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Homenagens e tributos (poesia)
Home Archive by Category "Homenagens e tributos (poesia)"

Category: Homenagens e tributos (poesia)

Homenagens e tributos (poesia)
10/01/2009By AJA

Poema de Valter Hugo Mãe dedicado a José Afonso

Poema sobre o ódio à vida
para o zeca afonso

Havia um sapato de cristal no meio das escadas, era
certo que uma futura princesa ali o passara. um príncipe
triste, acompanhado de seus pajens, recolheu o
delicado objecto e suspirou, antevendo um amor eterno,
o coração acelerado, o príncipe tornou-se muito ansioso e
mais ansioso à medida da espera. e esperou demasiado,
enquanto todos os seus esforços falhavam o encontro
com a futura princesa. um dia, estava quieto em seus
aposentos quando súbito lhe anunciaram a bela moça.
entrando de cautelo no rico palácio, vinha já coberta
de ouro e luzia como luz que aumentasse. foi quando
lhe perguntou o pretendente, quereis casar comigo,
um príncipe triste. e a moça respondeu, perdi o sapato
sem querer, sou contra o amor, prefiro odiar todas as
coisas, ser fútil, promíscua. o príncipe ordenou que
deixassem todos os seus aposentos e ponderou o
suicídio. fechou as janelas, como num luto e, no dia
que veio, começou por inventar as leis mais justas e
mandar que oferecessem moedas aos pobres.

valter hugo mãe

in mil e setenta e um poemas
Thesaurus Editora

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Homenagens e tributos (poesia)
16/04/2008By AJA

Homenagem | Eduardo Aroso

HOMENAGEM
(A José Afonso)

Anjo insubmisso!
Voz orvalhada,
Cor de trigo,
Ondulada.
Grito do pão
Mal repartido.
Trovador
Luso,
Universal,
Redentor.
Quando voltas
Para a liberdade solta,
Límpida, generosa.
De esperança.
Quando voltas
Desejado?
D. Sebastião,
Quer tenhas este nome
Ou não.

Eduardo Aroso
Abril 2008

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Homenagens e tributos (poesia)
26/07/2007By AJA

Uma barquinha para o Zeca

Vai a barquinha
vai
a menina
vai
p’lo rio a passar

cai a neblina
cai
a farinha
cai
moleira do mar.

Vai a barquinha
cai
a neblina
vai
p´lo rio a passar

vai a menina
cai
a farinha
cai
moleira do mar.

Vai a barquinha
vai
a menina
vai a barquinha
vai .

Cai a neblina
cai
a farinha
cai
moleira do mar.

Carlos Carranca7.julho.2007

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Homenagens e tributos (poesia)
05/07/2007By AJA

“Uma canção” por Maria Teresa Duarte Marinho

Correm velozes vários animais na erva molhada. É ele que os vê espreitar e logo de seguida desaparecer, enquanto vai conduzindo o camião cheio de homens que vestem ganga velha, a cara da cor do carvão. Gritam e agitam os braços para as mulheres à beira da estrada, as crianças em busca de mais amoras.
Ao longe tocam guizos. E sinos. Depois de algum silêncio, recomeçam todos os sons. Da mais antiga cidade alemã trouxe um rádio chamado ELEKTRA, que pôs sobre o chão de ardósia do moinho de azenha transformado em casa para viver. Avança para ele e espera um bocadinho (antes da música, já se acende dentro uma luz constante). E agora ouve-se de novo a mesma canção.

Fragância morena/ Portal de marfim/ Ondina açucena/ Chamando por mim

Às vezes também canta. Com o casaco pelos ombros, caminha entre os pinheiros, esta mania dos pés quase descalços, pisar flores que ninguém viu nascer. Segura um pau e com ele recusa os picos, afasta fetos. Pingas grossas caem-lhe na testa e desata a correr, lembrando-se da voz desconhecida. Inventa novas palavras para a música da canção; escreveu uma vez um poeta que tudo canta e cantar é enorme. Tudo canta e cantar é enorme.
Procura a bicicleta debaixo da caruma e monta-a. Pára para colher frutos, enche com castanhas ainda verdes os bolsos. Retira-as dos ouriços e fica feliz por não se magoar. Ali em baixo, inventou há muitos anos uma história. Eram duas miúdas em que uma tinha olhos de quem está sempre a subir uma escada de caracol. Essa dizia à outra que via na rua jarras cheias de prata e saturava-a, propondo-lhe planos de roubos e fugas. A outra respondia-lhe que isso tudo era uma alucinação com tanta luz, o que na verdade tinha diante dos olhos eram vasos do longo corredor segurando abundantes ramos de camélia branca, com um brilho não muito longe do da suave prata. Ele contorna as árvores em sitios cada vez mais perigosos, levanta-se do selim. Fixa-se o riso; como sempre quer agarrar tudo à volta.

Na flor da montanha/ Na espuma a cair/ Nos frutos de Agosto/ Na boca a sorrir

À noite, a euforia das festas. As luzes, o fogo. Jogos de moedas. Tremem os palcos improvisados à frente de cafés e tabernas com rendas de videira sobre as portas. Bebidas, conversas, mais canções que se ouvem. Muitos rapazes e raparigas com fitas apertando os pulsos, é ai que acreditam estar a sua sorte. Atravessa as aldeias, nos caminhos às curvas inclina-se, solta do guiador as mãos, procurando equilíbrio. Fogo de artifício começou há pouco a cair, sem sequer chegar a deitar lágrimas.

Ai húmida prata/ Meu sonho sem ver/ Ai noite de lua/ Meu lume de arder

Ele está de pé, frente à última janela na sua casa da cidade. Uma boca que pousa na orelha. Quem é? Vira-se e diz-lhe nos cabelos: pensa na tua cabeça, já viste como a tens? Ela leva logo as mãos à nuca. (Com o avanço dos dias, ELEKTRA repete maior número de canções. Algumas pessoas já foram à rádio falar da vida do autor, mas eles preferem a voz de quem canta). Regressa trazendo uma tijela de água, sai-lhe um fino pente do bolso. Ele ajoelha defronte dela e molha devagar o pente. Em que pensas? Em nada. Faz-me um risco ao lado que é o risco mais bonito que há. Depois levanta-se e vai até ao primeiro degrau da escada, apoia-se e começa a escorregar no corrimão lustroso, reflectindo a humidade dos cabelos. Nunca mais a há-de ver.
Tinha uma oficina junto ao porto. Ao acabar de limpar vasos e pintar azulejos, imaginava futuras combinações, então beijava as suas próprias mãos. Nos instantes em que sinos tocavam, acreditava poder encontrá-la ao pé da água, mirando luzes frouxas. Acertara um encontro, mas tomava-se cada vez mais tarde. Passeava à beira das docas e nas praças pareceu-lhe uma noite reconhecer o homem que cantava aquela canção. Chamava-o pelo próprio nome mas ele não respondia, acabando por se sumir, como se a Terra fosse demasiado redonda. Queria dizer-lhe uma coisa, desejava dar-lhe o braço e repetir-lhe ao ouvido um elogio. Se não nascesse, tinha que ser inventado.

Da morte zombando/ Na aurora lunar/ Num jardim suspenso/ Do seu fulgor.

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Homenagens e tributos (poesia)Natália Correia
02/04/2007By AJA

Poema de Natália Correia para José Afonso

É de murta e de mar a tua voz
Com algas de canção estrangulada.
Aberta a concha da trova malsofrida
Saíste como sai a madrugada
Da noite, virginal e humedecida.

É de vinho e de pinho a tua voz
Com pranto de insofríveis flores banidas.
Mas é pela tua garganta que soltamos
As eriçadas aves proibidas
Que no muro do medo desenhamos.

Natália Correia

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Homenagens e tributos (poesia)Manuel AlegreVídeo
23/02/2007By AJA

Balada de Outono para Zeca Afonso | Manuel Alegre

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Homenagens e tributos (poesia)
22/02/2007By AJA

Poema a José Afonso

Bendito seja o pão
Bendito seja a dor
Benditas as portas do amor

José Afonso, “Benditos”, in Galinhas do Mato

Elevo os teus cabelos à categoria de cidade
– a Cidade Utópica! De Cirene
as ruas e avenidas são os partos da amargura
pelo vento irmanado de Jerusalém,
no teu ventre de Menino. Istambul
sedutor das cabras montanhosas:
Onde e quem
nossa morte
a Sul.

José Carlos Pereira
in Vertentes Da Mesma Luz (1992)

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Homenagens e tributos (poesia)
22/09/2006By AJA

Carta ao Zeca

E se de todas as bocas saísse hoje a palavra liberdade?
E se saíssemos das casas conforto, comodismo
E na rua olhássemos a miséria de frente,
A hipocrisia que alastra,
O egoísmo do eu feito preocupação diária?
E se em vez de sobreviver
Vivêssemos?
E se a indignação fosse decreto,
Obrigatoriedade, dever cívico a cumprir?
E se a miséria fosse crime público
E quem a permite, julgado e condenado pela lei?
E se disséssemos ao Zeca:
Olha pá, tentámos manter Abril vivo
Mas os cravos hoje são todos sintéticos como a liberdade.
Olha Zeca, a malta perdeu a memória
Esqueceu a história e não vai em revoluções
Senta-se no sofá e faz zapping ao mundo.
E o povo Zeca, já não ordena
O povo, Zeca, esqueceu o que é fraternidade!

Poema da Encandescente

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Homenagens e tributos (poesia)
09/09/2006By AJA

Recitativos de Rui Mendes dedicados a José Afonso

I
E há apenas isto: um homem, companheiro de estrelas e de remos, no arrasto da nossa esperança, rodeado de prados e agruras, e afolhagem de certa guitarra encarnada.

II
E esse homem, pregoeiro da brisa da madrugada, de pulso livre e coração descoberto, à mesa tingida pela luz a que nos sentamos sempre, apenas canta, apenas joeira palavras e miséria, pressagiando coisas bem afortunadas: um céu azul, sem vínculos, sobre o relento do nosso chapéu e um laranjal para o alfange do mendigo.

III
E é um cantar amargo, um cantar de amigo, colher de vento, fímbria do trigo, o que nos deixa a voz garrida desse homem, exonerado do seu próprio chão, ó chão castrado d’alegria, com o olhar pregado nas ruelas atulhadas pelo silvo das crianças do mondego ou na flauta, crivo de águias, de bensafrim.

IV
Ó terreiros da erva, ó terreiros da fome, ó íngremes quebradas do medronho, ó ror de dores, ó ror d’amores, quanto ror de foices tínhamos presas aos pulsos para rasgar, ao sabor dos vales do vento, este pedaço de terra morta e devassada, onde cresce a nossa ira, que as bagas do mar ferviam, junto aos campos cor de lima e de limão.

V
E esse homem, no fresco tingir da outra margem, vigia a crista das colinas, rasga janelas nas ribeiras, remonta às eiras onde as nossas costas são flor da rosa e suão, e queima, no tear das trovas, a dor panfletária das noites e dos dias, e vai-se juntando, como um pensamento puro e repercutido no ladrar dos cães, à garganta dos caminhos, aos vãos das escadas onde dorme a erva cidreira, lavando a luz dos nossos olhos, pernoitando também o olhar nos nossos pra­tos vazios, enquanto os nossosfilhos vazam grandes eiras de sal, sôbolos rios que vão por babilónia.

VI
E essa voz assim cerzida, memória de romãs e arestas cruas, assim aberta a todos os homens que chegam, a todos os homens que partem – amigos e inimigos são a província e a colheita do seu sonho – essa voz, fermento e febre de terno regadio, eis que nos é promessa dum grande dia sobre as pedras manchadas pelas nossas toalhas de malva: as nossas mãos, em pleno tumulto de armas e auroras, ditando o peso e a sentença que carregavam.

VII
E, no usufruto das clareiras que rasgamos por toda a parte, das bandeiras que desfráldamos até às vertentes dos muros e das amuradas, esse homem de novo começa a cantar:fragorde sarças sobre a sombra dos ombros, passos e pássaros na descarga do limiar das noites e dos dias para outros promontórios, e a gadanha movendo a substância putrificada dos presídios e das mansões, e a cor liminar das laranjas do mar, e o azul arável do céu, tudo, por assim dizer, que enchesse, como um frémito, o leito dos rios, a estrela das montanhas, macerando folhas de acanto.

VIII
E assim vos digo: esta voz sobe a prumo e é a folha púrpura das casas, quando amanhece, e é o rumo do pastor, céu abaixo: com a sua manta de açafrão e suas pombas bravas, e é a rede que se lança sobre as abelhas, logo que atravessadas pelas linhas do fogo, e é a fresca flor da nossa mão em vão julgada.
Voz dentro sangue, matriz do nosso sangue, terra indivisa: sangue e rosas.

in “Cantares” | Fora do texto, 1995 | 4ª edição

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Homenagens e tributos (poesia)Luiza Neto Jorge
01/08/2006By AJA

Novos cruzados

Luiza Neto Jorge lembrando as suas deambulações em Faro com A. Barahona, Zeca Afonso, Bronze e Pité

Novos Cruzados

Sequiosos descem
seus corpos de esponja

a rolar na treva,
iates rompendo
à babugem da água,
caravanas caras
em fossados por
rochedos e hortas,
sedentos recolhem
cisternas, piscinas
sob o seu pendão,
e saqueiam, sangram
consagrados à
salvação do corpo
estes cruzados!



Luiza Neto Jorge

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Homenagens e tributos (poesia)Sérgio GodinhoTestemunhos
28/07/2006By AJA

José Afonso trouxe canções que rebentavam diques, ideias feitas, praxes, estruturas

Eu teria então os meus quinze anos, e não gostava de quase nada do que se fazia na música portuguesa.
Nisso, devo dizer, não estava só.
Ora um país onde a gente nova não se reco­nhece, seja na música ou no resto, é um país doente, a precisar urgentemente de um doutor.
Ouvi então uma voz única, e vinha de facto de um doutor: chamavam-lhe, e chamava-se, Dr. José Afonso, à boa maneira coimbrã, pom­posa e c1assista; mas este doutor trazia canções que rebentavam diques, ideias feitas, praxes, estruturas. “O meu menino é de oiro, é de oiro só, hei-de levá-lo no meu trenó”. O Zeca passou a ser o meu doutor particular, a minha referên­cia só pouco a pouco assimilada.
Em 1972, respondendo a uma carta que ele me tinha escrito (estava eu impedido de cá vir) respondi-lhe glosando a sua poética, fazendo sobre a música do Sr. Arcanjo uma nova letra, em jeito de dedicatória e homenagem. Hoje, quando a releio, descubro-a de certo modo pro­fética, não só na descrição metafórica dos anos que se seguiram, desde o 25 de Abril até hoje, como na própria referência ao olhar do Zeca, sempre atento e perspicaz, a última coisa a mor­rer quando ele já tão doente estava. Dizia assim a canção:
Eh Zeca Afonso
canto para ti
ainda era moço
quando te ouvi

Convite à dança
fizeste a quem

era criança
soube-me bem

Eh Zeca Afonso

mal tu sabias
que duro osso
que então roías

Menino de oiro
no teu trenó
foi mau agoiro
deixar-te só

As mafarricas
vieram todas
pobres ou ricas
celebram bodas

Disparam tiros
de tudo comem
até vampiros
e um lobisomem

E os surdos mudos
tapam os olhos
sopram canudos
catam piolhos

Coçam sovacos
abrem a cova
metem em sacos
a tua trova

Mas não te afobes
quem te amofina
só fez que sobes
na nossa estima

Há nas janelas
do teu olhar
duas donzelas
ainda a espreitar

Olham para o mundo
para o alecrim
respiram fundo
cantas assim

Senhor arcanjo
Vamos dançar
afina o banjo
pelo luar

Sérgio Godinho

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Atahualpa YupanquiHomenagens e tributos (poesia)
17/07/2006By AJA

Como no Amar la Tierra, Compañero?

Março aconteceu chuvoso em 1985. Vestia­-se de cinzento à cidade quando a atravessei, emocionado, rumo ao hotel. E o caso não era para menos: tinha chegado Atahualpa Yupanqui!
Era chegado um tempo de pampa e de milongas na voz e na guitarra de um dos maiores trovadores de todos os tempos, um verdadeiro símbolo do canto e da luta dos povos latino­-americanos. Daí a emoção do encontro…
Atahualpa falava com supreendente vivacidade e entusiasmo própria de um veterano «payador» sobre memórias dispersas de vivências, chamando para a conversa amigos e companheiros como a chilena Violeta Parra, o cubano Carlos Puebla, o uruguaio Daniel Viglietti e o brasileiro Chico Buarque, entre outros, todos eles cidadãos de uma só pátria – a da libertação do homem!
A dada altura, Atahualpa estendeu-me uma folha de papel pautado, dizendo: «Escrevi este poema para o José Afonso e gostava de lho poder entregar pessoalmente mas tal não me vai ser possível. Agradeço-te que lho envies…»
Enviei. Esclarecendo o Zeca de que se tratava do original (conforme repetida insistência do próprio Atahualpa Yupanqui) e de que iria procurar, por todos os meios, divulgá-lo o mais amplamente possível como tinha sido expressamente desejado pelo seu autor.
Os tempos passaram. Das andanças do Zeca sempre fomos sabendo. E de Atahualpa Yupanqui uma ou outra notícia dispersa. E ontem a da inevitável partida física do trovador Yupanqui. Num momento de partida antecipo uma chegada imaginada: nesta altura, para onde quer que tenham ido, o Zeca e o Atahualpa. Já se encontraram. Com o velho índio a dizer: «Te abrazo, hermano, y ai combate vamos. Somos hechos de lúz y polvareda.»

Mário Correia



Ya no estoy en tu piedra, hermano José Afonso
Como un viento de mim pampa
llegué lleno de cantos enamorados y salvages.
Aqui quedan algunos, cerca de tus olivos.
Junto a los rios, trepando calles
y caminos duros. Duros como los hombres y las cosas.
Como no amar la tierra, compañero?
si en el aroma fuerte de la hierba
te saluda en la tarde la paloma escondida.
La mano del amigo es tu estandarte.
Tan hondo como el mar es el amor del pueblo.
Donde quiera que vayas, la poesia amanece
como uma novia inacabable y tierna.
A mi América vuelvo, José Afonso.
Te abrazo, hermano, y al combate vamos.
Somo hechos de lúz y polvareda.

Atahualpa Yupanqui
9 de Marzo 1985

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Homenagens e tributos (poesia)
18/05/2006By AJA

Poema de José Manuel Mendes


somos a verdade nua
o rosto erguido
não a máscara
o gesto que não
teme

sofremos na carne o flagelo
dos chicotes
sangramos a determinação
e a coragem
a luta
– incêndio vivo
força nova em nossos
braços

Canta Zeca Afonso
tua voz desnuda
e térrea
canta e desperta
os punhais
do vento

atam-se as mãos que soltaram
os balões
levaram as flores
na manhã
ao coração do povo

e unidas ganham o caminho
despedaçam as algemas
fazem as praias
do rubro sol

cresce a certeza
da vitória
urgem as horas
ardem as palavras

canta Zeca
canta e desprende
os fios
das tempestades

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Homenagens e tributos (poesia)
23/03/2006By AJA

Poemas a José Afonso

Idílio com a morte
Fátima Maldonado

Para o José Afonso

I

Após duelo hórrido
tenaz o cavaleiro
jaz inerte
mas não está vencido,
melhor dizendo perdeu os estribos
e vai sem pedais em direcção à morte.
Quem sabe, talvez ela o console,
lhe dê afinal o que nenhuma mulher,
sereia, sílfide ou cadela
logrou entregar,
abrir, envolver ou mostrar.
Nunca viu horizonte
onde pudesse à sombra do pinhal descansar,
o escudo recebendo a carícia do sol,
nem no regaço a dama do licórnio o acolheu
ou conheceu a partida das lágrimas
e mesmo assim o cavaleiro não esquece
feras letras, vocábulos no zénite
que a vida lhe ensinou a desdenhar.
Quando for o regresso
mais sábio, mais seg’uro e mais audaz
talvez então se resigne ao amor.

II

Pediu o cavaleiro
ao homem que maneja
o ferro
o seu vocabulário.
Pediu-lhe emprestadas
as formas das censuras,
o fia gelo, a vergôntea, o montante,
a pólvora que rodeia
os vocábulos
e fez delas coroas de espinhos.

Salutación á José Afonso
Atahualpa Yupanqui 9 Marzo 1985

Ya no estoy en tu piedra. hermano Afonso.
Como un viento de mi pampa
/legué /leno de cantos enamorados y salvages.
Aqui quedan algunos, cerca de tus olivos.
junto a los rios, trepando ca/les
y caminos duros. Ouros como los hombres y
las cosas.
Como no amar la tierra, compaflero?
Si en el aroma fuerte de la hierba
te saluda en la tarde la paloma escondida.
La mano deI amigo es tu estandarte.
Tan hondo como el mar es el amor deI pueblo.
Donde quiera que vayas, la poesia amanece
como una novia inacabable y tierna.
A mi América vuelvo, José Afonso.
Te abrazo. hermano, y aI combate vamos.
Somos hechos de lúz y polvareda.


José Afonso

Hélia Correia

Em louvor da desordem.
Exaltando
o vinho e os seus fermentos.
Em louvor dos motivos
e em louvor
da pura insensatez,
nos sentaremos nós ouvindo este homem,
atravessados pelo seu galope.

Como a uma criança, aconchegamos tudo aquilo que ele amou.
Tudo o que é térreo
e sujo
e sorridente,
e oferece o rosto
de chapão à luz.
Coisas que nos deslizam sob a pele disparando calor.
Regendo as linhas
fundamentais da vida.

Há um nó de caminhos onde este homem
se pôs a esconder pólvora e sementes,
calendários rurais.
Dele não pode falar-se sem que se ouça
a espantosa alegria.
Sem que de novo bata pelos sítios
o eco de um tambor.

É bem possível
que a canção vele, oculta nas cidades.
Que se incline nos nossos pensamentos
como um espelho lunar,
duro e pacífico.
E sob o seu olhar nos desloquemos
por entre a turbulência.
E dela venha um íntimo sentido
e o seu ardor nos saiba
conduzir.

Pois deste homem ficou o ofício.
Os meios.
Sabemos de que modo se levantam
as pedras sobre as pedras.
Sabemos de que modo
as aguçar.

Existe ainda
um cordão de linguagens.
Vibra teimosamente o ar, movido por sopros
e até mesmo
por fadigas.
E a sua voz empurra e alimenta essas circulações.
É o vento do sol
que permanece.

Homenagem a José Afonso
Luís Serrano

Esta voz
é o que resta dum grito
ou dum silêncio
ou dum pranto desabitado
voz solitária e branca
onde uma água desprevenida
lentamente anoitece
a memória das coisas
está nessa luz desamparada
que respira
e também os filhos esses
tão incertos
delicados frutos
por quem perseguimos
lágrimas e risos

Novos cruzados
Lembrando Luiza Neto Jorge e as suas deambulações em Faro com A. Barahona, Zeca, Bronze e Pité
Luiza Neto Jorge

Sequiosos descem,
seus corpos de esponja
a rolar na treva,
iates rompendo
à babugem de água,
caravanas caras
em fossados por
rochedos e hortas,
sedentos recolhem
cisternas, piscinas
sob o seu pendão,
e saqueiam, sangram
consagrados à
salvação do corpo
estes cruzados!

Para José Afonso
António Ramos Rosa

O canto que se erguia
na tua voz de vento
era de sangue e oiro
e um astro insubmisso
que era menino e homem
fulgurava nas águas
entre fogos silvestres.
Cantavas para todos
os acordes da terra,
os obscuros gritos
e os delírios e as fúrias
de uma revolta justa
contra eternos vampiros.
Que imensa a aventura
da luz por entre as sombras!
A vida convertia-se
num rio incandescente
e num prodígio branco
o canto sobre os barcos!
E o desejo tão fundo
centrava-se num ponto
em que atingia o uno
e a claridade intacta.
O canto era carícia
para uma ferida extrema
que era de todos nós
na angústia insustentável.
Mas ressurgia dela
a mais fina energia
ressuscitando o ser
em plenitude de água
e de um fogo amoroso.
É já manhã cantor
e o teu canto não cessa
onde não há a morte
e o coração começa.

Quando a luz fechou os olhos
Janita Salomé

Quando a luz fechou os olhos
Amansou a terra um ar morno
De cinza, doce, de cores desmaiadas
Pelos perfumes vindos no bafo da noite

Do ramo mais fino do silêncio
Soou o rouxinol num canto dorido
De seda e ondas, que soltava em cada nota
Um fio delicado de fumo como fogo-fátuo

Teceu um véu e ali se guardou
De volta às entranhas da vida
Basta um sopro mágico, liberto,
Para que a luz acorde a cantar

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Homenagens e tributos (poesia)João Pedro Grabato Dias
24/02/2006By AJA

Soneto para o José Afonso

O sílex maxilar abaixa e vibra,
viva rocha fremindo o escárnio e a dor
dos outros, que a sua é apenas flor
enrazinhada ao maxilar e frívola

quase, como quem não pretende. Víboras
de ar contente enpinam-se ao calor
da alheia orelha, e passado e amor
e presente e gente, ganham a estrídula

razão que inda não tinham. No paul
de vicioso bafo, um tremendal
de coxas rãs coaxam no azul

um vazio silênclo. E à barragal
do porto aconchegado em ocul-
ta estultícia chega um vento de sal…

João Pedro Grabato Dias*

*Pseudónimo de António Quadros (Viseu, 1933-Santiago de Besteiros, 1994) estudou Pintura na Escola Superior de Belas-Artes do Porto, e Gravura e Pintura a Fresco em Paris. Em 1964 parte para Lourenço Marques. Foi pintor e professor, mas também artista gráfico, ilustrador, ceramista, escultor, fotógrafo, cenógrafo e pedagogo. Trabalhou em arquitetura, apicultura, comunicação, biologia e ecologia, privilegiando uma abordagem interdisciplinar. Escreveu e publicou poesia sob diferentes pseudónimos: João Pedro Grabato Dias, com 40 e Tal Sonetos de Amor e Circunstância e Uma Canção Desesperada (1970), O Morto (1971), A Arca (1971), 21 Laurentinas (1971), Pressaga (1974), Facto/Fado (1986), O Povo É Nós (1991) e Sagapress (1992); Frey Ioannes Garabatus, com o poema épico-paródico As Quybyrycas (1972, prefácio de Jorge de Sena); Mutimati Barnabé João, ficcionado guerrilheiro morto em combate, com os poemas Eu, o Povo (1975), com o poema homónimo musicado por José Afonso/ Fausto Bordalo Dias e integrado no disco Enquanto há força, 1978. Coordenou, com Rui Knopfli, os cadernos de poesia Caliban. Regressa a Portugal em 1984, e leciona na Universidade do Algarve e na Faculdade de Arquitetura do Porto, continuando a pintar e a escrever. Uma parte da sua obra plástica está antologiada no livro O Sinaleiro das Pombas (2001).

𝗟𝗲𝗶𝘁𝘂𝗿𝗮 𝗿𝗲𝗰𝗼𝗺𝗲𝗻𝗱𝗮𝗱𝗮

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