresentei então as canções e fui informado de que era necessário um “visto superior” que o próprio Secretário iria requerer.

No dia do espectáculo, cerca das onze horas, veio a resposta definitiva, não o autorizando.”

Chegamos então ao dia 3 de Março. A vila, habitualmente calma e pacata, começou a ver-se repleta de gentes logo pela manhã, caras desconhecidas, muitos de cabelos compridos e com mochila às costas, uns de transporte próprio, outros vindos nos transportes públicos. A Praça da República e o largo em frente do Cine Teatro foram-se enchendo de gente. Entretanto também já tinham chegado a Viana alguns agentes da delegação de Évora da PIDE/DGS, comandados pelo célebre inspector Melo. A sua viatura de serviço, toda a gente a conhecia: um Volkswagen 1200 verde, com a matrícula FE-52-24. A Guarda Republicana, reforçada com elementos vindos de Évora e de outras localidades vizinhas, tentou impedir o acesso à vila; mas sem grande sucesso, uma vez que até a excursão organizada a partir de Évora conseguiu chegar a Viana.

Ao longo de todo o dia os organizadores desdobraram-se em tentativas que pudessem conduzir a um eventual desbloqueamento da proibição. A intermediação do então presidente da Câmara de Viana, José Carlos Guerreiro Duarte, não resultou, o Governo Civil estava encerrado e o chefe da Secretaria da Câmara, que na altura já vivia em Évora, não se encontrou ou não se deixou convenientemente encontrar.

Entretanto a tensão ia subindo. Ao cair da noite as pessoas não arredavam pé, já toda a gente sabia que o espectáculo não se iria realizar. Centenas de pessoas aglomeravam-se frente ao Cine Teatro: porque estar ali, uns ao lado dos outros num espaço que se queria público, em suposta transgressão perante um poder considerado arbitrário e ilegítimo era, por si só, já um acto de efectiva resistência.

Os acontecimentos precipitaram-se. A polícia política, acolitada pela Guarda, atarefava-se em mandar dispersar as pessoas que, porém, insistiam em não obedecer. Um jovem, armado com uma simples flauta, tocava perto dos ouvidos do Tarouca, um dos agentes da PIDE. O Melo arrancou-lhe o instrumento das mãos, lançou-o raivosamente ao chão e espezinhou-o. Por esse mesmo tempo cantava o Francisco Fanhais:

“Cortaram o bico, ao rouxinol, Rouxinol sem bico não pode cantar…”

A certa altura o chefe dos Pides sacou da pistola, puxou a culatra atrás e berrou ameaças. Um ano depois, a 18 de Maio de 1974 e passado que estava o pesadelo da ditadura, Nuno Gomes dos Santos, um dos elementos do grupo Intróito que a tudo isto assistiu, escrevia no jornal Diário de Lisboa:

“Foi em Viana do Alentejo, há tempos. Lá fomos, com as violas e as cantigas na bagagem. Era, apenas, mais um de entre os espectáculos em que participávamos regularmente, não em grandes salas, não com bilhetes a um preço exorbitante, mas para o povo, para quem não tinha oportunidade de ouvir senão o que de muito mau lhe davam, em regra, por uma rádio demasiado presa, por uma televisão completamente viciada. Que música tinha Viana do Alentejo? A que lhe davam essa rádio e essa televisão.

Foi por isso que fomos: o José Afonso, o Letria, o Intróito. Que as pessoas estavam entusiasmadas com o espectáculo que lhe apeteciam, via-se pelo movimento desusado das ruas, pelo aglomerado de gentes às portas do teatro. Mas as portas estavam fechadas, e assim continuariam por toda a noite. Não era só o povo que esperava por nós.

De pistola em punho, virada para a multidão, um senhor (?) dizia que ali não se ouviriam cantigas nenhumas. Outros homens (?), também armados, dissuadiram qualquer tentativa de quem queria cantar e de quem se sentia com o direito de ouvir.

Até as cantigas eram recebidas de armas nas mãos…

Por fim a multidão acabou por dispersar. Poder-se-ia pensar que a força tinha vencido a canção, mas não! O espectáculo não se tinha realizado, é certo, mas a mobilização que tinha provocado tinha-se constituído como uma muito bem sucedida acção de luta contra o regime. Mesmo silenciado, o “canto livre” ou “canto de intervenção” revelava-se possuidor de uma enorme eficácia política, nunca até então alcançada por qualquer outra forma de expressão artística. Mesmo com o bico cortado, o rouxinol tinha conseguido passar a sua mensagem…

Anos mais tarde seria o próprio Zeca Afonso a recordar este episódio como paradigmático:

“Algumas das minhas intervenções não se chegaram a concretizar porque a Pide as impedia. Houve sessões suspensas ou interrompidas pela polícia política no próprio local. Por vezes, os acontecimentos a que davam lugar estas interrupções, a repressão exercida sobre os dirigentes dessas colectividades e sobre mim próprio – como aconteceu, por exemplo, em Viana do Alentejo quando a Pide e a GNR vieram interceptar-nos -, funcionavam como estimulante de ordem política muito mais importante do que se houvesse uma intervenção cantada…”.

Até o próprio regime percebeu que tinha cometido um erro grosseiro ao proibir e reprimir algo que já tinha autorizado. Uns dias depois destes eventos, a 19 de Março, o então director-geral da Cultura Popular e Espectáculos, Caetano de Carvalho, dirigia ao ministro César Moreira Baptista uma curiosa exposição em que afirmava a determinado passo:

” Na semana passada, noticiou o jornal “República” que um grupo de jovens democratas ia organizar, em Viana do Alentejo, um espectáculo em que figurava como cabeça de cartaz um desses cantores políticos (José Afonso). Sucedeu que só foi possível intervir à última hora, quando já se encontravam centenas de pessoas junto ao local onde se ia realizar o espectáculo. Proibir o espectáculo em condições destas é também politicamente inconveniente.”

A repressão do regime não se ficou, porém, por aí. Ainda na noite de 3 de Março os organizadores da sessão foram levados para o posto da GNR de Viana onde foram longa e surrealistamente identificados e interrogados pelo cabo Mendes, indivíduo que, mais tarde, se veio a confirmar acumular aquelas funções com as de informador encartado da PIDE. Nos dias que se seguiram, em Évora, muitos dos participantes na jornada de Viana foram compelidos a comparecer na polícia política, onde também foram interrogados e ameaçados. Embora por motivos não directamente relacionados com o espectáculo de Viana, o próprio Zeca Afonso acabou por ser preso no dia 30 de Abril seguinte, tendo permanecido incomunicável na prisão de Caxias.

Pouco mais de um ano passado sobre os acontecimentos de Viana do Alentejo foi uma canção de Zeca Afonso que deu o mote para que, numa certa madrugada de Abril, todo um País cinzento e triste se tenha, de repente, alegrado e enfeitado de cravos vermelhos. Quarenta anos depois, vividas que foram algumas alegrias e, sobretudo, muitas desilusões, eis que ecoam de novo, mais claras e necessárias que nunca, as estrofes da canção:

“… terra da fraternidade. O povo é quem mais ordena. Dentro de ti, ó cidade!…”

Francisco Baião / Março de 2013

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Concertos de José AfonsoFrancisco FanhaisJosé CarujoTestemunhos
28/11/2012By AJA

Um testemunho de José Carujo

Um testemunho de José Carujo que, entre outros temas, fala sobre alguns concertos de José Afonso e Francisco Fanhais por terras de França.

C’est un billet sur le Chili rappelant le 11 septembre 1973 qui m’a fait penser à un événement majeur au Portugal : la chute du fascisme et à la chanson de José Afonso « Grândola vila morena » qui a servi de signal au soulèvement des troupes.La Révolution du 25 Avril a eu lieu trois jours après la naissance de mon plus jeune fils. Ce sont donc deux événements très heureux qui se sont succédés. Peu après la Révolution des OEillets, j’ai rencontré Zeca (José Afonso) pour la première fois lors d’un concert qu’il a donné en France, près de Paris. Nous avons parlé et j’ai proposé (à lui et à Francisco Fanhais qui l’accompagnait toujours et qui est l’actuel président de l’Association José Afonso) d’organiser d’autres concerts en France. Et cela a eu lieu de l’automne de 1974 jusqu’au printemps de 1976, donc, à peu près, pendant un an et demi. Je travaillais à cette époque-là dans la région parisienne et j’habitais à quelques cinq minutes de l’entreprise. J’avais beaucoup de temps disponible et dans la région il y avait beaucoup de “Maisons de Jeunes et de la Culture” que j’ai contactées et des concerts ont été organisés. Il ne s’agissait pas de percevoir un quelconque cachet, encore moins pour moi-même. Il suffisait que les voyages leur soient payés et qu’il leur reste un peu d’argent par concert (mais c’était une somme insignifiante, quelques centaines de francs français pour chacun d’entre eux). Je trouvais de la place chez des amis ou parfois chez moi où ils restaient dormir. Je me déplaçais avec eux vers les endroits où ils se produisaient. Après cette période, d’autres obligations professionnelles et l’évolution de la situation politique au Portugal ont fait que j’ai cessé d’organiser ces concerts de chansons d’intervention. Mais jamais je ne me suis éloigné d’eux dans l’esprit.J’ai eu l’opportunité de rendre visite à Zeca et Zélia, sa femme, à Brejos de Azeitão où ils habitaient, déjà quelques années après son dernier concert au Colysée de Lisbonne, peu avant sa mort. Il était déjà fort malade. Et quand aujourd’hui je passe près du village, par Vila Nogueira de Azeitão, sur la route en direction du Portinho da Arrábida, je pense à lui avec chagrin et tendresse, mais aussi avec admiration !Après tant d’années passées je suis heureux que Francisco ait pris la responsabilité qu’il a au sein de l’Association José Afonso et je suis heureux aussi d’écrire sur eux. Dans une interview donnée récemment par Francisco Fanhais à « LusoJornal », publié en France, Chico a dit : « Nous ne rêvions pas de devenir des vedettes : nous voulions contribuer, par le biais de la musique, à changer les choses et les mentalités au Portugal. Il était nécessaire de soulever la chape de plomb qui étouffait le pays. (…) Nous sommes arrivés à réunir dans un concert mille ou deux mille personnes et après quelques moments nous nous apercevions que tous chantaient en choeur quelques chansons comme, par exemple, « Les Vampires ». C’était une prise de position contre le pouvoir dominant. (…) Comme vous le savez peut-être j’ai été prêtre pendant six ans. Alors, à cause des positions que j’ai prises, j’ai été suspendu de mes fonctions. Étant prêtre je ne pouvais pas me conformer au silence et à la lâcheté de la hiérarchie par rapport aux problèmes politiques de cette époque-là. Une hiérarchie qui appuyait le régime. (…) Aussitôt après la mort de José Afonso nous avons créé l’Association José Afonso dont je suis président et l’adhérent n° 12 ! Quand j’ai commencé à chanter je savais que j’allais suivre des chemins dangereux. L’exemple de Zeca, son humanisme et son courage m’ont donné la force nécessaire pour poursuivre sur cette voie. (…) Si nous pouvions résumer ce que José Afonso a été, pour moi, il a été un citoyen conscient des problèmes de son époque et qui mettait son art, sa musique, sa poésie, sa voix, sa fraternité et sa générosité immenses au service que tous ceux qui avaient leurs voix bâillonnées » (Interview faite par Dominique Stoenesco).J’ai lu il y a quelque temps la préface du livre « Toutes les chansons (de José Afonso) partitions, paroles » publié récemment par Assírio et Alvim, dans lequel les auteurs critiquent l’ « analphabétisme musical »¹ et le « mauvais goût » de quelques directeurs de programmes de radio et de télévision qui ignorent l’oeuvre de José Afonso et glorifient le fait qu’il ait été « le chanteur le plus chanté par toutes les générations et différentes écoles de musiciens ». Les auteurs de la préface affirment aussi que « Réduire José Afonso au chanteur d’intervention, qu’il a (aussi) été, consiste à induire auprès du grand contingent de gens distraits l’idée de minorité artistique, (mal) associée à la chanson politique » (…) « Dans la réalité, toutefois, les chansons ayant un contenu expressément politique sont même minoritaires dans l’ensemble de son oeuvre. » (…) « José Afonso est notre plus grand chanteur d’intervention ! » : cette éloge si consensuelle et apparemment si généreuse est la forme la plus efficace de liquider l’oeuvre du grand maître de la musique populaire portugaise dans tout ce qu’elle a d’universel et artistiquement supérieur. » José Mário Branco², l’un des quatre auteurs du livre, a dit à l’Agence Lusa que : « Ranger José Afonso dans le tiroir de la chanson d’intervention consiste à ne pas comprendre que la dimension de son oeuvre est au niveau de ce qui a été fait de plus important dans le domaine de la musique populaire du vingtième siècle. Et s’il n’a pas eu l’impact qu’il méritait c’est seulement parce qu’il est né où il est né. Il y a toute une génération de musiciens et d’étudiants en musique qui peuvent découvrir et apprendre le répertoire de Zeca Afonso sans la charge politique des temps tout de suite après le 25 avril. »José Afonso restera à tout jamais dans la mémoire collective du peuple portugais. Partout dans le pays, il y a au moins 170 places, rues, ruelles, avenues, boulevards et même quartiers avec le nom de José ou Zeca ou même Docteur José Afonso. Alors quand d’ici cent ans un petit enfant demandera à son grand-père qui c’était José Afonso je pense que le grand-père aura su par son trisaïeul qui il a été et pourra répondre à son petit-fils.¹ Je me rappelle que Zeca me parlait du « national-chansonnetisme », dénonçant avec sonsympathique sourire moqueur les options « culturelles » de l’ancien régime.² José Mário est l’un des chanteurs portugais, à la fois interprètes et compositeurs, que je préfère entre autres de la même génération (la mienne, au bout du compte…), tels que : Chico Fanhais (cité ci-dessus), Sérgio Godinho, Fausto Bordalo Dias, Vitorino Salomé, Janita Salomé…

Retirado do blogue de José Carujo
Imagens do concerto de José Afonso no Théâtre de la Ville em 1981. Participam Sérgio Mestre, Janita Salomé, Júlio Pereira e Jean.
(Fotógrafo desconhecido)

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Concertos de José AfonsoFotografiaTestemunhos
16/11/2012By AJA

Por terras da Covilhã

José Afonso, em 1975, numa sessão de canto popular no salão paroquial de Unhais da Serra.
Foto e testemunhos partilhados por António Duarte, que acompanha José Afonso na guitarra.

Eu saíra em Março de 75 da tropa. ainda vi o ataque ao RaL1. Deve ter isto acontecido na primavera de 75. Pedi ao Fausto e Zeca para virem até cá, para, na Covilhã, a caminho das Penhas da Saúde, no ex-sanatório, onde estavam albergadas cerca de 400 pessoas que vieram de Africa, os chamados retornados, fizéssemos uma sessão de canto. Veio também um grupo de teatro de Setúbal. Solicitei apoio às assistentes sociais e também à ACM, Associação Crista da Mocidade, para nos darem dormida. Veio também a Zélia. Almoçamos na Covilhã e seguimos para a serra. a ideia era, depois do canto, jantarmos no sanatório com os retornados. Já há uns dias que andara por ali e não me apercebera que havia indivíduos revoltados com a vinda apressada para Portugal. Por uma questão de precaução pedi ao grupo que não se falasse em comunismo, situação que embaraçou o grupo, pois a peça de teatro falava disso. A sessão iniciou-se e quando chegou a vez do Zeca cantar, ele disse, com cabeça baixa e consternado face ao ambiente – Bem vou cantar uma canção de amor! E cantou o Milho Verde! Uma voz soou na sala: – Não queremos aqui comunistas! Seguiu-se um silêncio, depois as crianças e mulheres começaram a sair da sala, até que ficou quase vazia. Valeu-me a sorte de que eu conhecia lá muita gente e pedi ajuda. Na altura o Fausto, tipo inteligente, se apercebera de que havia gente da Unita, MPLA e FNLA na sala, daí a divisão das pessoas. Saímos porta fora e as assistentes sociais deram-me duas cadernetas de tikes restaurant, foi a nossa sorte. Com elas fomos jantar e depois dormir. Eu também dormi com eles na camarata da ACM. Na manhã do outro dia a Zélia veio ter comigo para me informar que o Zeca não estava bem da garganta. Bem, o Zeca tinhas dessas coisas, era mesmo assim e desvalorizámos a situação. Depois seguimos para Unhais da Serra, onde o calor das pessoas e o ambiente favorável nos compensou do dia anterior. E pronto! Hoje, quando penso nisso, arrepio-me! De qualquer modo foi uma vitória e um trabalho musical em terreno minado. O Fausto escreveu um dia sobre isso, num livro qualquer que agora não me lembro. Aquela atitude do tipo que gritou, tinha a ver com o facto de o Zeca ter ido a Angola, havia pouco tempo, soube depois!

Fotografia de Francisco Carrola

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António Pinho VargasImprensaTestemunhos
11/06/2012By AJA

Pinho Vargas sobre José Afonso

José Afonso e a pluralidade dos saberes musicais: discursos e lugares comuns eurocêntricos

“Saber música” é uma frase corrente nos discursos quotidianos mas envolve muito maior complexidade do que parece à primeira vista. Em primeiro lugar porque música, no singular, é uma coisa que não existe: há múltiplas práticas musicais, muitas músicas diferentes, com diferentes modos de aprendizagem e modos de inserção social. Sempre houve, mas a primazia da cultura ocidental na construção do nosso imaginário falsamente universalista impediu-nos de considerar a pluralidade das expressões e das práticas musicais do resto do mundo até há um século. As “Histórias da Música” publicadas até 1950 e mesmo depois, ostentavam esta designação e a leitura desse livros mostrava-nos que aquele termo designava apenas a história de música ocidental da tradição erudita europeia. Aqui radica a primeira forma do eurocentrismo enraizado nos discursos sobre música nos países ocidentais. Destas histórias ficavam de fora todas as outras músicas pertencentes às outras civilizações do mundo, pertencentes a outras culturas musicais, diferentes da música europeia, que se caracteriza antes de mais nada pelo uso da escrita desde o ano 1000, da notação musical que aqui teve um desenvolvimento extraordinário mas particular. Justamente sublinhando a importância decisiva nessa tradição musical da notação, Richard Taruskin usa, na sua Oxford History of Western Music de 2003, o termo “literate” para distinguir o seu traço fundamental.
Mas não foi apenas o não-ocidental que foi apagado destas narrativas. Na própria Europa e em simultâneo com a história da música escrita, ligada quase sempre às elites culturais e sociais, sempre existiu uma outra música de tradição oral, tanto rural, de raízes ancestrais, como, a partir de certa altura urbana. Estas tradições orais da Europa e do resto do mundo tiveram uma evolução lenta, sendo transmitidas de geração em geração pela via da aprendizagem pela via da transmissão oral e da memória.
Estas músicas “sem história”, por inexistência de suporte de sobrevivência material, não foi considerada nas narrativas senão sob a designação de “música popular”, uma espécie de Outro inferior, no interior das próprias sociedades europeias. É apenas no século XIX e XX que surge um estudo e recolha sistemática destas tradições orais dos diversos países, quase sempre rurais, associado aos chamados nacionalismos musicais, formas peculiares de encontrar motivos e temática diversa daquela entretanto tornada canónica, dominada em larga medida pela música alemã, como, aliás, ainda hoje se verifica.
Estes factos são conhecidos mas continuam relativamente negligenciados, mesmo nas escolas de música, de tal forma estas se restringiram durante pelo menos 200 anos ao estudo da “música clássica”, designação errada, mas cujo erro passou para a linguagem corrente da mesma forma que uma série de equívocos associados ao domínio eurocêntrico do mundo, até à segunda metade do século XX. Essa dominação verificou-se não apenas no domínio político e militar de vastas regiões como no próprio plano epistemológico. O saber ocidental via-se como o único “avançado” e vê-se ainda a si próprio como superior face a outros saberes. A disciplina universitária musicologia, criada na Alemanha no século XIX, destinava-se ao estudo da música europeia mas, já mais tarde, foi necessário criar outra disciplina, a etnomusicologia, para estudar a música dos diversos Outros. O europeu via-se a si próprio como não tendo etnia. Esta era apenas a dos outros. Este quadro epistemológico marca ainda hoje as disputas pela primazia dos saberes e o diálogo entre eles é uma das tarefas fulcrais da fase atual, a partir da assunção crítica de que nem só o saber técnico-científico, nem a visão da alta cultura ocidentais são válidos. Mas esta hegemonia resiste e persiste sob numerosas formas. Daí que surja nos discursos correntes a expressão “saber música” como algo exclusivamente referido a uma outra coisa: “saber ler música escrita”. Saber música é muito mais do que apenas isso. Caso contrário teríamos de considerar que a maior parte das práticas musicais realmente existentes no mundo seriam realizadas por pessoas que “não sabem uma nota de música”. O século XX alterou todas as ontologias da música ao obrigar a considerar tudo aquilo que antes tinha sido excluído das narrativas eurocêntricas, fundamentalmente escritas a partir do século XIX na Europa. A invenção da gravação deu a estas músicas existentes para além do seu suporte escrito outro tipo de suporte tecnológico – a gravação – que demonstrou não apenas a sua existência mas assegurou a sua perenidade, anteriormente dependente quase em exclusivo do suporte da “notação musical”.
A partir dessa transformação tecnológica assistiu-se durante todo o século passado a uma multiplicação de expressões musicais, a um aparecimento de numerosos géneros novos que agregaram de formas inusitadas algumas destas tradições e as prolongaram até hoje de tal modo que se torna apropriado falar de uma tribalização plural de muitas expressões musicais a par com a dominação global dos produtos da indústria cultural anglo-americana pop-rock. A crise da chamada música clássica, que tem preocupado vários autores sobretudo nos países de língua inglesa, não pode ser dissociada destas transformações. A ideia base destas preocupações é o progressivo deslocamento da tradição erudita para “as margens ilustres da atividade cultural”. A sua anterior hegemonia, baseada na existência da partitura como único suporte de sobrevivência histórica é ameaçada pela existência do disco e da sua crescente importância no lugar da música nas nossas sociedades, inclusivamente na própria área da “música clássica” na qual a existência de gravações passou a ser o veículo primeiro de afirmação e disseminação dos artistas tanto os que se dedicam ao repertório histórico, a grande maioria, como os que se dedicam à criação de novas obras.
É por isso que afirmar que José Afonso “não sabia uma nota de música” traduz, de forma clara, uma incompreensão das múltiplas formas dos saberes musicais, muito vastos e variados, incomensuráveis, e uma aceitação acrítica dos discursos e dos lugares comuns eurocêntricos que ainda existem fortemente enraizados. José Afonso sabia aquilo que precisava de saber e quando queria colaboradores já com uma formação compósita entre as tradições orais e escritas, coexistentes, arranjou-os. O seu instrumento principal era a voz inesquecível e a extraordinária invenção musical e poética.

António Pinho Vargas
Artigo publicado no Le Monde Diplomatique, edição portuguesa, nº 68, Junho 2012

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Concertos de José AfonsoGalizaTestemunhos
19/05/2012By AJA

“Escandinávia Bar”: memórias de concerto em Lugo

‘Escandinávia Bar’, mesa redonda impulsada pola A.C. Cultura do País o pasado cinco de maio en Lugo, consistiu no diálogo entre persoas que asistiron a algún dos tres concertos do Zeca Afonso en Lugo nos anos 70, que expuxeron a súa memoria daquel tempo, do que representaba para eles o cantautor portugués nun contexto de ditadura fascista na que a persecución contra a oposición e o movemento estudantil era diaria e sistemática; contexto no que o ‘Grândola, Vila Morena’ se chegaría a converter nun himno da loita antifranquista.
Esta conversa serviunos para coñecer que houbo, cando menos, tres visitas do Zeca a Lugo desde o primeiro concerto, en 9 de maio de 1972 no Círculo das Artes, do que temos constancia a través do testemuño de Arturo Reguera, até o de 1975 no auditorio do barrio do Sagrado Corazón, acompañado por outros cantautores, entre eles o galego Benedicto (Voces Ceibes). Hai datos dunha outra presenza para realizar un concerto, probabelmente canda Luis Cilia, en marzo de 1973, que foi prohibida polas autoridades franquistas. No concerto do Sagrado Corazón, do que existe unha memoria máis nidia por parte das persoas asistentes, as e os militantes nacionalistas exhibiron diante do público unha faixa coa lenda «Viva Galiza Ceibe» cando o Zeca interpretaba o ‘Grândola’.
Este é o primeiro dos catro vídeos que GzVideos editou, en estreita colaboración coa A.C Cultura do País, responsábel da gravación do acto, e que recolle as distintas actividades que tiveron lugar na homenaxe a José Afonso. Os próximos iránse publicando sucesivamente.

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O que faz falta!… crónica da xornada Zeca Afonso en Lugo

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BiografiaFotografiaMoçambiqueTestemunhos
18/05/2012By AJA

José Afonso em Lourenço Marques

José Afonso, ao centro de óculos e gravata, em Lourenço Marques, no Liceu António Enes. Foto de Filipe Vieira

Nos meados dos anos sessenta (1965), aluno do então 4º ano do liceu, em Lourenço Marques, vi na pauta que esse ano teria como professor de geografia e história um tal de José ( nota: a pauta omitiu o nome Afonso) Cerqueira dos Santos, ilustre desconhecido. O professor, soube depois, tinha sido proíbido de ensinar no então continente e desterrado em Moçambique, sob condição, da PIDE, de não se meter em política. Sentado na primeira fila da aula, reparei no primeiro dia de aulas que o professor trazia um par de peúgas de cores diferentes. Penteava-se com os dedos. O ar era displicente, o sorriso cúmplice e doce. Tais ingredientes, por serem nesse tempo contra a corrente, fascinaram-me. Apresentou-se timidamente e omitiu a actividade no mundo das cantigas. Era um professor excepcional. Incitava-nos à investigação e a questionar tudo, desde os manuais a ele mesmo. Retive para sempre uma frase:” Não estou aqui para impingir, mas para insistir e resistir, convosco de preferência”.
Um dia, na discoteca Baily, em Lourenço Marques, descobri entre os velhos discos em saldo, um single com o meu professor agarrado a uma velha viola. Zeca Afonso. Duas músicas: “Menino do Bairro Negro” e “Natal dos Simples”: Comprei o disco. Na aula seguinte, quando os colegas tinha saído, confrontei o professor com o disco. Disparou, estupefacto: “Onde é que arranjaste isso?”. Expliquei o que se tinha passado. O espanto do mestre era legítimo – ele fora expulso de Portugal e proscrito nas rádios justamente por causa daquele disco e das posições que defendia em defesa dos humilhados, contra a hipocrisia intelectual dominante, todos os dogmatismos e o regime fascista.
Havia, no então Rádio Clube de Moçambique, um programa em que semanalmente eram divulgados os cantores mais votados. Elvis Presley liderava. Organizei no liceu uma votação para o disco do nosso professor. Teve adesão maciça. Na semana seguinte, Zeca Afonso liderava o “Hit Parade” e assim esteve durante nove semanas. Tive que emprestar o disco ao radialista João de Sousa, mais tarde meu colega, que desconhecia o autor. A PIDE acordou. Mandaram confiscar o móbil do crime, sentenciando a proibição do cantor. Por essa altura, já eu andava em tertúlias clandestinas com o meu professor. Ele cantava. Eu dizia o “Mostrengo” de Fernando Pessoa. Imaginam o resultado: no fim do ano, a PIDE decretou novo exílio ao professor, que foi ensinar para o Liceu Pêro de Anaia, na cidade da Beira, a mais de 500 quilómetros. Depois, seria recambiado para Portugal e definitivamente banido do ensino.”

Guilherme Pereira
Foto e texto retirado daqui

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BiografiaMoçambiqueTestemunhos
18/05/2012By AJA

As nossas tertúlias no Café Continental


Esplanada do Café Continental

Conheci-o na Beira, aí por alturas de 1959. Era professor do Liceu. Pediu-me para lhe arranjar um guitarrista, pois sabia compor, cantar e de que maneira, mas os seus conhecimentos na guitarra eram parcos, como me confessou.
Falei com o Fernandes, amigo, que tinha um conjunto que tocava no Beira Terrace nos fins de semana e feriados.
O Fernandes era pai da Zizi, uma cantora de muito mérito e que num concurso promovido pelo Rádio Clube de Moçambique, “Moçambique a cantar” ou coisa parecida, foi destronada por uma cançonetista bastante inferior, mas que era filha do então Presidente da Câmara Municipal da Beira. Para ser agradável ao Zeca, que já tinha nome pelas canções que se ouviam muito em segredo, o Fernandes lá tentou o guitarrista. Não soubemos se o conseguiu ou não pois entretanto fomos transferidos para Lourenço Marques. Aqui, decorridos alguns meses encontrámo-nos de novo nas tertúlias do Café Continental, onde na companhia do Dr. Filipe Ferreira, Dr. Barradas, mais tarde professor do Conservatório Nacional, Armando Morais, o médico dos C.F.M., Zeca Afonso, sempre só e nós, com as respectivas esposas, conversávamos sobre os problemas que então nos inquietavam. E eram muitos. A guerrilha no norte, a política na Metrópole, a incerteza de um futuro que muitos de nós acreditávamos ser de crise grave, a polícia secreta, que sabíamos estar ali ao nosso lado tentando escutar as nossas conversas, as injustiças que havia em determinados sectores da Administração Pública, nomeação de pessoas colocadas directamente pelo Governo Central em lugares que gostaríamos de ver ocupados por moçambicanos, a falta de liberdade de imprensa que era obrigada a publicar notícias, que só poderiam ser compreendidas pelas entrelinhas, a leitura do Le Monde, que o Armando Morais recebia directamente do Consulado Geral da França em Lourenço Marques e que era proibida e que passávamos uns aos outros para ler sofregamente pois dava especial realce às notícias sobre Portugal, a politica ultramarina do governo de então e a forma como era entendida a guerrilha pelas nações europeias e Estados Unidos e a possível independência de Moçambique, tendo em vista a posição dos Democratas de Moçambique, bem como as ideias oriundas da Frelimo, tudo bem reflectido pelos vários comentadores do Le Monde.
O Zeca muito dado a explosões de revolta, exprimia-se quase sempre em voz alta, não se importando que estivessem ou não na vizinhança os pides que vigiavam o local. Alguns não disfarçavam e olhavam em desafio para a nossa mesa, como se fossemos nós agentes do mal…Sabíamos quem eram, pois não era normal que para ali viesse tanta gente, desconhecida, com aquela côr “muito branca”…de quem chegara recentemente da Metrópole.
As nossas tertúlias do Café Continental!… Ainda hoje nos lembramos de como nos faziam bem…

José de Viseu

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GalizaTestemunhosUxia Senlle
10/05/2012By AJA

O cantar galego do Zeca


 

Para min o Zeca é o máximo expoñente da Música Popular Portuguesa, un músico extraordinario e autodidacta cunha rara sensilibilidade para a poesía e para transmitir o sentir musical de todo un pobo. Coñecía ben o Fado de Coimbra, a música tradicional do seu país, da que bebeu en numerosas ocasións e da música africana, moi presente na súa discografía. Toda ela é un tesouro que se vai recuperar agora nunha nova edición que saeu coincidindo co 25 aniversario da súa morte. Morte…Non me gusta esta palabra cando falo do Zeca porque para min e para moit@s está máis vivo e de actualidade que nunca. As súas palabras e as súas cancións, como todas as grandes obras de arte, non pasan de moda. Nin siquera o repertorio máis comprometido é circunstancial. Hoxe podemos interpretar Grândola cun nó na gorxa ou Utopia ou calquera outra que ainda hoxe soa nas manis da ‘geração á rasca’.
Foi tamén un activista na relación coa nosa Galiza que para él era unha especie de patria espiritual.

El foi e segue a ser Un exemplo de cómo combinar as raíces e unha linguaxe propia. O compromiso e a beleza, o lirismo e a realidade. Poucos autores no mundo conseguiron dun xeito tan rotundo e natural esa conxunción irrepetíbel. A emoción e a precisión musical e esa voz fermosa e trémula que o seu sobriño João Afonso herdou. A súa sabiduría vital nunca me deixou indiferente, despois de anos e anos de escoitar e coñecer cada melodía, cada acorde, cada nota. E unha vocación de universisalidade da que procuro alimentarme, sempre. Nunca poderei agradecerlle bastante todo o que aprendín e sigo aprendendo. Cando interpreto ‘Verdes são os campos’ ou ‘Menino do Bairro Negro’, ou calquera do outra, sinto que estou en comunión con él.

De non nacer nun país pequeno como Portugal, o que lle resta visibilidade pública a nivel mundial, sería equiparable a Leonard Cohen, Bob Dylan, Brassens…Ainda así, creo que cos anos vaise recoñendo a súa figura en todo o mundo. Non en van é o compositor portugués máis divulgado de todos os tempos. É referencial e moi respectado entre a comunidade musical e literaria mais non é suficiente, tendo en conta que é o mellor escritor de cançións en portugués. Moi simples na súa forma, e moi ricas no seu contido, o retrato social dun país, un narrador de historias fantástico. VIVA O ZECA AFONSO!!!

Uxia Senlle

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Arturo RegueraBenedicto Garcia VillarGalizaTestemunhos
07/05/2012By AJA

Testemuña da primeira xira de Zeca Afonso na Galiza


José Afonso e Benedicto Garcia Villar

O 8 de maio de 1972, ás 12 da mañá, estabamos Benedicto, Maite e eu agardando puntualmente na Librería Tanco de Ourense, aquela librería que a hospitalidade cultural e política do seu dono Carlos Vázquez convertía en casa de acollida para todas as boas causas.
Eu estaba nunha impaciente espera, pois Benedicto e Maite xa estiveran na súa casa en Setúbal, pero eu non os coñecía persoalmente. Coñecía, e de non moito tempo, a súa música, que me entusiasmara, e pensar que o home capaz de cantar aquelas cousas ia logo aparecer en persoa, parecíame un soño, que de pronto se materializou ao apareceren as persoas que esperábamos, José Afonso e Zélia.
Dicía Vinicius de Moraes que “a gente não faz amigos, reconhece-os”, e iso foi o que aconteceu, pois aquel dia recoñecín un grande par de amigos.
Logo de comer, ós músicos urxíalles ensaiar, pois Benedicto ia acompañar o Zeca á guitarra, e nunca tiñan tocado xuntos. Pediron hospitalidade ó escultor Acisclo Manzano e, na súa casa, puideron comezar unha colaboración musical que ia durar anos.
O concerto foi no Ateneo de Ourense, e entre o público que enchía a sala, estaban o escritor Eduardo Blanco Amor, os artistas Acisclo, xa citado, e Xaime Quessada, e o médico Manuel Peña Rey, entre outros. O concerto correu moi ben, e ó fin todos aqueles amigos manifestáronnos a súa sorpresa por escoitar a aquele cantor tan bo e, para eles, tan descoñecido. Para máis detalles, pódese consultar o libro de memorias de Benedicto “Sonata de amigos” (Xerais, Vigo, 2008), tendo en conta que o Bene comete a pequena imprecisión de situar no día 9 o que realmente sucedeu o 8, e de aí salta para o 10 en Santiago, coméndose o concerto de Lugo.
Ó dia seguinte, 9 de maio, por tanto, estábamos en Lugo para celebrar o segundo concerto da xira, esta vez no Círculo das Artes, no salón grande, que non estaba nin medio cheo porque a publicidade fora moi mala. O noso querido amigo Luís Macía “Papís”, fora o encargado de facer a xestión no diario local El Progreso para que publicaran unha nota de anuncio para o acto, método gratuíto e normalmente suficiente para un acto cultural, pois na altura celebrábase tan pouca cousa que cando había algo asistía toda a xente que tiña un mínimo de interese por estas cousas. Pero aquel día El Progreso só publicou unha nota mínima e escondida, na que anunciaba un recital de música galaico-portuguesa, co que moita xente debeu de pensar que se trataba de música medieval. O resultado foi que a diferenza de Ourense, onde había unha sala mediana chea, en Lugo había un salón grande medio baldeiro. Con todo o concerto correu ben, a xente, como non podía ser de outra forma, tamén quedou encantada. Como curiosidade direi que foi a única vez que lle escoitei cantar en público a canción Menino d’oiro. Entre os asistentes estaba Xesús Alonso Montero, con quen logo iríamos cear, e que tamén aquí comezou unha fonda amizade co Zeca.
E por fin o dia 10 estamos en Santiago, no Burgo das Nacións, daquela sede da Facultade de Económicas. Remito tamén agora para o libro do Benedicto, que fai unha detallada descrición do multitudinario recital, no que, como é sabido, por primeira vez o Zeca cantou “Grândola vila morena” en público. Só quero engadir dúas cousas: unha é que ó día seguinte viaxei co Zeca e a Zélia no seu coche para Portugal, e fun testemuña do entusiasmo con que o Zeca contaba o concerto de Santiago ós seus amigos de Lisboa e Setúbal. Nunca tiña vivido unha experiencia semellante. A outra é que no verán de 1973, estando eu de visita, acompañeinos a Melides, unha pequena vila costeira onde pretendían alugar unha casa para as vacacións, e por casualidade cadrou de pararmos a comer en Grândola. Mentres o resto da xente facía tertulia co café, o Zeca acenoume para irmos pasear, e fomos ver a sede da Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, naquela altura pechada pola PIDE (policía política), o lugar onde coñecera a xente que lle inspirou a canción (em cada esquina um amigo, em cada rosto igualdade…), e comprendín por qué unha canción que nunca cantara en público sen embargo foina cantar a Santiago: porque volveu a encontrar aquel ambiente de solidariedade e fraternidade que o inspiraran en Grândola, e que contribuíu de xeito decisivo para a profunda relación que axiña o ligou a Galicia e aos galegos.
Aproveito a ocasión para aclarar unha lenda urbana que teño escoitado, referente ó disco Venham mais cinco, que comeza co dístico:

A garrafa vazia
de Manuel Maria

Segundo este bulo é unha referencia a unha botella de augardente que lle regalara ó Zeca e ao equipo de músicos, de viaxe para gravar o disco, Manuel María Fernández Teixeiro, o poeta da Terra Chá. Pois ben, podo afirmar que en outubro de 1973, data de gravación do disco, e pouco máis dun ano despois de comezar a súa fecunda relación con Galicia, o Zeca e o Manuel María non se coñecían, e ignoro si se coñeceron máis tarde, pero ata o 25 de abril (de 1974), tiven o pracer e o privilexio de acompañar ó Zeca as tres veces que nese período visitou Galicia (esta de 1972, marzo do 73 e poucos días antes do 25 de abril), falamos horas e horas en longos paseos por Santiago, e nunca mencionou a Manuel María. Por outra parte, o avión de Lisboa a París, onde se gravou o disco, non facía escala en Monforte de Lemos…
Para o Zeca “Manuel María”, de ser unha referencia a unha persoa concreta, sería ao gran poeta setubalense do século XVIII Manuel María Barbosa du Bocage. Lembro que no meu primeiro viaxe a aquelas terras, non ben chegamos a Setúbal, en canto subimos a equipaxe, levoume a coñecer a casa do poeta sadino, por quen sentía unha grande admiración.

Arturo Reguera | Sermos Galiza

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BiografiaJosé A. SalvadorTestemunhos
28/02/2012By AJA

José Afonso: A busca da utopia

«Mandei-lhes um telegrama. Podes pôr isso lá no jornal?»
Olhei José Afonso ainda surpreso pelas suas palavras ciciadas quando o visitei em finais de Junho de 1986. A doença avançava a olhos vistos e fitei-o de novo sem perceber totalmente o alcance da sua pergunta.
Instantes depois tudo se esclarecia: o cantor desejava publicitar que enviara ao Presidente da Guiné-Bissau Nino Vieira um telegrama de apoio para que não fossem fuzilados os seis condenados à morte envolvidos no caso Paulo Correia. Ao tomar esta atitude, José Afonso invocou razões de humanidade e as tradições humanísticas do PAIGC fundado por Amilcar Cabral.
Mesmo aqui, na aparente dissonância em relação ao Partido no poder em Bissau, José Afonso não questionava o processo político guineense nem o apoio que mantinha em relação a todos os movimentos de libertação africanos das ex-colónias portuguesas.
De resto, a realidade colonial que conheceu de perto, sobretudo em Moçambique, foi marcante na sua formação política e até na sua música.
Sempre de costas para o poder, apenas se lhe reconhecem dois períodos, ou situações, em que lhe concedeu o seu apoio: no período de 25 de Abril a 25 de Novembro, colaborando activamente com as iniciativas da 5ª Divisão e do MFA em relação aos regimes de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e S. Tomé. Esta postura perante os vários e sucessivos poderes, aqui e além fronteiras, é um dos aspectos mais salientes da sua obra.
Curiosamente, apenas uma vez José Afonso concede comparecer a um jantar de Estado, no Palácio da Ajuda: aquando da visita de Samora Machel a Portugal, com quem na ocasião estabelece uma breve conversa.
Era um homem em desobediência civil permanente assumindo-a no sarcasmo e na ironia com que encarava o pomposo da realidade, da vida, da morte ou do Estado.
E todo este olhar perante o mundo se desdobra em sucessivas canções desde a época coimbrã ao período pós-25 de Abril, abrindo perspectivas inovadoras na música popular portuguesa e acabando por constituir um ponto de referência política e ética para várias gerações.
Exigente em tudo o que fazia, excessivo no juizo crítico e na vigilância que impunha a si próprio, José Afonso sempre se escusou a admitir ser um mito. Em todo o caso, para além da sua vontade, ele é hoje, mais do que nunca, um mito do imaginário referencial, quer dos seus admiradores quer de quantos dele divergiam.
«Eu um mito?» – interroga-se um dia. «Só sinto que sou mito quando me falam disso. O facto é que em muitos ambientes fui bem estimado e em outros hostilizado de modo grosseiro».
Envolvido na timidez dos seus gestos e na sobriedade das suas atitudes, o autor de «Menino do Bairro Negro» tem uma infância repartida por Aveiro, onde nasceu em 1929, Angola, Moçambique, onde o pai desempenhou sucessivamente funções de Procurador da República e de Juiz.
A experiência africana infantil permanece-lhe na memória assim como a imagem do pai, de quem fica afastado largos anos, quando este parte para Timor durante a II Guerra e para Moçambique mais tarde.
Todo o espaço de liberdade e subversão transmitido pela realidade física africana transparece na sua obra e nas suas obsessões, assim como muitas das suas referências surrealizantes expressas nas suas canções.
Do pai herda o rigor ético e a pesquisa da informação cultural que passa pelos clássicos portugueses (ao fim da tarde, ele reunia os filhos – João e Zeca e Mariazinha – e lia-lhes poemas de Camões…) e por escritores como Proust e Romain Rolland. Mas para além disso, José Nepomuceno transmite ao filho José Afonso o grande prazer de conversar. «Meu pai queria que eu fosse doutor e não cantador. No final da sua vida já aceitava, quando soube que eram canções contra o regime. Mas o pai de José Afonso morreria sem nunca o ter ouvido cantar.
No quotidiano, do autor da «Canção do Medo» entravam inúmeras histórias, recordações e vivências que contava aos amigos durante largas conversas.
Conversador, contador de histórias, José Afonso não esqueceu os tempos passados em Belmonte, onde um tio lhe vestiu a farda da Mocidade Portuguesa sem lhe esconder as suas tendências salazaristas e pró-hitlerianas.
Quando José Afonso começa a cantar, em Coimbra, por volta do 6.º ano do liceu, está próximo o seu casamento com Amália, de quem vem a ter os seus dois primeiros filhos. O casal encontra dificuldades de ordem diversa e pela primeira vez o cantor experimenta na carne as agruras da vida. Matrimónio desfeito, dificuldades económicas, remete os filhos para Moçambique, onde são recebidos em casa dos pais. Sua irmã Mariazinha, a quem o liga um afecto particular, desempenha um papel particular nesta conjuntura.
Em Coimbra, José Afonso passa pelas Repúblicas, onde conhece a solidariedade e a boémia académica. Tem os primeiros contactos com clubes recreativos e joga futebol («Entreguei-me totalmente à mística da chamada Briosa»), acompanhando a Académica um pouco por toda a parte.
E canta, em serenatas, «em festarolas de aldeia, outras vezes em casa… Era um sujeito qualquer que queria convidar uns tantos estudantes de Coimbra, enchia-nos a barriga de vinho, e a malta cantava…». Nos finais dos anos 40, quando Carmona passa de comboio por Coimbra em campanha contra Norton de Matos, Zeca, de emoção, cchora que «nem um vitelo» ao ver o antigo chefe de Estado. É o tempo das boleias, da capa e batina («Porque um tipo de capa e batina era rei nas estradas») que lhe permite os primeiros contactos com os meios miseráveis do Porto, no Bairro do Barredo, que motivará a canção «Menino do Bairro Negro».
Sem uma postura ainda politizada, José Afonso é sensível aos dramas sociais que as suas viagens lhe desvendam.
Só em 58/59 com o surgimento de Humberto Delgado e a crise académica de 1962 – já José Afonsoi dava aulas e conhecera Zélia – se processa uma viragem na sua evolução político-cultural. O alvoroço político provocado tanto pelo general Humberto Delgado como pelo movimento estudantil de 62 reflectem-se na própria obra de José Afonso. É de 1958 a publicação do seu primneiro disco – «Baladas de Coimbra», com «Menino d’Oiro», «No largo do Breu», «Tenho barcos, tenho remos» e «Senhor Poeta», canções que se desviam da tradição coimbrã pura, tanto nas temáticas como na interpretação. Zeca é apenas acompanhado à viola por Rui Pato. Como tantas vezes sucederá ao longo da sua vida, apenas suportado por cordas de viola. Não havia as guitarras de Coimbra que Adriano Correia de Oliveira, por exemplo, nunca abandonaria.
Os discos posteriores aprofundam esta experiência. Continua Rui Pato, a acompanhá-lo sozinho, e os poemas são mais empenhados do ponto de vista social: «Menino do Bairro Negro» e depois «Vampiros», uma balada emblemática das suas posições antifascistas.
Evidentemente que nesta época José Afonso não abandonou o lirismo de Coimbra – que de resto o acompanha um pouco por toda a vida, assim como o fado de Coimbra, como se verifica em 1980 quando publica o seu album «Fados de Coimbra», dedicados à memória do seu pai e de Edmundo Bettencourt (um dos seus poetas preferidos). Mas a componente social continua a marcar preferencialmente a sua obra.
As dificuldades económicas que atravessou em Coimbra obrigaram-no a abandonar os estudos e a daegrinação docente iniciada em Mangualde acaba por conduzi-lo até ao Algarve, onde convive com Luiza Neto Jorge, António Ramos e Zélia, com quem – «um pouco ao jeito siciliano» – acaba por casar contra a vontade da família da noiva.
A companhia da Zélia é determinante na evolução do poeta. Abrindo-lhe espaço para os seus devaneios criativos, escutando-lhe os rumores e os humores, envolvendo-o numa serena e profunda ternura, Zélia seguiu-lhe o percurso e apoiou-o onde a sua acção foi indispensável. Seria ela a sugerir-lhe o regresso a Moçambique para assim poder acompanhar os filhos do primeiro casamento. E em 1964 José Afonso está de novo no então Lourenço Marques onde uma vez mais sente o peso da exploração colonial.
De Lourenço Marques salta para a Beira. Aí assiste revoltado às festividades dos colonos portugueses que apoiam a independência unilateral da Rodésia de Jan Smith. Apesar da presença do irmão João Afonso e dos amigos do cineclube local que chegam a encenar Brecht com músicas suas, José Afonso não resiste e volta a Lisboa em 1967 na disposição, como revelou a Adelino Gomes, à chegada, de ser apenas e exclusivamente professor.
Instalado em Setúbal, os seus desígnios não serão satisfeitosw e a expulsão do ensino oficial por motivos políticos impele-o para as cantigas. O destino era-lhe um tanto traçado pelas perseguições da Polícia Política. E abre-se um novo ciclo, marcado pelo aparecimento em 1968 do album «Cantares do Andarilho».
Até ao 25 de Abril, assistimos a um dos períodos mais fecundos e brilhantes da sua actividade artística que se confundia (ou fundia) com uma intensa actividade de agitação política clandestina, sobretudo os núcleos da LUAR e do PCP da Margem Sul.
Preso diversas vezes pela PIDE («como sabes eu estou preso mas também não sou um homem mau. Viste como foi. Não sejas rabugenta e ajuda o Pedro», escreve ele de Caxias à sua filha Joana em 1973), desenvolve uma dupla acção de agitação cultural e política que o leva a colectividades, clubes recreativos, associações culturais e sindicatos colaborando activamente no movimento constitutivo da Intersindical.
É neste período contactado da margem sul para aderir ao PCP mas recusa, invocando a sua condição de classe. «Respondi que não poderia ser elemento do PCP por várias razões, uma das quais era a minha origem de classe pequeno-burguesa. A única coisa que sabia de certeza eram as minhas limitações e não me arriscava a fraquejar. Se um dia fosse preso e denunciasse camaradas isso constituiria para mim uma experiência da qual nunca me sairia bem. Nunca perdoaria a mim próprio um momento de fraqueza desses. No fundo, gostava também de me movimentar numa certa margem de invenção. E pressentia que existiam outras forças embora o PCP fosse hegemónico naquela zona».
A escusa de José Afonso consagrava, afinal, a sua rebeldia permanente, o seu imaginário sem rédeas e possivelmente incompatível com qualquer disciplina partidária. E sugeria algo que sempre o perseguiu e de que sempre procurou libertar-se: o medo, embora a sua vida e prática social ilustrem a coragem da sua postura. Mas o facto de não aderir ao PC não impediu que as forças maoístas de vários quadrantes o classificassem depreciativamente, de, antes do 25 de Abril, «Amália do PC».
Mas também não o impediu de colaborar, antes e depois do 25 de Abril, com o seu PCP. O seu não alinhamento organizativo concedia-lhe uma grande margem de manobra suportado pelo seu talento artístico. Canta na Festa do Avante, em 1980, e durante a sua enfermidade Álvaro Cunhal, embora sem o visitar, coloca à sua disposição os seus préstimos caso houvesse notícia de cura para sua doença na URSS, como em tempos se admitira.
A CGTP vai um pouco mais longe e mantém-lhe um apoio inequívoco incluindo o de carácter material, como de resto várias outras entidades não oficiais, amigos e admiradores anónimos.
Sucessivamente publicará «Contos Velhos, Rumos Novos», «Traz Outro Amigo Também» e «Cantigas do Maio», com que inicia uma colaboração activa com José Mário Branco que se prolongou até hoje.
Este album marcará particularmente a sua carreira, pois nela se incluem «Cantar Alentejnao», canção mais conhecida por Catarina, e «Grândola Vila Morena». É sobretudo a partir deste trabalho que o chamado «nacional-cançonetismo», já na era marcelista, sente a necessidade de encontrar respostas musicais do regime face ao contar José Afonso.
Mas nascem novos cantores: José Mário Btranco, Sergio Godinho, Luis Cilia, Fanhais, Manuel Freire e mais tarde Vitorino, Fausto, Júlio Pereira e Janita Salomé, um grupo heterogéneo que comunga o mesmo referencial e o mesmo propósito: José Afonso e o alargamento dos espaços da música popular portuguesa.
Num outro plano, Adriano Correia de Oliveira, embora fiel às formas tradicionais de Coimbra, opta por dar voz à poesia de Manuel Alegre, que Zeca Afonso curiosamente nunca cantou.
Mas José Afonso e os outros cultores da chamada MPP criaram também um grau de exigência maior por parte do público, que se reflectiu tanto no panorama da música ligeira como no próprio fado. Amália pasa a cantar Camões, Alexandre O’Neill, Homem de Mello, David Mourão-Ferreira, e na chamada canção ligeira surgem intérpretes de maior qualidade como Paulo de Carvalho ou Fernando Tordo.
Ninguém ficou indiferente à acção musical de José Afonso, que até ao 25 de Abril ainda publicaria «Eu vou ser como a toupeira» e «Venham mais cinco».
O 25 de Abril, desencadeado por «GRândola Vila Morena», surpreende-o e «obriga-o» a participar activamente em todas as acções de massas. Ocupações de casas e terras no Alentejo, manifestações, comícios, acções de dinamização no nordeste, a tudo José Afonso se entrega de forma esgotante. Canta por toda a parte e só em 1975 volta a publicar um album – «Coro dos Tribunais» – com canções que fizera em Moçambique para a peça de Brecht e outros originais, como «Lá no Xepangara», que o revela ligado ao ritmo e tendências de África. Aqui, desempenha especial colaboração Fausto, também ele directo conhecedor dessas experiências musicais africanas.
Até ao 25 de Novembro é um verdadeiro rodopio, prevalecendo uma colaboração estreita entre o cantor e a LUAR. O desencanto posterior – jamais calará, por exemplo, o «escândalo dos salários em atraso», ou a situação de miséria da população trabalhadora da região de Setúbal, onde vive até morrer – os próprios acontecimentos que o levaram a escrever ao PAIGC, para Bissau, e posterior evolução política encenada pelos vários Governos constitucionais abrem-lhe espaço para se dedicar mais cuidadosamente à sua obra.
Os albuns «Com as minhas Tamanquinhas», «Enquanto Há Força» e «Fura-Fura», são verdadeiras crónicas do período revolucionário e pós-revolucionário. A história que se fez confunde-se com a sua vida e obra: sendo protagonista de tantos acontecimentos, é também o seu jogral / narrador.
Politicamente, manifesta o seu apoio claro a Otelo Saraiva de Carvalho em 1976 e em 1981, e estabelecdeu com ele uma amizade profunda. Nas eleições de 1986, José Afonso apoia Maria de Lurdes Pintasilgo, que corresponde às suas convicções, e confiança nas organizações populares de base, cujo papel social a ex-primeira-ministra se propunha enriquecer.
Com mos seus dois últimos albuns publicados em vida, «Como se Fora seu Filho» e «Galinhas do Mato» (este já com a colaboração vocal de outros cantores), José Afonso prossegue as suas vertentes estéticas e políticas. Por um lado, um grande enriquecimento musical a que não é estranho no primeiro caso a colaboração de Fausto, Júlio Pereira e José Mário Branco e, no segundo, a destes dois últimos. Por outro lado, José Afonso continua a sua actividade cronista e aponta a sua proposta utópica que sempre perseguiu em vida. A construção da cidade sem barreiras de homens iguais e livres é cantada em «Utopia» inserta no primeiro daqueles albuns.
Em cada disco que saía José Afonso encontrava motivo de crítica. Nunca um disco o satisdfez completamente. Depois de publicados, como confessava, era incapaz de se ouvir e de ouvi-los. Esta exigência sobre si próprio não o poderá agora assumir quando ainda este ano for publicado um novo album da sua autoria, para o qual deixou originais e todas as indicações. Provavelmente na capa seria ironizada a figura do presidente da Câmara de Lisboa, Nuno Abecassis – cuja vereação, posinal, já concedeu o nome de uma da rua da capital a José Afonso.
Mesmo depois de morto, José Afonso continua assim de costas viradas para o poder – que à boa tradição portuguesa se preocupa em fazer agora o que lhe recusou em vida.

Texto de José A. Salvador publicado a 28 de Fevereiro de 1987 no jornal «Expresso».

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25 anos (1987-2012)BiografiaCoimbraTestemunhos
27/02/2012By AJA

Recordar José Afonso


Diário de Coimbra | 27.2.2012
Via blogue de Octávio Sérgio

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25 anos (1987-2012)TestemunhosViriato Teles
25/02/2012By AJA

25 anos com Zeca

Nestes dias em que tanto se fala de José Afonso e do seu génio, gosto sobretudo de recordar que, para além da música, o Zeca era acima de tudo um homem. Um homem empenhado nas grandes lutas do seu tempo, com certeza, que procurou viver de modo integral – o que só se alcança quando se assume viver com as fragilidades, as virtudes, os defeitos, as grandezas e as contradições comuns a todos os homens.

Há hoje uma tendência, por parte de alguns dos seus/meus amigos (e porventura ainda mais dos que nunca o conheceram, à parte umas quantas adultas e descompassadas bestas que ainda não desistiram de demonizá-lo como perigoso agitador comunista), uma tendência, dizia, para um certo culto da memória de Zeca Afonso que tende a transformá-lo numa «unanimidade nacional» ou, pior ainda, numa espécie de «santo de madeira», como diria Nicanor Parra. E isso é mau e injusto – uma inverdade, como agora se diz em linguagem jornalístico-parlamentar – porque o Zeca nunca quis ser unânime. Ele escolheu conscientemente o lado da vida onde queria estar, mesmo sabendo que isso implicava um preço a pagar. E pagou-o, com juros elevadíssimos, como bem sabemos.

O Zeca era um homem preocupado como poucos com os problemas dos seus iguais. O que não o impedia de ter um sentido de humor frequentemente sibilino, de que aliás há testemunho em várias das suas canções ou em pormenores que fazia incluir nos discos – fossem as estrambólicas introduções improvisadas de temas como Senhor Arcanjo ou Rio Largo de Profundis, ou detalhes imperceptíveis a olhares menos atentos – e deixem só que lembre, de passagem e porque a propósito, a ficha técnica da edição original do álbum Coro dos Tribunais (Orfeu, 1974) onde, a par dos vários instrumentos, incluiu uma subtil referência aos «gases e flatulências» executados, digamos assim, no estúdio por ele próprio, pelo Adriano, o Fausto e o Carlos Moniz – o que ainda hoje é recordação gaudiosa, como bem se entende…

O José Afonso que conheci era um homem que conjugava uma grande aptidão para o diálogo com uma inamovível capacidade de indignação. E era, claro, um indivíduo complexo, por vezes difícil, intransigente consigo mesmo e com os outros, mas também capaz da complacência, com muito mais dúvidas do que certezas. E é essa dimensão que faz dele um ser de excepção, para lá do genial poeta e compositor e cantor que foi – e continua a ser. Ou, se quisermos, como escreveu Baptista-Bastos sobre Che Guevara: «havia nele qualquer coisa de divino porque era simplesmente um homem».
Recordemo-lo assim, então, porque é assim que se mantém vivo tudo aquilo que nos legou.

Viriato Teles

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Testemunhos
23/02/2012By admin-aja

José Afonso é de todos e não pertence a ninguém.

Sempre foi difícil vê-lo por inteiro, com a carga de símbolo da resistência a sobrepôr-se ao músico. 25 anos após a sua morte, continuamos a ver mais o homem político ou já vemos melhor o génio musical?

As iniciativas sucedem-se e continuarão a suceder-se. A data redonda potencia a homenagem. 25 anos. Um quarto de século sem José Afonso. Desde o início da semana decorre em Coimbra o ciclo Zeca Afonso – O rosto da utopia, que encerra hoje, no Café Santa Cruz, com uma tertúlia. Em Lisboa, a Associação José Afonso promove um espectáculo em que participarão Francisco Fanhais, Zeca Medeiros ou os Couple Coffee, na Academia de Santo Amaro, em Alcântara. E em Abril, a reactivada editora Orfeu iniciará a reedição da sua obra e em Braga, no Theatro Circo, o Canto D”Aqui celebra hoje e amanhã o legado de José Afonso e Adriano Correia de Oliveira, sobre cuja morte passam este ano três décadas.

Os espectáculos no Theatro Circo são obra de uma nova associação, chamada Amigos Maiores Que O Pensamento. A primeira frase do seu manifesto, exclamativa, é a seguinte: “Tempos de borrasca invadem-nos a alma!” E, em tempos de borrasca, continua o texto, precisamos do exemplo de Zeca e Adriano: “Há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não.”

É um José Afonso militante, símbolo da revolução do 25 de Abril, que ali sobressai: órfãos dele, precisamos de resgatar o seu exemplo. Mas precisará José Afonso e a sua obra desse resgate? 25 anos após a morte, o que resiste? O que fica da sua música, o que fica da sua humanidade vida fora? Falamos com Vitorino, que com ele conviveu e dele tanto bebeu na sua formação, e ouvindo músicos de uma geração posterior, com Tiago Sousa, autor de música instrumental, na tangente entre o erudito e o improviso jazz, que, à primeira vista, poucos pontos de contacto terá com José Afonso, e com Pedro Silva Martins, compositor nos Deolinda, que descende directamente da sua tradição. Sobressai a complexidade de alguém que não pode ser compartimentado.

Simplificar José Afonso é diminuí-lo. Para o ver realmente temos que o abraçar na sua totalidade. Citamo-lo: “Às vezes apetece-me acordar a chamar-me, por exemplo, António Silva Fragata Qualquer-Coisa Smith, a viver numa situação diferente, noutra terra, e não me habituar à minha personalidade, pública ou privada. Mas isso é cada vez menos possível: a gente agarra-se a uma carcaça, à biografia que nos atribuem, e ficamos indissoluvelmente ligados a isso.”

O que podia ter sido não é para aqui chamado. Não sabemos o que podia ter sido porque isso seria darmo-nos importância demasiada. Seria julgar que poderíamos continuar uma narrativa predefinida quando o homem independente que a construiu já não está entre nós.

O génio modesto

José Afonso morreu às três da madrugada de 23 de Fevereiro de 1987, em Setúbal, onde morava. O seu corpo cedeu por fim à esclerose lateral amiotrófica que o consumiu. Desaparecia aquele que será, porventura, o músico português mais importante do século XX. Desaparecia o génio modesto que foi cantor por, dizia ele, ter sido proibido de dar aulas durante o Estado Novo. Erguia a voz em denúncia das injustiças, desigualdades e atrocidades da ditadura (e das injustiças, desigualdades e atrocidades que se mantiveram em democracia) porque, muito simplesmente, um cidadão, seja ele cantor ou sapateiro, não pode fechar os olhos à realidade que o rodeia.

O que podia ter sido esse homem que contaria hoje 82 anos neste país e nesta Europa a viver uma profunda crise de tudo não é para aqui chamado. Não temos esse desplante. Para mais, quando há uma vida e a obra que a vida foi deixando com tamanha riqueza. Para mais, quando essa vida, biografada e recuperada a cada novo número redondo passado sobre a sua morte, continua a ser algo que não conseguimos abarcar totalmente.

José Afonso, nascido em Aveiro, descoberto cantor na Coimbra universitária, andarilho pelo Alentejo, pelo Algarve, pelo Douro ou pela Beira moçambicana, não é dado a simplificações. Não pode ser simplesmente o homem de cravo erguido cantando Grândola Vila Morena, não pode ser simplesmente o grande cantor que entoa Menino d”Oiro, oferecendo a canção à memória popular que não regista autoria. Perante a dificuldade em encarar o complexo, é fácil encontrar socorro no cliché. Mergulhando nos textos que se foram escrevendo até uma década após a sua morte, duas ideias surgem de forma recorrente. Que seria necessário passarem algumas gerações até conseguirmos olhá-lo de forma distanciada. Conseguiremos agora? Que era imprescindível recuperá-lo para as novas gerações, que já não o ouviam, que o desconheciam. Ouvirão agora?

Por inteiro

Vitorino, Tiago Sousa e Pedro Silva Martins são unânimes num ponto. José Afonso foi um marco absoluto na música portuguesa e deixou um legado inigualável. Vitorino começa por recordar a “ruptura” que fez em início de carreira num fado de Coimbra “que nunca mais evoluiu”. Aponta como foi, depois, responsável pelo início do “internacionalismo ao nível da música”, introduzindo “a música africana nas músicas ocidentais e dando pontapé de saída ao que se chama hoje world music“. Pedro Silva Martins não tem dúvidas: José Afonso “inventou a música popular portuguesa”. Teve a visão, “inédita até então”, de, “experimentando e inovando, olhar para aquilo que é Portugal e que é a música portuguesa”. E alcançar mais longe. Ou seja, pensar “o que poderia ser”.

Numa carreira que se estendeu desde o final da década de 1950 até 1985, data da edição do seu último álbum Galinhas do Mato, José Afonso foi músico em evolução e ruptura constante. A voz, de um timbre impressionante, aliou-se a uma força poética que irrompeu desde cedo. A música, a partir do momento em que colabora com José Mário Branco, em Cantigas do Maio (1971), ganha uma inventividade inaudita, com a abertura a novos instrumentos, com a riqueza do surrealismo de raiz popular a transbordar das letras para a música. E, depois disso, há as experiências rítmicas que levam jazz a padrões rítmicos minhotos, há África, que o marcou profundamente, a tornar-se indiscutivelmente sua.

Neste músico que não era propriamente um instrumentista de excepção – “tocava guitarra ainda pior do que eu”, sorri Vitorino -, tudo era vertido em música. “Era um homem extremamente culto nas Humanidades e tinha a fantasia delirante dos ibéricos, com paralelismo no realismo fantástico sul-americano”, aponta o cantor alentejano.

Aquela erupção de criatividade foi fundamental para a eclosão de uma das mais criativas gerações que a música portuguesa conheceu, a de José Mário Branco, Sérgio Godinho ou Fausto. E, nessa erupção de criatividade, estava inscrito o homem empenhado politicamente. O opositor do regime salazarista que, por isso, deu com as costas na prisão por mais de uma vez e que, naturalmente, viu a sua música censurada. O símbolo da resistência ao fascismo e, mais tarde, a voz do sonho revolucionário saído do 25 de Abril.

Durante muito tempo, essa dimensão sobrepôs-se à do músico – era sempre do político que se falava quando se falava de ou com José Afonso. “Essas coisas tendem ser sobrevalorizadas”, suspirava ele. Essas “coisas”, diz hoje Pedro Silva Martins, começam a ser desmistificadas. “A questão política foi, para o bem e para o mal, uma cruz que o seu legado carregou durante não sei quantos anos. Na nossa geração, talvez porque não vivemos e estejamos mais afastados daquela euforia política, conseguimos olhar para a sua música no seu todo e com uma visão descomprometida”.

Pedro Silva Martins não renega a relevância do comprometimento social no percurso de José Afonso, mas acentua que só podemos olhá-lo tendo em conta que “a personalidade artística pode ser independente da personalidade política”. Acolhendo-o na totalidade, há todo um mundo para aproveitar. A abrangência da sua influência é prova disso mesmo.

Um deus

As reedições que a Orfeu iniciará em Abril com Cantares do Andarilho (1968) e Contos Velhos, Rumos Novos (1969), que prosseguirá em Maio com Traz Outro Amigo Também (1970) e Cantigas do Maio (1971) e que se estenderá até Fura Fura (1979) – há a possibilidade de Fados de Coimbra e Outras Canções (1981) ser também abrangido -, serão acompanhadas de textos escritos por músicos cujas carreiras se iniciaram após a morte de José Afonso. Reúnem nomes tão diversos quanto a fadista Cristina Branco, o nosso interlocutor Pedro Silva Martins ou o rapper Valete.

Recuando uns anos, recuperamos uma entrevista ao Ípsilon em que B Fachada, nome incontornável da canção portuguesa da actualidade, exclama algo que muito desagradaria a um homem nada dado a pedestais: “Zeca é um deus”. Ao que acrescentou: “Mas é mais do que um deus interventivo, que isso não me traz grande efeito. A minha relação com ele é mesmo formal. Tem aquela coisa como letrista que praticamente não voltou a acontecer”. Ouçamos então, de seguida, Tiago Sousa. O pianista, autor dos celebrados Insomnia ou Walden”s Pond Monk e que assinou uma versão de A formiga no carreiro em (Re)Intervenção, álbum de homenagem editado pela Orfeu em 2010, vê na obra de José Afonso uma intemporalidade temática que reflecte na perfeição a actualidade. “Liga-me a ele a preocupação de fazer da música não só um aparelho espectacular de entretenimento” mas uma força “que tenta transformar a realidade em que vivem as pessoas”. Mantendo a independência do gesto: “Na minha opinião, o PCP absorveu-o para a sua narrativa, mas ceder a ela revela ignorância da obra. Como ele dizia “eu sou o meu próprio comité central””.

Vitorino recorda que com a morte de José Afonso se perdeu alguém que era um “aglutinador de amigos”, com quem se aprendia através do quotidiano, “naquele humor entre o Coimbrão e o surreal” que se manifestou até ao fim. “Tinha a capacidade de marchar ao lado do enterro.” E discorda com veemência dos que afirmam que a política em José Afonso obscurece o seu génio musical: “Sabe o que é que apaga o génio musical? É quererem pô-lo no cantinho do cantor. As ideias de esquerda são muito atacadas em Portugal porque o país é conservador, com uma direita sempre muito corrosiva e com poder nas unhas. Há um sentido redutor da sua obra por ele ser um homem da esquerda humanista que nunca se deixou embrulhar em partidos. Era, como todos nós, um homem com o coração à esquerda. Vermelho.”

Onde está então José Afonso? Em tudo o que se escreveu acima. Na absoluta singularidade do seu génio, na força das suas convicções, na sua humanidade desarmante. Tudo isso está na música. Como nos diz Tiago Sousa “ouvimos Zeca e reconhecemos Zeca, mas se utilizarmos soa demasiado a imitação. Há repercussões, seja em Sérgio Godinho e restantes contemporâneos, seja num B Fachada que vive do património que o Zeca usava, mas tentar melhorar aquilo que já foi feito é um acto inglório”.

Como resume Pedro Silva Martins, para criar algo de bom a partir de uma canção de José Afonso, “tem que se fazer próximo, e sendo próximo não será melhor”. Esse é o seu legado. Este: “Ouvindo a discografia toda, e ouvindo-a cronologicamente, compreende-se a evolução e o bichinho do génio a crescer com o tempo, com as viagens que fez, com a música que foi descobrindo, com o país que ouvimos desenvolver-se paralelamente [na música]”.

Numa entrevista a José Amaro Dionísio, publicada no semanário Expresso em 1985, José Afonso dizia: “Não me arrependo de nada do que fiz. Mais: eu sou o que fiz.” Na sua totalidade, foi imenso. E já conseguimos vê-lo como deve ser visto. Inteiro.

Mário Lopes, in Jornal Público, 23.2.2012

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25 anos (1987-2012)Testemunhos
22/02/2012By AJA

Tributo ao Zeca 25 Anos sobre a sua morte, por Alfredo Matos

A 22 de Julho de 1970, Zeca dedicou-me Por Trás Daquela Janela, Poema, por si criado e manuscrito, que posteriormente mo entregou.

Estava eu, então, preso no Forte de Caxias. Foi em Maio daquele ano, no dia 3, que a PIDE assaltou, simultaneamente, no Distrito de Setúbal, de madrugada, oito casas, prendendo oito cidadãos: quatro, em Setúbal – Carlos Lopes, António Gonçalves, Fernando Carlos e Zacarias Fernandes. Um, na Moita – Staline Rodrigues. Um, em Alhos Vedros – Leonel Coelho. Dois, no Barreiro – Álvaro Monteiro e Alfredo de Matos.

Foi um momento particularmente emocionante quando o Zeca, perante insistência continuada, a que não resistiu, interpretou, no Barreiro, naquele local, naquele ano, àquela hora e para aquela imensa multidão, aquele libelo acusatório temível e sempre actual – “os Vampiros”. Que noite inesquecível!

Conhecemo-nos no início de 1967. Com frequência nos visitámos. Eu, na sua primeira casa, em Setúbal, o Zeca, na minha casa, no Barreiro e, aqui, conviveram, connosco, algumas vezes, dois grandes amigos comuns – o Carlos Paredes e o Adriano Correia de Oliveira. Momentos de conversa livre e amiga.

Desenvolvemos uma amizade sólida, na base de imensas cumplicidades, à volta dos nossos ideais, principalmente. Esta relação levou a que o Zeca tenha aderido e participado, com grande entusiasmo, naquele memorável espectáculo, um autêntico concerto, talvez a maior e mais vibrante sessão de poesia e canto que encheu como um ovo o ginásio do Luso do Barreiro, no dia 11 de Novembro de 1967, um sábado, da iniciativa do Cineclube do Barreiro – cuja direcção, liderada por Álvaro Monteiro, viria, por esse motivo, a ser presa pela PIDE – e da Comissão Cultural do Luso. Este foi mais um dos momentos em que tomámos nas nossas mãos a procura da liberdade que o poder fascista nos negava.
Adriano Correia de Oliveira não cantou porque, como explicou, estava na tropa. Odete Santos declamou poetas como António Gedeão e Manuel da Fonseca. Teresa Paula Brito interpretou Para Não Dizer Que Não Falei De Flores e espirituais negros. O virtuosismo de Carlos Paredes e Fernando Alvim em temas como Verdes Anos. Por fim, Zeca Afonso acompanhado à viola por Rui Pato. A apresentação, improvisada mas conseguida, esteve a cargo do barreirense Manuel Teixeira Gomes. Serviu de apoio à partitura com os textos do Zeca, o muito jovem, e meu filho, Vítor de Matos.
Uma multidão, impensável, naqueles tempos e naquelas condições, repetia com insistência: “Vam-pi-ros”, “Vam-pi-ros”, “Vam-pi-ros”, “Vam-pi-ros”.

O Zeca não queria, resistiu até ao limite, mas era impossível não ceder ao pedido incessante da multidão. Todas as emoções transbordaram quando, aquela Voz rompeu, como um grito, o momento de silêncio:
“No céu cinzento/Sob o astro mudo/Batendo as asas/Pela noite calada/Vêm em bandos/Com pés de veludo/Chupar o sangue/Fresco da manada”.

Ovação poderosa estalou na sala. Em coro, todos, a uma voz, sublinham:

“Eles comem tudo/Eles comem tudo/Eles comem tudo/E não deixam nada”.

Estava a viver-se um impressionante e indescritível acontecimento, de grande impacto na região que, num período de crescentes acções políticas oposicionistas, empolgou o começo da movimentação dos democratas para o intenso período eleitoral de 1969, em que, no Concelho do Barreiro, a CDE venceu, nas urnas, a União Nacional.
A 22 de Julho de 1970, Zeca dedicou-me Por Trás Daquela Janela, Poema, por si criado e manuscrito, que posteriormente mo entregou.
Estava eu, então, preso no Forte de Caxias. Foi em Maio daquele ano, no dia 3, que a PIDE assaltou, simultaneamente, no Distrito de Setúbal, de madrugada, oito casas, prendendo oito cidadãos: quatro, em Setúbal – Carlos Lopes, António Gonçalves, Fernando Carlos e Zacarias Fernandes. Um, na Moita – Staline Rodrigues. Um, em Alhos Vedros – Leonel Coelho. Dois, no Barreiro – Álvaro Monteiro e Alfredo de Matos.

Pelo Natal de 1972, este Poema, também com música do Zeca, de interpretação difícil como o próprio o referia, foi editado em disco, sob o título, Eu Vou Ser Como a Toupeira, que também incluiu a canção A Morte Saiu à Rua, dedicada ao escultor Dias Coelho, dirigente do PCP, assassinado pela PIDE, em 19 de Dezembro de 1961. Eis o que diz o manuscrito:

Ao Alfredo Matos

Por trás daquela janela
Por trás daquela janela
Faz anos o meu amigo
E irmão

Não pôs cravos na lapela
Por trás daquela janela
Nem se ouve nenhuma estrela
Por trás daquele portão

Se aquela parede andasse
Se aquela parede andasse
Eu não sei o que faria
Não sei

Se o mundo agora acordasse
Se aquela parede andasse
Se um grito enorme se ouvisse
Duma criança ao nascer

Talvez o tempo corresse
Talvez o tempo corresse
E a tua voz me ajudasse
A cantar

Mais dura a pedra moleira
E a fé, tua companheira
Mais pode a flecha certeira
E os rios que vão pró mar

Por trás daquela janela
Por trás daquela janela
Faz anos o meu amigo
E irmão

Na noite que segue ao dia
Na noite que segue ao dia
O meu amigo lá dorme
De pé

E o seu perfil anuncia
Naquela parede fria
Uma canção de alegria
No vai e vem da maré

Assina: José Afonso A

Nas minhas cartas da prisão, à Eve, a minha companheira, dou-lhe conta das emoções, ao ouvir aquela Voz, vinda de um gira-discos, que uma vez por semana, durante escassas horas, intercalada com a voz de Paco Ibañez, de Jean Ferrat, de Léo Ferré, de Adriano Correia de Oliveira, de Beethoven… É a Voz. Aquela Voz. Nas cartas, eu ia escrevendo, frases espalhadas pelo texto que lá iam passando “… ondas eléctricas percorrem todo corpo, eriçando-lhe os pelos, tal pele de galinha, sensação que se vai repetindo, quando o nosso Zeca arranca o São Macaio… e, o Menino do Bairro Negro – Bairro, bairro negro onde não há pão não há sossego… e, Vejam bem que não há só gaivotas em terra quando um homem se põe a pensar… e, Os Vampiros – No céu cinzento sob um astro mudo. Ao ecoar Maio Maduro Maio, o silêncio suspende a nossa respiração”
No 1º de Dezembro de 1970, no Forte de Caxias, escrevinhei um texto como se fosse um poema, dedicado ao Zeca, que dele nunca teve conhecimento, talvez porque o achei de valor muito reduzido, mesmo pobre, embora com algum simbolismo pelo lugar e condições em que foi criado. Ei-lo:

Um dia golpearam o pé da flor
Mas a criança agarrou a flor
Que voltou a dar pétalas garridas
Com um perfume ainda mais doce
E a flor se fez árvore

Depois negro vendaval
Arrancou seu forte tronco…
Mas vieram as crianças
As Mulheres e os homens
Que voltaram a plantar a árvore
Que voltou a dar flores e frutos
Para as crianças
As mulheres e os homens.
E a árvore se fez bosque…

Aqui chegou o poeta…
Não há melhor melodia
Que esta faca afiada
Que este golpe de martelo
Que um vagido de criança

Treme a terra bem no fundo de nós
Acordam os Poetas
Os soldados erguem as armas
Galgam as águas dos rios
Rasgam as aves o céu…

Ouvi a sua voz
É Portugal que canta
É Portugal que está no seu poema
E a alegria volta cheia de música
Trova. Balada. Canção
O Poeta canta a vida da gente
Pescador. Camponês. Resineiro. Soldado
Poeta. Operário. Ceifeira. Doutor

Tudo é vida no seu canto
Flor. Árvore. Fruto. Pedra
Tudo em ti é movimento
Rei que tu não foste sendo
Ao teu País dás o teu grito
Há uma nuvem de gente no teu canto

Na tua voz há festa
Tem raiva o teu cantar
Há amor e esperança nas tuas Palavras
É Portugal que está no teu Poema
É Portugal que está na tua voz

Dedicado à minha irmã, Conceição – presa em 1965, depois em 1968, activista

política clandestina, membro do PCP, torturada pela PIDE de forma particularmente cruel – o Zeca escreveu um poema, oferecendo-lhe o texto por si manuscrito, na versão original. A letra, que ataca explicitamente a PIDE em homenagem a uma Combatente expressamente nomeada, nunca chegou a ser gravada. Ei-la:

À Conceição Matos

Na Rua António Maria
Da Primaz Instituição
Vive a Maior Confraria
Desta válida Nação

E muita matula brava
Ainda pensava
Que havia de vir
Um dia assim de repente
Para toda a gente
Voltar a sorrir

Mas eles, Conceição, vão
Lamber as botas
Comer à mão
Dum novo Pina Manique
Com outra lábia
Com outro tique

Na Rua António Maria
Convenha a todos saber
A patriótica espia
Sabe bem onde morder

Vela pela vossa morada
No vão duma escada
Sem se anunciar
E oferece a quem bem destina
Um quarto de esquina
Com vistas pr`ó mar

Mas eles, Conceição, vão
Lamber as botas
Comer à mão
Dum novo Pina Manique
Com outra lábia
Com outro tique
Tem quatro letras apenas
Mas outro nome lhe dão
Nesta Fortaleza antiga
Só não muda a guarnição
E muita matula ufana
Cuidado que a mana
Morrera de vez
Deu graças à Dª. Urraca
Ao som da ressaca
Que o pagode fez

Mas eles, Conceição, vão
Lamber as botas
Comer à mão
Dum novo Pina Manique
Com outra lábia
Com outro tique

Aldeia da roupa branca
Suja de já não corar
O Zé Povo foi pr`á França
Não se cansa de esperar

O capataz de fazenda
Pôs a quinta à venda
Para quem mais der

E os donos marcaram tentos
Com novos inventos
Doa a quem doer

Assina, Zeca Afonso

A minha admiração pelo Zeca assenta, ainda, na sua qualidade impar de criador de poesia e de músico, de compositor de génio, sempre irrepetível, de ser o seu próprio e maior intérprete e também pelo seu carácter íntegro, generoso, leal, solidário. Zeca, grande amigo do Barreiro, um verdadeiro camarada, no sentido mais sublime da expressão.

Alfredo de Matos

Publicado no Rostos On-line

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Testemunhos
30/01/2012By AJA

O meu professor de história – José Afonso

Era o terceiro dia de aulas do 2º R do Ciclo Preparatório em Outubro de 1969, na Escola das Areias em Setúbal e só nos faltava conhecer os professores de Religião-Moral e História.
O meu pai dizia-me que as Disciplinas de Português, História e Religião-Moral eram as traves mestras do ensino. Assim aguardava com expectativa as aulas da tarde, que começavam com Religião-Moral. O professor um padre recentemente chegado a Setúbal, não me tinha agradado. Não gostei do seu palavreado e tratou-nos como um bando de malfeitores e depravados. E a expectativa de Religião-Moral desvaneceu-se. Por vezes interrogava-me, porque raios escolheram este padre!? Admirava tantos padres, e à frente de todos o Padre Ezequiel Augusto Marcos, o Padre Francisco Vaz e o Santo e Sábio Padre Carolino Carvalho, de quem era acólito na Igreja dos Grilos. À pergunta de meu pai: – Como vão os estudos, quando chegava a Religião-Moral, acabava sempre por dizer: – Vai, mais ou menos. Temia dizer-lhe que não gostava do padre, e ser presenteado com alguma “galheta”.
No segundo tempo era História. Depois de alguma espera e com a turma em grande algazarra, eis que surge um homem em passo apressado, deixando a turma em silêncio. Depois de tirar a gabardine bastante sovada, sentou-se à secretária e de olhar vazio passava o livro de ponto, alternando com olhares pela janela. Enquanto ele estava em silêncio sepulcral, a sala de aula era invadida por um som babilónico. O professor indiferente, não se importava.
Eu, incomodado, olhava de revés o professor, e logo concluí, que aquele homem era o José Afonso. Era o cantor que ouvia na rádio com os meus irmãos mais velhos. Algumas das suas canções passavam no programa Órbitra do RCP muito em voga. Sabia que tinha sido expulso do Liceu de Setúbal, onde estudava a minha irmã mais velha, por causa da política. Que faria ali aquele homem a dar aulas a uma turma de miúdos do ciclo!?
Levantando-se da secretária, começou a falar em cima do estrado: – Eu sou o vosso professor de História. Estou aqui porque preciso de ganhar a vida e como os meus filhos não pôem ovos, preciso de dar estas aulas. Mas não vou dar esta História da treta, imposta por este regime tenebroso, que espera pela tal idade para vos obrigar a marchar para África. A História que vou ensinar é contada pelos Homens do Mar, sentida nos Lugares e vivida pelos Povos que fazem a História. O silêncio era total na turma.
Esta turma era problemática, com bastantes repetentes, e onde as idades variavam entre os 12, que era o meu caso, e os 17 anos. Também havia alunos subnutridos, oriundos dos bairros de lata. Calados, e olhando uns para os outros, logo compreendemos que aquele professor era diferente.
– Mas não pensem que vocês não vão ter que estudar. Isso vocês têm que fazer, estudar, para serem Homens Livres, e pensarem pela vossa cabeça e assim combaterem esta ditadura, para termos um novo País. Outra coisa: Vou ter que fazer pontos, porque tenho que dar notas. Por isso vão ter que estudar o vosso livro. Têm que estudar, mesmo que essa matéria seja uma falsidade. Se quiserem copiar é com vocês. Não vou andar armado em toupeira, é uma decisão vossa. No entanto acho que devem ser honestos, porque se não o forem, juntam-se ao bando de vigaristas e corruptos que governam este país. Temos que ser dignos connosco, para sermos dignos com os outros. Por isso, recomendo que não devem copiar. Há que criar princípios e valores. Não concordam? Bem, por hoje é tudo, podem sair.
Ao longo dos dois períodos que foi nosso professor, entrevistámos pescadores, visitámos ruínas romanas, folheámos enciclopédias cheias de gravuras inacessíveis aos pobres, eram aulas vivas de História. Foi das turmas com menor abstenção e o aproveitamento subiu substancialmente. Depois da Páscoa já não voltou, sem sabermos porquê. A professora substituta, admirada dizia que nunca tinha visto uma turma com tanto entusiasmo pela História.
Se este não fosse um País de labregos, com colossal desonestidade, que medram em asfixiante mediocridade de cariz inquisitorial, provavelmente o País respirava a Obra Humana, Intelectual, Musical e Poética de Zeca Afonso.

Ezequiel Alves Fernandes

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Mário ViegasTestemunhosVídeo
26/01/2012By AJA

Mário Viegas fala de José Afonso

 

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Testemunhos
14/11/2011By AJA

Festival do Rio, 1972 (1/2)

Corriam os cinzentos dias de Setembro de 1972, ao que diziam, tempos de primavera marcelista, quando o país soube que, num concurso envolvendo os leitores do “Diário de Lisboa”, José Afonso tinha sido escolhido para representar Portugal no VII Festival Internacional do Rio de Janeiro.
O Festival do Rio de Janeiro perdera as suas raízes e características populares, os tempos pós-Woodstock levaram a que fosse permitida a entrada a conjuntos musicais com aparelhagem electrónica.
Para trás ficaram os tempos da música popular brasileira, tempos que permitiram, como por exemplo, em 1968, em plena ditadura brasileira, que Geraldo Vandré cantasse “Para Não Dizer Que Não Falei de Flores” em que, caminhando e cantando e seguindo a canção aprendendo e ensinando uma nova lição, vem, vamos embora que esperar não é saber quem sabe faz a hora não espera acontecer, era chegado o tempo de lutar pela Democracia e a Liberdade.
Por outro lado, o Festival fora tomado pelas editoras discográficas que impuseram a sua lei, e o transformaram numa enorme salgalhada.
José Afonso, que sempre se recusou a ser vedeta, não tinha nada a ver com a escolha dos leitores do jornal, mas caiu mal, entre as virgens ofendidas de alguma esquerda, que aquele, de quem Natália Correia dissera que é pela tua garganta que soltamos, as eriçadas aves proibidas, que no muro do medo desenhamos, não tivesse dito não à sua a sua participação no festival.
José Afonso, já no Rio de Janeiro, confrontado com o paleio das virgens, e com aquela deliciosa ingenuidade, aquela natural sinceridade que sempre o acompanhou, disse que, sim senhor, aquilo era uma aldrabice mas que se estava a borrifar para o festival e apenas aproveitou a boleia para ir conhecer mundos e gentes que há muito queria conhecer e foi isso o que andou por lá a fazer: feijoadas, caipirinhas, tardes em casa de Jackson do Pandeiro, conversas com Clementina de Jesus, Luiz Gonzaga, Chico Buarque, Gilberto Gil, ida ao teatro para ver “O Interrogatório”, peça de Peter Weiss, ida ao cinema para “A Última Sessão”, filme de Peter Bogdanovich.
Não fui ao FIC pelos prémios ou para consciencializar pessoas mas para sair, um pouco, deste círculo vicioso, para respirar outros ares.
Não acredito em festivais e muito menos neste. O festival não é realmente popular, se o fosse os bilhetes não seriam tão caros. A minha presença aqui deve-se a uma votação popular que muito me honra e à qual eu tinha de dar uma satisfação. De resto, tudo o que menos me interessou foi festival tudo o que ele é e o que pretende.
Às tais virgens ofendidas deixou recado: nunca surgem nas horas decisivas. É triste!
As ditas, se agoniadas estavam, pior ficaram e lembra bem o que lhe chamaram. Um dia talvez se disponha a colocar as loas, os elogios, tutti quanti, que as tais virgens, depois do 25 de Abril, disseram e escreveram sobre José Afonso.
Por ele, que não é formado nem deformado, limitou-se a compreender, a andar para frente, indo ao encontro de uma receita que o avô, republicano histórico, costumava dizer: os amigos quando não têm virtudes há que inventá-las.
O “Diário de Lisboa” era um jornal feito e lido por gente de esquerda, ou melhor por gente anti-regime. Não espanta a escolha que, obviamente, não podia cair em António Calvário, ou Artur Garcia, ou Simone, ou Paula Ribas.
Calhou-lhe em sorte abrir o Festival e apanhou um público selvagem (quinze mil ou muito mais) a entrar fora de horas, cerveja na mão, a mandar papos e allôs, para o lado e, para lém disso, há que juntar a péssima acústica do Maracanhâzinho.
Inquieto e nervoso, José Afonso cantou a lindíssima “A Morte Saiu à Rua”, evocação do assassínio, pela PIDE, do pintor José Dias Coelho, na Rua da Creche, e que hoje tem o seu nome, no dia a 19 de Dezembro de 1961, canção que há-de fazer parte do álbum “Eu Vou Ser Como a Toupeira” que sairá em Novembro de 1972.
Com toda a naturalidade foi eliminado.
Para completar, mais ou menos, o informe, diga-se que o Festival, por escolha do júri da organização, e angariado pelas editoras, foi ganho por David Clayton-Thomas, ex-vocalista dos Blood, Sweat ant Tears, que interpretou “Nobody Calls Me Prophet”, que o júri popular escolheu a canção “Aeternum”, do grupo italiano Formula Tre, que Demis Roussos pôs a plateia em delírio, que Baden Powell e Jorge Ben, brasileiros e de qualidade, passaram ao lado do júri e da gentalha, que canções de Paul Mauriat e Georges Moustaki, foram eliminadas e que Astor Piazzola, que foi ao festival por imposição da sua editora, apresentou a canção “Ciudades”, cantada pela sua mulher Amelita Baltar, que se fez acompanhar pelo seu Bandoneon e um conjunto que incluía um violino, foi, durante a actuação, simplesmente vaiado.

Luís Pinheiro de Almeida

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Testemunhos
14/11/2011By AJA

Festival do Rio, 1972 (2/2)

Esta é a capa da revista “Rádio & Televisão”, de 28 de Outubro de 1972.
“José Afonso: um Homem em carne viva” é uma reportagem/entrevista de Lurdes Féria, logo após a chegada de José Afonso do Rio de Janeiro.
O trabalho transcreve a carta que José Afonso, em 26 de Setembro de 1972, dirigiu ao Director da “Tribuna da Imprensa”:
Desde a minha chegada ao Rio, para eventualmente representar Portugal no VII F.I.C., tenho sido obsequiado pela Imprensa com a consideração e respeito que o meu trabalho em música e como ser humano julgo merecer.
Em todas as minhas declarações aos jornalistas brasileiros tenho afirmado que nem ao menos considero o F.I.C. um festival popular. Considero-o mesmo como negação da arte popular, no sentido que Brecht dava ao termo.
No entanto, por lamentável equívoco, têm-me sido atribuídas palavras segundo as quais “eu não teria atirado com o violão ao público do Maracanhânzinho por respeito ao F.I.C.”. Sempre achei e continuarei a achar, até prova em contrário que o público sempre tem razão, mesmo quando a não tem. Quero com isso dizer que se o público reage mal a uma canção válida, algo o motivou para isso.
Não escondi ser nulo o meu respeito pelo Festival, que para mim foi apenas pretexto para que eu pudesse, no Brasil, falar verdades sobre o meu povo e o que com ele se passa musicalmente.
Não consegui apresentar a minha canção “A Morte Saiu à Rua”. Por um motivo ou por outro, senti-me numa arena. Mas bem pude notar que não vaiavam o que eu cantava. Simplesmente, não me chegaram a ouvir – o que lamento muito.
Agradeço a publicação desta carta e aproveito para agradecer todas as vivências que a actual estada no Brasil me tem dado.
À imprensa e ao povo brasileiro, no que eles têm de mais legítimo, todo o meu respeito:

JOSÉ AFONSO, VIII F.I.C. – Representante de Portugal.

Luís Pinheiro de Almeida

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Testemunhos
22/06/2011By AJA

Memórias de uma aula de Zeca Afonso em Setúbal

Barreiro, 4 de Outubro de 1967
(Quarta-feira)

Segundo dia de aulas. Continua o desassossego, com o pessoal a trocar beijos, abraços e confidências, depois desta longa separação que foram 3 meses e meio de férias. Estávamos todos fartos do verão, com saudades uns dos outros. A sala é a mesma do ano passado, no 1º andar e cheirava a nova, tudo encerado e polido, apesar do material já ser mais do que velho. Somos o 7.º A e como não chumbou nem veio ninguém de novo, a pauta é exactamente igual à do ano passado. Eu sou o n.º 34, e fico sentada na segunda fila, do lado da janela, cá atrás, que é o lugar dos mais altos.

Hoje tivemos, pela primeira vez, Organização Política e apareceu-nos um professor novo, acho que é a primeira vez que dá aulas em Setúbal, dizem que veio corrido de um liceu de Coimbra, por causa da política. Já ontem se falava à boca cheia dele, havia malta muito excitada e contente porque dizem que ele é um fadista afamado. Tenho realmente uma vaga ideia de ouvir o meu tio Diamantino falar dele, mas já não sei se foi por causa da cantoria se por causa da política. A Inês contou que ouviu o pai comentar, em casa, que o homem é todo revolucionário, arranja sarilhos por todo o lado onde passa. Ela diz que ele já esteve preso por causa da política, é capaz de ser comunista. Diferente dos outros professores, é de certeza. Quando entrou na sala, já tinha dado o segundo toque, estava quase no limite da falta. Entrou por ali a dentro, todo despenteado, com uma gabardine na mão e enquanto a atirava para cima da secretária, perguntou-nos:

– Vocês são o 7.º A, não são? Desculpem o atraso mas enganei-me e fui parar a outra sala. Não faz mal. Se vocês chegarem atrasados também não vos vou chatear
Tinha um ar simpático, ligeiro, um visual que não se enquadrava nada com a imagem de todos os outros professores. Deu para perceber que as primeiras palavras, aliadas à postura solta e descontraída, começavam a cativar toda a gente. A Carolina virou-se para trás e disse-me que já o tinha visto na televisão, a cantar Fado de Coimbra. Realmente o rosto não me era estranho. É alto, feições correctas, embora os dentes não sejam um modelo de perfeição e é bem parecido, digamos que um homem interessante para se olhar. O Artur soprou-me que ele deve ter uns 36 anos e acho que sim, nota-se que já é velho. Depois das primeiras palavras, sentou-se na secretária, abriu o livro de ponto, rabiscou o que tinha a escrever e ficou uns cinco minutos, em silêncio, a olhar o pátio vazio, através das janelas da sala, impecavelmente limpas. Continuar a ler

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ImprensaManuel António PinaTestemunhos
01/03/2011By AJA

Vampiros e eunucos

Há 24 anos, feitos ontem, morreu José Afonso. Entretanto, vindos “em bandos, com pés de veludo”, os vampiros foram progressivamente ocupando todos os lugares de esperança inaugurados em 1974, e hoje (basta olhar em volta) os “mordomos do universo todo/ senhores à força, mandadores sem lei”, enchem de novo “as tulhas, bebem vinho novo” e “dançam a ronda no pinhal do rei”, tendo, em tempos afrontosamente desiguais, ganho inaceitável literalidade o refrão “eles comem tudo, eles comem tudo/ eles comem tudo e não deixam nada”.
Talvez, mais do que legisladores, artistas como José Afonso sejam, convocando Pound, “antenas de raça”. Ou talvez apenas olhem com olhos mais transparentes e mais fundos. Ou então talvez a sua voz coincida com a voz colectiva por transportar alguma espécie singular de verdade. Pois, completando Novalis, também o mais verdadeiro é necessariamente mais poético.
O certo é que a “fauna hipernutrida” de “parasitas do sangue alheio” que José Afonso entreviu na sociedade portuguesa de há mais de meio século está aí de novo, nem sequer com diferentes vestes; se é que alguma vez os seus vultos deixaram de estar “pousa[dos] nos prédios, pousa[dos] nas calçadas”. E, com ela, o cortejo venal dos “eunucos” que “em vénias malabares à luz do dia/ lambuzam da saliva os maiorais”.
Lembrar hoje José Afonso pode ser, mais do que um ritual melancólico, um gesto de fidelidade e inconformismo.

    Manuel António Pina | Jornal de Notícias
    24.2.2011

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      ImprensaTestemunhos
      25/02/2011By AJA

      Para que o não esqueçamos

      Tinha 57 anos e manteve, até ao remate dos dias, aquele sorriso meio-cândido, meio-malicioso, que lhe conferia o ar de menino de sempre. Pouco tempo antes conversámos numa leitaria à entrada das Escadinhas do Duque, das duas ou três tertúlias da zona a que chamávamos o Triângulo das Bermudas. Não era um local de perdição, ao contrário do que a alcunha pode querer dizer. Mas os encontros poderiam levar-nos pela noite adiante.
      Os mesários dessas reuniões eram, entre muito outros, fixantes e passantes, Herberto Hélder, António José Forte, António Carmo, Aldina Costa, José Carlos González, Ricarte-Dácio de Sousa, Adriano de Carvalho, Serafim Ferreira, Teresa Roby, Luiz Pacheco, os actores Fernando Gusmão e António Assunção, e por aí fora. Olho para trás e reconheço que esses encontros são irrepetíveis, não só porque a morte já fez a sua ceifa como pelo facto de a atmosfera moral e afectuosa ser, agora, muito diferente.
      Frequentei aqueles grupos durante anos. O “Diário Popular” era ali perto e dava-me jeito ir à bebida e à conversa com amigos, alguns dos quais (o Herberto, por exemplo) vinham dos bulícios da adolescência. O Zeca Afonso não era habitual; mas, naquele fim de tarde, sentou-se para conversar sonhos e esperanças tão antigos como o homem. “Estou a morrer devagarinho”, disse-me. E a voz era como se viesse do fundo do corpo. A frase impressionou-me pela coragem. Ele sabia que estava condenado e talvez quisesse dizer-me que o sabia. Falou, logo a seguir, de outras coisas. Olhava para este homem novo, atingido por uma doença medonha, e recordava a generosidade limpa e aberta de alguém que dera tudo a todos e oferecera à Revolução o seu hino definitivo.
      O Viriato Teles, grande jornalista que os senhores dos jornais têm laminado mas não destruído, escreveu, sobre o amigo e companheiro, páginas definitivas, e conhece, como ninguém, a dimensão da grandeza de uma pessoa rara. Mas o País ainda não homenageou o poeta admirável e o cantor de palavras claras que esteve sempre com as causas justas, as batalhas necessárias e as urgências que a História exigia. Melhor do que nós, fazem-no os galegos, para os quais José Afonso é um marco e um símbolo da dignidade e da probidade humanas.

      Os textos de “intervenção” que escreveu pertencem à mais rigorosa selecta da lírica portuguesa.
      Provêm, directamente, das fontes medievais e da tradição de combate e crítica da grande poesia. Zeca Afonso não facilitava a interpretação dos seus poemas. A diversidade de leituras que propõem sugeriu muitos estudos no estrangeiro e o respeito de duas ou três gerações que ele distinguiu com a lição de um desprendimento total.
      Comparar a obra do poeta às “cançonetas” “dos” Deolinda, como por aí se tenta, é um ultraje e uma demonstrada ignorância. Mas estas comparações não são ingénuas. Fazem parte do arsenal de apoucamento do Zeca, que um sector da vida portuguesa deseja, há muito promover. É desnecessário. A força, a qualidade do imenso trabalho criador do autor de “Traz outro amigo também” não sofre paralelismo com outro qualquer. O que não passa de uma funçanata divertida e trôpega dificilmente poderá ser levada a sério e entendida como “intervenção social e ideológica.” As comparações são propositadamente estabelecidas (inclusive por alguma Imprensa desprezível) para fomentar a confusão e enganar tolos. A estratégia não é nova. Ainda há quem não perdoe a Zeca Afonso a magnitude do seu talento e o cariz de uma arte que sempre recusou o panfleto sem desprezar a intenção de revolta.
      No dia 23 de Fevereiro completaram-se 24 anos sobre a data da morte de um grande poeta português. É muito bom que, sob outras roupagens, a sua música e as suas palavras sejam cantadas pelo pessoal mais novo e ouvidas por todos aqueles que possuem da arte um conceito diferente porque superior. Quanto a mim, que fui amigo deste português incomum, deste artista sem paralelo, recordo-o com emoção, encantamento e orgulho. Ele faz parte do nosso comum património moral, ética e estético.
      Baptista-Bastos | Jornal de Negócios

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      MoçambiqueTestemunhos
      01/09/2010By AJA

      Testemunho sobre uma colaboração de José Afonso com o Cineclube de Lourenço Marques

      (…) Com a sessão dos 400 Golpes, o cine clube arrebitou, mas era preciso mais um golpe para criar confiança nos associados e voltarmos aos 1600 a pagar quotas; era preciso avançarmos rapidamente para a 2ª alternativa da nossa estratégia,
      Por esses tempos encontrava-se em Lourenço Marques o Zeca Afonso, já no auge da sua carreira. Fui falar com ele, amigos, que éramos, contei-lhe das desgraças do cineciube e pedi-lhe que preenchesse metade de uma sessão do cineclube, à borla, claro estava, mas disso nem se falou, porque era óbvio. Disse logo que sim, sem por condições e marcou-se a data.
      A outra metade do programa era preenchida com um filme alemão, fornecido pelo consulado daquele país, do qual não tínhamos grandes referencias, mas já legendado em português e que se chamava, se a memória me não falha “Wir Wunderkinder”. Era um filme espantoso que tratava do renascer da especulação imobiliária na Alemanha Ocidental do pós-guerra de 1939/45. As manobras e corrupção dos especuladores eram denunciadas por um jornalista que, em consequência, era perseguido, sofria atentados e era objecto de tentativas de corrupção que sempre rejeitava. O filme acaba com uma cena em que os especuladores vão visitar o jornalista num andar elevado de um prédio. ainda em construção para tentar convence-lo a não publicar um artigo que os vai prejudicar, Sobem, para isso, num elevador que funciona, Perante a recusa do jornalista saem desvairados, jurando vinganças, e enfiam na primeira porta de elevador que encontram; mas, atrás desta não há elevador, só buraco e eles estatelam-se dezenas de pisos abaixo, definitivamente mortos, Um filme destes, com este final, depois de uma sessão com o Zeca Afonso onde se cantou a Grândola e os Vampiros acabou como só podia acabar: uma sala cheia, a abarrotar que já antes tinha aplaudido freneticamente o Zeca, rompeu numa generalizada salva de palmas, demonstrando que era gente pacífica mas detestando prepotências e atentados à liberdade.
      A sessão foi um sucesso; a sala estava cheia e entornava pelas costuras. O cineclube estabeleceu que cada associado devia pagar 3 quotas atrasadas. Muitos pagaram o ano inteiro só para verem e ouvirem o Zeca, Este foi aplaudido de pé, no fim de cada canção e obrigado a voltar ao palco e a cantar de novo várias vezes. Houve quem propusesse que continuasse o Zeca e não se exibisse o filme( mas depois gostaram dele) (…)

      Carlos Manuel Adrião Rodrigues

      Texto completo aqui

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      80 anos de ZecaTestemunhos
      01/06/2010By AJA

      Entrevista a Avelino Tavares

      Avelino Tavares, produtor musical, organizador do último concerto de Zeca Afonso, relembra esse espectáculo que decorreu a 25 de Maio de 1983 no Coliseu do Porto. Zeca já se encontrava muito doente mas tocou perante uma sala que esgotou com um mês de antecedência.

      Nesta entrevista de Ricardo Alexandre, Avelino Tavares apresenta ainda o concerto comemorativo do 80.º aniversário do nascimento de José Afonso que tem lugar este sábado, dia 29 de Maio, também no Coliseu do Porto. O espectáculo conta com a presença de Manuel Freire, Francisco Fanhais, Tino Flores e Samuel, entre outros e decorrerá no átrio e na rua. Concerto às 15h00 com entrada livre.

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      Testemunhos
      02/04/2010By AJA

      “Só nós estamos proibidos de cantar, vós não!”

      Passaram 23 anos após a morte de Zeca Afonso. Em 23 de Fevereiro de 1987, após uma dura luta contra a grave doença que o atormentava, viria a sucumbir no leito do hospital.
      Muito já se disse do Homem, Poeta , Cantor e Compositor. Porém, nunca será de mais realçar o seu culto da amizade ao próximo, a solidariedade para com os mais desfavorecidos, a busca constante da liberdade para o seu Povo, bem presente nas suas canções.
      Foste um “guerrilheiro” em que as tuas armas eram poemas e o ribombar dos teus canhões eram os sons das tuas baladas, entoadas em uníssono pelas multidões que te adoravam e adoram.
      A censura e a repressão do antigo regime nunca te conseguiram calar. É de assinalar a ridícula acção da polícia política que em vésperas do dia 1º de Maio, te prendia preventivamente, para evitar que fosses fazer acções de canto livre junto das camadas trabalhadoras. Passada aquela data eras posto em liberdade.
      A falta de liberdade antes de 25 de Abril de 1974, põe a ridículo as alegações caricatas de uns quantos políticos actuais que hoje apregoam não haver actualmente em Portugal liberdade de expressão. Onde está a censura prévia que cortava textos quase inteiros, a ponto de, o que restava, não ter qualquer sentido? Onde estão as prisões efectuadas nas madrugadas de hoje sobre aqueles que são de opinião política diferente do governo?
      Tu, Zeca, para conseguires iludir os censores, em geral coroneis reformados, bordavas os teus poemas com expressões figuradas de simbolismos sub-reptícios de rara beleza.
      Por falar em liberdade, lembro-me de um episódio a que felizmente assisti e que me marcou profundamente.
      Decorria o ano de 1970 ou 1971. Foi publicitado que se iria realizar no Sport Operário Marinhense, pelas 21H30, uma sessão em que iria actuar José Afonso, Adriano Correia de Oliveira e outros de que não recordo o nome. O evento gerou logo grande expectativa na juventude marinhense.
      A sala estava repleta. Ao fundo do palco um grande cartaz com as primeiras letras de “Roseira brava, roseira…”.
      O espectáculo estava para começar quando chegaram elementos da polícia política- D.G.S., com ordens para proibir o evento. O ambiente da sala estava pesado, o nervosismo era visível nos rostos dos presentes. Zeca e Adriano percorriam o corredor entre as cadeiras, de um lado para o outro.
      Um prestigiado médico local que se encontrava na sala como espectador, endereçou uma mensagem ao Governador Civil de Leiria, tomando a responsabilidade em como o espectáculo decorreria normalmente, sem alterações de ordem pública.
      Mais uma espera e seriam talvez umas 23 horas quando veio a resposta: A sessão estava proibida!…
      Não havendo mais nada a fazer, tu Zeca, dirigiste-te aos presentes e disseste: “Só nós estamos proibidos de cantar, vós não!… Sendo assim, cantem vocês para nós!…”
      Então, perante os agentes atónitos, foi realizada uma sessão inesquecível em que, uma plateia em coro, interpretou um desfilar de canções cujas letras todos sabíamos de cor.
      Hoje, constato com alegria que não só a minha geração, mas também os vindouros te admiram e essa é a maior prova da tua imortalidade.

      Encontrado aqui

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      Testemunhos
      23/03/2010By AJA

      Um concerto no Sport Operário Marinhense

      Passaram 23 anos após a morte de Zeca Afonso. Em 23 de Fevereiro de 1987, após uma dura luta contra a grave doença que o atormentava, viria a sucumbir no leito do hospital.
      Muito já se disse do Homem, Poeta , Cantor e Compositor. Porém, nunca será de mais realçar o seu culto da amizade ao próximo, a solidariedade para com os mais desfavorecidos, a busca constante da liberdade para o seu Povo, bem presente nas suas canções.
      Foste um “guerrilheiro” em que as tuas armas eram poemas e o ribombar dos teus canhões eram os sons das tuas baladas, entoadas em uníssono pelas multidões que te adoravam e adoram.
      A censura e a repressão do antigo regime nunca te conseguiram calar. É de assinalar a ridícula acção da polícia política que em vésperas do dia 1º de Maio, te prendia preventivamente, para evitar que fosses fazer acções de canto livre junto das camadas trabalhadoras. Passada aquela data eras posto em liberdade.
      A falta de liberdade antes de 25 de Abril de 1974, põe a ridículo as alegações caricatas de uns quantos políticos actuais que hoje apregoam não haver actualmente em Portugal liberdade de expressão. Onde está a censura prévia que cortava textos quase inteiros, a ponto de, o que restava, não ter qualquer sentido? Onde estão as prisões efectuadas nas madrugadas de hoje sobre aqueles que são de opinião política diferente do governo?
      Tu, Zeca, para conseguires iludir os censores, em geral coroneis reformados, bordavas os teus poemas com expressões figuradas de simbolismos sub-reptícios de rara beleza.
      Por falar em liberdade, lembro-me de um episódio a que felizmente assisti e que me marcou profundamente.
      Decorria o ano de 1970 ou 1971. Foi publicitado que se iria realizar no Sport Operário Marinhense, pelas 21H30, uma sessão em que iria actuar José Afonso, Adriano Correia de Oliveira e outros de que não recordo o nome. O evento gerou logo grande expectativa na juventude marinhense.
      A sala estava repleta. Ao fundo do palco um grande cartaz com as primeiras letras de “Roseira brava, roseira…”.
      O espectáculo estava para começar quando chegaram elementos da polícia política- D.G.S., com ordens para proibir o evento. O ambiente da sala estava pesado, o nervosismo era visível nos rostos dos presentes. Zeca e Adriano percorriam o corredor entre as cadeiras, de um lado para o outro.
      Um prestigiado médico local que se encontrava na sala como espectador, endereçou uma mensagem ao Governador Civil de Leiria, tomando a responsabilidade em como o espectáculo decorreria normalmente, sem alterações de ordem pública.
      Mais uma espera e seriam talvez umas 23 horas quando veio a resposta: A sessão estava proibida!…
      Não havendo mais nada a fazer, tu Zeca, dirigiste-te aos presentes e disseste: “Só nós estamos proibidos de cantar, vós não!… Sendo assim, cantem vocês para nós!…”
      Então, perante os agentes atónitos, foi realizada uma sessão inesquecível em que, uma plateia em coro, interpretou um desfilar de canções cujas letras todos sabíamos de cor.
      Hoje, constato com alegria que não só a minha geração, mas também os vindouros te admiram e essa é a maior prova da tua imortalidade.

      Carlos Rocha Oliveira

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      Testemunhos
      13/03/2010By AJA

      Zeca Afonso mora aqui

      Disse Jorge Luís Borges: Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra vez outra vida pela frente. Escreveu António Gedeão: Nesta insignificância, gratuita e desvalida, Universo sou eu com nebulosas e tudo. William Shakespeare afirmou: E aprendes que não importa o quanto te importas, porque algumas pessoas simplesmente não se importam…Tendo estas citações como preâmbulo do trabalho que irei construindo, tomando o papel como base e o conhecimento como ferramenta, lembro ainda como aperitivo as sábias palavras do poeta militante Pablo Neruda: Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajectos, quem não muda de marca, não arrisca vestir uma nova cor, ou não conversa com quem não conhece. E porque também eu, Leonel Coelho, sou gente, relembro o que publiquei dirigido aos jovens: Aos que escrevem, aos que contam, ilustram, anotam, apontam, aos excluídos, aos deserdados, aos de pouca ou nenhuma sorte, olha a todos com o coração, com toda a tua alegria e grita-lhes – oh gente minha, Bom Dia.
      Eu podia dizer a quem nos ler que vou agora falar sobre o Zeca, mas não. É do Zeca que estou a falar quando afirmações, conselhos ou opiniões afloram como flores ou espadas de outros Zecas. O Zeca que eu conheci aqui na nossa Academia de Alhos Vedros, na nossa rua, ou na casita onde ainda moro, construi-se bebendo nas fontes que aqui invoco, que aqui recordo e com quem convirjo. O Zeca simples, humilde e enigmático que eu conheci era o nosso pombo-correio. Ele saltava de Setúbal para a Baixa da Banheira, Seixal, Barreiro, e trazia tarjetas para recolhas de auxílio aos presos políticos, escondia-se nas casas dos amigos, tinha a noite como companheira favorita e protectora. O Zeca com a sua guitarra, as velhas calças de bombazina e a sua esfiapada camisa aos quadradinhos, chegava e passado muito pouco tempo já toda a gente passava palavra: o Zeca está na Academia! E era a maré-cheia. A extraordinária juventude expandia-se, agigantava-se e aconteciam palavras, olhares, entusiasmos. Era contagiante. Quando o evocamos no velho cemitério da Piedade, em Setúbal, é o seu incomparável entusiasmo que pretendemos reavivar, tal como o ferreiro reaviva a forja, a padeira anima o forno, ou o guerreiro limpa as armas em tempo de paz com guerras no horizonte. É meu dever que cumpro com gosto, referir que é pela mão do meu velho amigo Dr. Afonso de Albuquerque que o Zeca Afonso desembarca, já não sei bem quando, aqui na Academia. Depois foram as sopinhas de couves quentinhas que a minha mulher servia ao Zeca. Partilhávamos então notícias sobre greves, prisões, torturas e até assassinatos. A PIDE estava lá fora, hedionda, traiçoeira e sempre pronta a saltar sobre nós. Pela mão do Zeca aqui vieram cantores, escritores, jornalistas, actores e políticos: Padre Fanhais, Fausto, Benedito, Letria, Castrim, Alice Vieira, Rogério Paulo, Yevetutchenco, Sotomaior Cardia, João Mota, Grupos de Teatro, etc. Nunca houve nada programado na Academia. A sala era o palco. Passava-se a palavra e a festa estava no ar. Nas ruas montávamos vigilância e muitas vezes corremos a PIDE à pedrada até ao comboio. Mercê de tudo isso sentimos na pele os interrogatórios, a prisão e a tortura. A Academia era uma casa permanentemente vigiada e sempre perseguida. O Zeca deixou marcas indeléveis de luta e solidariedade em toda a juventude da nossa terra e da nossa região. O Bairro Gouveia e as Arroteias foram os que mais livremente usufruíram a contagiante personalidade do amigo Zeca. Aqui na Academia nunca ninguém nos derrotou. A presença do Zeca era a nossa fortaleza e nós bem sabíamos que ainda havia o Luís Cília e o grande Amigão Adriano Correia de Oliveira, homem a quem me dobro e agradeço o muito que aprendemos. Não esquecer também o papel relevante que o Zeca teve na formação da juventude daqui. Essa mesma juventude que acorreu em força à grande manifestação de luta e pesar que constituiu o funeral do estudante Ribeiro Santos, militante do MRPP assassinado pela PIDE decorria o ano de 1972. Foi ainda acerca da Guerra Colonial que Zeca Afonso mais lutou e ensinou, sendo por ele e por outros camaradas dados os primeiros e mais importantes passos contra aquela guerra tão nefasta ao nosso povo e aos povos africanos.
      Em rodapé, mas com as honras que lhe são devidas, de referir a mão do Zeca na vinda à Academia do Coro dos Amadores de Música e do seu prestigiado maestro Fernando Lopes Graça, Areosa Feio, prestigiado anti-fascista, Manuel Cabanas e muitas outras figuras que honraram a nossa casa e acrescentaram à nossa terra valores culturais, colocando-a na primeira fila da luta pelo derrube da ditadura salazarista. Jornais como o “Comércio do Funchal”, “Jornal do Fundão” e “Notícias da Amadora”, narraram em devido tempo os nossos combates, as nossas vitórias. As canções do Zeca andavam por aqui de boca em boca. A presença do Zeca, o seu trabalho em clubes, tertúlias e festas, assume quinhão relevante na vitória que aconteceu nas eleições de 1969. Nestas eleições a União Nacional salazarista saiu de rabo entre as pernas, cabisbaixos e vociferando ameaças. Na noite de 3 de Maio de 1970, a PIDE prendeu só duma assentada Stalin Jesus Rodrigues, Leonel Coelho, Álvaro Monteiro, Gravatinha Lopes, Zacarias, Matos, A. Chora e F. Cunha. Por tudo isto, o Zeca vive e será sempre uma bandeira. Acabo por informar os mais descuidados que o Zeca às vezes nem tinha dinheiro para uma sopa. E não esquecer que estamos a falar do Dr. José Afonso Cerqueira dos Santos, o poeta, o professor, o músico, o lutador e o Amigo. Honra, pois, ao Zeca.
      Leonel Coelho
      Março/2010

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      Alípio de FreitasDiscografiaNo verso dos versosTestemunhos
      11/03/2010By AJA

      Luanda Cozetti sobre a música “Alípio de Freitas”

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      Testemunhos
      19/12/2009By AJA

      As nossas tertúlias no Café Continental com o Zeca Afonso

      Conheci-o na Beira, aí por alturas de 1959. Era professor do Liceu. Pediu-me para lhe arranjar um guitarrista, pois sabia compor, cantar e de que maneira, mas os seus conhecimentos na guitarra eram parcos, como me confessou.
      Falei com o Fernandes, amigo, que tinha um conjunto que tocava no Beira Terrace nos fins de semana e feriados.
      O Fernandes era pai da Zizi, uma cantora de muito mérito e que num concurso promovido pelo Rádio Clube de Moçambique, “Moçambique a cantar” ou coisa parecida, foi destronada por uma cançonetista bastante inferior, mas que era filha do então Presidente da Câmara Municipal da Beira. Para ser agradável ao Zeca, que já tinha nome pelas canções que se ouviam muito em segredo, o Fernandes lá tentou o guitarrista. Não soubemos se o conseguiu ou não pois entretanto fomos transferidos para Lourenço Marques. Aqui, decorridos alguns meses encontrámo-nos de novo nas tertúlias do Café Continental, onde na companhia do Dr. Filipe Ferreira, Dr. Barradas, mais tarde professor do Conservatório Nacional, Armando Morais, o médico dos C.F.M., Zeca Afonso, sempre só e nós, com as respectivas esposas, conversávamos sobre os problemas que então nos inquietavam. E eram muitos. A guerrilha no norte, a política na Metrópole, a incerteza de um futuro que muitos de nós acreditávamos ser de crise grave, a polícia secreta, que sabíamos estar ali ao nosso lado tentando escutar as nossas conversas, as injustiças que havia em determinados sectores da Administração Pública, nomeação de pessoas colocadas directamente pelo Governo Central em lugares que gostaríamos de ver ocupados por moçambicanos, a falta de liberdade de imprensa que era obrigada a publicar notícias, que só poderiam ser compreendidas pelas entrelinhas, a leitura do Le Monde, que o Armando Morais recebia directamente do Consulado Geral da França em Lourenço Marques e que era proibida e que passávamos uns aos outros para ler sofregamente pois dava especial realce às notícias sobre Portugal, a politica ultramarina do governo de então e a forma como era entendida a guerrilha pelas nações europeias e Estados Unidos e a possível independência de Moçambique, tendo em vista a posição dos Democratas de Moçambique, bem como as ideias oriundas da Frelimo, tudo bem reflectido pelos vários comentadores do Le Monde.
      O Zeca muito dado a explosões de revolta, exprimia-se quase sempre em voz alta, não se importando que estivessem ou não na vizinhança os pides que vigiavam o local. Alguns não disfarçavam e olhavam em desafio para a nossa mesa, como se fossemos nós agentes do mal…Sabíamos quem eram, pois não era normal que para ali viesse tanta gente, desconhecida, com aquela côr “muito branca”…de quem chegara recentemente da Metrópole.
      As nossas tertúlias do Café Continental!… Ainda hoje nos lembramos de como nos faziam bem…
      José de Viseu

      Retirado daqui

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      ImprensaTestemunhos
      13/12/2009By AJA

      “Zeca Afonso acabou com programa de rádio”

      Durante a minha permanência em Luanda também fiz rádio numa emissora regional da Rádio Oficial de Angola. Eu, o alferes Amaral e o furriel Valente fazíamos um programa duas vezes por semana. Chamava-se ‘Mosaico’. O nome foi escolhido pelo comandante. Passávamos música e fazíamos artigos sobre cinema e música. Os discos eram emprestados por militares ou por uma loja que vendia um pouco de tudo.
      Entre outras, passávamos música de Zeca Afonso. Nunca ninguém nos disse que era proibido. Mas, passado um tempo, apareceu lá um fulano que exigiu ver os artigos que tínhamos para ler no programa. Começou a fazer emendas, mas dava mais erros gramaticais do que nós. Quando começou o programa só pusemos música. Não lemos os artigos e no final anunciámos que tinha sido o último programa. Ele não disse nada, mas todos sabíamos que tinha ido até ali por causa do Zeca Afonso.

      Artigo completo no Correio da Manhã

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      Luís SepúlvedaTestemunhos
      09/12/2009By AJA

      Luís Sepúlveda sobre José Afonso


      Luís Sepúlveda, no programa “Câmara Clara”, relembra o contacto com a música de José Afonso no Chile.

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      GrândolaJosé da ConceiçãoTestemunhos
      08/12/2009By AJA

      José da Conceição

      José da Conceição, um dos organizadores do histórico concerto de José Afonso e Carlos Paredes a 17 de Maio de 1964, em Grândola, relembra aqui essa noite e outras histórias.

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      AljustrelBiografiaTestemunhos
      08/05/2009By AJA

      José Afonso por Aljustrel

      Caros amigos de José Afonso,

      Procurando no google informações sobre o Externato D. Filipa de Vilhena de Aljustrel, descobri o vosso blogue. A passagem de José Afonso como docente por aquele colégio particular foi tão efémera que leva a alguns autores e biógrafos a situá-la incorrectamente do ponto de vista cronológico. Tenho constatado essa falha nalgumas publicações e textos. Eu fui um dos alunos priviligiados desse histórico colégio, fundado no início da década de 50 do século passado, pela Drª Amélia Palma Brito, licenciada em germânicas, e o Engº Tec. de Química Francisco Serrano Gordo. A sua fundação, que na época constituíu um empreendimento arrojado, devido às dificuldades económicas dos promotores e aos exigentes requisitos impostos pelo Ministério para a sua legalização, visto que se tratavam de cidadãos não gratos ao Regime, representou uma grande oportunidade para os filhos de uma classe média local ter acesso ao ensino secundário. Nasci no início de 1944, entrei para o Colégio com 10 anos, no ano lectivo de 1954/55. Foi num belo dia de Outubro, no início do ano lectivo de 1957/58, portanto no meu 4.º ano, que nos aparece um jóvem professor de cabelos encaracolados, de óculos de miope, com um sorriso afável, descontraído, que se sentava em cima das nossas carteiras, com uma linguagem e um poder de comunicação inusitados, que encantavam as nossas aulas de Geografia e História. O contraste era demais evidente com a pedagogia tradicional dos outros professores a que estávamos habituados. E naquele colégio não havia a austeridade que existia noutros estabelecimentos de ensino congéneres! Não nos esqueçamos que vivíamos em Aljustrel, vila mineira alentejana de fortes tradições de luta e de irreverência!
      Mas esse encanto foi infelizmente sol de pouca dura, pois passado cerca de um mês, fomos brutalmente surpreendidos com o anúncio da sua partida intempestiva, facto que causou naturalmente uma enorme decepção para todos nós. Com efeito o Dr. José Afonso, como na altura o tratávamos, embora ele não tivesse ainda concluido a licenciatura, com a sua singularidade rapidamente grangeou a nossa simpatia. Nessa época, para vos dar uma noção de escala, o concelho de Aljustrel tinha uma população de 17.535 h, dos quais residiam na freguesia de Aljustrel 9.560 h, nas Minas, então exploradas por uma companhia belga, trabalhavam cerca de 1.000 operários e quadros administrativos, o Colégio era frequentado, do 1.º ao 5.º ano, por cerca de 100 alunos! Podiam-se contar pelos dedos de uma mão os alunos que eram filhos de operários…
      A partida do jovem professor, constituíu uma manifestação expontânea de simpatia por parte dos alunos, que o acompanharam em massa, numa manhã de triste memória, à estação de C.F. de Aljustrel, então chefiada pelo Sr. Tonicha, pai do cantor/compositor/trovador Francisco Naia (também seu efémero aluno, mas que ele exageradamente fabula na sua auto-biografia…)! A nossa decepção foi tanto maior quando descobrimos depois que ele era um dos melhores intérpretes do fado coimbrão. Ele foi de Aljustrel directamente para a Escola Industrial/Comercial de Lagos, certamente com melhores vantagens. No entanto nunca chegámos a conhecer as causas verdadeiras da sua abalada. Ele estava a atravessar um período difícil da sua vida (separação da sua companheira?). Quanto à exactidão do ano lectivo (1957/58), não tenho qualquer dúvida, pois lembro-me perfeitamente da sala de aula do 4º ano (o colégio tinha apenas 5, cada uma correspondendo, durante anos à fio, a cada um dos respectivos anos escolares). Recordo-me que estávamos no ano lectivo que foi terminar com um período de muita agitação política, as campanhas eleitorais de Arlindo Vicente e Humberto Delgado, que abalaram profundamente o Regime, e as ruas de Aljustrel constituíram um palco desse alvoroço, com manifestações massivas da população aquando da passagem de ambos os candidatos e as prisões que se registaram nas vésperas do “acto eleitoral” (queria dizer farça). Então os alunos mais velhos do colégio do 5.º ano já discutiam “política” com os professores situacionistas (alguns filhos de oposicionistas, várias vezes presos, dos quais alunos me recordo do meteorologista Olavo Rasquinho e do Edmundo Silva, ex-Sheik).
      O reencontro do Zeca com as gentes de Aljustrel dá-se anos mais tarde na Bélgica, com alguns exilados políticos, fundadores da APEB (Associação de Emigrados na Bélgica), tais como Francisco Rasquinho, António Palma Brito e José Soares. Depois do 25 de Abril, curiosamente, ele só tem oportunidade de actuar uma vez em Aljustrel, num espectáculo onde cantaram e tocaram os grupos corais dos mineiros e da Câmara, a Filarmónica, o Zeca e o Fausto (o Vitorino encontrava-se então numa tournée na Jugoslávia com o grupo coral do Redondo). Este espectáculo, organizado pela Sociedade Musical Aljustrelense, da qual eu era presidente, realizou-se no jardim público, numa tarde de forte canícula do dia 23 de Julho de 1978. Surpreendente e tristemente a adesão do público não correspondeu às espectativas, e a canícula não pode explicar tudo… Que contraste com a manifestação de carinho que os seus alunos lhe testemunharam à sua despedida de Aljustrel, 20 anos antes! Mas nem tudo foi negativo, depois de um jantar com vários casais amigos, subimos à colina do santuário de Nossa Senhora do Castelo, que fica no alto da vila, único local onde nessa noite se podia respirar, partilhámos numa fraterna tertúlia uns momentos inolvidáveis de poesia, com poetas locais, Manuel Edmundo da Silva, João dos Santos, António Cardoso Ferreira. Recordo-me que também esteve presente o cineasta Rui Simões que, pouco tempo antes, tinha rodado em Aljustrel, algumas cenas do “Bom Povo Português”. Nesse dia o Zeca e a Zélia pernoitaram em minha casa.

      Só mais tarde, em Setembro de 1984, voltei a encontrar o Zeca em Tavira, na companhia do Pedro, mas já muito debilitado pela doença que o minava.

      Aqui deixo o meu testemunho da breve passagem e relação do grande Zeca com Aljustrel.

      Cordiamente

      Francisco Colaço

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      Testemunhos
      10/04/2009By AJA

      Zeca Afonso e a Flor do Alva – Nuno Espinal

      O Dr. José Afonso foi, no meu trajecto de vida, um privilégio. Tudo começou por uma entrevista, quando, com mero estatuto de amador, fui entrevistador.
      Mas, vamos à história:
      A Revista “Espaço Aberto”, na qual participei durante anos, tinha intuitos meramente culturais. Enquanto seu colaborador, dediquei-me, em especial, à área das entrevistas.
      Daí a oportunidade que tive de entrevistar inúmeras personalidades do meio cultural. De entre todas, destaco Amália Rodrigues e Zeca Afonso.
      Contudo, a entrevista a Zeca Afonso, já lá vão uns 23 anos, viria, para mim, a valer mais do que o próprio momento e tempo em que perdurou. Porque foi a partir dela que entrei no círculo de convivência de José Afonso. Continua AQUI

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      Cartazes de concertosJúlio PereiraTestemunhos
      08/04/2009By AJA

      Cangas do Morraço

      Era uma vez na Galiza, anos oitenta. Um concerto de José Afonso em Cangas de Morrazo (perto de Vigo) num velho teatro municipal. Acompanhava-o eu, Henri Tabot e Guilherme Inês. Chegados à hora do espectáculo, deparámo-nos com um público, a meio da plateia, de seis pessoas! A minha reacção (suponho que a dos meus colegas) foi a de não tocar. E o Zeca disse não! Tocados os 17 ou 18 temas ensaiados pelo grupo, José Afonso pegou na viola e sozinho, tocou cantando mais oito temas entre os quais “Catarina” – a primeira vez que o ouvi cantar assim. Estranho. As seis pessoas de pé aplaudiram incansavelmente José Afonso e durante muito tempo. Como se a sala estivesse cheia.Só mais tarde percebi que o Zeca, nesse dia, tinha deixado seis amigos na Galiza.

      Júlio Pereira

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      AljustrelBiografiaFrancisco NaiaTestemunhos
      03/10/2008By AJA

      De como eu me cruzei com o José Afonso em Aljustrel

      É curioso verificar quantos herdeiros tem o José Afonso. De facto, só à sua sombra contam-se largas centenas de sobreviventes, fora aqueles que se arvoraram em ser a sua alma cantante, imitando os seus discos até à exaustão, sem esquecer os movimentos respiratórios e as inflexões vocálicas do mestre. Há mesmo tipos, que, qual culto Menphis (Elvis Presley), com as caras mais exóticas e com um ar de seminaristas inocentes, que nada tinha a ver com o José, mas que, apesar de tudo, cantam as suas canções com respeito e interesse pela obra do mestre.
      Mas por acaso sabem quem foi o José Afonso? O Homem simples e sensível? O professor que sabia falar das histórias da história? O rebelde inflexível na denúncia das injustiças? O político que não voltava costas à luta? O Homem que cantava para os operários, para os camponeses, para os humilhados e oprimidos? O preso político? O homem que nunca pediu nada e que nada lhe deram no seu sofrimento?
      Alguém por acaso sentiu o momento maravilhoso da sua criatividade? E a felicidade que ele sentia quando via o fluir dos seus sonhos? E a dor na sua morte?
      Vamos lá, meus amigos, sejamos sinceros, vamos erguer bem alto a figura do Zeca, sem oportunismos e sem desvirtuar a personalidade dessa grande figura dos nossos tempos, nem a sua obra, que foi feita para o povo e só para o povo simples e oprimido. Até dá vontade de perguntar: Se ele estivesse cá de que lado estaria, contra quem estaria? A resposta é bem evidente! Mas aposto que estaria desprezado pela maioria dos que agora o homenageiam imitam e cuja obra sabujam. Já para não falar nas editoras que nunca o respeitaram, e até o recusaram gravar, apesar de, em cada Abril, se encherem de dinheiro com as suas reedições ou gravação de discos oportunistas, sem que os seus direitos sejam devidamente resguardados. É de mais…
      Conheci o Professor José Afonso em Aljustrel. Fui seu aluno no Externato Filipa de Vilhena. Foi o meu professor da disciplina de História. Eu tinha 14 anos e frequentava o 4º. Ano do ensino liceal. Ele teria 22 ou 23 anos. Recém-licenciado, convidado a ir leccionar para aquele colégio por um professor, seu amigo e ex. colega, que também lá ensinava: o Dr. Delgado.
      O professor José Afonso era muito simpático, muito aéreo e sorridente. Por vezes andava triste e distante, outras vezes cantarolava nas aulas e nos intervalos até cantava e, ainda, por vezes, escrevinhava aquilo que trauteava. Como deve calcular-se aquilo despertava a nossa curiosidade, nomeadamente e minha dada a minha educação musical no seio da minha família.
      O meu pai era O Chefe da Estação Dos caminhos-de-ferro de Aljustrel e, simultaneamente, maestro. Dava aulas de música, participava em muitas actividades culturais e, até tinha uma pequena orquestra formada pelos meus irmãos e outros amigos (a orquestra Tonicher). Eu gostava de cantar, mas, como era o mais novo, não tinha a formação dos meus irmãos, tinha-me escapado àquela disciplina dos concertos.
      O professor José Afonso, naturalmente aproximou-se da minha família musical e de um grande poeta aljustrelense, homem de esquerda, o Sr. Edmundo Silva – pai do Edmundo Silva baixista dos “Sheiks”, que com ele também contactou.
      Entretanto, através do Dr. Delgado, que acima citei, soubemos na turma que aquele professor era um dos grandes cantores de fados e baladas de Coimbra. Ficámos banzados de admiração. Então era Cantor aquele professor que nos despertava tanta curiosidade e nos ensinava a ver a História com outros olhos?
      De facto falava-nos da liberdade, da democracia, da igualdade e da fraternidade. Ensinou-nos muito sobre a divisão das classes sociais, do significado de exploração e de opressão. Também nos falava dos trabalhadores, dos camponeses, dos mineiros, dos sindicatos e do que era reivindicar por uma sociedade mais justa. Falou-nos das prisões e dos prisioneiros, do que era a polícia política e do seu papel em certos países.
      A História do manual era uma, mas a verdade histórica era outra. Eu e, muitos outros alunos sentimos que algo de diferente se passava à nossa volta, como se nos estivessem a mentir, apesar de sermos putos e de acharmos tudo bem. E às vezes até falávamos disso e íamos tirar dúvidas com o Professor. José Afonso.
      Chegou por fim o dia de tirarmos nabos da púcara durante uma aula e ele, muito humildemente, confirmou-nos ser verdade aquilo que o Dr. Delgado nos havia dito. E pronto, entramos no ciclo das canções e dos fados de Coimbra. Algo de maravilhoso!
      Eu tinha uma guitarra acústica, velhota, com dois ou três buracos, que eu tapara com fita adesiva e algodão, a imitar o tratamento de ferimentos, mas que tinha um som e uma afinação excelente… E lá levei a guitarra para o colégio. E Ele cantou, libertou-se, sorriu sem parar – Cantou e ensinou-nos. Eu aprendi logo fados novos, baladas que ele alguns anos depois gravou em disco.
      Aljustrel rejubilava. O Zeca Afonso, já assim chamado, cantou nas colectividades, em associações em pequenas festas e encontros informais ao ar livre. Eu e alguns amigos lá estávamos sempre a acompanhá-lo e a cantar com ele. Dizia que gostava de me ouvir cantar, mal sabendo que eu e ele, anos depois, nos encontraríamos do mesmo lado da barricada. (Curiosamente, um dia, num recital em Setúbal chamou-me o “trovão da Planície”)
      O tempo correu e, como diria o Fernando namora no seu livro a Noite e a Madrugada: De trás dos tempos vêm tempos e outros tempos vêm… O povo de Aljustrel rejubilou! Muitos dos estudantes desse tempo vieram a seguir após o 25 de Abril, rumos no campo da política, como autarcas, deputados, dirigentes partidários professores etc. O professor José Afonso apesar do pouco tempo que lá esteve a dar aulas, ensinou-nos bem a Lição da Liberdade e da Justiça Social. E no dia da sua partida, de comboio, esteve uma imensa multidão de estudantes, seus familiares e muitos mineiros. Houve cantos e choros e muitos lenços a dizer-lhe adeus e chapéus a acenar. Ele nunca se esqueceu deste momento. Aljustrel ficou-lhe grato!
      Orgulho-me muito de tê-lo conhecido e compreendido, de tê-lo cantado na tropa – na guerra em Angola, onde estive como Alferes Miliciano – e, após o meu regresso da guerra e ter reingressado na universidade, com ele convivido durante todos estes anos, desde 68 até ele ter partido. Estivemos em tudo o que era sítio, apanhámos muitos sustos, mas tivemos e demos muitas alegrias a muita gente oprimida.

      Por Francisco Naia
      “In Revista Memória Alentejana, Out.2007”

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      Testemunhos
      04/08/2008By AJA

      José Afonso por Daniel Abrunheiro

      1
      A comoção é o mais evidente sinal de que também o coração pode ser inteligente.
      Se hoje (se ainda hoje) nos comovemos perante a voz, a figura e o exemplo de um tal José Afonso Cerqueira dos Santos – provavelmente, é porque nos sucede sermos portadores de um coração inteligente, de uma alma com memória e, ainda, de algo a que se pode (e deve) chamar gratidão.

      2
      O tal senhor chamado José Afonso Cerqueira dos Santos tornou-se no Zeca. O Zeca de todos nós. O Zeca como só ele. Nasceu em Aveiro no dia 2 de Agosto de 1929 e começou a resistir praticamente desde então. Dizem que morreu no dia 23 de Fevereiro de 1987. A pessoa física, sim: morreu. O artista, o músico, o cantor, o poeta e o compositor, esses todos que ele era em um só corpo, esses não morreram. Nós somos, hoje e aqui, amanhã e acolá, a mais fundamentada prova de vida de Zeca Afonso.

      3
      Poucos homens e poucas mulheres podem ser recordados como tão altos. Poucas mulheres e poucos homens fizeram tão bem rimar existência com resistência. O Zeca Afonso foi sempre, é na mesma e sempre será um pássaro que nos falava de gaiolas. Um poeta do “raio de sol queimado”. Popular sem populismo, libertário sem libertinagem, consciente da dupla condição da vida: breve no corpo, perpétua na voz. Temos de aprender a ouvi-lo de novo: ele continua a dizer o dia de hoje.

      4
      Para o fim da vida, na última das suas casas, tinha pelas paredes o rasto gráfico do momento mais alto da sua e da nossa vida: o 25 de Abril de 1974. Foi dele que veio a madrugada cantora, a aurora marchante, os compassos morenos da primeira cidadania que, ao fim de tantos anos escuros, nos foi permitida. Zeca Afonso não era, não foi e não pode ser ouvido como a “cassete” do 25 de Abril. José Afonso é o 25 de Abril – mais alguns homens e mais algumas mulheres.

      5
      Das canções mais imediatas às de maior densidade semântica, o Zeca Afonso devolveu à língua cantada e à música popular aquilo que, depois dele, lhes vem sendo indecorosamente roubado: a dignidade expressiva de um coração inteligente e de um pensamento solidário. Ou seja: uma poesia e uma música que são, de facto e deveras, para todos.

      6
      Da renovação da balada coimbrã (a partir de novas ousadias harmónicas, melódicas e líricas) à inconfundível obra pessoal dos discos posteriores, o Zeca Afonso é sempre alguém que nos trouxe algo para puro efeito de partilha. Não há solidão na música e na poesia de José Afonso. Só há solidariedade. Até porque nenhuma multidão começa sem se estar sozinho.

      7
      Esquerda, extrema-esquerda, reviralho e revisionismo, direita e extrema-direita: todas as franjas do espectro político-social do nosso País, nos últimos 33 anos, continuam a ser tocadas pela graça magistral deste homem que queria tirar, do homem, o lobo do homem. A aparente facilidade da sua obra é, provavelmente, o único engano que ele nos legou: a obra dele é tudo menos fácil. Mas é de todos. Ele não ficou com ela só para ele. É nossa.

      8
      A glória do Zeca Afonso não é de panteão nacional. Não é uma gloríola de 10 de Junho, de verso e reverso de medalha. Não aceitou nunca ser general. Era um homem de pão, paz e pombas: era um português, como há já tão poucos. Pelos menos, com memória de sê-lo: português não aduaneiro, não missionário, não superior a ninguém. É uma estrela – certamente: mas uma estrela humilde. E pessoal. E transmissível.

      9
      Depois do 25 de Abril fundador da nossa Liberdade, José Afonso Cerqueira dos Santos não chegou a existir fisicamente sequer 13 anos. Resta-nos, dele, a pedra aérea, a pedra leve, a pedra definitiva dos seus versos humanistas e humanizadores. Isso e a estranha pureza da sua música nova, das suas canções em que é tão fácil reconhecer a grandeza. O legado do Zeca é o canto livre, moço, resistente e lúcido. Não é para trautear. É para cantar mesmo.

      10
      Não há rótulos a colar ao corpo deste operário que hoje recordamos. O Zeca está para além de qualquer autocolante. Não há gaveta onde o possamos arquivar sem risco de uma amnésia mortífera. Por isso o celebramos em vida. Dizem que morreu há duas décadas. Talvez o portador de bilhete de identidade tenha cedido à doença. O que não é possível, de modo algum, é renegar a evidência da sua presença em cada madrugada. A noite só vem se nos esquecermos. Dele e de nós.

      Retirado daqui

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      Associação José AfonsoTestemunhos
      04/05/2008By AJA

      Como a toupeira

      Há qualquer coisa de obsceno nos ecos mediáticos — e, sobretudo, televisivos — suscitados pela passagem dos 20 anos sobre a morte de José Afonso (2 Agosto 1929 – 23 Fevereiro 1987). Não se trata de recusar o seu lugar na história da música popular portuguesa do século XX (de uma importância, a meu ver, apenas igualada por figuras como Amália Rodrigues). Muito menos se pretende pôr em causa a sinceridade emocional e a riqueza histórica de muitas evocações que, nos últimos dias, têm surgido nos mais diversos órgãos de informação. Permito-me, aliás, sublinhar o trabalho de inventariação e divulgação da(s) memória(s) desenvolvido pela Associação José Afonso, com prolongamentos muito interessantes no respectivo blog.
      O que está em causa é de outra natureza. E decorre do próprio labor de apagamento e normalização que os valores dominantes no espaço mediático têm imposto ao país. Assim, José Afonso (como muitas outras referências da nossa história cultural) está longe de ser um nome com uma presença regular no nosso quotidiano. Bem pelo contrário: a cultura dominante vive de uma banalização de todas as formas de consumo que, seja qual for a visibilidade que ciclicamente confere a determinadas obras, tende a favorecer atitudes de alheamento, indiferença e até desprezo em relação a tudo que envolva algum valor patrimonial. Daí a obscenidade destes dias: as televisões que programam horas infinitas de telenovelas (não exactamente com bandas sonoras de José Afonso…) e celebram a demagogia imediatista dos reality shows, são essas mesmas televisões que põem os seus pivots, com rostos muito graves e palavras muito oficiais, a exaltar as virtudes de José Afonso e da sua música… Algo soa a falso.
      A situação agrava-se através da própria “politização” que, declaradamente ou não, tende a envolver a herança de José Afonso. Entendamo-nos: não há cantor mais político que José Afonso. Mas é um erro fulcral — isto é, cultural — pretender transformá-lo em peça incauta dos jogos florais da classe política, por exemplo com a esquerda a querer fazer dele uma bandeira sua, ou a direita a tentar reduzi-lo a coisa abstracta e liofilizada.
      O drama de tudo isto não é, repare-se, que José Afonso possa suscitar visões controversas ou até grandes clivagens ideológicas ou culturais. O drama enraiza-se num ambiente — cultural, mediático, televisivo — que congela as nossas memórias mais genuínas para, de vez em quando, apenas por obra e graça do calendário, as tirar da cartola para promover grandes festas e pequeníssimas ideias. Não é fácil ser como a toupeira… que esburaca.

      Texto retirado do blogue de Nuno Galopim e João Lopes

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      Testemunhos
      26/04/2008By AJA

      Balada de Outono | Texto de Maria Eduarda Barbosa

      Foi custoso chegar até aqui. Todos os dias, desde que partiste, não deixaste de estar comigo. Vezes sem conta te digo coisas lindas quando acabo de ler as tuas mensagens via CD.
      Ontem, 5ª feira,eu dizia ao Daniel que,no Verão passado,gostaria de ter« pegado em ti» e levar-te ao «Diário do Minho», mas que tinha medo,medo de me perder, medo de me encontrar…Daniel de Sá, uma alma sensível que eu conheci nos caminhos da blogosfera, dos mares dos Açores, disse-me que, além de nunca mais te ter ouvido desde que partiste, relatara-me um episódio, deveras pungente, aquando do fatídico dia e que passo a citar:«Quando ele morreu, eu ouvi a notícia na rádio, cheguei à escola (minha mulher já estava na sala), e disse-lhe só isto:«Já morreu.» Entretanto, tinha engolido umas lágrimas pelo caminho, poucos metros. Pelo que viram em mim e na reacção de Maria Alice, os seus alunos perguntaram: «Era da família da Srª professora?» Ela, como não conseguia explicar melhor, respondeu que sim…(raios, escrevi isto com um nó na garganta e os olhos a humedecerem. Não volto a falar do Zeca. Pelo menos com gente que goste dele tanto como tu, Dica, e não precise de que se o lembre.)».
      Andei o resto da tarde com este texto na cabeça, no percurso que fiz ao Campus de Gualtar (U.Minho) para ver uma exposição sobre Miguel Torga e fazer a inscrição num percurso torguiano ao Gerês em que fiz questão de me inscrever. O mesmo aconteceu no percurso que fiz até ao supermercado e no regresso a casa. O texto do Daniel não me saía da cabeça e fazia-me recuar. Não quero, dizia. É penoso tocar no Zeca, dizia para comigo. Como se pode tocar em algo que, mexendo, faz doer?
      Tem de ser, alguém me contariava, aqui, no «terraço».
      Pois bem, assim seja!
      Na impossibilidade de não ter a grandeza suficiente para te elevar como mereces, há um período do ano em que eu te recordo demais…o Outono!
      O Outono leva-me a pôr tudo em causa; há como que um ciclone que põe tudo fora do sítio. Depois passa, como todos os ciclones, como tudo aquilo que respira e se apaga, também. Aqui entras tu, Zeca.
      Em Agosto passado, estavas no Espaço Ferrer Correia, em Coimbra, e eu fui visitar-te. Como sabes, sou uma chata, ando sempre atrás de ti. Conheço de cor as tuas mensagens musicais, as tuas poses na fotografia, as tuas charadas nos espectáculos ao vivo que fazia questão de não perder, o teu jeito de pegar no adufe em palco, a tua forma de falar para a «malta». Tudo isso está comigo. Não esqueço nunca. Assim como as tuas memórias que não caberiam aqui. Quero ficar por Coimbra, lembrar essa tarde em que te «vi». Estavas lindo, mais uma vez. E se há coisa que sempre me provocaste, foi arrepio-sempre! Desta vez foi enorme…olha só o que me esperava…! (…E não consigo continuar…!Bolas!).Dica, vá lá!
      …«Aquela» que eu adoro, sabes? Estava em grande plano, bem guardada na vitrine e tu sabes como eu gosto de a cantar-«Balada do Outono»!
      Não sei o que me deu. Fitei-te bem nos olhos e, sem mais nem porquê, comecei a cantá-la:«Águas das fontes calai/ó ribeiras chorai/que eu não volto a cantar/rios que vão dar ao mar/deixem meus olhos secar.».Não parei. Quando chego ao fim da letra, volto-me e reparo no Zé, de mãos nos bolsos, com um sorriso(aquele!)como poucas vezes lhe vejo!-De satisfação, de prazer, de lembrança, de orgulho…parecia uma criança quando está a ser levada para o mundo da fantasia…chorei e dei-me conta, mais uma vez de que, este homem, José Afonso, sem querer, põe a brandura da gente a renascer, os sentidos a ferver.
      É que na poesia de José Afonso, encontramos «noites de lágrimas», «dias claros» que hão-de vir, amores pueris, dor, gemido, alento, desalento, sol, lua, mar, rios, meninos, charlatães, falsos profetas, «vampiros», povo, sempre povo, fraternidade, igualdade, «gente igual por dentro, gente igual por fora…»
      Como prefaciou Urbano Tavares Rodrigues no LP-«Cantares do Andarilho»-(…)José Afonso, trovador, é o mais puro veio de água que torna o presente em futuro porque à tradição, arranca a chama do amanhã.
      No tumulto da contestação, na marcha de mãos dadas, com flores entre os lábios, é ele a figura de proa, o arauto, o aedo, o humilde, o múltiplo, o doce, o soberbo cantador da revolta e da bonança. Singelo, José Afonso do Algarve doirado, dos barcos de vela parada, do Alentejo infinito sem redenção, dos pinhais da melancolia, dos amores sem medida, do sabor de ser irmão…José Afonso é a primeira voz da massa que avança em lume de vaga, é a mais alta crista e a mais terna faúlha de luar na praia cólera da poesia, da balada nova.»
      Que a tua voz, Zeca, não se canse nunca de dizer, de cantar:«Cidade, sem muros nem ameias/gente igual por dentro/gente igual por fora»-valores pelos quais tu sempre lutaste e cantaste com a tua voz única, cristalina, pungente, sagrada.
      Serás eterno para os que sentem arrepio na palavra e na voz, quando ouvidas por trovadores, por profetas,como tu!

      Braga, 12 de Outubro 2007

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      Cristina BrancoTestemunhosViriato Teles
      17/12/2007By AJA

      ZECA DE CORPO E ALMA – Texto de Viriato Teles para o espectáculo de Cristina Branco

      Se é verdade que a melhor maneira de avaliar o talento de um autor é pela capacidade que a sua obra tem de suportar a erosão do tempo, então não pode haver quaisquer dúvidas acerca da genialidade de José Afonso. As suas canções resistiram como poucas às transformações culturais e sociais que o mundo viveu nos últimos 50 anos, e nem os temas mais conjunturais, resultantes de condições históricas e políticas específicas, padecem daquele mal que torna algumas músicas tão datadas que, passadas as circunstâncias que lhes deram origem, não conseguem ser ouvidas senão como simples documentos ou provas testemunhais de uma época. E o certo é que na história universal da música popular, são poucos os compositores que conseguiram uma intemporalidade tão completa como sucede com José Afonso: juntemos-lhe Lennon e McCartney, Brel e Ferré, Roger Waters e Paul Simon, Chico Buarque e Frank Zappa – e veremos que a lista fica quase completa.
      Este facto faz com que a sua obra seja particularmente apetecível para muitos intérpretes, sobretudo os mais jovens, que encontram aqui quase tudo aquilo que um cantor exigente e de bom gosto pode desejar: uma imensidão de temas belíssimos, consistentes, actuais e de uma modernidade que não se apaga. Além disso, Zeca Afonso é um compositor de características genuinamente populares, mas que nem por isso deixa de ser profundamente eclético: a sua música reúne os elementos essenciais da tradição lusitana aliados ao jazz, às músicas populares de África e da Europa, aos grandes clássicos e ao que de melhor produziram os contemporâneos – tal como a sua poesia conjuga os cancioneiros medievais com a escola brechtiana, a lírica tradicional com a lógica dos surrealistas, a intervenção política e o experimentalismo mais ousado.
      Assim, não é de admirar que, no ano em que se cumpre o 20º aniversário do desaparecimento físico de Zeca, surjam diversos projectos, dos mais diferentes intérpretes, todos eles tendo por base a obra ímpar do criador de Grândola, Vila Morena. É uma obra tão rica e tão plural que fazê-lo se torna, convenhamos, uma tentação. E, aberto como era às novas tendências e a encorajar os mais novos, José Afonso teria decerto aplaudido todos os que, partindo do seu trabalho, procuram ir mais longe – nos arranjos, nas interpretações, nas atitudes – e tentam não apenas recriar as suas músicas, mas, de certo modo, voltar a inventá-las.
      É o que se passa com Cristina Branco. Acompanhada por um conjunto de músicos de excepção (que são também responsáveis pelos arranjos das dezasseis canções que integram este trabalho), Cristina não se limita a ser a voz, mas procura igualmente dar corpo às músicas que interpreta. Fá-lo com zelo, grande entrega e um talento exemplar. Além disso, não se limitou a escolher algumas canções de Zeca, mas escolheu estas, o que torna o desafio ainda mais difícil: é que, se cantar José Afonso nunca é fácil, interpretar este conjunto de temas constitui um risco que só um(a) grande intérprete consegue vencer.
      Ora a Cristina, já o sabíamos, é uma grande intérprete. É-o, pelo menos, desde há dez anos, quando se revelou publicamente como cantora. Cantora de fados, numa primeira fase, mas que rapidamente mostrou que queria (e podia) ser muito mais do que isso. Que já seria bastante – mas não o bastante, nem para ela, nem para nós.
      Dona de uma voz clara e personalizada, senhora de um estilo próprio, a Cristina não é, nem quer ser, uma cantora igual às outras. Mas também não tem de fazer nada de especial para ser diferente: basta-lhe ser como é, sem afectações e sem se deixar corromper pelos vícios que fizeram com que várias fadistas da era pós-Amália se tornassem como que clones umas das outras. Felizmente, a Cristina resistiu a essas tentações de facilidade e por isso aí está agora, tal como é: inteira, consistente, respeitada pelos seus pares e, mais importante, pelo seu público. Afinal, não há nada mais difícil do que a simplicidade, como nos ensinou o Zeca – e como nos mostra a Cristina.
      A experiência agora concretizada de dedicar um concerto à música de José Afonso é o resultado lógico de um percurso, deste percurso de Cristina Branco. Na verdade, a música de Zeca está presente desde o início no trabalho e na vida da cantora: logo na sua primeira gravação de estúdio, o álbum «Murmúrios», cantou As Pombas, e mais recentemente, em «Ulisses», nos brincou com uma primeira e muito fiel versão de Era Um Redondo Vocábulo, uma das mais emblemáticas e mais complexas canções de José Afonso.
      Tenho para mim que o mais difícil de cada vez que alguém pretende fazer novas versões de temas antigos – sobretudo de canções tão marcantes como são, por regra, todas os de Zeca – é que não basta ser fiel à forma e ao conteúdo dos originais, mas é sobretudo importante manter intacto o seu espírito. Porque cada canção tem uma alma própria, que é preciso respeitar e manter intacta, por maiores que sejam as transformações, legítimas, que o corpo possa sofrer. E é isso que se sente neste concerto: cada tema aparece numa versão remoçada, criativa e, frequentemente, muito arrojada. Em alguns casos haverá decerto quem questione as soluções
      adoptadas – que foram estas, mas poderiam com igual legitimidade ser outras – mas a verdade é que, em todas as interpretações, a alma da canção está lá.
      Viriato Teles

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      Testemunhos
      02/12/2007By AJA

      “Maior que o pensamento”

      É vulgar, quando alguém com notoriedade desaparece, como cogumelos nascerem amigos e companheiros, que sempre têm uma história para contar, como se fora sua mas normalmente com outros acontecidas. Do Zeca e com o Zeca, não faltam narrativas. Nem sempre edificantes. Gente que pode ter sido sua contemporânea em Coimbra mas que não foi de sua privança, barafusta com uma ou outra historieta que, algumas vezes, de forma acintosa, tem por objectivo pôr em causa aspectos da sua personalidade, quando não da sua vida privada, pelo incómodo da grandeza e refinamento ideológico.
      Tem-me acontecido virem contar-me pequenos episódios de vivência coimbrã passados comigo, que eventualmente relatei, que dada a volta costumeira e por desfibrilhação entrópica, regressa a mim na euforia de alguém que conta como se passados consigo.
      O Zeca paga esse preço, exactamente pelo que sempre foi mas sobretudo pelo mito que se tornou, pelo que vão transitando em julgado algumas calúnias e desmandos em que se tornou fértil ou sempre o foi a Coimbra provinciana e invejosa, mais apta a notabilizar boémios que os que cometiam o pecado capital de pensar, pensar livremente, agir no espaço subjectivo da liberdade consentida, no exercício de um estilo de vida que é essência da criação poética.
      Assim o Zeca, livre pensador que adornava uma rara alma de artista e uma assumida consciência cívica, interventora e comprometida ideologicamente, que veio a traduzir-se no plano da criação artística numa obra que o coloca entre os principais músicos do sec. XX, naquilo a que depois se chamou cantautores.
      O Zeca mais próximo do que pretexta esta sessão de homenagem é o intérprete de música de matriz coimbrã, maxime aquilo a que se convencionou com maior ou menor rigor chamar de fado de Coimbra.
      O Zeca Afonso andava pelos bancos do liceu D. João III em Coimbra e já participava em serenatas e também em espectáculos populares, pela mão de Flávio Rodrigues e Fernando Rodrigues, os irmãos barbeiros a quem a música coimbrã tanto deve, mas que vão andando esquecidos ou aqui e ali relembrados, porque uma forma bacoca de elitismo sempre ali morou, instado no código genético universitário.
      A um tempo, jogava futebol nos juniores da Académica, imagine-se, a extremo direito, e garanto-vos que tinha um jeitão.
      Entrado na universidade, para frequentar Histórico-Filosóficas, José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos integra o Orfeon e torna-se solista de segundos tenores. Tem uma voz suave, pessoal e em quitação de pieguismos, como poucos faz ouvir palavras inteiras, divide com rigor a sintaxe musical, articula com sentimentalidade premunida o a dizer, desvenda semiogonias que tantas vezes o verbo esconde.
      Mas o Zeca não era muito de estar arrumadinho em naipes, de se perfilar em corais. Foi estando como pretexto para outras digressões, deu uma mãozinha quando foi criado o coral das Letras, primeiro coro misto da nossa academia.
      Aconteceu casar muito cedo e nascerem-lhe dois filhos. Foi do amor uma decisão contrariada que lhe acumulou dificuldades. Passou a morar com a Amalita, como lhe chamava ternamente, numa cave da Rua de S. Salvador, em frente da casa da mãe do Jorge Godinho, senhora que foi formando os filhos a dar cama, mesa e roupa lavada a estudantes.
      Nessa casa, num quarto das traseiras, voltado para a rua do Loureiro, arrumava os códigos e rubricava a viola o Levy Batista, e por lá andava eu, entre o tertuliar conspirativo e uns garganteios, consolidados depois na Tuna e segredados nas mesas do Café Montanha, em partilha fraternal.
      Connosco também o Zeca, inevitavelmente, a rilhar maus momentos, com subtis apoios de alguns de nós e a solidariedade de poucos.
      Tempos difíceis, porque chamado para a tropa vai a Mafra para o curso de oficiais milicianos, regressando a Coimbra com a galonite de alferes atravessada nos ombros.
      Era insuperável nas caricaturas que fazia de toda a militança, acidulado para a hirerarquia das continências, incontinente de fina ironia quando de pistola à cinta saía para a ronda de polícia militar, prática corrente da sociedade castrense.
      A guerra colonial suspirante a menos de uma década, já respirava entre aqueles de nós que éramos menos dos copos e mais das leituras e do compromisso cívico, e até se dera o caso de Agostinho Neto ser hóspede da tal casa, como de resto o era também Carlos Mac Mahon.
      Íamos falando em surdina a pensar se as paredes tinham ouvidos, entre uns fados tradicionais e umas cançonetas napolitanas, que a viola do Levy magistralmente sublinhava e a guitarra do guitarrinhas, o Jorge Godinho, amparava como podia, até ascenderem ambos ao estrelato daquilo a que se chamou Quinteto de Coimbra, ou mais afiambrado, Coimbra quintet, coisa que nunca existiu.
      Eram tempos da fraternidade a pairar no para sempre do tempo, que se instaurou para que mais bem se compreenda o Zeca que volta a Coimbra na crise académica de 62 a partilhar com os jovens de então a dimensão das revoltas, Abril antes de Abril tão mal recebido por tantos dos que agora blasonam de terem sido seus companheiros.
      Por isso me importa aqui, sem um módico de esquecimento do excelente intérprete da música de Coimbra, a que de resto regressou com o disco de homenagem a Edmundo Bettencourt, colega que fora de seu pai, me importa, dizia, celebrar o cantor de intervenção política projectado sobremaneira nas memórias porque uma sua canção foi senha da madrugada de Abril da liberdade sonhada, cantor de protesto que vale por uma obra poética e musical que está muito para além das circunstanciais fronteiras, que seria certamente celebrado em todo o mundo se em língua mais universal tivesse cantado.
      Músico inspiradíssimo e poeta de rara sensibilidade, mas acima de tudo muito consciente dos mecanismos da criação, estranhamente ou talvez não a sua obra poética não consta das recolhas e referências da poesia portuguesa contemporânea, não se elenca nos cânones historiográficos da nossa literatura e, não obstante, acentua-se, marca como poucos a contemporaneidade.
      Não sei de manual escolar onde apareça um poema seu, e como seria importante, ainda que não se atrevessem à dimensão mais notadamente política, como seria importante dar a ler a sua obra eminentemente lírica, na qual a limpidez de um olhar inteligente sobre a vida, sobre as pessoas e sobre os sentimentos ressoa como das mais conseguidas da segunda metade do século vinte.
      Mas a literatura ausentou-se do ensino da Língua, pensar realmente dá trabalho, instalou-se a ideia peregrina de que a escola é espaço lúdico. Sabemos o preço, na charneca intelectual em que o país estiola.
      Celebrem-se por oposição os estudos de Elfriede Engelmayer e os esforços de Viale Moutinho, persistentes em trabalhos adultos sobre o nosso poeta e compositor, registos se não exaustivos garantem porém uma visão clarividente do Homem e da Obra, grafados com maiúsculas, porque de coisa grande se trata.
      Entre muitas dezenas, proponho este poema escrito em Coimbra, em 1955:

      A minha voz não ouve a voz do vento
      A minha mão não sente a mão que sinto
      Os meus olhos não vêem o que eu vejo
      Desisto e invejo o que me dá alento

      Seduzo-me a tentar mas não me tento
      Pretendo-me sem dar-me o pretendido
      Se busco perco-me onde não há p’rigo
      Nutro de olvido com que me sustento

      Se por aqui não venho ali não sigo
      O que m traz por cá foi-me esquecendo
      Desfaço o feito e faço o presumido
      Nada consigo e nisto vou cedendo

      Nisto prossigo e nisto me entendendo
      (A voz de bronze que me traz consigo)
      Ó minha amada vê como estou vendo
      Ceia também comigo ó meu amigo

      Atendamos uma outra maneira de exteriorizar o sentido, ante a morte de um ente querido, escrito nos anos cinquenta, quando dele se sabe que cantava em serenatas e brincava com as palavras, nas conversas à mesa do café. É um extraordinário poema sobre a morte, a morte petrificada em incomunicação:

      Pela quietude das tuas mãos unidas.
      Desce o eterno e a paz.
      Nada perturba o silêncio posto nas tuas pálpebras.
      É a morte o templo, a plenitude infinda.
      Abatem-se os contornos, teu vulto esfuma a rigidez das coisas,
      a exactidão concreta.
      Nenhuma dor descerrará nossas bocas profanas
      para pronunciar o césamo que te abrirá os céus,
      pobre silhueta humana, já pertença neutral,
      informe barro
      Inalterável mistério, subsistência.
      Entre o vivo e o morto o abismo sa incomunicação,
      A distância absurda da intemporalidade.
      O entrar na origem, menos existência
      Que companhia apenas de todas as coisas que ali estão
      Em frente além.
      Só contemplar-te para penetrar teu mistério
      E apressar a corrida para a petrificação.
      Depois sim: vossa presença pura
      Entre Impronunciáveis e Inconcebíveis-Nada..

      Que coisa o amor! Pobre balbucie
      Gérmen do primeiro estrebuchar da primeira forma.
      Embrião latejando o que quer persistir e continuar-se-Assim

      E se ainda não perceberam até ao fim estes grande poeta e homem de acção cívica, fiquemos com esta carta escrita à filha Joana, na prisão de Caxias, em Maio de 1973:

      Prosema III

      Querida Joana:
      Como sabes eu estou preso mas também não sou um homem mau. Viste como foi. Não sejas rabugenta e ajuda o Pedro. Se ele estiver birrento lembra-te que ainda é um bebé e tu mais crescida que ele. O que eu não gosto é que sejas egoísta porque é muito feio. Se alguma das tuas amigas querem tudo para elas deixa lá. Elas fazem mal mas tu não. Explica-lhes que não devem ser egoístas. Tem cuidado com os sugos e outras porcarias iguais porque podes ficar sem dentes. Depois, mesmo que os queiras ter já ninguém te os pode pôr. Ficas como os velhinhos. Alguns deles tinham a mania de comer guloseimas, gelados e caramelos. E também chocolates.
      Eu lembro-me muito de ti e do Pedro. O Zé ainda não cortou as barbas? Diz à Lena que eu não gosto que ela seja desarrumada.
      Todos têm que ajudar a mãe e a Dina.
      Muitos beijos do
      Zeca Pai
      Caxias, 13-5-1973

      Todos sabemos que a maior parte da sua obra poética não foi musicada. Também sabemos que musicou outros poetas, Camões, Pessoa, Sena, António Quadros pintor, Ary, António Barahona, Ferreira Guedes Luís Andrade, Paulo Armando e António Aleixo. Estas cantigas, como toda a sua obra, mais lírica ou mais interventora, com ressonâncias épicas, são notavelmente alguns dos grandes momentos da nossa música dita popular, pela forma rigorosa como articula os sons com a respiração poética, como nos alerta e nos convoca.
      Pouco se repara na construção da canção dos Vampiros, na simplicidade inultrapassável das palavras para o objecto que se propõe, na tessitura epopaica em que a metáfora se desfaz e se refaz, para se metonimizar em denúncia do poder arbitrário e do capital sôfrego, como escapa a muitos a densa ternura do Menino do Bairro Negro, a quem se devolve a esperança do sol nascente, a luz da redenção, o novo dia de todas as auroras, como se um embalo, onde comovida a ternura se expande e purifica.
      Escolhi estes porque são as suas primícias, mas validamos por igual o baú de todos os seus tesouros.
      Não me chegava toda esta noite, não chegavam muitas noites e toda a vossa paciente benevolência para percorrer a obra poética do Zeca onde se reconhecem cerca de duzentos poemas, que entrelaçam a fina ironia com as transparências líricas do amor e da morte, mas sempre a claridade solidária e a notação de um futuro a haver, com a chama empunhada para luminoso caminho dos humildes e a palavra apontada a todas as iniquidades. Cantou a esperança, como cantou a raiva e a revolta.
      Cantou as lonjuras da planície heróica e olhou como irmão as suas gentes, musicou peças de teatro com canções marcantes, notificou-nos para a nossa responsabilidade cívica com cantigas de todos os Maios, no abraço a quantos amigos maiores que o pensamento, vieram nas estradas, convocou-nos para as fileiras clamando pela amizade solidária, trouxe a estrela d’alva ao sonho dos meninos, soltou pombas brancas e chamou-as ao nosso desassossego, alertou os submissos e apelou a mudar de rumo as formigas no carreiro, balada de Outono de águas de um rio da esperança que volte a cantar, com ceifeiras a olharem a morte saída à rua na paleta do pintor, linóleo de Dias Coelho atravessado pelo tiro da raiva traiçoeira numa rua de Alcântara, com Catarina no tempo, porque se um homem se põe a cantar, vejam bem, amigos, que não há só gaivotas em terra, e é preciso ensinar o sonho, maduro Maio para os índios da meia praia saberem como encontrar o lugar, para que todos os homens, seus irmãos, ergam punhos bem apertados ao internacionalismo das mais ridentes utopias, de pé, pois

      Não basta pregar um prego
      Para ter um bairro novo
      Só unidos venceremos
      Reza um ditado do povo.

      Para sempre o Zeca se ficou nas suas tamanquinhas porque plantou a semente das palavras e elas aí estão, aí ficaram, com elas vamos, e ainda aqueles que ficarem, os que se afastaram no caminho, os que perderam élan e agora partilham da taça do vinho novo, encontrarão sempre, se souberem ouvir, se ler souberem, se pensarem até doer, que em Coimbra tudo começou no tempo em que em flor se abriu a sombra da sua capa, para nos contar baixinho contos de amor velhinhos em qualquer noite fria e triste, porque ao lembrá-lo, aqui reunidos numa celebração eucarística, amigos, companheiros, senhoras e senhores, para todo o sempre, a cabra da velha torre, de todos os amores, chora por ele, chora por nós se não soubermos honrar a sua memória.
      Disse

      José Henrique Dias

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      Homenagens e tributos (2007)Testemunhos
      24/10/2007By AJA

      Tributo nas Caldas é já esta quinta feira. Apareçam!

      “José Afonso é mais do que um capitão de Abril, é um libertador de consciências”. São palavras dos responsáveis do Teatro da Rainha, entidade que vai homenagear o cantor nos serões dos dias 25, 26 e 27 de Outubro. “Fura Fura” assim se designa o tributo a Zeca Afonso que vai decorrer nas instalações do Teatro da Rainha (ex-Ual).A 25 de Outubro irá actuar o grupo de danças e cantares Mezzo Ensemble da qual fazem parte Luísa Ortigoso, Carlos Azevedo e Paulo Neves. No dia seguinte, a grupo Couple Cofee (Luanda Cozetti, Norton Daeillo, Sérgio Zurawski e Ruça Rebordão) apresentará o espectáculo “Co’as tamanquinhas do Zeca”. João Afonso com João Lucas (ao piano) encerram o tributo a 27 de Outubro com o concerto “Um Redondo Vocábulo”.Na sala-estúdio do Teatro da Rainha vai estar presente a exposição “Nove Capas p’ró Zeca” da autoria de José de Santa-Bárbara. A abertura da mostra está prevista para as 18 horas de 25 de Outubro.Este concerto é uma iniciativa do Teatro da Rainha que conta com o apoio da autarquia e com a colaboração de Helena Afonso, a filha mais velha de Zeca Afonso.Para mais informações e reservas contactar os tel. 262823302 ou 966186871. Os bilhetes para um dia custam 10 euros e para os três dias 25 euros, mas há descontos para estudantes e para quem pertence à Liga dos Amigos da Rainha.

      Natacha Narciso | Gazeta das Caldas

      PROGRAMA

      1. – NOVE CAPAS PR’Ó ZECA
      Capas e estudos gráficos de José Santa-Bárbara para os discos de José Afonso
      Fotografias de Patrick Ullmann
      Materiais sonoros: canções e conversas – inéditos de José Afonso – realizados em gravações rudimentares, na Beira, Moçambique.

      2. – O ZECA NAS CALDAS
      Documentos e fotografias da Associação José Afonso, Francisco Carrilho, Joaquim Lobo, José Nascimento e Rosa Cerqueira

      3. – “ANDARILHO, POETA E CANTOR”
      Vídeo realizado por Rogério Ribeiro

      CONCERTO pelos “Mezzo Ensemble” (hoje)

      O grupo forma-se a partir da vontade de fazer este espectáculo. Três músicos e uma actriz que dá a voz a cantar. É um ensemble que resulta dos caminhos de cada um, que se encontram na perspectiva musical da alma do projecto (Carlos Azevedo).

      “Danças e Cantares” é um espectáculo de homenagem a Zeca Afonso. A sua música e poesia redimensionadas no seu primeiro clamor: a liberdade. Liberdade de interpretar. Liberdade de harmonizar. Liberdade de improvisar.

      Homenagem a Zeca Afonso pela constante tentativa de universalização da música e do homem.

      Duas danças (da autoria de Carlos Azevedo, o director do projecto) e sete cantares (de Zeca Afonso) fazem parte deste espectáculo.

      Os músicos:
      Carlos Azevedo – piano
      João Paulo Courinha – saxofones
      Paulo Neves – contrabaixo
      A voz:
      Luísa Ortigoso

      Couple Coffee – dia 26 (amanhã)
      Co’as tamanquinhas do Zeca

      João Afonso e João Lucas – dia 27 (sábado)
      Um redondo vocábulo

      http://www.teatro-da-rainha.com/
      geral@teatro-da-rainha.com
      Fura, Fura por Fernando Mora Ramos

      José Afonso é mais que um capitão de Abril, é um libertador de consciências. A sensibilidade é, como se sabe, um território de máxima ambiguidade. No que toca à sensibilidade artística é o reino da ausência de um ponto de vista, de um posicionamento e vai a par com aquela vaga noção de que em matéria de gosto cada um tem o seu.
      Como se sabe não é assim. O gosto educa-se e quando ele é apenas educado pela força das estruturas de conformação das criaturas, da escola à família, hoje forças secundárias face ao Grande Educador televisão, logo se percebe que quem gosta, gosta do que pode ou gosta do que comeu, por assim dizer. Neste particular José Afonso é um caso paradigmático, a sua sensibilidade, o que transportam as suas canções e poesias como mundo e singularidade, introduziram na cultura portuguesa contemporânea algo de disjuntivo e vital. Desde as canções de amor, referidas ao amor cortês dos cancioneiros, à marrabenta moçambicana, passando pela incursão surreal no imaginário popular português, assim como a prática do “desvio” de que é um exemplo claro a canção “Os vampiros”, um falar ao lado para falar da coisa, tudo este poeta da voz tocou com magia melódica, ritmo vital e subtileza popular e erudita – ele é um representante da divisa “Elitário para todos” que Vitez, o encenador francês, um dia escreveu.Tocou também o teatro, sendo conhecida a incursão brechtiana, na Beira, em Moçambique, realizando as canções de “A excepção e a regra”, peça didáctica de Bertolt Brecht, esse desmistificador do Grande Costume, o tal que sempre afirma que “as coisas são como são e assim serão” e que o senhor Keuner, essa figura dialéctica, sempre desmistificou, sendo célebre a anedota: o senhor está na mesma, disseram. O senhor Keuner corou. Na realidade José Afonso é para nós um alimento constante, uma sombra que luz, um de nós, aquele que procurou a fraternidade na terra, o que lhe trouxe engulhos, mesmo uma ligeira mania depressiva, que a Velha Senhora impunha ao expandir o medo, essa doença que o cantor sempre quis expulsar de cabeças e corpos. Contra o medo, eis um lema. Medo que anda aí de novo, a espreitar brechas possíveis, a tornar-nos bem comportados, passivos, mortos.Fura Fura, iniciativa do Teatro da Rainha com o apoio da câmara Municipal de Caldas da Rainha e a colaboração de Helena Afonso, filha mais velha do Zeca, pretende isso: abrir brechas, cavar na ferida desse silêncio feito de tantos décibeis que hoje impera, ruído que oprime, um sentido que vitalize novos caminhos do desejo, caminhos que possam ser irmanados.Como a toupeira: fazendo e desfazendo galerias, longe da luz mas perto das mentes, lá onde um clic desperta nova vida, para que um dia a derrocada se faça a favor da verdadeira liberdade, aquela que permite a subjectividade, o gosto informado, o diálogo consistente, a democracia qualificada. Contra o circo romano imperial, esse em que os vampiros que despedaçam os indefesos da terra têm capacetes com visão nocturna.FURA FURA é esse encontro que faltava pela fraternidade real, sem velinhas, nem isqueiros, olhos nos olhos, palavras, escuta rigorosa e UTOPIA prospectiva, poesia

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      João de Freitas BrancoTestemunhos
      24/07/2007By AJA

      João de Freitas Branco sobre José Afonso

      José Afonso tem um significado muito importante no panorama da cultura musical portuguesa. Isto, para além do valor de cada uma das suas criações, em função da comunicabilidade para com um auditório vasto e diferenciado. Um significado que tem a ver com a habitual, há muito estabelecida e felizmente em vias de ser superada, oposição entre música dita “clássica”, ou “séria”, e música “ligeira”.

      Tirante um que outro caso especial, nomeadamente a do “jazz”, entendeu-se que todo e qualquer trecho de música não só portuguesa, mas europeia, tinha que ser arrumável numa das duas classes: ou na “séria” ou na “ligeira”. E bem sabemos quão deplorável era, em regra, o conteúdo da segunda, com excepções, aliás, interessantes e meritórias, entre as quais avulta o exemplo de um Frederico de Freitas.
      É evidente que a arte poético-musical de José Afonso não pertence, nem sequer minimamente, à esfera do ligeiro. Como tão pouco pertence essoutro caso notável de música portuguesa que é o de Carlos Paredes. O mais de salientar é que, em José Afonso, o sentido e as implicações das palavras dos poemas cantados, contribuindo embora para aquela incompatibilidade com o “ligeiro”, não são factor exclusivo. O papel da música toma-se relevante, num fenómeno ao mesmo tempo unitário e dividido por dois planos.

      No plano criativo, impõe-se acima de tudo o carácter português de raiz popular, isento de qualquer efeito de estilização de artificio que procurasse o afago do pior gosto musical, ou pseudomusical. É um portuguesismo autêntico que também resulta imensamente da perfeita arte de tratar a nossa língua, em termos de verdadeira música. Finalmente, no plano interpretativo, sem esquecer a inconfundível qualidade da voz, o medular sentido rítmico e a intencionalidade expressiva da articulação, gostaria de focar a peculariedade de José Afonso que talvez tenha sido, até hoje, a menos referida. A sua emissão de voz, habilmente conjugada com a tessitura estabelecida nos diferentes trechos, constitui, se não estou em erro, um dos mais actuantes ingredientes da irresistibilidade da sua mensagem de artista.
      Se os encartados arrumadores de música persistirem, mesmo assim, em recusar à obra de José Afonso um lugar na categoría da música “clássica”, que se apressem a rever a sua definição desta, antes que, por completo, os deixemos de tomar a sério.


      Como conferencista, jornalista, ensaista, historiador, professor (e até compositor) João de Freitas Branco foi o grande educador musical de várias gerações de portugueses. Era um comunicador nato. O seu programa de divulgação na rádio, O Gosto pela Música manteve-se no ar durante 30 anos (1956-86). Fez as célebres Melomania(s) para a televisão (1976-78). Foi, durante longos anos, Presidente da Juventude Musical Portuguesa e também da Academia dos Amadores de Música. Foi o melhor director do Teatro Nacional de S. Carlos (1970-74), foi professor da Universidade Nova de Lisboa e chegou a Secretário de Estado da Cultura nos tempos iniciais (e difíceis) da democracia portuguesa. É o autor de livros importantes, nomeadamente uma História da Música Portuguesa (1959) e uma biografia de Viana da Mota (1972).

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      Júlio PereiraTestemunhos
      23/06/2007By AJA

      Júlio Pereira sobre José Afonso

      Na revista do quarto Festival da Música Popular Portuguesa, em 1991, Júlio Pereira escreveu o seguinte:



      “Sempre que assistíamos a um concerto de música erudita, não importa agora de que tipo, Zeca mostrava-me sempre a verdade. Ele sentia, de facto, e por ficar fascinado perante uma outra música da qual era admirador, uma espécie de sensação de frustração, até de inferioridade, do género: «o que é a minha música ao pé de uma música tão grande?». É evidente que eu não tinha resposta. Qualquer resposta era absurda: «não se podem fazer comparações» ou «o popular e o erudito são uma complementaridade». Absurdas, porque o Zeca sabia muito bem tudo isso. Absurdas sim, porque aquele momento é verdadeiro. Porque o fascínio não passava levianamente pela nossa dimensão. O que a Arte nos provoca é isso mesmo: a noção do nosso exacto tamanho. A música não engana ninguém, muito menos um músico. A música é que não deixa um músico mentir. (…)

      Falo-te em abstracto de coisas concretas. Falo-te da melhor escola de música ou de outra coisa qualquer. Falo-te de experiências reais, vividas, comuns a todos nós. (…) Falo ainda de tudo o que nasce, ou do que nasce em nós quando nos encontramos perante um outro músico que admiramos. Nesse preciso momento somos pequenos. (…)

      Muitas das coisas da vida estão mesmo ao nosso lado. E acredito que muito boa gente ao longo da sua existência, não se tenha apercebido dessa proximidade. É sempre mais fácil esperar o que já se sabe ser, do que o que não se sabe o que é. Venha da Natureza, venha do ser humano. Venha, ainda, da própria música. E que esperas tu da vida, músico? (…)

      Tens aí um gravador? Sabe-se lá como, daquela boca saia uma melodia espantosa! E eu, eterno curioso, levava-a comigo e tentava harmonizá-la. (…) Feliz e contente ia ter com ele mostrar-lhe o resultado. O inesperado era inevitável. O Zeca ouvia… –“Mas não é bem isso…” – “Esta canção é uma história” – “Deverá ter uma atmosfera própria”. – “Estás a ver uma fogueira, com pessoas à volta tendo à roda dos tornezelos uns guizos?” (…)

      «Quem canta por conta sua, canta sempre com razão».

      Percebes colega músico, a verdade irónica desta frase? Os teu ídolos, aqueles que admiras, aqueles sem os quais não passas, os que te põem os pelinhos do braço eriçados, têm na realidade, razão. Toda. Por isso mesmo, sempre que me tocares por conta tua, se és mesmo músico, acompanhar-te-ei sempre que o desejares. É talvez a única matéria que não precisa de escola para ser aprendida. E é desta matéria que se faz a música.

      (…)

      E tu, outro músico, que julgas que já ouviste o suficiente, quando tocares Zeca, não vás pela facilidade. Deixa-me sentir o Zeca quando tocas. Não o subestimes com esse ritmo «chapa 5», ou essa harmonia complexada cheia de 13ª monopolizando o arranjo. Essa música é uma história. É preciso encontrar a atmosfera própria… Lembraste do que o Zeca dizia?”.


      “Faro Luso” tema retirado do disco”Geografias”

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      José NizaTestemunhos
      13/05/2007By AJA

      O meu amigo Zeca por José Niza

      Há uns bons anos atrás, estava a passar um serão em casa do Carlos do Carmo. E o José Mário Branco, como se estivesse a pensar alto, disse-me: “Ó Niza, já te apercebeste da dimensão universal das canções do Zeca?” Isolei-me da cavaqueira e fiquei a matutar naquilo. Afinal o que o Zé Mário me tinha dito era uma evidência. Uma evidência que de tão evidente me escapara até àquela noite.
      Quando estamos muito por dentro das coisas não as vemos de fora. Não temos a noção, quando estamos num estúdio a gravar cantigas, de que podemos estar a fazer história: – o que nos ocupa, e preocupa, é fazer o melhor da melhor forma possível.
      O Zé Mário tinha razão. A obra musical do Zeca está ao nível da de Jacques Brel, Léo Ferré, Serge Reggiani, Georges Brassens, Bob Dylan, ou outros. Atenção que não estou a considerar a eficácia poética da mensagem política, estou sobretudo a sublinhar a qualidade da arquitectura musical das canções do Zeca, a complexa simplicidade das melodias e dos ritmos, a perfeita interacção da poesia com a música e com a voz.
      É por isto que a obra do Zeca está a ser cada vez mais estudada e divulgada, a ser objecto das abordagens mais diversas. Do rock ao jazz. Da música popular à música erudita. É isso que está a acontecer em Portugal e no estrangeiro. Como nunca aconteceu antes. Ainda há dias o Mário Laginha (o nosso Carlos Paredes do piano) – me dizia que a construção musical de “Era um redondo vocábulo”, uma canção “difícil”, era uma obra-prima da música contemporânea.
      A obra musical do Zeca é – e vai ser – um “study case”. Coisas que só acontecem aos génios. E que às vezes levam tempo a perceber.

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      José NizaTestemunhos
      13/05/2007By AJA

      O meu amigo Zeca (II) por José Niza

      Em 1969, pouco antes de ir para a guerra, eu tinha composto a música para duas peças do CITAC, encenadas por um dos maiores nomes do teatro europeu e discípulo de Bertold Brecht: Ricard Salvat. A primeira, “A Excepção e a Regra” de Brecht. A segunda, “Castelao e a sua época”. Ambas foram proibidas e o Ricard Salvat acabou por ser preso pela PIDE e despejado em Badajoz, no dia em que começou a greve académica de 69. Para esta segunda peça compus muitas canções, entre as quais “Cantar de Emigração”, “Emigração”, “Para Rosalía”. O “Cantar de Emigração” era cantado em Coimbra por toda a malta e rapidamente se tornou um sucesso. De tal forma que hoje conheço mais de trinta versões cantadas em português, galego, castelhano, francês e alemão. Foi nessa altura que verdadeiramente comecei a compor a sério e a ser conhecido no pequeno mundo da música portuguesa. A versão do “Cantar de Emigração” que o Adriano lançou no seu LP “Cantaremos” (1970), fez o sucesso desse disco e levou o Adriano a escrever-me para a guerra e a pedir-me que fizesse todas as canções do seu álbum seguinte. Mas, mais do que isso, ele e o Zeca propuseram-me ao Sr. Arnaldo para dirigir a produção dos discos Orfeu. De certa forma foi isso que me abriu as portas para tudo o que depois vim a fazer na música portuguesa.

      Entretanto o Zeca continuava, anualmente, a semear autênticas obras-primas: “Contos Velhos Rumos Novos” (1969), “Traz outro amigo também” (1970).

      E estamos chegados a Agosto de 1971, altura em que regressei da guerra e comecei a trabalhar na produção dos discos Orfeu. Em cima da mesa estavam dois grandes projectos para lançar antes do Natal desse ano: o Zeca iria a França gravar um disco com direcção do José Mário Branco. E o Adriano ficaria em Lisboa (ainda estava na tropa) a gravar comigo o disco que eu tinha composto para ele. Como ambas as gravações foram feitas ao mesmo tempo eu não pude ir a França com o Zeca e fiquei em Lisboa a dirigir o disco do Adriano. Quando o Arnaldo Trindade ouviu os dois discos ficou em estado de choque musical: aquilo era muito mais do que ele sonhara!

      Entretanto – e também de Paris – vieram dois discos cantados por dois exilados políticos, os seus álbuns de estreia: “Mudam-se os tempos, Mudam-se as vontades”, do José Mário Branco e “Sobreviventes”, do Sérgio Godinho.

      Estes quatro discos foram quase simultaneamente postos no mercado. E aconteceu um terramoto, uma revolução musical totalmente imprevista e inovadora na música popular portuguesa. Ao fim de mais de 35 anos ainda há réplicas desse terramoto. As marcas que deixou continuam a ser a matriz e referência da música que hoje se faz em Portugal. Todos estes quatro discos figuram na lista apertada dos melhores discos da segunda metade do século XX.

      O curioso disto tudo é que nenhum de nós sabia o que os outros estavam a preparar. O Zé Mário e o Sérgio estavam em Paris e eu nem sequer os conhecia. O Zeca receava a genial encenação musical do José Mário Branco e nem sequer sabia para o que estava guardado. E o Adriano só depois de comigo entrar em estúdio é que soube o que verdadeiramente lhe iria acontecer.

      Nos anos seguintes produzi, ou dirigi, quatro importantes discos do Zeca: “Eu vou ser como a toupeira” (Madrid – 1972), “Venham mais cinco” (Paris – 1973), “Coro dos Tribunais” (Londres – 1974) e “Com as minhas tamanquinhas” (Lisboa – 1976), os dois primeiros antes do 25 de Abril e os dois últimos, depois. A minha eleição para a Assembleia Constituinte e, depois, para a Assembleia da República, impediram-me de continuar a trabalhar com o Zeca – e na editora. O mais importante estava feito, o fascismo tinha sido derrubado e agora a música era outra.

      Produzir discos do Zeca, ainda por cima no estrangeiro, era qualquer coisa de fascinante, de ciclópico e, sobretudo, uma experiência diferente do habitual.

      Tudo começava com várias idas à casa do Zeca, em Setúbal, para escolher o reportório, a direcção musical, os acompanhantes e o estúdio onde iríamos gravar. Depois havia a insuportável, mas obrigatória, missão de enviar os poemas à censura. Eu aqui inventei um truque que quase sempre funcionou e que aprendi nas artes da pesca: era o “engodo”. A verdade é que à ditadura não interessava calar totalmente o Zeca. Seria demasiado drástico e provocaria efeitos de “boomerang”. À censura interessava sim, controlar o que o Zeca cantaria. Do mal, o menos. Percebendo isto, quando preparava um disco, por exemplo de 10 canções, eu pedia ao Zeca uns 15 poemas. Os que não eram para gravar – e nem sequer tinham sido por ele musicados – eram também os mais explícitos e acirradores. Era sobretudo nesses que o lápis azul colocava a mordaça, deixando luz amarela ou verde para os outros. A estupidez dos censores era equivalente à satisfação do dever cumprido: em 15 cortavam 5 e estava o dia ganho. E eu agradecia. O engodo tinha funcionado. Mas a tarefa não terminava aqui. Era preciso marcar estúdio, combinar datas, tratar de viagens e hotéis, combinar cachets e contratar os músicos, arranjar restaurantes e pagar as contas, dar umas abébias para as rádios e para os jornais, tratar das capas dos discos e das fotografias. Quando as gravações eram lá fora eu levava o dinheiro em notas de banco e pagava “cash”.

      Quando finalmente entrávamos em estúdio, no estrangeiro, era preciso explicar aos engenheiros de som que música era aquela, o que se pretendia, quem era o cantor.

      As gravações do Zeca eram diferentes das habituais em que, quando se entrava em estúdio, já quase tudo estava previsto e preparado. Para ele, o estúdio era sobretudo um laboratório de experiências, uma sala de ensaios, um espaço criativo. As soluções musicais eram geralmente encontradas no momento, à custa de sucessivas tentativas. O meu drama é que tudo aquilo tinha de começar e acabar em sete dias, que era o tempo reservado para as gravações. Se houvesse um atraso teríamos de regressar a penates porque no dia seguinte o estúdio já era para outros. A verdade é que os prazos foram sempre cumpridos.

      O primeiro disco que produzi para o Zeca foi “Eu vou ser como a toupeira” gravado em Madrid, em 1972. Nesse álbum ele queria incluir a canção “A morte saíu à rua” cuja letra, embora de forma não explícita, denunciava o assassinato do pintor comunista Dias Coelho pela PIDE. O poema foi cortado pela censura. O Zeca ficou indignado. E eu não me conformei. O Director Geral de Informação da altura era o Dr. Pedro Feytor Pinto, nascido e licenciado em Coimbra, que tocava umas pianadas e tinha pertencido à Tuna Académica, onde conheceu o Zeca. Era ele o chefe da censura. Telefonei-lhe e convidei-o para almoçar. Durante o almoço fino, na Varanda do Chanceler, convenci-o. “Afinal, quem é que sabia quem era o Dias Coelho?” Saí do restaurante com a autorização e uma conta choruda para o Arnaldo Trindade pagar. Não há almoços grátis.

      Quando gravava, o Zeca gostava de estar sempre acompanhado pelos amigos das cantigas, mesmo que não entrassem no “filme”. Aquilo proporcionava um clima de bom convívio, com copos, conversas e muito humor. Para essa gravação eu reservei um grande apartamento nas Torres de Madrid onde todos ficávamos, e que tinha duas vantagens: uma grande sala, onde podíamos ensaiar à noite; e uma localização próxima da saída da cidade para os Estúdios Cellada, a 12 kms da capital.

      A equipa que acolitava o Zeca tinha como suporte principal a viola do Carlos Alberto Moniz e integrava o galego Benedicto, grande amigo do Zeca, a Teresa Silva Carvalho e o José Jorge Letria.

      O arranque da gravação foi complicado. Ninguém sabia verdadeiramente o que o Zeca queria. Nem ele era capaz de se explicar. A disciplina que o José Mário Branco tinha imposto no disco anterior (“Cantigas do Maio”), a que o Zeca se tinha submetido com alguma reserva, foi substituída por algum excesso de improvisação e de experimentalismo. Começámos por gravar as canções mais simples. Ao segundo dia, numa pausa da gravação, eu andava com o Zeca a passear no corredor. Passámos em frente da porta do estúdio 2 e ouvimos uma viola muito bem tocada. Ficámos ali, o guitarrista estava a ensaiar. O Zeca parou e disse: “É mesmo disto que estamos a precisar! Ó Niza vai lá dentro e convida o gajo para se juntar à malta!” Fui lá, expliquei-lhe ao que ia. O tipo achou o convite algo insólito mas aceitou. Este acaso do destino foi uma enorme mais-valia para o disco. O Carlos Villa, assim se chamava o guitarrista, deu um grande contributo para a sua valorização.

      Uma das canções que o Zeca queria incluir – “O avô cavernoso”- era um tema dedicado ao Cardeal Cerejeira (ou ao Salazar, ou aos dois…) com uma música e um poema completamente fora do seu estilo habitual. O surrealismo do tema só podia ter um acompanhamento musical e coral igualmente insólito. Defendi que, ao contrário das regras, o papel da viola deveria ser o de destruição da música e do poema.

      A ideia era um bocado abstrusa, mas o Zeca decidiu testá-la. Era o tal experimentalismo de que atrás falei, Coube-me a mim acompanhá-lo. A primeira coisa que fiz foi desafinar a viola. Isso mesmo: desafinar a viola! O Zeca começou a cantar o tema, tal como o tinha criado, e eu a desconstruí-lo com notas desafinadas e acordes dissonantes: era a loucura lúcida! O resultado foi de espanto e aprovação. Com os coros aconteceu mais ou menos o mesmo. Mas faltava ainda o tempero das percussões. E aí caímos num impasse. Parámos a gravação para reflectir. Nesse intervalo fui ao bar do estúdio e trouxe de volta uma cerveja e um “bocadillo de jambón” com aquele pão branco e estaladiço. Fui comer para o estúdio, os microfones estavam ligados e o Zeca estava a descansar na “régie”. Às tantas, ia eu a passar ao lado de um dos microfones e dei uma dentada no pão. O Zeca deu um grito de satisfação: “Eh pá, era mesmo este som que eu queria para a percussão!” O técnico pôs a correr a fita onde estava a voz do Zeca e a minha viola. E eu fiquei no estúdio a morder no “bocadillo” ao ritmo da música. Acho que devíamos ter mandado isto para o Guiness…

      No ano seguinte a gravação foi em Paris, no Estúdio Aquarium. O Zeca resolveu – e bem – reconstituir a equipa de “Cantigas do Maio”, isto é, José Mário Branco e Gilles Sallé, o engenheiro de som. O Zé Mário estava à nossa espera mas, sobre o que o Zeca ia cantar, a informação que tinha era muito escassa. Foi o ano de “Venham mais cinco”. Talvez tenha sido a semana mais dura na vida musical do Zé Mário: de dia gravávamos e à noite ele ia escrever os arranjos para o dia seguinte. Quando chegou o fim da gravação nem podia com uma gata pelo rabo. Este disco contém algumas das melhores canções da obra do Zeca: “Venham mais cinco”, “Era um redondo vocábulo”, “Que amor não me engana”, “A formiga no carreiro”, “Gastão era perfeito” e algumas outras. Ficámos instalados num dos melhores hotéis de Paris, o PLM (da cadeia Paris-Lyon-Marseille, recentemente inaugurado). Tudo era climatizado, as janelas dos quartos e de todo o hotel eram estanques, tudo funcionava com ar condicionado. O ar que respirávamos era quente e absolutamente seco. O pior para a voz de qualquer cantor. O Zeca pediu-me para mudarmos de hotel, mas já estava tudo pago e o tempo ia passando. Ensinei-lhe um truque que tinha aprendido na Suécia quando o tampo da minha guitarra estalou por causa do ar seco: abrir a torneira da água quente da casa de banho e deixá-la a correr. Era a única forma de humidificar o ar. Não resolveu totalmente o problema, mas ajudou.

      Quando o disco ficou pronto segui para Londres. Era lá que se iria fazer o corte do acetato e fabricar o LP. 1973 foi o ano da grande crise do petróleo. O vinil era um bem escasso e o que havia disponível já era reciclado. Quando fui à fábrica, nos arredores de Londres, fiquei decepcionado: aquilo parecia mais uma carpintaria que uma fábrica de discos. A Pye Records tinha enganado a editora. Regressei a Lisboa com os primeiros discos e telefonei ao Zeca para os ouvirmos em minha casa. Ele foi ouvindo, ouvindo, com expressão carregada e sem comentários. Mas, no fim, disse que aquilo não correspondia à qualidade do que tínhamos gravado em Paris e que não autorizava a venda. E tinha razão. A solução de recurso foi fazer a edição em Lisboa, numa fábrica onde ainda havia uma boa reserva de vinil do bom.

      Mal sabíamos nós que “Venham mais cinco” seria o último disco do Zeca antes do 25 de Abril.

      Em 1974, já depois da revolução dos cravos, fomos gravar a Londres, desta vez com o Fausto na direcção musical. Havia uma grande expectativa e curiosidade em saber o que o Zeca iria cantar, finalmente liberto da PIDE e da censura. Foi igual ao que sempre tinha sido. Em Portugal vivia-se o Verão quente, os cristãos-novos da canção panfletária nasciam como cogumelos, numa corrida louca para se saber quem era mais revolucionário. O Zeca não embarcou nessa onda: a grande, longa e penosa marcha já ele a tinha ganho antes.

      Para essa gravação – e pela terceira vez – o Zeca voltou a convidar o Michel Delaporte, um percussionista francês que o José Mário Branco lhe apresentara em “Cantigas do Maio”. O Michel tornara-se um músico residente na sua discografia, que muito valorizou. Para além do Fausto, foram também a Londres o Carlos Alberto Moniz, o Adriano, o Vitorino e eu. A canção do disco foi “O que faz falta”.

      Foi uma gravação tranquila, à inglesa, e na qual os técnicos britânicos tiveram alguma dificuldade em se integrar. Até porque, naqueles tempos conturbados, a imagem mediática que as televisões levavam ao mundo, era a de um Portugal a caminho de uma ditadura comunista. A Europa estava assustada com a ameaça de uma nova Cuba. Recordo-me de um dia, ao chegar ao estúdio, um dos engenheiros de som ingleses me perguntar, preocupado, o que se estava a passar em Lisboa. Tinha havido um atentado numa agência da AIR FRANCE, um pequeno petardo tinha quebrado o vidro da montra. Debaixo do braço eu tinha um jornal londrino. Mostrei-lhe a primeira página, ocupada com a notícia de 14 atentados do IRA, ocorridos na véspera, na Oxford Street. “So What? Pois é, mas nós já estamos habituados…” A conversa acabou logo ali.

      O papel do Adriano e do Vitorino nesta gravação foi mais de animação do que de participação. Cantavam nos coros e andavam a descobrir Londres. Uma tarde irromperam pelo estúdio em grande euforia: tinham descoberto, mesmo ali ao lado, uma loja de um português que vendia chouriço alentejano, pão caseiro e vinho tinto! O Zeca, já farto das comedorias inglesas e pudins de maçã, ordenou às tropas: “Vamos ao ataque!” Os dois engenheiros de som ficaram perplexos: interromper assim uma gravação ia contra os costumes do Reino de Sua Majestade, The Queen! Foram connosco e não se arrependeram. E ficaram a perceber que na vida ou na música, beber um copo ajudava à festa: o que fazia falta era animar a malta.

      Em 1975 o Zeca fez greve às gravações. Não por falta de canções, mas por falta de tempo. Cantava em tudo o que era sítio. Apoiava os trabalhadores, sobretudo no Alentejo, na reforma agrária. Ou os pescadores do Algarve. Cantava no estrangeiro. O seu lema era: “Cantando espalharei por toda a parte”. Grande parte dessas vivências e experiências foi transformada em canções no seu disco seguinte “Com as minhas tamanquinhas”, um trabalho que na minha leitura, mais parece uma foto-reportagem musical. Neste disco o Zeca canta pessoas concretas e conta estórias verídicas: Kissinger, Teresa Torga, os Índios da Meia-Praia, Como se faz um Canalha (Aventino Teixeira), Alípio de Freitas. Um verdadeiro álbum de canções em forma de fotografia. Neste trabalho o Zeca assumiu a orientação musical e nele colaboraram, entre outros, Fausto, Júlio Pereira, Michel Delaporte, Quim Barreiros (!!!), Ramon Galarza, Vitorino e eu próprio. Foi o último disco que fiz com o Zeca.

      A partir daqui as suas gravações começaram a ser mais espaçadas: “Enquanto há força” (1978), “Fura-Fura” (1979), “Fados de Coimbra e outras canções” (1981), “Como se fora seu filho” (1983) e “Galinhas do Mato” (1985). Neste último disco o Zeca já estava gravemente doente. Morreria dois anos depois, vitimado por uma doença incurável, do foro neurológico, com o estranho nome de esclerose lateral amiotrófica.

      in www.oribatejo.pt

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      07/04/2007By AJA

      Bilhete Postal – A esperança e Zeca Afonso

      Liga-se a televisão em horário nobre e é novela atrás de novela. Acende-se o rádio do carro e quase toda a música é plástica, ditada por um gosto sem rosto mas que a gente aceita.

      Lê-se cada vez menos, e os livros que têm sucesso são, salvo honrosas excepções, obras intragáveis sobre amores leves e outros sentimentos claros. Lineares.

      No meio deste aterrador pântano da atitude estética e da sua falta de exigência, eis uma boa notícia: vinte anos após a morte do grande artista, o disco que mais vende em Portugal é uma homenagem à obra de alguém que nem a ideologia férrea confinou apenas ao seu lado a admiração merecida pelo génio: José Afonso. Ainda há esperança.

      Octávio Ribeiro – Correio da Manhã

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      02/04/2007By AJA

      Zeca Afonso. Memórias inéditas

      Tenho saudades do Zeca Afonso, que partiu há pouco mais de 20 anos. Meu professor no liceu, partilhámos depois, na Universidade de Coimbra, também como vizinhos e amigos, mais tarde, lutas e derrotas, sonhos, utopias e até a sua agonia final. Vou escrever o que nunca disse publicamente, neste mês de Abril que tanto lhe pertence.

      1.
      Nos meados dos anos sessenta (1965), aluno do então 4º ano do liceu, em Lourenço Marques, vi na pauta que esse ano teria como professor de geografia e história um tal de José ( nota: a pauta omitiu o nome Afonso) Cerqueira dos Santos, ilustre desconhecido. O professor, soube depois, tinha sido proíbido de ensinar no então continente e desterrado em Moçambique, sob condição, da PIDE, de não se meter em política.

      Sentado na primeira fila da aula, reparei no primeiro dia de aulas que o professor trazia um par de peúgas de cores diferentes. Penteava-se com os dedos. O ar era displicente, o sorriso cúmplice e doce. Tais ingredientes, por serem nesse tempo contra a corrente, fascinaram-me.

      Apresentou-se timidamente e omitiu a actividade no mundo das cantigas. Era um professor excepcional. Incitava-nos à investigação e a questionar tudo, desde os manuais a ele mesmo. Retive para sempre uma frase:” Não estou aqui para impingir, mas para insistir e resistir, convosco de preferência”.

      2.
      Um dia, na discoteca Baily, em Lourenço Marques, descobri entre os velhos discos em saldo, um single com o meu professor agarrado a uma velha viola. Zeca Afonso. Duas músicas: “Menino do Bairro Negro” e “Natal dos Simples”: Comprei o disco. Na aula seguinte, quando os colegas tinha saído, confrontei o professor com o disco. Disparou, estupefacto: “Onde é que arranjaste isso?”. Expliquei o que se tinha passado. O espanto do mestre era legítimo – ele fora expulso de Portugal e proscrito nas rádios justamente por causa daquele disco e das posições que defendia em defesa dos humilhados, contra a hipocrisia intelectual dominante, todos os dogmatismos e o regime fascista.

      3.
      Havia, no então Rádio Clube de Moçambique, um programa em que semanalmente eram divulgados os cantores mais votados. Elvis Presley liderava. Organizei no liceu uma votação para o disco do nosso professor. Teve adesão maciça. Na semana seguinte, Zeca Afonso liderava o “Hit Parade” e assim esteve durante nove semanas. Tive que emprestar o disco ao radialista João de Sousa, mais tarde meu colega, que desconhecia o autor. A PIDE acordou. Mandaram confiscar o móbil do crime, sentenciando a proibição do cantor. Por essa altura, já eu andava em tertúlias clandestinas com o meu professor. Ele cantava. Eu dizia o “Mostrengo” de Fernando Pessoa. Imaginam o resultado: no fim do ano, a PIDE decretou novo exílio ao professor, que foi ensinar para o Liceu Pêro de Anaia, na cidade da Beira, a mais de 500 quilómetros. Depois, seria recambiado para Portugal e definitivamente banido do ensino.

      4.
      Viveu de dar explicações particulares ( poucas) e da ajuda dos amigos. Nunca mais nos vimos. O nosso reencontro deu-se quando vim de Moçambique para Coimbra fazer a licenciatura. O Zeca recordava-se de mim, ao mais ínfimo detalhe. Ele continuava quase na miséria. Coimbra e a sua universidade viviam, então ( vale a pena ler o livro de Celso Cruzeiro “Coimbra 69”, das edições “Afrontamento”) um período de confronto agudo contra o fascismo. Envolvi-me até ao pescoço e fiz parte dos 39 malditos eleitos pela PIDE como os mais perigosos agitadores da universidade. Eu era um teenager e o mais novo do grupo malvado, mas paguei, mesmo garoto, a factura. Os meus outros 38 companheiros, idem aspas – Alberto Martins, Celso Cruzeiro, Osvaldo Castro, Fernanda Bernarda, Strech Monteiro, Pio Abreu, Barros Moura, Silva Sardo, Palma Dias, Maria dos Anjos Albuquerque, só para citar alguns. Em 1969, paralisámos a universidade. Organizámos greve geral a exames (adesão de 98,3%), suspendemos as praxes serôdias e a Queima das Fitas. A GNR cercou a universidade e ocupou a cidade de Coimbra. Na final da Taça de Portugal, a Académica defrontou o Benfica. Todos os jogadores entraram em campo com braçadeiras de luto académico. O Estádio Nacional foi uma gigantesca manifestação contra o fascismo. Coimbra invadiu Lisboa. O Presidente abóbora Américo Tomás, pela primeira vez, não se deslocou para ver o jogo e entregar a taça.

      A retaliação foi brutal. Vários companheiros foram incorporados compulsivamente no serviço militar, outros de nós foram expulsos de todas as universidades, vítimas de processos disciplinares e criminais e da cadeia. Houve para todos os gostos. Conheço desde muito novo o estatuto de arguido – réu se chamava na altura.

      5.
      Zeca Afonso, clandestino e silenciado, era a nossa inspiração, o nosso exemplo, a nossa rectaguarda, o nosso resguardo. Procurado pela PIDE, chegou a cantar para mais de dois mil estudantes.

      Esta história muito breve dará um dia, porventura, um livro. Porque o espaço é limitado, dou convosco um salto nos tempos.

      A doença ( arterose lateral amiotrófica) fez vergar o Zeca a partir de 1984. Acompanhei-o até ao fim. Assisti àquela agonia macabra, dia-a-dia.

      Ostracizado por alguma partidocracia, a esquerda incluída – Zeca sempre recusou filiar-se em partidos -, vigarizado por falsos amigos, odiado pelos algozes da genialidade, o meu insubstituível amigo Zeca teve a urna exposta na Escola Secundária em Setúbal, de onde, no tempo do fascismo, fora expulso. Exigiu que, no funeral, não houvesse símbolos partidários. Mais de cem mil pessoas foram dizer-lhe adeus.

      Eu não fui. Fiquei em casa. A chorar, pois claro. Não me despeço de quem vive no meu coração para sempre.

      6.
      Para o bem e para o mal, o meu coração, os meus afectos, a minha memória, são em mim quem mais ordena.

      Assim será até ao dia (breve?) em que reencontrarei o Zeca. Ainda lhe devo sete contos, moeda antiga, que me emprestou para comprar a capa e batina no prego, ou seja, na casa de penhores.

      Falaremos seguramente das utopias que partilhámos, as quais, um dia, serão concretizadas.

      Assim foi com o 25 de Abril de 1974.

      Assim será com as cidades sem muros nem ameias que nascerão sobre os escombros deste planeta do martírio no qual temos vivido aparentemente sem a nossa revolta.

      Aparentemente, insisto, porque a revolta e a morte, como os sismos, têm em comum a particularidade de viverem connosco mas nunca terem hora marcada para eclodir.

      A revolta é sempre vencedora.

      A morte, para os que amamos, vale por um episódio efémero de consequência e vida transitórias.

      Alguém, no perfeito juízo, pode dizer que, há 20 anos, morreu Zeca Afonso?

      O Zeca permanece, ouve-se, fez escola e é exemplo – até na sombra de uma azinheira emergem e se murmuram nos lábios dos homens bons e das mulheres simples as palavras e os sons que Zeca Afonso deixou para a eternidade, imunes aos vampiros da memória.

      Até breve, Mestre, companheiro, Amigo, camarada.

      P.S.

      Uma curiosidade.

      Foi Otelo Saraiva de Carvalho, que liderou na Pontinha, em Lisboa, o grupo de oficiais que dirigiram a operação militar do 25 de Abril, quem escolheu as duas canções-senha – “Grândola Vila Morena” e “E depois do adeus” – que se constituíram como luz verde para o arranque das unidades que ocuparam pontos estratégicos da capital. Otelo hesitou entre duas canções do Zeca. “Venham mais cinco” e “Grândola Vila Morena”. Acabaria por se decidir pela primeira por causa do verso “o povo é quem mais ordena”. Assim se internacionalizou o concelho alentejano, cujo Presidente da Câmara é um militar de Abril, Carlos Beato, eleito pelo PS.

      Guilherme Pereira

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      Testemunhos
      02/04/2007By AJA

      Zeca Afonso – O Professor “Indisciplinador de almas”

      Decidi relembrar o Zeca Afonso como professor, uma vez que o poeta e o músico têm um lugar ímpar no panorama da cultura musical portuguesa e são por todos reconhecidos.

      “DURANTE O EXERCÍCIO DO PROFESSORADO, COLHI A MINHA EXPERIÊNCIA DE VIDA MAIS IMPORTANTE.”

      “TENTEI ASSUMIR A FUNÇÃO DE PROFESSOR, QUE NÃO TINHA NADA A VER COM A TRADICIONAL.

      RECORDO-ME QUE TINHA GRANDES DIFICULDADES EM CONCILIAR OS DOIS ASPECTOS: A DISCIPLINA E O DIÁLOGO. OS ALUNOS CHEGAVAM-ME REPRIMIDOS POR UM DETERMINADO SISTEMA DE ENSINO E VINHAM DESCARREGAR AS TENSÕES DAÍ RESULTANTES PARA AS MINHAS AULAS.

      A MAIOR PARTE DESSES ALUNOS ACEITAVA O PROFESSOR DENTRO DOS MOLDES TRADICIONAIS, REPRESSIVOS E AUTORITÁRIOS, E NÃO DAVAM CRÉDITO AO PROFESSOR QUE SE PUNHA NUMA POSIÇÃO DE DIÁLOGO. ESPECIALMENTE EM MANGUALDE (1956)…”

      José Afonso

      REGISTO BIOGRÁFICO:

      Em fins da década de 40, já aluno de Ciências Histórico-Filosóficas da Faculdade de Letras de Coimbra, destaca-se, à semelhança do irmão, como cantor de fados.

      1955-56 – Professor em Mangualde

      No ano lectivo 1955/56, para assegurar o sustento da família, e embora não tendo ainda concluído o curso, começa a dar aulas num colégio privado em Mangualde.

      1956-57 – Professor em Aljustrel

      Foi professor de História e Geografia no Externato D. Filipa de Vilhena, em Aljustrel.

      Em 1957/58 é professor em Lagos, seguindo-se nos anos subsequentes Lagos, Faro, Alcobaça e de novo Faro.

      No arquivo da Escola Secundária Gil Eanes, em Lagos existem alguns documentos que comprovam a sua passagem como professor desta cidade.

      Segundo a documentação «pode comprovar-se que os anos de 1957/58 foram tempos difíceis para José Afonso.

      Antes de poder leccionar nesta cidade algarvia, é enviado para aquele estabelecimento, então Escola Industrial e Comercial de Lagos, um documento do Ministério da Educação confirmando que José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos estava apto para dar aulas; contudo, Zeca terá sido «obrigado a assinar um documento onde declarou, pela sua honra, que não pertencia nem jamais pertenceria a associações ou institutos secretos».

      1958/59 – Professor em Faro.

      Nas praias do Algarve. Zeca falava de «fase de euforia, uma das mais felizes da sua vida».

      Na Fuzeta, monta a sua «tenda contemplativa», percorre quilómetros à beira-mar, às vezes vai directamente para a escola, a pingar.

      Uma das suas grandes paixões, o ensino:
      «Queria pôr os alunos a funcionar como pessoas, incutir-lhes o espírito crítico, fazer com que exercitassem a sua imaginação à margem dos programas oficiais.»

      1959/60 – Foi neste período (1959 -1960) professor de Francês e de História na Escola Comercial e Industrial de Alcobaça.

      1960/61/62 – Professor em Faro.

      Escola Industrial e Comercial de Faro (hoje Escola Secundária Tomás Cabreira), professor de francês no Curso Geral de Comércio

      José Afonso segue atentamente a crise estudantil de 1962. Em Faro convive com Luiza Neto Jorge, António Barahona, António Ramos Rosa e Manuel Pité, e namora com Zélia, natural da Fuzeta, que será a sua segunda mulher e com quem terá mais dois filhos, Joana e Pedro.

      É José Afonso quem nos diz: «O conhecimento da Zélia, num lugar do Algarve, reconciliou-me com a água fresca e com os tons maiores. Passei a fazer canções maiores».

      Em 1963, conclui a licenciatura na Faculdade de Letras de Coimbra com uma tese sobre Jean-Paul Sartre: “Implicações Substancialistas na Filosofia Sartriana”.

      1964-67 – É professor na Beira;

      Vai para Moçambique com Zélia;

      Nos últimos dois anos, dá aulas na Beira.

      Aqui musicou Brecht na peça A Excepção e a Regra. Em Moçambique nasce a sua filha Joana (1965).

      «Se houve alguma coisa em África que me marcou definitivamente foi a realidade colonial. Quando eu parti ia preparado para enfrentá-la: sabia quais os seus contornos e o papel que me cabia como professor, quais os alunos que ia ensinar. Sabia também que ia ser um veículo de transmissão ideológica de uma classe dominante. (…)

      Fiquei terrivelmente ligado àquela realidade física que é a África, aquilo tem de facto qualquer coisa de estranho, uma força muito grande que nos seduz. O meu baptismo político começa em África. Estava a dois passos do oprimido».

      1967/68 – Professor em Setúbal;

      É colocado como professor em Setúbal (dava aulas de História» no Liceu de Setúbal), e a par das funções lectivas começa a aceitar convites para cantar em colectividades da Margem Sul. Fica sob a mira da PIDE que o passa a chamar com relativa assiduidade para prestar declarações no posto de Setúbal.

      Sofre uma grave depressão que o leva a ser internado durante 20 dias na Casa de Saúde de Belas. Quando sai da clínica, recebe a notícia de que tinha sido demitido do ensino oficial.

      O PCP convida-o a aderir ao partido, mas José Afonso recusa invocando a sua condição de classe.

      «Nunca fui um indivíduo com certezas dogmáticas acerca de grupos ou partidos preferenciais. Comecei por me relacionar, sobretudo na Margem Sul, a associações de estudantes fortemente politizadas, por um lado, e a determinadas organizações políticas, como por exemplo os Católicos Progressistas, por outro. Achava que todos aqueles grupos eram necessários para formar um movimento que conduzisse ao derrube do poder. Qual seria depois o partido ou organização que surgiria após o derrube do poder, não sabia.»

      É excluído do ensino oficial por razões políticas.

      Expulso do ensino, em 1968 dedica-se a dar explicações e a cantar com mais assiduidade nas colectividades da Margem Sul.

      Pelo Natal, edita o álbum Cantares do Andarilho, com Rui Pato, primeiro disco para a Orfeu. O contrato é sui generis: contra o pagamento de uma mensalidade (15 contos), José Afonso é obrigado a gravar um álbum por ano.

      APÓS O 25 DE ABRIL DE 1974 – Nesses meses («essa coisa magnífica que foi o PREC»), percorre o país de ponta a ponta, num sem fim de «sessões», «acções de dinamização», «campanhas de alfabetização».

      Zeca assume a liberdade de uma forma plena, inebriante e intensamente fraterna. Realiza milhares de sessões, apoia as mais diversas lutas. Realiza várias sessões no estrangeiro, nomeadamente Brasil, França, RFA, Moçambique e Angola.

      É reintegrado no ensino.

      1993 – é publicado no Diário da República a designação de Escola Secundária Dr. José Afonso, em homenagem ao professor-poeta-cantor e resistente antifascista, no Seixal.

      “Fui cantor porque deixei de ser professor e finalmente sou coisa nenhuma porque deixei de ser cantor”.

      Pensando que o ZECA foi professor… voltei o meu esforço de divulgação para os meus alunos, que não o conheceram e para quem estou a preparar um conjunto de actividades com vértice na obra de José Afonso. EM ABRIL…

      Olinda Gil

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      Testemunhos
      30/03/2007By AJA

      Zeca

      A evocação dos 20 anos do desaparecimento de José Afonso, soou-me como estranha. Qualquer coisa entre a hipocrisia e um consenso apodrecido à volta de um nome, de um criador.
      Durante todo o dia da última sexta-feira, ouviram-se na rádio depoimentos de quase toda a gente que importa no mundo artístico, cultural e musical.
      Uma parte dos depoentes elogiou o artista e o cidadão, evocando a sua condição de independente, de homem livre e de criador genial.
      As canções do Zeca passaram numa rádio pública, que o ignora olimpicamente em todos os outros dias do ano, e as intervenções de elogio consensual seguiram-se de forma quase mecânica.
      Discordo desta forma de evocação que, em nome de um unanimismo bacoco, pretende limar arestas desrespeitando a memória de quem, apesar de nunca ter pertencido a partido algum, sempre soube tomar partido pelos explorados e oprimidos.
      Teria seguramente sido mais útil, dar a conhecer o criador pelas suas próprias palavras, explicando que o pintor cantado na canção onde a morte saiu a rua, não era uma figura de ficção, chamava-se José Dias Coelho e foi assassinado pela polícia política no princípio da década de 60 do século passado, que a Catarina que ceifeiras viram em vida
      e que Baleizão viu morrer, não era produto da imaginação do poeta mas uma figura real, assassinada durante uma jornada de luta por melhores condições de vida nos campos.
      José Afonso era um homem inconformado, solidário, lutador, que acreditava na possibilidade da sublime utopia de uma cidade de homens iguais e são estas características, aliadas a um raro génio criador, que faz dele um homem vivo por muitos anos que passem sobre o seu desaparecimento.
      Vemos as capas de revistas que enaltecem as figuras dos banqueiros, e ouvimos o Zeca a cantar: anda ver o deus banqueiro/ que engana à hora e que rouba ao mês/ Há milhões no mundo inteiro/ O galinheiro é de dois ou três.
      Ouvimos os discursos do primeiro-ministro e lembramo-nos da sátira contida na quadra: A palavra socialismo/ como está hoje mudada/ De colarinhos à Texas/ Sempre muito aperaltada.
      Pressentimos as nossas gentes a encolher os ombros de desânimo, incapazes de lutar pela mudança e percebemos a actualidade do recado: O que faz falta é agitar a malta.
      Lemos algumas declarações produzidas durante a campanha para o referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez e não podemos deixar de pensar nos versos finais da Arcebispíada: Igreja dos privilégios/ Mataste o Cristo a galope/ Também Franco, o assassino/ Mandou benzer o garrote.
      O Zeca está sempre presente. Nas suas mensagens, na sua frontalidade, na sua forma de se afirmar sempre do mesmo lado. Querer fazer desta figura única, um ícone consensual pode ser um passo para silenciar tudo o que é importante na sua mensagem de apelo à coragem, à irreverência e ao espírito inconformista e inconformado.
      Acabo como ele acabou uma canção editada em single em 1975 e posteriormente no álbum Enquanto há força: Não sei quem seja de acordo/ Como vamos terminar/ Vinho velho, vinho novo/ viva o Poder Popular.

      Eduardo Luciano

      Diana FM online

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      Testemunhos
      17/03/2007By AJA

      “Zeca” ou a cultura dos mitos

      Uma semana de atraso não é nada perante o significado de uma efeméride.
      Há sete dias atrás este país lembrou-se, vagamente embora (se descontarmos a comunicação social em geral e alguns círculos políticos mais “neo revolucionários”) que passaram 20 anos após a morte de José Afonso.
      Ainda? – perguntará alguém…
      Ora acontece que José Afonso é no meu modesto ponto de vista o exemplo de como a cultura dos mitos se mantém viva e actuante.
      A palavra “mito” não tem aqui qualquer intuito pejorativo, bem pelo contrário.
      Vejamos porém como somos dados às nostalgias da moda conforme convém aos diferentes tipos de nostálgicos que por aí abundam.
      A grande nostalgia nacional continua a ser D. Sebastião.
      Atrevo-me a pensar que se não tem sido Alcácer Quibir Portugal seria hoje uma grande potencia, temida pelos quatro cantos do Planeta, e a ditar leis para tudo o que é sítio.
      A fazer fé no “mito”, D. Sebastião seria decerto um génio da governação, a única personalidade capaz de levar este país pelos caminhos do desenvolvimento e da bem aventurança.
      Será porque era um rei menino?
      E isso terá alguma coisa a ver com o menino Jesus?
      É que pouco tempo depois da desgraça de Alcácer Quibir vieram por aí os Filipes, e se a coisa com Espanha já não era famosa, a partir daí toldou-se completamente.
      O nosso grande azar afinal é o nevoeiro. Ele deveria voltar numa manhã de nevoeiro mas, pelo visto, o nevoeiro que temos (ai os nevoeiros que por aí andam…) não é de grande qualidade, nem tem a dose de nobreza necessária para nos devolver o nosso salvador.
      Paciência.
      O que ele não poderia ter feito pela Pátria?
      E o que seria ela hoje?
      Depois há os “mitos” artísticos, desportivos, literários…
      Todos eles fizeram, ou estiveram à beira de fazer qualquer coisa de grandioso pela Pátria e, como normalmente acontece neste recanto, só após a sua morte o país se ergueu em cânticos de louvor e lágrimas de saudade, enaltecendo-lhes tudo o que fosse qualidade ou virtude, e não se coibindo até de lhes atribuir dotes de visionários ou de seres sobredotados.
      Um exemplo aparentemente inofensivo é o Rei Dom Carlos.
      Barbaramente assassinado à frente do povo tornou-se um mito.
      Outro génio da governação que se perdeu precocemente e impediu Portugal de avançar pelos caminhos da fortuna.
      Pois é…há sempre um azar qualquer, um acaso que, quando tudo parecia bem encaminhado, se atravessa implacável no nosso caminho para a bem aventurança.
      O pior é que só deram por isso depois de o Rei ter sido assassinado.
      Memória curta?
      Então, e os amores de Pedro e Inês?
      Que outra mulher foi e é ainda tão cantada em nome do amor?
      E que importância tem ser o amor clandestino de um Príncipe, depois Rei?
      Bem vistas as coisas não deve ter importância nenhuma. A este respeito basta ver o que vai por esse mundo nos dias de hoje quanto aos amores das mais ilustres figuras das actuais monarquias.
      Das Repúblicas nem vale a pena falar. São Repúblicas e está tudo dito.
      O mais significativo e determinante é o modo como Inês foi barbaramente assassinada.
      Outra vez a desgraça a estragar os planos da grandeza pátria e a servir de mote à explicação do nosso infortúnio.
      Mas tudo isto veio a partir da memória de José Afonso.
      Será que fez ou esteve à beira de fazer algo de grandioso pela Pátria?
      A meu ver não, mas esteve à beira de ser “usado” em nome dela.
      Pertenço a uma geração que cresceu a ouvir, algumas vezes clandestinamente, as suas baladas e cantigas.
      E digo desde já que sempre admirei o génio artístico de José Afonso. A utilização do petit nom Zeca, a pretexto de ser um sinal de proximidade com ele, retira-lhe a dose de respeito que a sua evocação merece.
      Mas é ou não um mito?
      Em minha opinião é, mas no sentido mais positivo que a palavra “mito” pode conter.
      O que julgo ser de realçar em José Afonso, para além do seu lado artístico propriamente dito, é a sua pureza de ideais. Utópicos? Talvez. Mas seguramente convictos e desprovidos de qualquer atitude interesseira, bem ao contrário de alguns que hoje o enaltecem, e de muitos que do seu génio poético e musical se aproveitaram.
      O que se revela em José Afonso é uma permanente atitude de inconformismo e de estar sempre, ou quase sempre, ao contrário do mundo, defendendo uma ideia de liberdade que, vista aos olhos de hoje, não passa de utopia. Mas basta sentir a garra dos textos que cantava para se perceber que era uma utopia em que ele acreditava.

      “A formiga no carreiro ia em sentido contrário…”

      Muitos não irão gostar da comparação mas neste ponto recordo António Gedeão com um verso monumental:

      “sempre que um homem sonha

      O mundo pula e avança…”

      Depois deu-se o caso de “Grândola Vila Morena” ter sido um dos sinais de avanço da chamada “revolução dos cravos”. Tanto bastou para que José Afonso entrasse, ainda que fugazmente, para a ribalta da revolução política.
      Rapidamente ele próprio percebeu que o que se estava a passar pouco ou nada tinha a ver com os seus ideais. E concorde-se ou não com eles, há que enaltecer a coerência, e o progressivo afastamento que foi tendo de um novo grupo de usurpadores do poder que já se perfilava no terreno político.
      Alguns ainda hoje por aí pululam e em vez de lhe elogiarem sobretudo os seus dotes de poeta do povo, usam-no como uma espécie de bandeira política que, atrevo-me a adivinhar, ele nunca quis ser.
      Apesar de tudo a utopia é precisa, e bem vistas as coisas José Afonso foi sempre a criança que segurava entre as mãos a bola colorida de que António Gedeão falava.
      São homens que escrevem assim que merecem ser a grandeza de um “mito”.

      Henrique Dias Pedro

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      Testemunhos
      17/03/2007By AJA

      Zeca Afonso no ‘ai-pode’

      Vivemos no tempo em que os números falam e, desta vez, o que eles dizem é que o disco José Afonso chegou ao número um da tabela nacional de vendas.

      É sabido que os “números um”, como a tradição, já não são o que eram – ainda assim, não deixa de ser uma boa surpresa que o álbum mais vendido em Portugal seja uma antologia do autor de Grândola Vila Morena.

      Nasci em 1974 e talvez por isso esteja mais à vontade para dizer o óbvio sobre a obra de Zeca Afonso: é indispensável retornar uma e outra vez a esta música e a esta voz.

      A música e a voz de Canção de Embalar, Cantigas do Maio, A Morte Saiu à Rua, Senhor Arcanjo. Retornar sempre ou, no caso das novas gerações e dos mais-que-distraídos, escutar pela primeira vez, pela primeira vez arriscar o espanto destas palavras-melodias tão solitárias e tão populares, tão modernas e tão tradicionais, tão revolucionárias e tão de todos.

      Neste canto acha-se a qualidade do que é para lá do tempo sem ser pesadão de “intemporal”.

      O silêncio, a certeza, a ousadia simples e despida destas composições/interpretações.

      É difícil dizer ao certo o que é. Um mistério não matemático, que reage à análise. Uma coisa no centro que segura a emoção, e prende-a, prende-a até ao ponto óptimo. Uma voz que, sempre que acontece, “caem os anjos no alguidar”.

      Ao contrário do que parece ser a opinião dominante sobre o “legado do Zeca”, não vejo vantagem em separar o “génio musical” do “cantor militante”. Antes o oposto, talvez. Nesta época de tantos “jogos criativos” sem espessura nem pensamento, a seriedade do seu caminho – num contexto completamente diferente, já se sabe – deve servir como excelente aviso.

      São canções tão portuguesas, que ouvi–las é como nos ouvirmos ao espelho. Canções em que a “poética” do todo (palavra, música, voz) se organiza com tal justeza e generosidade que cada termo – mesmo os que, fora dali, surgiriam como tristemente “datados” – traz consigo uma hipótese de reinvenção.

      Com Zeca Afonso no “ai-pode”, vê-se melhor a cidade, garanto. Os outros, a diferença, o lado de lá deste mundo.

      Jacinto Lucas Pires
      in Diário online

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      Benedicto Garcia VillarTestemunhos
      07/03/2007By AJA

      HAI VINTE ANOS QUE SE FOI 5/III/07

      Veño de ler na rede unha entrevista con António dos Santos e Silva, que acaba de escribir un libro, que se adviña imprescindible para o mundo “afonsino” e que se titula Zeca Afonso, antes do mito. Compañeiro en Coimbra cando os dous eran estudantes, achéganos aspectos pouco coñecidos do noso amigo, pero en todo coincidentes coa personalidade que tanto admiramos e queremos.

      Fala así daquel home extraordinario como alguén fóra do mundo e adiantado ó seu tempo, perfectamente inútil para as cousas concretas. O Zeca era incapaz de fritir un ovo ou facer unha cama ou guiar un coche. Pero era un ser xeneroso en extremo e cun sentido do humor pouco ou nada habitual no seu país.

      Agora, cando se cumpren vinte anos da súa desaparición física, chéganme as fotos, tremendas, feitas por un entón xovencísimo xornalista, Emanuel Valente, que dan fe do que foi a manifestación popular de dolor, cívica e laica, con ducias de milleiros de persoas ateigando as rúas de Setúbal, camiño do cemiterio.

      Alí estabamos, aquel 24 de febreiro do 87, levando a pesada caixa, cuberta por unha simple bandeira vermella, por desexo expreso da familia, os seus amigos cantores. Turnámonos alí, naquela dolorosa encomenda, Sérgio Godinho, Zé Mário Branco, Quico Pi de la Serra, Xico Fanhais, Luis Cilia e máis eu, ademais doutros amigos, a quen abría paso Manolo Bello, galego-portugués de Lisboa. Diante, a Banda de Grândola tocando o seu himno, no medio dun profundo silencio.

      A súa obra e a súa presenza seguen vivos vinte anos despois

      Benedicto García Villar

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      José FanhaTestemunhos
      05/03/2007By AJA

      Texto de José Fanha

      O ZECA AFONSO

      Foi um grande cantor, um grande músico e, acima de tudo, um grande ser humano que viveu a maior parte da vida durante a ditadura fascista de Salazar e, devido às suas ideias livres, democráticas e populares, foi muitas vezes preso, proibido de ser professor, que era a sua profissão, e proibido de cantar, que era a sua paixão.
      Apesar de tudo, o Zeca não se deixava ir abaixo. Misturava as suas palavras e as suas melodias com as palavras e as melodias do povo, para compor cantigas de uma grande originalidade. E era com essas cantigas que andava pelo país fora a juntar pessoas e a dizer-lhes que era possível ser feliz e era possível acabar com a ditadura e viver numa terra livre, alegre, sem prisões e sem guerra.
      Tinha 18 anos quando conheci o Zeca. Eu escrevia e dizia poemas e juntei-me a ele e a outros que faziam da poesia e da canção uma forma de resistir à ditadura, à repressão e à infâmia que é uma palavra que quer dizer falta de honra, que era o que faltava a todos os que seguiam a ditadura do Salazar.
      Como se não bastasse, o Zeca era mais que tudo isto. Era um homem bom, de espinha direita, sempre desejoso de saber e de aprender com todos. Queria saber notícias de outras paragens, dos homens que sofriam em África, na América do Sul, no Brasil e noutros países, mesmo nos mais longínquos. Lia e estudava permanentemente para saber mais e poder ensinar melhor, porque ele gostava muito de ensinar mesmo depois que a ditadura o tivesse proibido de ser professor.
      Fazia amigos em toda a parte e à sua volta juntava-se sempre muita gente, músicos, poetas, artistas. Onde o Zeca estava havia sempre uma porta aberta, uma mesa posta e um canto para quem quisesse descansar.
      Era assim o Zeca e ainda hoje as suas canções fazem parte da minha vida e da vida dos muitos homens, jovens e meninos que encontram na sua poesia e na sua música um alento para tentar tornar o mundo num lugar mais feliz para todos.
      José Fanha
      Fevereiro 2007
      20 anos depois da morte do Zeca Afonso
      Escrito a pedido do jornal de uma Escola do Cacém.

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      Testemunhos
      04/03/2007By AJA

      Testemunho de Teresa Portugal

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      ImprensaTestemunhos
      28/02/2007By AJA

      “Pai, o Zeca morreu esta noite”


      Extracto de uma página do Público de 26-2-2007, sobre o Encontro na Livraria Almedina Estádio. Tem o título “Pai, o Zeca morreu esta noite” e sub-título “Para os mais velhos, os que em 1974 eram adultos, o dia em que o Zeca Afonso morreu é um dia preciso. Lembram-se onde estavam e como souberam da notícia. Hoje, já se conseguem rir”. Texto de Maria João Lopes.

      Retirado de http://guitarradecoimbra.blogspot.com/

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      Testemunhos
      28/02/2007By AJA

      Somos nós os teus cantores

      -O Zeca Morreu! – Foram as palavras que meu pai, apoiado na janela, disse como num desabafo. Eu apenas sabia que o Zeca que só mais tarde se me mostrou José Afonso era uma voz saída do aparelho de música todos os sábados de manha e um incomodo um quase descontentamento se me dava caso não a ouvia. No despontar de minha infância o Zeca era aquele cantor que fazia os olhos de meu pai olharem longe, alcançando horizontes que ainda não compreendia. Por isso aquela noticia se anunciou estranha, era como se por algum motivo o disco não mais fosse girar e aquela cantiga tão bela não mais soasse. – Foi o nosso cantor! – Foi a única frase soluçante que até hoje ouvi de meu pai, que laconicamente deslocou a agulha encontrando o disco em movimento. Maio maduro Maio quem te pintou, quem te quebrou o encanto nunca te amou…num gesto quase de imitação sentei-me a janela olhando o horizonte e imaginando que o Zeca era o meu cantor, que naquele momento apenas eu e meu pai o ouviam. O horizonte tão quotidiano como que se pintou e eu via lá longe uma falua que vinha lá de Istambul, e Maio para mim, que nem sabia de cor os meses do ano, passou a ser o melhor deles todos. -Quem foi o Zeca pai? – Meu pai reclinado na cadeira parecia já adivinhar a pergunta – O Zeca foi o maior cantor e compositor português, foi poeta, usou a musica como arma politica, lutou contra o fascismo…foi o nosso cantor. Foi então que me lembrei das discussões dos domingos a noite em que eu deitado provocando o gato ouvia falar de uma tal Revolução, palavra a qual não sabia o significado mas achava bonita.Cresci ouvindo Zeca, todos os dias primaveris abrindo as janelas punha o disco “Venham mais cinco” ou “Com as minhas tamanquinhas” continuando a achar que o Zeca era o meu cantor e em segredo ia apontando letras das quais palavras saltavam enigmáticas de minha imaginação. Um dia já mais velho passei numa loja e vi a um canto um CD com uma mão na capa, era do Zeca, comprei-o e trazia com um disco um livrinho que tinha fotos, fotos do Zeca. Um homem meio despenteado com olhos semi-serrados por detrás de uns grandes óculos que a força da imaginação tentava endireitar. Durante muito anos rejeitei aquelas fotos; para mim aquela voz profunda e bela que ouvia nas canções não tinha um rosto próprio, talvez um vago perfil de um homem encostado a janela. José Afonso, para mim sempre Zeca, morreu à 20 anos, tempo em que deixou de ser apenas o meu cantor, passou a ser a voz de Abril, um cantor sem igual que nos brindou com a mestria de suas composições acompanhadas com a firmeza de seu carácter. Mais do que cantor, sua obra se transcende na mensagem de inconformismo caiada de rebeldia poética e concisa. Ainda hoje olho o horizonte que a 20 anos o Zeca transformou e sinto que não morreu, vive hoje e sempre na obra e em sua imagem inalterável. É tempo de se ouvir Zeca Afonso, ouvi-lo em casa, nas escolas e universidades, nas rádios e televisões, ouvi-lo sobretudo em nossa tão íntima realidade pois hoje somos nós os teus cantores!

      Adriano Campos

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      ImprensaTestemunhos
      27/02/2007By admin-aja

      “Pai, o Zeca morreu esta noite”

      Para os mais velhos, os que em 1974 eram adultos, o dia em que Zeca Afonso morreu é um dia preciso. Lembram-se onde estavam e como souberam da notícia. Hoje, já se conseguem rir

      a Apesar de ter sido amigo de Zeca Afonso, de terem frequentado a mesma tertúlia em Coimbra, cidade que o músico dizia ser um “caramujo” (“para onde quer que se vá, vai-se sempre ter à torre da universidade”), Abílio Hernandez (acima dos 60), professor da universidade, hesitou muito antes de aceitar o convite da Almedina Estádio – a livraria foi das poucas, se não a única, a organizar em Coimbra uma homenagem a Zeca Afonso nos 20 anos da sua morte (23 de Fevereiro de 1987).E Hernandez hesitou porque “tinha receio que estivesse muito pouca gente, que estivessem só velhos, e que fosse uma romagem de saudade”. Mas esteve muita gente na livraria de Coimbra, no sábado à noite. Jovens, de facto, apenas alguns.
      Os jovens não ouvem Zeca Afonso? “É um cantautor muito conotado e é isso que faz com que não passe nas rádios. O Zeca é objectivamente censurado, apesar de hoje vivermos em liberdade”, diz José Jorge Letria (56 anos), também amigo de Zeca Afonso. Mas o músico acredita que os jovens “já se libertaram desse estigma”.
      Para a geração que dominou a tertúlia de sábado, a geração que viveu o 25 de Abril já adulta, Zeca Afonso é uma das figuras artísticas mais importantes do século XX em Portugal. “Está para a música portuguesa como Jobim está para a brasileira”, diz Rui Pato (61), músico que tocou com Zeca Afonso.
      Sentados à mesa, a desfiar memórias, a maior parte das vezes humorísticas, estiveram outros músicos que acompanharam Zeca, como Carlos Correia (também acima dos 60), figuras da resistência que actuaram com ele, como Manuel Freire (65 anos) e José Jorge Letria, e antigos estudantes de Coimbra que também conheceram Zeca, como José Mesquita (mais de 70 anos) e Abílio Hernandez.
      Carruagem 3, lugar 7
      Boa disposição não faltou. Falou-se do amor de Zeca Afonso ao judo e de como “estatelava” colegas no chão. “O Zeca era uma pessoa muito divertida. Tinha muitas obsessões. Uma delas era o judo, já era um perigoso cinturão amarelo. Quando fomos a Londres, o Zeca fazia os ensaios de judo no corredor do hotel vitoriano. As outras obsessões eram a música e a luta contra a ditadura”, contou Carlos Correia.
      Rui Pato confidenciou à plateia como eram feitos os primeiros discos de Zeca Afonso: “Se eu vos disser, não acreditam. Vinha uma 4L com material do Porto. Levávamos uma carta dos senhorios para os caseiros analfabetos lerem, com autorização para gravar na quinta [a quinta do Mosteiro de S. Jorge de Milreu, actualmente propriedade da Universidade Vasco da Gama]. Estávamos em 1962 e, quando nos enganávamos, voltávamos ao princípio. Se passasse um carro, se se ouvisse uma galinha, voltava tudo ao início”. Durante muito tempo viajou “de borla” nos comboios de Portugal. Recebia postais de Zeca Afonso a combinar a hora, o dia e o sítio do ensaio. “Trate de preparar os dedos”, escrevia-lhe Zeca. Rui Pato levava sempre a viola, mesmo que não precisasse dela. “Punha-me na estação e vinha um senhor ter comigo e perguntava-me: “É o camarada Rui Pato? Carruagem 3, lugar 7.” E lá ia eu.” No meio de tudo isto, Rui Pato nem se apercebeu que estava a viver “um momento histórico da música portuguesa”.
      A plateia riu quase sempre. Só quando se ouviu Menina dos olhos tristes se fez silêncio. Quando se começaram a ouvir os acordes do último espectáculo de Zeca Afonso na Queima das Fitas de Coimbra, em 1968, a sala mergulhou em tristeza. A gravação foi disponibilizada por José Mesquita, que sublinhou a importância de Zeca Afonso no fado de Coimbra.
      “O Zeca era um grande poeta, indiscutivelmente”, defende Abílio Hernandez. “Era bom que se estudasse a poesia do Zeca, porque a sua lírica tem sido menosprezada, como se fosse apenas um veículo para transmitir um sentimento de resistência, que está na sua música. Mas o Zeca foi as duas coisas: músico e poeta.”
      Contou Manuel Freire que, um dia, quando vinha do Canadá, encontrou o escritor Mário Zambujal e o músico Paulo de Carvalho no avião e perguntou-lhes por Zeca Afonso. Zambujal lamentou: “Acho que não se safa.” Manuel Freire tinha tido um acidente grave e, como a viagem fora atribulada e o avião desviado para Faro, mal pôde ligou à família para dizer que estava bem. Do outro lado, a filha mais velha respondeu apenas: “Pai, o Zeca morreu esta noite.” Passados 20 anos, os amigos do músico acreditam que a “memória do Zeca” se vai projectar sempre “no futuro”.

      Maria João Lopes, in Jornal Público, 26.2.2017

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      TestemunhosVídeo
      23/02/2007By AJA

      Zeca Afonso – Memórias de um artista cidadão

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      ImprensaTestemunhos
      22/02/2007By AJA

      Um amigo, também | SIC online

      Esta sexta-feira, dia 23, completam-se 20 anos sobre o desaparecimento de Zeca Afonso. Porque o cantor vive. A sua música não deixa de nos acompanhar; vive porque a data vai assinalar-se em todo o país, com um sem número de eventos e espectáculos. Zeca Afonso, figura marcante da música portuguesa foi também um homem de dúvidas, de perguntas e intervenções.

      Não admira que Portugal celebre Zeca quando passam 20 anos sobre a sua morte. Portugal celebra Zeca sempre que há um motivo para falar dele, e este número redondo que agora passa é uma excelente oportunidade para lembrar e reviver as facetas e a música do cantor de intervenção. O sobrinho do presidente da Câmara Municipal de Belmonte viveu a norte as mais profundas raízes do Salazarismo, e cedo se revoltou contra o “ismo” que ensombraria o país durante quase meio século. Antes, já Zeca tinha vivido entre Aveiro e Lourenço Marques, mas também em Angola. Nada foi pior do que o ano em que vestiu a farda da Mocidade Portuguesa, disse um dia. Por causa do tio – admirador de Salazar, de Franco e de Hitler. Nos anos 40 rumou a Coimbra; consigo levou o canto. Inicia-se nas serenatas e não falta às festas da aldeia. O fado de Coimbra faz também parte de um repertório rico e cantado com garra. ‘Baladas de Coimbra’ é o primeiro disco que grava. Zeca Afonso não temeu nada nem ninguém, e enfrentou uma época conturbada com a guitarra na mão. É com a música que responde aos problemas… Detido pela PIDE, expulso da escola onde dava aulas, preso em Moçambique por ser anticolonialista. A actividade política causa-lhe tantos transtornos que o nome Zeca Afonso começa a ler-se, na imprensa, de trás para a frente, num anagrama que esconde a verdadeira identidade do cantor de intervenção. O esforço vale a pena. ‘Grândola Vila Morena’ fica imortalizada no 25 de Abril de 1974, e Zeca arrecada prémios com baladas e canções. Recusa outros. Como o da Ordem da Liberdade, a mesma que ele procura mas que não aceita como gratificação. O fim dos anos 70 faz-se a cantar, já com o apoio a Otelo para a Presidência da República, mas os anos trazem-lhe a doença que viria a ser fatal. Cada vez mais doente, Zeca vai deixando de se ouvir, e os últimos concertos que dá são em 1983, nos Coliseus de Lisboa e do Porto. Talvez Zeca fosse menos ídolo se não tivesse aliado à música a intervenção política. Talvez. Mas o conteúdo dos seus temas é, em si mesmo, uma resposta, uma pergunta, um clamor para chegar a todos. Uns se zangam, outros reganham ânimo. Vinte anos após a fatalidade, as músicas são repetidas e não deixamos de querer ouvi-lo. Rotularam-no com o epíteto de comunista, e em nome disso o depreciaram. Raros serão, contudo, os que lhe negam competência na História e Música que (nos) fez escutar. Da ‘Balada de Outono’ às ‘Galinhas do Mato’, eis um José Afonso presente, activo e com muito para dizer a cantar. Voz melodiosa e dicção perfeita, marca os ritmos com um tom impossível de copiar. Passam 20 anos sobre a música e o canto de José Afonso, tornado lenda como as que ele próprio imortalizou em verso e timbre. Venham mais cinco ou mais 10, os anos que forem precisos. Zeca não foi efémero. Por isso se tornou imortal.

      Graça Costa Pereira
      Editora de Cultura
      opiniao@sic.pt

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      Testemunhos
      21/02/2007By AJA

      A sessão no Luso com José Afonso

      “A noite estava fresca e escura, sem lua que se visse sobre os telhados, mal iluminada pelos pontos de luz fracos e parcamente disseminados. Na rua não havia qualquer movimento especial, como não havia nas escadas dando acesso ao vestíbulo da sede do simpático clube do Barreiro velho. A dúvida tomava conta do espírito, já de si inquieto, do jovem estudante que tivera aulas em Lisboa até tarde: «E se não fosse fidedigna a informação surgida por via familiar e rodeada do secretismo próprio do tempo?»: Vai haver uma sessão de baladas no Luso com o José Afonso!… transmitira, em jeito de confidência, o primo Caria.”
      “— Quando? — antecipara-se o jovem aos restantes inter-locutores receosos.
      — Nos princípios de Novembro, telefonou o Zé bicas…
      — Se fora parente distinto, então a informação era digna crédito, só faltava apurar a data.
      A angústia momentânea fazia tolher os passos, ainda no corredor, onde se situavam os balneários. Não se via ninguém, a porta ao fundo estava encostada, a dúvida já dilacerava: «Se calhar não era hoje? Ou então foi cancelada!…»
      Empurrada devagarinho, a porta do salão abriu-se, enquanto o coração batia descompassado de dúvida e esperança, para logo pular de alegria e emoção, o salão estava literalmente cheio, talvez 300-400 pessoas.
      A sessão já tinha começado, no palco uma viola (Rui Pato) acompanhava uma voz feminina terna e timbrada (Teresa Paula Brito), num blue ou algo do género (Summertime). O calor das palmas revelava o entusiasmo dos presentes, algumas caras conhecidas, poucos jovens da zona (faltava esclarecimento e mobilização entre a malta).
      A seguir a poesia dita com muita alma (Odete Santos e a Marcha Almandenim) e uma explicação para a não participação do Adriano Correia de Oliveira, também presente: «Estava na tropa e não lhe era permitido cantar.» Assobio, alguém ensaia um grito isolado: «Abaixo a guerra!», sem seguidores. No fim acabaria por cantar em coro, mas naquele momento segurava os papéis com as letras que o memorável Zeca Afonso começava a cantar.
      Por cada intervenção a sala explodia em aplausos e gritos. Para além dos méritos do cantor, algo mais ali se celebrava, era Portugal amordaçado abrindo o grito de protesto contra a tirania, pela voz do poeta que melhor fazia a sua denúncia. A poesia generosa e revolucionária despertava a vontade de participar no combate à repressão que prendia e torturava a resistência à ditadura. Como de resto neste caso também iria acontecer.
      Na plateia um novo grito se juntava, cada vez com mais insistência, conforme o poeta-cantor avançava na noite. Tanto podia ser interpretado como uma acusação, como um pedido:
      — Vampiros! Vampiros!
      Alguém da organização (Álvaro Monteiro) explicava no palco ser aquela uma sessão comemorativa de um aniversário (Cine-Clube do Barreiro), devendo-se evitar complicações. A resposta da plateia foi eloquente, gritando com mais força ainda:
      — Vampiros! Vampiros! Vampiros!
      Um assistente perto da porta, com ar de quem tinha vindo de longe, comentava judiciosamente:
      — A canção está proibida! É um risco desnecessário cantá -la Não insistam!
      Ouvindo o reparo contrariador, mais vozes se juntaram ao imenso coro e o poeta cantou, com centenas de gargantas embargadas de emoção:
      Se alguém se engana com seu ar sisudo, E lhes franqueia as portas à chegada, Eles comem tudo, eles comem tudo! Eles comem tudo e não deixam nada!
      Se há acontecimentos que marcam uma geração, a sessão de Canto e Poesia, promovida no dia 11 de Novembro de 1967, pela direcção do Cine -Clube do Barreiro, em colaboração com o Luso Futebol Clube, ficará para sempre gravada no coração dos barreirenses. Dos que estiveram presentes, como daqueles que depois ouviram contar, se é que é possível transmitir a emoção até às lágrimas duma noite inesquecível.”
      Armando Sousa Teixeira
      Texto: do livro “A Industria e a Luta em Desenvolvimento”
      Barreiro, Uma Historia de Trabalho Resistência e Luta

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      TestemunhosViriato Teles
      19/02/2007By AJA

      Vinte anos sempre com Zeca

      Duas décadas já se passaram sobre o desaparecimento físico de José Afonso, e no entanto parece que foi ontem. Apesar disso, desde essa triste madrugada de Fevereiro de 1987, o mundo mudou como nenhum de nós podia então imaginar que mudasse. Desde o fim da União Soviética – que, nessa altura, quase todos nós ainda acreditávamos ser eterna ou, pelo menos, muito duradoura – até à unipolarização dos dias de hoje e à consequente submissão do mundo à vontade imperial da superpotência sobejante, tudo se tornou bem diferente do que poderia supor-se vinte anos atrás.Vinte anos é a idade de uma geração. E a geração desta idade, afundada em incertezas e com muito menos esperanças do que as que a antecederam, dificilmente consegue vislumbrar uma qualquer «cidade sem muros nem ameias» onde o presente e o futuro façam sentido. Não é uma geração rasca, mas é sem dúvida uma geração à rasca, afogada no quotidiano globalizado do consumo e da precariedade.O mundo mudou imenso, de facto, nestes vinte anos. Mas não tanto que tenha feito com que as canções de José Afonso ficassem fora de moda ou se tornassem meros documentos de um tempo passado. E não só porque universalidade e intemporalidade são duas características centrais de toda a obra de Zeca – as suas músicas de há quarenta anos mantém hoje a mesma frescura e a mesma modernidade que tinham quando foram escritas – mas porque a vida real se encarregou de negar todos os sonhos que, num dia de Abril, chegámos a acreditar que estavam prestes a concretizar-se. Trinta anos depois do «dia inicial», os vampiros e os eunucos voltaram a estar activos e dominantes. E se hoje não temos (ainda) um outro avô cavernoso a comandar as nossas vidas, é só porque a mãe Europa não deixa. A verdade é que muitos dos pressupostos políticos e sociais que ditaram a criação de tantas canções do Zeca voltaram a instalar-se no nosso quotidiano. E também por isso estas palavras permanecem tão dolorosamente actuais.Mas não é por isso – não só por isso – que estas canções se mantêm dentro do prazo de validade. A verdade é que todas elas possuem essa qualidade única que distingue os grandes mestres dos criadores vulgares: a capacidade de resistir ao tempo e de o ultrapassar. Re-ouvindo hoje o legado de José Afonso, dificilmente encontramos os chamados temas «datados». E no entanto eles existem (sobretudo nos discos da segunda metade da década de 70, muito marcados pelas lutas do período revolucionário), mas as marcas temporais das situações concretas que lhes deram origem não chegam para fazer com que, actualmente, essas músicas percam o interesse ou se nos apresentem como meros documentos testemunhais de uma época.Pelo contrário: as canções de Zeca, mesmo aquelas que reflectem e retratam determinados episódios ou momentos históricos específicos, conseguem sempre ter uma dimensão musical e poética que não se confina nunca ao seu próprio tempo. Desde «A Morte Saiu à Rua» até ao mobilizador «Coro da Primavera», todas elas foram capazes de resistir ao grande juízo do tempo e se nos apresentam hoje como obras tão ou mais modernas do que muitas produções dos nossos dias. E a prova está na quantidade de jovens músicos que continuam a ter em Zeca uma referência essencial.É tudo isto que esta exposição também nos recorda, a par com a evocação de uma vida ímpar de um ser humano excepcional, política e socialmente comprometido com os mais nobres ideais. A tudo isto acresce o facto de se tratar de uma iniciativa com a marca de uma instituição que fez história e ocupa um lugar de destaque no universo cultural português: o MC-Mundo da Canção, que desde há quase 40 anos tem desempenhado um papel central na divulgação da melhor música que se faz em Portugal e no Mundo. Tal como o Zeca – que, vinte anos depois, teima em permanecer vivo através das palavras e da música que hoje são património de todos nós – também o MC se recusa a morrer e promete continuar. De pé, enfrentando todas as adversidades, disposto a resistir, sempre. Ou, pelo menos, enquanto há força.

      Viriato Teles

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      Helena LangrouvaTestemunhos
      17/02/2007By AJA

      Nos 20 anos da partida de Zeca Afonso, por Helena Langrouva

      Um trabalho antigo a refundir e um projecto avançado, a aguardar apoio. No próximo dia 23 de Fevereiro passam vinte anos sobre a morte de Zeca Afonso. Parece que o tempo tem contribuído para guardar a sua memória. Porque não está esquecido, nos jornais, nos meios de comunicação social, nas sessões de homenagem.

      Quando, em 1978-1979, eu preparava, na Universidade de Paris III – La Sorbonne Nouvelle – a minha pós-graduação – D.E.A – em Estudos Portugueses e Brasileiros- opção Literaturas, no qual se estudava, com o prestigiado Professor Raymond Cantel, literatura de cordel brasileira e poesia popular brasileira, propus fazer uma sessão de seminário sobre a poesia cantada do cantautor José Afonso. Fiz um trabalho de pesquisa e reflexão sobre a obra de José Afonso que não chegou a ser publicado nem em francês nem em português nessa época. Já me foi pedido recentemente que refundisse e actualizasse o texto para ser publicado nas duas línguas. Os inúmeros compromissos que me têm ocupado nestes últimos anos em que, trabalhando sempre sozinha, publiquei finalmente quatro dos meus livros – que reúnem trabalho de uma vida – e trabalhei durante um ano para o volume de Homenagem ao Professor Luís de Sousa Rebelo- Humanismo para o nosso Tempo, não me foi possível tirar uns meses para refundir e actualizar esse meu trabalho sobre José Afonso. Espero fazê-lo ao longo deste ano, depois de concluir entretanto outros compromissos que ainda me esperam.

      Entretanto, em 2000, elaborei todo um projecto diferente sobre José Afonso que foi reelaborado e refundido em 2005-2006, para o qual tive, em 2006, o apoio do Prof. Mário Vieira de Carvalho, Secretário de Estado da Cultura. O projecto não foi para a frente em 2006 – era para sair em 2007, nos vinte anos da morte de José Afonso – por falta de subsídios e porque os músicos que convidei para trabalhar comigo exigiam ser muito bem pagos. Tenho esperança de conseguir, através de uma Associação que me apoie, a aquisição de fundos para que tão belo projecto se realize.

      Procurei conhecer José Afonso para me ajudar no meu trabalho sobre a sua obra. Eu vivia no estrangeiro e vinha passar férias a Sintra. Então lembro-me de um amigo o acompanhar um dia, no verão de 1978, a Sintra, para nos encontrarmos e falarmos sobre a sua obra. Já a sua saúde começava a ficar debilitada, mas a chama da sua alma do maior génio da música popular portuguesa espraiava o seu fulgor até ao fim, em encontros que se prolongaram durante alguns anos. Esses encontros cimentaram a procura de entendimento da sua obra e contribuíram inesperadamente também para eu ser por ele reconhecida como a pessoa diferente de todas as que o rodeavam – “amiga súbita e diferente”, escreveu na dedicatória de um dos livros das suas canções, então editado por Viale Moutinho. Diferente, penso eu – nunca lhe perguntei a razão – porque estava apenas comprometida comigo própria a tentar entender a sua obra para também a transmitir nas minhas aulas, no tempo em que fui leitora na universidade de Rouen, França, e para escrever o melhor possível o meu estudo.

      De regresso a Portugal, eu morava em Colares – Sintra e, ao tentar experimentar todos os graus de ensino, concorri para ser professora de Português e História do então Ciclo Preparatório, na escola Sarrazola, Colares. Para grande surpresa dos meus colegas, uma boa parte das minhas aulas de português, para crianças e jovens adolescentes do ciclo preparatório era o estudo, seguido de canto em coro de canções de Zeca Afonso que ecoavam pelos corredores da Escola. Não me livrei de comentários, porque as pessoas não entendiam por que razão eu tomava esta liberdade. Não raro os alunos diziam no início de cada aula: “Então, stora, qual é a canção para hoje?” E deliciavam-se com a beleza e o sentido profundo das palavras, as melodias a que eram tão permeáveis.

      No fim do ano escolar de 82-83, a escola Sarrazola de Colares organizou uma festa no espaço de uma antiga colónia de férias que pertencia então à Quimigal, perto de Almoçageme. Como os ouvidos de toda a gente já se tinham habituado às canções de Zeca Afonso, cantadas em coro pelos meus alunos, pensei que o melhor seria levar folhas para distribuir pelas cerca de quinhentas pessoas entre alunos, professores e funcionários da escola, para a nossa festa. Os meus alunos acharam que era uma excelente ideia. Então eles constituíram-se em vários núcleos espaçados no meio de todos os outros e distribuíram as folhas com as canções de Zeca Afonso, por colegas, professores e funcionários. Para grande alegria e surpresa nossa conseguimos – os meus alunos e eu – pôr toda a escola Sarrazola de Colares a cantar em coro canções de Zeca Afonso. Ele também recebeu esse documento que foi distribuído na festa e soube com muito agrado deste acontecimento que em princípio terá sido único, pelo menos até àquela data, em Portugal. Para mim foi uma experiência extraordinária pôr toda uma escola a cantar.

      Estudei canto popular, canto litúrgico, canto gregoriano e canto lírico muito a fundo, ao longo da vida, lutei com muitas dificuldades, tudo à minha custa, com muitas vicissitudes para arranjar acompanhadores, mas nunca desisti, participei em concertos. Em França, os meus amigos gravaram muito do que eu cantava a solo.

      O meu maior respeito pela presença única de José Afonso como cantor e autor levou-me a não lhe dizer que eu também cantava. Limitei-me a ouvir o que ele dizia já para o fim da sua vida, quando, para o seu último disco- Galinhas do Mato- convidou cantores e cantoras para cantarem algumas das canções que ele já não podia cantar. E ele dizia, a propósito de uma canção cantada por Helena Vieira: “Afinal escrevo canções que dão para todo o tipo de vozes, até de pessoas, como a Helena Vieira, que cultivam o canto lírico clássico”. Esse foi um dos discretos desafios, entre muitos outros que Zeca Afonso me deixou para sempre.

      Espero que os meus dois projectos sobre José Afonso avancem e possam sair até finais deste ano de 2007 ou mais tarde, se for possível e se conseguir apoio financeiro, através de uma Associação que me ajude para este fim. Fica aqui o apelo.

      Helena Santos C. Langrouva (14.02.2007).

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      Testemunhos
      11/02/2007By AJA

      “O filho do povo, com nobreza e com modernidade”

      Depoimento de Eduardo Luís Cortesão a JC Pereira

      Em 1988 – um ano após Zeca Afonso ter partido, em viagem, para o outro lado da terra (expressão que, semanticamente, parece representar a palavra “utopia”) –, tive a grata oportunidade de entrevistar para um programa da Rádio Felgueiras uma outra figura proeminente do reportório nacional, Eduardo Luís Cortesão, professor catedrático de Psiquiatria, psicanalista, falecido em 1991, e que muito se notabilizou por ter fundado, em 1958, e desenvolvido o Grupo de Estudos de Grupanálise em Portugal.
      Na altura, Eduardo Luís Cortesão pertencia a um dos órgãos sociais da AJA, sendo João Afonso dos Santos o presidente da direcção. Obviamente, o programa de rádio, de duas horas, foi inteiramente dedicado ao estudo sobre a vida e a obra do Zeca.
      Decorridos dezanove anos após essa entrevista, considero que o seu conteúdo e a sua essencial mensagem se mantêm, praticamente, actuais. Eis um excerto da mesma:

      RF – Senhor Professor, o que pensa sobre a vida e a obra de José Afonso?
      Eduardo Luís Cortesão – Penso que na história de um país é importante que haja figuras que possam merecer o nosso respeito e que sejam alvo da nossa estima. José Afonso é uma figura histórica do património artístico do nosso povo, porque José Afonso foi um homem com coragem, foi um homem que lutou, foi um homem bom, foi um homem que soube amar, foi um artista e um poeta excepcional.
      A mensagem de José Afonso tem sido deliberadamente esquecida e reprimida e não publicada e asfixiada e ofuscada pelos poderes políticos que estão neste país. Isso constitui, para mim, um crime grave, visto que os nossos jovens, a nossa juventude, as mulheres e os homens deste país necessitavam de saber mais pormenores do que foi a vida, do que foi a coragem desse grande português.

      RF – Poder-se-á dizer que José Afonso, comportando-se à maneira de uma criança feliz num bairro de lata, era filho do Maio de 68 e pai, juntamente com outros, de Abril de 74. Concorda comigo, senhor Professor?
      Eduardo Luís Cortesão – Eu concordo consigo. Mas creio que José Afonso tem dentro dele as raízes e a herança de Viriato, de Afonso Henriques, de todos os lutadores (…). Ele representa algo, que é o filho do povo com nobreza e com modernidade. Isto é muito importante, porque, neste momento, é que no nosso país se pretende falar de modernidade, o país, os homens e as mulheres não estão correctos, estão envelhecendo, estão caquécticos de estupidificação. E José Afonso foi um homem da modernidade, foi um homem que lutou, louvou e defendeu aquilo que é actual mas sempre em relação com o passado e numa perspectiva futura.
      (…) Eu conheci José Afonso e convivi com ele muito intimamente durante um período curto de tempo e não tenho qualquer dúvida que o que se justificava neste momento é que se fizesse um filme sobre a vida de José Afonso, um filme sobre a sua mensagem. Porque nós, portugueses, neste momento somos um país triste; somos um país pobre de ideias; somos um país de indivíduos cinzentos, que se levantam tristemente, que rancorosamente labutam pelo seu pão, que fazem negócios doidos. Nós, neste momento, somos um país sem poesia, sem beleza, e José Afonso devia ser evocado, porque foi num outro período histórico de Portugal, em que se viveu, realmente, a escuridão, a estupidificação e o abandono, que ele apareceu e deu alma e esperança a muito de nós.

      RF – O que podemos fazer por Abril?
      Eduardo Luís Cortesão – (…) Falar com pessoas que sejam jovens como você, falar com jovens como eu, que não desesperamos, não somos pessimistas e continuamos a alertar para aquilo que há de belo e que há de positivo na nossa cultura. (…) Nós não devemos desesperar, não devemos desistir, ainda que, neste momento, já não tenhamos o Zeca Afonso para cantar connosco que é preciso “avisar a malta”. É, talvez, necessário que façamos algo semelhante: que continuemos aquela mensagem tão pura, tão nobre, tão viril, tão corajosa, que esse grande amigo, esse grande português nos deixou.

      José Carlos Pereira

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      MirandêsTestemunhos
      05/02/2007By AJA

      Canta, que naide t’afronta

      Artigo de Amadeu Ferreira em Mirandês



      Miu armano, arrimado a dous anhos apuis de haber ido a salto, bieno de França ende por 1968. Stá eiqui stá a fazer quarenta anhos. Era un tiempo an que ls suonhos se dezien an francés i l mais grande einfierno se chamaba Guerra de l Oultramar, que solo algo apuis daprendi que era ua guerra quelonial. Quien stubira fuora i nun benisse a apersentar-se pa la guerra era dado cumo zertor i lhougo preso s’atentasse a poner pie na sue tierra. Stranha pátria que ampuntaba ls sous filhos pul mundo a saber de la bida i los oubrigaba a benir para s’antregáren a ua guerra que naide antendie para que serbie i de que se scapaba quien podie. Un tiempo de bergonha, assi me lhembro del.
      Bieno miu armano, i todo quanto trouxo cun el de França fui ua bicicleta de mudanças, un giradiscos i arrimado a ua dúzia de discos. Agosto corrie, marralheiro, yá cula trilha feita, i sobraba l tiempo para oubir aqueilhas modas a que ls mius oubidos nunca habien podido chegar. Nien sei cumo l disco nun se gastou d’oubir tanta beç «Os Vampiros», «Menino do Bairro Negro» i «No lago do Breu», modas dun tal José Afonso, de que nunca oubira falar. Un die, l disco scachou-se, mas las músicas yá las habie grabado de las cantar tanta beç. Assi i todo, solo le tornei a oubir la boç yá an 1972, nua Bergança que abafaba. Un amigo habie arranjado un disco chamado «Cantigas do Maio»: habie que oubir a las scundidas, l sonido baixico para que nun chegara a la rue. Apuis, apuis fui até siempre, inda agora cumpanhie, nunca cansada, de las lhargas biaijes de Lisboa a Sendin i a Bila Rial.
      Anquanto asperaba oubir la Grândola Vila Morena, na madrugaga de 25 de Abril de 1974, ne l Depósito Geral de Adidos, tenie un nuolo tan fuorte que nun sabie an que parte de l cuorpo se me habie dado. Apuis, fui un arrebento, cumo ua nuite de foguetes de lhágrimas, cumo se aquel que «Era um Redondo Vocábulo», argolha dua cadena, se houbira spartiçado. Solo apuis dessa nuoba era lo oubi cantar algues bezes de biba boç i fui coincendo toda la sue música por uns lhados i por outros, yá que nien denheiro tenie para giradiscos i essas cousas. Tube inda que asperar muito anho para ajuntar la coleçon de las sues músicas, que cuntino a oubir nua ruodra que bai demudando.
      Cun el tamien daprendi a dar balor a modas que oubie zde pequeinho, anque an mirandés, cumo aquel «Dius te guarde Rosa, / Lindo Çarafin, / Linda pastorica, / Que fazes eiqui?». I doutras nun falo, que gusto mais de oubir i, al mesmo tiempo que oubo, ir bendo ls cinemas an que ls sonidos se zróban andrento. Nun sei porquei, mas hai palabras, hai sonidos que se buolben quelobrinas de cada beç que las oubo. Nun adelantra ua pessona querer antender essas cousas, bonda oubir. I pensar, mais ua beç, que ciertas pessonas nunca se habien de morrer.
      Un die, bai a fazer binte anhos este Febreiro, staba a oubir l telejornal i pónen aqueilha moda d’Outonho que manda calhar fuontes i chorar ribeiras i todo, «que eu não volto a cantar». Tamien ende you le pedi algue auga a las ribeiras i me calhei cumo las fuontes. Era 1986 i la mie bida staba a dar un bolco cumo ua campana, nun fuolego que inda mal daba seinhas d’agarrar un nuobo baláncio. Nun me dou la gana d’ir al antierro, para quedar cula eilusion de que nun se habie muorto i nun deixara de ser l que siempre fura, ua ambuça de sonidos que se sórben. Até hoije el cuntina-me a cantar, siempre cumo se fura la purmeira beç. Quando oubo las sues modas, mais do que de José Afonso, lhembra-se-me de mi. Ye ua música que m’ampurra acontra mi, zde aquel Agosto marralheiro de 1968. Nó cun suidades, mas cun gana de hoije, i de cuntinar a sonhar cun ua tierra de fraternidade. Cun música que faga bolar, nien que seia solo a cachicos, que ye un modo de un nun se sabarrar tanto ne ls tropieços de l camino.

      4 de Fevereiro de 2007amadeuf@gmail.com

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      Adelino GomesTestemunhos
      27/12/2006By AJA

      Porto de Lisboa, 1967 – Adelino Gomes

      Olhou-me surpreendido, quan­do, gravador ao peito, lhe pe­di uma entrevista. “Porquê?
      Para quê? Deixei-me dessas coisas”. Ia e vinha, naquele jeito desengonçado de andar. Apontava as malas aos baga­geiros, à polícia de fronteira, nervoso. Fiquei por ali, esquecido, eu próprio a sentir-me guarda fiscal também, no porto de Lisboa (Cais da Rocha? AI­cântara?, a memória retém apenas um balcão comprido num vasto recinto de tectos altos). “O Zeca Afonso regressa amanhã de Moçambique, vais fazer-lhe uma entrevista ao barco”; disseram-me na véspera – estávamos em Setembro – não sei se o Carlos Cruz, se o Fialho Gouveia, realizadores do programa PBX. Transmitido da meia-noite às duas, através do Rádio Ciube Portu­guês, o programa tinha vindo agitar as ondas conformadas do espectro radio­fónico daquele 1967, levando os micro­fones para a rua, à procura de gente,de histórias, de vida.
      José Afonso diz-me que há muito perdeu o contacto com a música, que era professor na Beira, e que professor vai voltar a ser, em Setúbal, depois.de uns dias em Faro, para onde eguirá com a mulher Zélia, logo que a alfândega os.libertar .Projectos, como cantor, nenhuns. A entrevista passa para plano secundário. Digo-lhe ali entre o abrir e fechar de malas, e a azáfama de viajan­tes e polícias, aquilo que muitos outros portugueses teriam respondido, se ou­vissem o autor dos “Vampiros”, e do “Menino do Bairro Negro” anunciar-­lhes que ia deixar de cantar por esse país fora: que ele não pode abandonar aquela frente de luta cultural e cívica, tão importante para milhares de estudantes, de oposicionistas. “Importantes, umas cantiguetas?”, auto-escarnece-se, enquanto dá uma última olhadela aos haveres desembarcados.. Explico-lhe que era através das suas baladas, e das do Adriano Correia de Oliveira, passadas em sequências musicais, ou em montagens de entrevistas ou reporta­gens, que nós, na Rádio, dizíamos aquilo que de outra forma a censura corta­ria. Zeca Afonso terá ficado surpreendido com aquele discurso de um desconhe­cido repórter radiofónico. Acredito que, humilde, não sabia quão importante se tornara para muitos dos seus concidadãos. E, se alguma vez chegou a acredi­tar na influência da sua acção como cantor, a experiência traumatizante que acabava de viver em Lourenço Marques e na Beira convencera-o de que deveriam ser outras e mais directas as fórmulas a utilizar para uma altera­ção do regime político salazar-marce­lista. Acabou por dar a entrevista.
      Mas as suas declarações, cortadas pela ”fis­calização” do RCP (um serviço de cen­sura tutelado por um representante do governo mas assegurado por funcionários da estação), só iriam para o “ar” depois de Raul Solnado – amigos dos realizadores do programa – fazer um pedido nesse sentido a Paulo Rodrigues, o subsecretário de estado que aIi mes­mo se designou um dia, como “a caneta de Sua Excelência” (o presidente do Conselho). José Afonso é expulso do li­ceu de Setúbal. O seu nome passa a .ser cortado nos jornais. A Pide prende-o, mais tarde. Nunca mais deixa de com­por e cantar. Sempre de serviço à causa do antifascismo, em sindiatos, associa­ções recreativas, cineclubes. Será uma “cantigueta” que um grupo de militares escolhe para o 25 de Abril.

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      Carlos CouceiroTestemunhos
      04/11/2006By AJA

      José Afonso por Carlos Couceiro

      O José Afonso foi meu colega desde o 4º ano de Liceu e aí começaram as primeiras gui­tarradas e os primeiros fados de rua que era a maneira de nós não sermos rapados, lá em Coimbra, com o Mário Barroso.
      Saíamos para as nossas noitadas desde que se cantasse e tocasse bem ou mal, e ele can­tava bem e o Barroso tocava muito bem, eu é que era o mais incipiente. Fomos colegas desde o 4º ano, e mais, vim a ser seu compadre, padrinho do seu primeiro filho.
      Estava eu na Faculdade de Engenharia no Porto, quando recebi um recado dele, à sua boa maneira: – Quero que sejas o padrinho do meu filho. E lá fui eu para o notário da Avenida da Sofia com a minha comadre, uma moça de Pinhel, a Leia. Entretanto o José Afonso foi dando os nomes e as datas do pai, da mãe e dos avós e daquelas coisas todas que lhe pediam, até que o notário lhe perguntou: – Em que dia é que nasceu a criança?…e ele: Eh, pá, em que dia é que nasceu o meu filho??? E eu disse 17 de Janeiro de 1952. Histórias. . .! ele tem tantas. .. Uma em que ele quer receber a Tuna Académica de Coimbra que vinha de Nova Lisboa, em Angola, para o Lobito, no Caminho de Ferro. Ele pertencia à Comissão de Recepção. Eu já não via o Zeca há seis anos. Ele saíu do com­boio dirigiu-se a mim e disse-me: Eh pá, esta malta agora tem um sentido exagerado de propriedade, e eu perguntei-lhe: Porquê, pá? E ele explicou: Olha quando me levantei, calcei as meias do parceiro que vinha na cabine, comigo, e o tipo refilou tanto, tanto, que eu estive a quase a ir-lhe ao focinho. . .
      Outra vez, ainda no Liceu, quando apareceu o aspecto ortográfico de acentuação, o Zeca nas aulas de Português dizia “Estando os conégos da Se com os cotóvelos apoiados numa mesa de pau de ebâno bebendo uma pinga de cáfe, estando uma menina a ler, diz um deles: “Ai que bem que a menina le”, pois ainda não é nada, porquanto ainda vamos no prológo quando formos no epilógo das formigas. . .! E muitas outras mais. .. Há muitas coisas que se sabe pouco dele, eu devo dizer, para mim, que o Santos Silva, engenheiro na Figueira, O Manuel Nemésio, filho do Vitorino Nemésio que o conhecemos na inti­midade desde crianças, sabemos da sua generosidade, da sua coragem e da sua energia física. Nós punhamos as capas em cima da cabeça e ele saltava aquilo. Na Universidade ele corria muito bem. . . e como é que aquele homem vem a morrer com aquela doença de atrofias musculares ele que era de uma elasticidade física como poucos.
      Era uma pessoa de grande coragem, pois por vezes em situações de grandes conflitos, em que ele não se metia, mas que não arredava pé.
      Dizer dele, que era um homem de boa fé, duma descuidada ingenuidade, um homem bom e assim vivíamos. Convidou-me no dia seguinte ao casamento dele, que fez com umas testemunhas quaisquer, que encontrou. Sentei-me e comi com ele, o primeiro prato de bacalhau com duas batatas, no quarto dele no Beco da Carqueja, era um Beco que havia mesmo em frente da Sé Velha, e ele vivia ali no 32 andar.
      Muitas vezes encontrei o Zeca Afonso a dormir na minha cama na minha “República” e eu a ter que me deitar num colchão no chão, porque ele não aceitava que o fossem tirar da cama onde dormia, aquilo era dele. São alguns pormenores que posso contar. Falar dele é falar de muita saudade. São muitos os episódios, mas acho que o António Fernandes Santos Silva engenheiro da Figueira da Foz, tem um livro que traz umas histórias sobre o Zeca. O Santos Silva, julgo que foi a pessoa que melhor retratou a vida do Zeca. O resto, floriram, e na minha opinião exploraram a pessoa que ele era. Nalgumas coisas, uti­lizaram a sua maneira de ser mas este, o Santos Silva, deu em toda a sua beleza a sua grande dimensão com a amizade de irmão.

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      Alípio de FreitasTestemunhos
      01/11/2006By AJA

      CANTIGA DE AMIGO – Alípio de Freitas

      Falar de alguém que está sempre presente é muito, muito difícil. E ainda mais se esse alguém que, mais do que um amigo, é um irmão gémeo. É assim que me sinto quando tenho que falar ou escrever sobre o Zeca. Conhecemo-nos sem sequer nos termos visto. Ele, cantando para que a liberdade florescesse. Eu, lutando para que, de tão oprimida, não morresse. Tínhamos o Oceano pelo meio, não como distância, mas como caminho. Para a solidariedade, os muros de qualquer Fortaleza não existem. Quando, finalmente, nos encontrámos, descobrimos que tínhamos mil coisas a nos dizer. E foi sempre assim, até que ele partiu para outra viagem, para a Cidade da Utopia (quem sabe?), onde a cantiga é apenas um hino à fraternidade.

      Digo que partiu e digo que ficou. Na memória, no afecto e no retrato que está aqui, ao meu lado, junto do Cardenal, do Cristo de Dali, do Che, do Gregorio Bezerra e dos companheiros da Fortaleza de Santa Cruz. Estamos todos aqui, nas fotos, na lembrança e na música, em diálogo permanente sobre o presente e sobre o futuro, aquele futuro do qual não desistiremos jamais… Esperem um pouco… Eu volto Já… Tenho de ir ao quintal respirar e conversar com as árvores porque o coração se me aperta com a presença-ausência do Zeca. E dos outros. E eu que pensava que a vida já me tinha endurecido o bastante para contrariar a emoção. Mas não.

      Houve um tempo em que o mundo que ouviu o Zeca, talvez por má consciência, pareceu querer esquecê-lo. Mas as pessoas são como as sementes. Se são boas, quando descem à terra. frutificam, multiplicam-se por mil. Como o Zeca era uma boa semente, passado o Inverno e aparecida a Primavera explodiu em flores e frutos. E aí está, não apenas na voz dos amigos fiéis que sempre o cantaram, mas, mais que tudo, nas vozes de uma geração que nem sequer o conheceu. O Zeca acendeu uma luz que ninguém pode apagar ou deixar de ver. Sempre acreditei nisso. A luz, a fraternidade, a solidariedade, a amizade, a beleza, o amor, são difusivos por si mesmos. O mundo não pode passar sem eles. Por isso o Zeca estará sempre connosco.

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      GalizaJúlio PereiraTestemunhos
      13/10/2006By AJA

      Uma pequena história partilhada pelo Júlio Pereira

      Era uma vez na Galiza, anos oitenta. Um concerto de José Afonso em Cangas de Morrazo (perto de Vigo) num velho teatro municipal. Acompanhava-o eu, Henri Tabot e Guilherme Inês. Chegados à hora do espectáculo, deparámo-nos com um público, a meio da plateia, de seis pessoas! A minha reacção (suponho que a dos meus colegas) foi a de não tocar. E o Zeca disse não! Tocados os 17 ou 18 temas ensaiados pelo grupo, José Afonso pegou na viola e sozinho, tocou cantando mais oito temas entre os quais “Catarina” – a primeira vez que o ouvi cantar assim. Estranho. As seis pessoas de pé aplaudiram incansavelmente José Afonso e durante muito tempo. Como se a sala estivesse cheia.
      Só mais tarde percebi que o Zeca, nesse dia, tinha deixado seis amigos na Galiza.

      Júlio Pereira
      (Músico e amigo do Zeca)

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      António Pinho BrojoTestemunhos
      10/09/2006By AJA

      António Pinho Brojo sobre José Afonso

      Excerto de uma entrevista mais alargada a António Pinho Brojo, histórico guitarrista de Coimbra, liderada por António Manuel Nunes, que podem ler na íntegra no blog do guitarrista Octávio Sérgio – http://guitarradecoimbra.blogspot.com

      (…)
      AMN: Estamos a caminhar para os finais dos anos 40…
      APB: Sim. Entretanto aparece o Zeca Afonso, à volta de 1948, também cantando exclusivamente o fado tradicional. Eu, em 1952, exactamente, fiz discos de 78 rotações com o José Afonso, Luiz Goes e Fernando Rolim. É, digamos, depois dos discos do Menano, do Paradela, do Lucas Junot, a primeira vez que são lançados discos de 78 rotações com os três cantores que depois vieram a ser uma Segunda Geração de Ouro. O Luiz Goes, repare, trazia atrás de si um património musical formidável. O tio dele, o Armando Goes, tinha, como sabe, o estilo que nem sempre era o do fado tradicional. Ele insistiu no fado lisboeta, cantou sonetos e o Luiz Goes continuou a herança do tio.

      AMN: Estes discos de 1952 eram já um projecto artístico diferenciado em relação às heranças recebidas? Gravou apenas porque havia necessidade de novos discos no mercado, pensou, estudou, ensaiou, ou as gravações foram espontâneas?
      APB: Não! Foi um projecto diferente. Não foi espontâneo. Com a aproximação dos Anos 50, aí por 1951, eu venho para Coimbra, para a Universidade. Em minha casa surge uma tertúlia, a Tertúlia do Calhabé. Tertúlia com quem? Com um sujeito que ainda está vivo e que é funcionário da Assistência Social, que era o José Rodrigues, um apaixonado pelo estilo do Artur Paredes e seu conviva. Ele era sobretudo um cultor da guitarra, da guitarra do Artur Paredes e teve uma grande importância na minha formação e na do Portugal também. E com o José Rodrigues e com o Florêncio Neto de Carvalho – que era um homem que tinha uma virtude extraordinária. Conhecia muito bem o fado de Coimbra e sabia interpretar (=imitar) o estilo de cada um dos cantores da Primeira Geração de Ouro, então resolvemos chamar o Fernando Rolim, o Zeca, o Goes e o Machado Soares que entrou mais tarde. E resolvemos que as coisas tinham caído numa tal decadência…

      AMN. Vocês tinham consciência dessa “decadência” artística?
      APB: Tivemos a noção dessa crise e pensámos “nós temos de fazer um estudo das raízes!” Com o trabalho discográfico do Artur Paredes e o apoio do José Rodrigues surge um “Renascimento”. Em minha casa começámos a fazer exactamente esse trabalho. O Florêncio de Carvalho o que é que fazia? Quando aparecia um rapaz, ele dizia, “ó pá, tu tens uma voz estupenda para cantar, eu vou-te ensinar fados do Bettencourt como ele os cantava”. E depois cantava-lhe à maneira do Bettencourt, do Paradela, do Menano. Depois corrigia o cantor, obrigava-o a dizer o poema. Havia toda uma aprendizagem que era no sentido de primeiro saber o que estava a cantar, reproduzir o conteúdo do poema e dar-lhe depois expressão na música dentro do estilo. Outros teriam um estilo mais parecido com o Menano… de facto, houve um trabalho de sapa, de estudo e de recolha, de regresso às raízes dos anos 20. Mas atenção, o Florêncio representava já algo de progresso, introduzia já o seu contributo. O Florêncio também cantava, embora tivesse problemas de garganta e tivesse muitas vezes dificuldades de cantar, mas sobretudo tinha uma expressividade extraordinária.
      Os discos surgem como consequência desse treino, desse estudo. Os discos aparecem, deliberadamente, como uma forma de afirmação e de “reposição”.

      AMN: Quais foram as reacções aos discos?
      APB: Foi óptimo, foi óptimo!

      AMN: Havia uma lacuna fonográfica de quase 30 anos…
      APB: Não era fácil. As empresas de gravação eram poucas e não tinham muitos meios. O Fado de Coimbra estava num gueto, verdadeiramente num gueto! Ainda hoje lhe devo dizer uma coisa, o grande mal disto tudo está em a Canção de Coimbra ser sempre associada restritamente ao meio de Coimbra, é sempre considerada como uma música urbana muito local. Nunca adquiriu um estatuto na música ligeira portuguesa, ao contrário do Fado de Lisboa. Ainda hoje na rádio, é difícil, é raro, pode contar pelos dedos o número das situações em que está a ouvir música diversa e no meio da música sai uma canção de Coimbra. É raro! Felizmente que aparece, mas é raro.
      Tinha havido ali um hiato tremendo e aqueles discos tiveram uma enorme aceitação. Os discos foram gravados aqui em Coimbra no Emissor Regional, em condições muito fracas, e depois passadas a 45 rotações e 33 rotações e cassetes. O Portugal já nessa altura entrou. Foi o meu 2º guitarra nesses discos. Quando eu me vou embora para a Suiça em 1954 – o meu trajecto vai até 54, de 1943-1944 até 54 – , o Portugal vai continuar o nosso trabalho.
      Em toda a minha época, eu cito o João Bagão, cito o José Maria Amaral, o Carvalho Homem, o Manuel Branquinho (embora o Manuel Branquinho nunca tenha sido um guitarrista, em meu entender, eu sou oficial do mesmo ofício, que se tivesse afirmado muito significativamente. Quando reaparece, mais tarde, é a cantar). Como violas eram o Aurélio Reis, que já era uma figura habitual, era o Eduardo Tavares de Melo, o Mário Castro. Na minha geração isto foi o núcleo fundamental.

      AMN: Carlos Figueiredo, era um homem marginal a estes meios?
      APB: O Figueiredo (risos)… você já se apercebeu que o meio é fechado e pequeno… há certas rivalidades. Há sempre uns ditos de bastidores, umas piadas. Nessa altura também havia essa mesma rivalidade. Ainda que, o João Bagão, o José Maria Amaral e o Carvalho Homem tivessem actuado muitas vezes em conjunto, de tal maneira que o José Maria Amaral foi 2º guitarra do João Bagão, depois o José Maria Amaral autonomiza-se e constitui o seu próprio grupo em que eu entrei como 2º guitarra, depois o José Maria Amaral vai-se embora e eu fico com o Carvalho Homem… Eu não tinha problemas, integrava-me facilmente embora sentisse as rivalidades, que então nos cantores eram “notáveis”. No meu grupo não, o Fernando Rolim, o Luiz Goes e o Zeca Afonso iam cantar a minha casa e havia entre nós um grande entrosamento.
      Com havia as estrelas, o Figueiredo, a quem nós chamávamos o Figueiralho (risos), era um homem que não era um violista de primeira água, embora tivesse o seu mérito, era sempre o violista substituto. E então utilizou um sistema curioso: quando arranjava um cantor muito bom, dizia-lhe “eu ponho-o a cantar mas você fica comigo”. Havia este sistema também na altura. Como você sabe os cantores foram sempre adstritos a grupos e de certa maneira era difícil a um cantor ir com um outro grupo, era visto como uma traição aos seus companheiros. Isto já existia.
      Muitas vezes o Figueiredo integrava-se nestes grupos, mas sempre com a sensação de que era um elemento de substituição. O que o Figueiredo tinha era coisa extraordinária, apesar de ser um tipo de importância menor, boi um belíssimo compositor. Fez fados tradicionais muito bem feitos, que nós aproveitámos, o “Adeus Sé Velha saudosa”, o “Ondas do Mar”, “O Sol anda lá no Céu”. O Zeca Afonso nessa altura era um cantor tradicional, tendo uma voz de pouca amplitude. Tinha uma voz fraca para cantar o fado tradicional. O ele ter explorado a balada, não há dúvida nenhuma que é esse o tipo de música que ele, já nessa altura, considerava mais adequado à sua maneira de ser e para as suas possibilidades vocais. Aliás, ele tinha uma coisa muito curiosa. Eu posso-lhe contar um episódio. Fomos fazer aí um espectáculo e ele cantou o “Águia que vais tão alta” maravilhosamente. Deram-lhe aplausos. E no fim há um sujeito, um antigo estudante, um velhinho, que vai ter com ele e lhe diz “Você é realmente um cantor extraordinário e deve ser muito feliz”. E diz ele, “Você está enganado”, e acrescenta com aquele ar dele “Eu nem gosto do Fado de Coimbra”. Isto mostra que realmente o Zeca Afonso tinha de evoluir para outro tipo de música.
      AMN: Chegou a acompanhar essa evolução?
      APB: Não, não acompanhei, porque eu depois da Suiça, aí por 1959, afastei-me. Foi uma fase muito difícil para mim, porque eu preparava a minha tese de doutoramento. Eu doutoro-me em 1961.
      Guitarrista que aparece nessa altura com uma pujança formidável é o Jorge Tuna, o Portugal que vem de mim, da minha geração, mas que começa a compor e, sobretudo, já com os poemas do Manuel Alegre a fazer as trovas e baladas. O Portugal acompanha o Zeca Afonso, o Adriano Correia de Oliveira, o António Bernardino. É curioso, o António Bernardino fez lembrar na altura em que apareceu uma espécie, como é que eu hei-de dizer, de Manuel Julião. Um homem versátil, cantava tudo, fado clássico sim, gostava muito dos fados do Ângelo de Araújo, a canção. Eu até 1961 não participei, ainda que uma vez ou outra acompanhasse o Zeca Afonso, sobretudo em férias.
      AMN: E ele já em ruptura?
      APB: Já! Ele passou férias em minha casa no Algarve, várias vezes, ele era um homem despegado do dinheiro e às tantas chegava ao meio do mês de Agosto e não tinha o dinheiro e ia para minha casa para ter autonomia. Era realmente um artista, um poeta. E nessa altura acompanhei-o, por exemplo na “Balada do Outono” e numa série de canções que ele fez por essa altura. Eu encontrei-me perante um Zeca Afonso a cantar coisas completamente diferentes.
      AMN: Na Crise Académica de 1969 estava em Coimbra?
      APB: Estava em Coimbra.
      AMN: É correcto afirmar-se, como às vezes se diz, que em 1969 se produziu o disco “Flores para Coimbra”, os cantores desertaram e tudo acabou?
      APB: A Crise de 1969 provocou um “bouleversement” em Coimbra.
      AMN: A linha clássica era apodada de “reaccionária” e de “fascista”…
      APB: Exacto. O fado tradicional e a guitarra foram identificados com o regime, com uma carga negativa. Mas nunca até aí o fado tradicional e a guitarra tinham sido identificados com o regime. Normalmente no meio havia contestatários. Muitos guitarristas e cantores eram tipos normalmente não “arregimentáveis”. É evidente que se dizia “é um fado reaccionário”, “é um fado conservador”. É o próprio regime ou as figuras afectas ao regime que agarram o fado de Coimbra armados em protectores, independentemente, meu caro Nunes, de um certo feitio sempre conservador do antigo estudante de Coimbra. Se um velho está sempre a dizer “no meu tempo é que era bom”, o antigo estudante de Coimbra também diz “no meu tempo é que era bom, assim e assado”. Inclusivamente, eu, neste momento, sou capaz de já ser um conservador! Eu já estou a entrar na idade do conservadorismo.
      AMN: Assiste-se efectivamente a uma dispersão de cultores com a Crise de 1969?
      APB: Há uma dispersão e uma desmotivação dos cultores. 1969 foi um momento tremendo. E repare, se nós quisermos ser justos relativamente ao Zeca Afonso, eu recordo-me perfeitamente dele ter afirmado por volta de 1974 que não queria guitarras a acompanhá-lo, que não queria “raquetes” a acompanhá-lo, como ele chamava à guitarra. Ele não cantava fado de Coimbra. Fado de Coimbra era uma coisa abominável. Ele aí teve também um papel de certa maneira prejudicial. Prejudicou o fado de Coimbra. Depois ele fez contrição. E quando edita o disco de fado de Coimbra (1981) ele vem desdizer tudo quanto tinha afirmado. Isto significa que a partir de 1969, e indo até 1974, há enorme confusão.
      (…)

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      Testemunhos
      28/08/2006By AJA

      “Zeca Afonso ou o ódio idolatrado”. Texto de 23.08.06 retirado do blog – http://combustoes.blogspot.com/

      Aquela voz fanhosa, embargada pela raiva – um ódio que se desprendia a cada palavra – nunca foi do meu agrado. Incomodava-me o tom, o conteúdo e a vaidade mal dissimulada de José Afonso. O baladismo – o da esquerda, como o pouco de direita que por aí se ensaiou – nunca fez o meu cup of tea. Vulgar, “intervencionista”, manipulador de afectos e reacções primárias, ersatz da verdadeira arte – que se quer inútil – está para a música como o neo-realejo para a literatura, a publicidade para a fotografia, os retratos de rua para a pintura, os bordados para as belas-artes. Julgo, até, que os baladeiros, não fosse o baladismo, nunca seriam músicos reconhecidos pelos colegas de ofício. Foi uma geração de protestarismo fácil que se impôs de fora da música, que se profissionalizou, coleccionou fama e proveito e nada deixou. Servirá, quando muito, de retrato de uma época em que uma guitarra e uns poemecos carregados de baias e lugares-comuns faziam as delícias de um povo mal-informado, sem referências e prenhe de utopias. Alguns baladeiros por aí continuam como se o tempo não tivesse passado: os irmãos Salomé, o rotundíssimo Tordo, o Sérgio Godinho, o repetidíssimo Manuel Freire – quantos milhões de vezes já cantou a maldita Pedra Filosofal do Gedeão ? – e o vestusto Mário Branco. Reconheço que houve excepções nesta geração de improviso: Adriano Correia de Oliveira, uma bela voz munida de impressionante aparato poético e, no registo afadistado, o grande Carlos do Carmo.
      No passado fim de semana, a RTP exibiu um verdadeiro show de totalitarismo revivaleiro. Zeca Afonso divinizado, exaltado e tido como um “génio”, deu azo a uma torrente de cançonetas de incontinente pendor marxista terceiro-mundista. As palavras sempre as mesmas (solidário, inquietação, amigo, companheiro, Maio, ceifeira), o ritmo puxando ao falso-rústico das “raízes” – outra palavra detestável – e a finalidade escancarada: tornar aceitável o abjecto (roubar, sanear, vingar, matar) e abrir portas ao totalitarismo comunista, tornando-o justificável à luz da rábula cantada. Zeca Afonso tinha um ar perturbado, queria mais, mais revolução, mais plano inclinado, mais ocupações, mais saneamentos, mais controlo operário, mais comissões de bairro – aquelas que faziam listagens com as pratas, os quadros e os aquecedores existentes nas casa dos inimigos de classe – mais poder popular, mais armas em boas mãos para defender a revolução; ou seja, mais balbúrdia que pedisse, no fim, mais um Estaline. Aquilo é Babeuf, Marat, a Comuna de Paris, a propaganda pelo facto do bombismo anarquista, mais comunalismo utópico em que entram as CEB’s (Comunidade Eclesiais de Base), as Comissões de Ocupação de herdades (as célebres “comprativas”), os padres Max de gola alta e barbas à Sierra Maestra, a Teologia da Libertação, as mulheres-padres, os poetas repentistas e analfabetos (quantas vezes tivemos de engolir o banalíssimo Aleixo ?), o new-age dos alucinogénios e de outros estados de consciência alterados, o abortismo dá-cá-aquela-palha; sei lá, um sem-número de coisas sem mérito elevadas nos pedestais no culto do mau. Sintomaticamente, o programa terminou com uma discursata do inefável “Zeca”: “a minha democracia não é a dos votos, mas a do poder do povo”. Pois. Uma democracia da rua, de tiros na nuca, prisões arbitrárias, campos de concentração, reeducações e penúria para todos. Uma democracia sem eleições, sem debate, sem opinião pública. Uma democracia com censura, com estribilhos, pinchagens e lavagens ao cérebro. É o que me indigna em tudo isto. Como se pode dourar aquilo que viola a democracia, a liberdade e a dignidade humana ? Como podemos abrir portas ao mundo que nos cerca se nos mantemos barricados nas superstições, ódios e quimeras que levaram à morte de tantos mihões, a tanta tragédia humana e tanta fome ? Só quando essa geração sair de cena poderemos, finalmente, aspirar à Europa.

      Miguel Castelo Branco

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      Testemunhos
      08/08/2006By AJA

      Entre o Porto e Coimbra – O Zeca Afonso que eu conheci

      Foi durante um ensaio do grupo de serenatas do Orfeão Universitário do Porto que, pela primeira vez, ouvi esse nome pronunciado, com contagiante entusiasmo, por Roxo Leão, um tocador afamado de viola, que tinha vindo para a Faculdade de Farmácia do Porto completar a licenciatura iniciada em Coimbra. A falta da fase terminal do curso de farmácia e de engenharia na Universidade da cidade do Mondego tornava obrigatória a migração de grupos significativos de estudantes que, todos os anos, se transferiam para o Porto, onde vinham frequentar as últimas cadeiras das respectivas licenciaturas. Com estas revoadas de estudantes transferia-se, também, o influente ambiente estudantil coimbrão, culturalmente muito enriquecedor para os universitários portuenses que, assim, recebiam uma infusão de multidisciplinaridade que os cursos eminentemente técnicos ministrados no Porto e o estilo de vida que aqui se adoptava não propiciava.

      O Roxo Leão era um daqueles conhecedores certificados do fado de Coimbra e um animador entusiasta da academia portuense, em tudo o que ao fado coimbrão dissesse respeito. Nessa mesma sessão de uma noite de Novembro de 1953, tomaram parte o José Vitorino Santana, que era o mais consistente fadista da nossa Academia, o Barroso, outro estudante de farmácia com carimbo de Coimbra, ele, também, um excelente tocador de viola, e os dois guitarras, o Carlos Couceiro, um executante seguro vindo, também, da cidade do Mondego para acabar no Porto a licenciatura em engenharia, e o Leonel, quartanista de Medicina, segundo guitarra e único elemento daquela tertúlia, genuinamente nortenho. No fim dos primeiros testes, em que a timidez natural de um principiante já tinha conseguido dissipar a expectativa densa que a circunstância exigente criara, todos concordaram em que eu deveria cantar os mesmos fados que o Zeca, porque, segundo as suas esclarecidas opiniões, a minha voz tinha uma estrutura musical parecida e os estilos interpretativos assemelhavam-se. Caloiro, obedeci, longe de saber o que é que esse veredicto, estando certo, significava de Iisongeiro. Contudo, e apesar de, então, essa semelhança me dizer pouco, a comparação ficou a fazer parte do meu consciente passivo, ligando-me, sentimentalmente, a esse nome que haveria de vir a ser, artisticamente, tão honrado. Passei a prestar maior atenção às canções que ele então interpretava e de que sobressaíam o fado «Incerteza», o «Contos velhinhos», o «Águia que vais tão alta», o «Meu menino é d’oiro», entre outros, e confesso o encantamento criado pela sua voz trémula e quente, que era, também, fruto do seu espírito original e sensível, voz que ora se arrastava numa dolorosa queixa, ora se erguia num grito de rebeldia e de protesto. O Zé Afonso, como outros preferiam chamar-lhe, era, sem dúvida, um estudante que cantava um fado novo que Coimbra nunca tinha ouvido.

      Mas o Zé Afonso era, vi-o, depois, muito mais do que isso. Pessoalmente, encontrei esse quase-sósia canoro numa tarde de Agosto de 1956, a bordo do «Vera Cruz», a caminho de Angola. Ele viajava integrado à sua maneira (o Zeca nunca se integrou em nada) na Tuna Académica de Coimbra e o seu destino era navegar à roda da África para animar um vasto mundo de gente rica e culta que tinha decidido alugar o «Vera Cruz» para um périplo de África; eu viajava integrado no Orfeão Universitário do Porto, que seguia para Angola como agente de uma festa académica que tinha como missão apertar os nós dos laços de uma identidade lusotropical que se desejava duradoira. Cada grupo possuía a sua equipa de serenatas: a nossa era constituída pelo Rosa Araújo e o Costa Leite (guitarristas), o Hermenegildo Tavares e o Quartim Graça (violas); eram cantores o José Vitorino Santana, o Gameiro e eu. Do lado de Coimbra seguiam o Fernando Xavier e o Júlio Ribeiro (guitarristas), o Manuel Pepe e o Levi Baptista (violas); os cantores eram o Zeca Afonso e o Fernando Machado. Esse encontro fecundou uma amizade que estava destinada a crescer e que sem sobressaltos de percurso veio a ser muito grande e sincera.

      Numa tarde de Agosto, quente, apesar de ser de cacimbo o tempo do calendário, o «Vera Cruz» deixou-nos no Lobito e seguiu a sua viagem, à roda do continente africano, levando consigo a «malta» de Coimbra.

      Vivíamos nós, por essa altura, numa espécie de república, um vasto espaço de três quartos, uma sala e uma cozinha, num terceiro andar no Campo dos Mártires da Pátria (n.º 135), sob a vigilância aflita mas benevolente de uma velhinha, a Sr.ª D. Aninhas. Eram sete os habitantes regulares desses aposentos, mas alturas havia em que o número de comensais chegava a duplicar. Depois da viagem a Angola, um dos frequentadores desse lar aberto era o Zeca. Sempre que as deslocações da Tuna ou do Orfeão Académico de Coimbra, os seus afazeres pessoais ou qualquer decisão repentista, disparada pela sua irrequietude sentimental, o traziam ao norte, lá o tínhamos connosco, com toda a Fantasia do seu ser poético e a rebeldia do seu idealismo descomprometido. Uma das vezes (em vésperas das férias grandes de 1958), a sessão artística da Tuna ia ser no Rivoli. O Zeca apareceu, como de costume e por uma das razões de sempre. Tinha vindo «à boleia», ia cantar, estava à futrica e tinha umas horas para pôr a conversa em dia. Comeu connosco, cantarolou os fados que tencionava interpretar nessa noite — e que o Costa Leite e eu acompanhámos à guitarra —, enfiou a minha capa e batina, completando, assim, o ritual e lá descemos os dois a Rua dos Clérigos, a caminho do Teatro. Ao passarmos em frente da Igreja dos Congregados, num súbito arrebatamento, parou, fitou-me com o ar concentrado que a testa franzida denunciava — era assim sempre que falava a sério — e atirou-me a seguinte proposta: «— Oh pá (ele usava esta abreviatura quando ela era ainda erudita, tu tocas guitarra, eu toco viola e cantamos ambos. Vamos os dois fazer férias por essa Europa fora, como artistas vadios?» Sorri, creio que candidamente, para quebrar com ternura o ímpeto do seu entusiasmo.

      Na verdade, não era fácil recusar tão espontânea, sincera e amiga sugestão; mas a minha vocação de aventura tinha asas mais curtas e, além disso, tinha duas cadeiras do meu quinto ano para fazer em Outubro; e as férias iam ser pequenas para pôr o estudo em dia. Sanado este breve desencontro, retomamos a marcha rumo ao Rivoli.

      Este nomadismo, que era nele genómico, era uma das facetas que tornava visível a irrequietude do seu espírito! Mas foi, sobretudo, em Coimbra que convivemos e nos conhecemos melhor e que a nossa amizade cresceu e se radicou. O Zeca era, na verdade, uma criatura rara, de uma enorme originalidade: inteligente, culto, criativo e, ao mesmo tempo, bondoso e decifrável, era muito fácil gostar-se dele. Sempre que nos fins-de-semana o tempo era meu, lá ia até à velha cidade tratar do fado e das guitarradas, em correspondência a esse apelo primário que vinha da infância. E foi assim que muitos fins-de-semana passei na capital do Mondego, onde nos encontrávamos, ora na Baco ou nos lncas, ora em sua casa ou no seu verdadeiro lar, que eram as ruas de Coimbra. E foi assim que se desenvolveu, não uma estima superficial de convenções, mas uma amizade de gente nova, sem rugas, própria dos afectos simples e verdadeiros.

      Além de cantar, o que nós conversámos! Os problemas de então, as preocupações humanísticas e sociais eram assuntos nunca calados nos nossos longos diálogos. O cristianismo e os seus valores, os compromissos que a dignidade humana implica; a coerência e a hipocrisia. Avessos a todas as tiranias, éramos, assim, apóstolos silenciosos de um mesmo credo. O Zeca era espontâneo, desacautelado e livre como se vivesse sozinho no Mundo!

      Apesar dos anúncios iniciais premonitórios, que estiveram na origem da nossa aproximação, afinal, nós éramos muito mais irmãos pela inteligência interpretativa do mundo e pela confiança na bondade dos afectos, do que pela voz! Éramos mais parecidos calados do que a cantar.

      O Zeca tinha sofrido a influência religiosa densa de uma tia «beata», que talvez tenha contribuído para que tivesse deixado, logo no limiar da adolescência, qualquer manifestação de prática religiosa, mas essa formação, que continuou a fazer parte do pavimento em que assentava como criatura, acompanhou-o até ao fim. Nunca rejeitou a essência daquilo que moldou a sua natureza inquieta e generosa e deu expoente aos seus valores sociais.

      Uma vez em que, com um pequeno grupo de amigos, decidi ir a Fátima de bicicleta, amedrontado com os duzentos e vinte quilómetros que tínhamos de percorrer, resolvi, com a anuência dos companheiros de viagem, partir a meio a distância e pernoitar na república Baco, sempre a primeira a ser procurada, porque nela viviam muitos conhecidos e alguns bons amigos: o Fernando Machado, o Manuel Pepe, o Batalim, o Dario — e também porque a canção coimbrã tinha aí uma grande sede. O convívio alegre e saudável compensava bem o sacrifício de certas incomodidades do alojamento. Era também frequente o Zeca passar por lá e, nessa noite, passou mesmo. Falou-se de tudo e, obviamente, também do motivo da nossa viagem. Ficou entusiasmado com a «peregrinação» e só não nos acompanhou porque, na manhã seguinte, não conseguimos encontrar em Coimbra uma bicicleta disponível.

      A convergência das nossas pessoas, sentenciada naquela noite de Inverno, nunca sofreu retrocessos ou foi posta em causa por qualquer acidente ou assintonia. Pelo contrário, foi tomando corpo, progressivamente, mais verdadeira e consciente. Quanto melhor nos conhecíamos, mais os nossos ideais batiam certo ao ritmo de um mesmo compasso. Não há dúvida de que social e humanamente assentávamos os pés num mesmo chão e que, no essencial, éramos guiados por uma bússola orientada para um mesmo norte. Menos ancorado nos valores tradicionais, o Zeca sempre foi mais solto e, por isso, vagabundo. Mas, se em alguma coisa divergíamos, era em pequeníssimos pormenores que se escondiam na espuma de certos comportamentos.

      Subitamente, fui mobilizado para prestar serviço médico militar em Angola. Os três anos (de 1963 a 1966) que lá passei foram muito mais do que a interrupção fortuita de um convívio que sempre fora reciprocamente desejado. Nenhuma das minhas outras amizades sofreu com essa ausência forçada.

      Quando regressei de Angola, fui reencontrar o meu Amigo Zeca em Vilar de Mouros, protagonista zangado de um extenso protesto, ora em prosa ora em verso, meio recitado, meio cantado e que tinha como objecto a história de Catarina Eufémia. A mudança senti-a, sobretudo, no abraço frio que me deu quando, no fim da longa catilinária, desceu do palco! Não me surpreendeu o seu entusiasmo pela causa abraçada. Alguém agarrou bem a sua generosidade disponível, o vazio criado pela sua bondade por realizar. Espantou-me, sim, que na sua mente independente e lúcida deixasse de haver lugar para a sublimidade poética que nos tinha feito muito amigos! Nem a poesia escapa a certas escorregadelas da lógica! Tão semelhantes e, contudo, o Zeca acabou por ser o símbolo de uma revolução que me expulsou da Universidade.

      Serafim Guimarães

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      António Pedro VasconcelosTestemunhos
      28/07/2006By AJA

      António Pedro Vasconcelos sobre o Zeca

      «Morra um homem. Fique a fama». (Zé do Telhado)

      Era um senhor. Desprendido e simples.
      Arrogante e firme. Um aristocrata. De uma espécie em vias de extinção: um homem livre.
      Quis um pano vermelho a cobrir-lhe o caixão, porque era fiel, como os partisans do poema de Aragon -, mas sem insígnias, porque, se ele serviu de bandeira a muita gente, a muitos grupos e partidos, a quem emprestou a voz, a bolsa e a vida, não pertencia a ninguém. Era de uma espécie em vias de extinção: um homem livre, solitário e fraterno.
      E ademais um poeta. Um grande poeta lírico, – da família de Nobre e Camões. Um cantor -, como Dylan e Ferré. Tão grande ou maior do que eles todos, como pretendia Paco Ibanez? Talvez, mesmo se uma doença traidora e a má sorte de nascer em Portugal, . que ele tanto e tão bem amou, lhe fecharam tão cedo os horizontes.
      Berlioz fez adoptar a «Marselhesa» pelo povo de Paris, nos dias eufóricos de Julho; ele compôs a «Grândola» em comunhão clandestina com o povo, que a iria adoptar nos dias memoráveis de Abril. É ela, e não a «Portuguesa», o nosso Hino Nacional.
      Dizem que teve dúvidas, hesitações, desalentos. Era o sinal da grandeza. Mas não baralhava os inimigos: a miséria e o medo, a mentira e o abuso.
      Nestes tempos de promiscuidade e memória curta, em que uma espécie de SIDA moral começa a contaminar tudo e todos, ele disse sempre de que lado estava, sem ambiguidades. Era um homem de esquerda, irredutível, irreconciliável. Um exemplo.

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      Luiz GoesTestemunhos
      28/07/2006By AJA

      Luiz Goes sobre o Zeca

      Falar do Zeca é falar de um grande amigo com quem convivi muito intimamente em Coimbra, sobretuto nos anos 50.
      Quando se dão os grandes acontecimentos dos anos 60 eu já não estava lá, já me tinha formado. O Zeca se fosse vivo tinha mais quatro anos do que eu de idade, mas eu era dos cantores o que me formei mais cedo, porque tinha a mania de ser bom aluno, e não era suficientemente boémio, se fosse hoje, reprovava mais de dez anos.
      Formara-me em Outubro de 1958 e em 1959 já estava em Lisboa, nos Hospitais Civis, e a partir daí perdi aquele contacto diário, constante, com esses meus queridos amigos, o Zeca era um deles. Como é evidente, com essa vinda para Lisboa, perdi o convívio com aquela geração, e com aqueles acontecimentos da época lá em Coimbra. Mas acompa­nhei-os muito de perto.
      Entretanto fui mobilizado, para a Guiné, onde estive dois anos e, quando voltei, procurei recuperar o tempo que tinha perdido em termos de cantigas, estimulado por terceiros. Depois lá recuperei um pouco e entrei numa fase da minha vida, mais amadurecida talvez, mais velho por dentro também, e, naturalmente, modifiquei a minha maneira de ser. Mas, falar do Zeca é falar de uma pessoa inesquecível. Do seu talento, do seu lirismo, no fundo, para mim, o Zeca foi sempre um lírico, punha as palavras também ao serviço do coração. Eu sei que era assim. E depois de tantos episódios curiosos vou-lhes lembrar apenas um. Eu durante muito tempo não fui república em Coimbra, porque a minha mãe vivia lá, pois eu sou natural de Coimbra. Devo ser talvez, o único cantor conhecido, pelo menos do nosso tempo, que tenha nascido em Coimbra, de maneira que tinha casa. O Zeca já era casado, era a primeira mulher, tinha dois filhos e a minha casa era uma “República”, e então, muitas vezes, o Zeca chegava e dizia assim: “á D. Leopoldina”, que era a minha mãe, “não se importa que os miúdos fiquem aí?” E a minha mãe respondia: “á Sr. Doutor”, a minha mãe tratava toda a gente por doutores, porque era costume lá em Coimbra, um indivíduo desde que tivesse capa e batina tratava-se logo por senhor doutor, desde o primeiro ano, “isto é uma maravilha, hem?”. Entretanto ficavam lá os dois miúdos e o Zeca esquecia-se. Um dia, a minha mãe, ao fim de dois dias, disse-me assim: “á Luís, desculpa lá, eu sou muito amiga do Zeca, mas ele. . . quando é que? .. ” E eu: “… O quê? ainda cá estão?…” Tinha-se esquecido. Depois ia buscá-los. Isto é um episódio que revelo com muita ternura, com muita saudade e com muita afectividade. Eu tenho orgulho de ter pertencido à geração dele, e também, em ter contribuído à minha
      maneira, para que as coisas mudassem. Mas não me esqueço dele. Foi um grande amigo, é uma grande memória, uma pessoa que eu trago sempre no coração e na minha sensibi­lidade.

      Luiz Goes

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      Homenagens e tributos (poesia)Sérgio GodinhoTestemunhos
      28/07/2006By AJA

      José Afonso trouxe canções que rebentavam diques, ideias feitas, praxes, estruturas

      Eu teria então os meus quinze anos, e não gostava de quase nada do que se fazia na música portuguesa.
      Nisso, devo dizer, não estava só.
      Ora um país onde a gente nova não se reco­nhece, seja na música ou no resto, é um país doente, a precisar urgentemente de um doutor.
      Ouvi então uma voz única, e vinha de facto de um doutor: chamavam-lhe, e chamava-se, Dr. José Afonso, à boa maneira coimbrã, pom­posa e c1assista; mas este doutor trazia canções que rebentavam diques, ideias feitas, praxes, estruturas. “O meu menino é de oiro, é de oiro só, hei-de levá-lo no meu trenó”. O Zeca passou a ser o meu doutor particular, a minha referên­cia só pouco a pouco assimilada.
      Em 1972, respondendo a uma carta que ele me tinha escrito (estava eu impedido de cá vir) respondi-lhe glosando a sua poética, fazendo sobre a música do Sr. Arcanjo uma nova letra, em jeito de dedicatória e homenagem. Hoje, quando a releio, descubro-a de certo modo pro­fética, não só na descrição metafórica dos anos que se seguiram, desde o 25 de Abril até hoje, como na própria referência ao olhar do Zeca, sempre atento e perspicaz, a última coisa a mor­rer quando ele já tão doente estava. Dizia assim a canção:
      Eh Zeca Afonso
      canto para ti
      ainda era moço
      quando te ouvi

      Convite à dança
      fizeste a quem

      era criança
      soube-me bem

      Eh Zeca Afonso

      mal tu sabias
      que duro osso
      que então roías

      Menino de oiro
      no teu trenó
      foi mau agoiro
      deixar-te só

      As mafarricas
      vieram todas
      pobres ou ricas
      celebram bodas

      Disparam tiros
      de tudo comem
      até vampiros
      e um lobisomem

      E os surdos mudos
      tapam os olhos
      sopram canudos
      catam piolhos

      Coçam sovacos
      abrem a cova
      metem em sacos
      a tua trova

      Mas não te afobes
      quem te amofina
      só fez que sobes
      na nossa estima

      Há nas janelas
      do teu olhar
      duas donzelas
      ainda a espreitar

      Olham para o mundo
      para o alecrim
      respiram fundo
      cantas assim

      Senhor arcanjo
      Vamos dançar
      afina o banjo
      pelo luar

      Sérgio Godinho

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      DiscografiaJosé Mário BrancoTestemunhos
      27/07/2006By AJA

      Chamava-se Catarina

      Nascido para, como diz a cantiga, “abrir grandes janelas”, o Zeca sempre suportou maio fechamento – quer o das ideias, quer o dos espaços. Das duas vezes que foi a Paris gravar comigo, em 1971 (“Cantigas do Maio”) e 1973 (“Venham mais cinco”), nunca ele escondeu quanto lhe desagradava e o indispunha a necessidade de ficar fechado no estúdio durante horas, e quanto ele não gostava nada de Paris nem do ambiente dos portugueses de Paris – hoje entendo como tinha razão.
      Porque haveria de ser preciso fecharmo-nos, horas e horas a fio, na tensa clausura de um estúdio de gravações, se o objectivo era precisamente registar os grandes e puros espaços sonoros das suas melodias, a frescura densa da sua voz, a força simples e lírica das suas palavras? As máquinas! custava.lhe aceitar que a “limpeza” e a “verdade” do som só pudessem ser conseguidas, neste mundo sujo e atravancado, por meio das máquinas, das técnicas, do isolamento acústico. Custava.lhe aceitar que, para fazer chegar aos outros as coisas belas e simples que inventava, fosse preciso tanta guerra para reconquistar o silêncio, a página branca, o patamar vazio donde tudo tem que partir.
      Assim, por entre mil episódios que atestam o que acabo de dizer, há esse – o da gravação do “Cantar Alentejano” (“Chamava-se Catarina… “) – que testemunhei aquando da gravação das “Cantigas do Maio”, juntamente com a Zélia, o Fanhais, a Isabel Alves Costa, o técnico Gilles Sallé e, naturalmente, o violista Carlos Correia (Bóris). A opção de arranjo foi: só a viola, e a voz do Zeca. Sem rede.
      O regime de gravações – tardes e noites – fez que, nesse princí­pio de tarde, fosse a altura de gravar o “Cantar Alentejano”, “Vamos a isto, Zeca?”, ia eu dizendo, naturalmente preocupado com a factura do estúdio. “Não tens nada para ir metendo?”, desconversava ele. Via-se que não estava pronto. “Queres ir me­tendo outras coisas? Faltam vozes no “Milho Verde” e no “Senhor Arcanjo”… E assim ia passando a tarde. “Está bem, vamos me­tendo outras vozes”. Mas não se conseguia grande coisa. A alma dele – percebi depois – estava toda no Alentejo, nos olhos de Catarina Eufémia. E, como tantas vezes acontecia, andava no estúdio para cá e para lá, em passos nervosos, como o jóvem leão na sua jaula.
      Até que, já pela tardinha: “Eu vou até lá fora, olhar para as vacas” – o estúdio era numa quinta apalaçada, no meio dos campos. Desapareceu, uma hora ou duas. Quando voltou já era quase noite. “Vamos gravar a Catarina”. O Bóris meteu-se na pequena cabina, para o som da viola ficar isolado da voz. O Zeca, no meio do estúdio, sozinho e às escuras, cantou. Uma só vez. Essa que está no disco.
      Nós, os outros, os privilegiados espectadores, estávamos na cen­tral técnica, quase todos a chorar incluindo o técnico francês. “Acham que é melhor eu cantar isto outra vez?”
      “Não, Zeca, não. Está muito bem assim…”

      José Mário Branco
      in Revista nº1 da AJA de 1988

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      Adelino GomesTestemunhos
      27/07/2006By AJA

      Carta de agradecimento a José Afonso um ano depois da despedida

      Conheci-te pessoalmente vai fazer 21 anos.
      Esperei-te no cais da Rocha do Conde de Óbidos, junto dos fun­cionários da Alfândega, da Guarda Fiscal, da Pide. Vasculhavam eles arcas e malas e eu, de gravador ainda desligado, para trás e para diante, ao sabor das tuas necessidades alfandegárias, ten­tando vencer a (futura) lendária relutância do dr. José Afonso a falar de música, das suas cantigas.
      Guardo uma vaga memória da tua mulher, da(s) criança(s), das respostas evasivas a provocarem-me a situação de desconforto que volta e meia tenho de suportar noutros episódios desta pro­fissão de intruso.
      Ninguém para te abraçar, à chegada do navio.
      E tu a mostrares-te admirado (desconfiado?) com a minha insis­tência em falar-te de música, e da importância das tuas canções. A minha tarefa era recolher as tuas primeiras declarações no re­gresso à “metrópole”. Não me lembro como, mas eles eram bons profissionais) o Carlos Cruz e o Fialho Gouveia, realizadores do programa PBX (Onda Média do Rádio Clube Português, da meia­-noite às duas), sabiam que ias chegar naquele dia do Verão de 1967. Encarregaram-se de te entrevistar, e de te convencer a gravar algumas canções para o programa. Gravar gratuitamente, que era a velha forma nacional – porreirista de aproveitar os can­tores de resistência sem olhar aos seus dramas, sem nos interro­garmos sobre (se tinham) dificuldades materiais.
      Vinhas esgotado da experiência colonial de Lourenço Marques e da Beira. E sem um tostão. Não sabias bem ainda onde ficarias a residir. Julgo que me falaste de Setúbal, mas também de Faro. Só encaravas o ensino como modo de vida.
      Regressei impressionado à Sampaio e Pina. Tentei que os reali­zadores convencessem os produtores – os Parodiantes de Lis­boa – a pagarem as gravações que te dispuseras a ir fazer dentro de dias. Recordo a alguém a argumentar (interessa saber quem, em particular?) que o Zeca Afonso se devia sentir muito grato ao PBX por este o relançar no país.
      A fiscalização do RCP – junto da qual funcionava um represen­tante dos Serviços de Censura – cortou o programa e só uma cunha do actor Raúl Solnado ao Subsecretário de Estado da Pre­sidência do Conselho, Paulo Rodrigues, permitiu a sua trans­missão umas noites depois.
      Nunca tive coragem de te perguntar se recebeste algum dinheiro pelas gravações. Julgo que te pagaram apenas os transportes para e de Lisboa. Não me lembro que canções novas (era a exigência) cantaste. A lógica manda-me pensar que foram canções incluidas no LP Cantares do Andarilho (1968) ou nos Contos Velhos Rumos Novos. Porém, não sei porquê, fiquei sempre com a ideia que foi no PBX, em 1967, que deste a conhecer as Cantigas do Maio. Talvez porque a esse espantoso monumento da MPP /Canção de Intervenção nada foi feito antes nem nada foi feito depois que se igualasse.
      Para mim, o momento do solitário encontro no cais e o episódio do “cravanço” do PBX constituiram a revelação em corpo inteiro de um José Afonso que andou pela nossa terra, como tu próprio declararias mais tarde, a pagar a sua dívida política e cultural para fins que considerava correctos e a pessoas ou organizações para quem valia a pena fazê-lo.
      Jornalista da Rádio, foi a ti, à inspiração da tua música e ao apelo dos teus versos que recorri, como outros companheiros, nos tempos de Salazar e Caetano, para fazer passar a mensagem do inconformismo.
      Tu dizias por música o que nós não podíamos dizer por palavras. O que nós não tínhamos coragem para dizer por palavras. Devo-te essa lição.
      Devo-te tudo o que se deve a quem nos dá força para resistir. Tudo o que se deve a quem tem a coragem de ser até ao fim igual a si mesmo e às ideias que apregoou algum dia.”Outra voz outra garganta/Outra mão que se estende à que tom­bara/Uma fagulha num palheiro acesa/Ó meus irmãos a luta não pára”.

      Adelino Gomes, in Revista nº 1 da AJA, 1988

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      António Vitorino de AlmeidaTestemunhos
      27/07/2006By AJA

      Era um redondo vocábulo

      “Grande engano! Mísera sorte! Estranha confusão! …” – são palavras utilizadas por Luís de Camões para definir alguns de­sastres do aventureirismo lusitano.. .
      E não sei porquê – até porque o espírito que presidiu a essas aventuras se baseava num conhecimento profundo e altamente especializado da arte de marear, devendo-se os desastres a con­tigências próprias dos anseios descomedidos do Poder, e nunca a falhas gritantes de competência técnica… -, estas palavras in­cisivas do poeta renascentista vêm-me à memória sempre que penso nos sons da angustiosa indigência artística e intelectual produzidos por alguns grupos musicais portugueses com larga audiência no nosso caseiro mundo do espectáculo, afora alguns indeléveis recortes para o álbum das recordações excursionistas por terras de Espanha, alegria das famílias e orgulho patriótico de uma imprensa dita especializada…
      A eminência parda que, em derradeira instância, sempre decide as eternas questiúnculas entre o “querer” e o “poder’ é, indu­bitavelmente, o “saber”… Quem sabe, pode quando quer; quem não sabe, até ignora o que poderia se acaso quisse aprender… Para mim, a norma de conduta mais razoável e eficaz consiste em saber-se o que se pode e fazer-se, em função disso, o que se quer. Quem não sabe o que pode, acaba por fazer o que não quer. . . E quando vejo louvar e incentivar a actividade desses inválidos da música, o seu trôpego caminhar por sobre os calhaus ásperos de um som não dominado, por entre os cardos da inépcia mais grotesca, volto a lembrar-me do discurso camoneano, sou tentado a perguntar aos empresários, aos agentes, a certos críticos e jornalistas confessamente virgens de qualquer conhecimento técnico (ou mesmo histórico!…) Na matéria sobre que dissertam enquanto apoiam movimentos de tão previsível mau destino:
      “A que novos desastres determinas de levar estes Reinos e esta gente? Que perigos, que mortes lhes destinas debaixo de algum nome proeminente? Que promessas de reinos e de minas de ouro, que lhe farás tão facilmente? Que famas lhe prometerás? Que histórias?.. Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?
      Camões acaba por amaldiçoar aqueles que puzeram nas ondas o primitivo madeirame de barcaças encimadas por uma vela. Eu não amaldiçoo ninguém, é óbvio; mas espanta-me, assusta-me, a leviandade com que se põe num palco, num estúdio, sujeito à verdadeira – e implacável – crítica do futuro, gente que nem sabe pegar num microfone para gemer a sua importância vocal, poética e musical…
      De todos os actuais êxitos e aplausos ficará cinza, pó e nada. Ficará o fel das grandes ressacas, o sabor do papel de música que nunca se provou… E isso é tanto mais grave quanto não está provado que todos esses infelizes homenageados de hoje, gozados de um amanhã já próximo, sejam por natureza destituí­dos de jeito, capacidade de aprendizagem, até de certo talento para a arte que tanto amam, ainda que sem serem correspondi­dos… A música (tal como qualquer outra actividade profissio­nal…) não vai nas cantigas de tais namorados: São fulanos que ostentam, na melhor das hipóteses, uma fachada razoável, mas que deixam logo a certeza de não terem o interior mobilado…
      Nós podemos apreciar mais ou menos, muito, pouco ou mesmo nada, um determinado estilo, sem que isso nos leve a ignorar onde é que está um profissional, alguém que se sabe mexer, al­guém que sabe cantar, que sabe tocar, que consegue indiscuti­velmente transmitir uma ideia, um pensamento, uma filosofia… Essa filosofia pode desagradar-nos, até; mas a capacidade té­cnica ou artística de quem a comunica não deve ser posta em causa, sob risco de perdermos o desafio por abuso da autocon­fiança, por ridícula estultícia e arrogância…
      Portanto, não interessa, em princípio, saber se todos gostamos ou não da mesma música, se todos estamos de acordo com deter­minadas correntes de pensamento; trata-se, para já, de exigir que os seus defensores saibam exprimir-se, pois só a partir daí poderá haver discussão ou confronto de opiniões.
      Não caindo na tendência altamente reaccionária de separar as formas dos conteúdos, temos que admitir que o mundo em que vivemos – ou sobrevivemos… – tem ao seu serviço expressões artísticas que definem as suas problemáticas, a sua ideologia, as suas coordenadas de pensamento: a música de uma sociedade poluída não pode ser límpida como um ribeiro de águas nascen­tes, não pode ter contornos sonoros definidos ou puríssimos, mas terá, necessariamente, de ser pastosa, poluente, insalubre, en­démica. Na verdade, se consentimos que um rio seja sinónimo de esterqueira, como poderíamos aspirar a uma música de en­cantos pastorais onde pudéssemos mergulhar e nadar sem o perigo das mais abjectas contaminações?!
      É evidente que este é o meu ponto de vista. Mas há quem de­fenda que toda a trampa vale a pena quando a ind ústria não épequena. Há quem colabore com as forças de manutenção deste mundo e que defenda como útil e indispensável a entrega a pa­raísos artificiais compensatórios do inferno em que transforma­ram a realidade concreta. Há quem defenda efectivamente a droga e a alienação, a ignorância das tragédias e das aberrações como forma de sobrevivência – e essa filosofia tem a sua música própria, assente numa estética correspondente e coerente.
      Eu sou contra esse mundo, essa filosofia e essa música – e estou no meu direito, parece-me… Tal não significa, entretanto, que negue (seria absurdo fazê-lo!) a capacidade profissional dos seus mais eficazes defensores: são de tal modo eficientes que há mi­lhões de pessoas que não reagem contra esse destino de inqui­linos de uma sempre crescente lixeira, ou que julgam que para combater semelhantes perigos e ameaças bastará ouvir música e idolatrar cantores, o que deixa, naturalmente, uma invejável margem de manobra aos responsáveis pela esterqueira.. .
      Pelo contrário, há grupos musicais entre nós cuja nulidade não permite discussão; é correspondente à sua total ausência de ideologia – direi mesmo de raciocínio em relação aos problemas sociais, culturais ou políticos… Mas essa nulidade permite que o grotesco macaqueamento de uma linguagem de teor neo-fascista, por exemplo, possa ser utilizado, sem atritos de qualquer espécie, numa festa de ideologia progressista – e vice-versa!
      Mais ainda, estes párias da cultura são muito estimados e pro­movidos por todas as forças partidárias, tanto faz que cantem para uns como para outros, que mudem de candidato presiden­cial ou de grupo parlamentar como quem troca as cuecas. Essen­cial é que a sua mensagem seja absolutamente õca de sentido e que a própria forma como se exprimem não se arrisque a nenhu­ma definição de fins nem de princípios. É gente para usar e deitar fora. . .
      Ora essa gente… é gente! Longe de os condenar como culpados, eu considero que esses lamentáveis grupos são as grandes vítimas de um sistema efectivamente infame, pluralista saga de uma anti-cultura militante, a castração da crítica, a busca a uma so­ciedade amorfa e conformada, apenas ruidosa, o muito barulho para nada, a ausência de uma vontade autêntica e actuante. Al­guns desses actuais incapazes poderiam talvez deixar de o ser se seguissem um exemplo respeitável, uma filosofia concreta.
      O símbolo de uma filosofia de participação e de responsabili­zação dos artistas e intelectuais nos destinos do mundo encon­tra-se na música e nas ideias de José Afonso.
      É um disparate argumentar-se com a teoria de que ele não sabia música. Sabia a música de que necessitava para defender os seus conceitos. Poucos como ele foram capazes de tomar conhecimento do que podiam para fazerem depois o que queriam!
      Em nenhuma obra de José Afonso se pode lamentar que ele não tivesse conhecimentos suficientes para se exprimir literária e musicalmente. Foi um artista que soube paradigmaticamente en­contrar a forma que correspondia ao seu conteúdo ideológico, sem cedências nem transigências, sem qualquer vislumbre de conformismo ou de aceitação de uma menoridade: o que fazia era bem pensado, bem escrito, bem composto e bem cantado! José Afonso é hoje muito elogiado, nomeadamente por alguns que ele menos poderia suportar em termos artísticos – e não só… Mas isso não é grave. Antes pelo contrário, pode ser muito relevante se os homenageadores se esforçarem por aprender com o homenageado. Que se transformem, quanto possível, os ama­dores na coisa amada – e tudo ficará certo. . .
      Não se trata de saber solfejo, leis de harmonia ou normas de con­traponto. Nem mesmo se trata de conhecer muitas posições na guitarra. José Afonso nunca precisou disso… Do que ele nunca prescindiu foi de criar uma técnica própria, foi de evoluir artis­ticamente até ao ponto de ser, para todos os efeitos, um Mestre. E o caminho por ele percorrido passou, inevitavelmente, pela consciência de que toda a arte exprime um ideário, se orienta por conceitos estruturados com base naquilo em que se acredita e que se pretende defender.
      Não vou sequer ao ponto de desejar que todos perfilhem – como eu tento perfilhar, na medida do meu possível – a linha ideo­lógica pura e intransigente de José Afonso, um homem bafejado pela Razão e por um superior sentido de Justiça, valores que se pagam muito caro. . .
      Penso, isso sim, que o simples respeito pelo artista que ele foi, o seguir do seu sistema de trabalho como padrão para o estabe­lecimento de um critério de valores profissionais, já poderia ajudar muita gente a enveredar por uma estrada digna e a li­vrar-se do juizo final de um público que aplaude, compra, con­some… – mas, no fundo, não perdoa!

      António Vitorino de Almeida
      in Revista nº 1 da AJA de 1988

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      João Afonso dos SantosTestemunhos
      22/07/2006By AJA

      As vozes que nos faltam – João Afonso dos Santos

      A tendência é para esquecermos as pessoas, na sua vera efígie, depois que desaparecem. Às tantas, estamos a moldá-las segundo a perspectiva dominante, ou, na melhor das hipóteses, pela nossa, supondo que a temos discordante da primeira. O que de algum modo não deixa de ser natural, enquanto essa incorporação nos valores cor­rentes (de circulação fiduciária, passe o termo) ou na nossa subjecti­vidade induzida não é o resultado dum acto deliberado do poder ou poderes constituídos ou a emanência deles. Aí, sim, nada se configura como natural na aparente naturalidade com que se nivelam os mortos pela rasa bitola dos vivos.
      Por isso, fomos hoje buscar a voz parcelar do Zeca a uma das suas menos distantes entrevistas, porventura das mais fiéis, atributo de que poucas vezes beneficiou. E a um cenário não muito diferente do actual, nem diferentes os actores da cena pública, o mesmo se dizendo dos problemas capitais. Isto é, a um tempo próximo, não tanto no sentido cronológico do termo, antes na sua significação valorativa e sociológica. Com este expressivo acréscimo, o de que, en­tretanto, se agravaram os pressupostos de desumanização, de cin­zentismo cultural, de omnipresente oficiosidade administrativa, de aceitação conformista; e também daquilo a que se poderá chamar, com alguma ironia, a ética da desigualdade. Consiste ela em se colo­car na gamela da nossa frustração quotidiana os famosos indicado­res macro-económicos, enquanto os novos privilegiados se banque­teiam magnlfica e impudicamente, e erigir tudo isso em respeitável regra de vida e meta nacional, ao mesmo tempo. Que este tipo de “desenvolvimento” é o adequado, inevitável e até excelente afir­mam-nos, abonados em modelos que nos apontam, os demiurgos desta outra harmonia universal sobre a qual recai a suspeita de ser tão falaz, caduca e falsa como a profetizada no século passado.
      Hoje, que certos círculos bem pensantes têm por moda celebrar, com grande clamor e alguma má consciência, a suposta morte das ideologias; e se generaliza a apetência pela dissolução da identidade colectiva em troca duns dinheiros por que tudo se afere – onde se mostra que há Judas bem mais rapaces do que os dos Santos Evan­gelhos; hoje, que todos querem ser, e não mais do que isso, sacer­dotes ordenados desse culto das novas tecnologias; que se maca­queiam provincianamente os figurinos importados, com grande sobra de fazenda; – bom é que se oiçam e façam ouvir vozes criticas, re­beldes e solidárias como a do Zeca.

      Artigo publicado na revista nº 3 da AJA em 1989

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      Testemunhos
      22/07/2006By AJA

      A Minha História de José Afonso

      Havia um poema e um enigma disfarçado de canção, nessa voz atormentada e vagamente trémula que me dizia: “A toda a parte chegam os vampiros… “. Eu escutava­-o, baixinho e às escondidas, algo ensimesmado pelo acto do meu próprio entendimento,
      esforçando-me por decorá-lo mas não o compreendia. Pala­vra!, não o entendia porque não aprendera ainda o segre­do das suas palavras, nem isso a que hoje chamam o sentido figurado ou conotativo da linguagem que então se escondia por trás da sua música. Como compreender que o disco tivesse sido proi­bido (e creio preso ou dester­rado o seu cantor, como na altura se dizia), só por dizer que eles os vampiros, pousa­vam nas tulhas, traziam no ventre despojos antigos e nada os prendia às vidas acabadas? Ou seria simples­mente por aquilo de eles comerem tudo, tudo, tudo…e não deixarem nada?
      Assim começa a minha história pessoal acerca do Zeca. Não é verdade que todos temos uma história pessoal acerca de um homem paradigmático e superior como o Zeca? Podem ser
      histórias de amor ou de ódio, ou mesmo constataçães da mais plana e turva indiferença, mas nunca de um desconheci­mento diferente e distinto da pura e frívola ignorância. Por mim, que comecei por amá-lo antes mesmo de o entender, a história de José Afonso situa-se entre dois extremos opostos, os quais se tocam,
      de um lado, a minha inocência política, e do outro, a noção do tempo, da idade e da cul­tura. No extremo da inocên­cia, começa a memória de “Os Vampiros” e da sua proibição; no outro, colhe-me a surpresa de ter sabido ler o oculto, a alegoria dessa “Grândola, Vila Morena “, que afinal era a pro­fecia de um país, a sua espe­rança ou mesmo a sua identi­ficação. Não tinha idade para decifrar a mensagem, vinda na denúncia encoberta do tal poema que dizia: “Enchem as tulhas, bebem vinho novo/ Dançam a ronda no pinhal do rei”. Muitos anos mais tarde, soube desde o primeiro mo­mento que Grândola, na voz e na ideia do Zeca, não era apenas uma vila morena, muito plana, situada ao sul da cidade com um rio – mas a própria cidade branca e altiva da alma e da honra que muitos de nós conhecíamos…
      Houve um tempo em que tínhamos apenas os nosso cantores. Hoje, temos a eter­nidade deles, que é feita à nossa medida. José Afonso continua fora do tempo e das geraçães porque nunca foi credo nem um mito, menos ainda uma lenda não compor­tada pelos sentidos da músi­ca. Ergueu em torno de si, sem nunca ter tido esse propósito, uma escola para a educação e para o sentimento do mundo. Da sua vida, é injusto dizer que pas­sou. Seria aliás ofensivo recor­dá-la apenas como um caso de fé. A única coisa que dela sei é que pode hoje estar aqui e amanhã ter-se ido ao vento, porquanto nunca teve um destino. Por andar ao vento lhe chamaram andarilho. Por ainda agora ela, a sua música, se fazer ouvir, trovador.

      João de MeIo Lisboa, 1 de Junho de 1992

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      Natália CorreiaTestemunhos
      17/07/2006By AJA

      Zeca: Encantava cantando – Natália Correia

      Encontrámo-nos no mar alto. Ambos vindos de África. Eu, de An­gola onde, com o pretexto que me calhava ao gosto, de fluir feitiços africanos escapados à ganância evangelizadora dos missionários, ia em missão de tratos conspiratórios que a Pide farejava no cerco das andanças. O Zeca, de Moçambique, onde a sua voz de gorgolejos de água fora com a Tuna Académica, humedecedor com toadas saudo­sas de Coimbra cora­ções endurecidos pela faina de enriquecer a ex­pensas do indígena. O encontro foi de im­pacto mágico. Noctíva­go, por conseguinte. Enlevos, sonhos e indig­nação contra a mordaça com bota de elástico, exaltações vividas noite fora por um pequeno grupo que só recolhia ao camarote quando o raiar da manhã aureoleava o ritual da baldeação que nos expulsava do convés.
      Recordo-o ali entre um apaixonado estar presente e um despren­dimento de não estar. Era belo. Mas o pudor de o ser ornava-lhe a cabeça de grego deslei­xado. Parecia que se envergonhava da beleza do seu rosto talhado pela medida ouro. A alma, essa porém expu­nha-se quando nos fazia ouvir o correr do seu sangue para a Poesia.
      A sua demanda de cavaleiro da Causa que os fantoches do viver por viver, dizem ser coisa perdida.
      Em Lisboa chega­ram-me os seus versos com uma pergunta. Ele queria saber se em minha opinião aquilo era publicável. Perplexa in­terroguei-me: mas então aquele génio da poesia cantabile não sabia que os fados o tinham predestinado para despertar a adormecida origem do nosso lirismo na recomposição das núpcias do canto e do poema?! Foi o que lhe respondi por outras palavras: Publicáveis? Não. Melhor do que isso. Cantáveis.
      E de que maneira o foram, fei­tos sustento do anseio revolucio­nário que, se não for impulso da poética da libertação acaba sem­pre no bolso dos abutres dos Termidores.
      Recordo-o ainda nas ferventes noites alentejanas em que envol­vidos no coral enluarado dos homens da planicie, emparelhá­vamos em estampidos de revolta cantada e recitada, o Zeca, o Adriano e poetas do claro grito da indignação, entre os quais eu, como fêmea guerrilheira da palavra libertária fruía o piropo alentejano de ai filha de um real cabrão! que a urbani­dade ensossa toma por ofensa E nessa maré de vozes concertadas no esconjuro dos vampiros boiava a voz andrógina do Zeca, como uma es­treia de cantos acesa pelo que sufocadamente remanesce no coração do povo das antigas idades em que todos eram irmãos no reino da Mãe Natureza.
      Alinhei imagens que a minha memória selec­tiva elege das muitas que guarda de um con­vívio persistentemente afectivo apesar de entre­cortado pela sua errân­cia residencial desde Coimbra até fixar-se em Setúbal.
      Foi-me tremendo sa­ber que as Parcas lhe teciam o fim. Ciosos dos que amam, os deuses en­comendaram-lhes o te­cer fatal. Porque o Zeca era jovem. Não o era nos anos? Sei lá com que idade morreu. A úni­ca juventude que me des­lumbra é a que tem o dom de encantar. E ele encantava cantando.
      Porque cantar e encan­tar são uma só coisa na arte de fazer ascender os corações em que o canto sortilegamente se derrama, àquele ponto espiritual do sentimento de todos serem Um.

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      João Afonso dos SantosTestemunhos
      16/07/2006By AJA

      A solidariedade em José Afonso

      Era por excelência solidário, o Zeca. Foi-o, a bem dizer, até ao derradeiro limite, desprendido de si e do que é de uso chamar-se, numa perspectiva de fora, os interesses pessoais… que não eram naturalmente os seus interesses pessoais. De o ser, pelos caminhos da vida e ao longo dela, de temperar a prática de o ser no crisol dessa inexaurível convivência com as situa­ções, as pessoas comuns e seus agrupamentos, a soli­dariedade que dele se desprendia era uma soalheira sala-abrigo, toda caiada de branco, um gesto natural, uma espécie de atributo da personalidade. Nunca toda­via contraditoriamente inconsciente e fácil, menos ainda piedosa. O fraternal impulso para com os outros, especialmente os “esquecidos” do poder (com os quais se identificava), melhor dizendo, de todos os poderes, institucionalizados ou não, convertia-o ele na exigência dum sentido de mudança (não esta festiva e formal mudança em que vivemos), no alertar pedagógico das consciências para a potencialidade da acção colectiva. Tendo por horizonte a edificação da cidade utópica, de que nos fala a canção, “sem muros nem ameias, gente igual por dentro, gente igual por fora”? Esse desígnio ideal, profundamente ancorado no seu substracto ético e político, não o impediu de se bater pelas causas con­cretas, radicadas nos interesses e nas organizações populares, profissionais ou outras, de as estimular ou apoiar à sua maneira. Por muito imediatos e circunstan­ciais que fossem, segundo o princípio mesmo da solida­riedade assumida. Zeca media bem a distância que vai da sociedade real, desumana e injusta, para o sonho dela que sempre sonhou. E, para além das metas reali­záveis sabe-se lá quando, que serão as utopias senão a denúncia, por alto contraste, da cidade actual?
      Essa atitude solidária era claramente adversa a todo o dogmatismo intransigente, ou talvez este segundo comportamento seja a condição essencial do primeiro. Aos juízos categóricos, às verdades reveladas, trans­cendentes ou imanentes, às infalibilidades dos papas laicos Que enxameiam o nosso pequeno universo – tudo isso que desde sempre traçou as fronteiras da intole­rância – opunha ele o permanente interrogar-se das questões, a dúvida crítica e o esforço da sua supera­ção, a relatividade das soluções, em suma, a abertura de espírito. Questionando os outros e a si mesmo, lan­çava pontes de diálogo, abria clareiras de convívio, atava os laços da aproximação, sem ceder todavia nas suas posições de fundo e na sua “praxis” actuante.
      Esta postura transmudou-a o Zeca para o plano musical. Cantou. Mas o canto solidário foi mais do que mera consequência da atitude solidária do seu autor. Dele fez deliberadamente – como sabemos – um instru­mento de acusação e de protesto colectivos, uma senha de reconhecimento comum, uma mensagem de luta e de porvir. Nos signos explrcitos da linguagem do tempo reconhecemos os nossos verdugos e o seu fim anunciado. Uma vezes em metáforas carregadas de significação facilmente perceptível (“Coro dos Caídos”, “Os Vampiros”, “O Avô Cavernoso”, etc.); outras, ser­vindo-se de casos singulares como paradigmas da opressão a vários níveis (“Vai Maria Vai”, “Cantar Alen­tejano”, “Teresa Torga”, etc.); sobre o pano de fundo dum lirismo que mergulhou as raízes na verdade da terra e da gente, e tinto também, aqui e ali, das tintas do surrealismo.
      Foram perto de trinta anos da Mcanção de interven­ção”. Se quisermos fixar um momento, poderemos dá-Ia por começada em 1959, com a edição do “Menino do Bairro Negro” e prolongada por todo o tempo que a ditadura levou enfim a cair. Zeca não se deu, no entan­to, por quite com o derrube do fascismo. Celebrou, em novas formas semânticas e musicais, o prometimento do novo dia, exprimiu, de modo mais conjuntural e directo, as vicissitudes dessa época histórica, e, visto que o acto solidário se não nega em fronteiras, cantou o amanhecer esperado doutros povos, não tão seguro como isso. Escarmentou, por fim, o adiamento da socie­dade prometida pela revolução de 74, os seus alibis, as suas entorses, os seus glutões insaciáveis, herdeiros
      . directos dos vampiros de recentes eras. Esteve onde o reclamaram, enquanto pôde, ele mais os seus colegas de ofício, até ao osso da resistência. Pelas associações recreativas e culturais, nos colectivos dos trabalhado­res, nas escolas e academias, entre os intelectuais e os emigrantes, nos campos e nas cidades, em Angola e Moçambique, ele e a sua voz foram companheiros fiéis das nossas dúvidas e revoltas, dos nossos anseios e esperanças.
      Em 1985, ano da última gravação, Zeca cantou, na sua “Alegria da Criação”, o que podemos interpretar como sendo uma espécie de balanço antecipado,

      “De nada me arrependo
      Só a vida
      Me ensinou a cantar
      Esta cantiga”

      João Afonso dos Santos

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      DiscografiaTestemunhosVídeo
      02/07/2006By AJA

      Um Bom Pastor (video – 2001)

      Um documentário de Jorge Pereirinha Pires e José Francisco Pinheiro

      Documentário sobre as gravações do último disco de José Afonso, «Galinhas do Mato», a convite de Nuno Rodrigues – antigo compositor da Banda do Casaco, e actual editor da MVM, a etiqueta discográfica responsável pela reedição de «Galinhas do Mato» em CD, onde este trabalho foi incluído como extra.

      Podem vê-lo em http://bravadanca.blogspot.com/2006/06/um-bom-pastor-video-2001.html

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      Testemunhos
      18/05/2006By AJA

      Traz outro amigo também

      Quando foi publicado o álbum “traz outro amigo também” do José Afonso, nos finais dos anos sessenta, princípios dos setenta, o meu grande amigo Nando, um dos tipos mais inteligentes e mais cultos que conheço (então estudante na FEUP e actualmente no nível abaixo de catedrático de Engenharia Civil e projectista de vias de comunicação rodoviárias), não resistiu a comprá-lo.Não era propriamente um revolucionário, mas tudo o que considerava ter qualidade, agradava-lhe. Ainda hoje é assim.Seu pai, arquitecto talentoso e amante dos livros e da música, tinha uma biblioteca e uma discoteca de discos clássicos que davam gosto. Muitas vezes ouvi obras de grandes compositores na sua casa. Desapareceu da nossa companhia precocemente, quando ainda caminhava para o sucesso e reconhecimento público que merecia.Pois quando o Nando chegou, depois de ter adquirido o LP, encontrou na sala o pai com um amigo.Muito satisfeito, exibiu o disco como um troféu e falou dele como de uma obra-prima.O professor, pois o pai também tinha essa actividade, perante tantas loas, não se conteve:- Mas quem é esse tipo? Dizes que também é poeta? Ora, poemas desses também eu faço. Ou ainda melhores – e lançou um olhar de gozo ao amigo, que concordou.- Ó pai! Estás a falar e não ouviste o disco. Portanto, estás a falar do que não sabes.- Já ouvi esse tipo a cantar na rádio. Não o queiras comparar aos que são verdadeiramente talentosos, como o Camões, por exemplo. Pode ter uma voz agradável e algumas músicas com boa sonoridade, mas…- Olha, pai. Neste disco, está uma canção cuja letra é um poema de Camões e as outras são quasi todas feitas com poemas do José Afonso.E lançou o desafio:- Eu ponho o disco a tocar e tu, e o Sr. Eng. também, no fim dizem qual dos poemas é do Camões. Reconhecem que o Camões é um poeta fora de série, não é verdade?E esperou, com o ar mais sério do mundo a resposta ao repto que habilmente lançara.O arquitecto hesitou um pouco. Mas não tinha alternativa, e anuiu. O amigo também.E o Nando coloca o disco no prato do aparelho e senta-se.- Mas não digo os títulos – sentenciou o meu colega.- Ah! As músicas também são quasi todas da sua autoria – esclareceu.E vão passando sucessivamente:“Traz outro amigo também”- Hum…não me parece Camões. Podes eliminar.“Maria Faia” (uma canção popular da Beira – Baixa)- Esta não! Podes avançar!“Canto Moço”- Essa não elimines, para já!“Epígrafe para a arte de furtar” (sobre um poema de Jorge de Sena)- Hum…aguenta essa!“Moda do Entrudo”- Isso não! Passa à seguinte!“Os eunucos”- Essa também não! A seguinte!“Avenida de Angola”- Isso não é Camões!“Canção do desterro”- Aguenta essa! Muitas alusões ao mar!“Verdes são os campos” (a que tinha como texto um poema de Camões)- Essa tem laivos da lírica camoniana. É capaz de ser essa!“Carta a Miguel Djéjé”- Podes passar! Essa não é de certeza!“Cantiga do monte”- Não é má! Mas podes eliminar!(todas aquelas em que não mencionei o autor tinham poemas do Zeca)- Então pai? Ainda tens de optar por quatro.- Põe essas outra vez – ordena o arquitecto.E o Fernando lá fez tocar as que não tinham sido eliminadas.Terminada a segunda sessão, o pai ainda hesitava entre a realmente camoniana e o “Canto Moço”.- Bom! – disse – é a dos campos verdes.- É, pai! Mas, afinal, não há assim uma diferença tão grande entre o José Afonso e o Camões! – disparou o jovem com um sorriso mordaz.- Ora! E esse gajo era capaz de escrever os Lusíadas ou compor a Nona?- Se calhar fazia melhor! – murmurou entre dentes o Nando.E agora vão ouvir o disquinho, está bem?É dos melhores do Zeca, na minha opinião.
      António Castilho Dias
      in http://eusoulouco.blogspot.com/2005/05/traz-outro-amigo-tambm.html

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