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Homenagem a Carlos Paredes
TERTÚLIAS ITINERANTES – FELGUEIRAS
“Sangue, suor e lágrimas” na homenagem a Carlos Paredes
Centenas de pessoas encheram por completo a igreja de Airães, na tarde do passado domingo, para receberem a guitarrista Luísa Amaro na tertúlia-concerto de homenagem a Carlos Paredes, realizada pelas Tertúlias Itinerantes. A iniciativa contou com a parceria da Junta de Freguesia local, da Rota do Românico e da Associação José Afonso.
Luísa Amaro, que foi companheira de Carlos Paredes, e os, também, jovens guitarristas Henrique Fraga e Marco Matos tocaram e encantaram os presentes. Octávio Fonseca, crítico musical, falou da obra do homenageado.
Mas este evento (sem dúvida, de rara beleza) ganhou ainda maior encanto quando professores e alunos das escolas do concelho, uma da escola de Recarei (Paredes) e do Colégio Júlio Dinis (Porto) foram oferecer a Luísa Amaro os trabalhos de artes plásticas e escrita criativa que trabalharam nas aulas em apenas duas semanas. Luísa Amaro emocionou-se, em lágrimas, com o gesto da comunidade escolar. Também, alguns dos consagrados artistas plásticos participantes nesta homenagem acabaram por lhe oferecer as suas obras.
“Estou surpreendida e comovida com esta iniciativa, recheada de afectos, de emoção, de muito calor humano. Uma iniciativa destas só se torna possível com este trabalho de base, feito com sangue, suor e lágrimas”.
José Carlos Pereira, da organização, referiu: “Este é um tempo de resistência, em que não queremos doutrinar ninguém, mas vamos contra a linha dominante deste país, que é a cultura da Casa dos Segredos”
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Felgueiras homenageia Carlos Paredes
Luísa Amaro encerra o evento no dia 14, na igreja de Airães
As Tertúlias Itinerantes, movimento cultural nascido em Felgueiras há menos de dois anos e que tem conhecido um crescente êxito e adesão do público, vai realizar, em Airães, naquele concelho, entre os dias 6 e 14, uma homenagem a Carlos Paredes, o mais proeminente mestre da guitarra portuguesa. A
organização conta, como entidades parceiras, com a Junta de Freguesia local, a Rota do Românico e a Associação José Afonso.
O ponto alto da homenagem acontecerá pelas 16 horas do dia 14, segundo domingo deste mês, na igreja românica de Airães, com uma tertúlia-concerto, que contará com Luísa Amaro (que foi companheira de Carlos Paredes e conhecida guitarrista do panorama nacional), Henrique Fraga e Marco Matos (guitarristas da zona de Coimbra) e com o crítico musical Octávio Fonseca. A entrada é livre.
Esta homenagem, sem propósitos saudosistas, não pode nem deve resumir-se a uma sessão cultural, mas, em vez disso, a um projecto sincero de divulgação do Homem, do Cidadão e do Artista que foi (e é) Carlos Paredes, principalmente junto dos mais novos.
Assim sendo, a homenagem abrirá no dia 6 (próximo sábado), pelas 16 horas, no salão da Junta de Freguesia de Airães, com a inauguração de três certames: Artes Plásticas e Escrita Criativa À Volta de Carlos Paredes, elaborada pelas escolas básicas e secundarias do concelho, do Colégio Júlio Dinis (Porto), entre outras; uma segunda exposição de mais de 20 painéis (fotográfica e documental), da Associação José Afonso, sobre o mestre da guitarra; e uma mostra de pintura, por Margarida Santos, Helena Branco, Ângelo Vaz, Fátima Ferreira e Ricardo Campus.
Este momento será abrilhantado com poemas de Anabela Borges, Ângelo Vaz, José Carlos Pereira, Paulo César Gonçalves e Ricardo Campus, ditos pelos próprios. Participarão ainda os guitarristas felgueirenses Luciano e Sérgio Amorim.
Esta iniciativa conta com o apoio da Paróquia de Santa Maria de Airães, do IESF – Instituto de Estudos Superiores de Fafe, Associação Nacional de Professores e, para além das escolas participantes na exposição, da Escola Profissional de Felgueiras.
José Afonso e Carlos Paredes pelo grupo Cantos & Variações
No próximo dia 15 de Julho, a partir das 20h, o grupo Cantos & Variações estará no Marco de Canaveses para fazer uma homenagem a José Afonso e Carlos Paredes, na Estação Arqueológica do Freixo.
Carlos Paredes – A magia da guitarra aliada à lúcida memória das coisas
Carlos Paredes não aceitou o jogo. Quis falar e falou, quase só sobre José Afonso – “um grande amigo, um homem que marcou a sua geração” – relembrando momentos, acentuando facetas menos conhecidas.
“O José Afonso era um cantor ambulante, um músico ambulante no melhor sentido da palavra. Era um homem que oferecia a sua música aqui e além, onde era possível ter público. O José Afonso chegou a cantar em cima duma árvore, em cima dum camião. O que ele se propunha dar às pessoas não era só a sua arte de cantor. Tinha também por objectivo divulgar ideias, esclarecer as pessoas, levá-Ias a conversar sobre a vida”.
A guitarra portuguesa aparece quase sempre ligada ao fado. Carlos Paredes é um homem cuja tradição entronca na do fado de Coimbra. José Afonso bebeu dessa mesma fonte, como de muitas outras, mas, no dizer de Carlos Paredes, ele realizou-se muito melhor na balada.
“As apreciações que se faziam em Coimbra eram à voz, à amplitude da voz, à força da voz. Dizia-se que fulano tinha uma voz extensa, uma voz forte. Ora o José Afonso não era bem um cantor que correspondesse a estas características e precisamente por isso, saiu-se muito melhor nas suas baladas do que no fado. Mas as suas ligações a Coimbra eram bem fortes. Ocasião houve em que achou que havia figuras do fado de Coimbra que lhe mereciam todo o respeito e que, em certa medida, estavam na mesma linha que ele trilhara. Foi o caso de Edmundo de Bettencourt do qual dizia sér um cantor progressista e inovador, e do meu pai que ele gostava muito de ouvir tocar. Acabou por gravar um disco de fados de Coimbra que foi uma forma de mergulhar nas origens, homenageando ao mesmo tempo uma tradição fadista que o havia inspirado, lírica mas não piegas.
O acompanhamento preferencial de José Afonso era a viola; Carlos Paredes vê nisso uma atitude inovadora, dado que a guitarra portuguesa limita o cantor.
“Eu não sou contra a guitarra portuguesa, como é lógico, visto que a toco, mas José Afonso tinha absoluta razão. Eu penso que a guitarra portuguesa molda o cantor. O cantor que canta ao som da guitarra portuguesa, quer queira quer não, acaba por ser integrado num certo estilo. O José Afonso saíu disso. Compreendeu que a guitarra portuguesa o desviaria da busca de uma canção que correspondesse à sua própria personalidade. Suprimiu portanto a guitarra e sentiu-se mais liberto acompanhado pela viola”. E, aparentemente, mudando de assunto:
“José Afonso foi o marco de toda uma geração de cantores, num tempo em que a canção de protesto, a balada, foram bandeira e estandarte dos que procuravam a ruptura com o nacional-cinzentismo” .
“Levou atrás de si outros cantores, e pode dizer-se que toda uma geração foi por ele inspirada. Surgiram assim nomes que dignificaram a canção em Portugal, a ponto de se ter criado esta divisão: os que correspondiam ao nacional-cançonetismo e os cantores de intervenção.
O nacional-cançonetismo era entendido como uma forma de comodamente se ignorarem os problemas, de se cantarem coisas que não fossem incómodas. A canção de intervenção, essa tinha uma capacidade de análise da realidade portuguesa, uma realidade dramática naquela altura”.
Para Carlos Paredes, em José Afonso as rotas da vida e da canção misturaram-se de forma exemplar.
“Nós nunca saberemos se foi através do percurso que escolheu para a canção que José Afonso encontrou o seu caminho da vida, ou se foi por ter escolhido um determinado sentido da vida que optou por um determinado tipo de canção. Parece-me que as duas coisas estão bastante ligadas. O José Afonso procurou a verdade e a verdade, naquela época, obrigava a trilhar esse caminho de denúncia com muita coragem, confrontando-se com perigos constantes. Mas ele era um homem de coragem, inteligente, interessado no futuro das pessoas, no mundo que o rodeava e tudo isso traduzia nas suas canções. Algumas delas tornaram-se autênticos símbolos que todos nós trauteávamos em determinadas ocasiões, porque tinham a ver com a existência de todos nós”.
“Penso – diz, rematando com um gesto a afirmação – que, com os anos, muitas das suas canções virão à memória a propósito de qualquer coisa”. E acrescenta:
“Ele disse-me um dia que gostava das minhas músicas, do meu reportório. Apreciava a alegria daquelas músicas, sentia profundamente a vivacidade popular das canções.
Nesta conversa com o José Afonso pressenti que ele, já naquela altura, procurava fugir à melancolia do fado de Coimbra, àquele saudosismo a que era avesso, e fugindo da melancolia encontrava-se com o povo, com o folclore. Talvez tenha sido por isso que a sua música se tornou tão universal.”
E Carlos Paredes dá conta do apreço com que eram ouvidas as canções do Zeca em alguns países por onde andou.
Três dedos mais de conversa. Para o entrevistado já é tempo de dar a José Afonso o lugar devido, como figura nacional, ímpar na história da canção portuguesa.
“Eu participei em algumas festas de homenagem a José Afonso, mas devo-lhe dizer que essas homenagens deviam partir do próprio Estado, das próprias entidades oficiais. Independentemente de se ter ou não princípios idênticos aos seus, as pessoas devem reconhecer que José Afonso lutou por qualquer coisa que interessava a todos e que, criticando a vida nacional, estava a fornecer matéria para que se formasse uma ideia mais concreta das realidades. E isso beneficiou toda a gente, de esquerda como de direita. Nem sempre se entende assim, as pessoas estão fanaticamente agarradas às suas idiossincrasias e não pensam que a verdade possa ser útil.”
A conversa flui. Um olhar ainda para “Espelho de Sons”, disco de Carlos Paredes recentemente editado, quebrando um “jejum” de quinze anos. “Espelho de Sons” é uma espécie de apanhado de ligações – diz – de circunstâncias, e sobretudo a presença do rio. “Com o meu conhecimento de Lisboa posso dizer que o Tejo é uma evidência constante na cidade (tal como o Mondego em Coimbra), que fatalmente acaba por influenciar os seus músicos e que me.influenciou a mim.
O “Espelho de Sons” é esta relação da guitarra ou do guitarrista com o seu mundo, o mundo em que vive, com quem convive, os seus problemas, as suas queixas.”
A conversa chegou ao fim. Uma última observação: “A obra de José Afonso é para ouvir no seu conjunto.
Cada canção corresponde a uma faceta, a uma característica diferente da sua maneira de ser. É uma obra virada para o futuro” .
Cine-tributo a Carlos Paredes de Edgar Pêra
Movimentos Perpétuos – Tributo a Carlos Paredes«O Carlos Paredes é um grandalhão»
Eu e a Zélia estivemos em Grândola numa sociedade operária. Aí actuámos, eu e o Paredes (o filho é ainda melhor que o pai) no meio de uma assistência atenta e compenetrada, toda ela de operários e mulheres de xaile e lenço. Ofereci-lhes uma canção feita na véspera (16-5-64), uma espécie de evocação da terra alentejana e do seu símbolo ainda vivo na lembrança do homem do povo: a Catarina Eufémia, uma ceifeira de Baleizão morta pela Guarda Republicana em circunstâncias, que forneceriam matéria para uma canção de gesta. É claro, que não é isto que interessa manter nestes contactos efémeros com os «mujiks» do nosso tempo. Se alguma vez tiver de deixar esta terra é a lembrança dos homens que conheci em Grândola e noutros lugares semelhantes que me fará voltar. A sociedade grandolense é um casinhoto antigo com meia dúzia de divisões, uma orquestra, um grupo cénico e uma bibloteca. A direcção, toda ela constituída por operários, já promoveu a realização de palestras e concertos em que colaboraram o Alves Redol, o Romeu Correia, o Lopes Graça e o Rogério Paulo. As auroridades não só lhes têm recusado o mínimo apoio com têm entravado outras tantas iniciativas deste género. Em compensação os grupos puramente destinados a actividades recreativas (e são os que existem em maior número) funcionam permanentemente e com carta branca para realizar bailes e biscas lambidas. O Carlos Paredes é um grandalhão com aspecto simplório, mas o que esse bicho faz da guitarra é inacreditável! Nas mãos dele, este instrumento assume uma altura comparável à dos instrumentos para música de concerto. Nada de trinadinhos à maneira do Armandinho. O exemplo do pai, o Artur Paredes, foi continuado pelo filho mas de uma forma diferente: só ouvido! O fulano consegue abranger duas séries de escalas exactamente como fazem os tocadores do flamengo e os grandes concertistas de guitarra espanhola.




