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Adelino Gomes
Home Archive by Category "Adelino Gomes"

Category: Adelino Gomes

Adelino GomesAssociação José AfonsoHomenagens e tributos
10/04/2012By AJA

Em Queluz

Na Biblioteca da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Queluz.
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Adelino GomesTestemunhos
27/12/2006By AJA

Porto de Lisboa, 1967 – Adelino Gomes

Olhou-me surpreendido, quan­do, gravador ao peito, lhe pe­di uma entrevista. “Porquê?
Para quê? Deixei-me dessas coisas”. Ia e vinha, naquele jeito desengonçado de andar. Apontava as malas aos baga­geiros, à polícia de fronteira, nervoso. Fiquei por ali, esquecido, eu próprio a sentir-me guarda fiscal também, no porto de Lisboa (Cais da Rocha? AI­cântara?, a memória retém apenas um balcão comprido num vasto recinto de tectos altos). “O Zeca Afonso regressa amanhã de Moçambique, vais fazer-lhe uma entrevista ao barco”; disseram-me na véspera – estávamos em Setembro – não sei se o Carlos Cruz, se o Fialho Gouveia, realizadores do programa PBX. Transmitido da meia-noite às duas, através do Rádio Ciube Portu­guês, o programa tinha vindo agitar as ondas conformadas do espectro radio­fónico daquele 1967, levando os micro­fones para a rua, à procura de gente,de histórias, de vida.
José Afonso diz-me que há muito perdeu o contacto com a música, que era professor na Beira, e que professor vai voltar a ser, em Setúbal, depois.de uns dias em Faro, para onde eguirá com a mulher Zélia, logo que a alfândega os.libertar .Projectos, como cantor, nenhuns. A entrevista passa para plano secundário. Digo-lhe ali entre o abrir e fechar de malas, e a azáfama de viajan­tes e polícias, aquilo que muitos outros portugueses teriam respondido, se ou­vissem o autor dos “Vampiros”, e do “Menino do Bairro Negro” anunciar-­lhes que ia deixar de cantar por esse país fora: que ele não pode abandonar aquela frente de luta cultural e cívica, tão importante para milhares de estudantes, de oposicionistas. “Importantes, umas cantiguetas?”, auto-escarnece-se, enquanto dá uma última olhadela aos haveres desembarcados.. Explico-lhe que era através das suas baladas, e das do Adriano Correia de Oliveira, passadas em sequências musicais, ou em montagens de entrevistas ou reporta­gens, que nós, na Rádio, dizíamos aquilo que de outra forma a censura corta­ria. Zeca Afonso terá ficado surpreendido com aquele discurso de um desconhe­cido repórter radiofónico. Acredito que, humilde, não sabia quão importante se tornara para muitos dos seus concidadãos. E, se alguma vez chegou a acredi­tar na influência da sua acção como cantor, a experiência traumatizante que acabava de viver em Lourenço Marques e na Beira convencera-o de que deveriam ser outras e mais directas as fórmulas a utilizar para uma altera­ção do regime político salazar-marce­lista. Acabou por dar a entrevista.
Mas as suas declarações, cortadas pela ”fis­calização” do RCP (um serviço de cen­sura tutelado por um representante do governo mas assegurado por funcionários da estação), só iriam para o “ar” depois de Raul Solnado – amigos dos realizadores do programa – fazer um pedido nesse sentido a Paulo Rodrigues, o subsecretário de estado que aIi mes­mo se designou um dia, como “a caneta de Sua Excelência” (o presidente do Conselho). José Afonso é expulso do li­ceu de Setúbal. O seu nome passa a .ser cortado nos jornais. A Pide prende-o, mais tarde. Nunca mais deixa de com­por e cantar. Sempre de serviço à causa do antifascismo, em sindiatos, associa­ções recreativas, cineclubes. Será uma “cantigueta” que um grupo de militares escolhe para o 25 de Abril.

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Adelino GomesTestemunhos
27/07/2006By AJA

Carta de agradecimento a José Afonso um ano depois da despedida

Conheci-te pessoalmente vai fazer 21 anos.
Esperei-te no cais da Rocha do Conde de Óbidos, junto dos fun­cionários da Alfândega, da Guarda Fiscal, da Pide. Vasculhavam eles arcas e malas e eu, de gravador ainda desligado, para trás e para diante, ao sabor das tuas necessidades alfandegárias, ten­tando vencer a (futura) lendária relutância do dr. José Afonso a falar de música, das suas cantigas.
Guardo uma vaga memória da tua mulher, da(s) criança(s), das respostas evasivas a provocarem-me a situação de desconforto que volta e meia tenho de suportar noutros episódios desta pro­fissão de intruso.
Ninguém para te abraçar, à chegada do navio.
E tu a mostrares-te admirado (desconfiado?) com a minha insis­tência em falar-te de música, e da importância das tuas canções. A minha tarefa era recolher as tuas primeiras declarações no re­gresso à “metrópole”. Não me lembro como, mas eles eram bons profissionais) o Carlos Cruz e o Fialho Gouveia, realizadores do programa PBX (Onda Média do Rádio Clube Português, da meia­-noite às duas), sabiam que ias chegar naquele dia do Verão de 1967. Encarregaram-se de te entrevistar, e de te convencer a gravar algumas canções para o programa. Gravar gratuitamente, que era a velha forma nacional – porreirista de aproveitar os can­tores de resistência sem olhar aos seus dramas, sem nos interro­garmos sobre (se tinham) dificuldades materiais.
Vinhas esgotado da experiência colonial de Lourenço Marques e da Beira. E sem um tostão. Não sabias bem ainda onde ficarias a residir. Julgo que me falaste de Setúbal, mas também de Faro. Só encaravas o ensino como modo de vida.
Regressei impressionado à Sampaio e Pina. Tentei que os reali­zadores convencessem os produtores – os Parodiantes de Lis­boa – a pagarem as gravações que te dispuseras a ir fazer dentro de dias. Recordo a alguém a argumentar (interessa saber quem, em particular?) que o Zeca Afonso se devia sentir muito grato ao PBX por este o relançar no país.
A fiscalização do RCP – junto da qual funcionava um represen­tante dos Serviços de Censura – cortou o programa e só uma cunha do actor Raúl Solnado ao Subsecretário de Estado da Pre­sidência do Conselho, Paulo Rodrigues, permitiu a sua trans­missão umas noites depois.
Nunca tive coragem de te perguntar se recebeste algum dinheiro pelas gravações. Julgo que te pagaram apenas os transportes para e de Lisboa. Não me lembro que canções novas (era a exigência) cantaste. A lógica manda-me pensar que foram canções incluidas no LP Cantares do Andarilho (1968) ou nos Contos Velhos Rumos Novos. Porém, não sei porquê, fiquei sempre com a ideia que foi no PBX, em 1967, que deste a conhecer as Cantigas do Maio. Talvez porque a esse espantoso monumento da MPP /Canção de Intervenção nada foi feito antes nem nada foi feito depois que se igualasse.
Para mim, o momento do solitário encontro no cais e o episódio do “cravanço” do PBX constituiram a revelação em corpo inteiro de um José Afonso que andou pela nossa terra, como tu próprio declararias mais tarde, a pagar a sua dívida política e cultural para fins que considerava correctos e a pessoas ou organizações para quem valia a pena fazê-lo.
Jornalista da Rádio, foi a ti, à inspiração da tua música e ao apelo dos teus versos que recorri, como outros companheiros, nos tempos de Salazar e Caetano, para fazer passar a mensagem do inconformismo.
Tu dizias por música o que nós não podíamos dizer por palavras. O que nós não tínhamos coragem para dizer por palavras. Devo-te essa lição.
Devo-te tudo o que se deve a quem nos dá força para resistir. Tudo o que se deve a quem tem a coragem de ser até ao fim igual a si mesmo e às ideias que apregoou algum dia.”Outra voz outra garganta/Outra mão que se estende à que tom­bara/Uma fagulha num palheiro acesa/Ó meus irmãos a luta não pára”.

Adelino Gomes, in Revista nº 1 da AJA, 1988

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