Porto de Lisboa, 1967 – Adelino Gomes
Para quê? Deixei-me dessas coisas”. Ia e vinha, naquele jeito desengonçado de andar. Apontava as malas aos bagageiros, à polícia de fronteira, nervoso. Fiquei por ali, esquecido, eu próprio a sentir-me guarda fiscal também, no porto de Lisboa (Cais da Rocha? AIcântara?, a memória retém apenas um balcão comprido num vasto recinto de tectos altos). “O Zeca Afonso regressa amanhã de Moçambique, vais fazer-lhe uma entrevista ao barco”; disseram-me na véspera – estávamos em Setembro – não sei se o Carlos Cruz, se o Fialho Gouveia, realizadores do programa PBX. Transmitido da meia-noite às duas, através do Rádio Ciube Português, o programa tinha vindo agitar as ondas conformadas do espectro radiofónico daquele 1967, levando os microfones para a rua, à procura de gente,de histórias, de vida.
José Afonso diz-me que há muito perdeu o contacto com a música, que era professor na Beira, e que professor vai voltar a ser, em Setúbal, depois.de uns dias em Faro, para onde eguirá com a mulher Zélia, logo que a alfândega os.libertar .Projectos, como cantor, nenhuns. A entrevista passa para plano secundário. Digo-lhe ali entre o abrir e fechar de malas, e a azáfama de viajantes e polícias, aquilo que muitos outros portugueses teriam respondido, se ouvissem o autor dos “Vampiros”, e do “Menino do Bairro Negro” anunciar-lhes que ia deixar de cantar por esse país fora: que ele não pode abandonar aquela frente de luta cultural e cívica, tão importante para milhares de estudantes, de oposicionistas. “Importantes, umas cantiguetas?”, auto-escarnece-se, enquanto dá uma última olhadela aos haveres desembarcados.. Explico-lhe que era através das suas baladas, e das do Adriano Correia de Oliveira, passadas em sequências musicais, ou em montagens de entrevistas ou reportagens, que nós, na Rádio, dizíamos aquilo que de outra forma a censura cortaria. Zeca Afonso terá ficado surpreendido com aquele discurso de um desconhecido repórter radiofónico. Acredito que, humilde, não sabia quão importante se tornara para muitos dos seus concidadãos. E, se alguma vez chegou a acreditar na influência da sua acção como cantor, a experiência traumatizante que acabava de viver em Lourenço Marques e na Beira convencera-o de que deveriam ser outras e mais directas as fórmulas a utilizar para uma alteração do regime político salazar-marcelista. Acabou por dar a entrevista.
Mas as suas declarações, cortadas pela ”fiscalização” do RCP (um serviço de censura tutelado por um representante do governo mas assegurado por funcionários da estação), só iriam para o “ar” depois de Raul Solnado – amigos dos realizadores do programa – fazer um pedido nesse sentido a Paulo Rodrigues, o subsecretário de estado que aIi mesmo se designou um dia, como “a caneta de Sua Excelência” (o presidente do Conselho). José Afonso é expulso do liceu de Setúbal. O seu nome passa a .ser cortado nos jornais. A Pide prende-o, mais tarde. Nunca mais deixa de compor e cantar. Sempre de serviço à causa do antifascismo, em sindiatos, associações recreativas, cineclubes. Será uma “cantigueta” que um grupo de militares escolhe para o 25 de Abril.
Teresa Torga
Com o título “Quem se despiu na via pública, onte, às 4 da tarde?”, no Diário de Lisboa (7.5.75), Rogério Rodrigues conta a história de uma mulher “de que não se conhecia o nome”, que ontem, às quatro da tarde, fazia strip-tease enquanto dançava, ao centro do cruzamento da Avenida Miguel Bombarda com a Avenida 5 de Outubro.”Visivelmente surpreendidos, alguns espectadores da cena, invulgar em ruas de Lisboa, dirigiram-se para a mulher no intento de a proteger das vistas de quem passava e de quem parava, persuadi-la a vestir-se e abandonar o local. No meio da confusão, surge o repórter António Capela, que começa a disparar. Os populares, indignados com o que consideram ‘uma baixeza moral’, investem sobre ele, insultam-no, empurram-no, agridem-no e só a intervenção do proprietário da drogaria vizinha impede que não lhe partam a máquina. (…) Entretanto a mulher tinha sido levada para o limiar de um prédio com porteira à porta. Já vestida, olhava apática para as pessoas que a rodeavam. Dizem-me que se chamava Maria Teresa. ‘Não sou Maria. Não sou Teresa. Tenho muitos nomes.’ Tinha os lábios encortiçados e recusava o copo de água que lhe ofereciam.””Quem se despiu na via pública, ontem, às 4 da tarde?”. interroga-se o jornalista. que passa a contar o percurso de vida, entretanto averiguado, de uma mulher de 41 anos, divorciada, sucessivamente actriz de revista, emigrante no Brasil, cantora de fado e que agora, no intervalo de tratamentos no Júlio de Matos, “mudava discos no pick-up” de uma boite em Benfica.Usava o nome de Teresa Torga “porque há um escritor que se chama assim” e ela gostava muito de ler, conta uma vizinha. A última vez que o repórter a viu seguia ela num carro da polícia para a esquadra do Matadouro.Zeca Afonso lê a crónica, magnífica, põe-lhe notas e voz, e imortaliza-a.Persistências – Da importância da música de José Afonso na Holanda
Esta história começa em 1972…
Nesse ano, num dia em Janeiro, uma orquestra holande
sa de instrumentos de sopro nascia em Amsterdão. O nome que adoptaram foi o título da sua primeira composição: ‘De Volharding’. Em tradução literal, qualquer coisa como ‘Perseverança’ ou ‘Persistência’.
Tocavam em tudo o que era manifestações de rua, fosse contra a guerra do Vietnam, pela democratização da universidade ou a favor do aborto. De acordo com a sua filosofia o grupo dirigia-se a si mesmo e não obedecia a dirigentes…
Vinte anos mais tarde, a orquestra ainda existe. Com outros membros, é certo (da formação original, mais não restam do que dois ou três nomes), continuando a tocar temas que fizeram (a sua) história.
Entre os mais conhecidos, alguns que nos são particularmente gratos. Estão neste caso, ‘Grândola’ e ‘Coro da Primavera’. E é aqui que entra o Zeca…
Porque isso aconteceu, já todos os leitores estão neste momento a imaginar. . .
Até 1974, Portugal ‘não existia’ nos meios de informação holandeses.
Para além dos ‘heróis’ nacionais da época (que incluíam símbolos como Fátima, Salazar e Eusébio), parcas eram as referências na imprensa local ao nosso país.
A partir desse ano, e pelas razões que muitos de nós persistem em não esquecer, ‘surgiu’ mais um país no mapa da Europa democrática. Indelevelmente ligado a esse ano e data histórica estava uma canção que passou a fazer parte do património cultural da resistência e solidariedade holandesa. Não passava semana, que a televisão não transmitisse imagens do nosso país, invariavelmente acompanhadas das estrofes da ‘Grândola’.
Na verdade, a canção chegaria à Holanda muito antes do Zeca… Este passaria (praticamente despercebido) pelo circuito emigrante de Amsterdão na sua primeira visita àquela cidade em Setembro de 1974 e, só quase dois anos mais tarde, cantaria pela primeira vez para o público holandês.
Nessa altura, perante uma assistência de 5.000 espectadores que, de braço dado e a uma temperatura ambiente de 13 graus negativos, repetiram as estrofes da canção obrigando o cantor a actuar em dois palcos na mesma noite do Festival da Contra-Cultura, em Utrechí.
Com ‘Grândola’ eleito hino da ‘resistência europeia’, a popularidade da música portuguesa não parou de aumentar…
É aqui que entra o Amilcar.
AMILCAR VASQUES DIAS
Chegado à Holanda em 1974, Amilcar Vasques Dias – um
estudante-compositor de música contemporânea – cedo entraria em contacto com o circuito musical holandês. Aí conheceria Louis Andriessen, fundador e principal impulsionador do ‘De Volharding’, através de quem chegaria àorquestra com quem começou a trabalhar.
Amilcar é convidado a fazer arranjos de composições do Zeca para o ‘De Volharding’, que serão gravadas posteriormente. Datam desse período, as gravações de ‘Grândola’ e ‘Coro da Primavera’ e, posteriormente, ‘Amor Militante’ baseado num poema de Manuel Alegre.
Mais tarde, já com José Afonso doente e durante um concerto de homenagem que lhe foi feito no ‘Melkweg’ de Amsterdão (Abril de 1985), e que juntou mais de 50 artistas em palco, lá estavam, lado a lado, a orquestra ‘De Volharding’ e o Amilcar, que tocou piano nessa noite…
Lá no Xipangara
“Na viagem de regresso de Moçambique para Portugal comecei a curtir saudades, como agora se diz. E durante a viagem de barco, fiz «Lá no Xipangara» canção meramente rememorativa – evocativa de personagens e lugares que inseri no meu álbum «Coro dos Tribunais».” José Afonso
Lá no Xipangara
Lá no Xepangara
Vai nascer menino
Dentro da palhota
Tem a seu destino
Lá no Xepangara
Fica muito bem
Deitado na esteira
Ao lado da mãe
Há-de ter um nome
Lá prò fim do ano
Se morrer de fome
Tapa-se com um pano
Se tiver já corpo
Rega-se com vinho
Se não cair morto
Chama-se menino
Se tiver umbigo
Corta-se à navalha
Tira-se uma tripa
Faz-se uma mortalha
Pretinho de raça
Sempre desconfia
Se o musungo passa
Diz muito bom dia
Quando for mufana
E já pedir pão
Dá-se uma lambada
Vem comer à mão
Mais uma patada
Vai-te embora cão
Dá-se-lhe porrada
Porque é mandrião
Lá prò fim do ano
Quando já for moço
Guarda-se o tutano
Fica pele e osso
Quando já for homem
Tira-se o retrato
Come na cozinha
Chama-se mainato
Se mudar de vida
Vai para o contrato
No fundo da mina
Fica mais barato
Quando já for velho
Chama-se tratante
Dá-se-lhe aguardente
Morre num instante
Lá no Xipangara
e algumas fotos da estreia da “Excepção e a Regra”
República


“República” foi gravado em Roma, em 30 de Setembro e 1 de Outubro de 1975, nos Estúdios das Santini Edizioni. Álbum de solidariedade para com o jornal República e a Reforma Agrária, editado em 1975, com interpretações de Zeca e de Francisco Fanhais, que inclui um tema inédito, «Foi no Sábado Passado», escrito a propósito de uma manifestação de solidariedade com a revolução portuguesa, realizada em Roma. Os outros temas são: «Para não dizer que não falei de flores», do brasileiro Geraldo Vandré, «Se os teus olhos se vendessem», «Canta camarada», «Eu hei-de ir colher macela», «O pão que sobra à riqueza», «Vampiros», «Senhora do Almortão», «Letra para um hino» e «Ladaínha do Arcebispo».
Editado por iniciativa conjunta do Manifesto e das organizações Lotta Continua e Vanguardia Operaria, nunca foi distribuído em Portugal. O produto da venda dos discos destinava-se ao apoio da Comissão de Trabalhadores do Jornal “República” ou, caso o jornal fosse entretanto extinto, ao Secretariado Provisório das Cooperativas Agrícolas de Alcoentre.
De Cédric Ribeiro

Retirado de: www.folkmagazine.info/cartoon.htm
Dedicatória

A re-edição em cd (Strauss, 1998) do LP original “Canções da Cidade Nova” (1970), com nova capa e designação (a dedicatória de José Afonso, que no album original se encontrava na contracapa) e um novo alinhamento das canções.
Direção Musical e Arranjos: Thilo Krasmann
«Num tempo marcado pelas guerras de África, pela intransigência acéfala do regime, pelo visco autoritário e dirigista, pela prepotência, pela repressão, pela Ditadura», era-nos pedido que não deixássemos morrer na garganta o grito inventado pela dor, que fizessemos da raiva canção e da canção uma ponte.
Tempo de não adormecer na madrugada.
Tempo do sim irreversível à vida.
Tempo de aprender a não ter medo de amar.
Tempo de encontrar novos companheiros, vindos de outros lugares mas todos sedentos da mesma manhã. E éramos tantos!
“Os tempos eram outros…”
O Tempo é o mesmo.
(Francisco Fanhais)
DA RAZÓN Ó CORAZÓN – Homenagem a Benedicto Garcia Vilar
Discurso do Benedicto na sua homenagem em Lugo
Benedicto García Villar
11 de marzo do 2006
Prémio José Afonso sem vencedor
Andrés Stagnaro
A Aja norte já está a construir 2007.
Inauguração da nova sede da AJA em Setúbal
A Associação José Afonso fará a inauguração da sua sede em Setúbal, no próximo sábado, dia 18 de Novembro a partir das 16 horas. Apareçam e tragam um amigo também.
Associação José Afonso
Rua Damão 26 – 28
2900-340 Setúbal
Para mais informações: 265. 185 580
Zeca em Coimbra…

José Afonso por Carlos Couceiro
Saíamos para as nossas noitadas desde que se cantasse e tocasse bem ou mal, e ele cantava bem e o Barroso tocava muito bem, eu é que era o mais incipiente. Fomos colegas desde o 4º ano, e mais, vim a ser seu compadre, padrinho do seu primeiro filho.
Estava eu na Faculdade de Engenharia no Porto, quando recebi um recado dele, à sua boa maneira: – Quero que sejas o padrinho do meu filho. E lá fui eu para o notário da Avenida da Sofia com a minha comadre, uma moça de Pinhel, a Leia. Entretanto o José Afonso foi dando os nomes e as datas do pai, da mãe e dos avós e daquelas coisas todas que lhe pediam, até que o notário lhe perguntou: – Em que dia é que nasceu a criança?…e ele: Eh, pá, em que dia é que nasceu o meu filho??? E eu disse 17 de Janeiro de 1952. Histórias. . .! ele tem tantas. .. Uma em que ele quer receber a Tuna Académica de Coimbra que vinha de Nova Lisboa, em Angola, para o Lobito, no Caminho de Ferro. Ele pertencia à Comissão de Recepção. Eu já não via o Zeca há seis anos. Ele saíu do comboio dirigiu-se a mim e disse-me: Eh pá, esta malta agora tem um sentido exagerado de propriedade, e eu perguntei-lhe: Porquê, pá? E ele explicou: Olha quando me levantei, calcei as meias do parceiro que vinha na cabine, comigo, e o tipo refilou tanto, tanto, que eu estive a quase a ir-lhe ao focinho. . .
Outra vez, ainda no Liceu, quando apareceu o aspecto ortográfico de acentuação, o Zeca nas aulas de Português dizia “Estando os conégos da Se com os cotóvelos apoiados numa mesa de pau de ebâno bebendo uma pinga de cáfe, estando uma menina a ler, diz um deles: “Ai que bem que a menina le”, pois ainda não é nada, porquanto ainda vamos no prológo quando formos no epilógo das formigas. . .! E muitas outras mais. .. Há muitas coisas que se sabe pouco dele, eu devo dizer, para mim, que o Santos Silva, engenheiro na Figueira, O Manuel Nemésio, filho do Vitorino Nemésio que o conhecemos na intimidade desde crianças, sabemos da sua generosidade, da sua coragem e da sua energia física. Nós punhamos as capas em cima da cabeça e ele saltava aquilo. Na Universidade ele corria muito bem. . . e como é que aquele homem vem a morrer com aquela doença de atrofias musculares ele que era de uma elasticidade física como poucos.
Era uma pessoa de grande coragem, pois por vezes em situações de grandes conflitos, em que ele não se metia, mas que não arredava pé.
Dizer dele, que era um homem de boa fé, duma descuidada ingenuidade, um homem bom e assim vivíamos. Convidou-me no dia seguinte ao casamento dele, que fez com umas testemunhas quaisquer, que encontrou. Sentei-me e comi com ele, o primeiro prato de bacalhau com duas batatas, no quarto dele no Beco da Carqueja, era um Beco que havia mesmo em frente da Sé Velha, e ele vivia ali no 32 andar.
Muitas vezes encontrei o Zeca Afonso a dormir na minha cama na minha “República” e eu a ter que me deitar num colchão no chão, porque ele não aceitava que o fossem tirar da cama onde dormia, aquilo era dele. São alguns pormenores que posso contar. Falar dele é falar de muita saudade. São muitos os episódios, mas acho que o António Fernandes Santos Silva engenheiro da Figueira da Foz, tem um livro que traz umas histórias sobre o Zeca. O Santos Silva, julgo que foi a pessoa que melhor retratou a vida do Zeca. O resto, floriram, e na minha opinião exploraram a pessoa que ele era. Nalgumas coisas, utilizaram a sua maneira de ser mas este, o Santos Silva, deu em toda a sua beleza a sua grande dimensão com a amizade de irmão.
CANTIGA DE AMIGO – Alípio de Freitas
Digo que partiu e digo que ficou. Na memória, no afecto e no retrato que está aqui, ao meu lado, junto do Cardenal, do Cristo de Dali, do Che, do Gregorio Bezerra e dos companheiros da Fortaleza de Santa Cruz. Estamos todos aqui, nas fotos, na lembrança e na música, em diálogo permanente sobre o presente e sobre o futuro, aquele futuro do qual não desistiremos jamais… Esperem um pouco… Eu volto Já… Tenho de ir ao quintal respirar e conversar com as árvores porque o coração se me aperta com a presença-ausência do Zeca. E dos outros. E eu que pensava que a vida já me tinha endurecido o bastante para contrariar a emoção. Mas não.
O aniversário da Aja Norte
Seguiram-se as músicas e as canções, contando com a participação do grupo Ajaforça, Manuel Ramalho, João Teixeira, José Silva, Fernando Lacerda e Tino Flores.
Não poderia-mos deixar de salientar e agradecer o serviço prestado pelo restaurante, e do seu proprietário senhor Jorge, o qual depois de tudo bem servido nos presenteou com a sua presença e participação, comentando que assim dá gosto trabalhar e receber clientes.
No final era bem visível a satisfação de todos.
1º aniversário da Aja Norte
Ementa Aperitivos, prato (três opções de prato sob inscrição prévia), fruta ou bolo, café, vinhos, sumos, água
Preço 13 euros – Limite máximo de participantes: 50
Inscrições Gabriela Marques gabrielammarques@gmail.com Paulo Esperança 91 771 19 64
Música membros do grupo “Ajaforça”, João Teixeira, Tino Flores, entre outros
Postal virtual
Postal virtual com José Afonso
Ilustração realizada em 2005 por Augusto Mota e logo posta a circular entre amigos através de e-mail. O poema, da autoria de Luís Serrano, data de Novembro de 1983, e vem publicado na obra “Entre Sono e Abandono”, Aveiro, Estante Editora, 1990.
A fotografia que serviu de base ao trabalho do artista foi captada em Leiria, logo após uma sessão de canto livre que contou com a participação de José Afonso.
[imagem enviada por Augusto Mota em 15 de Outubro de 2006]
Retirado do blog: http://guitarradecoimbra.blogspot.com
Uma pequena história partilhada pelo Júlio Pereira
Só mais tarde percebi que o Zeca, nesse dia, tinha deixado seis amigos na Galiza.
Júlio Pereira
(Músico e amigo do Zeca)
Ideias para 2007 – Ano José Afonso
Patxi Andion
Carta ao Zeca
E se de todas as bocas saísse hoje a palavra liberdade?
E se saíssemos das casas conforto, comodismo
E na rua olhássemos a miséria de frente,
A hipocrisia que alastra,
O egoísmo do eu feito preocupação diária?
E se em vez de sobreviver
Vivêssemos?
E se a indignação fosse decreto,
Obrigatoriedade, dever cívico a cumprir?
E se a miséria fosse crime público
E quem a permite, julgado e condenado pela lei?
E se disséssemos ao Zeca:
Olha pá, tentámos manter Abril vivo
Mas os cravos hoje são todos sintéticos como a liberdade.
Olha Zeca, a malta perdeu a memória
Esqueceu a história e não vai em revoluções
Senta-se no sofá e faz zapping ao mundo.
E o povo Zeca, já não ordena
O povo, Zeca, esqueceu o que é fraternidade!
Poema da Encandescente
António Pinho Brojo sobre José Afonso
(…)
AMN: Estamos a caminhar para os finais dos anos 40…
APB: Sim. Entretanto aparece o Zeca Afonso, à volta de 1948, também cantando exclusivamente o fado tradicional. Eu, em 1952, exactamente, fiz discos de 78 rotações com o José Afonso, Luiz Goes e Fernando Rolim. É, digamos, depois dos discos do Menano, do Paradela, do Lucas Junot, a primeira vez que são lançados discos de 78 rotações com os três cantores que depois vieram a ser uma Segunda Geração de Ouro. O Luiz Goes, repare, trazia atrás de si um património musical formidável. O tio dele, o Armando Goes, tinha, como sabe, o estilo que nem sempre era o do fado tradicional. Ele insistiu no fado lisboeta, cantou sonetos e o Luiz Goes continuou a herança do tio.
AMN: Estes discos de 1952 eram já um projecto artístico diferenciado em relação às heranças recebidas? Gravou apenas porque havia necessidade de novos discos no mercado, pensou, estudou, ensaiou, ou as gravações foram espontâneas?
APB: Não! Foi um projecto diferente. Não foi espontâneo. Com a aproximação dos Anos 50, aí por 1951, eu venho para Coimbra, para a Universidade. Em minha casa surge uma tertúlia, a Tertúlia do Calhabé. Tertúlia com quem? Com um sujeito que ainda está vivo e que é funcionário da Assistência Social, que era o José Rodrigues, um apaixonado pelo estilo do Artur Paredes e seu conviva. Ele era sobretudo um cultor da guitarra, da guitarra do Artur Paredes e teve uma grande importância na minha formação e na do Portugal também. E com o José Rodrigues e com o Florêncio Neto de Carvalho – que era um homem que tinha uma virtude extraordinária. Conhecia muito bem o fado de Coimbra e sabia interpretar (=imitar) o estilo de cada um dos cantores da Primeira Geração de Ouro, então resolvemos chamar o Fernando Rolim, o Zeca, o Goes e o Machado Soares que entrou mais tarde. E resolvemos que as coisas tinham caído numa tal decadência…
AMN. Vocês tinham consciência dessa “decadência” artística?
APB: Tivemos a noção dessa crise e pensámos “nós temos de fazer um estudo das raízes!” Com o trabalho discográfico do Artur Paredes e o apoio do José Rodrigues surge um “Renascimento”. Em minha casa começámos a fazer exactamente esse trabalho. O Florêncio de Carvalho o que é que fazia? Quando aparecia um rapaz, ele dizia, “ó pá, tu tens uma voz estupenda para cantar, eu vou-te ensinar fados do Bettencourt como ele os cantava”. E depois cantava-lhe à maneira do Bettencourt, do Paradela, do Menano. Depois corrigia o cantor, obrigava-o a dizer o poema. Havia toda uma aprendizagem que era no sentido de primeiro saber o que estava a cantar, reproduzir o conteúdo do poema e dar-lhe depois expressão na música dentro do estilo. Outros teriam um estilo mais parecido com o Menano… de facto, houve um trabalho de sapa, de estudo e de recolha, de regresso às raízes dos anos 20. Mas atenção, o Florêncio representava já algo de progresso, introduzia já o seu contributo. O Florêncio também cantava, embora tivesse problemas de garganta e tivesse muitas vezes dificuldades de cantar, mas sobretudo tinha uma expressividade extraordinária.
Os discos surgem como consequência desse treino, desse estudo. Os discos aparecem, deliberadamente, como uma forma de afirmação e de “reposição”.
APB: Foi óptimo, foi óptimo!
AMN: Havia uma lacuna fonográfica de quase 30 anos…
APB: Não era fácil. As empresas de gravação eram poucas e não tinham muitos meios. O Fado de Coimbra estava num gueto, verdadeiramente num gueto! Ainda hoje lhe devo dizer uma coisa, o grande mal disto tudo está em a Canção de Coimbra ser sempre associada restritamente ao meio de Coimbra, é sempre considerada como uma música urbana muito local. Nunca adquiriu um estatuto na música ligeira portuguesa, ao contrário do Fado de Lisboa. Ainda hoje na rádio, é difícil, é raro, pode contar pelos dedos o número das situações em que está a ouvir música diversa e no meio da música sai uma canção de Coimbra. É raro! Felizmente que aparece, mas é raro.
Tinha havido ali um hiato tremendo e aqueles discos tiveram uma enorme aceitação. Os discos foram gravados aqui em Coimbra no Emissor Regional, em condições muito fracas, e depois passadas a 45 rotações e 33 rotações e cassetes. O Portugal já nessa altura entrou. Foi o meu 2º guitarra nesses discos. Quando eu me vou embora para a Suiça em 1954 – o meu trajecto vai até 54, de 1943-1944 até 54 – , o Portugal vai continuar o nosso trabalho.
Em toda a minha época, eu cito o João Bagão, cito o José Maria Amaral, o Carvalho Homem, o Manuel Branquinho (embora o Manuel Branquinho nunca tenha sido um guitarrista, em meu entender, eu sou oficial do mesmo ofício, que se tivesse afirmado muito significativamente. Quando reaparece, mais tarde, é a cantar). Como violas eram o Aurélio Reis, que já era uma figura habitual, era o Eduardo Tavares de Melo, o Mário Castro. Na minha geração isto foi o núcleo fundamental.
APB: O Figueiredo (risos)… você já se apercebeu que o meio é fechado e pequeno… há certas rivalidades. Há sempre uns ditos de bastidores, umas piadas. Nessa altura também havia essa mesma rivalidade. Ainda que, o João Bagão, o José Maria Amaral e o Carvalho Homem tivessem actuado muitas vezes em conjunto, de tal maneira que o José Maria Amaral foi 2º guitarra do João Bagão, depois o José Maria Amaral autonomiza-se e constitui o seu próprio grupo em que eu entrei como 2º guitarra, depois o José Maria Amaral vai-se embora e eu fico com o Carvalho Homem… Eu não tinha problemas, integrava-me facilmente embora sentisse as rivalidades, que então nos cantores eram “notáveis”. No meu grupo não, o Fernando Rolim, o Luiz Goes e o Zeca Afonso iam cantar a minha casa e havia entre nós um grande entrosamento.
Com havia as estrelas, o Figueiredo, a quem nós chamávamos o Figueiralho (risos), era um homem que não era um violista de primeira água, embora tivesse o seu mérito, era sempre o violista substituto. E então utilizou um sistema curioso: quando arranjava um cantor muito bom, dizia-lhe “eu ponho-o a cantar mas você fica comigo”. Havia este sistema também na altura. Como você sabe os cantores foram sempre adstritos a grupos e de certa maneira era difícil a um cantor ir com um outro grupo, era visto como uma traição aos seus companheiros. Isto já existia.
Muitas vezes o Figueiredo integrava-se nestes grupos, mas sempre com a sensação de que era um elemento de substituição. O que o Figueiredo tinha era coisa extraordinária, apesar de ser um tipo de importância menor, boi um belíssimo compositor. Fez fados tradicionais muito bem feitos, que nós aproveitámos, o “Adeus Sé Velha saudosa”, o “Ondas do Mar”, “O Sol anda lá no Céu”. O Zeca Afonso nessa altura era um cantor tradicional, tendo uma voz de pouca amplitude. Tinha uma voz fraca para cantar o fado tradicional. O ele ter explorado a balada, não há dúvida nenhuma que é esse o tipo de música que ele, já nessa altura, considerava mais adequado à sua maneira de ser e para as suas possibilidades vocais. Aliás, ele tinha uma coisa muito curiosa. Eu posso-lhe contar um episódio. Fomos fazer aí um espectáculo e ele cantou o “Águia que vais tão alta” maravilhosamente. Deram-lhe aplausos. E no fim há um sujeito, um antigo estudante, um velhinho, que vai ter com ele e lhe diz “Você é realmente um cantor extraordinário e deve ser muito feliz”. E diz ele, “Você está enganado”, e acrescenta com aquele ar dele “Eu nem gosto do Fado de Coimbra”. Isto mostra que realmente o Zeca Afonso tinha de evoluir para outro tipo de música.
APB: Não, não acompanhei, porque eu depois da Suiça, aí por 1959, afastei-me. Foi uma fase muito difícil para mim, porque eu preparava a minha tese de doutoramento. Eu doutoro-me em 1961.
Guitarrista que aparece nessa altura com uma pujança formidável é o Jorge Tuna, o Portugal que vem de mim, da minha geração, mas que começa a compor e, sobretudo, já com os poemas do Manuel Alegre a fazer as trovas e baladas. O Portugal acompanha o Zeca Afonso, o Adriano Correia de Oliveira, o António Bernardino. É curioso, o António Bernardino fez lembrar na altura em que apareceu uma espécie, como é que eu hei-de dizer, de Manuel Julião. Um homem versátil, cantava tudo, fado clássico sim, gostava muito dos fados do Ângelo de Araújo, a canção. Eu até 1961 não participei, ainda que uma vez ou outra acompanhasse o Zeca Afonso, sobretudo em férias.
APB: Já! Ele passou férias em minha casa no Algarve, várias vezes, ele era um homem despegado do dinheiro e às tantas chegava ao meio do mês de Agosto e não tinha o dinheiro e ia para minha casa para ter autonomia. Era realmente um artista, um poeta. E nessa altura acompanhei-o, por exemplo na “Balada do Outono” e numa série de canções que ele fez por essa altura. Eu encontrei-me perante um Zeca Afonso a cantar coisas completamente diferentes.
APB: Estava em Coimbra.
APB: Há uma dispersão e uma desmotivação dos cultores. 1969 foi um momento tremendo. E repare, se nós quisermos ser justos relativamente ao Zeca Afonso, eu recordo-me perfeitamente dele ter afirmado por volta de 1974 que não queria guitarras a acompanhá-lo, que não queria “raquetes” a acompanhá-lo, como ele chamava à guitarra. Ele não cantava fado de Coimbra. Fado de Coimbra era uma coisa abominável. Ele aí teve também um papel de certa maneira prejudicial. Prejudicou o fado de Coimbra. Depois ele fez contrição. E quando edita o disco de fado de Coimbra (1981) ele vem desdizer tudo quanto tinha afirmado. Isto significa que a partir de 1969, e indo até 1974, há enorme confusão.
(…)
Recitativos de Rui Mendes dedicados a José Afonso
I
E há apenas isto: um homem, companheiro de estrelas e de remos, no arrasto da nossa esperança, rodeado de prados e agruras, e afolhagem de certa guitarra encarnada.
II
E esse homem, pregoeiro da brisa da madrugada, de pulso livre e coração descoberto, à mesa tingida pela luz a que nos sentamos sempre, apenas canta, apenas joeira palavras e miséria, pressagiando coisas bem afortunadas: um céu azul, sem vínculos, sobre o relento do nosso chapéu e um laranjal para o alfange do mendigo.
III
E é um cantar amargo, um cantar de amigo, colher de vento, fímbria do trigo, o que nos deixa a voz garrida desse homem, exonerado do seu próprio chão, ó chão castrado d’alegria, com o olhar pregado nas ruelas atulhadas pelo silvo das crianças do mondego ou na flauta, crivo de águias, de bensafrim.
IV
Ó terreiros da erva, ó terreiros da fome, ó íngremes quebradas do medronho, ó ror de dores, ó ror d’amores, quanto ror de foices tínhamos presas aos pulsos para rasgar, ao sabor dos vales do vento, este pedaço de terra morta e devassada, onde cresce a nossa ira, que as bagas do mar ferviam, junto aos campos cor de lima e de limão.
V
E esse homem, no fresco tingir da outra margem, vigia a crista das colinas, rasga janelas nas ribeiras, remonta às eiras onde as nossas costas são flor da rosa e suão, e queima, no tear das trovas, a dor panfletária das noites e dos dias, e vai-se juntando, como um pensamento puro e repercutido no ladrar dos cães, à garganta dos caminhos, aos vãos das escadas onde dorme a erva cidreira, lavando a luz dos nossos olhos, pernoitando também o olhar nos nossos pratos vazios, enquanto os nossosfilhos vazam grandes eiras de sal, sôbolos rios que vão por babilónia.
VI
E essa voz assim cerzida, memória de romãs e arestas cruas, assim aberta a todos os homens que chegam, a todos os homens que partem – amigos e inimigos são a província e a colheita do seu sonho – essa voz, fermento e febre de terno regadio, eis que nos é promessa dum grande dia sobre as pedras manchadas pelas nossas toalhas de malva: as nossas mãos, em pleno tumulto de armas e auroras, ditando o peso e a sentença que carregavam.
VII
E, no usufruto das clareiras que rasgamos por toda a parte, das bandeiras que desfráldamos até às vertentes dos muros e das amuradas, esse homem de novo começa a cantar:fragorde sarças sobre a sombra dos ombros, passos e pássaros na descarga do limiar das noites e dos dias para outros promontórios, e a gadanha movendo a substância putrificada dos presídios e das mansões, e a cor liminar das laranjas do mar, e o azul arável do céu, tudo, por assim dizer, que enchesse, como um frémito, o leito dos rios, a estrela das montanhas, macerando folhas de acanto.
VIII
E assim vos digo: esta voz sobe a prumo e é a folha púrpura das casas, quando amanhece, e é o rumo do pastor, céu abaixo: com a sua manta de açafrão e suas pombas bravas, e é a rede que se lança sobre as abelhas, logo que atravessadas pelas linhas do fogo, e é a fresca flor da nossa mão em vão julgada.
Voz dentro sangue, matriz do nosso sangue, terra indivisa: sangue e rosas.
in “Cantares” | Fora do texto, 1995 | 4ª edição
Insisto não ser tristeza
Insisto não ser tristeza
Soluçar sobre uma mesa
E mais não ser deste mundo
Meter navios no fundo
Num caminho de esqueletos
Sempre se plantam gravetos
E se a velhice for tua
Senta-a no meio da rua.
José Afonso
in «José Afonso – Textos e canções», Relógio D’Água, 2000
Disponível aqui
Noite de tributo a Zeca Afonso em Lisboa

Na noite de 9 de Setembro, no Bar Café do Mercado da Ribeira, lembramos o Zeca e as suas canções. O compositor e escritor Andrés Stagnaro é o nosso convidado especial….
O bar café do Mercado da Ribeira recebe, na noite de 9 de Setembro o compositor e escritor uruguaio Andés Stagnaro, que nos dará a conhecer o seu albúm “Las canciones de José Afonso”.
Para homenagear o Zeca contamos também com a actuação de alguns musicos residentes deste bar.
Contamos consigo a partir das 22h30.
Reserve a sua mesa através do 210 312 600 / 01 ou 210 312 605.
“Zeca Afonso ou o ódio idolatrado”. Texto de 23.08.06 retirado do blog – http://combustoes.blogspot.com/
No passado fim de semana, a RTP exibiu um verdadeiro show de totalitarismo revivaleiro. Zeca Afonso divinizado, exaltado e tido como um “génio”, deu azo a uma torrente de cançonetas de incontinente pendor marxista terceiro-mundista. As palavras sempre as mesmas (solidário, inquietação, amigo, companheiro, Maio, ceifeira), o ritmo puxando ao falso-rústico das “raízes” – outra palavra detestável – e a finalidade escancarada: tornar aceitável o abjecto (roubar, sanear, vingar, matar) e abrir portas ao totalitarismo comunista, tornando-o justificável à luz da rábula cantada. Zeca Afonso tinha um ar perturbado, queria mais, mais revolução, mais plano inclinado, mais ocupações, mais saneamentos, mais controlo operário, mais comissões de bairro – aquelas que faziam listagens com as pratas, os quadros e os aquecedores existentes nas casa dos inimigos de classe – mais poder popular, mais armas em boas mãos para defender a revolução; ou seja, mais balbúrdia que pedisse, no fim, mais um Estaline. Aquilo é Babeuf, Marat, a Comuna de Paris, a propaganda pelo facto do bombismo anarquista, mais comunalismo utópico em que entram as CEB’s (Comunidade Eclesiais de Base), as Comissões de Ocupação de herdades (as célebres “comprativas”), os padres Max de gola alta e barbas à Sierra Maestra, a Teologia da Libertação, as mulheres-padres, os poetas repentistas e analfabetos (quantas vezes tivemos de engolir o banalíssimo Aleixo ?), o new-age dos alucinogénios e de outros estados de consciência alterados, o abortismo dá-cá-aquela-palha; sei lá, um sem-número de coisas sem mérito elevadas nos pedestais no culto do mau. Sintomaticamente, o programa terminou com uma discursata do inefável “Zeca”: “a minha democracia não é a dos votos, mas a do poder do povo”. Pois. Uma democracia da rua, de tiros na nuca, prisões arbitrárias, campos de concentração, reeducações e penúria para todos. Uma democracia sem eleições, sem debate, sem opinião pública. Uma democracia com censura, com estribilhos, pinchagens e lavagens ao cérebro. É o que me indigna em tudo isto. Como se pode dourar aquilo que viola a democracia, a liberdade e a dignidade humana ? Como podemos abrir portas ao mundo que nos cerca se nos mantemos barricados nas superstições, ódios e quimeras que levaram à morte de tantos mihões, a tanta tragédia humana e tanta fome ? Só quando essa geração sair de cena poderemos, finalmente, aspirar à Europa.
Fotos de Vila Real de Santo António



Aqui ficam algumas fotos da homenagem a José Afonso em Vila Real de Santo António.
Em cima, as fotos da conferência com Alípio de Freitas, José Luis Louro, Teodomiro Cabrita Neto e António João.
Mais abaixo, o cartaz anunciando a exposição sobre a vida e obra de José Afonso no Arquivo Histórico Municipal.
Em breve, colocaremos mais fotos deste evento que se revelou um enorme sucesso, nomeadamente, no concerto do último dia que esgotou o Centro Cultural António Aleixo.
Valência, Abril de 1971
Foto tirada no II FESTIVAL DE LA CANCIÓN IBÉRICA (da esquerda para a direita):
Carlos Correia (Bóris), Zeca Afonso, Miro Casabella, Carlos Carlsen, Poni Micharvegas, Paco Ibañez, María del Mar Bonet. De costas as jornalistas Tina Blanco e Mercedes Arancibia.
Entre o Porto e Coimbra – O Zeca Afonso que eu conheci
O Roxo Leão era um daqueles conhecedores certificados do fado de Coimbra e um animador entusiasta da academia portuense, em tudo o que ao fado coimbrão dissesse respeito. Nessa mesma sessão de uma noite de Novembro de 1953, tomaram parte o José Vitorino Santana, que era o mais consistente fadista da nossa Academia, o Barroso, outro estudante de farmácia com carimbo de Coimbra, ele, também, um excelente tocador de viola, e os dois guitarras, o Carlos Couceiro, um executante seguro vindo, também, da cidade do Mondego para acabar no Porto a licenciatura em engenharia, e o Leonel, quartanista de Medicina, segundo guitarra e único elemento daquela tertúlia, genuinamente nortenho. No fim dos primeiros testes, em que a timidez natural de um principiante já tinha conseguido dissipar a expectativa densa que a circunstância exigente criara, todos concordaram em que eu deveria cantar os mesmos fados que o Zeca, porque, segundo as suas esclarecidas opiniões, a minha voz tinha uma estrutura musical parecida e os estilos interpretativos assemelhavam-se. Caloiro, obedeci, longe de saber o que é que esse veredicto, estando certo, significava de Iisongeiro. Contudo, e apesar de, então, essa semelhança me dizer pouco, a comparação ficou a fazer parte do meu consciente passivo, ligando-me, sentimentalmente, a esse nome que haveria de vir a ser, artisticamente, tão honrado. Passei a prestar maior atenção às canções que ele então interpretava e de que sobressaíam o fado «Incerteza», o «Contos velhinhos», o «Águia que vais tão alta», o «Meu menino é d’oiro», entre outros, e confesso o encantamento criado pela sua voz trémula e quente, que era, também, fruto do seu espírito original e sensível, voz que ora se arrastava numa dolorosa queixa, ora se erguia num grito de rebeldia e de protesto. O Zé Afonso, como outros preferiam chamar-lhe, era, sem dúvida, um estudante que cantava um fado novo que Coimbra nunca tinha ouvido.
Mas o Zé Afonso era, vi-o, depois, muito mais do que isso. Pessoalmente, encontrei esse quase-sósia canoro numa tarde de Agosto de 1956, a bordo do «Vera Cruz», a caminho de Angola. Ele viajava integrado à sua maneira (o Zeca nunca se integrou em nada) na Tuna Académica de Coimbra e o seu destino era navegar à roda da África para animar um vasto mundo de gente rica e culta que tinha decidido alugar o «Vera Cruz» para um périplo de África; eu viajava integrado no Orfeão Universitário do Porto, que seguia para Angola como agente de uma festa académica que tinha como missão apertar os nós dos laços de uma identidade lusotropical que se desejava duradoira. Cada grupo possuía a sua equipa de serenatas: a nossa era constituída pelo Rosa Araújo e o Costa Leite (guitarristas), o Hermenegildo Tavares e o Quartim Graça (violas); eram cantores o José Vitorino Santana, o Gameiro e eu. Do lado de Coimbra seguiam o Fernando Xavier e o Júlio Ribeiro (guitarristas), o Manuel Pepe e o Levi Baptista (violas); os cantores eram o Zeca Afonso e o Fernando Machado. Esse encontro fecundou uma amizade que estava destinada a crescer e que sem sobressaltos de percurso veio a ser muito grande e sincera.
Numa tarde de Agosto, quente, apesar de ser de cacimbo o tempo do calendário, o «Vera Cruz» deixou-nos no Lobito e seguiu a sua viagem, à roda do continente africano, levando consigo a «malta» de Coimbra.
Na verdade, não era fácil recusar tão espontânea, sincera e amiga sugestão; mas a minha vocação de aventura tinha asas mais curtas e, além disso, tinha duas cadeiras do meu quinto ano para fazer em Outubro; e as férias iam ser pequenas para pôr o estudo em dia. Sanado este breve desencontro, retomamos a marcha rumo ao Rivoli.
Este nomadismo, que era nele genómico, era uma das facetas que tornava visível a irrequietude do seu espírito! Mas foi, sobretudo, em Coimbra que convivemos e nos conhecemos melhor e que a nossa amizade cresceu e se radicou. O Zeca era, na verdade, uma criatura rara, de uma enorme originalidade: inteligente, culto, criativo e, ao mesmo tempo, bondoso e decifrável, era muito fácil gostar-se dele. Sempre que nos fins-de-semana o tempo era meu, lá ia até à velha cidade tratar do fado e das guitarradas, em correspondência a esse apelo primário que vinha da infância. E foi assim que muitos fins-de-semana passei na capital do Mondego, onde nos encontrávamos, ora na Baco ou nos lncas, ora em sua casa ou no seu verdadeiro lar, que eram as ruas de Coimbra. E foi assim que se desenvolveu, não uma estima superficial de convenções, mas uma amizade de gente nova, sem rugas, própria dos afectos simples e verdadeiros.
Além de cantar, o que nós conversámos! Os problemas de então, as preocupações humanísticas e sociais eram assuntos nunca calados nos nossos longos diálogos. O cristianismo e os seus valores, os compromissos que a dignidade humana implica; a coerência e a hipocrisia. Avessos a todas as tiranias, éramos, assim, apóstolos silenciosos de um mesmo credo. O Zeca era espontâneo, desacautelado e livre como se vivesse sozinho no Mundo!
Apesar dos anúncios iniciais premonitórios, que estiveram na origem da nossa aproximação, afinal, nós éramos muito mais irmãos pela inteligência interpretativa do mundo e pela confiança na bondade dos afectos, do que pela voz! Éramos mais parecidos calados do que a cantar.
O Zeca tinha sofrido a influência religiosa densa de uma tia «beata», que talvez tenha contribuído para que tivesse deixado, logo no limiar da adolescência, qualquer manifestação de prática religiosa, mas essa formação, que continuou a fazer parte do pavimento em que assentava como criatura, acompanhou-o até ao fim. Nunca rejeitou a essência daquilo que moldou a sua natureza inquieta e generosa e deu expoente aos seus valores sociais.
A convergência das nossas pessoas, sentenciada naquela noite de Inverno, nunca sofreu retrocessos ou foi posta em causa por qualquer acidente ou assintonia. Pelo contrário, foi tomando corpo, progressivamente, mais verdadeira e consciente. Quanto melhor nos conhecíamos, mais os nossos ideais batiam certo ao ritmo de um mesmo compasso. Não há dúvida de que social e humanamente assentávamos os pés num mesmo chão e que, no essencial, éramos guiados por uma bússola orientada para um mesmo norte. Menos ancorado nos valores tradicionais, o Zeca sempre foi mais solto e, por isso, vagabundo. Mas, se em alguma coisa divergíamos, era em pequeníssimos pormenores que se escondiam na espuma de certos comportamentos.
Subitamente, fui mobilizado para prestar serviço médico militar em Angola. Os três anos (de 1963 a 1966) que lá passei foram muito mais do que a interrupção fortuita de um convívio que sempre fora reciprocamente desejado. Nenhuma das minhas outras amizades sofreu com essa ausência forçada.
Quando regressei de Angola, fui reencontrar o meu Amigo Zeca em Vilar de Mouros, protagonista zangado de um extenso protesto, ora em prosa ora em verso, meio recitado, meio cantado e que tinha como objecto a história de Catarina Eufémia. A mudança senti-a, sobretudo, no abraço frio que me deu quando, no fim da longa catilinária, desceu do palco! Não me surpreendeu o seu entusiasmo pela causa abraçada. Alguém agarrou bem a sua generosidade disponível, o vazio criado pela sua bondade por realizar. Espantou-me, sim, que na sua mente independente e lúcida deixasse de haver lugar para a sublimidade poética que nos tinha feito muito amigos! Nem a poesia escapa a certas escorregadelas da lógica! Tão semelhantes e, contudo, o Zeca acabou por ser o símbolo de uma revolução que me expulsou da Universidade.
Serafim Guimarães
Na biblioteca de Saramago
2 de Agosto – data de nascimento de José Afonso
“Parece que em princípio ninguém se lembra do acto de nascimento. Cientificamente não se pode confirmar que um indivíduo que nasce tenha a percepção do seu próprio nascimento. Agora que existe uma imagem persistente, uma luz muito difusa, translúcida e que através dessa luz figuras mal definidas se debruçam sobre mim e a minha mãe…, tenho uma ideia disso. Há muitos anos que tenho essa impressão.»Para José Afonso, que assim «revelou»o seu próprio nascimento a Luís Filipe Rocha, «tudo parte de uma luz indiferenciável, uma luz que invade tudo, que me penetra por todos os lados, não é? Progressivamente através dessa luz vou distinguindo uma ou outra figura. Tudo parte de uma luz branca, uma luz láctea. E não é uma luz do tipo hectoplasma ou transcendental. Pelo contrário, é uma luz imanente, uma luz muito vital, como se fosse uma película, como se fosse um banho de leite, estás a perceber? Que me mergulhasse a mim ou que mergulhasse o universo.»
Zeca a propósito da sua passagem pelo Algarve
Faro 1961 – 1964
José Afonso
Novos cruzados
Luiza Neto Jorge lembrando as suas deambulações em Faro com A. Barahona, Zeca Afonso, Bronze e Pité
Novos Cruzados
Sequiosos descem
seus corpos de esponja
a rolar na treva,
iates rompendo
à babugem da água,
caravanas caras
em fossados por
rochedos e hortas,
sedentos recolhem
cisternas, piscinas
sob o seu pendão,
e saqueiam, sangram
consagrados à
salvação do corpo
estes cruzados!
Luiza Neto Jorge
António Pedro Vasconcelos sobre o Zeca
Era um senhor. Desprendido e simples.
Arrogante e firme. Um aristocrata. De uma espécie em vias de extinção: um homem livre.
Quis um pano vermelho a cobrir-lhe o caixão, porque era fiel, como os partisans do poema de Aragon -, mas sem insígnias, porque, se ele serviu de bandeira a muita gente, a muitos grupos e partidos, a quem emprestou a voz, a bolsa e a vida, não pertencia a ninguém. Era de uma espécie em vias de extinção: um homem livre, solitário e fraterno.
E ademais um poeta. Um grande poeta lírico, – da família de Nobre e Camões. Um cantor -, como Dylan e Ferré. Tão grande ou maior do que eles todos, como pretendia Paco Ibanez? Talvez, mesmo se uma doença traidora e a má sorte de nascer em Portugal, . que ele tanto e tão bem amou, lhe fecharam tão cedo os horizontes.
Berlioz fez adoptar a «Marselhesa» pelo povo de Paris, nos dias eufóricos de Julho; ele compôs a «Grândola» em comunhão clandestina com o povo, que a iria adoptar nos dias memoráveis de Abril. É ela, e não a «Portuguesa», o nosso Hino Nacional.
Dizem que teve dúvidas, hesitações, desalentos. Era o sinal da grandeza. Mas não baralhava os inimigos: a miséria e o medo, a mentira e o abuso.
Nestes tempos de promiscuidade e memória curta, em que uma espécie de SIDA moral começa a contaminar tudo e todos, ele disse sempre de que lado estava, sem ambiguidades. Era um homem de esquerda, irredutível, irreconciliável. Um exemplo.
Luiz Goes sobre o Zeca
Quando se dão os grandes acontecimentos dos anos 60 eu já não estava lá, já me tinha formado. O Zeca se fosse vivo tinha mais quatro anos do que eu de idade, mas eu era dos cantores o que me formei mais cedo, porque tinha a mania de ser bom aluno, e não era suficientemente boémio, se fosse hoje, reprovava mais de dez anos.
Formara-me em Outubro de 1958 e em 1959 já estava em Lisboa, nos Hospitais Civis, e a partir daí perdi aquele contacto diário, constante, com esses meus queridos amigos, o Zeca era um deles. Como é evidente, com essa vinda para Lisboa, perdi o convívio com aquela geração, e com aqueles acontecimentos da época lá em Coimbra. Mas acompanhei-os muito de perto.
Entretanto fui mobilizado, para a Guiné, onde estive dois anos e, quando voltei, procurei recuperar o tempo que tinha perdido em termos de cantigas, estimulado por terceiros. Depois lá recuperei um pouco e entrei numa fase da minha vida, mais amadurecida talvez, mais velho por dentro também, e, naturalmente, modifiquei a minha maneira de ser. Mas, falar do Zeca é falar de uma pessoa inesquecível. Do seu talento, do seu lirismo, no fundo, para mim, o Zeca foi sempre um lírico, punha as palavras também ao serviço do coração. Eu sei que era assim. E depois de tantos episódios curiosos vou-lhes lembrar apenas um. Eu durante muito tempo não fui república em Coimbra, porque a minha mãe vivia lá, pois eu sou natural de Coimbra. Devo ser talvez, o único cantor conhecido, pelo menos do nosso tempo, que tenha nascido em Coimbra, de maneira que tinha casa. O Zeca já era casado, era a primeira mulher, tinha dois filhos e a minha casa era uma “República”, e então, muitas vezes, o Zeca chegava e dizia assim: “á D. Leopoldina”, que era a minha mãe, “não se importa que os miúdos fiquem aí?” E a minha mãe respondia: “á Sr. Doutor”, a minha mãe tratava toda a gente por doutores, porque era costume lá em Coimbra, um indivíduo desde que tivesse capa e batina tratava-se logo por senhor doutor, desde o primeiro ano, “isto é uma maravilha, hem?”. Entretanto ficavam lá os dois miúdos e o Zeca esquecia-se. Um dia, a minha mãe, ao fim de dois dias, disse-me assim: “á Luís, desculpa lá, eu sou muito amiga do Zeca, mas ele. . . quando é que? .. ” E eu: “… O quê? ainda cá estão?…” Tinha-se esquecido. Depois ia buscá-los. Isto é um episódio que revelo com muita ternura, com muita saudade e com muita afectividade. Eu tenho orgulho de ter pertencido à geração dele, e também, em ter contribuído à minha
maneira, para que as coisas mudassem. Mas não me esqueço dele. Foi um grande amigo, é uma grande memória, uma pessoa que eu trago sempre no coração e na minha sensibilidade.
José Afonso trouxe canções que rebentavam diques, ideias feitas, praxes, estruturas
Nisso, devo dizer, não estava só.
Ora um país onde a gente nova não se reconhece, seja na música ou no resto, é um país doente, a precisar urgentemente de um doutor.
Ouvi então uma voz única, e vinha de facto de um doutor: chamavam-lhe, e chamava-se, Dr. José Afonso, à boa maneira coimbrã, pomposa e c1assista; mas este doutor trazia canções que rebentavam diques, ideias feitas, praxes, estruturas. “O meu menino é de oiro, é de oiro só, hei-de levá-lo no meu trenó”. O Zeca passou a ser o meu doutor particular, a minha referência só pouco a pouco assimilada.
Em 1972, respondendo a uma carta que ele me tinha escrito (estava eu impedido de cá vir) respondi-lhe glosando a sua poética, fazendo sobre a música do Sr. Arcanjo uma nova letra, em jeito de dedicatória e homenagem. Hoje, quando a releio, descubro-a de certo modo profética, não só na descrição metafórica dos anos que se seguiram, desde o 25 de Abril até hoje, como na própria referência ao olhar do Zeca, sempre atento e perspicaz, a última coisa a morrer quando ele já tão doente estava. Dizia assim a canção:
canto para ti
ainda era moço
quando te ouvi
Convite à dança
fizeste a quem
Eh Zeca Afonso
que duro osso
que então roías
Menino de oiro
no teu trenó
foi mau agoiro
deixar-te só
As mafarricas
vieram todas
pobres ou ricas
celebram bodas
Disparam tiros
de tudo comem
até vampiros
e um lobisomem
E os surdos mudos
tapam os olhos
sopram canudos
catam piolhos
Coçam sovacos
abrem a cova
metem em sacos
a tua trova
Mas não te afobes
quem te amofina
só fez que sobes
na nossa estima
Há nas janelas
do teu olhar
duas donzelas
ainda a espreitar
Olham para o mundo
para o alecrim
respiram fundo
cantas assim
Senhor arcanjo
Vamos dançar
afina o banjo
pelo luar
Sérgio Godinho
Chamava-se Catarina
Porque haveria de ser preciso fecharmo-nos, horas e horas a fio, na tensa clausura de um estúdio de gravações, se o objectivo era precisamente registar os grandes e puros espaços sonoros das suas melodias, a frescura densa da sua voz, a força simples e lírica das suas palavras? As máquinas! custava.lhe aceitar que a “limpeza” e a “verdade” do som só pudessem ser conseguidas, neste mundo sujo e atravancado, por meio das máquinas, das técnicas, do isolamento acústico. Custava.lhe aceitar que, para fazer chegar aos outros as coisas belas e simples que inventava, fosse preciso tanta guerra para reconquistar o silêncio, a página branca, o patamar vazio donde tudo tem que partir.
Assim, por entre mil episódios que atestam o que acabo de dizer, há esse – o da gravação do “Cantar Alentejano” (“Chamava-se Catarina… “) – que testemunhei aquando da gravação das “Cantigas do Maio”, juntamente com a Zélia, o Fanhais, a Isabel Alves Costa, o técnico Gilles Sallé e, naturalmente, o violista Carlos Correia (Bóris). A opção de arranjo foi: só a viola, e a voz do Zeca. Sem rede.
O regime de gravações – tardes e noites – fez que, nesse princípio de tarde, fosse a altura de gravar o “Cantar Alentejano”, “Vamos a isto, Zeca?”, ia eu dizendo, naturalmente preocupado com a factura do estúdio. “Não tens nada para ir metendo?”, desconversava ele. Via-se que não estava pronto. “Queres ir metendo outras coisas? Faltam vozes no “Milho Verde” e no “Senhor Arcanjo”… E assim ia passando a tarde. “Está bem, vamos metendo outras vozes”. Mas não se conseguia grande coisa. A alma dele – percebi depois – estava toda no Alentejo, nos olhos de Catarina Eufémia. E, como tantas vezes acontecia, andava no estúdio para cá e para lá, em passos nervosos, como o jóvem leão na sua jaula.
Até que, já pela tardinha: “Eu vou até lá fora, olhar para as vacas” – o estúdio era numa quinta apalaçada, no meio dos campos. Desapareceu, uma hora ou duas. Quando voltou já era quase noite. “Vamos gravar a Catarina”. O Bóris meteu-se na pequena cabina, para o som da viola ficar isolado da voz. O Zeca, no meio do estúdio, sozinho e às escuras, cantou. Uma só vez. Essa que está no disco.
Nós, os outros, os privilegiados espectadores, estávamos na central técnica, quase todos a chorar incluindo o técnico francês. “Acham que é melhor eu cantar isto outra vez?”
“Não, Zeca, não. Está muito bem assim…”
Carta de agradecimento a José Afonso um ano depois da despedida
Esperei-te no cais da Rocha do Conde de Óbidos, junto dos funcionários da Alfândega, da Guarda Fiscal, da Pide. Vasculhavam eles arcas e malas e eu, de gravador ainda desligado, para trás e para diante, ao sabor das tuas necessidades alfandegárias, tentando vencer a (futura) lendária relutância do dr. José Afonso a falar de música, das suas cantigas.
Guardo uma vaga memória da tua mulher, da(s) criança(s), das respostas evasivas a provocarem-me a situação de desconforto que volta e meia tenho de suportar noutros episódios desta profissão de intruso.
Ninguém para te abraçar, à chegada do navio.
E tu a mostrares-te admirado (desconfiado?) com a minha insistência em falar-te de música, e da importância das tuas canções. A minha tarefa era recolher as tuas primeiras declarações no regresso à “metrópole”. Não me lembro como, mas eles eram bons profissionais) o Carlos Cruz e o Fialho Gouveia, realizadores do programa PBX (Onda Média do Rádio Clube Português, da meia-noite às duas), sabiam que ias chegar naquele dia do Verão de 1967. Encarregaram-se de te entrevistar, e de te convencer a gravar algumas canções para o programa. Gravar gratuitamente, que era a velha forma nacional – porreirista de aproveitar os cantores de resistência sem olhar aos seus dramas, sem nos interrogarmos sobre (se tinham) dificuldades materiais.
Vinhas esgotado da experiência colonial de Lourenço Marques e da Beira. E sem um tostão. Não sabias bem ainda onde ficarias a residir. Julgo que me falaste de Setúbal, mas também de Faro. Só encaravas o ensino como modo de vida.
Regressei impressionado à Sampaio e Pina. Tentei que os realizadores convencessem os produtores – os Parodiantes de Lisboa – a pagarem as gravações que te dispuseras a ir fazer dentro de dias. Recordo a alguém a argumentar (interessa saber quem, em particular?) que o Zeca Afonso se devia sentir muito grato ao PBX por este o relançar no país.
A fiscalização do RCP – junto da qual funcionava um representante dos Serviços de Censura – cortou o programa e só uma cunha do actor Raúl Solnado ao Subsecretário de Estado da Presidência do Conselho, Paulo Rodrigues, permitiu a sua transmissão umas noites depois.
Nunca tive coragem de te perguntar se recebeste algum dinheiro pelas gravações. Julgo que te pagaram apenas os transportes para e de Lisboa. Não me lembro que canções novas (era a exigência) cantaste. A lógica manda-me pensar que foram canções incluidas no LP Cantares do Andarilho (1968) ou nos Contos Velhos Rumos Novos. Porém, não sei porquê, fiquei sempre com a ideia que foi no PBX, em 1967, que deste a conhecer as Cantigas do Maio. Talvez porque a esse espantoso monumento da MPP /Canção de Intervenção nada foi feito antes nem nada foi feito depois que se igualasse.
Para mim, o momento do solitário encontro no cais e o episódio do “cravanço” do PBX constituiram a revelação em corpo inteiro de um José Afonso que andou pela nossa terra, como tu próprio declararias mais tarde, a pagar a sua dívida política e cultural para fins que considerava correctos e a pessoas ou organizações para quem valia a pena fazê-lo.
Jornalista da Rádio, foi a ti, à inspiração da tua música e ao apelo dos teus versos que recorri, como outros companheiros, nos tempos de Salazar e Caetano, para fazer passar a mensagem do inconformismo.
Tu dizias por música o que nós não podíamos dizer por palavras. O que nós não tínhamos coragem para dizer por palavras. Devo-te essa lição.
Devo-te tudo o que se deve a quem nos dá força para resistir. Tudo o que se deve a quem tem a coragem de ser até ao fim igual a si mesmo e às ideias que apregoou algum dia.”Outra voz outra garganta/Outra mão que se estende à que tombara/Uma fagulha num palheiro acesa/Ó meus irmãos a luta não pára”.
Adelino Gomes, in Revista nº 1 da AJA, 1988
Era um redondo vocábulo
E não sei porquê – até porque o espírito que presidiu a essas aventuras se baseava num conhecimento profundo e altamente especializado da arte de marear, devendo-se os desastres a contigências próprias dos anseios descomedidos do Poder, e nunca a falhas gritantes de competência técnica… -, estas palavras incisivas do poeta renascentista vêm-me à memória sempre que penso nos sons da angustiosa indigência artística e intelectual produzidos por alguns grupos musicais portugueses com larga audiência no nosso caseiro mundo do espectáculo, afora alguns indeléveis recortes para o álbum das recordações excursionistas por terras de Espanha, alegria das famílias e orgulho patriótico de uma imprensa dita especializada…
A eminência parda que, em derradeira instância, sempre decide as eternas questiúnculas entre o “querer” e o “poder’ é, indubitavelmente, o “saber”… Quem sabe, pode quando quer; quem não sabe, até ignora o que poderia se acaso quisse aprender… Para mim, a norma de conduta mais razoável e eficaz consiste em saber-se o que se pode e fazer-se, em função disso, o que se quer. Quem não sabe o que pode, acaba por fazer o que não quer. . . E quando vejo louvar e incentivar a actividade desses inválidos da música, o seu trôpego caminhar por sobre os calhaus ásperos de um som não dominado, por entre os cardos da inépcia mais grotesca, volto a lembrar-me do discurso camoneano, sou tentado a perguntar aos empresários, aos agentes, a certos críticos e jornalistas confessamente virgens de qualquer conhecimento técnico (ou mesmo histórico!…) Na matéria sobre que dissertam enquanto apoiam movimentos de tão previsível mau destino:
“A que novos desastres determinas de levar estes Reinos e esta gente? Que perigos, que mortes lhes destinas debaixo de algum nome proeminente? Que promessas de reinos e de minas de ouro, que lhe farás tão facilmente? Que famas lhe prometerás? Que histórias?.. Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?
Camões acaba por amaldiçoar aqueles que puzeram nas ondas o primitivo madeirame de barcaças encimadas por uma vela. Eu não amaldiçoo ninguém, é óbvio; mas espanta-me, assusta-me, a leviandade com que se põe num palco, num estúdio, sujeito à verdadeira – e implacável – crítica do futuro, gente que nem sabe pegar num microfone para gemer a sua importância vocal, poética e musical…
De todos os actuais êxitos e aplausos ficará cinza, pó e nada. Ficará o fel das grandes ressacas, o sabor do papel de música que nunca se provou… E isso é tanto mais grave quanto não está provado que todos esses infelizes homenageados de hoje, gozados de um amanhã já próximo, sejam por natureza destituídos de jeito, capacidade de aprendizagem, até de certo talento para a arte que tanto amam, ainda que sem serem correspondidos… A música (tal como qualquer outra actividade profissional…) não vai nas cantigas de tais namorados: São fulanos que ostentam, na melhor das hipóteses, uma fachada razoável, mas que deixam logo a certeza de não terem o interior mobilado…
Nós podemos apreciar mais ou menos, muito, pouco ou mesmo nada, um determinado estilo, sem que isso nos leve a ignorar onde é que está um profissional, alguém que se sabe mexer, alguém que sabe cantar, que sabe tocar, que consegue indiscutivelmente transmitir uma ideia, um pensamento, uma filosofia… Essa filosofia pode desagradar-nos, até; mas a capacidade técnica ou artística de quem a comunica não deve ser posta em causa, sob risco de perdermos o desafio por abuso da autoconfiança, por ridícula estultícia e arrogância…
Portanto, não interessa, em princípio, saber se todos gostamos ou não da mesma música, se todos estamos de acordo com determinadas correntes de pensamento; trata-se, para já, de exigir que os seus defensores saibam exprimir-se, pois só a partir daí poderá haver discussão ou confronto de opiniões.
Não caindo na tendência altamente reaccionária de separar as formas dos conteúdos, temos que admitir que o mundo em que vivemos – ou sobrevivemos… – tem ao seu serviço expressões artísticas que definem as suas problemáticas, a sua ideologia, as suas coordenadas de pensamento: a música de uma sociedade poluída não pode ser límpida como um ribeiro de águas nascentes, não pode ter contornos sonoros definidos ou puríssimos, mas terá, necessariamente, de ser pastosa, poluente, insalubre, endémica. Na verdade, se consentimos que um rio seja sinónimo de esterqueira, como poderíamos aspirar a uma música de encantos pastorais onde pudéssemos mergulhar e nadar sem o perigo das mais abjectas contaminações?!
É evidente que este é o meu ponto de vista. Mas há quem defenda que toda a trampa vale a pena quando a ind ústria não épequena. Há quem colabore com as forças de manutenção deste mundo e que defenda como útil e indispensável a entrega a paraísos artificiais compensatórios do inferno em que transformaram a realidade concreta. Há quem defenda efectivamente a droga e a alienação, a ignorância das tragédias e das aberrações como forma de sobrevivência – e essa filosofia tem a sua música própria, assente numa estética correspondente e coerente.
Eu sou contra esse mundo, essa filosofia e essa música – e estou no meu direito, parece-me… Tal não significa, entretanto, que negue (seria absurdo fazê-lo!) a capacidade profissional dos seus mais eficazes defensores: são de tal modo eficientes que há milhões de pessoas que não reagem contra esse destino de inquilinos de uma sempre crescente lixeira, ou que julgam que para combater semelhantes perigos e ameaças bastará ouvir música e idolatrar cantores, o que deixa, naturalmente, uma invejável margem de manobra aos responsáveis pela esterqueira.. .
Pelo contrário, há grupos musicais entre nós cuja nulidade não permite discussão; é correspondente à sua total ausência de ideologia – direi mesmo de raciocínio em relação aos problemas sociais, culturais ou políticos… Mas essa nulidade permite que o grotesco macaqueamento de uma linguagem de teor neo-fascista, por exemplo, possa ser utilizado, sem atritos de qualquer espécie, numa festa de ideologia progressista – e vice-versa!
Mais ainda, estes párias da cultura são muito estimados e promovidos por todas as forças partidárias, tanto faz que cantem para uns como para outros, que mudem de candidato presidencial ou de grupo parlamentar como quem troca as cuecas. Essencial é que a sua mensagem seja absolutamente õca de sentido e que a própria forma como se exprimem não se arrisque a nenhuma definição de fins nem de princípios. É gente para usar e deitar fora. . .
Ora essa gente… é gente! Longe de os condenar como culpados, eu considero que esses lamentáveis grupos são as grandes vítimas de um sistema efectivamente infame, pluralista saga de uma anti-cultura militante, a castração da crítica, a busca a uma sociedade amorfa e conformada, apenas ruidosa, o muito barulho para nada, a ausência de uma vontade autêntica e actuante. Alguns desses actuais incapazes poderiam talvez deixar de o ser se seguissem um exemplo respeitável, uma filosofia concreta.
O símbolo de uma filosofia de participação e de responsabilização dos artistas e intelectuais nos destinos do mundo encontra-se na música e nas ideias de José Afonso.
É um disparate argumentar-se com a teoria de que ele não sabia música. Sabia a música de que necessitava para defender os seus conceitos. Poucos como ele foram capazes de tomar conhecimento do que podiam para fazerem depois o que queriam!
Em nenhuma obra de José Afonso se pode lamentar que ele não tivesse conhecimentos suficientes para se exprimir literária e musicalmente. Foi um artista que soube paradigmaticamente encontrar a forma que correspondia ao seu conteúdo ideológico, sem cedências nem transigências, sem qualquer vislumbre de conformismo ou de aceitação de uma menoridade: o que fazia era bem pensado, bem escrito, bem composto e bem cantado! José Afonso é hoje muito elogiado, nomeadamente por alguns que ele menos poderia suportar em termos artísticos – e não só… Mas isso não é grave. Antes pelo contrário, pode ser muito relevante se os homenageadores se esforçarem por aprender com o homenageado. Que se transformem, quanto possível, os amadores na coisa amada – e tudo ficará certo. . .
Não se trata de saber solfejo, leis de harmonia ou normas de contraponto. Nem mesmo se trata de conhecer muitas posições na guitarra. José Afonso nunca precisou disso… Do que ele nunca prescindiu foi de criar uma técnica própria, foi de evoluir artisticamente até ao ponto de ser, para todos os efeitos, um Mestre. E o caminho por ele percorrido passou, inevitavelmente, pela consciência de que toda a arte exprime um ideário, se orienta por conceitos estruturados com base naquilo em que se acredita e que se pretende defender.
Não vou sequer ao ponto de desejar que todos perfilhem – como eu tento perfilhar, na medida do meu possível – a linha ideológica pura e intransigente de José Afonso, um homem bafejado pela Razão e por um superior sentido de Justiça, valores que se pagam muito caro. . .
Penso, isso sim, que o simples respeito pelo artista que ele foi, o seguir do seu sistema de trabalho como padrão para o estabelecimento de um critério de valores profissionais, já poderia ajudar muita gente a enveredar por uma estrada digna e a livrar-se do juizo final de um público que aplaude, compra, consome… – mas, no fundo, não perdoa!
in Revista nº 1 da AJA de 1988
Carlos Paredes – A magia da guitarra aliada à lúcida memória das coisas
Carlos Paredes não aceitou o jogo. Quis falar e falou, quase só sobre José Afonso – “um grande amigo, um homem que marcou a sua geração” – relembrando momentos, acentuando facetas menos conhecidas.
“O José Afonso era um cantor ambulante, um músico ambulante no melhor sentido da palavra. Era um homem que oferecia a sua música aqui e além, onde era possível ter público. O José Afonso chegou a cantar em cima duma árvore, em cima dum camião. O que ele se propunha dar às pessoas não era só a sua arte de cantor. Tinha também por objectivo divulgar ideias, esclarecer as pessoas, levá-Ias a conversar sobre a vida”.
A guitarra portuguesa aparece quase sempre ligada ao fado. Carlos Paredes é um homem cuja tradição entronca na do fado de Coimbra. José Afonso bebeu dessa mesma fonte, como de muitas outras, mas, no dizer de Carlos Paredes, ele realizou-se muito melhor na balada.
“As apreciações que se faziam em Coimbra eram à voz, à amplitude da voz, à força da voz. Dizia-se que fulano tinha uma voz extensa, uma voz forte. Ora o José Afonso não era bem um cantor que correspondesse a estas características e precisamente por isso, saiu-se muito melhor nas suas baladas do que no fado. Mas as suas ligações a Coimbra eram bem fortes. Ocasião houve em que achou que havia figuras do fado de Coimbra que lhe mereciam todo o respeito e que, em certa medida, estavam na mesma linha que ele trilhara. Foi o caso de Edmundo de Bettencourt do qual dizia sér um cantor progressista e inovador, e do meu pai que ele gostava muito de ouvir tocar. Acabou por gravar um disco de fados de Coimbra que foi uma forma de mergulhar nas origens, homenageando ao mesmo tempo uma tradição fadista que o havia inspirado, lírica mas não piegas.
O acompanhamento preferencial de José Afonso era a viola; Carlos Paredes vê nisso uma atitude inovadora, dado que a guitarra portuguesa limita o cantor.
“Eu não sou contra a guitarra portuguesa, como é lógico, visto que a toco, mas José Afonso tinha absoluta razão. Eu penso que a guitarra portuguesa molda o cantor. O cantor que canta ao som da guitarra portuguesa, quer queira quer não, acaba por ser integrado num certo estilo. O José Afonso saíu disso. Compreendeu que a guitarra portuguesa o desviaria da busca de uma canção que correspondesse à sua própria personalidade. Suprimiu portanto a guitarra e sentiu-se mais liberto acompanhado pela viola”. E, aparentemente, mudando de assunto:
“José Afonso foi o marco de toda uma geração de cantores, num tempo em que a canção de protesto, a balada, foram bandeira e estandarte dos que procuravam a ruptura com o nacional-cinzentismo” .
“Levou atrás de si outros cantores, e pode dizer-se que toda uma geração foi por ele inspirada. Surgiram assim nomes que dignificaram a canção em Portugal, a ponto de se ter criado esta divisão: os que correspondiam ao nacional-cançonetismo e os cantores de intervenção.
O nacional-cançonetismo era entendido como uma forma de comodamente se ignorarem os problemas, de se cantarem coisas que não fossem incómodas. A canção de intervenção, essa tinha uma capacidade de análise da realidade portuguesa, uma realidade dramática naquela altura”.
Para Carlos Paredes, em José Afonso as rotas da vida e da canção misturaram-se de forma exemplar.
“Nós nunca saberemos se foi através do percurso que escolheu para a canção que José Afonso encontrou o seu caminho da vida, ou se foi por ter escolhido um determinado sentido da vida que optou por um determinado tipo de canção. Parece-me que as duas coisas estão bastante ligadas. O José Afonso procurou a verdade e a verdade, naquela época, obrigava a trilhar esse caminho de denúncia com muita coragem, confrontando-se com perigos constantes. Mas ele era um homem de coragem, inteligente, interessado no futuro das pessoas, no mundo que o rodeava e tudo isso traduzia nas suas canções. Algumas delas tornaram-se autênticos símbolos que todos nós trauteávamos em determinadas ocasiões, porque tinham a ver com a existência de todos nós”.
“Penso – diz, rematando com um gesto a afirmação – que, com os anos, muitas das suas canções virão à memória a propósito de qualquer coisa”. E acrescenta:
“Ele disse-me um dia que gostava das minhas músicas, do meu reportório. Apreciava a alegria daquelas músicas, sentia profundamente a vivacidade popular das canções.
Nesta conversa com o José Afonso pressenti que ele, já naquela altura, procurava fugir à melancolia do fado de Coimbra, àquele saudosismo a que era avesso, e fugindo da melancolia encontrava-se com o povo, com o folclore. Talvez tenha sido por isso que a sua música se tornou tão universal.”
E Carlos Paredes dá conta do apreço com que eram ouvidas as canções do Zeca em alguns países por onde andou.
Três dedos mais de conversa. Para o entrevistado já é tempo de dar a José Afonso o lugar devido, como figura nacional, ímpar na história da canção portuguesa.
“Eu participei em algumas festas de homenagem a José Afonso, mas devo-lhe dizer que essas homenagens deviam partir do próprio Estado, das próprias entidades oficiais. Independentemente de se ter ou não princípios idênticos aos seus, as pessoas devem reconhecer que José Afonso lutou por qualquer coisa que interessava a todos e que, criticando a vida nacional, estava a fornecer matéria para que se formasse uma ideia mais concreta das realidades. E isso beneficiou toda a gente, de esquerda como de direita. Nem sempre se entende assim, as pessoas estão fanaticamente agarradas às suas idiossincrasias e não pensam que a verdade possa ser útil.”
A conversa flui. Um olhar ainda para “Espelho de Sons”, disco de Carlos Paredes recentemente editado, quebrando um “jejum” de quinze anos. “Espelho de Sons” é uma espécie de apanhado de ligações – diz – de circunstâncias, e sobretudo a presença do rio. “Com o meu conhecimento de Lisboa posso dizer que o Tejo é uma evidência constante na cidade (tal como o Mondego em Coimbra), que fatalmente acaba por influenciar os seus músicos e que me.influenciou a mim.
O “Espelho de Sons” é esta relação da guitarra ou do guitarrista com o seu mundo, o mundo em que vive, com quem convive, os seus problemas, as suas queixas.”
A conversa chegou ao fim. Uma última observação: “A obra de José Afonso é para ouvir no seu conjunto.
Cada canção corresponde a uma faceta, a uma característica diferente da sua maneira de ser. É uma obra virada para o futuro” .
Cine-tributo a Carlos Paredes de Edgar Pêra
Movimentos Perpétuos – Tributo a Carlos Paredes«O Carlos Paredes é um grandalhão»
Eu e a Zélia estivemos em Grândola numa sociedade operária. Aí actuámos, eu e o Paredes (o filho é ainda melhor que o pai) no meio de uma assistência atenta e compenetrada, toda ela de operários e mulheres de xaile e lenço. Ofereci-lhes uma canção feita na véspera (16-5-64), uma espécie de evocação da terra alentejana e do seu símbolo ainda vivo na lembrança do homem do povo: a Catarina Eufémia, uma ceifeira de Baleizão morta pela Guarda Republicana em circunstâncias, que forneceriam matéria para uma canção de gesta. É claro, que não é isto que interessa manter nestes contactos efémeros com os «mujiks» do nosso tempo. Se alguma vez tiver de deixar esta terra é a lembrança dos homens que conheci em Grândola e noutros lugares semelhantes que me fará voltar. A sociedade grandolense é um casinhoto antigo com meia dúzia de divisões, uma orquestra, um grupo cénico e uma bibloteca. A direcção, toda ela constituída por operários, já promoveu a realização de palestras e concertos em que colaboraram o Alves Redol, o Romeu Correia, o Lopes Graça e o Rogério Paulo. As auroridades não só lhes têm recusado o mínimo apoio com têm entravado outras tantas iniciativas deste género. Em compensação os grupos puramente destinados a actividades recreativas (e são os que existem em maior número) funcionam permanentemente e com carta branca para realizar bailes e biscas lambidas. O Carlos Paredes é um grandalhão com aspecto simplório, mas o que esse bicho faz da guitarra é inacreditável! Nas mãos dele, este instrumento assume uma altura comparável à dos instrumentos para música de concerto. Nada de trinadinhos à maneira do Armandinho. O exemplo do pai, o Artur Paredes, foi continuado pelo filho mas de uma forma diferente: só ouvido! O fulano consegue abranger duas séries de escalas exactamente como fazem os tocadores do flamengo e os grandes concertistas de guitarra espanhola.

As vozes que nos faltam – João Afonso dos Santos
Por isso, fomos hoje buscar a voz parcelar do Zeca a uma das suas menos distantes entrevistas, porventura das mais fiéis, atributo de que poucas vezes beneficiou. E a um cenário não muito diferente do actual, nem diferentes os actores da cena pública, o mesmo se dizendo dos problemas capitais. Isto é, a um tempo próximo, não tanto no sentido cronológico do termo, antes na sua significação valorativa e sociológica. Com este expressivo acréscimo, o de que, entretanto, se agravaram os pressupostos de desumanização, de cinzentismo cultural, de omnipresente oficiosidade administrativa, de aceitação conformista; e também daquilo a que se poderá chamar, com alguma ironia, a ética da desigualdade. Consiste ela em se colocar na gamela da nossa frustração quotidiana os famosos indicadores macro-económicos, enquanto os novos privilegiados se banqueteiam magnlfica e impudicamente, e erigir tudo isso em respeitável regra de vida e meta nacional, ao mesmo tempo. Que este tipo de “desenvolvimento” é o adequado, inevitável e até excelente afirmam-nos, abonados em modelos que nos apontam, os demiurgos desta outra harmonia universal sobre a qual recai a suspeita de ser tão falaz, caduca e falsa como a profetizada no século passado.
Hoje, que certos círculos bem pensantes têm por moda celebrar, com grande clamor e alguma má consciência, a suposta morte das ideologias; e se generaliza a apetência pela dissolução da identidade colectiva em troca duns dinheiros por que tudo se afere – onde se mostra que há Judas bem mais rapaces do que os dos Santos Evangelhos; hoje, que todos querem ser, e não mais do que isso, sacerdotes ordenados desse culto das novas tecnologias; que se macaqueiam provincianamente os figurinos importados, com grande sobra de fazenda; – bom é que se oiçam e façam ouvir vozes criticas, rebeldes e solidárias como a do Zeca.
A Minha História de José Afonso
João de MeIo Lisboa, 1 de Junho de 1992
Senhora do Almortão


Pautas gentilmente cedidas pelo guitarrista Octávio Sérgio.
Transcrição musical: Octávio Sérgio (2006)
Arranjo para Guitarra de Coimbra: Octávio Sérgio (1981)
Senhora do Almo(r)tão,
Ó minha rosa encarnada,
Ao cimo do Alentejo
Chega a vossa nomeada.
Senhora do Almo(r)tão
Ó minha linda raiana,
Virai costas a Castela,
Não queirais ser castelhana!
Não queirais ser castelhana (Ai)
Nossa Senhora da Póvoa, (bis)
Minha boquinha de riso,
Minha maçã camoesa (bis)
Criada no paraíso. (bis)
Senhora do Almo(r)tão,
A vossa capela cheira:
Cheira a cravos, cheira a rosas,
Cheira à flor da laranjeira.
Cheira à flor da laranjeira (Ai)
Nossa Senhora da Póvoa, (bis)
Minha boquinha de riso,
Minha maçã camoesa (bis)
Criada no paraíso. (bis)
Esquema do Acompanhamento:
1ª quadra: Mi menor // Dó maior, Mi menor // 2ª Mi, Mi menor // Dó maior, 2ª Mi;
2ªs quadras: Mi menor // 2ª Mi, Mi menor // Mi menor // 2ª Mi, Mi menor;Refrão: 2ª Sol, Sol maior; Si maior;SI maior, 2ª Si; 2ª Si, Si maior // 2ª Si, Si maior // Si menor, 2ª Si; 2ª Si, Si maior // 2ª Si, Si maior; 2ª Si, Si maior;
Para mais informações sobre esta música de José Afonso, consultem “No verso dos versos” no site da AJA
Para Natália Correia

Azeitão,/12/86
Cara Natália
Não consigo ver televisão, mas a sua presença.
Vi por momentos um programa na TV em que você
intervinha, sobre o tema “Amor e paixão”.
Gostei de ouvir a sua afirmação de que é necessário
recuperar a cultura dos incultos.
Preciso da sua presença nem que seja por momentos na TV.
Um abraço amigo do
José Afonso
Zeca: Encantava cantando – Natália Correia
Recordo-o ali entre um apaixonado estar presente e um desprendimento de não estar. Era belo. Mas o pudor de o ser ornava-lhe a cabeça de grego desleixado. Parecia que se envergonhava da beleza do seu rosto talhado pela medida ouro. A alma, essa porém expunha-se quando nos fazia ouvir o correr do seu sangue para a Poesia.
A sua demanda de cavaleiro da Causa que os fantoches do viver por viver, dizem ser coisa perdida.
Em Lisboa chegaram-me os seus versos com uma pergunta. Ele queria saber se em minha opinião aquilo era publicável. Perplexa interroguei-me: mas então aquele génio da poesia cantabile não sabia que os fados o tinham predestinado para despertar a adormecida origem do nosso lirismo na recomposição das núpcias do canto e do poema?! Foi o que lhe respondi por outras palavras: Publicáveis? Não. Melhor do que isso. Cantáveis.
E de que maneira o foram, feitos sustento do anseio revolucionário que, se não for impulso da poética da libertação acaba sempre no bolso dos abutres dos Termidores.
Recordo-o ainda nas ferventes noites alentejanas em que envolvidos no coral enluarado dos homens da planicie, emparelhávamos em estampidos de revolta cantada e recitada, o Zeca, o Adriano e poetas do claro grito da indignação, entre os quais eu, como fêmea guerrilheira da palavra libertária fruía o piropo alentejano de ai filha de um real cabrão! que a urbanidade ensossa toma por ofensa E nessa maré de vozes concertadas no esconjuro dos vampiros boiava a voz andrógina do Zeca, como uma estreia de cantos acesa pelo que sufocadamente remanesce no coração do povo das antigas idades em que todos eram irmãos no reino da Mãe Natureza.
Alinhei imagens que a minha memória selectiva elege das muitas que guarda de um convívio persistentemente afectivo apesar de entrecortado pela sua errância residencial desde Coimbra até fixar-se em Setúbal.
Foi-me tremendo saber que as Parcas lhe teciam o fim. Ciosos dos que amam, os deuses encomendaram-lhes o tecer fatal. Porque o Zeca era jovem. Não o era nos anos? Sei lá com que idade morreu. A única juventude que me deslumbra é a que tem o dom de encantar. E ele encantava cantando.
Porque cantar e encantar são uma só coisa na arte de fazer ascender os corações em que o canto sortilegamente se derrama, àquele ponto espiritual do sentimento de todos serem Um.
Como no Amar la Tierra, Compañero?
Era chegado um tempo de pampa e de milongas na voz e na guitarra de um dos maiores trovadores de todos os tempos, um verdadeiro símbolo do canto e da luta dos povos latino-americanos. Daí a emoção do encontro…
Atahualpa falava com supreendente vivacidade e entusiasmo própria de um veterano «payador» sobre memórias dispersas de vivências, chamando para a conversa amigos e companheiros como a chilena Violeta Parra, o cubano Carlos Puebla, o uruguaio Daniel Viglietti e o brasileiro Chico Buarque, entre outros, todos eles cidadãos de uma só pátria – a da libertação do homem!
A dada altura, Atahualpa estendeu-me uma folha de papel pautado, dizendo: «Escrevi este poema para o José Afonso e gostava de lho poder entregar pessoalmente mas tal não me vai ser possível. Agradeço-te que lho envies…»
Enviei. Esclarecendo o Zeca de que se tratava do original (conforme repetida insistência do próprio Atahualpa Yupanqui) e de que iria procurar, por todos os meios, divulgá-lo o mais amplamente possível como tinha sido expressamente desejado pelo seu autor.
Os tempos passaram. Das andanças do Zeca sempre fomos sabendo. E de Atahualpa Yupanqui uma ou outra notícia dispersa. E ontem a da inevitável partida física do trovador Yupanqui. Num momento de partida antecipo uma chegada imaginada: nesta altura, para onde quer que tenham ido, o Zeca e o Atahualpa. Já se encontraram. Com o velho índio a dizer: «Te abrazo, hermano, y ai combate vamos. Somos hechos de lúz y polvareda.»
Mário Correia
Ya no estoy en tu piedra, hermano José Afonso
Como un viento de mim pampa
llegué lleno de cantos enamorados y salvages.
Aqui quedan algunos, cerca de tus olivos.
Junto a los rios, trepando calles
y caminos duros. Duros como los hombres y las cosas.
Como no amar la tierra, compañero?
si en el aroma fuerte de la hierba
te saluda en la tarde la paloma escondida.
La mano del amigo es tu estandarte.
Tan hondo como el mar es el amor del pueblo.
Donde quiera que vayas, la poesia amanece
como uma novia inacabable y tierna.
A mi América vuelvo, José Afonso.
Te abrazo, hermano, y al combate vamos.
Somo hechos de lúz y polvareda.
Atahualpa Yupanqui
9 de Marzo 1985
A solidariedade em José Afonso
Essa atitude solidária era claramente adversa a todo o dogmatismo intransigente, ou talvez este segundo comportamento seja a condição essencial do primeiro. Aos juízos categóricos, às verdades reveladas, transcendentes ou imanentes, às infalibilidades dos papas laicos Que enxameiam o nosso pequeno universo – tudo isso que desde sempre traçou as fronteiras da intolerância – opunha ele o permanente interrogar-se das questões, a dúvida crítica e o esforço da sua superação, a relatividade das soluções, em suma, a abertura de espírito. Questionando os outros e a si mesmo, lançava pontes de diálogo, abria clareiras de convívio, atava os laços da aproximação, sem ceder todavia nas suas posições de fundo e na sua “praxis” actuante.
Esta postura transmudou-a o Zeca para o plano musical. Cantou. Mas o canto solidário foi mais do que mera consequência da atitude solidária do seu autor. Dele fez deliberadamente – como sabemos – um instrumento de acusação e de protesto colectivos, uma senha de reconhecimento comum, uma mensagem de luta e de porvir. Nos signos explrcitos da linguagem do tempo reconhecemos os nossos verdugos e o seu fim anunciado. Uma vezes em metáforas carregadas de significação facilmente perceptível (“Coro dos Caídos”, “Os Vampiros”, “O Avô Cavernoso”, etc.); outras, servindo-se de casos singulares como paradigmas da opressão a vários níveis (“Vai Maria Vai”, “Cantar Alentejano”, “Teresa Torga”, etc.); sobre o pano de fundo dum lirismo que mergulhou as raízes na verdade da terra e da gente, e tinto também, aqui e ali, das tintas do surrealismo.
Foram perto de trinta anos da Mcanção de intervenção”. Se quisermos fixar um momento, poderemos dá-Ia por começada em 1959, com a edição do “Menino do Bairro Negro” e prolongada por todo o tempo que a ditadura levou enfim a cair. Zeca não se deu, no entanto, por quite com o derrube do fascismo. Celebrou, em novas formas semânticas e musicais, o prometimento do novo dia, exprimiu, de modo mais conjuntural e directo, as vicissitudes dessa época histórica, e, visto que o acto solidário se não nega em fronteiras, cantou o amanhecer esperado doutros povos, não tão seguro como isso. Escarmentou, por fim, o adiamento da sociedade prometida pela revolução de 74, os seus alibis, as suas entorses, os seus glutões insaciáveis, herdeiros
. directos dos vampiros de recentes eras. Esteve onde o reclamaram, enquanto pôde, ele mais os seus colegas de ofício, até ao osso da resistência. Pelas associações recreativas e culturais, nos colectivos dos trabalhadores, nas escolas e academias, entre os intelectuais e os emigrantes, nos campos e nas cidades, em Angola e Moçambique, ele e a sua voz foram companheiros fiéis das nossas dúvidas e revoltas, dos nossos anseios e esperanças.
Em 1985, ano da última gravação, Zeca cantou, na sua “Alegria da Criação”, o que podemos interpretar como sendo uma espécie de balanço antecipado,
“De nada me arrependo
Só a vida
Me ensinou a cantar
Esta cantiga”
João Afonso dos Santos
“Testemunho de Uma Vida” por Alípio de Freitas
Tertúlia realizada quarta feira, dia 12 de Julho, na Unicepe – Porto, após o jantar de amizade em honra do Alípio de Freitas.
Olhar que engana o tempo;
Palavras que cantam a alegria de ter sofrido;
Na prisão de tira-dentes não lhe roubaram a alma
Um Bom Pastor (video – 2001)
Um documentário de Jorge Pereirinha Pires e José Francisco Pinheiro
Documentário sobre as gravações do último disco de José Afonso, «Galinhas do Mato», a convite de Nuno Rodrigues – antigo compositor da Banda do Casaco, e actual editor da MVM, a etiqueta discográfica responsável pela reedição de «Galinhas do Mato» em CD, onde este trabalho foi incluído como extra.
Podem vê-lo em http://bravadanca.blogspot.com/2006/06/um-bom-pastor-video-2001.html
Depois de um dia trabalho, vieram mais de cinco…
UNHA RÚA PARA ZECA AFONSO
2.922 SINATURAS
Logo dunha minuciosa revisión e peinado das sinaturas, o total, salvo erro, é este: 2.922
E agora quedan os outros pasos,dos que vos iremos informando puntualmente e aqueles, en Portugal ou España, vaian tomando iniciativas similares saben que non teñen máis que dicilo e nos faremos eco delo por tódolos medios ó noso alcance.
Pensábamos concluí-lo envío de comentarios, pero hai un, particularmente singular que se resiste a quedar no listado. Aí vai:
Nome: Francisco Fernandes
Concello: Braga(Minho)/Portugal
Profesión: Contabilista
Comentarios:
Mais uma formiguinha para que o carreiro se torne uma rua.
UNHA RÚA PARA ZECA AFONSO – 3.021 SINATURAS
Contas à vida – Viriato Teles
Uma reflexão a vinte vozes sobre os 30 anos do PREC
Edição SeteCaminhos, 2005
“Continuar a viver (Os índios da Meia-praia)” no Porto

Cinemascópio – Ciclos de cinema temático
No Círculo Católico dos Operários do Porto Rua Duque de Loulé 202
A COSTA DOS MURMÚRIOS• Margarida Cardoso 02 Jun 06 • sexta • 21h45
CONTINUAR A VIVER (OS ÍNDIOS DA MEIA PRAIA)• António da Cunha Telles 09 Jun 06 • sexta• 21h45
CINCO DIAS, CINCO NOITES• José Fonseca e Costa 16 Jun 06 • sexta • 21h45
TORRE BELA• Thomas Harlan 30 Jun • sexta • 21h45
Iniciativa em cooperação com a Associação José Afonso
Há “comments” que são demasiado importantes para ficarem escondidos
A Elfriede Engelmayer é de fato uma importante referência para o olhar acadêmico desta rica produção poética do cancioneiro de Zeca Afonso. Em minha tese, escrevi a seguinte crítica:”Enquanto no Brasil esta produção musical é elevada a uma das mais representativas fontes de análise histórica, sociológica, literária e antropológica, em Portugal, a chamada canção popular portuguesa, não tem sido objeto privilegiado de análise por estas diferentes áreas do conhecimento. As letras das canções brasileiras foram equiparadas à poesia, analisadas, publicadas e exploradas pelo mercado editorial e não apenas pela indústria fonográfica. Em Portugal, as letras das canções não aparecem citadas em livros didáticos e em outros de cunho acadêmico, indicando mesmo um desprezo (ou desconhecimento) pela rica produção poética daí advinda. Os compositores José Afonso e Sérgio Godinho, por exemplo, tiveram suas letras reunidas e publicadas entre as décadas de 1970 e 1980, porém, de forma muito incipiente. Um sinal claro da ausência de pesquisas acadêmicas sobre a canção portuguesa está no fato de haver até o momento uma única dissertação sobre o tema da canção de intervenção em Portugal, no caso, a obra Canto de Intervenção (1960-1974), de Eduardo Raposo, publicada no ano de 2000. Houve ainda dois outros trabalhos acadêmicos, mas desta vez unicamente sobre José Afonso, realizados em Viena de Áustria (Utopie und Vergangenheit: Das Liedwerk des portugiesischen Sangers José Afonso. Elfriede Engelmeyer. Editora da Universidade de Viena, 1985, 267 páginas. Esta é a primeira tese sobre os textos de José Afonso, apresentada em 1983 na Universidade de Viena/ Áustria) e na Itália (La “Canção de Intervenção” e L’Opera Lirico-Musicale di José Afonso. Tesi di Laurea in Lingua e Letteratura Portoghese. Relatore: Chiar.mo Prof. Roberto Vechi. Presentata da: Nicolleta Nanni. Anno Accademico 1998/ 9) encontrados na Associação José Afonso (AJA).”
Alexandre Fiuza (Brasil)
2007 | ano José Afonso
O Ponto mais alto das festividades, deverá ocorrer no final de Maio, princípio de Junho, altura em que terá lugar a realização de um mini-festival que “não terá as características do desaparecido Cantigas do Maio”, mas que se espera que seja o primeiro de muitos.
“Maio, Maduro Maio” evoca Zeca Afonso dia 27 no D. Maria II
“Maio, Maduro Maio”, “Vejam Bem”, “Traz outro amigo também”, “Cantigas de Maio”, “As palavras”, “Utopia”, “Menino do bairro negro”, “Os vampiros”, “Canção de embalar”, “Milho verde”, “Venham mais cinco”, “Grândola, vila morena” e “A morte saiu à rua” são alguns dos poemas que irão ser ditos no recital, que conta com a participação dos músicos Nelson Martins, ao acordeão, e de Paulo Borges, ao piano.
“Há uma luz pura cimeira”, “por um momento mefui habituando”, “Isto é sono”, “Canto moço”, “Maravilha, maravilha”, “Nefertiti não tinha papeira”, “Mulher”, “Vai-te circunspecta” e “Sabia antigamente de palavras” são os restantes poemas, alguns dos quais nunca gravados, a apresentar no recital.
A iniciativa “Maio, maduro Maio” é da responsabilidade de Luís Machado, diplomado em teatro pelo Conservatório Nacional e que tem CD gravados de poesia.
Em declarações à agência Lusa, Luís Machado disse que a iniciativa visa divulgar ” o homem vertical que ajudou a tornar possível o sonho de Abril” e está enquadrado num projecto mais global destinado a divulgar a poesia portuguesa.
José Afonso nasceu a 02 de Agosto de 1929, em Aveiro, e morreu a 23 de Fevereiro de 1987 em Setúbal.
Câmara de Setúbal ajuda Associação José Afonso
Texto de Evocação de José Afonso por Elfriede Engelmayer
Núcleo do Norte da Associação José Afonso (AJA) na Câmara Municipal de Matosinhos
As canções de José Afonso foram a porta pela qual entrei em Portugal para ficar. Num verão longínquo, durante o qual frequentei um curso de língua portuguesa em Lisboa, a nossa professora fez-nos ouvir o Zeca. Regressada à Áustria, minha terra natal, e apesar de ainda não conhecer a totalidade da sua produção, decidi escrever a minha tese sobre a sua lírica. Mais tarde, ao longo de um ano em que vivi em Lisboa para iniciar o trabalho de pesquisa, conheci pessoalmente José Afonso – que se tornou meu mestre, não só em relação à sua obra, mas também a este país que ele amava e que ao mesmo tempo o desesperava.
Nesse tempo, o Zeca já era um cantautor consagrado, e no entanto, o meu projecto de tese causou-lhe algum espanto, porque em Portugal ninguém se tinha lembrado de fazer algo de parecido. E mesmo hoje em dia, passados quase vinte anos sobre a sua morte, neste país os seus textos não constam de nenhuma antologia lírica, nem encontramos o seu nome referido nas histórias da literatura portuguesa. Será que a música ensombrou os seus textos?
Não há dúvida de que as numerosas adaptações, variações e reinterpretações e o uso de uma canção de José Afonso em circunstâncias festivas ou reivindicativas provam a sua canonização. Mas por outro lado continuam ignorados os seus textos, musicados ou não, uma obra lírica de mais de 300 páginas, com uma evolução ao longo das décadas, marcada por influências literárias, circunstâncias sociais e desenvolvimento pessoal. Poderia descrever essa evolução como um arco que se inicia com textos inspirados em tradições populares, nos fados e baladas de Coimbra, na lírica de Camões e Pessoa, entre outros, passando por influências surrealistas e fases de grande hermetismo como resposta à censura da época, passando também, logo depois do 25 de Abril, por uma “abertura” discursiva (e nesse aspecto, José Afonso foi um dos poucos no campo da literatura cuja produção reflectiu também formalmente a revolução de 1974). Mas foi também o desencanto que moldou a sua poesia, e naqueles anos entre 1978 e a morte, os seus textos documentam a história deste país e sobretudo a sua história pessoal.
A crítica literária portuguesa tem manifestos problemas em reconhecer um valor autónomo à lírica do Zeca. Se, no universo das canções de intervenção em geral, existem letras que, sem música, perdem a sua força, não é este o caso dos textos de José Afonso. É verdade que a música transforma e intensifica o texto (e poderia aqui lembrar, numa outra escala, as versões musicais que Franz Schubert fez a partir dos poemas de Goethe); mas parece-me óbvio que a autonomia do texto depende simplesmente da sua qualidade e não da circunstância de ser ou não musicado.
Para explicar o fenómeno do desconhecimento de que é vítima ainda hoje em dia o poeta José Afonso, gostaria de desenvolver um pouco mais uma tese que já defendi em outras ocasiões. É o rótulo de “político” que veda a entrada da poesia de José Afonso no campo da literatura reconhecida. Gostaria de deixar bem claro que, em minha opinião, “político” não é apenas um rótulo, mas uma realidade; só que não pode pôr em causa outra realidade, a “estética”. Esse veredicto, aliás, tem uma longa tradição e peca por cegueira e erros de lógica. É mais um gesto de “vade retro” do que um julgamento baseado em critérios científicos.
Senão, vejamos: no caso da lírica de José Afonso, a qualidade de “político” nem sequer é sempre intrínseca ao texto, mas muitas vezes é devida às circunstâncias em que o texto surgiu e em que depois chegou ao público (ouvinte). São disso exemplo “Grândola, vila morena”, mas também os cerca de vinte poemas que nasceram na prisão de Caxias e de que há pouco tempo só conhecíamos como canções criadas pelo próprio Zeca “Era um redondo vocábulo” (do disco Venham mais cinco, de 1973) e “De sal de linguagem feita” (de Fura fura, editado em 1978). Surgiu agora um inédito, que João Afonso interpreta no seu mais recente álbum Outra vida (2006). Trata-se do texto “Ao Zé Letria que também sofre de azia”, escrito em Caxias a 11 de Maio de 1973, e intitulado agora “Bombons de todos os dias”.
O hermetismo inerente a todos esses poemas é a consequência do isolamento físico e psíquico de que José Afonso foi alvo na prisão, mas também da necessidade de cifrar a mensagem.
A suposta contradição entre valores poéticos e políticos que a crítica literária académica tantas vezes invoca, encontra o seu reflexo em abordagens isoladas do poema político sem fazer a ligação dialéctica entre eles, ou seja, a interpretação estética só analisa a forma artística, enquanto a abordagem ideológica só avalia o conteúdo. Mas é paradoxalmente por causa do seu valor “ideológico” no sentido mais lato do termo que o valor artístico do poema político nem sequer é tomado em conta.
E que fazer dos inúmeros poemas de José Afonso que não foram musicados e/ou que não são políticos? Que fazer de facetas do poeta e homem que admirava os textos de Santa Teresa D’ Ávila e de São João da Cruz? Ou que propôs ao Padre Mário fazer um LP inspirado no seu livro Maria de Nazaré com o argumento de que “aquela Maria de Nazaré que canta um Deus que derruba os poderosos dos seus tronos e levanta os pequenos, despede de mãos vazias os ricos e enche de bens os esfomeados é uma mulher revolucionária”? (jornal fraternizar Nº 161, Abril/ Junho 2006. Padre Mário no Café Concerto, “E quanto ao poder que vá para a puta que o pariu!”)
O que distingue os textos políticos de José Afonso do chavão e os torna poesia não é diferente da qualidade que torna poesia os seus textos não-políticos. O chavão é sempre redução, é o chapéu que cobre as particularidades. Mas a literatura nasce sempre do particular, do subjectivo, para poder ser lida como universal. A título de exemplo gostaria de pegar em dois poemas, “Inúteis eram as vozes”, texto não musicado e escrito em Caxias, e “Benditos”, musicado e parte do disco Galinhas do mato.
Inúteis eram as vozes e as palavras
O cativeiro preso dos sentidos
Abre-se uma comporta e nada altera
A matéria dura de que é feita a vida
Ferros pedaços brancura nunca vista
E um rio que não pára nem descansa
Que perfeita modorra não se esconde
Nesta vasa indecisa e aos ouvidos
Chegam silvos cantantes gargalhadas
E tudo dói como se fora treva
Como se fora vinho esta névoa
Mesmo se não soubéssemos onde e em que circunstâncias nasceu este poema, percebíamos que o texto assenta no contraste entre um fora e um dentro, entre um mundo em movimento povoado de sons de barcos e pessoas, onde o tempo passa normalmente, e a clausura de um indivíduo separado desse mundo. Isolamento e dor caracterizam a sua situação, a inutilidade e, provavelmente, a impossibilidade de comunicação. Os muros da prisão não são nomeados. Mas também não é preciso, eles estão lá, no texto. O poema poderia não tratar da prisão de Caxias, mas sempre tratará da experiência extrema do cativeiro. O elo entre estes dois mundos separados são as imagens do “cativeiro represo dos sentidos” e da comporta que se abre, é um elo meramente imaginário porque “a matéria dura de que é feita a vida” fica inalterada. Este poema, por partir de uma situação pessoal de limite e ao mesmo tempo encontrar meios literários adequados para transportar a sua mensagem, consegue não só exprimir, de uma maneira universal, o sofrimento do indivíduo preso, mas transforma-se ao mesmo tempo numa acusação. A mais-valia do texto reside, a meu ver, exactamente no facto de essa acusação não ser directamente expressa por palavras.
Por fim, e no fim da minha (espero) breve intervenção, convido-os a olhar um pouco mais de perto o poema “Benditos”.
Já fui neve no mar
Já fui espada na mão
Já fui a corda
Da lira a vibrar
Já fui servo de um Deus
Vida e morte num momento
Já nasci no barlavento
Já fui como a erva do chão
Bendito seja o pão
Bendita seja a dor
Benditas as portas do amor
Já fui favo de mel
Cajado de pastor
Já fui a nuvem correndo no céu
Já fui ceptro de um rei
Arco-íris num instante
Já fui vento do Levante
Já fui andarilho e cantor
Bendita seja a paz
Bendita sejas tu
Benditos os peixes do azul
Não há, na literatura que conheço, um texto de despedida que mais me comova. E não é por ter conhecido pessoalmente José Afonso.
Só há duas formas de verbo ao longo do poema: o passado que nomeia tudo o que o “eu” já foi “em vida” e o conjuntivo que projecta o desejo da bênção num futuro que já não faz parte do texto (e do tempo do “eu” que fala). De entre aquilo que o “eu” já foi, aparecem fenómenos da natureza, como “a neve no mar”; instrumentos como a “espada na mão”; aparece a caracterização como “servo de um Deus” e “andarilho e cantor”; momentos existenciais como vida/nascimento e morte. É um inventário de identidades de quem parte e se quer reassegurar daquilo que já foi.
E a partir dessa (s) identidade (s) que nitidamente destroem as fronteiras entre o que é considerado humano e não-humano, é proferida a bênção a todos os aspectos pretensamente simples da vida como o pão e a paz, a beleza e o amor, em suma, à criação.
Mas onde fica quem abençoa? Não há presente no poema, a não ser o acto de fala de quem se lembra daquilo que foi e que deixa um legado. É um legado de uma pessoa que já está a partir e que fez as pazes com todos os seus caminhos e desvios. Se olharmos de perto as enumerações que surgem no texto, vemos contradições. Quem foi espada na mão, não foi, ao mesmo tempo, favo de mel; quem foi cajado de pastor, não foi, ao mesmo tempo, andarilho e cantor. Mas quem foi tudo o que o texto diz, em momentos diferentes, sem renegar nada do seu passado, encontra-se no lugar certo.
A despedida poética e a outra despedida de José Afonso não se fizeram com amargura. Por sugestão dele, o título do último disco estava para ser “Nem o pai morre nem a gente almoça”. E é espantoso que um dos traços mais marcantes da sua obra seja a força que dá para viver. Deveria ouvir-se mais a sua música, ler mais os seus textos. Pode viciar, mas os efeitos secundários são benéficos.
Elfriede Engelmayer
Poema de José Manuel Mendes

somos a verdade nua
o rosto erguido
não a máscara
o gesto que não
teme
sofremos na carne o flagelo
dos chicotes
sangramos a determinação
e a coragem
a luta
– incêndio vivo
força nova em nossos
braços
Canta Zeca Afonso
tua voz desnuda
e térrea
canta e desperta
os punhais
do vento
atam-se as mãos que soltaram
os balões
levaram as flores
na manhã
ao coração do povo
e unidas ganham o caminho
despedaçam as algemas
fazem as praias
do rubro sol
cresce a certeza
da vitória
urgem as horas
ardem as palavras
canta Zeca
canta e desprende
os fios
das tempestades
Traz outro amigo também
Para descubrir a un maestro portugués
Desenho de Mito dedicado a José Afonso – 1987
Especial homenagem ao grande artista português JOSÉ (ZECA) AFONSO
Mito artista multifacetado que busca na luz e no som, a poesia em movimento. Nasceu em Santiago de Cabo Verde, trabalha e vive em Portugal desde 1989. Tem desenvolvido uma linguagem plástica muito original, que consiste na recuperação da tradição oral e do fabulário crioulo, estilo simbiótico entre aguada e escrita que apelidou de mare calamus.
Zeca, 75 Anos
Por NUNO PACHECO
Jornal Público | 02 de Agosto de 2004
Aveiro, 2 de Agosto de 1929. Na freguesia da Glória nascia um menino que teria o nome de José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos. Pai: José Nepomuceno Afonso, magistrado. Mãe: Maria das Dores, professora primária. Não tardarão a embarcar, os pais, para África. Ele irá depois.
Aveiro, 2 de Agosto de 2004. Hoje. Junto à Praça Fonte Nova, uma rua vai receber o nome do menino que foi para África e voltou, para aqui viver, cantar e morrer: José Afonso. Há outras ruas ou praças com o nome dele, em terras que alguma vez o viram ou ouviram, na sua errância pelo Portugal que amava, aquele que lhe permitia sentir de perto a vida das suas gentes. Agora haverá mais uma, na cidade onde nasceu. À noite, para que e lembrança não se confine à laje suspensa da toponímia, haverá música de homenagem no Largo do Rossio (21h30). De entrada livre, como ele idealizava o universo, e com nomes próximos: Sérgio Godinho, que com ele cantou, e Vítor Almeida Silva que, de óculos de aros grossos, o imitou no antigo “Chuva de Estrelas”.
Depois, o que virá? De novo o silêncio? O que é possível saber dele, para que o não esqueçam? Há, disponíveis, além dos discos, vários livros e informações dispersas que permitem conhecer melhor não só o músico como também o homem (ver caixa). Para este ano, a juntar aos materiais disponíveis, prevê-se o lançamento pela primeira vez em DVD (há uma edição, em VHS) do Concerto no Coliseu dos Recreios de Lisboa, gravado a 29 de Janeiro de 1983 e difundido pela RTP com críticas do próprio cantor pela forma como o programa foi, então, montado e reduzido. Mesmo assim, ficou para a história como o único registo videográfico disponível de um momento irrepetível: sendo o primeiro concerto de José Afonso como músico profissional foi também o último, porque a doença que o minava (uma esclerose lateral amiotrópica) só lhe daria mais quatro anos de vida. Morreria em Setúbal, a 23 de Fevereiro de 1987, com 57 anos.
Uma noite histórica e outros registos
Na noite do Coliseu, tensa e inesquecível, há um momento em que a voz do cantor cede à comoção e denota um estrangulamento breve, numa passagem da “Balada do Outono” que, ali e naquelas circunstâncias, soava já como epitáfio: “Águas das fontes calai / Ó ribeiras chorai / Que eu não volto a cantar”. Muitos dos presentes não conseguiram esconder as lágrimas e ainda hoje, ao ouvir ao gravação do espectáculo, é possível sentir esse momento como um arrepio. Com José Afonso, nesse palco onde o abraço era já meia despedida, estavam, entre músicos e cantores, Octávio Sérgio, Lopes Almeida, Durval Moreirinhas, António Sérgio, Rui Pato, Francisco Fanhais, Fausto, Júlio Pereira, Janita Salomé, Serginho, Guilherme Inês, Rui Júnior e Rui Castro.
A edição do DVD, quase pronta, reunirá, segundo a editora que a preparou (a Costa do Castelo), mais uma hora de extras à gravação do concerto tal como foi difundido pela RTP, também com 60 minutos (terá sido impossível uma remontagem, para ampliação, do material original). Serão sete extras, no total, todos dos arquivos da RTP: uma participação do cantor no programa Lugar de Exílio, em Maio de 1980, onde fala, da sua vida e carreira, e canta, acompanhando-se à viola (a gravação é a cores); uma espécie de teledisco gravado numa quinta de Azeitão, 1981, com a canção “Saudades de Coimbra”; imagens do 25 de Abril com “Grândola Vila Morena” em fundo; e vários registos a preto e branco, dele a cantar: “Os vampiros”; “Menino do bairro negro” na série Coimbra Musical, em 1978; “Os fantoches de Kissinger”, na série Pifelin, 1975; “Milho Verde”, num dueto com o cantor francês Georges Moustaki, 1975; e um registo do I Encontro Livre da Canção Portuguesa, no Palácio de Cristal do Porto, logo a seguir ao 25 de Abril (na noite de a 3 de Maio de 1974), ele e outros cantores a entoarem juntos “Venham mais cinco”.
Grândola e o que se seguiu
Para quem conhece mal ou não conhece sequer José Afonso, refira-se que dos três aos dez anos ele andou por Angola (1933-36), Aveiro (1936), Moçambique (1937), Belmonte (1938-39), devido a obrigações de carreira do pai. Em 1940 vai para Coimbra, onde casa pela primeira vez e onde fica até ser chamado ao serviço militar, em 1953. Entretanto, começa a cantar. Primeiro no liceu, depois na Universidade. Rui Pato, seu amigo, acompanha-o à viola. Grava o primeiro 45 rotações, “Baladas de Coimbra”, em 1958 e, durante uma deslocação ao Algarve (é então professor) conhece aquela que virá a ser a sua futura mulher: Zélia Santos. É com ela que, em 1964, ruma de novo a África, com destino a Moçambique, uma viagem decisiva no cimentar da sua consciência anti-colonial. No regresso, é expulso do liceu e perseguido pelas suas posições políticas. Canta mais para sobreviver do que por opção de carreira, mas no entanto os seus discos começam a ser bandeira de uma geração que vê nele um dos seus mais lúcidos arautos.
A escolha de “Grândola Vila Morena” para senha do 25 de Abril de 1974 associa para sempre o seu nome à história da revolução dos cravos. De 1966 até 1985 gravou 15 álbuns, todos já reeditados em CD (a esmagadora maioria pela Movieplay, que possui o catálogo Orfeu, mas também pela EMI-VC e pela Strauss). O último, “Galinhas do Mato”, teve em 2002 uma edição especial, pela MVM, com um documentário vídeo extra, com vários depoimentos. A estes álbuns juntaram-se nestes anos algumas colectâneas e três outros CD com gravações antigas: “Carlos Paredes/José Afonso/Luiz Goes”, da EMI, 1992 (que tem, por exemplo, o “Coro dos Caídos” e “Canção do Mar”), “Os Vampiros” (uma edição medíocre da Edisco, de 1987) e “De Capa e Batina”, esta com libreto biográfico de 72 páginas e textos de José Niza (Movieplay, 1996).
Para perpetuar a sua obra e memória, como músico, poeta, cantor e compositor, têm contribuído a actividade da Associação José Afonso, o prémio musical José Afonso atribuído anualmente pela Câmara da Amadora e os discos (de homenagem ou reencontro) “Filhos da Madrugada” (1994) e “Maio Maduro Maio” (1995), onde se propõem diferentes releituras de muitas das suas canções.
DISCOS OBRIGATÓRIOS
Sem dispensar outros, há pelo menos cinco discos de José Afonso de audição obrigatória, todos disponíveis em CD: “Baladas e Canções” (1967, com registos de 1964), “Traz Outro Amigo Também” (1970), “Cantigas do Maio” (1971). “Venham Mais Cinco” (1973) e ‘Como Se Fora Seu Filho” (1983). Correspondendo a várias fases da sua evolução criativa, são obras-primas.
OBRAS BIOGRÁFICAS
A par de inúmeros artigos dispersos, há três livros de referência: José Afonso—Andarilho, Poeta e Cantor”, editado pela Associação José Afonso (1994), “José Afonso, O Rosto da Utopia”, de José A. Salvador (Terramar, 1994, 1999) e “Zeca Afonso, As Voltas de um Andarilho”, de Viriato Telas (Ulmeiro, 1999).
MEMÓRIAS INTIMISTAS
Aos ensaios juntam-se memórias de amigos ou familiares. É o caso de “José Afonso, Um Olhar Fraterno”, do irmão mais velho do cantor, João Afonso dos Santos (Caminho, 2002) e de “Zeca Afonso Antes do Mito”, de um amigo dos tempos de Coimbra, António dos Santos Silva (Minerva, 2000). De José Jorge Letria, cantor nos anos -70, há três: “José Afonso: O Que Faz Falta”, colectânea de depoimentos co-organizada com José Fanha (Campo das Letras, 2804); “Zeca Afonso e a Malta das Cantigas”, a história contada aos mais novos (Terramar, 2882); e “Carta a Zeca Afonso”, epístola em forma de poema (Universitária Poesia, 1999).
POESIA E CANÇÕES
Livros com poemas e canções há três: uma reedição actualizada de “Cantares”, editado pela Nova Realidade em 1965 e reeditado pela Fora do Texto, Coimbra, 1992; o pequeno “Quadras Populares”, de 1982. reeditado pela Ulmeiro em 1990; e, por fim, o único que reúne a totalidade da sua poesia, “Textos e Canções, editado pela Assírio & Alvim em 1983 e com última edição revista e aumentada por Elfriede Engelmayer datada de 2000. Este último é essencial.
ANÁLISE DA OBRA
O livro mais relevante é “José Afonso, Poeta”, de Elfriede Engelmayer, estudiosa da obra de José Afonso (Ulmeiro, 1999). Mas é também digno de nota o opúsculo “A Música Tradicional na Obra de José Afonso”, de Mário Correia (Câmara da Amadora, 1999).
























































































