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Elfried Engelmayer
Home Archive by Category "Elfried Engelmayer"

Category: Elfried Engelmayer

Elfried EngelmayerPoesia
19/07/2007By AJA

A poesia não musicada de José Afonso

“O poeta José Afonso que vive na sombra de Zeca Afonso, cantor político”Elfried Engelmayer.

De forma a demonstrar este facto e de forma a balançar cada vez mais as duas facetas, demos lugar no sítio da AJA à poesia não musicada de José Afonso. Com a regularidade possível iremos mudando os poemas.

Tu morres todos os dias

Tu morres todos os dias
libertando telefonemas
diante da minha mágoa
exposta à ira dos dias
levo-te cravos vermelhos
flores recentes da estação
Morres e vais caminhando
sobre uma estrada de fumo
o lume que nos sustenta
Já não cheira não tem vida
Às vezes vens-me à lembrança
descalça ao longo da praia
Vivo terrores de madraço
Com dívidas acumuladas
Seguindo de perto o tráfego
Saberei um dia amar-te
Tu morres tu pontificas
eu respiro a tua sombra
Ai repouso do guerreiro
Sobre o abismo repousas

Azeitão, 31 de Março de 1981.

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Elfried EngelmayerPoesia
17/02/2007By AJA

Claro e escuro, mas não a preto e branco

Toda a verdadeira obra de arte está sujeita à acção do tempo, que se encarrega de a lapidar até ela revelar o seu valor intemporal. Por isso, muitas vezes, quando um artista morre, entra numa espécie de limbo. Os que partilharam os problemas sociais e políticos a que ele deu expressão ficam ligados, também emocionalmente, a essa obra. Mas às gerações mais novas – e tendo em conta, como é óbvio, os vinte anos que já passaram sobre a morte do Zeca – falta essa vivência, essa referência. Paradoxalmente, para se descobrir e redescobrir o que a obra de José Afonso realmente significa para Portugal, ainda é preciso algum tempo e, sobretudo, trabalho. Um trabalho que o leve aos mais novos, às escolas, que ultrapasse de longe (mas sem o ignorar!) o conhecimento rudimentar de algumas das canções mais populares, que o valorize não só como músico genial, mas também como poeta e artista que, como poucos, se soube renovar ao longo das décadas e demonstrou uma sensibilidade sismográfica em relação aos problemas do seu tempo. Ou seja: um trabalho de memória que não o transforme numa múmia, um trabalho científico que não o aprisione em grelhas interpretativas, um trabalho pedagógico que não o torne numa chatice. Uma festa viva, plural, tumultuária.
Há quem diga que o Zeca foi um gigante. E, de facto, essa coincidência rara do criador musical com o poeta e intérprete já em si o torna numa figura de excepção. Mas os que o conheceram gostariam com certeza de lembrar mais um dos seus dons que atravessa todos os outros aspectos da sua vida. Falo da sua pureza humana (não confundir com ingenuidade). Ele soube não esconder a criança que existia em si, não rasurar medos, e por isso não criar muros entre si e os outros. Essa parece-me a fonte da sua sensibilidade e solidariedade, do seu sentido de justiça. E essa também é uma das razões por que a sua obra, depositária da sua dimensão humana, sobreviver quando já nenhum dos que conviveram com ele esteja vivo.
Ao olharmos de perto os textos líricos de José Afonso, há os que parecem simples, mas poucas vezes o são, (como exemplo mais conhecido, “Grândola, vila morena”) e cuja pretensa simplicidade vem do facto de serem facilmente cantáveis. Outros, herméticos, que, além de nos exigirem o conhecimento das circunstâncias em que nasceram, também do ponto de vista musical só dificilmente são assimiláveis, como por exemplo “Era um redondo vocábulo”. E ainda há os muitos outros, não musicados, quase desconhecidos, à espera de reconhecimento por parte de uma crítica literária preconceituosa para a qual a rotulagem de José Afonso como cantor político serve de motivo para o ignorar como poeta.
Alguns dos seus textos, inspirados em formas populares, de facto parecem simples. Mas será que a poesia popular alguma vez foi simples? Para prova em contrário basta a leitura atenta dos Cancioneiros. E basta também pegar num dos poemas do Zeca, de cariz mais popular, para percebermos a sua mestria formal e densidade poéticas. Cito, a título de exemplo, a “Canção de embalar” do LP Cantares do andarilho (1968):

Dorme meu menino a estrela d’alva
Já a procurei e não a vi
Se ela não vier de madrugada
Outra que eu souber ser p’ra ti

Outra que eu souber na noite escura
Sobre o teu sorriso de encantar
Ouvir s cantando nas alturas
Trovas e cantigas de embalar

Trovas e cantigas muito belas
Afina a garganta meu cantor
Quando a luz se apaga nas janelas
Perde a estrela d’alva o seu fulgor

Perde a estrela d’alva pequenina
Se outra não vier para a render
Dorme qu’inda a noite é uma menina
Deixa-a vir também adormecer

Essa densidade que acabei de referir deve-se ao uso, nas quatro estrofes com versos de nove sílabas, à chamada técnica de leixa-pren que retoma elementos do último verso de uma estrofe para os integrar e alargar no primeiro verso da estrofe seguinte. Assim nasce um tecido textual em que o fim do poema remete outra vez para o início. A voz do adulto tem a função de sossegar a criança, de a acompanhar na sua viagem para o sono, mas ao mesmo tempo as imagens poéticas ganham uma autonomia e grandeza que ultrapassam a compreensão do menino. A estrela d’alva, visível ao amanhecer, é o planeta Vénus, também denominada de estrela da tarde, visível ao cair da noite. É a ela que o cantor delega a protecção da criança e, por ela ainda não ter aparecido, a substitui. Mas essa substituição , ao nível do texto, é dupla. Outra estrela tomar o lugar da estrela d’alva na ausência dessa, porque a criança, para não se sentir abandonada na noite, necessita, se não da luz concreta e real, pelo menos da ideia da permanência. Por isso, a voz do cantor evoca as trovas e cantigas, pondo todo o universo nocturno ao serviço do menino e colocando-o numa espécie de redoma para que nada de mal lhe possa acontecer. Ao prometer a estrela para a manhã seguinte ele garante a restituição da ordem visível em que a criança se move.
A estrela d’alva é o elo entre a noite e a manhã, a maior estrela no céu na perspectiva humana, mas no fim do poema o cantor torna-a pequena, à dimensão da criança, para a integrar no seu mundo infantil, tal como procede com a noite, transformada em menina cansada.
A singular beleza desta “Canção de embalar” reside na sequência das suas imagens, em que o ponto de partida é o menino pequenino, para depois evocar o universo todo e, no final, reduzi-lo ao tamanho de uma criança: um acto de amor transformado em cantiga.
Num texto lírico não musicado, “Fui ontem ao Norte”, que deve ter sido escrito nos anos que precederam o 25 de Abril, ou seja, em proximidade temporal com a “Canção de embalar”, o tema da opressão política invade a linguagem poética e torna-a hermética.

Fui ontem ao Norte
era ainda cedo
guizos tremiam numa feira de gado
Caras extintas por dentro
Caíam das janelas
Perguntei se era ali
a batina do cacique
a mentira das reses
nos açougues
Ao longo da torreira
Cresciam as uvas
De súbito
fechei os olhos
Sons estridentes
rompiam as paredes
Duma casa em ruínas
A suástica luzia
num círculo
de sinais obscuros
Como a morte
Fez-se noite
Ergui o punho
À onda que passava

À primeira leitura, o poema parece “contar” um incidente numa aldeia algures no norte do país em que a irrupção dos sinais do fascismo contradiz uma aparente calma e pacatez. No entanto, deste o início do texto o tom é tudo menos idílico, porque não existe voz humana a acompanhar o tinir alegre dos guizos, e as “caras extintas por dentro” acusam uma ameaça não expressa. O único ser humano que fala é o elemento que vem de fora, o “eu lírico”, um intruso que ousa fazer perguntas acerca do cacique (de batina…) e do gado que vai ao engano para o açouge, uma provocação a que ninguém responde.
E é exactamente neste momento que o texto passa para um nível diferente. Porque, como é que se exprime, em palavra poética, o que não é expresso em palavras? Como se torna visível a indesmentível verdade da opressão? José Afonso opta por um paradoxo. Ao fechar os olhos, como se fosse no negativo de uma fotografia, o que estava oculto sobressai iluminado na sua mente. Sons estridentes sobrepõem-se aos guizos, e a suástica fala mais alto do que o silêncio das caras extintas. Esta imagem é tão forte que inverte as leis da natureza, porque, de repente, a morte ensombra a manhã transformando-a em noite. O punho erguido, sinal de resistência, surge no fim do poema como única resposta possível, não verbal, a uma realidade em que a palavra desapareceu, uma imagem tanto mais expressiva se considerarmos as muitas outras imagens de resistência na poesia de José Afonso. Nomeadamente nos textos musicados, ele invoca a própria cantiga ou a voz do cantor como portadoras de esperança e da vontade de continuar a luta. Mas neste poema, a lógica textual exclui a voz audível como contraponto ao silêncio opressor. A imagem fica: “No pasaran!”
Os dois poemas que escolhi – e que, recordo, terão sido escritos num arco temporal muito fechado – revelam uma fascinante contradição. O primeiro, ao anoitecer, é um texto luminoso. O segundo, à torreira do sol, é um texto ensombrado (não sei se não deveria antes dizer assombrado). Na sua dimensão poliédrica, está neles presente o cunho inconfundível do autor, o seu DNA. E só me resta esperar que as entidades que procuram identificar o genome literário sejam mais rápidas do que as suas congéneres na biologia – que se vão agora dedicar ao cavalo (animal que aliás muito prezo).


Elfriede Engelmayer
(Texto para o debate “José Afonso, a obra poética”, integrado na iniciativa “Com José Afonso, 20 anos de caminho”, organizada pela AJA-Norte (Núcleo da Associação José Afonso) e o Clube Literário do Porto. Porto, CLP, 16 de Fevereiro de 2007
)

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Elfried Engelmayer
27/01/2007By AJA

De Elfriede Engelmayer

Apoio a iniciativa de Felgueiras porque, sem o trabalho de memória, a perda que sofremos é sempre a dobrar. Neste trabalho, cada iniciativa junta uma pedra ao mosaico que fará realçar a personalidade de José Afonso, a riqueza do seu universo musical e poético, a sua dimensão humana, o seu espírito de solidariedade, a sua integridade. Lembrar José Afonso nos 20 anos da sua morte significa demonstrar que continua vivo, que não passou à história, mas continua a ser história deste país.

Elfriede Engelmayer

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Elfried Engelmayer
30/05/2006By AJA

Há “comments” que são demasiado importantes para ficarem escondidos

A Elfriede Engelmayer é de fato uma importante referência para o olhar acadêmico desta rica produção poética do cancioneiro de Zeca Afonso. Em minha tese, escrevi a seguinte crítica:”Enquanto no Brasil esta produção musical é elevada a uma das mais representativas fontes de análise histórica, sociológica, literária e antropológica, em Portugal, a chamada canção popular portuguesa, não tem sido objeto privilegiado de análise por estas diferentes áreas do conhecimento. As letras das canções brasileiras foram equiparadas à poesia, analisadas, publicadas e exploradas pelo mercado editorial e não apenas pela indústria fonográfica. Em Portugal, as letras das canções não aparecem citadas em livros didáticos e em outros de cunho acadêmico, indicando mesmo um desprezo (ou desconhecimento) pela rica produção poética daí advinda. Os compositores José Afonso e Sérgio Godinho, por exemplo, tiveram suas letras reunidas e publicadas entre as décadas de 1970 e 1980, porém, de forma muito incipiente. Um sinal claro da ausência de pesquisas acadêmicas sobre a canção portuguesa está no fato de haver até o momento uma única dissertação sobre o tema da canção de intervenção em Portugal, no caso, a obra Canto de Intervenção (1960-1974), de Eduardo Raposo, publicada no ano de 2000. Houve ainda dois outros trabalhos acadêmicos, mas desta vez unicamente sobre José Afonso, realizados em Viena de Áustria (Utopie und Vergangenheit: Das Liedwerk des portugiesischen Sangers José Afonso. Elfriede Engelmeyer. Editora da Universidade de Viena, 1985, 267 páginas. Esta é a primeira tese sobre os textos de José Afonso, apresentada em 1983 na Universidade de Viena/ Áustria) e na Itália (La “Canção de Intervenção” e L’Opera Lirico-Musicale di José Afonso. Tesi di Laurea in Lingua e Letteratura Portoghese. Relatore: Chiar.mo Prof. Roberto Vechi. Presentata da: Nicolleta Nanni. Anno Accademico 1998/ 9) encontrados na Associação José Afonso (AJA).”

Alexandre Fiuza (Brasil)

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Elfried EngelmayerPoesia
19/05/2006By AJA

Texto de Evocação de José Afonso por Elfriede Engelmayer

Núcleo do Norte da Associação José Afonso (AJA) na Câmara Municipal de Matosinhos

As canções de José Afonso foram a porta pela qual entrei em Portugal para ficar. Num verão longínquo, durante o qual frequentei um curso de língua portuguesa em Lisboa, a nossa professora fez-nos ouvir o Zeca. Regressada à Áustria, minha terra natal, e apesar de ainda não conhecer a totalidade da sua produção, decidi escrever a minha tese sobre a sua lírica. Mais tarde, ao longo de um ano em que vivi em Lisboa para iniciar o trabalho de pesquisa, conheci pessoalmente José Afonso – que se tornou meu mestre, não só em relação à sua obra, mas também a este país que ele amava e que ao mesmo tempo o desesperava.

Nesse tempo, o Zeca já era um cantautor consagrado, e no entanto, o meu projecto de tese causou-lhe algum espanto, porque em Portugal ninguém se tinha lembrado de fazer algo de parecido. E mesmo hoje em dia, passados quase vinte anos sobre a sua morte, neste país os seus textos não constam de nenhuma antologia lírica, nem encontramos o seu nome referido nas histórias da literatura portuguesa. Será que a música ensombrou os seus textos?

Não há dúvida de que as numerosas adaptações, variações e reinterpretações e o uso de uma canção de José Afonso em circunstâncias festivas ou reivindicativas provam a sua canonização. Mas por outro lado continuam ignorados os seus textos, musicados ou não, uma obra lírica de mais de 300 páginas, com uma evolução ao longo das décadas, marcada por influências literárias, circunstâncias sociais e desenvolvimento pessoal. Poderia descrever essa evolução como um arco que se inicia com textos inspirados em tradições populares, nos fados e baladas de Coimbra, na lírica de Camões e Pessoa, entre outros, passando por influências surrealistas e fases de grande hermetismo como resposta à censura da época, passando também, logo depois do 25 de Abril, por uma “abertura” discursiva (e nesse aspecto, José Afonso foi um dos poucos no campo da literatura cuja produção reflectiu também formalmente a revolução de 1974). Mas foi também o desencanto que moldou a sua poesia, e naqueles anos entre 1978 e a morte, os seus textos documentam a história deste país e sobretudo a sua história pessoal.

A crítica literária portuguesa tem manifestos problemas em reconhecer um valor autónomo à lírica do Zeca. Se, no universo das canções de intervenção em geral, existem letras que, sem música, perdem a sua força, não é este o caso dos textos de José Afonso. É verdade que a música transforma e intensifica o texto (e poderia aqui lembrar, numa outra escala, as versões musicais que Franz Schubert fez a partir dos poemas de Goethe); mas parece-me óbvio que a autonomia do texto depende simplesmente da sua qualidade e não da circunstância de ser ou não musicado.

Para explicar o fenómeno do desconhecimento de que é vítima ainda hoje em dia o poeta José Afonso, gostaria de desenvolver um pouco mais uma tese que já defendi em outras ocasiões. É o rótulo de “político” que veda a entrada da poesia de José Afonso no campo da literatura reconhecida. Gostaria de deixar bem claro que, em minha opinião, “político” não é apenas um rótulo, mas uma realidade; só que não pode pôr em causa outra realidade, a “estética”. Esse veredicto, aliás, tem uma longa tradição e peca por cegueira e erros de lógica. É mais um gesto de “vade retro” do que um julgamento baseado em critérios científicos.

Senão, vejamos: no caso da lírica de José Afonso, a qualidade de “político” nem sequer é sempre intrínseca ao texto, mas muitas vezes é devida às circunstâncias em que o texto surgiu e em que depois chegou ao público (ouvinte). São disso exemplo “Grândola, vila morena”, mas também os cerca de vinte poemas que nasceram na prisão de Caxias e de que há pouco tempo só conhecíamos como canções criadas pelo próprio Zeca “Era um redondo vocábulo” (do disco Venham mais cinco, de 1973) e “De sal de linguagem feita” (de Fura fura, editado em 1978). Surgiu agora um inédito, que João Afonso interpreta no seu mais recente álbum Outra vida (2006). Trata-se do texto “Ao Zé Letria que também sofre de azia”, escrito em Caxias a 11 de Maio de 1973, e intitulado agora “Bombons de todos os dias”.

O hermetismo inerente a todos esses poemas é a consequência do isolamento físico e psíquico de que José Afonso foi alvo na prisão, mas também da necessidade de cifrar a mensagem.

A suposta contradição entre valores poéticos e políticos que a crítica literária académica tantas vezes invoca, encontra o seu reflexo em abordagens isoladas do poema político sem fazer a ligação dialéctica entre eles, ou seja, a interpretação estética só analisa a forma artística, enquanto a abordagem ideológica só avalia o conteúdo. Mas é paradoxalmente por causa do seu valor “ideológico” no sentido mais lato do termo que o valor artístico do poema político nem sequer é tomado em conta.

E que fazer dos inúmeros poemas de José Afonso que não foram musicados e/ou que não são políticos? Que fazer de facetas do poeta e homem que admirava os textos de Santa Teresa D’ Ávila e de São João da Cruz? Ou que propôs ao Padre Mário fazer um LP inspirado no seu livro Maria de Nazaré com o argumento de que “aquela Maria de Nazaré que canta um Deus que derruba os poderosos dos seus tronos e levanta os pequenos, despede de mãos vazias os ricos e enche de bens os esfomeados é uma mulher revolucionária”? (jornal fraternizar Nº 161, Abril/ Junho 2006. Padre Mário no Café Concerto, “E quanto ao poder que vá para a puta que o pariu!”)

O que distingue os textos políticos de José Afonso do chavão e os torna poesia não é diferente da qualidade que torna poesia os seus textos não-políticos. O chavão é sempre redução, é o chapéu que cobre as particularidades. Mas a literatura nasce sempre do particular, do subjectivo, para poder ser lida como universal. A título de exemplo gostaria de pegar em dois poemas, “Inúteis eram as vozes”, texto não musicado e escrito em Caxias, e “Benditos”, musicado e parte do disco Galinhas do mato.

Inúteis eram as vozes e as palavras
O cativeiro preso dos sentidos
Abre-se uma comporta e nada altera
A matéria dura de que é feita a vida
Ferros pedaços brancura nunca vista
E um rio que não pára nem descansa
Que perfeita modorra não se esconde
Nesta vasa indecisa e aos ouvidos
Chegam silvos cantantes gargalhadas
E tudo dói como se fora treva
Como se fora vinho esta névoa

Mesmo se não soubéssemos onde e em que circunstâncias nasceu este poema, percebíamos que o texto assenta no contraste entre um fora e um dentro, entre um mundo em movimento povoado de sons de barcos e pessoas, onde o tempo passa normalmente, e a clausura de um indivíduo separado desse mundo. Isolamento e dor caracterizam a sua situação, a inutilidade e, provavelmente, a impossibilidade de comunicação. Os muros da prisão não são nomeados. Mas também não é preciso, eles estão lá, no texto. O poema poderia não tratar da prisão de Caxias, mas sempre tratará da experiência extrema do cativeiro. O elo entre estes dois mundos separados são as imagens do “cativeiro represo dos sentidos” e da comporta que se abre, é um elo meramente imaginário porque “a matéria dura de que é feita a vida” fica inalterada. Este poema, por partir de uma situação pessoal de limite e ao mesmo tempo encontrar meios literários adequados para transportar a sua mensagem, consegue não só exprimir, de uma maneira universal, o sofrimento do indivíduo preso, mas transforma-se ao mesmo tempo numa acusação. A mais-valia do texto reside, a meu ver, exactamente no facto de essa acusação não ser directamente expressa por palavras.

Por fim, e no fim da minha (espero) breve intervenção, convido-os a olhar um pouco mais de perto o poema “Benditos”.

Já fui neve no mar
Já fui espada na mão
Já fui a corda
Da lira a vibrar

Já fui servo de um Deus
Vida e morte num momento
Já nasci no barlavento
Já fui como a erva do chão

Bendito seja o pão
Bendita seja a dor
Benditas as portas do amor
Já fui favo de mel
Cajado de pastor
Já fui a nuvem correndo no céu

Já fui ceptro de um rei
Arco-íris num instante
Já fui vento do Levante
Já fui andarilho e cantor

Bendita seja a paz
Bendita sejas tu
Benditos os peixes do azul

Não há, na literatura que conheço, um texto de despedida que mais me comova. E não é por ter conhecido pessoalmente José Afonso.

Só há duas formas de verbo ao longo do poema: o passado que nomeia tudo o que o “eu” já foi “em vida” e o conjuntivo que projecta o desejo da bênção num futuro que já não faz parte do texto (e do tempo do “eu” que fala). De entre aquilo que o “eu” já foi, aparecem fenómenos da natureza, como “a neve no mar”; instrumentos como a “espada na mão”; aparece a caracterização como “servo de um Deus” e “andarilho e cantor”; momentos existenciais como vida/nascimento e morte. É um inventário de identidades de quem parte e se quer reassegurar daquilo que já foi.

E a partir dessa (s) identidade (s) que nitidamente destroem as fronteiras entre o que é considerado humano e não-humano, é proferida a bênção a todos os aspectos pretensamente simples da vida como o pão e a paz, a beleza e o amor, em suma, à criação.

Mas onde fica quem abençoa? Não há presente no poema, a não ser o acto de fala de quem se lembra daquilo que foi e que deixa um legado. É um legado de uma pessoa que já está a partir e que fez as pazes com todos os seus caminhos e desvios. Se olharmos de perto as enumerações que surgem no texto, vemos contradições. Quem foi espada na mão, não foi, ao mesmo tempo, favo de mel; quem foi cajado de pastor, não foi, ao mesmo tempo, andarilho e cantor. Mas quem foi tudo o que o texto diz, em momentos diferentes, sem renegar nada do seu passado, encontra-se no lugar certo.

A despedida poética e a outra despedida de José Afonso não se fizeram com amargura. Por sugestão dele, o título do último disco estava para ser “Nem o pai morre nem a gente almoça”. E é espantoso que um dos traços mais marcantes da sua obra seja a força que dá para viver. Deveria ouvir-se mais a sua música, ler mais os seus textos. Pode viciar, mas os efeitos secundários são benéficos.

Elfriede Engelmayer

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