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  • 100 Anos de José Afonso
December 2006
Home 2006
Capas de revistas
31/12/2006By AJA

Algumas capas de revistas com José Afonso




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Homenagens e tributos (artes plásticas)
31/12/2006By AJA

Gravura de Alexandre Saldanha Gama

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Homenagens e tributos (artes plásticas)
31/12/2006By AJA

José Afonso pelo violinista Carlos Zíngaro

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Homenagens e tributos (artes plásticas)
31/12/2006By AJA

José Afonso por António Galvão

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Homenagens e tributos (artes plásticas)
27/12/2006By AJA

Desenhos de João Lucas sobre a música “Ó Ti Alves”


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Adelino GomesTestemunhos
27/12/2006By AJA

Porto de Lisboa, 1967 – Adelino Gomes

Olhou-me surpreendido, quan­do, gravador ao peito, lhe pe­di uma entrevista. “Porquê?
Para quê? Deixei-me dessas coisas”. Ia e vinha, naquele jeito desengonçado de andar. Apontava as malas aos baga­geiros, à polícia de fronteira, nervoso. Fiquei por ali, esquecido, eu próprio a sentir-me guarda fiscal também, no porto de Lisboa (Cais da Rocha? AI­cântara?, a memória retém apenas um balcão comprido num vasto recinto de tectos altos). “O Zeca Afonso regressa amanhã de Moçambique, vais fazer-lhe uma entrevista ao barco”; disseram-me na véspera – estávamos em Setembro – não sei se o Carlos Cruz, se o Fialho Gouveia, realizadores do programa PBX. Transmitido da meia-noite às duas, através do Rádio Ciube Portu­guês, o programa tinha vindo agitar as ondas conformadas do espectro radio­fónico daquele 1967, levando os micro­fones para a rua, à procura de gente,de histórias, de vida.
José Afonso diz-me que há muito perdeu o contacto com a música, que era professor na Beira, e que professor vai voltar a ser, em Setúbal, depois.de uns dias em Faro, para onde eguirá com a mulher Zélia, logo que a alfândega os.libertar .Projectos, como cantor, nenhuns. A entrevista passa para plano secundário. Digo-lhe ali entre o abrir e fechar de malas, e a azáfama de viajan­tes e polícias, aquilo que muitos outros portugueses teriam respondido, se ou­vissem o autor dos “Vampiros”, e do “Menino do Bairro Negro” anunciar-­lhes que ia deixar de cantar por esse país fora: que ele não pode abandonar aquela frente de luta cultural e cívica, tão importante para milhares de estudantes, de oposicionistas. “Importantes, umas cantiguetas?”, auto-escarnece-se, enquanto dá uma última olhadela aos haveres desembarcados.. Explico-lhe que era através das suas baladas, e das do Adriano Correia de Oliveira, passadas em sequências musicais, ou em montagens de entrevistas ou reporta­gens, que nós, na Rádio, dizíamos aquilo que de outra forma a censura corta­ria. Zeca Afonso terá ficado surpreendido com aquele discurso de um desconhe­cido repórter radiofónico. Acredito que, humilde, não sabia quão importante se tornara para muitos dos seus concidadãos. E, se alguma vez chegou a acredi­tar na influência da sua acção como cantor, a experiência traumatizante que acabava de viver em Lourenço Marques e na Beira convencera-o de que deveriam ser outras e mais directas as fórmulas a utilizar para uma altera­ção do regime político salazar-marce­lista. Acabou por dar a entrevista.
Mas as suas declarações, cortadas pela ”fis­calização” do RCP (um serviço de cen­sura tutelado por um representante do governo mas assegurado por funcionários da estação), só iriam para o “ar” depois de Raul Solnado – amigos dos realizadores do programa – fazer um pedido nesse sentido a Paulo Rodrigues, o subsecretário de estado que aIi mes­mo se designou um dia, como “a caneta de Sua Excelência” (o presidente do Conselho). José Afonso é expulso do li­ceu de Setúbal. O seu nome passa a .ser cortado nos jornais. A Pide prende-o, mais tarde. Nunca mais deixa de com­por e cantar. Sempre de serviço à causa do antifascismo, em sindiatos, associa­ções recreativas, cineclubes. Será uma “cantigueta” que um grupo de militares escolhe para o 25 de Abril.

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DiscografiaNo verso dos versos
27/12/2006By AJA

Teresa Torga

Com o título “Quem se despiu na via pública, onte, às 4 da tarde?”, no Diário de Lisboa (7.5.75), Rogério Rodrigues conta a história de uma mulher “de que não se conhecia o nome”, que ontem, às quatro da tarde, fazia strip-tease enquanto dançava, ao centro do cruzamento da Avenida Miguel Bombarda com a Avenida 5 de Outubro.”Visivelmente surpreendidos, alguns espectadores da cena, invulgar em ruas de Lisboa, dirigiram-se para a mulher no intento de a proteger das vistas de quem passava e de quem parava, persuadi-la a vestir-se e abandonar o local. No meio da confusão, surge o repórter António Capela, que começa a disparar. Os populares, indignados com o que consideram ‘uma baixeza moral’, investem sobre ele, insultam-no, empurram-no, agridem-no e só a intervenção do proprietário da drogaria vizinha impede que não lhe partam a máquina. (…) Entretanto a mulher tinha sido levada para o limiar de um prédio com porteira à porta. Já vestida, olhava apática para as pessoas que a rodeavam. Dizem-me que se chamava Maria Teresa. ‘Não sou Maria. Não sou Teresa. Tenho muitos nomes.’ Tinha os lábios encortiçados e recusava o copo de água que lhe ofereciam.””Quem se despiu na via pública, ontem, às 4 da tarde?”. interroga-se o jornalista. que passa a contar o percurso de vida, entretanto averiguado, de uma mulher de 41 anos, divorciada, sucessivamente actriz de revista, emigrante no Brasil, cantora de fado e que agora, no intervalo de tratamentos no Júlio de Matos, “mudava discos no pick-up” de uma boite em Benfica.Usava o nome de Teresa Torga “porque há um escritor que se chama assim” e ela gostava muito de ler, conta uma vizinha. A última vez que o repórter a viu seguia ela num carro da polícia para a esquadra do Matadouro.Zeca Afonso lê a crónica, magnífica, põe-lhe notas e voz, e imortaliza-a.
(in “Os dias loucos do PREC” de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira. Ed. Expresso/ Público, 2006)

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Amílcar Vasques Dias
22/12/2006By AJA

Persistências – Da importância da música de José Afonso na Holanda

Este artigo, da autoria de Rui Mota, foi retirado da revista nº7 da AJA de 1993

Esta história começa em 1972…
Nesse ano, num dia em Janeiro, uma orquestra holande­
sa de instrumentos de sopro nascia em Amsterdão. O nome que adoptaram foi o título da sua primeira composição: ‘De Volharding’. Em tradução literal, qualquer coisa como ‘Perseverança’ ou ‘Persistência’.
Tocavam em tudo o que era manifestações de rua, fosse con­tra a guerra do Vietnam, pela democratização da universida­de ou a favor do aborto. De acordo com a sua filosofia o grupo dirigia-se a si mesmo e não obedecia a dirigentes…
Vinte anos mais tarde, a orquestra ainda existe. Com outros membros, é certo (da formação original, mais não restam do que dois ou três nomes), continuando a tocar temas que fize­ram (a sua) história.
Entre os mais conhecidos, alguns que nos são particularmente gratos. Estão neste caso, ‘Grândola’ e ‘Coro da Primavera’. E é aqui que entra o Zeca…

ENTRA O ZECA AFONSO

Porque isso aconteceu, já todos os leitores estão neste mo­mento a imaginar. . .
Até 1974, Portugal ‘não existia’ nos meios de informação holandeses.

Para além dos ‘heróis’ nacionais da época (que incluíam sím­bolos como Fátima, Salazar e Eusébio), parcas eram as refe­rências na imprensa local ao nosso país.
A partir desse ano, e pelas razões que muitos de nós persis­tem em não esquecer, ‘surgiu’ mais um país no mapa da Europa democrática. Indelevelmente ligado a esse ano e data histórica estava uma canção que passou a fazer parte do património cultural da resistência e solidariedade holandesa. Não passava semana, que a televisão não transmitisse ima­gens do nosso país, invariavelmente acompanhadas das estrofes da ‘Grândola’.
Na verdade, a canção chegaria à Holanda muito antes do Zeca… Este passaria (praticamente despercebido) pelo cir­cuito emigrante de Amsterdão na sua primeira visita àquela cidade em Setembro de 1974 e, só quase dois anos mais tarde, cantaria pela primeira vez para o público holandês.
Nessa altura, perante uma assistência de 5.000 espectadores que, de braço dado e a uma temperatura ambiente de 13 graus negativos, repetiram as estrofes da canção obrigando o cantor a actuar em dois palcos na mesma noite do Festival da Contra-Cultura, em Utrechí.
Com ‘Grândola’ eleito hino da ‘resistência europeia’, a popu­laridade da música portuguesa não parou de aumentar…
É aqui que entra o Amilcar.

AMILCAR VASQUES DIAS
Chegado à Holanda em 1974, Amilcar Vasques Dias – um
estudante-compositor de música contemporânea – cedo entraria em contacto com o circuito musical holandês. Aí conheceria Louis Andriessen, fundador e principal impul­sionador do ‘De Volharding’, através de quem chegaria àorquestra com quem começou a trabalhar.

Estamos no princípio dos anos oitenta e José Afonso inicia um período de visitas regulares à Holanda, durante as quais a sua obra ganha uma nova dimensão, graças a duas digres­sões de relativo sucesso.

Amilcar é convidado a fazer arranjos de composições do Zeca para o ‘De Volharding’, que serão gravadas posteriormente. Datam desse período, as gravações de ‘Grândola’ e ‘Coro da Primavera’ e, posteriormente, ‘Amor Militante’ baseado num poema de Manuel Alegre.
Mais tarde, já com José Afonso doente e durante um concerto de homenagem que lhe foi feito no ‘Melkweg’ de Amsterdão (Abril de 1985), e que juntou mais de 50 artistas em palco, lá estavam, lado a lado, a orquestra ‘De Volharding’ e o Amilcar, que tocou piano nessa noite…

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No verso dos versos
22/12/2006By AJA

Lá no Xipangara

“Na viagem de regresso de Moçambique para Portugal comecei a curtir saudades, como agora se diz. E durante a viagem de barco, fiz «Lá no Xipangara» canção meramente rememorativa – evocativa de personagens e lugares que inseri no meu álbum «Coro dos Tribunais».” José Afonso



Lá no Xipangara

Lá no Xepangara
Vai nascer menino
Dentro da palhota
Tem a seu destino

Lá no Xepangara
Fica muito bem
Deitado na esteira
Ao lado da mãe

Há-de ter um nome
Lá prò fim do ano
Se morrer de fome
Tapa-se com um pano

Se tiver já corpo
Rega-se com vinho
Se não cair morto
Chama-se menino

Se tiver umbigo
Corta-se à navalha
Tira-se uma tripa
Faz-se uma mortalha

Pretinho de raça
Sempre desconfia
Se o musungo passa
Diz muito bom dia

Quando for mufana
E já pedir pão
Dá-se uma lambada
Vem comer à mão

Mais uma patada
Vai-te embora cão
Dá-se-lhe porrada
Porque é mandrião

Lá prò fim do ano
Quando já for moço
Guarda-se o tutano
Fica pele e osso

Quando já for homem
Tira-se o retrato
Come na cozinha
Chama-se mainato

Se mudar de vida
Vai para o contrato
No fundo da mina
Fica mais barato

Quando já for velho
Chama-se tratante
Dá-se-lhe aguardente
Morre num instante

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Capas de discosJosé Brandão
21/12/2006By AJA

Ilustração de José Brandão para a capa do disco “Coro dos tribunais”

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Moçambique
21/12/2006By AJA

Imagens do bairro do Xipangara




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João Afonso dos SantosMoçambiqueTeatro
21/12/2006By AJA

Lá no Xipangara

Aos fins de semana, saíamos pela tarde, aparelhados. O Alvaro Simões, que por lá ficou, moçambicano por opção, com a sua câmara fotográfica a tiracolo, eu armado da minha 8 mm. de filmar, e o Zeca. Com todos os comple­mentos da ordem: tripés, jogos de lentes e filtros, fotómetros, gravador, que sei eu. Isto depois de termos espiado o céu, medindo a olho a luminosidade e o “calor” da luz. E, quando o sol a meio do quadrante perdia o gume de aço, começava a projectar sombras e a desentranhar-se em cores, vagueáva­mos pelo “Xipangara”, essa outra cidade do caniço que envolve a Beira. Dos três, era Zeca o único que não dependia senão dele mesmo, num indeterminismo vagabundo que desde sempre foi uma sua segunda natureza, acrescentado da crónica aversão que sentia ou acreditava sentir pela máquina em geral, penso que para melhor defender o seu livre arbí­trio. Levava os olhos e o espírito para ver, naquela peculiar e muito pessoal maneira que era a sua de ver as coisas, captan­do-lhes por debaixo da pele, se assim me posso exprimir, os sinais duma verdade oculta. Via e, claro, cumulativamente, ouvia e registava os sons, o ritmo, a linguagem expressiva dos corpos. Posso bem dizer que mergulham nessas convivências os sincretismos musicais afro-europeus que depois aparece­ram dispersos por vários discos editados a partir de 1970, quer dizer, quatro anos mais tarde. Nessas e em outras expe­riências congéneres que já trouxera de Lourenço Marques, donde um despacho atrabiliário e despótico da administração o baniu, por causa desses mesmos convívios, especialmente os que mantinha com a Associação dos Negros de Moçam­bique. Diga-se de passagem, que sempre estranhei que can­ções como “Carta a Miguel Djéjé” ou “Lá no Xipangara”, por exemplo, não desfrutem dum favor pelos menos igual ao de outras mais notórias, pela frescura da inovação, o arranjo musical e a construção melódica. Voltando, porém, ao tempo a que estas breves memórias se referem, não me lembra de termos, na altura, notícia desses cantares de raíz moçambicana, cuja maturação se veio a desentranhar em obra provavelmente já depois do Zeca ter regressado a Portugal, em 1967. “Avenida de Angola”, que ele trouxe de Lourenço Marques com a bagagem, inspirada é certo por quadros dos subúrbios negros da capital, é ainda uma canção exclusivamente portuguesa, na estrutura melódi­ca e rítmica. Outras eram, pois, as composições que Zeca trazia no seu saco de segrel, criadas em momentos anteriores e editadas depois conjuntamente, com diferentes cronologias. Algumas vezes, ao anoitecer, depois que os dois marimbeiros do pé da porta calavam o seu diálogo demorado e perfeito, a toada onomatopaica e encantatória, era a vez do Zeca cantar para alguns amigos “intra-muros”, acompanhando-se tosca­mente à viola, com o auxílio de uma braçadeira que é assim como uma espécie de cábula de tocar. Guardo comigo a gra­vação dum desses momentos que o mesmo Álvaro Simões me enviou por portador, com tantas recomendações como se do velo de ouro se tratasse. Entre outras, lá estão registadas “O Cavaleiro e o Anjo”, “Traz Outro Amigo Também” e o “Cantar Alentejano”, que acabaram por figurar nos álbuns editados de sessenta e oito a setenta, um por cada ano. Em dada altura, uns tantos devotos saudosistas empreende­ram comemorar, ali nos limites do mangal africano, um feito académico celebrado em Coimbra sob a designação de “Tomada da Bastilha”. Ao tempo em que o grupo teatral da cidade se preparava para levar à cena “A Excepção e a Regra”, do Bertolt Brecht. Zeca encarregou-se de criar para a peça umas tantas canções destinadas a assegurar o necessário distanciamento brechtia­no da representação dramática. Duas delas vieram a ser incluídas, como se sabe, em discos mais tardios, “Eu Vou Ser Como a Toupeira” e o “Coro Dos Tribunais”. E ele mesmo ensaiou este último, tarefa que se verificou não ser menor, nem menos perseverante, do que a do acto de criação pro­priamente dito. Veio o dia em que surgiu, encostada a uma das faces da praça central, com o seu quê de imponente, a réplica em madeira do pórtico fronteiro da Sé Velha de Coimbra, tão semelhante à vista que apenas se poderia lamentar o desam­paro dos vetustos muros a que se encosta o original. A inten­ção era, claro, reproduzir o “clima” convencional duma serenata de Coimbra e Zeca e dois acompanhantes, mais o primeiro do que os segundos, eram dados como certos, até por serem os únicos disponíveis e, portanto, insubstituíveis. Enquanto isto, as provas teatrais enviadas à censura oficial regressaram tão retalhadas que ficava prejudicada qualquer representação. O Dr. Carvalheira – creio que assim se chama­va o censor – era ferocíssimo a empenhar o instrumento cen­sório, a caneta ou a tesoura, conforme as circunstâncias. Mas, ao mesmo tempo, escrupuloso, deu-se ao incómodo de recri­ar, à margem, algumas falas integrais e outras parciais das personagens, depuradas dos aspectos que mais o beliscavam. Logo ali foi mandatado um emissário para fazer saber ao censor que sem Brecht não haveria fados. Torceu-se o homem que, acima de ser censor convicto, era coimbrão ferrenho e empenhado concorrente. Subiu, pois, à cena a “Excepção e a Regra” e atrevo-me a dizer que pela primeira vez em todo o decrépito império.
– João Afonso dos Santos (irmão de José Afonso)
O programa onde se anunciavam canções inéditas de José Afonso
e algumas fotos da estreia da “Excepção e a Regra”






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Homenagens e tributos (artes plásticas)
21/12/2006By AJA

Retrato imaginário de José Afonso – Artur Bual 1994

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AJAforça
19/12/2006By AJA

Um concerto em Braga por músicos do grupo Ajaforça




Músicos da Aja norte animaram a noite de 16 de Dezembro num bar em Braga. Foi uma boa tertúlia criada pelos nossos companheiros Manuel Sampaio e Ana Ribeiro que cantaram a duo e individualmente inúmeras músicas do Zeca.
A assistência foi animada e participativa.

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Discografia
19/12/2006By AJA

República

“República” foi gravado em Roma, em 30 de Setembro e 1 de Outubro de 1975, nos Estúdios das Santini Edizioni. Álbum de solidariedade para com o jornal República e a Reforma Agrária, editado em 1975, com interpretações de Zeca e de Francisco Fanhais, que inclui um tema inédito, «Foi no Sábado Passado», escrito a propósito de uma manifestação de solidariedade com a revolução portuguesa, realizada em Roma. Os outros temas são: «Para não dizer que não falei de flores», do brasileiro Geraldo Vandré, «Se os teus olhos se vendessem», «Canta camarada», «Eu hei-de ir colher macela», «O pão que sobra à riqueza», «Vampiros», «Senhora do Almortão», «Letra para um hino» e «Ladaínha do Arcebispo».
Editado por iniciativa conjunta do Manifesto e das organizações Lotta Continua e Vanguardia Operaria, nunca foi distribuído em Portugal. O produto da venda dos discos destinava-se ao apoio da Comissão de Trabalhadores do Jornal “República” ou, caso o jornal fosse entretanto extinto, ao Secretariado Provisório das Cooperativas Agrícolas de Alcoentre.

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José Dias CoelhoNo verso dos versos
19/12/2006By AJA

Dias Coelho: o homem a quem o Zeca dedicou “A morte saiu à rua”


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Associação José Afonso
18/12/2006By AJA

Sejam benvindos ao novo site da AJA

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Associação José Afonso
16/12/2006By AJA

Novo logotipo e novo site da AJA

A AJA tem um novo logotipo da autoria da designer Claúdia Lopes.
2007 será para nós um ponto de viragem e por isso decidimos “lavar a cara”.
Também a partir da próxima 2ª feira estará on-line o nosso novo site com nova imagem e algumas novidades.

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Homenagens e tributos (artes plásticas)
05/12/2006By AJA

De Cédric Ribeiro


Retirado de: www.folkmagazine.info/cartoon.htm

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Homenagens e tributos (artes plásticas)
05/12/2006By AJA

Mais uma caricatura

Retirada do blog: teresa-torga.blogspot.com

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Francisco Fanhais
01/12/2006By AJA

Dedicatória


A re-edição em cd (Strauss, 1998) do LP original “Canções da Cidade Nova” (1970), com nova capa e designação (a dedicatória de José Afonso, que no album original se encontrava na contracapa) e um novo alinhamento das canções.
Violas: Fernando Alvim e Pedro Caldeira Cabral
Direção Musical e Arranjos: Thilo Krasmann
Primeiro e único album (listagem das canções incluída no zip) de Francisco Fanhais (na época conhecido como Padre Fanhais), na sequência do qual passa a integrar o grupo de cantores que usam a poesia e a música para dinamizar numerosas sessões de resistência ao regime vigente. No ano anterior tinha sido editado um EP intitulado “Cantilenas”, após uma participação de grande sucesso no programa Zip-Zip, por incentivo de José Afonso (aqui o vosso amigo Rato teve o privilégio de assistir à gravação desse programa no Teatro Villaret, em Lisboa. A esse e a muitos outros!)
«Num tempo marcado pelas guerras de África, pela intransigência acéfala do regime, pelo visco autoritário e dirigista, pela prepotência, pela repressão, pela Ditadura», era-nos pedido que não deixássemos morrer na garganta o grito inventado pela dor, que fizessemos da raiva canção e da canção uma ponte.
E foi o tempo de rejeitar um silêncio cúmplice, tortuoso e sufocante.
Tempo de não adormecer na madrugada.
Tempo do sim irreversível à vida.
Tempo de aprender a não ter medo de amar.
Tempo de encontrar novos companheiros, vindos de outros lugares mas todos sedentos da mesma manhã. E éramos tantos!
“Os tempos eram outros…”
O Tempo é o mesmo.
(Francisco Fanhais)

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Benedicto Garcia Villar
29/11/2006By AJA

DA RAZÓN Ó CORAZÓN – Homenagem a Benedicto Garcia Vilar

Discurso do Benedicto na sua homenagem em Lugo

Sei que me dades este premio, por mil razóns inmerecido, coa convicción de que non equivale a un punto final, que é un punto e seguido para continuar o labor iniciado hai tantos anos con compañeiros de tanta valía, entre eles os cinco hoxe aquí homenaxeados. É meu o privilexio e a fortuna de ter convivido con todos vós, de ter ido moldeando a plastilina, de ir construíndo desde cero. E facelo colectivamente, sabendo que o colectivo é sempre máis que a suma dos individuos que o conforman.Os meus amigos están aquí, son cómplices e partícipes; con eles vivín moitos dos mellores momentos dunha vida sempre xenerosa conmigo. Entenderedes, pois, que ten todo o senso que comparta con vós a frase que, ó meu entender, mellor define a travesía que facemos neste barco: “Da razón ó corazón”. Non son precisas explicacións.Como tampouco serán precisas para que todos entendades que me enche de gratitude e emoción ter estado en Italia o día 10 de marzo de 1972, si, aquel día tan importante, representando ás “comisións obreiras”, daquela aínda “movemento socio-político”, e recibindo a solidariedade dos demócratas italianos. Ou que me encha de orgullo ter participado na primeira e única manifestación de “furgonas” de grupos musicais que, contra os agoiros dalgúns, encheu de colorido, bocinazos e dignidade a Praza do Obradoiro, hai moitos, moitos anos. ¿Teñen problemas os músicos?. Preguntaban algúns, incrédulos.Ou por ter participado na construcción desa gran federación que no ensino ten presencia en tódolos sectores, nalgúns de xeito hexemónico. Cando un sindicato soporta e se alimenta á vez, nesa simbiose xenuína e proveitosa, dunha orquesta polifónica de “kazoos” todo é posible.Como foi posible que este sindicato, practicamete en solitario, enchera con 10.000 traballadores o Pabellón do Obradoiro na homenaxe que un poeta comprometido coa súa causa merecía. Foi o 28 de outubro do 79 e o poeta era C.E.Ferreiro.Como tamén o foi a aportación singular que Comisións fixo na organización da demostración de amor e solidariedade que os galegos de ben fixeron a aquel artista excepcional que tanto nos quería. Era maio do 87 e Galicia enteira sintonizou a frecuencia vital do Zeca Afonso. Sabemos que aínda está todo por facer cos materiais destes eventos como tamén os que se refiren ós sucesos na Universidade de Santiago no ano 68. Estamos próximos a que se cumpran 30, 20 e 40 anos desde aquelas datas. Coido que non desvelo ningún segredo se vos digo que estamos nelo. Só queda que cadaquén aporte o que lle corresponda.As diferentes responsabilidades que me tocou desenvolver nestes anos, tanto nas Federacións como na dirección do Sindicato Nacional, todas e cada unha delas, representaron retos, ¡que duda cabe! Pero sempre representaron para min un inmenso enriquecimento persoal. Espero non ter deixado ningunha ferida polo camiño. A quen poidera ter molestado o meu proceder, as miñas disculpas máis sentidas. A todos e a todas, o meu agradecemento máis profundo: por serdes así e por estar aí.

Benedicto García Villar
11 de marzo do 2006

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Prémio José Afonso
29/11/2006By AJA

Prémio José Afonso sem vencedor

O júri do Prémio José Afonso 2006 decidiu não o atribuir “por não ter encontrado mérito consonante com o prestígio do Prémio”, foi hoje anunciado pela autarquia da Amadora. Os álbuns candidatos, apresentados pelas respectivas editoras, foram: ” Apontamento” de Margarida Pinto, “Mulheres” das Vozes da Rádio, “Amores Imperfei tos” de Viviane, “Éramos Assim” de Boite Zuleika, “Groovin’on monster`s eye-ball s” dos Hands on Approach, “Cacus” de José Peixoto e Carlos Zíngaro, “Coisas Simp les” de María León, “Almadrava” dos Marenostrum e “Cantes d’Além Tejo” de Franci sco Naia. Foi a primeira vez que o Prémio, instituído em 1988, no valor pecuniári o de cinco mil euros, não é atribuído. O júri tomou esta decisão “unanimemente, perante as obras apresentadas a concurso”, lê-se na mesma nota. O júri deste ano foi constituído por António Moreira, vereador da Cultu ra da Câmara Municipal da Amadora, a pianista Olga Prats, o jornalista Carlos Pi nto Coelho, o presidente da Sociedade Portuguesa de Autores, Manuel Freire, e o maestro António Vitorino de Almeida. O Prémio distinguiu o ano passado o cantautor açoriano Zeca Medeiros pe lo seu álbum “Torna-Viagem”. O Prémio tem como objectivo homenagear o autor de “Grândola Vila Morena “, incentivar a criação musical de raiz portuguesa e animar turística e cultural mente a cidade da Amadora.

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Andrés Stagnaro
28/11/2006By AJA

Andrés Stagnaro


O site do cantor uruguaio Andrés Stagnaro que em 2006 apresentou em Montevideo na sala Zitarrosa o espectáculo – “ Las canciones de José Afonso “

O DVD deste espectáculo pode ser visionado na AJA.

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AJA Norte
28/11/2006By AJA

A Aja norte já está a construir 2007.



Duas imagens do intenso trabalho de preparação de uma iniciativa de pareceria entre a Aja norte e a casa do povo da longra, em Felgueiras.

A iniciativa será a 3 de Fevereiro de 2007.

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Homenagens e tributos (artes plásticas)
24/11/2006By AJA

Desenhos de Serafim Guimarães


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Associação José AfonsoImprensa
19/11/2006By AJA

Notícia no “Correio da Manhã” de hoje

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Associação José Afonso
15/11/2006By AJA

Inauguração da nova sede da AJA em Setúbal

A Associação José Afonso fará a inauguração da sua sede em Setúbal, no próximo sábado, dia 18 de Novembro a partir das 16 horas. Apareçam e tragam um amigo também.

Associação José Afonso
Rua Damão 26 – 28
2900-340 Setúbal

Para mais informações: 265. 185 580

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CoimbraHomenagens e tributos (artes plásticas)
11/11/2006By AJA

Zeca em Coimbra…

Painel de azulejo colocado na casa onde viveu Zeca em Coimbra, junto à Sé Velha.

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Carlos CouceiroTestemunhos
04/11/2006By AJA

José Afonso por Carlos Couceiro

O José Afonso foi meu colega desde o 4º ano de Liceu e aí começaram as primeiras gui­tarradas e os primeiros fados de rua que era a maneira de nós não sermos rapados, lá em Coimbra, com o Mário Barroso.
Saíamos para as nossas noitadas desde que se cantasse e tocasse bem ou mal, e ele can­tava bem e o Barroso tocava muito bem, eu é que era o mais incipiente. Fomos colegas desde o 4º ano, e mais, vim a ser seu compadre, padrinho do seu primeiro filho.
Estava eu na Faculdade de Engenharia no Porto, quando recebi um recado dele, à sua boa maneira: – Quero que sejas o padrinho do meu filho. E lá fui eu para o notário da Avenida da Sofia com a minha comadre, uma moça de Pinhel, a Leia. Entretanto o José Afonso foi dando os nomes e as datas do pai, da mãe e dos avós e daquelas coisas todas que lhe pediam, até que o notário lhe perguntou: – Em que dia é que nasceu a criança?…e ele: Eh, pá, em que dia é que nasceu o meu filho??? E eu disse 17 de Janeiro de 1952. Histórias. . .! ele tem tantas. .. Uma em que ele quer receber a Tuna Académica de Coimbra que vinha de Nova Lisboa, em Angola, para o Lobito, no Caminho de Ferro. Ele pertencia à Comissão de Recepção. Eu já não via o Zeca há seis anos. Ele saíu do com­boio dirigiu-se a mim e disse-me: Eh pá, esta malta agora tem um sentido exagerado de propriedade, e eu perguntei-lhe: Porquê, pá? E ele explicou: Olha quando me levantei, calcei as meias do parceiro que vinha na cabine, comigo, e o tipo refilou tanto, tanto, que eu estive a quase a ir-lhe ao focinho. . .
Outra vez, ainda no Liceu, quando apareceu o aspecto ortográfico de acentuação, o Zeca nas aulas de Português dizia “Estando os conégos da Se com os cotóvelos apoiados numa mesa de pau de ebâno bebendo uma pinga de cáfe, estando uma menina a ler, diz um deles: “Ai que bem que a menina le”, pois ainda não é nada, porquanto ainda vamos no prológo quando formos no epilógo das formigas. . .! E muitas outras mais. .. Há muitas coisas que se sabe pouco dele, eu devo dizer, para mim, que o Santos Silva, engenheiro na Figueira, O Manuel Nemésio, filho do Vitorino Nemésio que o conhecemos na inti­midade desde crianças, sabemos da sua generosidade, da sua coragem e da sua energia física. Nós punhamos as capas em cima da cabeça e ele saltava aquilo. Na Universidade ele corria muito bem. . . e como é que aquele homem vem a morrer com aquela doença de atrofias musculares ele que era de uma elasticidade física como poucos.
Era uma pessoa de grande coragem, pois por vezes em situações de grandes conflitos, em que ele não se metia, mas que não arredava pé.
Dizer dele, que era um homem de boa fé, duma descuidada ingenuidade, um homem bom e assim vivíamos. Convidou-me no dia seguinte ao casamento dele, que fez com umas testemunhas quaisquer, que encontrou. Sentei-me e comi com ele, o primeiro prato de bacalhau com duas batatas, no quarto dele no Beco da Carqueja, era um Beco que havia mesmo em frente da Sé Velha, e ele vivia ali no 32 andar.
Muitas vezes encontrei o Zeca Afonso a dormir na minha cama na minha “República” e eu a ter que me deitar num colchão no chão, porque ele não aceitava que o fossem tirar da cama onde dormia, aquilo era dele. São alguns pormenores que posso contar. Falar dele é falar de muita saudade. São muitos os episódios, mas acho que o António Fernandes Santos Silva engenheiro da Figueira da Foz, tem um livro que traz umas histórias sobre o Zeca. O Santos Silva, julgo que foi a pessoa que melhor retratou a vida do Zeca. O resto, floriram, e na minha opinião exploraram a pessoa que ele era. Nalgumas coisas, uti­lizaram a sua maneira de ser mas este, o Santos Silva, deu em toda a sua beleza a sua grande dimensão com a amizade de irmão.

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Alípio de FreitasTestemunhos
01/11/2006By AJA

CANTIGA DE AMIGO – Alípio de Freitas

Falar de alguém que está sempre presente é muito, muito difícil. E ainda mais se esse alguém que, mais do que um amigo, é um irmão gémeo. É assim que me sinto quando tenho que falar ou escrever sobre o Zeca. Conhecemo-nos sem sequer nos termos visto. Ele, cantando para que a liberdade florescesse. Eu, lutando para que, de tão oprimida, não morresse. Tínhamos o Oceano pelo meio, não como distância, mas como caminho. Para a solidariedade, os muros de qualquer Fortaleza não existem. Quando, finalmente, nos encontrámos, descobrimos que tínhamos mil coisas a nos dizer. E foi sempre assim, até que ele partiu para outra viagem, para a Cidade da Utopia (quem sabe?), onde a cantiga é apenas um hino à fraternidade.

Digo que partiu e digo que ficou. Na memória, no afecto e no retrato que está aqui, ao meu lado, junto do Cardenal, do Cristo de Dali, do Che, do Gregorio Bezerra e dos companheiros da Fortaleza de Santa Cruz. Estamos todos aqui, nas fotos, na lembrança e na música, em diálogo permanente sobre o presente e sobre o futuro, aquele futuro do qual não desistiremos jamais… Esperem um pouco… Eu volto Já… Tenho de ir ao quintal respirar e conversar com as árvores porque o coração se me aperta com a presença-ausência do Zeca. E dos outros. E eu que pensava que a vida já me tinha endurecido o bastante para contrariar a emoção. Mas não.

Houve um tempo em que o mundo que ouviu o Zeca, talvez por má consciência, pareceu querer esquecê-lo. Mas as pessoas são como as sementes. Se são boas, quando descem à terra. frutificam, multiplicam-se por mil. Como o Zeca era uma boa semente, passado o Inverno e aparecida a Primavera explodiu em flores e frutos. E aí está, não apenas na voz dos amigos fiéis que sempre o cantaram, mas, mais que tudo, nas vozes de uma geração que nem sequer o conheceu. O Zeca acendeu uma luz que ninguém pode apagar ou deixar de ver. Sempre acreditei nisso. A luz, a fraternidade, a solidariedade, a amizade, a beleza, o amor, são difusivos por si mesmos. O mundo não pode passar sem eles. Por isso o Zeca estará sempre connosco.

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AJA Norte
29/10/2006By AJA

O aniversário da Aja Norte

Com o objectivo de comemorar o 1º aniversário da AJANORTE (Núcleo do Norte da Associação José Afonso), realizou-se um jantar seguido de alegre e participado convívio, entre cerca de quatro dezenas de convidados. O local escolhido foi o Restaurante do senhor Jorge, em fente à estação de Campanhã na cidade do Porto. Depois das acolhedoras palavras proferidas para o efeito pela Judite Almeida, foi a vez de Alípio de Freitas cumprimentar todos os presentes elogiando o trabalho realizado pela Ajanorte, quer pelas iniciativas realizadas no seu primeiro ano de existência, quer pelo esforço desenvolvido nos contactos estabelecidos entre diversas entidades e organizações culturais, tendo em vista a realização de novas iniciativas para o ano de 2007. Animados por num projecto em torno da divulgação da obra de José Afonso, nosso querido poeta-cantor, para Alípio de Freitas a Ajanorte tem contribuindo de uma forma alegre e cativante sendo exemplo demonstrativo de como com trabalho e a humildade, se consegue contornar obstáculos, dignificando a AJA e todos os seus membros.
Seguiram-se as músicas e as canções, contando com a participação do grupo Ajaforça, Manuel Ramalho, João Teixeira, José Silva, Fernando Lacerda e Tino Flores.
Não poderia-mos deixar de salientar e agradecer o serviço prestado pelo restaurante, e do seu proprietário senhor Jorge, o qual depois de tudo bem servido nos presenteou com a sua presença e participação, comentando que assim dá gosto trabalhar e receber clientes.
No final era bem visível a satisfação de todos.
José Luis Guimarães

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AJA Norte
21/10/2006By AJA

1º aniversário da Aja Norte

Jantar 6ª feira, 27 de Outubro, 20h00 – “Capoeira de Campanhã” (em frente à respectiva estação dos comboios)

Ementa Aperitivos, prato (três opções de prato sob inscrição prévia), fruta ou bolo, café, vinhos, sumos, água

Vitela assada Pataniscas de bacalhau Filetes de pescada com arroz de feijão vermelho

Preço 13 euros – Limite máximo de participantes: 50

Inscrições Gabriela Marques gabrielammarques@gmail.com Paulo Esperança 91 771 19 64

Música membros do grupo “Ajaforça”, João Teixeira, Tino Flores, entre outros

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Homenagens e tributos (artes plásticas)
19/10/2006By AJA

Postal virtual

Postal virtual com José Afonso
Ilustração realizada em 2005 por Augusto Mota e logo posta a circular entre amigos através de e-mail. O poema, da autoria de Luís Serrano, data de Novembro de 1983, e vem publicado na obra “Entre Sono e Abandono”, Aveiro, Estante Editora, 1990.
A fotografia que serviu de base ao trabalho do artista foi captada em Leiria, logo após uma sessão de canto livre que contou com a participação de José Afonso.
[imagem enviada por Augusto Mota em 15 de Outubro de 2006]

Retirado do blog: http://guitarradecoimbra.blogspot.com

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AJA NorteTertúlias
15/10/2006By AJA

A AJA Norte e “Pintar o 7” apresentam…

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GalizaJúlio PereiraTestemunhos
13/10/2006By AJA

Uma pequena história partilhada pelo Júlio Pereira

Era uma vez na Galiza, anos oitenta. Um concerto de José Afonso em Cangas de Morrazo (perto de Vigo) num velho teatro municipal. Acompanhava-o eu, Henri Tabot e Guilherme Inês. Chegados à hora do espectáculo, deparámo-nos com um público, a meio da plateia, de seis pessoas! A minha reacção (suponho que a dos meus colegas) foi a de não tocar. E o Zeca disse não! Tocados os 17 ou 18 temas ensaiados pelo grupo, José Afonso pegou na viola e sozinho, tocou cantando mais oito temas entre os quais “Catarina” – a primeira vez que o ouvi cantar assim. Estranho. As seis pessoas de pé aplaudiram incansavelmente José Afonso e durante muito tempo. Como se a sala estivesse cheia.
Só mais tarde percebi que o Zeca, nesse dia, tinha deixado seis amigos na Galiza.

Júlio Pereira
(Músico e amigo do Zeca)

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Arranjos instrumentais
03/10/2006By AJA

Versão instrumental da Balada de Outono

João Vila ao piano

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Associação José Afonso
03/10/2006By AJA

Ideias para 2007 – Ano José Afonso


Sócio ou não sócio, deixa aqui a tua proposta de celebração da obra de José Afonso no ano que se avizinha. O que gostarias de ver acontecer para o ano. “Lança o teu desafio!”

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FotografiaPatxi Andión
24/09/2006By AJA

Patxi Andion


José Afonso ouvindo Patxi Andion. Entre eles o jornalista José Nuno Martins e do lado esquerdo da imagem, o poeta Alexandre O’Neill. (Cinema Monumental, 1973)

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Homenagens e tributos (poesia)
22/09/2006By AJA

Carta ao Zeca

E se de todas as bocas saísse hoje a palavra liberdade?
E se saíssemos das casas conforto, comodismo
E na rua olhássemos a miséria de frente,
A hipocrisia que alastra,
O egoísmo do eu feito preocupação diária?
E se em vez de sobreviver
Vivêssemos?
E se a indignação fosse decreto,
Obrigatoriedade, dever cívico a cumprir?
E se a miséria fosse crime público
E quem a permite, julgado e condenado pela lei?
E se disséssemos ao Zeca:
Olha pá, tentámos manter Abril vivo
Mas os cravos hoje são todos sintéticos como a liberdade.
Olha Zeca, a malta perdeu a memória
Esqueceu a história e não vai em revoluções
Senta-se no sofá e faz zapping ao mundo.
E o povo Zeca, já não ordena
O povo, Zeca, esqueceu o que é fraternidade!

Poema da Encandescente

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Homenagens e tributos (música)
20/09/2006By AJA

O Grupo “Erva de cheiro” tributa José Afonso e Adriano


Mais informações…

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António Pinho BrojoTestemunhos
10/09/2006By AJA

António Pinho Brojo sobre José Afonso

Excerto de uma entrevista mais alargada a António Pinho Brojo, histórico guitarrista de Coimbra, liderada por António Manuel Nunes, que podem ler na íntegra no blog do guitarrista Octávio Sérgio – http://guitarradecoimbra.blogspot.com

(…)
AMN: Estamos a caminhar para os finais dos anos 40…
APB: Sim. Entretanto aparece o Zeca Afonso, à volta de 1948, também cantando exclusivamente o fado tradicional. Eu, em 1952, exactamente, fiz discos de 78 rotações com o José Afonso, Luiz Goes e Fernando Rolim. É, digamos, depois dos discos do Menano, do Paradela, do Lucas Junot, a primeira vez que são lançados discos de 78 rotações com os três cantores que depois vieram a ser uma Segunda Geração de Ouro. O Luiz Goes, repare, trazia atrás de si um património musical formidável. O tio dele, o Armando Goes, tinha, como sabe, o estilo que nem sempre era o do fado tradicional. Ele insistiu no fado lisboeta, cantou sonetos e o Luiz Goes continuou a herança do tio.

AMN: Estes discos de 1952 eram já um projecto artístico diferenciado em relação às heranças recebidas? Gravou apenas porque havia necessidade de novos discos no mercado, pensou, estudou, ensaiou, ou as gravações foram espontâneas?
APB: Não! Foi um projecto diferente. Não foi espontâneo. Com a aproximação dos Anos 50, aí por 1951, eu venho para Coimbra, para a Universidade. Em minha casa surge uma tertúlia, a Tertúlia do Calhabé. Tertúlia com quem? Com um sujeito que ainda está vivo e que é funcionário da Assistência Social, que era o José Rodrigues, um apaixonado pelo estilo do Artur Paredes e seu conviva. Ele era sobretudo um cultor da guitarra, da guitarra do Artur Paredes e teve uma grande importância na minha formação e na do Portugal também. E com o José Rodrigues e com o Florêncio Neto de Carvalho – que era um homem que tinha uma virtude extraordinária. Conhecia muito bem o fado de Coimbra e sabia interpretar (=imitar) o estilo de cada um dos cantores da Primeira Geração de Ouro, então resolvemos chamar o Fernando Rolim, o Zeca, o Goes e o Machado Soares que entrou mais tarde. E resolvemos que as coisas tinham caído numa tal decadência…

AMN. Vocês tinham consciência dessa “decadência” artística?
APB: Tivemos a noção dessa crise e pensámos “nós temos de fazer um estudo das raízes!” Com o trabalho discográfico do Artur Paredes e o apoio do José Rodrigues surge um “Renascimento”. Em minha casa começámos a fazer exactamente esse trabalho. O Florêncio de Carvalho o que é que fazia? Quando aparecia um rapaz, ele dizia, “ó pá, tu tens uma voz estupenda para cantar, eu vou-te ensinar fados do Bettencourt como ele os cantava”. E depois cantava-lhe à maneira do Bettencourt, do Paradela, do Menano. Depois corrigia o cantor, obrigava-o a dizer o poema. Havia toda uma aprendizagem que era no sentido de primeiro saber o que estava a cantar, reproduzir o conteúdo do poema e dar-lhe depois expressão na música dentro do estilo. Outros teriam um estilo mais parecido com o Menano… de facto, houve um trabalho de sapa, de estudo e de recolha, de regresso às raízes dos anos 20. Mas atenção, o Florêncio representava já algo de progresso, introduzia já o seu contributo. O Florêncio também cantava, embora tivesse problemas de garganta e tivesse muitas vezes dificuldades de cantar, mas sobretudo tinha uma expressividade extraordinária.
Os discos surgem como consequência desse treino, desse estudo. Os discos aparecem, deliberadamente, como uma forma de afirmação e de “reposição”.

AMN: Quais foram as reacções aos discos?
APB: Foi óptimo, foi óptimo!

AMN: Havia uma lacuna fonográfica de quase 30 anos…
APB: Não era fácil. As empresas de gravação eram poucas e não tinham muitos meios. O Fado de Coimbra estava num gueto, verdadeiramente num gueto! Ainda hoje lhe devo dizer uma coisa, o grande mal disto tudo está em a Canção de Coimbra ser sempre associada restritamente ao meio de Coimbra, é sempre considerada como uma música urbana muito local. Nunca adquiriu um estatuto na música ligeira portuguesa, ao contrário do Fado de Lisboa. Ainda hoje na rádio, é difícil, é raro, pode contar pelos dedos o número das situações em que está a ouvir música diversa e no meio da música sai uma canção de Coimbra. É raro! Felizmente que aparece, mas é raro.
Tinha havido ali um hiato tremendo e aqueles discos tiveram uma enorme aceitação. Os discos foram gravados aqui em Coimbra no Emissor Regional, em condições muito fracas, e depois passadas a 45 rotações e 33 rotações e cassetes. O Portugal já nessa altura entrou. Foi o meu 2º guitarra nesses discos. Quando eu me vou embora para a Suiça em 1954 – o meu trajecto vai até 54, de 1943-1944 até 54 – , o Portugal vai continuar o nosso trabalho.
Em toda a minha época, eu cito o João Bagão, cito o José Maria Amaral, o Carvalho Homem, o Manuel Branquinho (embora o Manuel Branquinho nunca tenha sido um guitarrista, em meu entender, eu sou oficial do mesmo ofício, que se tivesse afirmado muito significativamente. Quando reaparece, mais tarde, é a cantar). Como violas eram o Aurélio Reis, que já era uma figura habitual, era o Eduardo Tavares de Melo, o Mário Castro. Na minha geração isto foi o núcleo fundamental.

AMN: Carlos Figueiredo, era um homem marginal a estes meios?
APB: O Figueiredo (risos)… você já se apercebeu que o meio é fechado e pequeno… há certas rivalidades. Há sempre uns ditos de bastidores, umas piadas. Nessa altura também havia essa mesma rivalidade. Ainda que, o João Bagão, o José Maria Amaral e o Carvalho Homem tivessem actuado muitas vezes em conjunto, de tal maneira que o José Maria Amaral foi 2º guitarra do João Bagão, depois o José Maria Amaral autonomiza-se e constitui o seu próprio grupo em que eu entrei como 2º guitarra, depois o José Maria Amaral vai-se embora e eu fico com o Carvalho Homem… Eu não tinha problemas, integrava-me facilmente embora sentisse as rivalidades, que então nos cantores eram “notáveis”. No meu grupo não, o Fernando Rolim, o Luiz Goes e o Zeca Afonso iam cantar a minha casa e havia entre nós um grande entrosamento.
Com havia as estrelas, o Figueiredo, a quem nós chamávamos o Figueiralho (risos), era um homem que não era um violista de primeira água, embora tivesse o seu mérito, era sempre o violista substituto. E então utilizou um sistema curioso: quando arranjava um cantor muito bom, dizia-lhe “eu ponho-o a cantar mas você fica comigo”. Havia este sistema também na altura. Como você sabe os cantores foram sempre adstritos a grupos e de certa maneira era difícil a um cantor ir com um outro grupo, era visto como uma traição aos seus companheiros. Isto já existia.
Muitas vezes o Figueiredo integrava-se nestes grupos, mas sempre com a sensação de que era um elemento de substituição. O que o Figueiredo tinha era coisa extraordinária, apesar de ser um tipo de importância menor, boi um belíssimo compositor. Fez fados tradicionais muito bem feitos, que nós aproveitámos, o “Adeus Sé Velha saudosa”, o “Ondas do Mar”, “O Sol anda lá no Céu”. O Zeca Afonso nessa altura era um cantor tradicional, tendo uma voz de pouca amplitude. Tinha uma voz fraca para cantar o fado tradicional. O ele ter explorado a balada, não há dúvida nenhuma que é esse o tipo de música que ele, já nessa altura, considerava mais adequado à sua maneira de ser e para as suas possibilidades vocais. Aliás, ele tinha uma coisa muito curiosa. Eu posso-lhe contar um episódio. Fomos fazer aí um espectáculo e ele cantou o “Águia que vais tão alta” maravilhosamente. Deram-lhe aplausos. E no fim há um sujeito, um antigo estudante, um velhinho, que vai ter com ele e lhe diz “Você é realmente um cantor extraordinário e deve ser muito feliz”. E diz ele, “Você está enganado”, e acrescenta com aquele ar dele “Eu nem gosto do Fado de Coimbra”. Isto mostra que realmente o Zeca Afonso tinha de evoluir para outro tipo de música.
AMN: Chegou a acompanhar essa evolução?
APB: Não, não acompanhei, porque eu depois da Suiça, aí por 1959, afastei-me. Foi uma fase muito difícil para mim, porque eu preparava a minha tese de doutoramento. Eu doutoro-me em 1961.
Guitarrista que aparece nessa altura com uma pujança formidável é o Jorge Tuna, o Portugal que vem de mim, da minha geração, mas que começa a compor e, sobretudo, já com os poemas do Manuel Alegre a fazer as trovas e baladas. O Portugal acompanha o Zeca Afonso, o Adriano Correia de Oliveira, o António Bernardino. É curioso, o António Bernardino fez lembrar na altura em que apareceu uma espécie, como é que eu hei-de dizer, de Manuel Julião. Um homem versátil, cantava tudo, fado clássico sim, gostava muito dos fados do Ângelo de Araújo, a canção. Eu até 1961 não participei, ainda que uma vez ou outra acompanhasse o Zeca Afonso, sobretudo em férias.
AMN: E ele já em ruptura?
APB: Já! Ele passou férias em minha casa no Algarve, várias vezes, ele era um homem despegado do dinheiro e às tantas chegava ao meio do mês de Agosto e não tinha o dinheiro e ia para minha casa para ter autonomia. Era realmente um artista, um poeta. E nessa altura acompanhei-o, por exemplo na “Balada do Outono” e numa série de canções que ele fez por essa altura. Eu encontrei-me perante um Zeca Afonso a cantar coisas completamente diferentes.
AMN: Na Crise Académica de 1969 estava em Coimbra?
APB: Estava em Coimbra.
AMN: É correcto afirmar-se, como às vezes se diz, que em 1969 se produziu o disco “Flores para Coimbra”, os cantores desertaram e tudo acabou?
APB: A Crise de 1969 provocou um “bouleversement” em Coimbra.
AMN: A linha clássica era apodada de “reaccionária” e de “fascista”…
APB: Exacto. O fado tradicional e a guitarra foram identificados com o regime, com uma carga negativa. Mas nunca até aí o fado tradicional e a guitarra tinham sido identificados com o regime. Normalmente no meio havia contestatários. Muitos guitarristas e cantores eram tipos normalmente não “arregimentáveis”. É evidente que se dizia “é um fado reaccionário”, “é um fado conservador”. É o próprio regime ou as figuras afectas ao regime que agarram o fado de Coimbra armados em protectores, independentemente, meu caro Nunes, de um certo feitio sempre conservador do antigo estudante de Coimbra. Se um velho está sempre a dizer “no meu tempo é que era bom”, o antigo estudante de Coimbra também diz “no meu tempo é que era bom, assim e assado”. Inclusivamente, eu, neste momento, sou capaz de já ser um conservador! Eu já estou a entrar na idade do conservadorismo.
AMN: Assiste-se efectivamente a uma dispersão de cultores com a Crise de 1969?
APB: Há uma dispersão e uma desmotivação dos cultores. 1969 foi um momento tremendo. E repare, se nós quisermos ser justos relativamente ao Zeca Afonso, eu recordo-me perfeitamente dele ter afirmado por volta de 1974 que não queria guitarras a acompanhá-lo, que não queria “raquetes” a acompanhá-lo, como ele chamava à guitarra. Ele não cantava fado de Coimbra. Fado de Coimbra era uma coisa abominável. Ele aí teve também um papel de certa maneira prejudicial. Prejudicou o fado de Coimbra. Depois ele fez contrição. E quando edita o disco de fado de Coimbra (1981) ele vem desdizer tudo quanto tinha afirmado. Isto significa que a partir de 1969, e indo até 1974, há enorme confusão.
(…)

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Homenagens e tributos (2006)
09/09/2006By AJA

Alguns dos intervenientes na homenagem de Vila Real de Santo António

Fotos de Angelo Fernandes (www.oportugues.blogspot.com)

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Homenagens e tributos (poesia)
09/09/2006By AJA

Recitativos de Rui Mendes dedicados a José Afonso

I
E há apenas isto: um homem, companheiro de estrelas e de remos, no arrasto da nossa esperança, rodeado de prados e agruras, e afolhagem de certa guitarra encarnada.

II
E esse homem, pregoeiro da brisa da madrugada, de pulso livre e coração descoberto, à mesa tingida pela luz a que nos sentamos sempre, apenas canta, apenas joeira palavras e miséria, pressagiando coisas bem afortunadas: um céu azul, sem vínculos, sobre o relento do nosso chapéu e um laranjal para o alfange do mendigo.

III
E é um cantar amargo, um cantar de amigo, colher de vento, fímbria do trigo, o que nos deixa a voz garrida desse homem, exonerado do seu próprio chão, ó chão castrado d’alegria, com o olhar pregado nas ruelas atulhadas pelo silvo das crianças do mondego ou na flauta, crivo de águias, de bensafrim.

IV
Ó terreiros da erva, ó terreiros da fome, ó íngremes quebradas do medronho, ó ror de dores, ó ror d’amores, quanto ror de foices tínhamos presas aos pulsos para rasgar, ao sabor dos vales do vento, este pedaço de terra morta e devassada, onde cresce a nossa ira, que as bagas do mar ferviam, junto aos campos cor de lima e de limão.

V
E esse homem, no fresco tingir da outra margem, vigia a crista das colinas, rasga janelas nas ribeiras, remonta às eiras onde as nossas costas são flor da rosa e suão, e queima, no tear das trovas, a dor panfletária das noites e dos dias, e vai-se juntando, como um pensamento puro e repercutido no ladrar dos cães, à garganta dos caminhos, aos vãos das escadas onde dorme a erva cidreira, lavando a luz dos nossos olhos, pernoitando também o olhar nos nossos pra­tos vazios, enquanto os nossosfilhos vazam grandes eiras de sal, sôbolos rios que vão por babilónia.

VI
E essa voz assim cerzida, memória de romãs e arestas cruas, assim aberta a todos os homens que chegam, a todos os homens que partem – amigos e inimigos são a província e a colheita do seu sonho – essa voz, fermento e febre de terno regadio, eis que nos é promessa dum grande dia sobre as pedras manchadas pelas nossas toalhas de malva: as nossas mãos, em pleno tumulto de armas e auroras, ditando o peso e a sentença que carregavam.

VII
E, no usufruto das clareiras que rasgamos por toda a parte, das bandeiras que desfráldamos até às vertentes dos muros e das amuradas, esse homem de novo começa a cantar:fragorde sarças sobre a sombra dos ombros, passos e pássaros na descarga do limiar das noites e dos dias para outros promontórios, e a gadanha movendo a substância putrificada dos presídios e das mansões, e a cor liminar das laranjas do mar, e o azul arável do céu, tudo, por assim dizer, que enchesse, como um frémito, o leito dos rios, a estrela das montanhas, macerando folhas de acanto.

VIII
E assim vos digo: esta voz sobe a prumo e é a folha púrpura das casas, quando amanhece, e é o rumo do pastor, céu abaixo: com a sua manta de açafrão e suas pombas bravas, e é a rede que se lança sobre as abelhas, logo que atravessadas pelas linhas do fogo, e é a fresca flor da nossa mão em vão julgada.
Voz dentro sangue, matriz do nosso sangue, terra indivisa: sangue e rosas.

in “Cantares” | Fora do texto, 1995 | 4ª edição

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Escolas
05/09/2006By AJA

Algumas perguntas sobre José Afonso


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Poesia
02/09/2006By AJA

Insisto não ser tristeza

Insisto não ser tristeza
Soluçar sobre uma mesa

E mais não ser deste mundo
Meter navios no fundo

Num caminho de esqueletos
Sempre se plantam gravetos

E se a velhice for tua
Senta-a no meio da rua.

José Afonso

in «José Afonso – Textos e canções», Relógio D’Água, 2000
Disponível aqui

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Homenagens e tributos (2006)
31/08/2006By AJA

O tributo a José Afonso e outros concertos no Espaço Ribeira

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Homenagens e tributos (2007)
28/08/2006By AJA

Noite de tributo a Zeca Afonso em Lisboa



Na noite de 9 de Setembro, no Bar Café do Mercado da Ribeira, lembramos o Zeca e as suas canções. O compositor e escritor Andrés Stagnaro é o nosso convidado especial….

O bar café do Mercado da Ribeira recebe, na noite de 9 de Setembro o compositor e escritor uruguaio Andés Stagnaro, que nos dará a conhecer o seu albúm “Las canciones de José Afonso”.

Para homenagear o Zeca contamos também com a actuação de alguns musicos residentes deste bar.

Contamos consigo a partir das 22h30.
Reserve a sua mesa através do 210 312 600 / 01 ou 210 312 605.

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Testemunhos
28/08/2006By AJA

“Zeca Afonso ou o ódio idolatrado”. Texto de 23.08.06 retirado do blog – http://combustoes.blogspot.com/

Aquela voz fanhosa, embargada pela raiva – um ódio que se desprendia a cada palavra – nunca foi do meu agrado. Incomodava-me o tom, o conteúdo e a vaidade mal dissimulada de José Afonso. O baladismo – o da esquerda, como o pouco de direita que por aí se ensaiou – nunca fez o meu cup of tea. Vulgar, “intervencionista”, manipulador de afectos e reacções primárias, ersatz da verdadeira arte – que se quer inútil – está para a música como o neo-realejo para a literatura, a publicidade para a fotografia, os retratos de rua para a pintura, os bordados para as belas-artes. Julgo, até, que os baladeiros, não fosse o baladismo, nunca seriam músicos reconhecidos pelos colegas de ofício. Foi uma geração de protestarismo fácil que se impôs de fora da música, que se profissionalizou, coleccionou fama e proveito e nada deixou. Servirá, quando muito, de retrato de uma época em que uma guitarra e uns poemecos carregados de baias e lugares-comuns faziam as delícias de um povo mal-informado, sem referências e prenhe de utopias. Alguns baladeiros por aí continuam como se o tempo não tivesse passado: os irmãos Salomé, o rotundíssimo Tordo, o Sérgio Godinho, o repetidíssimo Manuel Freire – quantos milhões de vezes já cantou a maldita Pedra Filosofal do Gedeão ? – e o vestusto Mário Branco. Reconheço que houve excepções nesta geração de improviso: Adriano Correia de Oliveira, uma bela voz munida de impressionante aparato poético e, no registo afadistado, o grande Carlos do Carmo.
No passado fim de semana, a RTP exibiu um verdadeiro show de totalitarismo revivaleiro. Zeca Afonso divinizado, exaltado e tido como um “génio”, deu azo a uma torrente de cançonetas de incontinente pendor marxista terceiro-mundista. As palavras sempre as mesmas (solidário, inquietação, amigo, companheiro, Maio, ceifeira), o ritmo puxando ao falso-rústico das “raízes” – outra palavra detestável – e a finalidade escancarada: tornar aceitável o abjecto (roubar, sanear, vingar, matar) e abrir portas ao totalitarismo comunista, tornando-o justificável à luz da rábula cantada. Zeca Afonso tinha um ar perturbado, queria mais, mais revolução, mais plano inclinado, mais ocupações, mais saneamentos, mais controlo operário, mais comissões de bairro – aquelas que faziam listagens com as pratas, os quadros e os aquecedores existentes nas casa dos inimigos de classe – mais poder popular, mais armas em boas mãos para defender a revolução; ou seja, mais balbúrdia que pedisse, no fim, mais um Estaline. Aquilo é Babeuf, Marat, a Comuna de Paris, a propaganda pelo facto do bombismo anarquista, mais comunalismo utópico em que entram as CEB’s (Comunidade Eclesiais de Base), as Comissões de Ocupação de herdades (as célebres “comprativas”), os padres Max de gola alta e barbas à Sierra Maestra, a Teologia da Libertação, as mulheres-padres, os poetas repentistas e analfabetos (quantas vezes tivemos de engolir o banalíssimo Aleixo ?), o new-age dos alucinogénios e de outros estados de consciência alterados, o abortismo dá-cá-aquela-palha; sei lá, um sem-número de coisas sem mérito elevadas nos pedestais no culto do mau. Sintomaticamente, o programa terminou com uma discursata do inefável “Zeca”: “a minha democracia não é a dos votos, mas a do poder do povo”. Pois. Uma democracia da rua, de tiros na nuca, prisões arbitrárias, campos de concentração, reeducações e penúria para todos. Uma democracia sem eleições, sem debate, sem opinião pública. Uma democracia com censura, com estribilhos, pinchagens e lavagens ao cérebro. É o que me indigna em tudo isto. Como se pode dourar aquilo que viola a democracia, a liberdade e a dignidade humana ? Como podemos abrir portas ao mundo que nos cerca se nos mantemos barricados nas superstições, ódios e quimeras que levaram à morte de tantos mihões, a tanta tragédia humana e tanta fome ? Só quando essa geração sair de cena poderemos, finalmente, aspirar à Europa.

Miguel Castelo Branco

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BiografiaFotografia
28/08/2006By AJA

José Afonso com 21 anos

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Homenagens e tributos (2007)
25/08/2006By AJA

Fotos de Vila Real de Santo António





Aqui ficam algumas fotos da homenagem a José Afonso em Vila Real de Santo António.
Em cima, as fotos da conferência com Alípio de Freitas, José Luis Louro, Teodomiro Cabrita Neto e António João.
Mais abaixo, o cartaz anunciando a exposição sobre a vida e obra de José Afonso no Arquivo Histórico Municipal.

Em breve, colocaremos mais fotos deste evento que se revelou um enorme sucesso, nomeadamente, no concerto do último dia que esgotou o Centro Cultural António Aleixo.

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Fotografia
08/08/2006By AJA

Valência, Abril de 1971

Foto tirada no II FESTIVAL DE LA CANCIÓN IBÉRICA (da esquerda para a direita):
Carlos Correia (Bóris), Zeca Afonso, Miro Casabella, Carlos Carlsen, Poni Micharvegas, Paco Ibañez, María del Mar Bonet. De costas as jornalistas Tina Blanco e Mercedes Arancibia.

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Testemunhos
08/08/2006By AJA

Entre o Porto e Coimbra – O Zeca Afonso que eu conheci

Foi durante um ensaio do grupo de serenatas do Orfeão Universitário do Porto que, pela primeira vez, ouvi esse nome pronunciado, com contagiante entusiasmo, por Roxo Leão, um tocador afamado de viola, que tinha vindo para a Faculdade de Farmácia do Porto completar a licenciatura iniciada em Coimbra. A falta da fase terminal do curso de farmácia e de engenharia na Universidade da cidade do Mondego tornava obrigatória a migração de grupos significativos de estudantes que, todos os anos, se transferiam para o Porto, onde vinham frequentar as últimas cadeiras das respectivas licenciaturas. Com estas revoadas de estudantes transferia-se, também, o influente ambiente estudantil coimbrão, culturalmente muito enriquecedor para os universitários portuenses que, assim, recebiam uma infusão de multidisciplinaridade que os cursos eminentemente técnicos ministrados no Porto e o estilo de vida que aqui se adoptava não propiciava.

O Roxo Leão era um daqueles conhecedores certificados do fado de Coimbra e um animador entusiasta da academia portuense, em tudo o que ao fado coimbrão dissesse respeito. Nessa mesma sessão de uma noite de Novembro de 1953, tomaram parte o José Vitorino Santana, que era o mais consistente fadista da nossa Academia, o Barroso, outro estudante de farmácia com carimbo de Coimbra, ele, também, um excelente tocador de viola, e os dois guitarras, o Carlos Couceiro, um executante seguro vindo, também, da cidade do Mondego para acabar no Porto a licenciatura em engenharia, e o Leonel, quartanista de Medicina, segundo guitarra e único elemento daquela tertúlia, genuinamente nortenho. No fim dos primeiros testes, em que a timidez natural de um principiante já tinha conseguido dissipar a expectativa densa que a circunstância exigente criara, todos concordaram em que eu deveria cantar os mesmos fados que o Zeca, porque, segundo as suas esclarecidas opiniões, a minha voz tinha uma estrutura musical parecida e os estilos interpretativos assemelhavam-se. Caloiro, obedeci, longe de saber o que é que esse veredicto, estando certo, significava de Iisongeiro. Contudo, e apesar de, então, essa semelhança me dizer pouco, a comparação ficou a fazer parte do meu consciente passivo, ligando-me, sentimentalmente, a esse nome que haveria de vir a ser, artisticamente, tão honrado. Passei a prestar maior atenção às canções que ele então interpretava e de que sobressaíam o fado «Incerteza», o «Contos velhinhos», o «Águia que vais tão alta», o «Meu menino é d’oiro», entre outros, e confesso o encantamento criado pela sua voz trémula e quente, que era, também, fruto do seu espírito original e sensível, voz que ora se arrastava numa dolorosa queixa, ora se erguia num grito de rebeldia e de protesto. O Zé Afonso, como outros preferiam chamar-lhe, era, sem dúvida, um estudante que cantava um fado novo que Coimbra nunca tinha ouvido.

Mas o Zé Afonso era, vi-o, depois, muito mais do que isso. Pessoalmente, encontrei esse quase-sósia canoro numa tarde de Agosto de 1956, a bordo do «Vera Cruz», a caminho de Angola. Ele viajava integrado à sua maneira (o Zeca nunca se integrou em nada) na Tuna Académica de Coimbra e o seu destino era navegar à roda da África para animar um vasto mundo de gente rica e culta que tinha decidido alugar o «Vera Cruz» para um périplo de África; eu viajava integrado no Orfeão Universitário do Porto, que seguia para Angola como agente de uma festa académica que tinha como missão apertar os nós dos laços de uma identidade lusotropical que se desejava duradoira. Cada grupo possuía a sua equipa de serenatas: a nossa era constituída pelo Rosa Araújo e o Costa Leite (guitarristas), o Hermenegildo Tavares e o Quartim Graça (violas); eram cantores o José Vitorino Santana, o Gameiro e eu. Do lado de Coimbra seguiam o Fernando Xavier e o Júlio Ribeiro (guitarristas), o Manuel Pepe e o Levi Baptista (violas); os cantores eram o Zeca Afonso e o Fernando Machado. Esse encontro fecundou uma amizade que estava destinada a crescer e que sem sobressaltos de percurso veio a ser muito grande e sincera.

Numa tarde de Agosto, quente, apesar de ser de cacimbo o tempo do calendário, o «Vera Cruz» deixou-nos no Lobito e seguiu a sua viagem, à roda do continente africano, levando consigo a «malta» de Coimbra.

Vivíamos nós, por essa altura, numa espécie de república, um vasto espaço de três quartos, uma sala e uma cozinha, num terceiro andar no Campo dos Mártires da Pátria (n.º 135), sob a vigilância aflita mas benevolente de uma velhinha, a Sr.ª D. Aninhas. Eram sete os habitantes regulares desses aposentos, mas alturas havia em que o número de comensais chegava a duplicar. Depois da viagem a Angola, um dos frequentadores desse lar aberto era o Zeca. Sempre que as deslocações da Tuna ou do Orfeão Académico de Coimbra, os seus afazeres pessoais ou qualquer decisão repentista, disparada pela sua irrequietude sentimental, o traziam ao norte, lá o tínhamos connosco, com toda a Fantasia do seu ser poético e a rebeldia do seu idealismo descomprometido. Uma das vezes (em vésperas das férias grandes de 1958), a sessão artística da Tuna ia ser no Rivoli. O Zeca apareceu, como de costume e por uma das razões de sempre. Tinha vindo «à boleia», ia cantar, estava à futrica e tinha umas horas para pôr a conversa em dia. Comeu connosco, cantarolou os fados que tencionava interpretar nessa noite — e que o Costa Leite e eu acompanhámos à guitarra —, enfiou a minha capa e batina, completando, assim, o ritual e lá descemos os dois a Rua dos Clérigos, a caminho do Teatro. Ao passarmos em frente da Igreja dos Congregados, num súbito arrebatamento, parou, fitou-me com o ar concentrado que a testa franzida denunciava — era assim sempre que falava a sério — e atirou-me a seguinte proposta: «— Oh pá (ele usava esta abreviatura quando ela era ainda erudita, tu tocas guitarra, eu toco viola e cantamos ambos. Vamos os dois fazer férias por essa Europa fora, como artistas vadios?» Sorri, creio que candidamente, para quebrar com ternura o ímpeto do seu entusiasmo.

Na verdade, não era fácil recusar tão espontânea, sincera e amiga sugestão; mas a minha vocação de aventura tinha asas mais curtas e, além disso, tinha duas cadeiras do meu quinto ano para fazer em Outubro; e as férias iam ser pequenas para pôr o estudo em dia. Sanado este breve desencontro, retomamos a marcha rumo ao Rivoli.

Este nomadismo, que era nele genómico, era uma das facetas que tornava visível a irrequietude do seu espírito! Mas foi, sobretudo, em Coimbra que convivemos e nos conhecemos melhor e que a nossa amizade cresceu e se radicou. O Zeca era, na verdade, uma criatura rara, de uma enorme originalidade: inteligente, culto, criativo e, ao mesmo tempo, bondoso e decifrável, era muito fácil gostar-se dele. Sempre que nos fins-de-semana o tempo era meu, lá ia até à velha cidade tratar do fado e das guitarradas, em correspondência a esse apelo primário que vinha da infância. E foi assim que muitos fins-de-semana passei na capital do Mondego, onde nos encontrávamos, ora na Baco ou nos lncas, ora em sua casa ou no seu verdadeiro lar, que eram as ruas de Coimbra. E foi assim que se desenvolveu, não uma estima superficial de convenções, mas uma amizade de gente nova, sem rugas, própria dos afectos simples e verdadeiros.

Além de cantar, o que nós conversámos! Os problemas de então, as preocupações humanísticas e sociais eram assuntos nunca calados nos nossos longos diálogos. O cristianismo e os seus valores, os compromissos que a dignidade humana implica; a coerência e a hipocrisia. Avessos a todas as tiranias, éramos, assim, apóstolos silenciosos de um mesmo credo. O Zeca era espontâneo, desacautelado e livre como se vivesse sozinho no Mundo!

Apesar dos anúncios iniciais premonitórios, que estiveram na origem da nossa aproximação, afinal, nós éramos muito mais irmãos pela inteligência interpretativa do mundo e pela confiança na bondade dos afectos, do que pela voz! Éramos mais parecidos calados do que a cantar.

O Zeca tinha sofrido a influência religiosa densa de uma tia «beata», que talvez tenha contribuído para que tivesse deixado, logo no limiar da adolescência, qualquer manifestação de prática religiosa, mas essa formação, que continuou a fazer parte do pavimento em que assentava como criatura, acompanhou-o até ao fim. Nunca rejeitou a essência daquilo que moldou a sua natureza inquieta e generosa e deu expoente aos seus valores sociais.

Uma vez em que, com um pequeno grupo de amigos, decidi ir a Fátima de bicicleta, amedrontado com os duzentos e vinte quilómetros que tínhamos de percorrer, resolvi, com a anuência dos companheiros de viagem, partir a meio a distância e pernoitar na república Baco, sempre a primeira a ser procurada, porque nela viviam muitos conhecidos e alguns bons amigos: o Fernando Machado, o Manuel Pepe, o Batalim, o Dario — e também porque a canção coimbrã tinha aí uma grande sede. O convívio alegre e saudável compensava bem o sacrifício de certas incomodidades do alojamento. Era também frequente o Zeca passar por lá e, nessa noite, passou mesmo. Falou-se de tudo e, obviamente, também do motivo da nossa viagem. Ficou entusiasmado com a «peregrinação» e só não nos acompanhou porque, na manhã seguinte, não conseguimos encontrar em Coimbra uma bicicleta disponível.

A convergência das nossas pessoas, sentenciada naquela noite de Inverno, nunca sofreu retrocessos ou foi posta em causa por qualquer acidente ou assintonia. Pelo contrário, foi tomando corpo, progressivamente, mais verdadeira e consciente. Quanto melhor nos conhecíamos, mais os nossos ideais batiam certo ao ritmo de um mesmo compasso. Não há dúvida de que social e humanamente assentávamos os pés num mesmo chão e que, no essencial, éramos guiados por uma bússola orientada para um mesmo norte. Menos ancorado nos valores tradicionais, o Zeca sempre foi mais solto e, por isso, vagabundo. Mas, se em alguma coisa divergíamos, era em pequeníssimos pormenores que se escondiam na espuma de certos comportamentos.

Subitamente, fui mobilizado para prestar serviço médico militar em Angola. Os três anos (de 1963 a 1966) que lá passei foram muito mais do que a interrupção fortuita de um convívio que sempre fora reciprocamente desejado. Nenhuma das minhas outras amizades sofreu com essa ausência forçada.

Quando regressei de Angola, fui reencontrar o meu Amigo Zeca em Vilar de Mouros, protagonista zangado de um extenso protesto, ora em prosa ora em verso, meio recitado, meio cantado e que tinha como objecto a história de Catarina Eufémia. A mudança senti-a, sobretudo, no abraço frio que me deu quando, no fim da longa catilinária, desceu do palco! Não me surpreendeu o seu entusiasmo pela causa abraçada. Alguém agarrou bem a sua generosidade disponível, o vazio criado pela sua bondade por realizar. Espantou-me, sim, que na sua mente independente e lúcida deixasse de haver lugar para a sublimidade poética que nos tinha feito muito amigos! Nem a poesia escapa a certas escorregadelas da lógica! Tão semelhantes e, contudo, o Zeca acabou por ser o símbolo de uma revolução que me expulsou da Universidade.

Serafim Guimarães

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GrândolaJoão AfonsoJosé SaramagoLuís PastorVídeo
07/08/2006By AJA

Na biblioteca de Saramago

El sábado de la semana pasada tuvimos la fortuna de conocer a Joao Afonso, el sobrino de José Alfonso. Fué en la biblioteca de Saramago en Tías -Lanzarote-. Allí coincidió el grupo de artistas que visitaba la isla con motivo del concierto de Luis Pastor y su nuevo disco Duos. Fue una reunión íntima que terminó acariciada por poemas y canciones. Y no pude evitar coger la cámara y ponerme a grabar para socializar el pasaje.

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Biografia
02/08/2006By AJA

2 de Agosto – data de nascimento de José Afonso

“Parece que em princípio ninguém se lembra do acto de nascimento. Cientifi­camente não se pode confirmar que um indivíduo que nasce tenha a percepção do seu próprio nascimento. Agora que existe uma imagem persistente, uma luz muito difusa, translúcida e que através dessa luz figuras mal definidas se debru­çam sobre mim e a minha mãe…, tenho uma ideia disso. Há muitos anos que te­nho essa impressão.»

Para José Afonso, que assim «revelou»o seu próprio nascimento a Luís Filipe Rocha, «tudo parte de uma luz indife­renciável, uma luz que invade tudo, que me penetra por todos os lados, não é? Progressivamente através dessa luz vou distinguindo uma ou outra fi­gura. Tudo parte de uma luz branca, uma luz láctea. E não é uma luz do ti­po hectoplasma ou transcendental. Pelo contrário, é uma luz imanente, uma luz muito vital, como se fosse uma película, como se fosse um banho de leite, estás a perceber? Que me mergulhasse a mim ou que mergulhasse o universo.»

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Biografia
01/08/2006By AJA

Zeca a propósito da sua passagem pelo Algarve

Faro 1961 – 1964

Foi uma fase de euforia extremamente gratificante e das coisas mais felizes da minha vida. Escrevi na altura “Tenho barco, tenho remos”, a propósito de um barco que utilizávamos. Nesse barco do diabo fazíamos viagens fantásticas ou fantasmas(…) discutíamos pontos de vista vários. Tinhamos a mania de andar a pé até Olhão, até Quarteira e ainda mais longe.

José Afonso

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Homenagens e tributos (poesia)Luiza Neto Jorge
01/08/2006By AJA

Novos cruzados

Luiza Neto Jorge lembrando as suas deambulações em Faro com A. Barahona, Zeca Afonso, Bronze e Pité

Novos Cruzados

Sequiosos descem
seus corpos de esponja

a rolar na treva,
iates rompendo
à babugem da água,
caravanas caras
em fossados por
rochedos e hortas,
sedentos recolhem
cisternas, piscinas
sob o seu pendão,
e saqueiam, sangram
consagrados à
salvação do corpo
estes cruzados!



Luiza Neto Jorge

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Homenagens e tributos (2006)
30/07/2006By AJA

Vila Real de Santo António recebe os amigos de José Afonso

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António Pedro VasconcelosTestemunhos
28/07/2006By AJA

António Pedro Vasconcelos sobre o Zeca

«Morra um homem. Fique a fama». (Zé do Telhado)

Era um senhor. Desprendido e simples.
Arrogante e firme. Um aristocrata. De uma espécie em vias de extinção: um homem livre.
Quis um pano vermelho a cobrir-lhe o caixão, porque era fiel, como os partisans do poema de Aragon -, mas sem insígnias, porque, se ele serviu de bandeira a muita gente, a muitos grupos e partidos, a quem emprestou a voz, a bolsa e a vida, não pertencia a ninguém. Era de uma espécie em vias de extinção: um homem livre, solitário e fraterno.
E ademais um poeta. Um grande poeta lírico, – da família de Nobre e Camões. Um cantor -, como Dylan e Ferré. Tão grande ou maior do que eles todos, como pretendia Paco Ibanez? Talvez, mesmo se uma doença traidora e a má sorte de nascer em Portugal, . que ele tanto e tão bem amou, lhe fecharam tão cedo os horizontes.
Berlioz fez adoptar a «Marselhesa» pelo povo de Paris, nos dias eufóricos de Julho; ele compôs a «Grândola» em comunhão clandestina com o povo, que a iria adoptar nos dias memoráveis de Abril. É ela, e não a «Portuguesa», o nosso Hino Nacional.
Dizem que teve dúvidas, hesitações, desalentos. Era o sinal da grandeza. Mas não baralhava os inimigos: a miséria e o medo, a mentira e o abuso.
Nestes tempos de promiscuidade e memória curta, em que uma espécie de SIDA moral começa a contaminar tudo e todos, ele disse sempre de que lado estava, sem ambiguidades. Era um homem de esquerda, irredutível, irreconciliável. Um exemplo.

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Luiz GoesTestemunhos
28/07/2006By AJA

Luiz Goes sobre o Zeca

Falar do Zeca é falar de um grande amigo com quem convivi muito intimamente em Coimbra, sobretuto nos anos 50.
Quando se dão os grandes acontecimentos dos anos 60 eu já não estava lá, já me tinha formado. O Zeca se fosse vivo tinha mais quatro anos do que eu de idade, mas eu era dos cantores o que me formei mais cedo, porque tinha a mania de ser bom aluno, e não era suficientemente boémio, se fosse hoje, reprovava mais de dez anos.
Formara-me em Outubro de 1958 e em 1959 já estava em Lisboa, nos Hospitais Civis, e a partir daí perdi aquele contacto diário, constante, com esses meus queridos amigos, o Zeca era um deles. Como é evidente, com essa vinda para Lisboa, perdi o convívio com aquela geração, e com aqueles acontecimentos da época lá em Coimbra. Mas acompa­nhei-os muito de perto.
Entretanto fui mobilizado, para a Guiné, onde estive dois anos e, quando voltei, procurei recuperar o tempo que tinha perdido em termos de cantigas, estimulado por terceiros. Depois lá recuperei um pouco e entrei numa fase da minha vida, mais amadurecida talvez, mais velho por dentro também, e, naturalmente, modifiquei a minha maneira de ser. Mas, falar do Zeca é falar de uma pessoa inesquecível. Do seu talento, do seu lirismo, no fundo, para mim, o Zeca foi sempre um lírico, punha as palavras também ao serviço do coração. Eu sei que era assim. E depois de tantos episódios curiosos vou-lhes lembrar apenas um. Eu durante muito tempo não fui república em Coimbra, porque a minha mãe vivia lá, pois eu sou natural de Coimbra. Devo ser talvez, o único cantor conhecido, pelo menos do nosso tempo, que tenha nascido em Coimbra, de maneira que tinha casa. O Zeca já era casado, era a primeira mulher, tinha dois filhos e a minha casa era uma “República”, e então, muitas vezes, o Zeca chegava e dizia assim: “á D. Leopoldina”, que era a minha mãe, “não se importa que os miúdos fiquem aí?” E a minha mãe respondia: “á Sr. Doutor”, a minha mãe tratava toda a gente por doutores, porque era costume lá em Coimbra, um indivíduo desde que tivesse capa e batina tratava-se logo por senhor doutor, desde o primeiro ano, “isto é uma maravilha, hem?”. Entretanto ficavam lá os dois miúdos e o Zeca esquecia-se. Um dia, a minha mãe, ao fim de dois dias, disse-me assim: “á Luís, desculpa lá, eu sou muito amiga do Zeca, mas ele. . . quando é que? .. ” E eu: “… O quê? ainda cá estão?…” Tinha-se esquecido. Depois ia buscá-los. Isto é um episódio que revelo com muita ternura, com muita saudade e com muita afectividade. Eu tenho orgulho de ter pertencido à geração dele, e também, em ter contribuído à minha
maneira, para que as coisas mudassem. Mas não me esqueço dele. Foi um grande amigo, é uma grande memória, uma pessoa que eu trago sempre no coração e na minha sensibi­lidade.

Luiz Goes

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Homenagens e tributos (poesia)Sérgio GodinhoTestemunhos
28/07/2006By AJA

José Afonso trouxe canções que rebentavam diques, ideias feitas, praxes, estruturas

Eu teria então os meus quinze anos, e não gostava de quase nada do que se fazia na música portuguesa.
Nisso, devo dizer, não estava só.
Ora um país onde a gente nova não se reco­nhece, seja na música ou no resto, é um país doente, a precisar urgentemente de um doutor.
Ouvi então uma voz única, e vinha de facto de um doutor: chamavam-lhe, e chamava-se, Dr. José Afonso, à boa maneira coimbrã, pom­posa e c1assista; mas este doutor trazia canções que rebentavam diques, ideias feitas, praxes, estruturas. “O meu menino é de oiro, é de oiro só, hei-de levá-lo no meu trenó”. O Zeca passou a ser o meu doutor particular, a minha referên­cia só pouco a pouco assimilada.
Em 1972, respondendo a uma carta que ele me tinha escrito (estava eu impedido de cá vir) respondi-lhe glosando a sua poética, fazendo sobre a música do Sr. Arcanjo uma nova letra, em jeito de dedicatória e homenagem. Hoje, quando a releio, descubro-a de certo modo pro­fética, não só na descrição metafórica dos anos que se seguiram, desde o 25 de Abril até hoje, como na própria referência ao olhar do Zeca, sempre atento e perspicaz, a última coisa a mor­rer quando ele já tão doente estava. Dizia assim a canção:
Eh Zeca Afonso
canto para ti
ainda era moço
quando te ouvi

Convite à dança
fizeste a quem

era criança
soube-me bem

Eh Zeca Afonso

mal tu sabias
que duro osso
que então roías

Menino de oiro
no teu trenó
foi mau agoiro
deixar-te só

As mafarricas
vieram todas
pobres ou ricas
celebram bodas

Disparam tiros
de tudo comem
até vampiros
e um lobisomem

E os surdos mudos
tapam os olhos
sopram canudos
catam piolhos

Coçam sovacos
abrem a cova
metem em sacos
a tua trova

Mas não te afobes
quem te amofina
só fez que sobes
na nossa estima

Há nas janelas
do teu olhar
duas donzelas
ainda a espreitar

Olham para o mundo
para o alecrim
respiram fundo
cantas assim

Senhor arcanjo
Vamos dançar
afina o banjo
pelo luar

Sérgio Godinho

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DiscografiaJosé Mário BrancoTestemunhos
27/07/2006By AJA

Chamava-se Catarina

Nascido para, como diz a cantiga, “abrir grandes janelas”, o Zeca sempre suportou maio fechamento – quer o das ideias, quer o dos espaços. Das duas vezes que foi a Paris gravar comigo, em 1971 (“Cantigas do Maio”) e 1973 (“Venham mais cinco”), nunca ele escondeu quanto lhe desagradava e o indispunha a necessidade de ficar fechado no estúdio durante horas, e quanto ele não gostava nada de Paris nem do ambiente dos portugueses de Paris – hoje entendo como tinha razão.
Porque haveria de ser preciso fecharmo-nos, horas e horas a fio, na tensa clausura de um estúdio de gravações, se o objectivo era precisamente registar os grandes e puros espaços sonoros das suas melodias, a frescura densa da sua voz, a força simples e lírica das suas palavras? As máquinas! custava.lhe aceitar que a “limpeza” e a “verdade” do som só pudessem ser conseguidas, neste mundo sujo e atravancado, por meio das máquinas, das técnicas, do isolamento acústico. Custava.lhe aceitar que, para fazer chegar aos outros as coisas belas e simples que inventava, fosse preciso tanta guerra para reconquistar o silêncio, a página branca, o patamar vazio donde tudo tem que partir.
Assim, por entre mil episódios que atestam o que acabo de dizer, há esse – o da gravação do “Cantar Alentejano” (“Chamava-se Catarina… “) – que testemunhei aquando da gravação das “Cantigas do Maio”, juntamente com a Zélia, o Fanhais, a Isabel Alves Costa, o técnico Gilles Sallé e, naturalmente, o violista Carlos Correia (Bóris). A opção de arranjo foi: só a viola, e a voz do Zeca. Sem rede.
O regime de gravações – tardes e noites – fez que, nesse princí­pio de tarde, fosse a altura de gravar o “Cantar Alentejano”, “Vamos a isto, Zeca?”, ia eu dizendo, naturalmente preocupado com a factura do estúdio. “Não tens nada para ir metendo?”, desconversava ele. Via-se que não estava pronto. “Queres ir me­tendo outras coisas? Faltam vozes no “Milho Verde” e no “Senhor Arcanjo”… E assim ia passando a tarde. “Está bem, vamos me­tendo outras vozes”. Mas não se conseguia grande coisa. A alma dele – percebi depois – estava toda no Alentejo, nos olhos de Catarina Eufémia. E, como tantas vezes acontecia, andava no estúdio para cá e para lá, em passos nervosos, como o jóvem leão na sua jaula.
Até que, já pela tardinha: “Eu vou até lá fora, olhar para as vacas” – o estúdio era numa quinta apalaçada, no meio dos campos. Desapareceu, uma hora ou duas. Quando voltou já era quase noite. “Vamos gravar a Catarina”. O Bóris meteu-se na pequena cabina, para o som da viola ficar isolado da voz. O Zeca, no meio do estúdio, sozinho e às escuras, cantou. Uma só vez. Essa que está no disco.
Nós, os outros, os privilegiados espectadores, estávamos na cen­tral técnica, quase todos a chorar incluindo o técnico francês. “Acham que é melhor eu cantar isto outra vez?”
“Não, Zeca, não. Está muito bem assim…”

José Mário Branco
in Revista nº1 da AJA de 1988

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Adelino GomesTestemunhos
27/07/2006By AJA

Carta de agradecimento a José Afonso um ano depois da despedida

Conheci-te pessoalmente vai fazer 21 anos.
Esperei-te no cais da Rocha do Conde de Óbidos, junto dos fun­cionários da Alfândega, da Guarda Fiscal, da Pide. Vasculhavam eles arcas e malas e eu, de gravador ainda desligado, para trás e para diante, ao sabor das tuas necessidades alfandegárias, ten­tando vencer a (futura) lendária relutância do dr. José Afonso a falar de música, das suas cantigas.
Guardo uma vaga memória da tua mulher, da(s) criança(s), das respostas evasivas a provocarem-me a situação de desconforto que volta e meia tenho de suportar noutros episódios desta pro­fissão de intruso.
Ninguém para te abraçar, à chegada do navio.
E tu a mostrares-te admirado (desconfiado?) com a minha insis­tência em falar-te de música, e da importância das tuas canções. A minha tarefa era recolher as tuas primeiras declarações no re­gresso à “metrópole”. Não me lembro como, mas eles eram bons profissionais) o Carlos Cruz e o Fialho Gouveia, realizadores do programa PBX (Onda Média do Rádio Clube Português, da meia­-noite às duas), sabiam que ias chegar naquele dia do Verão de 1967. Encarregaram-se de te entrevistar, e de te convencer a gravar algumas canções para o programa. Gravar gratuitamente, que era a velha forma nacional – porreirista de aproveitar os can­tores de resistência sem olhar aos seus dramas, sem nos interro­garmos sobre (se tinham) dificuldades materiais.
Vinhas esgotado da experiência colonial de Lourenço Marques e da Beira. E sem um tostão. Não sabias bem ainda onde ficarias a residir. Julgo que me falaste de Setúbal, mas também de Faro. Só encaravas o ensino como modo de vida.
Regressei impressionado à Sampaio e Pina. Tentei que os reali­zadores convencessem os produtores – os Parodiantes de Lis­boa – a pagarem as gravações que te dispuseras a ir fazer dentro de dias. Recordo a alguém a argumentar (interessa saber quem, em particular?) que o Zeca Afonso se devia sentir muito grato ao PBX por este o relançar no país.
A fiscalização do RCP – junto da qual funcionava um represen­tante dos Serviços de Censura – cortou o programa e só uma cunha do actor Raúl Solnado ao Subsecretário de Estado da Pre­sidência do Conselho, Paulo Rodrigues, permitiu a sua trans­missão umas noites depois.
Nunca tive coragem de te perguntar se recebeste algum dinheiro pelas gravações. Julgo que te pagaram apenas os transportes para e de Lisboa. Não me lembro que canções novas (era a exigência) cantaste. A lógica manda-me pensar que foram canções incluidas no LP Cantares do Andarilho (1968) ou nos Contos Velhos Rumos Novos. Porém, não sei porquê, fiquei sempre com a ideia que foi no PBX, em 1967, que deste a conhecer as Cantigas do Maio. Talvez porque a esse espantoso monumento da MPP /Canção de Intervenção nada foi feito antes nem nada foi feito depois que se igualasse.
Para mim, o momento do solitário encontro no cais e o episódio do “cravanço” do PBX constituiram a revelação em corpo inteiro de um José Afonso que andou pela nossa terra, como tu próprio declararias mais tarde, a pagar a sua dívida política e cultural para fins que considerava correctos e a pessoas ou organizações para quem valia a pena fazê-lo.
Jornalista da Rádio, foi a ti, à inspiração da tua música e ao apelo dos teus versos que recorri, como outros companheiros, nos tempos de Salazar e Caetano, para fazer passar a mensagem do inconformismo.
Tu dizias por música o que nós não podíamos dizer por palavras. O que nós não tínhamos coragem para dizer por palavras. Devo-te essa lição.
Devo-te tudo o que se deve a quem nos dá força para resistir. Tudo o que se deve a quem tem a coragem de ser até ao fim igual a si mesmo e às ideias que apregoou algum dia.”Outra voz outra garganta/Outra mão que se estende à que tom­bara/Uma fagulha num palheiro acesa/Ó meus irmãos a luta não pára”.

Adelino Gomes, in Revista nº 1 da AJA, 1988

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António Vitorino de AlmeidaTestemunhos
27/07/2006By AJA

Era um redondo vocábulo

“Grande engano! Mísera sorte! Estranha confusão! …” – são palavras utilizadas por Luís de Camões para definir alguns de­sastres do aventureirismo lusitano.. .
E não sei porquê – até porque o espírito que presidiu a essas aventuras se baseava num conhecimento profundo e altamente especializado da arte de marear, devendo-se os desastres a con­tigências próprias dos anseios descomedidos do Poder, e nunca a falhas gritantes de competência técnica… -, estas palavras in­cisivas do poeta renascentista vêm-me à memória sempre que penso nos sons da angustiosa indigência artística e intelectual produzidos por alguns grupos musicais portugueses com larga audiência no nosso caseiro mundo do espectáculo, afora alguns indeléveis recortes para o álbum das recordações excursionistas por terras de Espanha, alegria das famílias e orgulho patriótico de uma imprensa dita especializada…
A eminência parda que, em derradeira instância, sempre decide as eternas questiúnculas entre o “querer” e o “poder’ é, indu­bitavelmente, o “saber”… Quem sabe, pode quando quer; quem não sabe, até ignora o que poderia se acaso quisse aprender… Para mim, a norma de conduta mais razoável e eficaz consiste em saber-se o que se pode e fazer-se, em função disso, o que se quer. Quem não sabe o que pode, acaba por fazer o que não quer. . . E quando vejo louvar e incentivar a actividade desses inválidos da música, o seu trôpego caminhar por sobre os calhaus ásperos de um som não dominado, por entre os cardos da inépcia mais grotesca, volto a lembrar-me do discurso camoneano, sou tentado a perguntar aos empresários, aos agentes, a certos críticos e jornalistas confessamente virgens de qualquer conhecimento técnico (ou mesmo histórico!…) Na matéria sobre que dissertam enquanto apoiam movimentos de tão previsível mau destino:
“A que novos desastres determinas de levar estes Reinos e esta gente? Que perigos, que mortes lhes destinas debaixo de algum nome proeminente? Que promessas de reinos e de minas de ouro, que lhe farás tão facilmente? Que famas lhe prometerás? Que histórias?.. Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?
Camões acaba por amaldiçoar aqueles que puzeram nas ondas o primitivo madeirame de barcaças encimadas por uma vela. Eu não amaldiçoo ninguém, é óbvio; mas espanta-me, assusta-me, a leviandade com que se põe num palco, num estúdio, sujeito à verdadeira – e implacável – crítica do futuro, gente que nem sabe pegar num microfone para gemer a sua importância vocal, poética e musical…
De todos os actuais êxitos e aplausos ficará cinza, pó e nada. Ficará o fel das grandes ressacas, o sabor do papel de música que nunca se provou… E isso é tanto mais grave quanto não está provado que todos esses infelizes homenageados de hoje, gozados de um amanhã já próximo, sejam por natureza destituí­dos de jeito, capacidade de aprendizagem, até de certo talento para a arte que tanto amam, ainda que sem serem correspondi­dos… A música (tal como qualquer outra actividade profissio­nal…) não vai nas cantigas de tais namorados: São fulanos que ostentam, na melhor das hipóteses, uma fachada razoável, mas que deixam logo a certeza de não terem o interior mobilado…
Nós podemos apreciar mais ou menos, muito, pouco ou mesmo nada, um determinado estilo, sem que isso nos leve a ignorar onde é que está um profissional, alguém que se sabe mexer, al­guém que sabe cantar, que sabe tocar, que consegue indiscuti­velmente transmitir uma ideia, um pensamento, uma filosofia… Essa filosofia pode desagradar-nos, até; mas a capacidade té­cnica ou artística de quem a comunica não deve ser posta em causa, sob risco de perdermos o desafio por abuso da autocon­fiança, por ridícula estultícia e arrogância…
Portanto, não interessa, em princípio, saber se todos gostamos ou não da mesma música, se todos estamos de acordo com deter­minadas correntes de pensamento; trata-se, para já, de exigir que os seus defensores saibam exprimir-se, pois só a partir daí poderá haver discussão ou confronto de opiniões.
Não caindo na tendência altamente reaccionária de separar as formas dos conteúdos, temos que admitir que o mundo em que vivemos – ou sobrevivemos… – tem ao seu serviço expressões artísticas que definem as suas problemáticas, a sua ideologia, as suas coordenadas de pensamento: a música de uma sociedade poluída não pode ser límpida como um ribeiro de águas nascen­tes, não pode ter contornos sonoros definidos ou puríssimos, mas terá, necessariamente, de ser pastosa, poluente, insalubre, en­démica. Na verdade, se consentimos que um rio seja sinónimo de esterqueira, como poderíamos aspirar a uma música de en­cantos pastorais onde pudéssemos mergulhar e nadar sem o perigo das mais abjectas contaminações?!
É evidente que este é o meu ponto de vista. Mas há quem de­fenda que toda a trampa vale a pena quando a ind ústria não épequena. Há quem colabore com as forças de manutenção deste mundo e que defenda como útil e indispensável a entrega a pa­raísos artificiais compensatórios do inferno em que transforma­ram a realidade concreta. Há quem defenda efectivamente a droga e a alienação, a ignorância das tragédias e das aberrações como forma de sobrevivência – e essa filosofia tem a sua música própria, assente numa estética correspondente e coerente.
Eu sou contra esse mundo, essa filosofia e essa música – e estou no meu direito, parece-me… Tal não significa, entretanto, que negue (seria absurdo fazê-lo!) a capacidade profissional dos seus mais eficazes defensores: são de tal modo eficientes que há mi­lhões de pessoas que não reagem contra esse destino de inqui­linos de uma sempre crescente lixeira, ou que julgam que para combater semelhantes perigos e ameaças bastará ouvir música e idolatrar cantores, o que deixa, naturalmente, uma invejável margem de manobra aos responsáveis pela esterqueira.. .
Pelo contrário, há grupos musicais entre nós cuja nulidade não permite discussão; é correspondente à sua total ausência de ideologia – direi mesmo de raciocínio em relação aos problemas sociais, culturais ou políticos… Mas essa nulidade permite que o grotesco macaqueamento de uma linguagem de teor neo-fascista, por exemplo, possa ser utilizado, sem atritos de qualquer espécie, numa festa de ideologia progressista – e vice-versa!
Mais ainda, estes párias da cultura são muito estimados e pro­movidos por todas as forças partidárias, tanto faz que cantem para uns como para outros, que mudem de candidato presiden­cial ou de grupo parlamentar como quem troca as cuecas. Essen­cial é que a sua mensagem seja absolutamente õca de sentido e que a própria forma como se exprimem não se arrisque a nenhu­ma definição de fins nem de princípios. É gente para usar e deitar fora. . .
Ora essa gente… é gente! Longe de os condenar como culpados, eu considero que esses lamentáveis grupos são as grandes vítimas de um sistema efectivamente infame, pluralista saga de uma anti-cultura militante, a castração da crítica, a busca a uma so­ciedade amorfa e conformada, apenas ruidosa, o muito barulho para nada, a ausência de uma vontade autêntica e actuante. Al­guns desses actuais incapazes poderiam talvez deixar de o ser se seguissem um exemplo respeitável, uma filosofia concreta.
O símbolo de uma filosofia de participação e de responsabili­zação dos artistas e intelectuais nos destinos do mundo encon­tra-se na música e nas ideias de José Afonso.
É um disparate argumentar-se com a teoria de que ele não sabia música. Sabia a música de que necessitava para defender os seus conceitos. Poucos como ele foram capazes de tomar conhecimento do que podiam para fazerem depois o que queriam!
Em nenhuma obra de José Afonso se pode lamentar que ele não tivesse conhecimentos suficientes para se exprimir literária e musicalmente. Foi um artista que soube paradigmaticamente en­contrar a forma que correspondia ao seu conteúdo ideológico, sem cedências nem transigências, sem qualquer vislumbre de conformismo ou de aceitação de uma menoridade: o que fazia era bem pensado, bem escrito, bem composto e bem cantado! José Afonso é hoje muito elogiado, nomeadamente por alguns que ele menos poderia suportar em termos artísticos – e não só… Mas isso não é grave. Antes pelo contrário, pode ser muito relevante se os homenageadores se esforçarem por aprender com o homenageado. Que se transformem, quanto possível, os ama­dores na coisa amada – e tudo ficará certo. . .
Não se trata de saber solfejo, leis de harmonia ou normas de con­traponto. Nem mesmo se trata de conhecer muitas posições na guitarra. José Afonso nunca precisou disso… Do que ele nunca prescindiu foi de criar uma técnica própria, foi de evoluir artis­ticamente até ao ponto de ser, para todos os efeitos, um Mestre. E o caminho por ele percorrido passou, inevitavelmente, pela consciência de que toda a arte exprime um ideário, se orienta por conceitos estruturados com base naquilo em que se acredita e que se pretende defender.
Não vou sequer ao ponto de desejar que todos perfilhem – como eu tento perfilhar, na medida do meu possível – a linha ideo­lógica pura e intransigente de José Afonso, um homem bafejado pela Razão e por um superior sentido de Justiça, valores que se pagam muito caro. . .
Penso, isso sim, que o simples respeito pelo artista que ele foi, o seguir do seu sistema de trabalho como padrão para o estabe­lecimento de um critério de valores profissionais, já poderia ajudar muita gente a enveredar por uma estrada digna e a li­vrar-se do juizo final de um público que aplaude, compra, con­some… – mas, no fundo, não perdoa!

António Vitorino de Almeida
in Revista nº 1 da AJA de 1988

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Carlos Paredes
24/07/2006By AJA

Por estes dias, vamos lembrando Carlos Paredes

Desenho de RIB http://www.rib-acaso.com

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Carlos Paredes
23/07/2006By AJA

Carlos Paredes – A magia da guitarra aliada à lúcida memória das coisas

A proposta era a de Carlos Paredes nos falar do seu album ES­PELHO DE SONS, recentemente editado e ao mesmo tempo relembrar José Afonso através da memória, das pequenas e gran­des histórias vividas em comum.
Carlos Paredes não aceitou o jogo. Quis falar e falou, quase só sobre José Afonso – “um grande amigo, um homem que marcou a sua geração” – relembrando momentos, acentuando facetas menos conhecidas.
“O José Afonso era um cantor ambulante, um músico ambulante no melhor sentido da palavra. Era um homem que oferecia a sua música aqui e além, onde era possível ter público. O José Afonso chegou a cantar em cima duma árvore, em cima dum camião. O que ele se propunha dar às pessoas não era só a sua arte de cantor. Tinha também por objectivo divulgar ideias, esclarecer as pessoas, levá-Ias a conversar sobre a vida”.
A guitarra portuguesa aparece quase sempre ligada ao fado. Carlos Paredes é um homem cuja tradição entronca na do fado de Coimbra. José Afonso bebeu dessa mesma fonte, como de muitas outras, mas, no dizer de Carlos Paredes, ele realizou-se muito melhor na balada.
“As apreciações que se faziam em Coimbra eram à voz, à ampli­tude da voz, à força da voz. Dizia-se que fulano tinha uma voz extensa, uma voz forte. Ora o José Afonso não era bem um cantor que correspondesse a estas características e precisamente por isso, saiu-se muito melhor nas suas baladas do que no fado. Mas as suas ligações a Coimbra eram bem fortes. Ocasião houve em que achou que havia figuras do fado de Coimbra que lhe mereciam todo o respeito e que, em certa medida, estavam na mesma linha que ele trilhara. Foi o caso de Edmundo de Betten­court do qual dizia sér um cantor progressista e inovador, e do meu pai que ele gostava muito de ouvir tocar. Acabou por gravar um disco de fados de Coimbra que foi uma forma de mergulhar nas origens, homenageando ao mesmo tempo uma tradição fa­dista que o havia inspirado, lírica mas não piegas.
O acompanhamento preferencial de José Afonso era a viola; Carlos Paredes vê nisso uma atitude inovadora, dado que a gui­tarra portuguesa limita o cantor.
“Eu não sou contra a guitarra portuguesa, como é lógico, visto que a toco, mas José Afonso tinha absoluta razão. Eu penso que a guitarra portuguesa molda o cantor. O cantor que canta ao som da guitarra portuguesa, quer queira quer não, acaba por ser in­tegrado num certo estilo. O José Afonso saíu disso. Compreendeu que a guitarra portuguesa o desviaria da busca de uma canção que correspondesse à sua própria personalidade. Suprimiu por­tanto a guitarra e sentiu-se mais liberto acompanhado pela vio­la”. E, aparentemente, mudando de assunto:
“José Afonso foi o marco de toda uma geração de cantores, num tempo em que a canção de protesto, a balada, foram bandeira e estandarte dos que procuravam a ruptura com o nacional-cin­zentismo” .
“Levou atrás de si outros cantores, e pode dizer-se que toda uma geração foi por ele inspirada. Surgiram assim nomes que dignifi­caram a canção em Portugal, a ponto de se ter criado esta divisão: os que correspondiam ao nacional-cançonetismo e os cantores de intervenção.
O nacional-cançonetismo era entendido como uma forma de comodamente se ignorarem os problemas, de se cantarem coisas que não fossem incómodas. A canção de intervenção, essa tinha uma capacidade de análise da realidade portuguesa, uma reali­dade dramática naquela altura”.
Para Carlos Paredes, em José Afonso as rotas da vida e da canção misturaram-se de forma exemplar.
“Nós nunca saberemos se foi através do percurso que escolheu para a canção que José Afonso encontrou o seu caminho da vida, ou se foi por ter escolhido um determinado sentido da vida que optou por um determinado tipo de canção. Parece-me que as duas coisas estão bastante ligadas. O José Afonso procurou a verdade e a verdade, naquela época, obrigava a trilhar esse ca­minho de denúncia com muita coragem, confrontando-se com perigos constantes. Mas ele era um homem de coragem, inteli­gente, interessado no futuro das pessoas, no mundo que o ro­deava e tudo isso traduzia nas suas canções. Algumas delas tor­naram-se autênticos símbolos que todos nós trauteávamos em determinadas ocasiões, porque tinham a ver com a existência de todos nós”.
“Penso – diz, rematando com um gesto a afirmação – que, com os anos, muitas das suas canções virão à memória a propósito de qualquer coisa”. E acrescenta:
“Ele disse-me um dia que gostava das minhas músicas, do meu reportório. Apreciava a alegria daquelas músicas, sentia profun­damente a vivacidade popular das canções.
Nesta conversa com o José Afonso pressenti que ele, já naquela altura, procurava fugir à melancolia do fado de Coimbra, àquele saudosismo a que era avesso, e fugindo da melancolia encontra­va-se com o povo, com o folclore. Talvez tenha sido por isso que a sua música se tornou tão universal.”
E Carlos Paredes dá conta do apreço com que eram ouvidas as canções do Zeca em alguns países por onde andou.
Três dedos mais de conversa. Para o entrevistado já é tempo de dar a José Afonso o lugar devido, como figura nacional, ímpar na história da canção portuguesa.
“Eu participei em algumas festas de homenagem a José Afonso, mas devo-lhe dizer que essas homenagens deviam partir do pró­prio Estado, das próprias entidades oficiais. Independentemente de se ter ou não princípios idênticos aos seus, as pessoas devem reconhecer que José Afonso lutou por qualquer coisa que interes­sava a todos e que, criticando a vida nacional, estava a fornecer matéria para que se formasse uma ideia mais concreta das reali­dades. E isso beneficiou toda a gente, de esquerda como de di­reita. Nem sempre se entende assim, as pessoas estão fanatica­mente agarradas às suas idiossincrasias e não pensam que a ver­dade possa ser útil.”
A conversa flui. Um olhar ainda para “Espelho de Sons”, disco de Carlos Paredes recentemente editado, quebrando um “jejum” de quinze anos. “Espelho de Sons” é uma espécie de apanhado de ligações – diz – de circunstâncias, e sobretudo a presença do rio. “Com o meu conhecimento de Lisboa posso dizer que o Tejo é uma evidência constante na cidade (tal como o Mondego em Coimbra), que fatalmente acaba por influenciar os seus mú­sicos e que me.influenciou a mim.
O “Espelho de Sons” é esta relação da guitarra ou do guitarrista com o seu mundo, o mundo em que vive, com quem convive, os seus problemas, as suas queixas.”
A conversa chegou ao fim. Uma última observação: “A obra de José Afonso é para ouvir no seu conjunto.
Cada canção corresponde a uma faceta, a uma característica diferente da sua maneira de ser. É uma obra virada para o futuro” .
Carlos Júlio in Revista nº2 da AJA, 1988

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Carlos Paredes
23/07/2006By AJA

Cine-tributo a Carlos Paredes de Edgar Pêra

Movimentos Perpétuos – Tributo a Carlos Paredes
“Movimentos Perpétuos – Tributo a Carlos Paredes” é um documentário em 17 movimentos, em que os testemunhos e a guitarra definem o génio, a bravura, e a modéstia deste grandioso músico.Evocando a memória dos velhos filmes de família, plenos de intimidade, estabelece um diálogo entre uma guitarra e uma câmara de Super8, enquanto vai partilhando pequenas histórias da vida de Carlos Paredes.O concerto que o guitarrista deu no Auditório Carlos Alberto, no Porto, em 1984 – onde antecedia cada interpretação com longas explicações sobre o seu método de trabalho – é o ponto de partida para o desenrolar de histórias de prisão, resistência, sucessos e amadorismo, todas elas relatos marcados pela simplicidade e pela paixão.Imagens, sons de arquivo e depoimentos (de Rui Vieira Nery, José Jorge Letria, Paulo Rocha, Malangatana e José Carlos Vasconcelos), contextualizam a importância do músico, não se sobrepondo nunca à própria voz de Paredes. Obviamente que falando-se de Edgar Pêra, tudo isto aparece fragmentado, estilhaçado, multiplicado e reinventado a seu bel-prazer.Como quase sempre faz, o cineasta constrói um “mundo paralelo”, onde o passado e o presente se confundem, como se a portugalidade indefinível que constitui a essência da música de Paredes continuasse presente e não nos tivesse abandonado.Sobre este filme-tributo, confessa-se surpreendido pelas afinidades que encontrou com o músico. “Sinto-me pouco à vontade com ícones como o Carlos Paredes. Não por não gostar do trabalho deles – exactamente por gostar e achar que é uma armadilha prestar homenagens. Mas há ali muitas frases que subscrevo… Ele e os que falam dele levantam questões que afectam qualquer pessoa que tenha um percurso independente em Portugal – que conduz na maior parte das vezes a uma marginalização”, explicou numa entrevista concedida ao ‘Público’. Para além de uma tocante homenagem ao músico, e à pessoa que se escondia por detrás dele, este é também o filme mais bem conseguido e acessível de Edgar Pêra. De resto, o cineasta reconheceu, na mesma entrevista, que a linguagem que habitualmente usa lhe tem tolhido os movimentos. “A realidade é que para fazer ficção em Portugal é complicadíssimo convencer um produtor a investir num filme. As pessoas não me dão dinheiro porque devem ter medo que eu faça uma coisa esquisita. Ora, quando cheguei a 2001 e vi ‘A Janela’, ‘O Homem-Teatro’ [documentário sobre o encenador e actor António Pedro] e ‘Oito, Oito’ a estrear, tudo no mesmo ano, apercebi-me de que podia lidar com matéria ficcional linear com destreza”, diz, acrescentando “mas tenho esbarrado naquela coisa chamada júris…”.Neste momento, está a ultimar “Rio Turvo”, adaptação de um conto de Aquilino Ribeiro, filmado em regime de produção independente, sem subsídio.

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Carlos ParedesCartasGrândola
22/07/2006By AJA

«O Carlos Paredes é um grandalhão»

Em carta dirigida a seus pais, datada de Faro a 23 de Maio de1964, Zeca Afonso refere-se nestes termos à sua passagem pela colectividade grandolense:

Eu e a Zélia estivemos em Grândola numa sociedade operária. Aí actuámos, eu e o Paredes (o filho é ainda melhor que o pai) no meio de uma assistência atenta e compenetrada, toda ela de operários e mulheres de xaile e lenço. Ofereci-lhes uma canção feita na véspera (16-5-64), uma espécie de evocação da terra alentejana e do seu símbolo ainda vivo na lembrança do homem do povo: a Catarina Eufémia, uma ceifeira de Baleizão morta pela Guarda Republicana em circunstâncias, que forneceriam matéria para uma canção de gesta. É claro, que não é isto que interessa manter nestes contactos efémeros com os «mujiks» do nosso tempo. Se alguma vez tiver de deixar esta terra é a lembrança dos homens que conheci em Grândola e noutros lugares semelhantes que me fará voltar. A sociedade grandolense é um casinhoto antigo com meia dúzia de divisões, uma orquestra, um grupo cénico e uma bibloteca. A direcção, toda ela constituída por operários, já promoveu a realização de palestras e concertos em que colaboraram o Alves Redol, o Romeu Correia, o Lopes Graça e o Rogério Paulo. As auroridades não só lhes têm recusado o mínimo apoio com têm entravado outras tantas iniciativas deste género. Em compensação os grupos puramente destinados a actividades recreativas (e são os que existem em maior número) funcionam permanentemente e com carta branca para realizar bailes e biscas lambidas. O Carlos Paredes é um grandalhão com aspecto simplório, mas o que esse bicho faz da guitarra é inacreditável! Nas mãos dele, este instrumento assume uma altura comparável à dos instru­mentos para música de concerto. Nada de trinadinhos à maneira do Armandinho. O exemplo do pai, o Artur Paredes, foi continuado pelo filho mas de uma forma diferente: só ouvido! O fulano consegue abranger duas séries de escalas exactamente como fazem os tocadores do flamengo e os grandes concertistas de guitarra espanhola.
Cartaz anunciando o espectáculo de Zeca Afonso e Carlos Paredes na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense. Quem acompanhou o Paredes foi o Fernando Alvim e não o Júlio Abreu, ciclista da época, que só Deus sabe como aparece ali!

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João Afonso dos SantosTestemunhos
22/07/2006By AJA

As vozes que nos faltam – João Afonso dos Santos

A tendência é para esquecermos as pessoas, na sua vera efígie, depois que desaparecem. Às tantas, estamos a moldá-las segundo a perspectiva dominante, ou, na melhor das hipóteses, pela nossa, supondo que a temos discordante da primeira. O que de algum modo não deixa de ser natural, enquanto essa incorporação nos valores cor­rentes (de circulação fiduciária, passe o termo) ou na nossa subjecti­vidade induzida não é o resultado dum acto deliberado do poder ou poderes constituídos ou a emanência deles. Aí, sim, nada se configura como natural na aparente naturalidade com que se nivelam os mortos pela rasa bitola dos vivos.
Por isso, fomos hoje buscar a voz parcelar do Zeca a uma das suas menos distantes entrevistas, porventura das mais fiéis, atributo de que poucas vezes beneficiou. E a um cenário não muito diferente do actual, nem diferentes os actores da cena pública, o mesmo se dizendo dos problemas capitais. Isto é, a um tempo próximo, não tanto no sentido cronológico do termo, antes na sua significação valorativa e sociológica. Com este expressivo acréscimo, o de que, en­tretanto, se agravaram os pressupostos de desumanização, de cin­zentismo cultural, de omnipresente oficiosidade administrativa, de aceitação conformista; e também daquilo a que se poderá chamar, com alguma ironia, a ética da desigualdade. Consiste ela em se colo­car na gamela da nossa frustração quotidiana os famosos indicado­res macro-económicos, enquanto os novos privilegiados se banque­teiam magnlfica e impudicamente, e erigir tudo isso em respeitável regra de vida e meta nacional, ao mesmo tempo. Que este tipo de “desenvolvimento” é o adequado, inevitável e até excelente afir­mam-nos, abonados em modelos que nos apontam, os demiurgos desta outra harmonia universal sobre a qual recai a suspeita de ser tão falaz, caduca e falsa como a profetizada no século passado.
Hoje, que certos círculos bem pensantes têm por moda celebrar, com grande clamor e alguma má consciência, a suposta morte das ideologias; e se generaliza a apetência pela dissolução da identidade colectiva em troca duns dinheiros por que tudo se afere – onde se mostra que há Judas bem mais rapaces do que os dos Santos Evan­gelhos; hoje, que todos querem ser, e não mais do que isso, sacer­dotes ordenados desse culto das novas tecnologias; que se maca­queiam provincianamente os figurinos importados, com grande sobra de fazenda; – bom é que se oiçam e façam ouvir vozes criticas, re­beldes e solidárias como a do Zeca.

Artigo publicado na revista nº 3 da AJA em 1989

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Testemunhos
22/07/2006By AJA

A Minha História de José Afonso

Havia um poema e um enigma disfarçado de canção, nessa voz atormentada e vagamente trémula que me dizia: “A toda a parte chegam os vampiros… “. Eu escutava­-o, baixinho e às escondidas, algo ensimesmado pelo acto do meu próprio entendimento,
esforçando-me por decorá-lo mas não o compreendia. Pala­vra!, não o entendia porque não aprendera ainda o segre­do das suas palavras, nem isso a que hoje chamam o sentido figurado ou conotativo da linguagem que então se escondia por trás da sua música. Como compreender que o disco tivesse sido proi­bido (e creio preso ou dester­rado o seu cantor, como na altura se dizia), só por dizer que eles os vampiros, pousa­vam nas tulhas, traziam no ventre despojos antigos e nada os prendia às vidas acabadas? Ou seria simples­mente por aquilo de eles comerem tudo, tudo, tudo…e não deixarem nada?
Assim começa a minha história pessoal acerca do Zeca. Não é verdade que todos temos uma história pessoal acerca de um homem paradigmático e superior como o Zeca? Podem ser
histórias de amor ou de ódio, ou mesmo constataçães da mais plana e turva indiferença, mas nunca de um desconheci­mento diferente e distinto da pura e frívola ignorância. Por mim, que comecei por amá-lo antes mesmo de o entender, a história de José Afonso situa-se entre dois extremos opostos, os quais se tocam,
de um lado, a minha inocência política, e do outro, a noção do tempo, da idade e da cul­tura. No extremo da inocên­cia, começa a memória de “Os Vampiros” e da sua proibição; no outro, colhe-me a surpresa de ter sabido ler o oculto, a alegoria dessa “Grândola, Vila Morena “, que afinal era a pro­fecia de um país, a sua espe­rança ou mesmo a sua identi­ficação. Não tinha idade para decifrar a mensagem, vinda na denúncia encoberta do tal poema que dizia: “Enchem as tulhas, bebem vinho novo/ Dançam a ronda no pinhal do rei”. Muitos anos mais tarde, soube desde o primeiro mo­mento que Grândola, na voz e na ideia do Zeca, não era apenas uma vila morena, muito plana, situada ao sul da cidade com um rio – mas a própria cidade branca e altiva da alma e da honra que muitos de nós conhecíamos…
Houve um tempo em que tínhamos apenas os nosso cantores. Hoje, temos a eter­nidade deles, que é feita à nossa medida. José Afonso continua fora do tempo e das geraçães porque nunca foi credo nem um mito, menos ainda uma lenda não compor­tada pelos sentidos da músi­ca. Ergueu em torno de si, sem nunca ter tido esse propósito, uma escola para a educação e para o sentimento do mundo. Da sua vida, é injusto dizer que pas­sou. Seria aliás ofensivo recor­dá-la apenas como um caso de fé. A única coisa que dela sei é que pode hoje estar aqui e amanhã ter-se ido ao vento, porquanto nunca teve um destino. Por andar ao vento lhe chamaram andarilho. Por ainda agora ela, a sua música, se fazer ouvir, trovador.

João de MeIo Lisboa, 1 de Junho de 1992

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João Afonso dos Santos
21/07/2006By AJA

Senhora do Almortão – João Afonso dos Santos (irmão de José Afonso)



Artigo publicado na extinta revista da AJA (nº3), em 1989
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Octávio SérgioPartituras e tablaturas
21/07/2006By AJA

Senhora do Almortão



Pautas gentilmente cedidas pelo guitarrista Octávio Sérgio.

Transcrição musical: Octávio Sérgio (2006)
Arranjo para Guitarra de Coimbra: Octávio Sérgio (1981)

Senhora do Almo(r)tão,
Ó minha rosa encarnada,
Ao cimo do Alentejo
Chega a vossa nomeada.

Senhora do Almo(r)tão
Ó minha linda raiana,
Virai costas a Castela,
Não queirais ser castelhana!
Não queirais ser castelhana (Ai)

Nossa Senhora da Póvoa, (bis)
Minha boquinha de riso,
Minha maçã camoesa (bis)
Criada no paraíso. (bis)

Senhora do Almo(r)tão,
A vossa capela cheira:
Cheira a cravos, cheira a rosas,
Cheira à flor da laranjeira.

Cheira à flor da laranjeira (Ai)
Nossa Senhora da Póvoa, (bis)
Minha boquinha de riso,
Minha maçã camoesa (bis)
Criada no paraíso. (bis)

Esquema do Acompanhamento:

1ª quadra: Mi menor // Dó maior, Mi menor // 2ª Mi, Mi menor // Dó maior, 2ª Mi;
2ªs quadras: Mi menor // 2ª Mi, Mi menor // Mi menor // 2ª Mi, Mi menor;Refrão: 2ª Sol, Sol maior; Si maior;SI maior, 2ª Si; 2ª Si, Si maior // 2ª Si, Si maior // Si menor, 2ª Si; 2ª Si, Si maior // 2ª Si, Si maior; 2ª Si, Si maior;

Para mais informações sobre esta música de José Afonso, consultem “No verso dos versos” no site da AJA

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Homenagens e tributos (2006)
19/07/2006By AJA

Vila Real de Santo António recebe os amigos de José Afonso

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No verso dos versos
18/07/2006By AJA

Menino d’oiro – Luísa Medeiros e Carlos Brito Mendes



Artigo publicado na extinta revista da AJA (nº2), em 1988.
Clique nas imagens para ampliar.

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CartasManuscritosNatália Correia
18/07/2006By AJA

Para Natália Correia


Azeitão,/12/86

Cara Natália
Não consigo ver televisão, mas a sua presença.
Vi por momentos um programa na TV em que você
intervinha, sobre o tema “Amor e paixão”.
Gostei de ouvir a sua afirmação de que é necessário
recuperar a cultura dos incultos.
Preciso da sua presença nem que seja por momentos na TV.

Um abraço amigo do
José Afonso

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Natália CorreiaTestemunhos
17/07/2006By AJA

Zeca: Encantava cantando – Natália Correia

Encontrámo-nos no mar alto. Ambos vindos de África. Eu, de An­gola onde, com o pretexto que me calhava ao gosto, de fluir feitiços africanos escapados à ganância evangelizadora dos missionários, ia em missão de tratos conspiratórios que a Pide farejava no cerco das andanças. O Zeca, de Moçambique, onde a sua voz de gorgolejos de água fora com a Tuna Académica, humedecedor com toadas saudo­sas de Coimbra cora­ções endurecidos pela faina de enriquecer a ex­pensas do indígena. O encontro foi de im­pacto mágico. Noctíva­go, por conseguinte. Enlevos, sonhos e indig­nação contra a mordaça com bota de elástico, exaltações vividas noite fora por um pequeno grupo que só recolhia ao camarote quando o raiar da manhã aureoleava o ritual da baldeação que nos expulsava do convés.
Recordo-o ali entre um apaixonado estar presente e um despren­dimento de não estar. Era belo. Mas o pudor de o ser ornava-lhe a cabeça de grego deslei­xado. Parecia que se envergonhava da beleza do seu rosto talhado pela medida ouro. A alma, essa porém expu­nha-se quando nos fazia ouvir o correr do seu sangue para a Poesia.
A sua demanda de cavaleiro da Causa que os fantoches do viver por viver, dizem ser coisa perdida.
Em Lisboa chega­ram-me os seus versos com uma pergunta. Ele queria saber se em minha opinião aquilo era publicável. Perplexa in­terroguei-me: mas então aquele génio da poesia cantabile não sabia que os fados o tinham predestinado para despertar a adormecida origem do nosso lirismo na recomposição das núpcias do canto e do poema?! Foi o que lhe respondi por outras palavras: Publicáveis? Não. Melhor do que isso. Cantáveis.
E de que maneira o foram, fei­tos sustento do anseio revolucio­nário que, se não for impulso da poética da libertação acaba sem­pre no bolso dos abutres dos Termidores.
Recordo-o ainda nas ferventes noites alentejanas em que envol­vidos no coral enluarado dos homens da planicie, emparelhá­vamos em estampidos de revolta cantada e recitada, o Zeca, o Adriano e poetas do claro grito da indignação, entre os quais eu, como fêmea guerrilheira da palavra libertária fruía o piropo alentejano de ai filha de um real cabrão! que a urbani­dade ensossa toma por ofensa E nessa maré de vozes concertadas no esconjuro dos vampiros boiava a voz andrógina do Zeca, como uma es­treia de cantos acesa pelo que sufocadamente remanesce no coração do povo das antigas idades em que todos eram irmãos no reino da Mãe Natureza.
Alinhei imagens que a minha memória selec­tiva elege das muitas que guarda de um con­vívio persistentemente afectivo apesar de entre­cortado pela sua errân­cia residencial desde Coimbra até fixar-se em Setúbal.
Foi-me tremendo sa­ber que as Parcas lhe teciam o fim. Ciosos dos que amam, os deuses en­comendaram-lhes o te­cer fatal. Porque o Zeca era jovem. Não o era nos anos? Sei lá com que idade morreu. A úni­ca juventude que me des­lumbra é a que tem o dom de encantar. E ele encantava cantando.
Porque cantar e encan­tar são uma só coisa na arte de fazer ascender os corações em que o canto sortilegamente se derrama, àquele ponto espiritual do sentimento de todos serem Um.

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Atahualpa YupanquiHomenagens e tributos (poesia)
17/07/2006By AJA

Como no Amar la Tierra, Compañero?

Março aconteceu chuvoso em 1985. Vestia­-se de cinzento à cidade quando a atravessei, emocionado, rumo ao hotel. E o caso não era para menos: tinha chegado Atahualpa Yupanqui!
Era chegado um tempo de pampa e de milongas na voz e na guitarra de um dos maiores trovadores de todos os tempos, um verdadeiro símbolo do canto e da luta dos povos latino­-americanos. Daí a emoção do encontro…
Atahualpa falava com supreendente vivacidade e entusiasmo própria de um veterano «payador» sobre memórias dispersas de vivências, chamando para a conversa amigos e companheiros como a chilena Violeta Parra, o cubano Carlos Puebla, o uruguaio Daniel Viglietti e o brasileiro Chico Buarque, entre outros, todos eles cidadãos de uma só pátria – a da libertação do homem!
A dada altura, Atahualpa estendeu-me uma folha de papel pautado, dizendo: «Escrevi este poema para o José Afonso e gostava de lho poder entregar pessoalmente mas tal não me vai ser possível. Agradeço-te que lho envies…»
Enviei. Esclarecendo o Zeca de que se tratava do original (conforme repetida insistência do próprio Atahualpa Yupanqui) e de que iria procurar, por todos os meios, divulgá-lo o mais amplamente possível como tinha sido expressamente desejado pelo seu autor.
Os tempos passaram. Das andanças do Zeca sempre fomos sabendo. E de Atahualpa Yupanqui uma ou outra notícia dispersa. E ontem a da inevitável partida física do trovador Yupanqui. Num momento de partida antecipo uma chegada imaginada: nesta altura, para onde quer que tenham ido, o Zeca e o Atahualpa. Já se encontraram. Com o velho índio a dizer: «Te abrazo, hermano, y ai combate vamos. Somos hechos de lúz y polvareda.»

Mário Correia



Ya no estoy en tu piedra, hermano José Afonso
Como un viento de mim pampa
llegué lleno de cantos enamorados y salvages.
Aqui quedan algunos, cerca de tus olivos.
Junto a los rios, trepando calles
y caminos duros. Duros como los hombres y las cosas.
Como no amar la tierra, compañero?
si en el aroma fuerte de la hierba
te saluda en la tarde la paloma escondida.
La mano del amigo es tu estandarte.
Tan hondo como el mar es el amor del pueblo.
Donde quiera que vayas, la poesia amanece
como uma novia inacabable y tierna.
A mi América vuelvo, José Afonso.
Te abrazo, hermano, y al combate vamos.
Somo hechos de lúz y polvareda.

Atahualpa Yupanqui
9 de Marzo 1985

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João Afonso dos SantosTestemunhos
16/07/2006By AJA

A solidariedade em José Afonso

Era por excelência solidário, o Zeca. Foi-o, a bem dizer, até ao derradeiro limite, desprendido de si e do que é de uso chamar-se, numa perspectiva de fora, os interesses pessoais… que não eram naturalmente os seus interesses pessoais. De o ser, pelos caminhos da vida e ao longo dela, de temperar a prática de o ser no crisol dessa inexaurível convivência com as situa­ções, as pessoas comuns e seus agrupamentos, a soli­dariedade que dele se desprendia era uma soalheira sala-abrigo, toda caiada de branco, um gesto natural, uma espécie de atributo da personalidade. Nunca toda­via contraditoriamente inconsciente e fácil, menos ainda piedosa. O fraternal impulso para com os outros, especialmente os “esquecidos” do poder (com os quais se identificava), melhor dizendo, de todos os poderes, institucionalizados ou não, convertia-o ele na exigência dum sentido de mudança (não esta festiva e formal mudança em que vivemos), no alertar pedagógico das consciências para a potencialidade da acção colectiva. Tendo por horizonte a edificação da cidade utópica, de que nos fala a canção, “sem muros nem ameias, gente igual por dentro, gente igual por fora”? Esse desígnio ideal, profundamente ancorado no seu substracto ético e político, não o impediu de se bater pelas causas con­cretas, radicadas nos interesses e nas organizações populares, profissionais ou outras, de as estimular ou apoiar à sua maneira. Por muito imediatos e circunstan­ciais que fossem, segundo o princípio mesmo da solida­riedade assumida. Zeca media bem a distância que vai da sociedade real, desumana e injusta, para o sonho dela que sempre sonhou. E, para além das metas reali­záveis sabe-se lá quando, que serão as utopias senão a denúncia, por alto contraste, da cidade actual?
Essa atitude solidária era claramente adversa a todo o dogmatismo intransigente, ou talvez este segundo comportamento seja a condição essencial do primeiro. Aos juízos categóricos, às verdades reveladas, trans­cendentes ou imanentes, às infalibilidades dos papas laicos Que enxameiam o nosso pequeno universo – tudo isso que desde sempre traçou as fronteiras da intole­rância – opunha ele o permanente interrogar-se das questões, a dúvida crítica e o esforço da sua supera­ção, a relatividade das soluções, em suma, a abertura de espírito. Questionando os outros e a si mesmo, lan­çava pontes de diálogo, abria clareiras de convívio, atava os laços da aproximação, sem ceder todavia nas suas posições de fundo e na sua “praxis” actuante.
Esta postura transmudou-a o Zeca para o plano musical. Cantou. Mas o canto solidário foi mais do que mera consequência da atitude solidária do seu autor. Dele fez deliberadamente – como sabemos – um instru­mento de acusação e de protesto colectivos, uma senha de reconhecimento comum, uma mensagem de luta e de porvir. Nos signos explrcitos da linguagem do tempo reconhecemos os nossos verdugos e o seu fim anunciado. Uma vezes em metáforas carregadas de significação facilmente perceptível (“Coro dos Caídos”, “Os Vampiros”, “O Avô Cavernoso”, etc.); outras, ser­vindo-se de casos singulares como paradigmas da opressão a vários níveis (“Vai Maria Vai”, “Cantar Alen­tejano”, “Teresa Torga”, etc.); sobre o pano de fundo dum lirismo que mergulhou as raízes na verdade da terra e da gente, e tinto também, aqui e ali, das tintas do surrealismo.
Foram perto de trinta anos da Mcanção de interven­ção”. Se quisermos fixar um momento, poderemos dá-Ia por começada em 1959, com a edição do “Menino do Bairro Negro” e prolongada por todo o tempo que a ditadura levou enfim a cair. Zeca não se deu, no entan­to, por quite com o derrube do fascismo. Celebrou, em novas formas semânticas e musicais, o prometimento do novo dia, exprimiu, de modo mais conjuntural e directo, as vicissitudes dessa época histórica, e, visto que o acto solidário se não nega em fronteiras, cantou o amanhecer esperado doutros povos, não tão seguro como isso. Escarmentou, por fim, o adiamento da socie­dade prometida pela revolução de 74, os seus alibis, as suas entorses, os seus glutões insaciáveis, herdeiros
. directos dos vampiros de recentes eras. Esteve onde o reclamaram, enquanto pôde, ele mais os seus colegas de ofício, até ao osso da resistência. Pelas associações recreativas e culturais, nos colectivos dos trabalhado­res, nas escolas e academias, entre os intelectuais e os emigrantes, nos campos e nas cidades, em Angola e Moçambique, ele e a sua voz foram companheiros fiéis das nossas dúvidas e revoltas, dos nossos anseios e esperanças.
Em 1985, ano da última gravação, Zeca cantou, na sua “Alegria da Criação”, o que podemos interpretar como sendo uma espécie de balanço antecipado,

“De nada me arrependo
Só a vida
Me ensinou a cantar
Esta cantiga”

João Afonso dos Santos

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Alípio de Freitas
13/07/2006By AJA

“Testemunho de Uma Vida” por Alípio de Freitas

Tertúlia realizada quarta feira, dia 12 de Julho, na Unicepe – Porto, após o jantar de amizade em honra do Alípio de Freitas.

Olhar que engana o tempo;
Palavras que cantam a alegria de ter sofrido;
Na prisão de tira-dentes não lhe roubaram a alma





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DiscografiaTestemunhosVídeo
02/07/2006By AJA

Um Bom Pastor (video – 2001)

Um documentário de Jorge Pereirinha Pires e José Francisco Pinheiro

Documentário sobre as gravações do último disco de José Afonso, «Galinhas do Mato», a convite de Nuno Rodrigues – antigo compositor da Banda do Casaco, e actual editor da MVM, a etiqueta discográfica responsável pela reedição de «Galinhas do Mato» em CD, onde este trabalho foi incluído como extra.

Podem vê-lo em http://bravadanca.blogspot.com/2006/06/um-bom-pastor-video-2001.html

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AJA Norte
30/06/2006By AJA

Depois de um dia trabalho, vieram mais de cinco…

Dirigido ao pessoal da PT-Porto e com o objectivo de lembrar José Afonso, a AJA -NORTE realizou nas instalações do pessoal da PT em Tenente Valadim um convívio com o tema “VENHAM MAIS CINCO”.
Depois de um dia normal de trabalho, os presentes poderam ouvir e cantar temas interpretados pelo Grupo Musical AJA FORÇA. A participação do referido grupo musical estava prevista para trinta minutos, mas prolongou-se por cerca de uma hora.





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AJA Norte
26/06/2006By AJA

Mais uma iniciativa da AJA Norte

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GalizaUnha rúa para Zeca Afonso
23/06/2006By AJA

UNHA RÚA PARA ZECA AFONSO

2.922 SINATURAS

Logo dunha minuciosa revisión e peinado das sinaturas, o total, salvo erro, é este: 2.922

E agora quedan os outros pasos,dos que vos iremos informando puntualmente e aqueles, en Portugal ou España, vaian tomando iniciativas similares saben que non teñen máis que dicilo e nos faremos eco delo por tódolos medios ó noso alcance.

Pensábamos concluí-lo envío de comentarios, pero hai un, particularmente singular que se resiste a quedar no listado. Aí vai:

Nome: Francisco Fernandes
Concello: Braga(Minho)/Portugal
Profesión: Contabilista

Comentarios:

Mais uma formiguinha para que o carreiro se torne uma rua.

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Unha rúa para Zeca Afonso
16/06/2006By AJA

UNHA RÚA PARA ZECA AFONSO – 3.021 SINATURAS

Foron, nada máis e nada menos que 3.021 as adhesións que chegaron nestas catro semanas ata nós a través de internet. Xentes de todo lugar e condición que transmitiron o seu apoio inequívoco a JOSÉ AFONSO e todo o que el signicou e segue a significar.
Agora queda un primeiro traballo de “peinado” (para eliminar duplicidades, que as hai) e a continuación queremos facer varias cousas:
– Por unha banda, e como primeiro paso, levarlle o “dossier” ó Alcalde de Santiago, Xosé Sánchez Bugallo e facer patente e oficial a petición. Podemos adiantar que xa tivemos algún contacto informal con el e manifestou unha disposición óptima para a nosa petición. Tamén podemos indicar que entre os asinantes está o ex-alcalde, Xerardo Estévez.
– En segundo lugar lanzar a idea desde xa, contemplada en moitos comentarios, de que se tomen iniciativas similares en toda Galicia e fóra dela (Asturias, Extremadura, etc.) demostrando en vivo e en directo o carácter internacional e internacionalista – “por encima de tódalas fronteiras, por encima de muros e balados…” que dicía Celso Emilio – que a figura do Zeca representa.
– Ademais, e dado o enorme peso e contundencia das adhesións procedentes de Portugal, facer chegar ó Governo Portugués e ós Presidentes das Cámaras máis importantes do país e con máis relación con José Afonso este mesmo dossier.
– Ao mesmo tempo animamos ós irmáns portugueses que tomen iniciativas similares alí, seguro que máis de unha prosperará.
Incluímos, para rematar este ponto e seguido, que non final, estes comentarios:
Nome: Teresa Potugal
Concello: Coimbra Portugal
Profesión: DeputadaC
Comentarios:
Fomos grandes amigos. Estou emocionada.O meu marido, António Portugal acompanhou-o á guitarra.Parabéns á Galiza.
Nome: Lena Afonso
Concello: Leiria
Profesión: Educadora
Comentarios:
“Cidade, sem muros nem ameias…”Zeca, cidadão português, galego, do mundo, que cantou a “Grândola” em público pela primeira vez em Santiago, estará nalgum lado, algures na nossa imaginação, a alegrar-se muitíssimo com esta homenagem (e a dizer:”Ó pá, se possível ao pé da catedral!!!”).Um grande abraço, cheio de carinho aos seus companheiros, especialmente, claro, Benedicto e Arturo.
Nome: Vitor Parola
Concello: Coimbra
Profesión: Administ.Saúde
Comentarios:
O Zeca ficará para sempre na memória de várias gerações, até pq a algumas delas fez chegar como boa nova ” o sentimento das palavras Liberdade, Igualdade, Fraternidade e Justiça” que ele tanto defendia . A Galiza já está de parabéns, se não for por mais, pq teve a iniciativa e mostra que comunga estes ideais. Agora a responsabiliade fica nas mãos de quem decide. Os actos e as acções ficam nas mãos de quem os pratica. Um abraço Fraterno.

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Viriato Teles
10/06/2006By AJA

Contas à vida – Viriato Teles

Uma reflexão a vinte vozes sobre os 30 anos do PREC

Entrevistas com Alberto Pimenta, Alice Vieira, António Pinho Vargas, Baptista-Bastos, Edmundo Pedro, Fausto Bordalo Dias, Fernando Relvas, Francisco Louçã, Isabel do Carmo, João Soares, José Mário Branco, José Medeiros, Luís Filipe Costa, Manuel Freire, Maria Teresa Horta, Mário Alberto, Padre Mário de Oliveira, Odete Santos, Otelo Saraiva de Carvalho e Vasco Gonçalves.

Edição SeteCaminhos, 2005

http://viriatoteles.com.sapo.pt/

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AJA NorteFilmografia
03/06/2006By AJA

“Continuar a viver (Os índios da Meia-praia)” no Porto


Cinemascópio – Ciclos de cinema temático

No Círculo Católico dos Operários do Porto Rua Duque de Loulé 202

A COSTA DOS MURMÚRIOS• Margarida Cardoso 02 Jun 06 • sexta • 21h45

CONTINUAR A VIVER (OS ÍNDIOS DA MEIA PRAIA)• António da Cunha Telles 09 Jun 06 • sexta• 21h45

CINCO DIAS, CINCO NOITES• José Fonseca e Costa 16 Jun 06 • sexta • 21h45

TORRE BELA• Thomas Harlan 30 Jun • sexta • 21h45

Iniciativa em cooperação com a Associação José Afonso

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Elfried Engelmayer
30/05/2006By AJA

Há “comments” que são demasiado importantes para ficarem escondidos

A Elfriede Engelmayer é de fato uma importante referência para o olhar acadêmico desta rica produção poética do cancioneiro de Zeca Afonso. Em minha tese, escrevi a seguinte crítica:”Enquanto no Brasil esta produção musical é elevada a uma das mais representativas fontes de análise histórica, sociológica, literária e antropológica, em Portugal, a chamada canção popular portuguesa, não tem sido objeto privilegiado de análise por estas diferentes áreas do conhecimento. As letras das canções brasileiras foram equiparadas à poesia, analisadas, publicadas e exploradas pelo mercado editorial e não apenas pela indústria fonográfica. Em Portugal, as letras das canções não aparecem citadas em livros didáticos e em outros de cunho acadêmico, indicando mesmo um desprezo (ou desconhecimento) pela rica produção poética daí advinda. Os compositores José Afonso e Sérgio Godinho, por exemplo, tiveram suas letras reunidas e publicadas entre as décadas de 1970 e 1980, porém, de forma muito incipiente. Um sinal claro da ausência de pesquisas acadêmicas sobre a canção portuguesa está no fato de haver até o momento uma única dissertação sobre o tema da canção de intervenção em Portugal, no caso, a obra Canto de Intervenção (1960-1974), de Eduardo Raposo, publicada no ano de 2000. Houve ainda dois outros trabalhos acadêmicos, mas desta vez unicamente sobre José Afonso, realizados em Viena de Áustria (Utopie und Vergangenheit: Das Liedwerk des portugiesischen Sangers José Afonso. Elfriede Engelmeyer. Editora da Universidade de Viena, 1985, 267 páginas. Esta é a primeira tese sobre os textos de José Afonso, apresentada em 1983 na Universidade de Viena/ Áustria) e na Itália (La “Canção de Intervenção” e L’Opera Lirico-Musicale di José Afonso. Tesi di Laurea in Lingua e Letteratura Portoghese. Relatore: Chiar.mo Prof. Roberto Vechi. Presentata da: Nicolleta Nanni. Anno Accademico 1998/ 9) encontrados na Associação José Afonso (AJA).”

Alexandre Fiuza (Brasil)

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Associação José Afonso
24/05/2006By AJA

2007 | ano José Afonso

2007 será o ano Zeca Afonso. Além de serem assinalados os 20 anos da sua morte, a Associação José Afonso (AJA) comemora 20 anos… de vida. A convite da Câmara Municipal de Setúbal (que cedeu as actuais instalações da sede desta associação), a AJA tem em execução um conjunto de diversas actividades em torno da vida e obra de um dos maiores vultos de sempre da MPP. Para além da grande exposição que será inaugurada por alturas do 25 de Abril, haverá também um colóquio centrado no ciclo “As Geografias do Zeca” e uma unidade didáctica que promoverá em todas as escolas do Distrito de Setúbal a aprendizagem da obra do cantautor. De acordo com Rui Mota da AJA, com esta iniciativa “procura-se que os alunos, através de aprendizagem, consigam identificar e aprender a obra do Zeca e o português através da suas canções”.
O Ponto mais alto das festividades, deverá ocorrer no final de Maio, princípio de Junho, altura em que terá lugar a realização de um mini-festival que “não terá as características do desaparecido Cantigas do Maio”, mas que se espera que seja o primeiro de muitos.

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Homenagens e tributos (música)
24/05/2006By AJA

“Maio, Maduro Maio” evoca Zeca Afonso dia 27 no D. Maria II

“Maio, Maduro Maio” é o título do recital evocativo da obra poética de José Afonso a realizar dia 27 no Teatro Nacional D.Maria II, em Lisboa, com Luís Machado, Filipa Pais e o Coro Polifónico de Almada.
“Maio, Maduro Maio”, “Vejam Bem”, “Traz outro amigo também”, “Cantigas de Maio”, “As palavras”, “Utopia”, “Menino do bairro negro”, “Os vampiros”, “Canção de embalar”, “Milho verde”, “Venham mais cinco”, “Grândola, vila morena” e “A morte saiu à rua” são alguns dos poemas que irão ser ditos no recital, que conta com a participação dos músicos Nelson Martins, ao acordeão, e de Paulo Borges, ao piano.
“Há uma luz pura cimeira”, “por um momento mefui habituando”, “Isto é sono”, “Canto moço”, “Maravilha, maravilha”, “Nefertiti não tinha papeira”, “Mulher”, “Vai-te circunspecta” e “Sabia antigamente de palavras” são os restantes poemas, alguns dos quais nunca gravados, a apresentar no recital.
A iniciativa “Maio, maduro Maio” é da responsabilidade de Luís Machado, diplomado em teatro pelo Conservatório Nacional e que tem CD gravados de poesia.
Em declarações à agência Lusa, Luís Machado disse que a iniciativa visa divulgar ” o homem vertical que ajudou a tornar possível o sonho de Abril” e está enquadrado num projecto mais global destinado a divulgar a poesia portuguesa.
José Afonso nasceu a 02 de Agosto de 1929, em Aveiro, e morreu a 23 de Fevereiro de 1987 em Setúbal.
Agência LUSA

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Associação José AfonsoImprensa
24/05/2006By AJA

Câmara de Setúbal ajuda Associação José Afonso

A Câmara Municipal de Setúbal vai atribuir um apoio financeiro de cinco mil euros à Associação José Afonso (AJA), como ajuda para o processo de instalação desta colectividade, actualmente com sede provisória na Avenida S. Francisco Xavier, revela fonte da autarquia.
O apoio vem no seguimento de um protocolo estabelecido, no ano passado, entre as duas instituições, em que a autarquia se comprometia a ajudar financeiramente no pagamento das rendas das instalações provisórias da associação.
As obras de remodelação e adaptação do espaço definitivo da AJA, na Rua de Damão, não ficaram concluídas dentro do período inicialmente previsto, pelo que a Câmara Municipal decidiu atribuir cinco mil euros para o pagamento das rendas referentes ao ano de 2006, entre os meses de Janeiro e Maio.
Os trabalhos na futura sede da Associação José Afonso devem ficar terminados brevemente, pelo que a AJA continuará, até essa altura, nas actuais instalações provisórias.

http://www.reporter.online.pt/

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Andrés Stagnaro
21/05/2006By AJA

Andrés com o seu “Pañuelo alentejano” interpretando Grândola, vila morena



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Andrés Stagnaro
20/05/2006By AJA

O concerto do Andrés em Montevideo











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Elfried EngelmayerPoesia
19/05/2006By AJA

Texto de Evocação de José Afonso por Elfriede Engelmayer

Núcleo do Norte da Associação José Afonso (AJA) na Câmara Municipal de Matosinhos

As canções de José Afonso foram a porta pela qual entrei em Portugal para ficar. Num verão longínquo, durante o qual frequentei um curso de língua portuguesa em Lisboa, a nossa professora fez-nos ouvir o Zeca. Regressada à Áustria, minha terra natal, e apesar de ainda não conhecer a totalidade da sua produção, decidi escrever a minha tese sobre a sua lírica. Mais tarde, ao longo de um ano em que vivi em Lisboa para iniciar o trabalho de pesquisa, conheci pessoalmente José Afonso – que se tornou meu mestre, não só em relação à sua obra, mas também a este país que ele amava e que ao mesmo tempo o desesperava.

Nesse tempo, o Zeca já era um cantautor consagrado, e no entanto, o meu projecto de tese causou-lhe algum espanto, porque em Portugal ninguém se tinha lembrado de fazer algo de parecido. E mesmo hoje em dia, passados quase vinte anos sobre a sua morte, neste país os seus textos não constam de nenhuma antologia lírica, nem encontramos o seu nome referido nas histórias da literatura portuguesa. Será que a música ensombrou os seus textos?

Não há dúvida de que as numerosas adaptações, variações e reinterpretações e o uso de uma canção de José Afonso em circunstâncias festivas ou reivindicativas provam a sua canonização. Mas por outro lado continuam ignorados os seus textos, musicados ou não, uma obra lírica de mais de 300 páginas, com uma evolução ao longo das décadas, marcada por influências literárias, circunstâncias sociais e desenvolvimento pessoal. Poderia descrever essa evolução como um arco que se inicia com textos inspirados em tradições populares, nos fados e baladas de Coimbra, na lírica de Camões e Pessoa, entre outros, passando por influências surrealistas e fases de grande hermetismo como resposta à censura da época, passando também, logo depois do 25 de Abril, por uma “abertura” discursiva (e nesse aspecto, José Afonso foi um dos poucos no campo da literatura cuja produção reflectiu também formalmente a revolução de 1974). Mas foi também o desencanto que moldou a sua poesia, e naqueles anos entre 1978 e a morte, os seus textos documentam a história deste país e sobretudo a sua história pessoal.

A crítica literária portuguesa tem manifestos problemas em reconhecer um valor autónomo à lírica do Zeca. Se, no universo das canções de intervenção em geral, existem letras que, sem música, perdem a sua força, não é este o caso dos textos de José Afonso. É verdade que a música transforma e intensifica o texto (e poderia aqui lembrar, numa outra escala, as versões musicais que Franz Schubert fez a partir dos poemas de Goethe); mas parece-me óbvio que a autonomia do texto depende simplesmente da sua qualidade e não da circunstância de ser ou não musicado.

Para explicar o fenómeno do desconhecimento de que é vítima ainda hoje em dia o poeta José Afonso, gostaria de desenvolver um pouco mais uma tese que já defendi em outras ocasiões. É o rótulo de “político” que veda a entrada da poesia de José Afonso no campo da literatura reconhecida. Gostaria de deixar bem claro que, em minha opinião, “político” não é apenas um rótulo, mas uma realidade; só que não pode pôr em causa outra realidade, a “estética”. Esse veredicto, aliás, tem uma longa tradição e peca por cegueira e erros de lógica. É mais um gesto de “vade retro” do que um julgamento baseado em critérios científicos.

Senão, vejamos: no caso da lírica de José Afonso, a qualidade de “político” nem sequer é sempre intrínseca ao texto, mas muitas vezes é devida às circunstâncias em que o texto surgiu e em que depois chegou ao público (ouvinte). São disso exemplo “Grândola, vila morena”, mas também os cerca de vinte poemas que nasceram na prisão de Caxias e de que há pouco tempo só conhecíamos como canções criadas pelo próprio Zeca “Era um redondo vocábulo” (do disco Venham mais cinco, de 1973) e “De sal de linguagem feita” (de Fura fura, editado em 1978). Surgiu agora um inédito, que João Afonso interpreta no seu mais recente álbum Outra vida (2006). Trata-se do texto “Ao Zé Letria que também sofre de azia”, escrito em Caxias a 11 de Maio de 1973, e intitulado agora “Bombons de todos os dias”.

O hermetismo inerente a todos esses poemas é a consequência do isolamento físico e psíquico de que José Afonso foi alvo na prisão, mas também da necessidade de cifrar a mensagem.

A suposta contradição entre valores poéticos e políticos que a crítica literária académica tantas vezes invoca, encontra o seu reflexo em abordagens isoladas do poema político sem fazer a ligação dialéctica entre eles, ou seja, a interpretação estética só analisa a forma artística, enquanto a abordagem ideológica só avalia o conteúdo. Mas é paradoxalmente por causa do seu valor “ideológico” no sentido mais lato do termo que o valor artístico do poema político nem sequer é tomado em conta.

E que fazer dos inúmeros poemas de José Afonso que não foram musicados e/ou que não são políticos? Que fazer de facetas do poeta e homem que admirava os textos de Santa Teresa D’ Ávila e de São João da Cruz? Ou que propôs ao Padre Mário fazer um LP inspirado no seu livro Maria de Nazaré com o argumento de que “aquela Maria de Nazaré que canta um Deus que derruba os poderosos dos seus tronos e levanta os pequenos, despede de mãos vazias os ricos e enche de bens os esfomeados é uma mulher revolucionária”? (jornal fraternizar Nº 161, Abril/ Junho 2006. Padre Mário no Café Concerto, “E quanto ao poder que vá para a puta que o pariu!”)

O que distingue os textos políticos de José Afonso do chavão e os torna poesia não é diferente da qualidade que torna poesia os seus textos não-políticos. O chavão é sempre redução, é o chapéu que cobre as particularidades. Mas a literatura nasce sempre do particular, do subjectivo, para poder ser lida como universal. A título de exemplo gostaria de pegar em dois poemas, “Inúteis eram as vozes”, texto não musicado e escrito em Caxias, e “Benditos”, musicado e parte do disco Galinhas do mato.

Inúteis eram as vozes e as palavras
O cativeiro preso dos sentidos
Abre-se uma comporta e nada altera
A matéria dura de que é feita a vida
Ferros pedaços brancura nunca vista
E um rio que não pára nem descansa
Que perfeita modorra não se esconde
Nesta vasa indecisa e aos ouvidos
Chegam silvos cantantes gargalhadas
E tudo dói como se fora treva
Como se fora vinho esta névoa

Mesmo se não soubéssemos onde e em que circunstâncias nasceu este poema, percebíamos que o texto assenta no contraste entre um fora e um dentro, entre um mundo em movimento povoado de sons de barcos e pessoas, onde o tempo passa normalmente, e a clausura de um indivíduo separado desse mundo. Isolamento e dor caracterizam a sua situação, a inutilidade e, provavelmente, a impossibilidade de comunicação. Os muros da prisão não são nomeados. Mas também não é preciso, eles estão lá, no texto. O poema poderia não tratar da prisão de Caxias, mas sempre tratará da experiência extrema do cativeiro. O elo entre estes dois mundos separados são as imagens do “cativeiro represo dos sentidos” e da comporta que se abre, é um elo meramente imaginário porque “a matéria dura de que é feita a vida” fica inalterada. Este poema, por partir de uma situação pessoal de limite e ao mesmo tempo encontrar meios literários adequados para transportar a sua mensagem, consegue não só exprimir, de uma maneira universal, o sofrimento do indivíduo preso, mas transforma-se ao mesmo tempo numa acusação. A mais-valia do texto reside, a meu ver, exactamente no facto de essa acusação não ser directamente expressa por palavras.

Por fim, e no fim da minha (espero) breve intervenção, convido-os a olhar um pouco mais de perto o poema “Benditos”.

Já fui neve no mar
Já fui espada na mão
Já fui a corda
Da lira a vibrar

Já fui servo de um Deus
Vida e morte num momento
Já nasci no barlavento
Já fui como a erva do chão

Bendito seja o pão
Bendita seja a dor
Benditas as portas do amor
Já fui favo de mel
Cajado de pastor
Já fui a nuvem correndo no céu

Já fui ceptro de um rei
Arco-íris num instante
Já fui vento do Levante
Já fui andarilho e cantor

Bendita seja a paz
Bendita sejas tu
Benditos os peixes do azul

Não há, na literatura que conheço, um texto de despedida que mais me comova. E não é por ter conhecido pessoalmente José Afonso.

Só há duas formas de verbo ao longo do poema: o passado que nomeia tudo o que o “eu” já foi “em vida” e o conjuntivo que projecta o desejo da bênção num futuro que já não faz parte do texto (e do tempo do “eu” que fala). De entre aquilo que o “eu” já foi, aparecem fenómenos da natureza, como “a neve no mar”; instrumentos como a “espada na mão”; aparece a caracterização como “servo de um Deus” e “andarilho e cantor”; momentos existenciais como vida/nascimento e morte. É um inventário de identidades de quem parte e se quer reassegurar daquilo que já foi.

E a partir dessa (s) identidade (s) que nitidamente destroem as fronteiras entre o que é considerado humano e não-humano, é proferida a bênção a todos os aspectos pretensamente simples da vida como o pão e a paz, a beleza e o amor, em suma, à criação.

Mas onde fica quem abençoa? Não há presente no poema, a não ser o acto de fala de quem se lembra daquilo que foi e que deixa um legado. É um legado de uma pessoa que já está a partir e que fez as pazes com todos os seus caminhos e desvios. Se olharmos de perto as enumerações que surgem no texto, vemos contradições. Quem foi espada na mão, não foi, ao mesmo tempo, favo de mel; quem foi cajado de pastor, não foi, ao mesmo tempo, andarilho e cantor. Mas quem foi tudo o que o texto diz, em momentos diferentes, sem renegar nada do seu passado, encontra-se no lugar certo.

A despedida poética e a outra despedida de José Afonso não se fizeram com amargura. Por sugestão dele, o título do último disco estava para ser “Nem o pai morre nem a gente almoça”. E é espantoso que um dos traços mais marcantes da sua obra seja a força que dá para viver. Deveria ouvir-se mais a sua música, ler mais os seus textos. Pode viciar, mas os efeitos secundários são benéficos.

Elfriede Engelmayer

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Homenagens e tributos (poesia)
18/05/2006By AJA

Poema de José Manuel Mendes


somos a verdade nua
o rosto erguido
não a máscara
o gesto que não
teme

sofremos na carne o flagelo
dos chicotes
sangramos a determinação
e a coragem
a luta
– incêndio vivo
força nova em nossos
braços

Canta Zeca Afonso
tua voz desnuda
e térrea
canta e desperta
os punhais
do vento

atam-se as mãos que soltaram
os balões
levaram as flores
na manhã
ao coração do povo

e unidas ganham o caminho
despedaçam as algemas
fazem as praias
do rubro sol

cresce a certeza
da vitória
urgem as horas
ardem as palavras

canta Zeca
canta e desprende
os fios
das tempestades

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Testemunhos
18/05/2006By AJA

Traz outro amigo também

Quando foi publicado o álbum “traz outro amigo também” do José Afonso, nos finais dos anos sessenta, princípios dos setenta, o meu grande amigo Nando, um dos tipos mais inteligentes e mais cultos que conheço (então estudante na FEUP e actualmente no nível abaixo de catedrático de Engenharia Civil e projectista de vias de comunicação rodoviárias), não resistiu a comprá-lo.Não era propriamente um revolucionário, mas tudo o que considerava ter qualidade, agradava-lhe. Ainda hoje é assim.Seu pai, arquitecto talentoso e amante dos livros e da música, tinha uma biblioteca e uma discoteca de discos clássicos que davam gosto. Muitas vezes ouvi obras de grandes compositores na sua casa. Desapareceu da nossa companhia precocemente, quando ainda caminhava para o sucesso e reconhecimento público que merecia.Pois quando o Nando chegou, depois de ter adquirido o LP, encontrou na sala o pai com um amigo.Muito satisfeito, exibiu o disco como um troféu e falou dele como de uma obra-prima.O professor, pois o pai também tinha essa actividade, perante tantas loas, não se conteve:- Mas quem é esse tipo? Dizes que também é poeta? Ora, poemas desses também eu faço. Ou ainda melhores – e lançou um olhar de gozo ao amigo, que concordou.- Ó pai! Estás a falar e não ouviste o disco. Portanto, estás a falar do que não sabes.- Já ouvi esse tipo a cantar na rádio. Não o queiras comparar aos que são verdadeiramente talentosos, como o Camões, por exemplo. Pode ter uma voz agradável e algumas músicas com boa sonoridade, mas…- Olha, pai. Neste disco, está uma canção cuja letra é um poema de Camões e as outras são quasi todas feitas com poemas do José Afonso.E lançou o desafio:- Eu ponho o disco a tocar e tu, e o Sr. Eng. também, no fim dizem qual dos poemas é do Camões. Reconhecem que o Camões é um poeta fora de série, não é verdade?E esperou, com o ar mais sério do mundo a resposta ao repto que habilmente lançara.O arquitecto hesitou um pouco. Mas não tinha alternativa, e anuiu. O amigo também.E o Nando coloca o disco no prato do aparelho e senta-se.- Mas não digo os títulos – sentenciou o meu colega.- Ah! As músicas também são quasi todas da sua autoria – esclareceu.E vão passando sucessivamente:“Traz outro amigo também”- Hum…não me parece Camões. Podes eliminar.“Maria Faia” (uma canção popular da Beira – Baixa)- Esta não! Podes avançar!“Canto Moço”- Essa não elimines, para já!“Epígrafe para a arte de furtar” (sobre um poema de Jorge de Sena)- Hum…aguenta essa!“Moda do Entrudo”- Isso não! Passa à seguinte!“Os eunucos”- Essa também não! A seguinte!“Avenida de Angola”- Isso não é Camões!“Canção do desterro”- Aguenta essa! Muitas alusões ao mar!“Verdes são os campos” (a que tinha como texto um poema de Camões)- Essa tem laivos da lírica camoniana. É capaz de ser essa!“Carta a Miguel Djéjé”- Podes passar! Essa não é de certeza!“Cantiga do monte”- Não é má! Mas podes eliminar!(todas aquelas em que não mencionei o autor tinham poemas do Zeca)- Então pai? Ainda tens de optar por quatro.- Põe essas outra vez – ordena o arquitecto.E o Fernando lá fez tocar as que não tinham sido eliminadas.Terminada a segunda sessão, o pai ainda hesitava entre a realmente camoniana e o “Canto Moço”.- Bom! – disse – é a dos campos verdes.- É, pai! Mas, afinal, não há assim uma diferença tão grande entre o José Afonso e o Camões! – disparou o jovem com um sorriso mordaz.- Ora! E esse gajo era capaz de escrever os Lusíadas ou compor a Nona?- Se calhar fazia melhor! – murmurou entre dentes o Nando.E agora vão ouvir o disquinho, está bem?É dos melhores do Zeca, na minha opinião.
António Castilho Dias
in http://eusoulouco.blogspot.com/2005/05/traz-outro-amigo-tambm.html

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Andrés StagnaroImprensa estrangeira
12/05/2006By AJA

Para descubrir a un maestro portugués

Notícia de 11-5-2006 no “El País” do Uruguai dando conta do concerto de Andres Stagnaro na sala Zitarrosa em Montevideo.
ANDRES STAGNARO RECUERDA A JOSE AFONSO
No es nada habitual escuchar una composición de José Afonso en un escenario uruguayo. Ocurre que la obra del maestro portugués ha tenido casi una nula difusión en nuestro medio, pese a ser uno de los mayores emblemas de su país, una especie de Zitarrosa lusitano, cruce de historia musical, poesía conmovedora y contestataria. Por eso la idea de Andrés Stagnaro de recordar “Las canciones de José Afonso”, esta noche en sala Zitarrosa, tiene mucho de cita educativa.

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Homenagens e tributos (artes plásticas)
11/05/2006By AJA

Desenho de Mito dedicado a José Afonso – 1987

Especial homenagem ao grande artista português JOSÉ (ZECA) AFONSO

Mito artista multifacetado que busca na luz e no som, a poesia em movimento. Nasceu em Santiago de Cabo Verde, trabalha e vive em Portugal desde 1989. Tem desenvolvido uma linguagem plástica muito original, que consiste na recuperação da tradição oral e do fabulário crioulo, estilo simbiótico entre aguada e escrita que apelidou de mare calamus.

http://www.tanboru.org/mito/biografia.htm

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ImprensaTestemunhos
11/05/2006By AJA

Zeca, 75 Anos

Por NUNO PACHECO
Jornal Público | 02 de Agosto de 2004

Aveiro, 2 de Agosto de 1929. Na freguesia da Glória nascia um menino que teria o nome de José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos. Pai: José Nepomuceno Afonso, magistrado. Mãe: Maria das Dores, professora primária. Não tardarão a embarcar, os pais, para África. Ele irá depois.

Aveiro, 2 de Agosto de 2004. Hoje. Junto à Praça Fonte Nova, uma rua vai receber o nome do menino que foi para África e voltou, para aqui viver, cantar e morrer: José Afonso. Há outras ruas ou praças com o nome dele, em terras que alguma vez o viram ou ouviram, na sua errância pelo Portugal que amava, aquele que lhe permitia sentir de perto a vida das suas gentes. Agora haverá mais uma, na cidade onde nasceu. À noite, para que e lembrança não se confine à laje suspensa da toponímia, haverá música de homenagem no Largo do Rossio (21h30). De entrada livre, como ele idealizava o universo, e com nomes próximos: Sérgio Godinho, que com ele cantou, e Vítor Almeida Silva que, de óculos de aros grossos, o imitou no antigo “Chuva de Estrelas”.

Depois, o que virá? De novo o silêncio? O que é possível saber dele, para que o não esqueçam? Há, disponíveis, além dos discos, vários livros e informações dispersas que permitem conhecer melhor não só o músico como também o homem (ver caixa). Para este ano, a juntar aos materiais disponíveis, prevê-se o lançamento pela primeira vez em DVD (há uma edição, em VHS) do Concerto no Coliseu dos Recreios de Lisboa, gravado a 29 de Janeiro de 1983 e difundido pela RTP com críticas do próprio cantor pela forma como o programa foi, então, montado e reduzido. Mesmo assim, ficou para a história como o único registo videográfico disponível de um momento irrepetível: sendo o primeiro concerto de José Afonso como músico profissional foi também o último, porque a doença que o minava (uma esclerose lateral amiotrópica) só lhe daria mais quatro anos de vida. Morreria em Setúbal, a 23 de Fevereiro de 1987, com 57 anos.

Uma noite histórica e outros registos

Na noite do Coliseu, tensa e inesquecível, há um momento em que a voz do cantor cede à comoção e denota um estrangulamento breve, numa passagem da “Balada do Outono” que, ali e naquelas circunstâncias, soava já como epitáfio: “Águas das fontes calai / Ó ribeiras chorai / Que eu não volto a cantar”. Muitos dos presentes não conseguiram esconder as lágrimas e ainda hoje, ao ouvir ao gravação do espectáculo, é possível sentir esse momento como um arrepio. Com José Afonso, nesse palco onde o abraço era já meia despedida, estavam, entre músicos e cantores, Octávio Sérgio, Lopes Almeida, Durval Moreirinhas, António Sérgio, Rui Pato, Francisco Fanhais, Fausto, Júlio Pereira, Janita Salomé, Serginho, Guilherme Inês, Rui Júnior e Rui Castro.

A edição do DVD, quase pronta, reunirá, segundo a editora que a preparou (a Costa do Castelo), mais uma hora de extras à gravação do concerto tal como foi difundido pela RTP, também com 60 minutos (terá sido impossível uma remontagem, para ampliação, do material original). Serão sete extras, no total, todos dos arquivos da RTP: uma participação do cantor no programa Lugar de Exílio, em Maio de 1980, onde fala, da sua vida e carreira, e canta, acompanhando-se à viola (a gravação é a cores); uma espécie de teledisco gravado numa quinta de Azeitão, 1981, com a canção “Saudades de Coimbra”; imagens do 25 de Abril com “Grândola Vila Morena” em fundo; e vários registos a preto e branco, dele a cantar: “Os vampiros”; “Menino do bairro negro” na série Coimbra Musical, em 1978; “Os fantoches de Kissinger”, na série Pifelin, 1975; “Milho Verde”, num dueto com o cantor francês Georges Moustaki, 1975; e um registo do I Encontro Livre da Canção Portuguesa, no Palácio de Cristal do Porto, logo a seguir ao 25 de Abril (na noite de a 3 de Maio de 1974), ele e outros cantores a entoarem juntos “Venham mais cinco”.

Grândola e o que se seguiu

Para quem conhece mal ou não conhece sequer José Afonso, refira-se que dos três aos dez anos ele andou por Angola (1933-36), Aveiro (1936), Moçambique (1937), Belmonte (1938-39), devido a obrigações de carreira do pai. Em 1940 vai para Coimbra, onde casa pela primeira vez e onde fica até ser chamado ao serviço militar, em 1953. Entretanto, começa a cantar. Primeiro no liceu, depois na Universidade. Rui Pato, seu amigo, acompanha-o à viola. Grava o primeiro 45 rotações, “Baladas de Coimbra”, em 1958 e, durante uma deslocação ao Algarve (é então professor) conhece aquela que virá a ser a sua futura mulher: Zélia Santos. É com ela que, em 1964, ruma de novo a África, com destino a Moçambique, uma viagem decisiva no cimentar da sua consciência anti-colonial. No regresso, é expulso do liceu e perseguido pelas suas posições políticas. Canta mais para sobreviver do que por opção de carreira, mas no entanto os seus discos começam a ser bandeira de uma geração que vê nele um dos seus mais lúcidos arautos.

A escolha de “Grândola Vila Morena” para senha do 25 de Abril de 1974 associa para sempre o seu nome à história da revolução dos cravos. De 1966 até 1985 gravou 15 álbuns, todos já reeditados em CD (a esmagadora maioria pela Movieplay, que possui o catálogo Orfeu, mas também pela EMI-VC e pela Strauss). O último, “Galinhas do Mato”, teve em 2002 uma edição especial, pela MVM, com um documentário vídeo extra, com vários depoimentos. A estes álbuns juntaram-se nestes anos algumas colectâneas e três outros CD com gravações antigas: “Carlos Paredes/José Afonso/Luiz Goes”, da EMI, 1992 (que tem, por exemplo, o “Coro dos Caídos” e “Canção do Mar”), “Os Vampiros” (uma edição medíocre da Edisco, de 1987) e “De Capa e Batina”, esta com libreto biográfico de 72 páginas e textos de José Niza (Movieplay, 1996).

Para perpetuar a sua obra e memória, como músico, poeta, cantor e compositor, têm contribuído a actividade da Associação José Afonso, o prémio musical José Afonso atribuído anualmente pela Câmara da Amadora e os discos (de homenagem ou reencontro) “Filhos da Madrugada” (1994) e “Maio Maduro Maio” (1995), onde se propõem diferentes releituras de muitas das suas canções.

DISCOS OBRIGATÓRIOS

Sem dispensar outros, há pelo menos cinco discos de José Afonso de audição obrigatória, todos disponíveis em CD: “Baladas e Canções” (1967, com registos de 1964), “Traz Outro Amigo Também” (1970), “Cantigas do Maio” (1971). “Venham Mais Cinco” (1973) e ‘Como Se Fora Seu Filho” (1983). Correspondendo a várias fases da sua evolução criativa, são obras-primas.

OBRAS BIOGRÁFICAS

A par de inúmeros artigos dispersos, há três livros de referência: José Afonso—Andarilho, Poeta e Cantor”, editado pela Associação José Afonso (1994), “José Afonso, O Rosto da Utopia”, de José A. Salvador (Terramar, 1994, 1999) e “Zeca Afonso, As Voltas de um Andarilho”, de Viriato Telas (Ulmeiro, 1999).

MEMÓRIAS INTIMISTAS

Aos ensaios juntam-se memórias de amigos ou familiares. É o caso de “José Afonso, Um Olhar Fraterno”, do irmão mais velho do cantor, João Afonso dos Santos (Caminho, 2002) e de “Zeca Afonso Antes do Mito”, de um amigo dos tempos de Coimbra, António dos Santos Silva (Minerva, 2000). De José Jorge Letria, cantor nos anos -70, há três: “José Afonso: O Que Faz Falta”, colectânea de depoimentos co-organizada com José Fanha (Campo das Letras, 2804); “Zeca Afonso e a Malta das Cantigas”, a história contada aos mais novos (Terramar, 2882); e “Carta a Zeca Afonso”, epístola em forma de poema (Universitária Poesia, 1999).

POESIA E CANÇÕES

Livros com poemas e canções há três: uma reedição actualizada de “Cantares”, editado pela Nova Realidade em 1965 e reeditado pela Fora do Texto, Coimbra, 1992; o pequeno “Quadras Populares”, de 1982. reeditado pela Ulmeiro em 1990; e, por fim, o único que reúne a totalidade da sua poesia, “Textos e Canções, editado pela Assírio & Alvim em 1983 e com última edição revista e aumentada por Elfriede Engelmayer datada de 2000. Este último é essencial.

ANÁLISE DA OBRA

O livro mais relevante é “José Afonso, Poeta”, de Elfriede Engelmayer, estudiosa da obra de José Afonso (Ulmeiro, 1999). Mas é também digno de nota o opúsculo “A Música Tradicional na Obra de José Afonso”, de Mário Correia (Câmara da Amadora, 1999).

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Testemunhos
07/05/2006By AJA

Variações sobre vozes esmorecidas – Jorge Abegão

Artigo publicado no 7º número da revista AJA, em Maio de 1993

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João Afonso dos Santos
07/05/2006By AJA

Lá no Xipangara – João Afonso (irmão de José Afonso)

Artigo publicado no 7º número da revista AJA, em Maio de 1993

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