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Testemunhos
Home Testemunhos Page 2

Category: Testemunhos

ImprensaTestemunhos
11/05/2006By AJA

Zeca, 75 Anos

Por NUNO PACHECO
Jornal Público | 02 de Agosto de 2004

Aveiro, 2 de Agosto de 1929. Na freguesia da Glória nascia um menino que teria o nome de José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos. Pai: José Nepomuceno Afonso, magistrado. Mãe: Maria das Dores, professora primária. Não tardarão a embarcar, os pais, para África. Ele irá depois.

Aveiro, 2 de Agosto de 2004. Hoje. Junto à Praça Fonte Nova, uma rua vai receber o nome do menino que foi para África e voltou, para aqui viver, cantar e morrer: José Afonso. Há outras ruas ou praças com o nome dele, em terras que alguma vez o viram ou ouviram, na sua errância pelo Portugal que amava, aquele que lhe permitia sentir de perto a vida das suas gentes. Agora haverá mais uma, na cidade onde nasceu. À noite, para que e lembrança não se confine à laje suspensa da toponímia, haverá música de homenagem no Largo do Rossio (21h30). De entrada livre, como ele idealizava o universo, e com nomes próximos: Sérgio Godinho, que com ele cantou, e Vítor Almeida Silva que, de óculos de aros grossos, o imitou no antigo “Chuva de Estrelas”.

Depois, o que virá? De novo o silêncio? O que é possível saber dele, para que o não esqueçam? Há, disponíveis, além dos discos, vários livros e informações dispersas que permitem conhecer melhor não só o músico como também o homem (ver caixa). Para este ano, a juntar aos materiais disponíveis, prevê-se o lançamento pela primeira vez em DVD (há uma edição, em VHS) do Concerto no Coliseu dos Recreios de Lisboa, gravado a 29 de Janeiro de 1983 e difundido pela RTP com críticas do próprio cantor pela forma como o programa foi, então, montado e reduzido. Mesmo assim, ficou para a história como o único registo videográfico disponível de um momento irrepetível: sendo o primeiro concerto de José Afonso como músico profissional foi também o último, porque a doença que o minava (uma esclerose lateral amiotrópica) só lhe daria mais quatro anos de vida. Morreria em Setúbal, a 23 de Fevereiro de 1987, com 57 anos.

Uma noite histórica e outros registos

Na noite do Coliseu, tensa e inesquecível, há um momento em que a voz do cantor cede à comoção e denota um estrangulamento breve, numa passagem da “Balada do Outono” que, ali e naquelas circunstâncias, soava já como epitáfio: “Águas das fontes calai / Ó ribeiras chorai / Que eu não volto a cantar”. Muitos dos presentes não conseguiram esconder as lágrimas e ainda hoje, ao ouvir ao gravação do espectáculo, é possível sentir esse momento como um arrepio. Com José Afonso, nesse palco onde o abraço era já meia despedida, estavam, entre músicos e cantores, Octávio Sérgio, Lopes Almeida, Durval Moreirinhas, António Sérgio, Rui Pato, Francisco Fanhais, Fausto, Júlio Pereira, Janita Salomé, Serginho, Guilherme Inês, Rui Júnior e Rui Castro.

A edição do DVD, quase pronta, reunirá, segundo a editora que a preparou (a Costa do Castelo), mais uma hora de extras à gravação do concerto tal como foi difundido pela RTP, também com 60 minutos (terá sido impossível uma remontagem, para ampliação, do material original). Serão sete extras, no total, todos dos arquivos da RTP: uma participação do cantor no programa Lugar de Exílio, em Maio de 1980, onde fala, da sua vida e carreira, e canta, acompanhando-se à viola (a gravação é a cores); uma espécie de teledisco gravado numa quinta de Azeitão, 1981, com a canção “Saudades de Coimbra”; imagens do 25 de Abril com “Grândola Vila Morena” em fundo; e vários registos a preto e branco, dele a cantar: “Os vampiros”; “Menino do bairro negro” na série Coimbra Musical, em 1978; “Os fantoches de Kissinger”, na série Pifelin, 1975; “Milho Verde”, num dueto com o cantor francês Georges Moustaki, 1975; e um registo do I Encontro Livre da Canção Portuguesa, no Palácio de Cristal do Porto, logo a seguir ao 25 de Abril (na noite de a 3 de Maio de 1974), ele e outros cantores a entoarem juntos “Venham mais cinco”.

Grândola e o que se seguiu

Para quem conhece mal ou não conhece sequer José Afonso, refira-se que dos três aos dez anos ele andou por Angola (1933-36), Aveiro (1936), Moçambique (1937), Belmonte (1938-39), devido a obrigações de carreira do pai. Em 1940 vai para Coimbra, onde casa pela primeira vez e onde fica até ser chamado ao serviço militar, em 1953. Entretanto, começa a cantar. Primeiro no liceu, depois na Universidade. Rui Pato, seu amigo, acompanha-o à viola. Grava o primeiro 45 rotações, “Baladas de Coimbra”, em 1958 e, durante uma deslocação ao Algarve (é então professor) conhece aquela que virá a ser a sua futura mulher: Zélia Santos. É com ela que, em 1964, ruma de novo a África, com destino a Moçambique, uma viagem decisiva no cimentar da sua consciência anti-colonial. No regresso, é expulso do liceu e perseguido pelas suas posições políticas. Canta mais para sobreviver do que por opção de carreira, mas no entanto os seus discos começam a ser bandeira de uma geração que vê nele um dos seus mais lúcidos arautos.

A escolha de “Grândola Vila Morena” para senha do 25 de Abril de 1974 associa para sempre o seu nome à história da revolução dos cravos. De 1966 até 1985 gravou 15 álbuns, todos já reeditados em CD (a esmagadora maioria pela Movieplay, que possui o catálogo Orfeu, mas também pela EMI-VC e pela Strauss). O último, “Galinhas do Mato”, teve em 2002 uma edição especial, pela MVM, com um documentário vídeo extra, com vários depoimentos. A estes álbuns juntaram-se nestes anos algumas colectâneas e três outros CD com gravações antigas: “Carlos Paredes/José Afonso/Luiz Goes”, da EMI, 1992 (que tem, por exemplo, o “Coro dos Caídos” e “Canção do Mar”), “Os Vampiros” (uma edição medíocre da Edisco, de 1987) e “De Capa e Batina”, esta com libreto biográfico de 72 páginas e textos de José Niza (Movieplay, 1996).

Para perpetuar a sua obra e memória, como músico, poeta, cantor e compositor, têm contribuído a actividade da Associação José Afonso, o prémio musical José Afonso atribuído anualmente pela Câmara da Amadora e os discos (de homenagem ou reencontro) “Filhos da Madrugada” (1994) e “Maio Maduro Maio” (1995), onde se propõem diferentes releituras de muitas das suas canções.

DISCOS OBRIGATÓRIOS

Sem dispensar outros, há pelo menos cinco discos de José Afonso de audição obrigatória, todos disponíveis em CD: “Baladas e Canções” (1967, com registos de 1964), “Traz Outro Amigo Também” (1970), “Cantigas do Maio” (1971). “Venham Mais Cinco” (1973) e ‘Como Se Fora Seu Filho” (1983). Correspondendo a várias fases da sua evolução criativa, são obras-primas.

OBRAS BIOGRÁFICAS

A par de inúmeros artigos dispersos, há três livros de referência: José Afonso—Andarilho, Poeta e Cantor”, editado pela Associação José Afonso (1994), “José Afonso, O Rosto da Utopia”, de José A. Salvador (Terramar, 1994, 1999) e “Zeca Afonso, As Voltas de um Andarilho”, de Viriato Telas (Ulmeiro, 1999).

MEMÓRIAS INTIMISTAS

Aos ensaios juntam-se memórias de amigos ou familiares. É o caso de “José Afonso, Um Olhar Fraterno”, do irmão mais velho do cantor, João Afonso dos Santos (Caminho, 2002) e de “Zeca Afonso Antes do Mito”, de um amigo dos tempos de Coimbra, António dos Santos Silva (Minerva, 2000). De José Jorge Letria, cantor nos anos -70, há três: “José Afonso: O Que Faz Falta”, colectânea de depoimentos co-organizada com José Fanha (Campo das Letras, 2804); “Zeca Afonso e a Malta das Cantigas”, a história contada aos mais novos (Terramar, 2882); e “Carta a Zeca Afonso”, epístola em forma de poema (Universitária Poesia, 1999).

POESIA E CANÇÕES

Livros com poemas e canções há três: uma reedição actualizada de “Cantares”, editado pela Nova Realidade em 1965 e reeditado pela Fora do Texto, Coimbra, 1992; o pequeno “Quadras Populares”, de 1982. reeditado pela Ulmeiro em 1990; e, por fim, o único que reúne a totalidade da sua poesia, “Textos e Canções, editado pela Assírio & Alvim em 1983 e com última edição revista e aumentada por Elfriede Engelmayer datada de 2000. Este último é essencial.

ANÁLISE DA OBRA

O livro mais relevante é “José Afonso, Poeta”, de Elfriede Engelmayer, estudiosa da obra de José Afonso (Ulmeiro, 1999). Mas é também digno de nota o opúsculo “A Música Tradicional na Obra de José Afonso”, de Mário Correia (Câmara da Amadora, 1999).

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Testemunhos
07/05/2006By AJA

Variações sobre vozes esmorecidas – Jorge Abegão

Artigo publicado no 7º número da revista AJA, em Maio de 1993

Seleccione a imagem para a aumentar.

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Bernardo SantarenoDiscografiaTestemunhos
03/05/2006By AJA

Bernardo Santareno sobre a música de José Afonso

Incluído originalmente no álbum “Traz outro amigo também” aqui fica o sempre actual texto de Bernardo Santareno.


A arte de José Afonso é um jorro de água clara, puríssima, portuguesa sem mácula. Realmente é a “pureza” a nota maIor desta arte: Pureza de voz, pureza no poema, pureza na música. Neste disco, um dos mais ricos quanto a valores poéticos, é ela que domina: Trova antiga purificada, folclore limpo de excrescências, balada de combate em que a justiça vai de bandeira. E o ouvinte fica tonificado, «limpo», cheio de graça, com mais vigor para a luta. No chiqueiro velho e saudosista, insignificativo e feio da música ligeira do nosso país, José Afonso surgiu como um renovador: De riso claro e leal, com punho duro de diamante, terno e gentil sem maneiramentos. Limpou crostas, desatou amarras, descolniu ramos verdes e ocultos, abriu janelas na parede bolorenta do fatalismo lusíada. E como esta arte pura e viril habitava já, nebulosamente, nos anseios da Juventude que tanto pechisbeque musical mórbido e paupérrimo a traz nauseada, José Afonso conseguiu rapidamente uma enorme audiência. Ele é hoje o mais autêntico trovador do povo português, nesta hora que todos vivemos. Ninguém melhor que ele transmite os seus desesperos e raivas, as suas aspirações de amor, de paz, de justiça, de verdade. Por isto, todos o amam. E o amor do povo, dos jovens, de todos aqueles que ainda não estão definitivamente contaminados, esclerosados, é, tenho a certeza a recompensa e a glória de José Afonso. Nem tudo está podre no reino da Dinamarca.

Bernardo Santareno

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TestemunhosXoán Gutían
28/02/2006By AJA

Texto de Xoán Gutián

(Texto enviado a Viriato Teles)

Amigo Viriato, amigos do Zeca: Foi alá polo ano 1972. Moi poucos na Galiza sabían do Zeca e moi poucos coñecían a realidade dura e triste de Portugal. En maio daquel ano chegou a Compostela da man do Zeca un ar novo que nos falaba de liberdade, de solidariedade, de paz. Sobre o escenario do Burgo das Nacións cantou por vez primeira en público oseu “Grândola”.¡Que lonxe estabamos de saber o que esa canción significaría no futuro! Pero, ¡que cerca sentimos aquela tarde ó pais amigo,a súa realidade, o seu combate!. Foi a vosa canción, pero tamén foi para sempre nosa.Tiña eu 17 anos e non esquecerei nunca aquel día. A voz do Zeca, transparente e luminosa, marcou para sempre a miña traxectoria persoal:Portugal, quer dicir os portugueses (que non hai máis patria que os homes),converteuse xa para sempre nunha constante na miña vida. Foi o mellor regaloque recibín e nunca poderei pagar a débeda que teño contraída.Pasaron logo moitas cousas..A vida dá moitas voltas e eu pasei de ser o mozo deslumbrado pola voz e a poesía do Zeca a ser “o home do armario”… Zelia,Joana e Pedro saben do que falo. Nunca esquecerei. Agora, cando teño dúbidase cando me sinto triste, pego na viola e canto…Sempre Zeca. Seguirán existindo miserias, explotacións, crimes e torturas – existe Guantánamo, por citar un caso- pero o futuro vai ser moito mellor porque andan polo ar as notas das cancións do Zeca, a súa voz, a súa palabra, quenos axudan a saber que o mundo será, máis cedo que tarde, unha cidade sen muros ne ameias.E cando as cousas van mal, cando o pao que comes sabe a merda, o que faz falta é lembrar ó Zeca: cantor, amigo e mestre. Obrigado polos esforzos que facedes mantendo viva a memoria dun artista irrepetible e dun cidadán exemplar.Desde Galiza, unha aperta forte do amigo 
Xoán Guitián
Facultade de Química-Biblioteca
Avda. das Ciencias, s/n15782 – Santiago
xguitian@hotmail.com

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ImprensaTestemunhos
27/02/2006By admin-aja

O Zeca Afonso é o nosso Bach

Admiradores do cantor querem ver a obra
“fora do comum”
que ele deixou estudada em profundidade

Omnipresente, o espírito de José Afonso pairou, desde a tarde de sexta-feira até à madrugada de ontem, por todos os recantos do Centro Cultural Vila Flor, de Guimarães – até no parque de estacionamento se ouviam os discos do Zeca. No exterior, uma Chaimite e alguns soldados tornavam mais óbvia a relação umbilical com Abril. Debates, exposições, livros, filmes, documentários e, claro, muita música em dois concertos – com reminiscências do canto livre e dezenas de amigos em palco – atraíram mais de um milhar de pessoas (entre eles, três padres ou antigos sacerdotes) à homenagem que marcou os 19 anos da morte do cantautor. A canção, essa, continua viva. Aliás, ouviu-se dizer que foi dos maiores criadores universais, melhor do que os Beatles e só equiparável a Bach. Por isso, rompeu um clamor: “Estude-se o Zeca!”.
“Bach sintetizou tudo o que havia antes dele e reinventou o futuro. Depois dele, ninguém inventou mais nada. O Zeca Afonso é o nosso Bach”, sublinhou no debate o professor universitário Alípio de Freitas, ex-padre e guerrilheiro, companheiro de Che Guevara e precursor do Movimento dos Sem-Terra, a quem o cantor dedicou um tema quando ele era torturado nas prisões da ditadura brasileira. “Estudem-no profundamente, porque ele foi adiante de qualquer um”, exortou Alípio, num emocionado testemunho – em especial quando se referiu à canção que o ajudou a sair do cárcere e se tornou num símbolo da luta contra a opressão na América Latina.
O paralelismo entre José Afonso e os clássicos foi também estabelecido pelo crítico musical Octávio Fonseca – autor de livros sobre Carlos Paredes e José Mário Branco. “O Zeca utilizava compassos combinados, muito pouco usuais até na música erudita”, acentuou, no decurso de uma explicação técnica sobre a obra do cantor, ilustrada com temas em que a “linguagem metafórica é mais incompreendida”. “Poeta brilhante e melodista fora do comum com uma imaginação desabrida”, sintetizou o crítico musical, para quem a nova música popular portuguesa terá resultado da “transformação” que José Afonso operou na canção de Coimbra.

As “missas ateias e inócuas”
O padre Mário de Oliveira (da Lixa) preferiu traçar outro paralelismo: entre José Afonso e Jesus Cristo – ambos “politicamente perigosos”. E aludiu à força que a fé cristã e a revolução podem ter quando unidas, sem deixar de referir que o Zeca “se está burrifando” para as homenagens, preferindo ver “outros a lutar pelas suas causas”. Se assim não for, sublinhou Mário de Oliveira ao seu estilo demolidor, este tipo de iniciativas “não passam de missas ateias e inócuas e de feiras de vaidades”.
Na mesma linha, o jornalista Rui Pereira pediu “menos entronização e mais estudo” para a obra de José Afonso, enquanto outro jornalista, Viriato Teles, relembrou o sentido de humor do autor da senha do 25 de Abril, e pediu que haja sempre “festa” nas homenagens que lhe façam.
E foi isso mesmo que aconteceu durante os concertos de sexta e sábado à noite. A solo ou em grupo, misturados ou não, dezenas de amigos cantaram as músicas do Zeca – os contemporâneos, como Manuel Freire, Pedro Barroso e o padre Francisco Fanhais, evocando também alguns episódios desconhecidos. Os outros – como Amélia Muge, Canto Nono, Astedixie, Luanda Cozetti (filha de Alípio de Freitas) ou os galegos Uxía e Ardentía – mostrando a influência do Zeca na sua formação.

Alexandre Praça, in Jornal Público, 27.2.2006

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TestemunhosViriato Teles
10/02/2006By AJA

Um pássaro igual a ti

Provavelmente, o mundo está mesmo feito às avessas! Anda um tipo como este Zeca a vida inteira a dar a voz e o corpo pelas causas dos outros, passam-se anos a fio de viola às costas a cantar as utopias sonhadas no dia-a-dia, e acaba tudo assim. Estupidamente, numa madrugada de chuva indecisa, como se nada tivesse acontecido antes, como se tudo o passado não fosse senão um sonho longínquo.
Nós, no entanto, sabemos que não foi um sonho. Crescemos a ouvir Menino de Oiro e Os Vampiros, aprendemos de cor os versos de Vejam Bem e de Grândola. Aprendemos, com o Zeca Afonso de todos os cantares andarilhos, a saborear o gosto dos encantos e das emoções, a desejar e a lutar pelas cores da liberdade.
Com Zeca e os seus companheiros aprendemos, ainda, que é muito menos fácil formular perguntas que encontrar respostas. Que as veleidades da ‘vida artística’, na qual ele nunca se encaixou, são como os foguetes de romaria, que desaparecem no ar após um instante de brilho e que, portanto, o importante é estar vivo, ter como única certeza a inquietação permanente.
Há coisas assim, que parecem impossíveis. Depois vêm as inevitáveis cortesias-de-velórios, mas quanto a isso estamos conversados. Afinal somos um país de homenagens póstumas, não é? Que o digam o Adriano, Jorge de Sena, Fernando Pessoa. Que o diga agora o Zeca, ele que foi sempre tão dado a encolerizar-se com estas coisas.
Veja-se a Televisão, que esperou a sua morte para mostrar, lacrimosa, as suas cantigas. Veja-se o poder, que tudo lhe negou em vida, para descobrir agora (só agora, ó céus?) que, afinal, Zeca é um símbolo da democracia e da resistência antifascista! E proclama hossanas em sua glória, como se já não bastasse a dor que ficou.
Felizmente, os que aprenderam com Zeca as mais belas lições de liberdade já se aperceberam também de todo o ridículo que se esconde por detrás destes lamentos hipócritas. E sabem que José Afonso, poeta e trovador, não é dos que morrem assim, sem mais aquelas.
Sabemos que o sonho permanece, em cada esquina, em cada rosto, em bisca da terra da fraternidade. Quanto a ti, Zeca, faz como sempre fizeste até aqui: não lhes ligues, ri-te deles, lá desse cantinho onde agora te encontras, provavelmente a contar ao Adriano as últimas cá de baixo. Afinal, já sabes como é: o mundo está mesmo feito às avessas. Se assim não fosse ainda agora por cá te teríamos, a mandar vir como era teu hábito contra “essa cambada engravatada e escolopêndrica” que insiste em controlar a gente. E até vão fazer de ti nome de rua, imagina!
Olha: lá fora, aqui mesmo a dois passos desta mesa de onde te recordo, há um pássaro a recolher-se da chuva que, teimosa, vai caindo. Ou serão lágrimas? Seja como for, o pássaro é igualzinho a ti: por mais que tentem, ninguém consegue impedi-lo de voar.
Viriato Teles

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Fernando Assis PachecoTestemunhos
10/02/2006By AJA

Só me calham Dukes

José Afonso, Viriato Teles e Fernando Assis Pacheco em Azeitão. Foto de Joaquim Bizarro.
 
 
Privei pouquíssimo com o Zeca, não fiz parte dos seus amigos mais chegados, a última vez que estivemos juntos foi em casa dele e havia o sentimento pesado da morte que entrava já pela varanda, bulindo com os cortinados.
Estas efemérides são muito chatas porque, não tendo nós o dom da ressurreição, caímos não obstante num discurso tão próximo do evangélico que soa a falso. Vou tentar fugir-lhe.
A primeira vez que ouvi falar do Zeca já se dizia assim mesmo, Zeca, e não José Afonso. Cantava esplendorosamente o reportório do fado de Coimbra. Eu costumava não me intrometer nessas conversas tribais em que outros eram aparentemente exímios e tiravam todo o prazer da evocação dos grandes tenores e barítonos da escola local. Havia mesmo quem coleccionasse velhos discos de gramofone comprados a preços altos. A mim tanto se me dava: estava a tirocinar para utente nocturno do programa de jazz da Voz da América, vício que convinha não revelar aos então companheiros de esquerda, por sinal hoje bandeados na sua quase totalidade para a comarca de onde vem papel, papel a sério, sendo que vários deles até deputam, ó meu Deus!
Bom, não importa, eu era capaz de gostar do Zeca e do Duke Ellington, à vez ou ao mesmo tempo. Um solo a introduzir o Perdido parecia-me tão rico e tão cheio de música como qualquer canção da Beira Baixa ou dos Açores arregimentada pelo fado da cidade. O que eu não fazia era correr a foguetes para um sarau da Queima das Fitas, e escusassem de me lembrar as serenatas ditas monumentais na Sé Velha porque a essa hora onde eu já ia.
Ao Zeca habituei-me. Foi de resto fácil: andava no Orfeon Académico e ele tinha por hábito juntar-se ai grupo nas excursões, actuando em fim de festa. Era simplesmente o melhor. A voz mais bonita, a interpretação mais inteligente. Aí eu calava-me muito bem calado, cedendo ao instante mágico. Mas nunca falámos disso. Para quê, se eu devia parecer-lhe o que realmente parecia à vista desarmada, um pernóstico sem cura.
Também não assisti à guerrilha da balada em Coimbra, pelo motivo bem mais prosaico de uns anos de tropa com que a Sagrada Família me entreteve, mas na hora de fazer as malas escolhi dois discos de 45 r.p.m. do Zeca para irem estagiar comigo em Nambuangongo e Zala, de onde voltaram tingidos de um castanho avermelhado que era a vera cor da guerra. Foram muito ouvidos nos dois aquartelamentos, até pelos srs. oficiais de carreira, que não eram propriamente surdos e agradeciam uma musiquinha de fundo para empurrar o quinto ou sexto brande à noite, pouco antes do chichi-cama.
E pronto, acabarm-se os tiros, voltámos todos ou quase, o Zeca também tinha ido veranear a África (Moçambique, no seu caso),vieram uns versos, veio a música dele, ele às tantas foi para Setúbal e eu remanesci em Lisboa. Em vinte anos não nos teremos encontrado duas vezes vinte vezes. Mas tive ocasião de escrever sobre os discos dele, ou somente sobre ele, entrevistei-o em Caldas da Rainha, lá fui uma tarde a Azeitão com o Viriato Teles – a cena dos cortinados – e depois foi o fim.
Recordam-me duas histórias. Uma em 1960, em Paris, quando a meu pedido ele entrou numa livraria toda pinoca para requisitar gratuitamente a antologia do Maiakovski traduzida pela Triolet, que eu não tinha massas para comprar. Foi tudo rápido e brilhante e nem o Houdini teria feito aquele passe que o Zeca fez. Só faltaram as palmas.
A outra é o recital de despedida no Coliseu, insuportavelmente belo. Ele sobe ao palco, ajeita os óculos, baralha-se com os papéis, tenta descobrir ao longe – mas não é possível, as luzes cegam-no – uma cara conhecida com quem dividir a emoção do momento. A minha servia, mas o Zeca está longe e não me topa.
Digo-lhe adeus com a mão.
 
Fernando Assis Pacheco

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Testemunhos
10/02/2006By AJA

Portugal, José Zeca Afonso y la Revolución de los Claveles

Este mes se cumple el veinticinco aniversario de la “Revolución de los claveles”, movimiento militar de carácter progresista que contó con gran apoyo social y puso punto final a la dictadura salazarista en Portugal. A las cero horas de aquel histórico y primaveral 25 de Abril, el programa “Límites”, de Radio Renazenca, comenzó a emitir los acordes de “Grandola, Vila Morena”. Fue la consigna para poner en marcha el engranaje revolucionario. La la letra y la música eran de José Afonso, la figura más importante de la canción portuguesa de este siglo, y una pieza clave de la música popular de todo el mundo. “Zeca” Afonso dejó un legado de integridad y compromiso.
José Afonso ha sido una de las grandes glorias nacionales de Portugal, como Camoens -asegura el cantautor musical José Mario Branco, uno de los artistas que más cerca estuvo siempre de Zeca Afonso- y fue abandonado en sus horas bajas por algunos que le deben todo lo que son. Muchos ciudadanos de este país han aprendido a pensar y sentir gracias a él.
No se puede entender la importancia y la trascendencia de la obra artística de José Zeca Afonso, sin hacer una aproximación cabal a la personalidad humana y política de este irrepetible portugués nacido en Aveiro, quien murió sin reconocimiento oficial, a pesar de su enorme compromiso y su gran talento.
Durante toda su vida, mantuvo un inquebrantable compromiso artístico y político, primero contra la dictadura de Salazar y, al final de sus días, frente a la contrarrevolución encabezada por el Partido socialista de Mario Soares. Zeca fue consciente siempre de que su honradez navegaba a contracorriente, pero en ningún momento abandonó sus principios y su coherencia. Por eso detestaba el desencanto, que él calificaba como una mera justificación para los traidores.
Su defensa de la democracia popular, directa y no institucionalizada, le acarreó las críticas y el rechazo de algunos sectores políticos, incluso de izquierda. Zeca Afonso cantaba incesantemente para el pueblo, en cooperativas agrarias y comissioes de moradors, utilizando sus exquisitas creaciones como vehículo para las movilizaciones.
Físicamente más alto que la mayoría de sus paisanos, complexión fuerte, mirada profunda y aire tímido e introvertido, José Zeca Afonso sería el antidivo por excelencia. Sensible y depresivo en algún momento, era profundamente irónico y mordaz, tal cual resulta patente en muchas de sus creaciones.
En alguna actuación suya, y con frecuencia, olvidaba hasta versos de sus propias canciones. De ahí su permanente preocupación por conseguir siempre un atril para consultar la letra que él mismo creaba. En otro momento, algún espontáneo le sujetaba las notas o le soplaba cuando algún lapsus le asaltaba.
Zeca Afonso era muy aficionado al deporte; con el nombre de Cerqueira en los partidos de fútbol, sus jugadas con el siete a la espalda fueron jaleadas por los seguidores del grupo juvenil Académica de Oporto. Sentía especial predilección por el corredor Mamede, especie de Curro Romero del maratón, atleta genial y emperador de la espantada.
Programas deportivos y pocos más eran los que Zeca veía en televisión, un medio al que siempre tuvo en su punto de mira y al que ridiculizó en memorables canciones como Acupuntura en Odemira.
Durante los últimos años de vida, en su casa de Vila Nogueira, en Azeitao, cuando la atrofia muscular, que acabaría produciéndole la muerte, hacía mella en él, manteniendolo postrado en cama, Zeca se resistía a ser un televidente pasivo.
Hasta el último momento mantuvo una entereza y lucidez inusitadas; no se puede evitar el escalofrío y la emoción al recordarle frente a una mesilla repleta de pastillas de todas clases y colores, haciendo un esfuerzo para tomar una taza de café sin ayuda de nadie. Aún más, escuchando los versos de la impresionante Canción de la paciencia, incluida en el compendio Como se fora seu filho, que dice, entre otras estrofas, que Muchos soles y lunas nacerán,/ más olas en la playa romperán,/ ya no tiene sentido tener o no tener/ vivo con mi odio a mendigar./ Tengo muchos años para sufrir,/ más de una vida para andar,/ bebo la hiel amarga hasta morir./ Ya no tengo pena, sé esperar.
La puerta de entrada a su casa de Vila Nogueira, pueblecito situado entre Lisboa y Setúbal, tenía un cartel muy elocuente: Nao ao ley fascista da segurança. En su interior, multitud de detalles, cuadros y carteles alusivos al 25 de Abril dejaban claras sus inalterables posiciones políticas. Zeca Afonso nos dijo que “a mí me curaría de verdad otro 25 de Abril. Acabaría con todos mis problemas y dolencias. Lo peor de mi estado actual es ver cómo la situación política y social se deteriora cada vez más, sin poder contribuir a cambiar la inercia con todas mis fuerzas. De las conquistas del 25 de Abril sólo quedan algunas pequeñas libertades formales, cada vez más restringidas”.
Su domicilio fue centro de reunión y punto de referencia para mucha gente. Amigos de Portugal, de España y Francia se acercaban constantemente hasta aquel pueblecito, en la comarca de Azeitao, donde residía José Zeca Afonso, para verle, hablar y estar junto a él. También un grupo de niños del colegio local de diez o doce años, que editaba el periódico contra la dirección del centro, tenía instalada en casa del músico su infantil redacción.
Licenciado en Filosofía e Historia, José Zeca Afonso fue profesor de instituto hasta 1968, fecha en la que lo inhabilitan para ejercer cualquier puesto docente, como una represalia política. Hasta el año 1983 no se le reconocieron de nuevo sus derechos. Al morir, Zeca Afonso cobraba 30.000 pesetas mensuales de pensión. Entonces, era su único ingreso. Su productor musical, Arnaldo Trindade, quien le bautizó como el papa de la canción portuguesa, en símil poco afortunado, no le pagó nunca sus derechos de autor.
José Zeca Afonso comentaba con cierta amargura la gran desbandada de muchos antiguos progresistas portugueses, conocidos suyos, hacia posiciones cercanas al poder político y económico.
“Muchos se han vendido por un plato de lentejas y han justificado su actitud diciendo que estaban desencantados. Me gustaría saber de qué pueden estar desencantados, si aquí no se ha producido ninguna revolución. Lo que estamos viviendo es una contrarrevolción. Si hubiese cambiado algo, y no estuviesen de acuerdo, lo entendería. Pero este no es el caso. Ese desencanto no es más que una justificación para los que nunca han estado encantados y para todos esos traidores”.
Al realizar el menor acercamiento a la figura de José Zeca Afonso, resulta inevitable recordar, con todo el cariño del mundo, a Zélia, su entrañable compañera, mujer de una dimensión humana excepcional, e irrepetible, como José Zeca Afonso; junto a un nutrido grupo de amigos, Zélia impulsó la creación de la Associaçao José Afonso, con la pretensión de dar a conocer, en sus multiples facetas, el papel histórico de José Afonso y también su personalidad militante, como promover la difusión de toda su obra y contribuir a salvagaurdar su integridad y calidad, además de crear un centro de documentación sobre la vida y obra del artista portugués.
A pesar de haber concebido piezas ya clásicas, Zeca Afonso siempre fue muy autocrítico: “Me he dedicado durante años a componer canciones en condiciones precarias, más preocupado por conseguir una comunicación fuerte y por actuar políticamente, que por perfeccionar todo lo que yo quería de mi trabajo. He sido bastante cuidadoso y exigente pero, lógicamente, siempre he estado condicionado por mi intención propagandística”.
Siempre se manifestaba en contra de la denominación de canción protesta para con su obra: “El músico es quien protesta, no la canción”. Por eso mismo insistiría en la necesidad del claro compromiso ético de artista, o trabajador del arte, como él siempre decía.
Fue pionero en la reivindicación de las corrientes musicales africanas, y la influencia de aquellos sones está presente en toda su obra. También en esto se adelantaba a su tiempo. Canciones maestras, como Ailé, Ailé o Un homem novo veio da mata son elocuentes muestras. El elaborado lirismo de sus temas no dejó nunca lugar a la tibieza en el mensaje: tu muerte, pintor,/ reclama otra muerte igual,/ sólo ojo por ojo/ y diente por diente vale. Canta en A morte saiu à rua, un precioso y dramático tema dedicado a José Días Coelho, pintor y escultor comunista asesinado a tiros por la policía política de la dictadura salazarista (temible PIDE portuguesa, hermana de la BPS franquista), de día y en plena calle. En el Cantar Alentejano, una bella y sentida creación dedicada a la campesina antifascista Catarina Eufemia (embarazada cuando la asesinó un teniente de policía, con tres disparos a bocajarro), el mensaje es similar: Quien vio morir a Catarina/ no perdona a quien la mató.
José Mario Branco nos relataba, emocionado, cómo se realizó la grabación del tema, en un estudio francés: “El sistema de grabaciones hacía que, desde el principio de esa tarde, fuese el momento que debía grabar “Cantar Alentejano”; ¿vamos a ello, Zeca?, le dije. Naturalmente, preocupado por la factura del estudio. ¿No tienes nada para ir metiendo?, contestó; se veía que todavía no estaba dispuesto; el alma de Zeca, me dí yo cuenta después, estaba toda en el Alentejo, en los ojos de Catarina Eufémia. Como tantas veces le sucedía, andaba por el estudio de aquí para allá, dando pasos nerviosos, como un joven león en su jaula. Hasta que, ya al final de la tarde, dijo: “Salgo fuera, para ver a las vacas” (el estudio estaba en una finca rodeada de campos). Desapareció una o dos horas. Cuando volvió ya era casi de noche: “Vamos a grabar a Catarina”. Zeca, en mitad del estudio, solo y a oscuras, cantó. Una sola vez. Y esa es la que está en el disco. Nosotros, privilegiados espectadores, estábamos en la central técnica, todos llorando, incluido el técnico francés. “¿Consideráis que es mejor que cante esto otra vez?” “No Zeca, no. Está muy bien así”.
Actuó por última vez en directo en el Coliseu dos Recreios lisboeta, en 1983, precisamente el lugar donde, nueve años antes, “Grandola” se convirtió en un himno para la historia. Aquella velada quedó recogida en un disco vibrante, en el que José Afonso, canta, ya con ciertas dificultades, arropado por todos sus músicos y sus amigos más incondicionales.La enfermedad fue avanzando inexorablemente desde entonces hasta 1987, pero, a pesar de todo, compuso en este periodo temas para dos nuevos discos.
José Afonso Cerqueira dos Santos murió el 23 de febrero de 1987, con 58 años. Una multitud veló el cadáver en la capilla ardiente que tuvo lugar en el Club Naval de Setúbal, núcleo proletario del cinturón industrial de Lisboa, capital de la Revolución de los Claveles. Su entierro constituyó un último ejemplo: tras el féretro marchó primero el pueblo anónimo, coreando una vez tras otra sus canciones y enarbolando banderas rojas, simplemente, sin ningunas siglas, y claveles del mismo color; detrás, los gremios operarios, y por fin, enmascarados en el gentío, desfilaron algunos políticos que en vida de Zeca no se habrían atrevido a acercarse a él.
Muchos integrantes del sepelio iban de negro, a pesar de que Zeca había exigido que nadie se vistiera de luto por su muerte. Más de cien canciones, numerosos poemas, varios cortos de cine, media docena de obras de teatro y, sobre todo, aquel ejemplo de honestidad e integridad que constituyen su importante legado, junto a lo que supuso la Revolución de los Claveles.

Alfredo Disfeito

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Caetano VelosoLuís Pinheiro de AlmeidaTestemunhos
10/02/2006By AJA

O «London London» de Zeca

Londres, 1970, talvez. José Afonso gravava Traz Outro Amigo Também nos estádios da Pye. Ao lado, os Status Quo registavam o segundo álbum, Spare Parts mas tinham de o interromper de quando em quando para não prejudicar o andamento mais sereno de Zeca. Dois jovens técnicos tratavam do Zeca e do Bóris. E nem quando verteram um copo de café no gravador ficaram aflitos. Aflitos ficavam quando amiúde José Afonso tinha de interromper a gravação porque se esquecia da letra do que estava a cantar.
Londres fervilhava. Era o fim dos Beatles, do «Chelsea Drugstore» que os Stones cantavam, o aparecimento dos skinheads, a morte lenta dos hippies, da Carnaby Street e de King’s Road.
Mas havia outros motivos de interesse. Para Londres convergiam os exilados políticos de outros países, nomeadamente do Brasil. Entre eles, Gilberto Gil e Caetano Veloso que cedo conviveram com Zeca.
Nos intervalos das gravações, o Zeca jogava judo comigo em casa da Nina, em Oakley Street, no coração de Chelsea. A irmã, Manuela, cuidava das moedas no meter para não faltar a electricidade. O seu companheiro, José Labaredas, homem bom do Couço, amigo do Zeca, cantador de fados de Lisboa, assistia. Todos juntos éramos uma família. Faltava Rui Pato, meu vizinho da instrução primária em Coimbra. Por causa da crise académica de 1969, onde fora um dos dirigentes estudantis, a PIDE não o deixara sair do País.
Uma noite, fomos todos jantar a um dos restaurantes portugueses de Beauchamp Place, mesmo ao lado do Harrods. Ou foi no Fado ou na Caravela, já não me lembro. Eu, o Zeca Afonso, o Zé Labaredas, a Nina, a Manuela, a Milu, todas irmãs, o Gilberto Gil e o Caetano Veloso. Caldo-verde lembro que comemos.
No meio dos pastéis de bacalhau, Caetano Veloso confessou que estava atrapalhado. Os seus amigos do Brasil perguntavam-lhe como era a vida em Londres. Ele queria responder com uma canção, mas não sabia como.
E foi nessa noite londrina, num recanto bem português, que José Afonso trauteou o que viria a ser o famoso «London London» de Caetano Veloso. Sem créditos, a não ser para os que assistiram ao parto da canção.
Luís Pinheiro de Almeida

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Carlos Correia (Bóris)DiscografiaGrândolaTestemunhos
10/02/2006By AJA

«Grândola» gravada às 3 da manhã

Quando, naquela manhã de Abril de 1970, entrei no avião com destino a Londres, para gravar com o Zeca nos estádios da Pye, apenas sabia trautear alguns dos temas que, no conjunto, formariam o álbum intitulado Traz Outro Amigo Também.
De facto, a minha inclusão naquele trabalho tinha sido decidida poucos dias antes e por razões (como era hábito) um pouco fortuitas. O meu passado musical, muito mais ligado à guitarra eléctrica e ao rock (exercido em conjuntos «à Shadow» ou «à Beatle» como foram os HI-FI e os Álamos), tinha apenas uma única experiência na arca da MPP (Música Popular Portuguesa!) com o disco que tinha gravado com o Duarte e Ciríaco.
Assim, apesar de pouco credenciado para a tarefa, entrei facilmente nos temas e, recordo claramente, nunca receei falhar na sua execução em estúdio. Sei agora que esta confiança derivava directamente da universalidade da música do Zeca.
Acontecia-me afinal o que acontece quando contactamos com uma obra tão consistente como a do Zeca: parece-nos que já a conhecíamos há muito tempo e que, mais do que isso, ela já estava dentro de nós. Foi sempre assim com a música dele. Quando ele a expunha pela primeiríssima vez (às vezes ao telefone e a desoras) vinha a sensação inevitável de «eu já senti isto». E já. Só que o Zeca sabia traduzir tudo isso para um formato exteriormente inteligível.
À partida do aeroporto, a primeira surpresa: o Luís Filipe Colaço (homem da rádio, companheiro de Coimbra e ex-guitarrista dos Álamos), já dentro do avião, é chamado pelo comandante, mandado sair e retido em Lisboa pela DGS por dois ou três dias. Conseguiu juntar-se a nós em Londres, mais tarde, recorrendo sei lá a que expedientes para convencer os zelosos Pides da inocuidade da sua viagem.
À chegada, a segunda surpresa. A guitarra que, muito profissionalmente, levava sob o assento e sem caixa protectora, apresentava uma rachadela monumental que a tomava, para sempre, inútil.
Só os bons ofícios dos amigos que o Zeca tinha em Londres (o Zeca tinha amigos em toda a parte) permitiram arranjar uma guitarra decente para a gravação.
As sessões no estúdio começaram com o «Maria Faia» e com a delícia de trabalhar com uma máquina de 4 (quatro!) pistas. A abundância de meios técnicos, superiores aos que conhecíamos, foi inspiradora. Pude sobrepor várias faixas de guitarra, obtendo efeitos orquestrais que, na época, pareciam interessantes.
As onze faixas foram gravadas sem sacrifício em várias sessões diurnas, ao longo de duas semanas ponteadas por passeios pela grande capital que parecia, então, tão diferente do nosso meio natal.
Nos corredores alcatifados do hotel, o Zeca colocava a sua energia em demonstrações amigáveis de judo (modalidade que abraçara recentemente).
Dos muitos amigos que apareciam no estúdio para ver o grande autor-intérprete, como já era reconhecido, recordo o brasileiro tropicalista Gilberto Gil, exilado pela ditadura. Esteve presente na gravação de «Verdes São os Campos» e a introdução de guitarra – inventada na hora – teve a sua aprovação.
Terminado o trabalho e quando, já em Portugal, recebemos um exemplar do disco para avaliação, o Zeca reprovou-o por não gostar da mistura e deu instruções para esta ser feita de maneira diferente. Se havia (e havia) zonas em que o Zeca não fazia concessões, uma era de certeza a que dizia respeito ao ambiente musical das suas canções, especialmente se eram para colocar em disco.
Nos dois discos que gravei com ele, testemunhei esse perfeccionismo, inesperado num homem tão simples e que não era, de modo nenhum, um instrumentista, nem um conhecedor das subtilezas técnicas dos estúdios de gravação. Nem precisava ser.
Ainda conservo o protótipo rejeitado (um vinil). A venda do disco, editado pela Arnaldo Trindade, decorrera como era costume: um ou dois dias nas montras das lojas e, depois da proibição pela censura, clandestinamente e ao mesmo ritmo. Ficámos, provavelmente, a dever ao Sr. Arnaldo Trindade a edição de autores como o Zeca e o Adriano, em condições comercialmente tão adversas.
No ano seguinte – em Outubro/Novembro a minha segunda experiência discográfica com o Zeca. Aqui, já ele tinha ouvido as duas vozes portuguesas no exílio em Paris que traziam os sons novos que ele constantemente procurava. O José Mário Branco foi incumbido da direcção musical desse novo disco que viria a chamar-se Cantigas do Maio. Foi ele que enquadrou o Zeca num ambiente de trabalho bem estruturado e com o tacto humano adequado a não fazer o Zeca sentir-se engaiolado e artisticamente diminuído.A gravação decorreu num castelo-estúdio dos arredores de Paris e teve a colaboração (bem audível em algumas faixas) do Francisco Fanhais.
A direcção musical e a presença humana do Zé Mário Branco revelaram-se fundamentais para o bom sucesso do trabalho. O seu conhecimento do meio musical parisiense conseguiu trazer ao estúdio músicos de primeira categoria -como é o caso do percussionista Michel Delaport, com os seus sons indianos tão bem aproveitados no «Senhor Arcanjo».Foi aí que gravámos (em sessões, desta vez, nocturnas) o «Grândola» com o som dos passos obtido no exterior do castelo às três da manhã.A mistura final foi feita no estúdio e desta vez (abençoado Zé Mário) não foi rejeitada.Foi o meu segundo e último disco com o Zeca. A minha vida profissional afastou-me irremediavelmente do meio e só volto a vê-lo, anos mais tarde, no quarto de urna clínica em Coimbra. Já estava ferido de morte pela doença, mas pensava ainda em mais canções e tinha esperança.
Carlos Correia (Bóris)

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Rui PatoTestemunhos
10/02/2006By AJA

Ensaios na «Brasileira»

Conheci o Zeca nos meus 16 anos, tinha ele 33, já licenciado em Letras, a leccionar em Mangualde, mas aproveitando todas as folgas para vir a Coimbra, ansioso por mostrar aos amigos as suas últimas baladas.
Até essa altura, a sua actividade musical tinha sido, na década de 50 e princípio da de 60, a de um estudante com boa voz, que cantava no Orfeão e que, juntamente com o Rolim, Machado Soares, Goes, Levy Baptista, Lopes de Almeida, Portugal, Brojo e outros, se agrupavam para executar fados e guitarradas, actuando quer em espectáculos do Orfeão, quer em espectáculos da Tuna, quer em serenatas e, de vez em quando, para a gravação de um disco de fados.
Eu ouvi o seu nome, as primeiras vezes, ao meu pai que, como jornalista em Coimbra, fazia questão de viver intensamente a vida coimbrã, saltitando das tertúlias futrico-intelectuais para as académicas. E nestas últimas pontificava o Zeca, como o seu bom humor, com as suas permanentes distracções e com uma irreverência intelectual a que chamavam de «existencialista». Mais tarde, já com os meus 12 anos, ao tentar a minha sorte como aprendiz de fadista, acompanhando à viola rapazes da minha idade em guitarradas e fados, o nome do Zeca vinha à baila, a propósito dos fados que ele cantava como ninguém (os «Contos Velhinhos», «Aquela Moça da Aldeia», etc, etc.) e que nós tentávamos imitar no seu jeito de voz «caprina», como dizia o Menano. Mas em 1962, ano tumultuado em Coimbra, com a Academia envolvida numa das mais violentas crises estudantis, o Zeca, já cansado com aquilo a que chamou a «quinquilharia passadista do velho romantismo do Penedo», sempre que podia, vinha a Coimbra para sentir esse fervilhar das novas gerações.
Começa assim a sua fase de ruptura com aquilo que mais o tinha ligado até então à cidade, «o tanger dos bordões da viola, as casas de prego, as bicas nos cafés da Baixa e as arengas dos teóricos da bola».
Possuía, além disso, um profundo conhecimento do grave problema colonial, porque, além de ter em Moçambique muita família, fez algumas digressões com a Tuna e com o Orfeão às colónias. Era, também, um tempo de separação dolorosa com a mulher que lhe tinha dado os seus primeiros dois filhos.
É neste contexto de viragem, caldeada com muita angústia, que conheço o Zeca. A sua mudança deveu-se, no meu entender, ao seu amadurecimento intelectual, às profundas marcas deixadas pela desilusão afectiva, às mudanças do ambiente coimbrão, à desilusão dos primeiros anos de docência, às notícias de África e, muito principalmente, ao contacto com novos amigos como o Barahona, a Luísa Neto Jorge, o Luís Andrade, o Bronze, o Pité e tantos outros.
Ele vinha de Mangualde a Coimbra para mostrar aos amigos um outro tipo de música, sem o «espartilho da Guitarra de Coimbra» [com letra maiúscula no original], com uma grande liberdade rítmica e que necessitava apenas de uns leves acordes de viola para sublinhar o poema que era o mais importante da canção.
Assim nasce «Menino de Oiro», «Tenho Barcos, Tenho Remos», «Os Vampiros», «O Senhor Poeta», etc., ensaios muitas vezes feitos no segundo andar do Café Brasileira, ou em minha casa ou em qualquer República onde ele tinha o estatuto de «livre trânsito» quando vinha a Coimbra e necessitava de dormir.
Conseguiram-se os dois primeiros EP que tanto escândalo provocaram nos meus «amigos do fado». Foi considerado uma afronta à tradição. Mas os meios intelectuais e os meios operários de esquerda logo nos aproveitaram para saraus mais ou menos clandestinos. Zeca vai tentando o ensino, saltitando, depois de Mangualde para Aljustrel, Lagos, Faro, Alcobaça e de novo Faro.
Os ensaios eram poucos, feitos quase sempre nas férias. Foi a minha primeira oportunidade de conhecer o Algarve: em 1963, fiquei uma semana na sua casa, no n.º 68 da Rua Duarte Pacheco, em Faro. Partíamos de manhã com destino à ilha do Farol ou da Armona, de barco com a viola e uma ração de duas sanduíches e duas meloas. Quando eu não podia ir ter com ele, vinha ele a Coimbra à boleia ou então apanhava o comboio até à estação para a qual o pouco dinheiro que dispunha dava – «venda-me um bilhete de 60 escudos em segunda classe em direcção ao norte» -, fazendo o resto à boleia ou a pé e cá chegava cheio de fome, sem um tostão no bolso, e com um bornal com uma muda de roupa, alguns medicamentos e muitos livros.
Negociávamos, na altura, um contrato com a Rapsódia, que lhe desse alguma estabilidade económica. O Zeca pretendia quatro contos por mês e cinco por cento na percentagem das vendas. Mas partiu em Agosto de 1964 para África, sem conseguir esse «fabuloso contrato», mas feliz com o seu recente casamento com a Zélia. São dois anos em que semanalmente escreve para minha casa, com o remetente «caixa postal n.º 50-Beira», cartas repletas das suas próprias contradições, da sua instabilidade, mas cheias de notícias dessa África em ebulição. Terminavam sempre com o envio de abraços para o Serrano, Abílio, Rui Mendes e para toda a malta.
«Quero aí chegar a tempo de mandar rufar os tambores que para o efeito tenho ensaiados e ouvir o coro que ressuscitará o Lázaro do seu túmulo», escrevia ele em Março de 1965. E veio, pois em 1967 acabou por ser expulso de Moçambique por vários problemas com a administração colonial.
Volta e vai para Setúbal. Manda-me cassetes com as últimas músicas. Vou até Setúbal, de vez em quando, ficando aboletado na casa dele, na Quinta do Montalvão, lote 5-2.º esquerdo, com a Zélia e já com a sua terceira filha, a Joana, muito pequenita.
Mais dois LP e muitos espectáculos – Almada, Barreiro, Seixal, Vila Franca, Marinha Grande, etc., sempre casas cheias de gente de oposição ao regime da altura, muitos operários e estudantes, a PIDE a pairar e, por vezes, a intervir.
Entretanto, junta-se a nós o Adriano, o Manuel Freire, o Fanhais e outros que não me recordo. É bastante difícil avaliar o impacte que o contacto com figuras como o Zeca, o Adriano, o António Portugal, entre os 16 e os 20 e poucos anos, tem na formação da personalidade de um adolescente. Nessa altura, eu não tinha a noção da dimensão humana e intelectual desses amigos. O meu desgosto é ter tido uma fortuna enorme em ter amigos desse quilate e, na altura, sem a noção desse valor, não ter agarrado cada momento, deixando até, por vezes, que a memória me falhe e tantos momentos bonitos e ricos se percam.
A partir de 1968, devido à minha situação académica e à impossibilidade de o acompanhar ao estrangeiro para as gravações, deixo de ser o acompanhante habitual. Felizmente para o Zeca, pois assim conhece o Iglésias e o Bóris (Carlos Correia) que tocavam bastante melhor do que eu. Passo a vê-lo menos vezes, mas sempre que posso estou com ele para o acompanhar ou só para o ouvir. A última vez que pego numa viola ao seu lado e a seu pedido, foi no célebre espectáculo do Coliseu, pouco antes da sua morte.
Rui Pato

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Manuel AlegreTestemunhos
10/02/2006By AJA

José Afonso: De Coimbra até ao Sul

A voz que guardo dentro de mim não está gravada em nenhum disco: anda a cantar «contos velhinhos de amor, numa noite branca e fria», algures, em Coimbra.
Foi assim que conheci José Afonso, num Inverno de há muitos anos. Ainda se faziam serenatas, as raparigas agradeciam acendendo e apagando a luz três vezes e nós viajávamos pela noite dentro, «bêbados de coisas inextricáveis», como escrevia então Herberto Helder. Já a voz do José Afonso anunciava outras trovas, mas naquele tempo a Académica era ainda (foi-o sempre) a nossa dama, por ela sofríamos aos domingos no Calhabé ou nos campos do País onde chegávamos à boleia, de capa e moca, e sem um tostão no bolso. Até que um dia o Zeca resolveu partir para Marrocos. Conseguimos apanhá-lo a tempo, graças a uns ciganos nossos amigos. Mas a tentação do Sul já estava dentro dele. Ou talvez daquele azul de que fala Mallarmé e que era, de certo modo, a cor da sua voz. Ele era como a cigarra e precisava do espaço do Verão, Alentejo, Algarve, a planície, as areias e o mar. É preciso dizer que nessa altura já ele era distraído (nós dizíamos despistado). Uma noite estava a jantar em minha casa e de repente deu um salto na cadeira: onde é que deixei o meu filho? E lá fomos à procura. Mas o miúdo, habituado aos despistanços do pai, tinha ido tranquilamente do estádio para casa.
Tínhamos então grandes discussões. Eu já andava na militância política, o Zeca era, havia de ser sempre, um libertário em estado quase puro. Ainda se debatia a questão da arte e do empenhamento social e político do artista.
Teoricamente o Zeca era contra, mas as coisas foram mudando e quase sem darmos por isso todos nos fomos comprometendo cada vez mais. Foi primeiro o Decreto 40 900, contra a autonomia das associações e a resposta estudantil, com uma grande manifestação em Coimbra. E depois 1958, o general Delgado e aquele vendaval que varreu o País de lés a lés. Então o Zeca quis pegar em armas. Mas como?
Tivemos que recorrer às que tínhamos à mão: a poesia, a guitarra, o canto. A guitarra do António Portugal tornou-se de repente mais nervosa, experimentando novos ritmos e dissonâncias, e o Zeca aparece a trautear melodias estranhas. Até que saiu a «Balada do Outono». Foi uma iluminação. Assim como alguns poemas aparecem feitos, também aquela balada dava a impressão de ter estado sempre ali e de ter sido colhida no ar num dos momentos de distracção concentrada do Zeca. A canção de Coimbra não voltaria a ser a mesma, a música ligeira portuguesa também não. Aquela balada era nova e ao mesmo tempo muito antiga. Tudo estava nela: a tradição trovadoresca, os cantares de amigo, os romances populares. E também o espírito de um tempo de mudança.
Entretanto o Zeca partia para o Sul. E eu para Angola. Reencontrámo-nos no início de 1964, numa festa de recepção aos caloiros da Faculdade de Medicina no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Tinha eu acabado de regressar da prisão em Angola, estava com residência fixa em Coimbra, mas vim sem pedir licença.
Trazíamos a «Trova do Vento Que Passa». Cantou-a primeiro o Adriano, a seguir o Zeca, depois ambos. E acabámos em coro, na rua. Era assim, naquele tempo. As trovas e baladas tinham o ritmo da nossa inquietação, de uma luta, da nossa vida. E vieram o «Menino do Bairro Negro», «Os Vampiros», «O Coro dos Caídos». O Sul entraria na música do Zeca com o seu «Pastor de Bensafrim», o seu «Sol de Verão», Catarina, o Alentejo, a cigarra, o silêncio, o grande espaço, a sombra de uma azinheira e o calor da fraternidade. E depois a África, seus ritmos e seus tambores, na fase da maturidade. Vieram os exílios, as longas separações, as pequenas e grandes batalhas, o 25 de Abril, encontros, desencontros, reencontros. E a voz do Zeca sempre, a avisar e animar a malta.
Como os provençais da época de oiro, cuja lição Ezra Pound tão bem captou, José Afonso foi um grande trovador moderno, ligando de novo a poesia e a música. Desse modo renovou uma e outra e contribuiu para mudar a própria vida, como queria Rimbaud.
Foi um homem fraterno, despojado, por vezes até ao exagero. Mas era assim: um revolucionário franciscano, como lhe chamei, irritado por vezes com o seu desprendimento de tudo e de si mesmo. Talvez as sociedades não consigam suportar a força subversiva de um tal despojamento. Por isso o Zeca foi tantas vezes censurado. Por isso continua simultaneamente a encantar e a incomodar. Eu sei que gostariam de transformá-lo em álibi ou torná-lo inofensivo depois de morto. Mas não é possível. A sua voz está tão cheia de ternura que será irremediavelmente subversiva.
Como disse António Portugal: «Um homem cuja voz foi a nossa voz durante muitos anos e que ajudou a tomar possível o nosso encontro colectivo com uma identidade perdida e com um destino que hoje orgulhosamente assumimos.»
Talvez seja isso o que uns tantos não conseguem perdoar-lhe. Mas é com certeza por isso que ele continua a ser a nossa voz.
Manuel Alegre

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Paulo QueridoTestemunhos
08/02/2006By AJA

O músico

O músico que José Afonso foi é um tema que me deixa perplexo. Se eu disser Zeca Afonso!, toda a gente vai lembrar o Grândola Vila Morena. Alguns são capazes de se lembrar do Maio Maduro Maio. E mais alguns dos albuns dele dos anos em que era mais mediático (no sentido de aparecer nos media).
Mas isso é redutor. Desculpem: é de bimbo, mesmo. A obra musical e poética de José Afonso pode ser dividida em três períodos. O período do meio é de longe o menos importante da obra — apesar de ser infelizmente o que perdurou na memória colectiva de um país distraído.
Os primeiros albuns dele, ainda no tempo da ditadura, são obras primas. Ouvir, como eu estou a ouvir neste momento, De Capa e Batina, é mergulhar na História de Portugal dos anos 60. Nessa altura Portugal era um país rural e atrasado, sem classes médias, mergulhado na obscuridão por via do isolamento a que Salazar o conduziu (orgulhosamente sós — era, imaginem, o lema da altura). Os poemas de Zeca Afonso, sobretudo cantados por ele, reflectem a tristeza profunda e as angústias das pessoas.
Menina dos olhos tristes
O que tanto a faz chorar
O soldadinho não volta
do outro lado do mar
…
A lua que é viajante
é que nos pode informar
O soldadinho já volta
Do outro lado do mar
O soldadinho já volta
Está quase mesmo a chegar
Vem numa caixa de pinho
Desata vez o soldadinho
Nunca mais se faz ao mar
(in Menina dos Olhos Tristes, letra de Reinaldo Ferreira e música de José Afonso)
Cantado por ele, como um fado coimbrão, é de arrepiar. Espelha num instante — como nenhum livro sobre a guerra colonial é capaz de fazer — a crua realidade das meninas, senhoras e senhores desses anos em que as batalhas de Portugal para tentar manter as colónias esvaziavam o país quer de dinheiro quer de gente. Eram os homens novos que partiam para a guerra, deixando cá as namoradas, noivas, mães, pais numa permanente angústia. Milhares regressaram em caixões. Não havia família na “Metrópole” (Portugal continental) que não tivesse alguem no “Ultramar”, (as colónias), a dar o corpo às balas. Poucas famílias portuguesas terão passado os anos 60 sem a dor que é um jovem adulto morrer numa guerra.
Só quem viveu esses tempos sabe do que falo. As gerações mais novas NÃO precisam de passar por isso ou sequer de recordar. Mas ouvir e ler José Afonso é historicamente importante. É um pedaço da nossa História. É importante para a cultura portuguesa, mesmo que o Ministério da Cultura não pense assim. É só aí que quero chegar.
A revolução do 25 de Abril abriu um período extraordinário na criatividade e sobretudo no entusiasmo dos meios culturais. Tem hoje a Direita da blogosfera toda a razão quando se queixa do excesso cultural esquerdista da época. Visto daqui, de agora, é compreensível: era uma moda. É como hoje ir “às Docas”. É in (na altura não se usava a expressão). Ou como hoje blogar.
José Afonso participou activamente nesse período. Incansável, percorreu milhares de quilómetros pelo país fora com a guitarra às costas. O objectivo dele não era ganhar dinheiro com a música ou sequer ser famoso (no sentido big-brotheresco, ou warholiano que o termo hoje tem). O objectivo dele era levar às pessoas uma mensagem de esperança, de vida, de entusiasmo, porque os maus tempos (do fascismo) tinham acabado. Estávamos a construir um país novo (este, em que hoje vivemos) e as pessoas eram analfabetas: 37 por cento da população portuguesa não sabia ler e escrever. Através da música, Zeca chegava a elas. Passava a mensagem. Acelerava o processo de aculturação dessas massas ignorantes porque ignoradas.
A importância dele para a cultrura, nesses anos, foi menor. No sentido estrito apenas: é claro que foi grande, sobretudo por ele ter funcionado como um catalizador, uma autêntica pilha energética, que arrastava outros músicos e criadores criando um ambiente quase feérico na cultura musical portuguesa. De um sentido só, o revolucionário. Claro. Era a época.
Mais tarde, já cansado, já a revolução a esmorecer, já o país a solidificar, já a entrada para a então denomidada CEE (hoje União Europeia) às mãos de Mário Soares, já a democracia estabelecida e o capital a regressar, José Afonso voltou a ser um poeta do povo.
No seu último algum de originais (Galinhas do Mato, 1985) está longe do fado de Coimbra e da canção revolucionária. É porém ainda um baladeiro que reflecte o estado de alma de um país. Embora um tanto desfasado: o país era, por altura de 80, já o embrião do país de hoje, emocionalmente dividido ao meio. Zeca espelha um dos lados, o lado desiludido. O lado da Esquerda, a Esquerda desse tempo (hoje há uma nova Esquerda que já não vive de desilusões como está bem patente no Bloco de Esquerda e nos blogs como o Barnabé e o Blogue de Esquerda).
Ficam as dúvidas (ainda hoje as tenho, eu…) Como em Década de Salomé:
Estamos na Europa.
Civilizados
já cá faltava
uma maison
Pour la Patrie
plo Volkswagen
acabou-se a forragem
viva o Patron!
[…]
Aos grandes Super-Mercados
chega a cultura num bi-camion
Camões e Eça vendem-se
enlatados
lavados com “champon”
Acertou na mouche. Dos átrios das igrejas, dos salões de festas mal amplificados que lhes arruinaram gargantas (a ele e aos outros andarilhos de Adriano Correia de Oliveira a Sérgio Godinho, de José Mário Branco a Janita Salomé, de Vitorino a Júlio Pereira, de Né Ladeiras a Luís Represas, então um jovem muito jovem) das sessões de esclarecimento, dos comícios, da festa do Avante, a cultura foi passando para os super-mercados. Onde ainda hoje está. A massificação cultural, a amálgama, tem virtudes (que ele não cantou, embora eu suspeite que as detectou mas considerou menores face aos defeitos) e tem defeitos.
Na faixa Galinhas do Mato, do album homónimo, Zeca regressa à “sua” África e experimenta sonoridades novas. Seriam o seu caminho futuro não fosse a doença tê-lo levado dois anos volvidos. Aliás, esse album foi produto de uma gigantesca prova de amor prestada pelos camaradas de ofício: José Afonso, já doente, mal podia mexer-se e quase não cantava. Foram Júlio Pereira e José Mário Branco as traves mestras do album.
Pessoalmente considero históricos e fundamentais os primeiros albuns, até 1974, e os últimos dois albuns. Galinhas do Mato é uma obra experimental de um músico já acima dos sessenta, um recomeço, uma viragem, uma abertura, uma interrogação. Depois de ter sido um dos grandes cronistas do Portugal da segunda metade do século XX, foi isso que ele nos deixou antes de partir. Pela minha parte, agradeço.
Paulo Querido

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Paulo QueridoTestemunhos
08/02/2006By AJA

O Homem

Eu não tinha mais de seis anos. Era um Verão qualquer de meados de 60. Tínhamos uma casa na Praia de Faro, emprestada. A casa do Sr. Freitas — acabam de me recordar as minhas queridas irmãs. Havia um gira-discos a pilhas e candeeiros a petróleo. Eu vinha da água roxo, depois de horas incansáveis a mergulhar das pontes, com a Irmã Mais Nova. Eu não sabia nadar bem, mas usava braçadeiras insufláveis e com elas aventurava-me fosse para onde fosse, mesmo sem pé. À noite, depois do jantar, ouvíamos música. Otis Redding. Charles Aznavour. Coisas que os adolescentes da altura (os meus irmãos e primos) ouviam. E também Adriano Correia de Oliveira. E Zeca Afonso.
É a minha primeira recordação de José Afonso. Uns anos mais tarde, mas não muitos, lembro-me de estarmos na sala de estar e alguem toca à campaínha (coisa comum, vivíamos numa pensão). Subitamente o meu irmão corre a tirar do prato do gira-discos o 33 rotações que estávamos a ouvir.
Recordo-me lindamente da capa. Que não da música: eu teria uns 8, 9 anos. Perante o sururu, devo ter feito uma pergunta de puto e deram-me uma resposta básica, para puto entender: havia coisas que não se podiam ouvir, eram proibidas pela polícia, pela PIDE, e aquela era uma delas. Os porquês eram demasiado complexos para mim, muito puto. Mas aquilo encaixava em duas coisas: eu não gostar de polícias, porque o polícia de giro parava sempre os nossos jogos de bola na rua, e já ter ouvido nas conversas da tasca (tínhamos uma “casa de pasto” abaixo da pensão, é hoje um bar na famosa Rua do Crime, em Faro, que na realidade, irónica, se chama Rua do Prior) que havia um viajante (pensão e tasca eram frequentados sobretudo pelos caixeiros viajantes) que era informador da PIDE, fosse lá isso o que fosse, e o meu pai tinha ido responder qualquer coisa à PIDE uma vez. O meu pai era um homem absolutamente de Direita e cumpridor, embora houvesse coisas do Salazar que ele não gostava muito: não imagino porque terá lá ido.
A minha Irmã Mais Velha foi aluna do José Afonso em Faro, onde ele deu aulas. O meu Irmão também. Na então chamada Escola Industrial e Comercial de Faro. Ela recorda-se de um «mau professor, que faltava muito e era despistado. Não seguia o programa, falava de outras coisas». Certo e sabido era que por alturas de Abril ele ia faltar, pelo menos um mês. Os alunos sabiam porquê, recorda essa minha Irmã: «com o aproximar do 1º de Maio, a PIDE ia lá e engaioláva-o durante um mês».
O meu Irmão não partilha da mesma opinião dele como professor, talvez por ser já na altura mais politizado e, digamos, avançado que ela. Quando deixámos a Pensão Mirense (onde nasci) que foi a seguir pensão de putas e mais tarde o primeiro Lar de Estudantes da Associação da Universidade do Algarve (está à venda, decrépita, fica por cima do bar Ovelha Negra), surripiei a colecção “Vida Mundial”, onde ele se informava na altura. (Ainda tenho a capa do Homem na Lua.) Ontem o meu Irmão recordava, com alguma emoção, como o professor «usava os sapatos desatados». E «faltava para ir fazer as gravações em França».
Eu conheci José Afonso em circunstâncias muito diferentes. Muitos discos, prisões, revoluções depois. Em 1985/86. Conheci-o em circunstâncias no mínimo estranhas, num apartamento em Faro, na presença do então director do Tal & Qual, José Rocha Vieira, e do meu camarada jornalista Francisco Rosa, que tinha uma Dyane onde o Guilherme Silva Pereira fazia o Gagarine (sair por uma janela, passar pelo tecto e entrar pela janela oposta — em andamento). O Guilherme foi depois capa do Tal & Qual por causa duma cena qualquer. Era (acho que ainda é) uma figura controversa…
Zélia acompanhava José Afonso. Era um homem doente. Ajudávamo-lo a andar pegando-lhe por debaixo dos sovacos. Tinha um olhar absolutamente sereno. Conversava com brilho. Em voz pausada, por causa do esforço. Mas com inteligência e perspicácia.
Dias depois visitei-o na casa de Azeitão. Conversas soltas. Eu era personagem secundária no cenário. Lembro-me das estantes vergadas com o peso de centenas de livros. Conheci a Joana Afonso, filha dele (que entrevistei mais tarde para um pasquim chamado “O Rebelde” que foi percursor das revistas para adolescentes).
Lembro-me de um homem admiravelmente consciente da proximidade da morte e ainda assim um homem sereno, tranquilo. Forte. Estar junto de José Afonso era estar mergulhado numa paz activa, estimulante. Quando falava era um sábio. É essa a imagem que retenho dele: uma pessoa sábia, consciente das realidades do mundo, nada interessado em falar dele ou da doença, mas sim da actualidade. Com notável perspicácia, algum humor e um belo poder de antecipação das tendências sociais e políticas.
O José Afonso que eu conheci não é o Zeca Afonso comunista, não é o Zeca Afonso perigoso revolucionário, não é o Zeca Afonso maldito, aparentemente malquisto e incómodo, até hoje, à Esquerda e aos partidos que ajudou dando a cara por eles, mesmo que não lhes pertencesse (o José Afonso nunca pertenceu a nada senão à cultura portuguesa e ao povo português). Era uma pessoa que dava gosto conhecer, com quem dava gosto estar e conversar. Um pessoa de bom fundo e carácter vincado com opiniões sábias e nada extremas, bem pelo contrário.
Este “meu” José Afonso não tem também nada a ver com a “malta de Esquerda” desses tempos que, em período final do cavaquismo, desistiu de lutar pelos seus ideiais. O capital é mais forte, desisto: onde está o bom emprego, onde posso ir beber uns copos? O “meu” José Afonso, não fora a doença, teria continuado a lutar pelos seus ideais noutro palco. Um palco qualquer. Um palco onde ele fosse preciso. Há menos de um ano tive o grato prazer de conhecer alguns dos que não desistiram. Continuam a luta nos foruns prisões, associações, escolas, etc a defender os direitos individuais, a sensibilizar e educar as pessoas nos seus direitos e deveres. Quando conheci o António Pedro Dores lembrei-me do José Afonso e de pensar: é a mesma força. Há gente que não desiste de ser melhor e fazer os outros melhores. Ainda bem.
Paulo Querido

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José António GomesTestemunhos
03/01/2006By AJA

Louvor e memória de José Afonso

Na rádio inaudível que nos dão (salvam a honra do convento as Antenas 1 e 2 e pouco mais), ainda é possível escutar – mas não muito – uma ou outra voz mais ou menos consensual, em língua portuguesa. Bem como, por exemplo, algumas vozes brasileiras da moda (desiluda-se, porém, quem goste de António Carlos Jobim, Vinicius e Toquinho, João Gilberto, Elis, Chico Buarque, Edu Lobo ou Ivan Lins). Mas o grosso da «música» – e a palavra «grosso» tem aqui duplo sentido – é composto pelos mais comerciais subprodutos da indústria musical anglo-saxónica, alguns deles repetidos até à náusea.
Postas em música, as línguas portuguesa, francesa ou espanhola foram praticamente banidas das nossas ondas radiofónicas, vergadas ao peso do mau gosto e da chamada língua franca (um inglês básico para duros de ouvido e compreensão), no que configura uma autêntica ditadura imposta pela praga matraqueante das «playlists». Os cordelinhos – é bom de ver – movem-nos os conselhos de administração das empresas de radiodifusão, os obedientíssimos directores de programação e, no topo, as máquinas comerciais da indústria musical dominante. Todos argumentam ir ao encontro do «gosto» do grande público – esse gosto que eles próprios ajudaram a de/formar, por razões economicistas e, naturalmente, ideológicas.
Associadas ao quase ostracismo a que foram votados os «autores» de programas radiofónicos (recordem-se aqui os saudosos «Página 1», «Câmara de Eco», «23ª Hora», «Em Órbita» e «Os Cantores do Rádio» ou, em tempos mais recentes, «O Som da Frente»), tais são porventura as razões de fundo por que hoje não é possível escutar, na rádio, Adriano Correia de Oliveira e Francisco Fanhais, José Mário Branco e Fausto, Vitorino e Janita Salomé, Manuel Freire ou a Brigada Victor Jara. (Quanto à guitarra de Carlos Paredes, apenas se consegue ouvi-la como fundo musical de algumas reportagens ou então de peças breves dando notícia de homenagens à obra do genial compositor e intérprete.) Mercê de uma inteligente fusão da sua música com os ritmos e atmosferas sonoras da moda, ou graças à colaboração com músicos mais jovens que os praticam (como os Clã), Sérgio Godinho ainda logra marcar uns pontos nas rarefeitas ondas radiofónicas do nosso descontentamento. As quais – convém recordá-lo – utilizam espaço público de radiodifusão, mesmo se concessionadas ao sector privado.
Se quisermos contudo apontar um exemplo paradigmático desta velada censura à música popular urbana de qualidade, cantada em português, teremos naturalmente de falar em José Afonso.
Desde os seus primórdios coimbrões – marcados pelo benigno ascendente do chamado fado de Coimbra –, as canções de José Afonso sempre foram a simbiose perfeita de três aspectos a reter: uma poesia singular, uma voz única (de timbre e coloração inconfundíveis) e um talento inato para a melodia. E ao falarmos de melodia, e também de ritmos, não é possível esquecer a fidelidade desta música às raízes mais profundas da música popular portuguesa, mas também a sua dívida em relação aos ritmos da África e do Brasil, para não falar da irmã Galiza – que em devido tempo soube homenagear o cantor com um espectáculo e o descerramento de uma lápide no Auditório da Galiza, em Santiago de Compostela.
O que todavia irrita e inquieta os senhores da rádio talvez seja a aura indissipável de José Afonso como antifascista e democrata, a sua dimensão humana de companheiro fraterno e solidário, disponível para todo e qualquer combate em prol dos injustiçados deste mundo: os pobres, os sem-terra, os povos em luta pela sua dignidade e independência. José Afonso ridicularizou como ninguém o salazarismo, mais tarde a rede bombista e a recuperação capitalista após o 25 de Novembro. Mas cantou também o amor, a amizade, os direitos da mulher. E vazou tudo isto em versos e melodias de uma alta temperatura musical e poética, mesmo naquelas composições em que não renegou a sua intimidade, experiência pessoal e contradições, e se deixou imbuir (e bem) dos influxos da poética surrealista, de um aparente «nonsense» ou mesmo do espírito das fatrasias de raiz popular.
Por muito que muitos o prefiram ignorar, a imagem, a voz e a obra de José Afonso converteram-se em símbolos do 25 de Abril (será necessário recordar a «Grândola», o «Venham mais cinco», «Os índios da Meia-Praia», a «Utopia»?), expressão da resistência de um povo em combate pela liberdade e por uma vida digna.
Quase duas décadas após a sua morte, a música de José Afonso está mais viva e actuante do que nunca. Venceu, como poucas, a lei da morte e o efémero. Muitos a guardam na memória e em cassetes, velhos discos de vinil e CD. E continuam a escutá-la. Por vezes, quase clandestinamente. Isto porque a rádio, a nossa rádio, a silenciou e só conhece hoje um pacto com a mediocridade, o fácil, o insidioso pensamento único – o mesmo é dizer, sobrevive em inaceitável compromisso com tudo o que cheira a ignorância, a mortos-vivos e a mau viver.
José Afonso, esse, está vivo. E bem vivo. Até porque – não o esqueçamos – soube cantar também outros vivos ilustres: Airas Nunes e Camões, Lope de Vega e António Nobre, Reinaldo Ferreira, Ary dos Santos, António Quadros e outros mais, como Fernando Pessoa – esse que, num dia de inspiração, não resistiu a metaforizar Portugal na forma de um «comboio descendente», onde «uns riem por ver os outros / e os outros sem ser por nada».

José António Gomes

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ImprensaTestemunhos
27/11/2005By admin-aja

Jorge Sampaio comove-se com as canções de José Afonso

O Presidente da República fez ontem em Grândola um comovido regresso ao passado, mais precisamente ao período que antecedeu o 25 de Abril de 1974 em que as canções de intervenção tiveram uma importância “significativa” para a democracia portuguesa. Depois de ter visitado a colectividade onde José Afonso actuou em 1964, a Fraternidade Operária, Jorge Sampaio reconheceu que as suas canções “ficam para sempre”. A cerimónia de homenagem nacional a José Afonso foi um tributo que a Câmara Municipal de Grândola quis prestar ao cantor “que se inspirou neste povo para a canção que foi a senha para o dia da libertação”, salientou Carlos Beato, presidente do município. A sessão foi preenchida com uma actuação da banda da Sociedade Filarmónica Fraternidade Operária, que interpretou vários temas de José Afonso, terminando com a ” Grândola Vila Morena” cantada pelas crianças da escola básica. “Fiquei muito contente por ver os jovens a interpretar Zeca Afonso”, destacou Jorge Sampaio, que se deixou envolver pelas orquestrações “bem conseguidas” pelos músicos da terra. Para o Presidente da República, as canções de intervenção que percorreram o universo contestatário do antigo regime “são momentos de história significativa da vida portuguesa”.Jorge Sampaio não pode ver o palco onde actuou José Afonso em 1964, “por se encontrar em muito mau estado e não haver verba para o recuperar”, lamentou um dirigente da Fraternidade Operária. José da Conceição, membro da direcção desta colectividade, a quem José Afonso enviou em 1964 a primeira versão das quatro que foram elaboradas para a canção ” Grândola Vila Morena”, recordou que quando o cantor lá entrou ficou siderado quando viu expostas obras de Lenine. “Um autor com uma leitura tão indigesta”, comentou Sampaio, admirado pela a ousadia dos grandolenses. Os sobressaltos que têm afectado a democracia portuguesa justifica a necessidade de senhas “como aquela que representou a canção chave da noite de 25 de Abril de 1974”, advertiu o Presidente da República. Por isso, frisou: “Me sinto comovido quando ouço as canções de Zeca Afonso”, recordando aquela vez que ouviu Grândola Vila Morena “ao serviço daquele dia inesquecível”. A sua vivência com o homenageado não foi muito forte, “mas tenho os seus discos, embora um pouco desarrumados”, revelou Sampaio, frisando que o seu relacionamento foi mais forte com Adriano Correia de Oliveira. Comentando o paralelismo entre a situação actual e a de antes do 25 de Abril de 1974, o chefe do Estado disse que “sobre a liberdade nada está definitivamente conquistado, tal como a liberdade de expressão que deve ser uma luta quotidiana”.Hélder Costa, natural de Grândola e director do Grupo de Teatro a Barraca, lembrou o percurso que fez ao lado de José Afonso. Primeiro em Coimbra onde estudou Direito e vivia na República do Prá-quistão, que Zeca Afonso visitava. “Nessa altura já era célebre pelas canções. Nós éramos amigos sendo ele mais velho”.Lembra-se de ele dedilhar as primeiras notas do “Menino é d’oiro” “e malta a gozá-lo para ele parar com a mariquice”.Depois convidou-o a vir até Grândola, onde o cantor ficou admirado “pela actividade cultural e artística” da Fraternidade Operária. Todos os anos em Maio esta colectividade realizava grandes manifestações culturais. Foi lá que Hélder Costa levou à cena a sua primeira peça de teatro ” Gota de Mel”, um libelo contra a guerra, que foi logo proibida.Assim, em 17 de Maio de 1964, a colectividade conseguiu levar Carlos Paredes e José Afonso a um espectáculo que ficou na memória do povo de Grândola e que acabou por se transformar no elemento criador da ” Grândola Vila Morena”. “O entusiasmo foi grande, foi uma loucura”, recordou Hélder Costa. Nessa noite estreou canções que ninguém sabia que tinha e passados uns dias mandou a letra da ” Grândola Vila Morena” para um dos directores da colectividade José da Conceição. O presidente da Câmara de Grândola, Carlos Beato, recordou no seu discurso de homenagem que “foi aqui que ele se inspirou encontrando amigos em todas as esquinas e foi aqui que ele imortalizou para sempre a Vila Morena”. Mais tarde, em 1971, José Mário Branco fez a orquestração em Paris onde o “Cantigas de Maio” foi gravado.

Carlos Dias, in Jornal Público, 25.10.2004

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