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Poesia
Home Archive by Category "Poesia"

Category: Poesia

BibliografiaPoesia
18/11/2022By admin-aja

José Afonso – Obra Poética

Está a chegar o livro “José Afonso – Obra Poética” (Editora Relógio D’Água), 4ª edição do livro “José Afonso – Textos e canções”, publicado pela primeira vez em 1983, e que conta com quatro poemas inéditos em livro, escritos nos anos 50 e 60.

Podem já encontrá-lo na loja da AJA. Os envios serão feitos a partir de 28 de novembro.

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Homenagens e Tributos 2019Poesia
15/02/2019By AJA

(Cascais) Lia Gama, António Simão e João Meireles lêem poemas de José Afonso na Casa Sommer, dia 16 de março, pelas 18,30 horas

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No sábado 16 de março, pelas 18.30, Lia Gama, António Simão e João Meireles lêem poemas de José Afonso na Casa Sommer, em Cascais, numa iniciativa conjunta dos Artistas Unidos, Fundação D. Luís e Câmara Municipal de Cascais, integrada no ciclo de poesia “Em voz alta”.

José Afonso

por Lia Gama, António Simão e João Meireles

JOSÉ AFONSO nasceu em Aveiro em 1929, filho de um magistrado e de uma professora primária. A infância reparte-se entre Aveiro, Angola, Moçambique, Belmonte e Coimbra. Em 1953 grava os primeiros discos, com «Fado das Águias» e outras canções. Em 1960 grava a «Balada de Outono» e regressa a África em 1964 como mestre-escola, experiência que se revelará fundamental na sua formação política. Expulso do ensino por razões políticas, dedica-se mais assiduamente à música e inicia um período de gravações regulares com «Cantares do Andarilho» (1968). Participa activamente no III Congresso da Oposição Democrática, em Aveiro, em Março de 1973 (onde estreia em público «O Que Faz Falta») e envolve-se na acção politica com grupos de vários sectores da Esquerda, desde o PCP à LUAR. Publica «Venham mais Cinco» (73). Em 29 de Março de 1974 participa no Encontro da Canção, no Coliseu dos Recreios, onde a censura não lhe permite cantar mais do que duas canções: «Milho Verde» e «Grândola Vila Morena». Em 1983 realiza os últimos espectáculos, nos coliseus de Lisboa e Porto. Publica o disco «Ao Vivo no Coliseu» e um belíssimo LP de originais, «Como Se Fora Seu Filho». Em 1985 publica o derradeiro disco, «Galinhas do Mato», onde já só dá voz a dois dos temas. Os restantes têm interpretações de Janita Salomé, Helena Vieira, Luís Represas, Né Ladeiras e José Mário Branco. Morreu em Setúbal em 1987.

https://www.fundacaodomluis.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=672&catid=72

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Poesia
04/02/2014By AJA

Sobre a poesia de José Afonso

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Mais informação

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Alexandre MartinsAssociação José AfonsoHelena AfonsoPoesiaSem categoriaTertúlias
18/03/2013By AJA

Imagens da última tertúlia

Tertúlia “Intervenção e Surrealismo” com Alexandre Pereira Martins (da Universidade de Colónia – Alemanha), autor de uma tese de doutoramento sobre a obra poética de José Afonso, e Helena Afonso.
Casa da Cultura de Setúbal, 17.3.2013

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Alexandre MartinsAssociação José AfonsoPoesiaTertúlias
14/03/2013By AJA

Tertúlia em Setúbal

aja

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AJA AveiroAlexandre MartinsAmigos maiores que o pensamentoNúcleos AJAPoesia
11/03/2012By AJA

“Intervenção e Surrealismo” na AJA Aveiro

Uma tarde de sol fabulosa e com muito calor no centro da cidade de Aveiro – alguns foram para a praia, mas outros ficaram connosco na Associação Cultural Mercado Negro a ouvir e a falar da obra poética do Zeca Afonso.
Um agradecimento especial ao Grupo Poético de Aveiro, na pessoa de Rita Capucho, que enriqueceu a sessão com a sua voz ao declamar os poemas do Zeca, escolhidos pelo Alexandre Martins, na sua palestra “Intervenção e Surrealismo” em torno da obra poética de José Afonso.
Ao Alexandre, agradecemos a disponibilidade e entusiasmo com que partilhou connosco alguns apontamentos, retirados da sua tese de doutoramento “Reconstrução da Poética do Cantor-Autor e poeta português José Afonso (1929-1987)”, investigação inédita sobre a obra integral do cantor, quer musicada quer não musicada e concluída na Alemanha em Julho de 2011.
Os nossos agradecimentos em particular ao Marcos Lança da Guesthouse e ao João Peça do Mercado Negro que como sempre nos deram todo o apoio.
Obrigado ainda a todos os que encheram a sala e proporcionaram mais um fim de tarde de partilha, desta feita da poesia do Zeca.

Iniciativa integrada no Projecto “Amigos Maiores que o Pensamento”

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Homenagens e tributos (2009)Poesia
15/09/2009By AJA

A poesia de José Afonso ouviu-se no canal de Aveiro

No dia 12 de Setembro, numa acção de parceria com a Livraria Buchholz, o Grupo Poético de Aveiro espalhou pela cidade a poesia de José Afonso.

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Homenagens e tributos (2009)Poesia
26/08/2009By AJA

A poesia de José Afonso no canal central de Aveiro

Para os que ainda não tiveram o prazer de participar nos passeios poéticos na ria de Aveiro (Canal Central) e para aqueles que queiram repetir a experiência, propomos uma nova viagem no próximo dia 12 de Setembro, pelas 21h30m.
Ponto de encontro: cais de embarque dos barcos moliceiros, em frente ao posto de Turismo da Rota da Luz.

Tema: José Afonso
Todos poderão participar activamente lendo poemas de José Afonso ou muito simplesmente ouvir e desfrutar do ambiente poético.
Esta será a última viagem poética de 2009 organizada pela Livraria Buchholz, com a colaboração do Grupo Poético de Aveiro. Tem a particularidade de ser feita à noite e fazer parte das iniciativas de homenagem a José Afonso na cidade que o viu nascer.
É grátis, mas sujeita a inscrições que serão feitas na Livraria Buchholz a partir de hoje. Se preferirem, pode-se fazer as inscrições dos interessados.

“Viagem poética no canal central de Aveiro”
12 de Setembro pelas 21h30m
Grupo Poético de Aveiro
Inscrições limitadas a 30 lugares.

Via “Oitenta anos de Zeca”

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80 anos de ZecaPoesia
23/08/2009By AJA

No Clube Literário do Porto

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ColóquiosPoesia
28/05/2009By AJA

Colóquio “A poesia de José Afonso”

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Pi de la SerraPoesia
04/05/2008By AJA

A tota a vela

Letra que o Zeca ofereceu a Pi de la Serra. O Pi de la Serra teve, nos anos 80, um programa na TV3 em que convidava cantores, estrangeiros sobretudo, para conversas sobre música. O Zeca foi um dos convidados.

É a tal canção. Primeiro em Catalão, que é como ele a canta. Depois em Castelhano, porque no disco (Quico, Rendeix-te!, 1988), também aparece. Indicamos ambas as traduções (o Pi de la Serra deve ter também traduzido do Português ele próprio) para, caso este texto não esteja no livro, estejamos mais próximo do original, do Zeca.

A Tota Vela

Reviure un entreacte,
respirar ben fondo,
vèncer la mort
com qui patina,
curar-ho tot
com es fa a Roma,
amb estricnina.

Fer compliments
al veí sense descans
i no oblidar
el compte de la fleca,
ser d’aquest món
d’aquest carrer, d’aquest merder,
sense renegar l’olor.

Enviar el Kipling
a fer punyetes,
anar a tota vela,
cuidar les mareselvas al serè,
morir a Tokio
víctima d’un infart,
creuar amb una nena el “Paço d’Arcos”.

Sorgir un dia
mort de fatiga
entre diaris
embolicat i margarina,
imaginar
que és divendres dia sant
per casar-se de nou i tenir nens.

Enviar al Pirandelo
mil abraçades,
pel cable submarí
foradar o fugir,
i dir-se faquir
al segle vint,
posar-se fang a les sabates,
ser daltònic,
tornar-se supersònic.

Agora em Castelhano

A Toda Vela

Revivir un entreacto,
respirar hondo,
vencer a la muerte
como quien patina,
curarlo todo
como se hace en Roma,
con estricnina.

Hacer cumplidos
al vecino sin descanso
y no olvidar
la cuenta del panadero,
ser de este mundo,
de esta calle, de este lance,
sin renegar el olor.

Enviar a Kipling
a hacer puñetas,
ir a toda vela,
cuidar las madreselvas al sereno,
morir en Tokio
víctima de un infarto,
cruzar con una niña el “Paço d’Arcos”.

Surgir un dia
muerto de fatiga
entre periódicos
envuelto en margarina,
imaginar
que es viernes día santo
para casarse y tener niños.

Enviar a Pirandelo
mil abrazos,
por cable submarino
agujerear o huir,
y llamarse faquir
en el siglo veinte,
ponerse barro en los zapatos,
ser daltónico,
volverse supersónico.

Mais uma descoberta do nosso amigo Carlos Eduardo.

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ManuscritosPoesia
22/07/2007By AJA

Texto manuscrito de “Os vampiros” (1968)

Retirado do “Dossiê Zeca” do Centro de Documentação 25 Abril

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Elfried EngelmayerPoesia
19/07/2007By AJA

A poesia não musicada de José Afonso

“O poeta José Afonso que vive na sombra de Zeca Afonso, cantor político”Elfried Engelmayer.

De forma a demonstrar este facto e de forma a balançar cada vez mais as duas facetas, demos lugar no sítio da AJA à poesia não musicada de José Afonso. Com a regularidade possível iremos mudando os poemas.

Tu morres todos os dias

Tu morres todos os dias
libertando telefonemas
diante da minha mágoa
exposta à ira dos dias
levo-te cravos vermelhos
flores recentes da estação
Morres e vais caminhando
sobre uma estrada de fumo
o lume que nos sustenta
Já não cheira não tem vida
Às vezes vens-me à lembrança
descalça ao longo da praia
Vivo terrores de madraço
Com dívidas acumuladas
Seguindo de perto o tráfego
Saberei um dia amar-te
Tu morres tu pontificas
eu respiro a tua sombra
Ai repouso do guerreiro
Sobre o abismo repousas

Azeitão, 31 de Março de 1981.

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Poesia
15/07/2007By AJA

Dos muitos filhos grados | José Afonso

Dos muitos filhos grados
que tiveste
nem um se lembra
da velha casa térrea
onde concebeste sem pecado
e estragaste os teus dias
entre a corda da roupa
a cozinha e o homem
Amanhã sem aviso
apanhas um eléctrico
mudas de roupa
acompanhas
o trajecto dos astros
De repente
é o arco-íris em volta
o guarda-freio a volúpia
a rua o beiral
duma grande família

Não voltes

Tal como Elfried Engelmayer nos vem avisando desde há muito tempo, temos que fazer mais pelo “poeta José Afonso que vive na sombra de Zeca Afonso, cantor político”. Colocá-lo nos livros escolares, colectâneas de poesia contemporânea, organizar colóquios sobre a sua poesia musicada e não musicada, surpreender em todos os momentos possíveis com textos ainda desconhecidos e incrivelmente belos como este acima publicado. Para mais poemas podem aceder à secção “poesia” no site da AJA. Cá esperamos pelas vossas sugestões.

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Poesia
15/07/2007By AJA

Quadras de José Afonso

Nestas quadras vão notícias
P’ra quem está mal informado
Dá-me o tom desta cantiga
Quero estar bem preparado

Nestas quadras vão notícias
P’ra quem está mal informado
Dá-me o tom desta cantiga
Quero estar bem preparado

Quero estar bem preparado
O Sol e Dó bate fino
Quando o compasso é folgado
Entra melhor no ouvido

Os ricos mentem ao povo
Com artes de feiticeiro
Dizem que são pela Pátria
Mas só pensam no dinheiro

Hoje os tempos estão mudados
Mal vai para quem trabalha
Sai das tuas tamanquinhas
E luta contra o canalha

Sobem as rendas de casa
A habitação é um luxo
Mas há quem tenha palácio
Piscina, parque e repuxo.

Foi dar a Lisboa um Pinto
Habitar um aviário
Fizeram dele ministro
Mas não passa dum falsário

Nunca vi na minha vida
De uniforme ou à paisana
Um guarda republicana
Bater num capitalista

Tu chamaste-me comuna
Pensando que me ofendias
Com esse nome viveu
Paris os seus melhores dias

Haja ganas com fartura
P’ra levantar o país
Quando o mal não tem remédio
Corta-se o mal pela raiz

Mineiros da nossa terra
Abrindo covas no fundo
Pescadores lá do mar alto
Que deram lições ao mundo

Muita gente prevenida
Grita e berra que se farta
Antes que seja crescida
Há que matar a lagarta

Cãezinhos de pelo fino
Pela trela passeando
São os últimos suspiros
Que a Europa nos está mandando

Hoje há Sandras e Patrícias
Sinal dos tempos que vão
Acabaram-se as Marias
Tudo vem da imitação

Sónias, Mónicas, Sofias
E Carlas ao desbarato
Ninguém quer um fato próprio
Tudo quer mudar de fato

Algarve, o que vejo agora?
Fazem de ti capoeira
Para pedires uma bica
Falas em língua estrangeira

Vida cara, vida cara
Onde irá isto parar?
Pergunta a dona de casa
Sem ter com que se amanhar

É já miséria doirada
Ver comida boa e farta
E pagar uma fortuna
Por um quilo de batata

É já miséria revolta
Ver a loiça sobre a mesa
Quem fez o cabaz da fome,
Rouba, rouba concerteza

Tudo são palavras mansas
Tudo são palavras caras
Avança, meu povo, avança
Avança que já não páras

Há de tudo nesta feira
Juncada de rosmaninho
Menina, toma cautela
Que andam chulos p’lo caminho

Na sociedade marcada
O sistema é que não presta
E p’ra manter a fachada
Há sempre um tambor da festa

Tenho debaixo da língua
O princípio duma trova
Hei-de encontrar uma rima
Dedicada à gente nova

A velhice não se enjeita
Como o lixo da calçada
País que os velhos rejeita
Não é país, não é nada

Numa escola de Setúbal
Ficou surda uma menina
Tanta pancada lhe dera
A professora malina

Discursos, festas, colóquios
Não chegam (nem caridade)
O melhor são as crianças
Disse o poeta, e é verdade

Seja cada dia um ano
Que um ano não dá p’ra mais:
Colóquios, festas, sorrisos,
Missas internacionais

Faz aqui falta uma trova
Duma criança oprimida;
Ela que fale da fome,
Ela que fale da vida

Ela que fale da pomba
Que tem a asa ferida;
Ela que fale da nuvem
Que encobre a terra poluída

Veio uma carta de longe
Dum amigo de Bragança
Que fugiu daqui a salto
E hoje vive na França

Diz que trabalha na “chaine”
Como uma besta de carga
E que não foi de vontade
Que deixou a pátria amada

Mandou o filho à escola
Onde só fala francês
Quando as saudades apertam
Diz que vai voltar de vez

Mas sabe que o desemprego
É um inimigo real
E assim se vai conformando
Longe da terra natal

O emigra erga a mola
Num país que não é seu
Produz fortunas alheias
Com as mãos que Deus lhe deu

Disse-me um dia um careca
Quando uma cobra tem sede
Corta-lhe logo a cabeça
Encosta-a bem à parede

Quando uma lancha se afunda
Nunca a culpa é do patrão
É sempre de quem se amola
Lá no fundo do porão

Esta terra será nossa
Quando houver revolução

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Elfried EngelmayerPoesia
17/02/2007By AJA

Claro e escuro, mas não a preto e branco

Toda a verdadeira obra de arte está sujeita à acção do tempo, que se encarrega de a lapidar até ela revelar o seu valor intemporal. Por isso, muitas vezes, quando um artista morre, entra numa espécie de limbo. Os que partilharam os problemas sociais e políticos a que ele deu expressão ficam ligados, também emocionalmente, a essa obra. Mas às gerações mais novas – e tendo em conta, como é óbvio, os vinte anos que já passaram sobre a morte do Zeca – falta essa vivência, essa referência. Paradoxalmente, para se descobrir e redescobrir o que a obra de José Afonso realmente significa para Portugal, ainda é preciso algum tempo e, sobretudo, trabalho. Um trabalho que o leve aos mais novos, às escolas, que ultrapasse de longe (mas sem o ignorar!) o conhecimento rudimentar de algumas das canções mais populares, que o valorize não só como músico genial, mas também como poeta e artista que, como poucos, se soube renovar ao longo das décadas e demonstrou uma sensibilidade sismográfica em relação aos problemas do seu tempo. Ou seja: um trabalho de memória que não o transforme numa múmia, um trabalho científico que não o aprisione em grelhas interpretativas, um trabalho pedagógico que não o torne numa chatice. Uma festa viva, plural, tumultuária.
Há quem diga que o Zeca foi um gigante. E, de facto, essa coincidência rara do criador musical com o poeta e intérprete já em si o torna numa figura de excepção. Mas os que o conheceram gostariam com certeza de lembrar mais um dos seus dons que atravessa todos os outros aspectos da sua vida. Falo da sua pureza humana (não confundir com ingenuidade). Ele soube não esconder a criança que existia em si, não rasurar medos, e por isso não criar muros entre si e os outros. Essa parece-me a fonte da sua sensibilidade e solidariedade, do seu sentido de justiça. E essa também é uma das razões por que a sua obra, depositária da sua dimensão humana, sobreviver quando já nenhum dos que conviveram com ele esteja vivo.
Ao olharmos de perto os textos líricos de José Afonso, há os que parecem simples, mas poucas vezes o são, (como exemplo mais conhecido, “Grândola, vila morena”) e cuja pretensa simplicidade vem do facto de serem facilmente cantáveis. Outros, herméticos, que, além de nos exigirem o conhecimento das circunstâncias em que nasceram, também do ponto de vista musical só dificilmente são assimiláveis, como por exemplo “Era um redondo vocábulo”. E ainda há os muitos outros, não musicados, quase desconhecidos, à espera de reconhecimento por parte de uma crítica literária preconceituosa para a qual a rotulagem de José Afonso como cantor político serve de motivo para o ignorar como poeta.
Alguns dos seus textos, inspirados em formas populares, de facto parecem simples. Mas será que a poesia popular alguma vez foi simples? Para prova em contrário basta a leitura atenta dos Cancioneiros. E basta também pegar num dos poemas do Zeca, de cariz mais popular, para percebermos a sua mestria formal e densidade poéticas. Cito, a título de exemplo, a “Canção de embalar” do LP Cantares do andarilho (1968):

Dorme meu menino a estrela d’alva
Já a procurei e não a vi
Se ela não vier de madrugada
Outra que eu souber ser p’ra ti

Outra que eu souber na noite escura
Sobre o teu sorriso de encantar
Ouvir s cantando nas alturas
Trovas e cantigas de embalar

Trovas e cantigas muito belas
Afina a garganta meu cantor
Quando a luz se apaga nas janelas
Perde a estrela d’alva o seu fulgor

Perde a estrela d’alva pequenina
Se outra não vier para a render
Dorme qu’inda a noite é uma menina
Deixa-a vir também adormecer

Essa densidade que acabei de referir deve-se ao uso, nas quatro estrofes com versos de nove sílabas, à chamada técnica de leixa-pren que retoma elementos do último verso de uma estrofe para os integrar e alargar no primeiro verso da estrofe seguinte. Assim nasce um tecido textual em que o fim do poema remete outra vez para o início. A voz do adulto tem a função de sossegar a criança, de a acompanhar na sua viagem para o sono, mas ao mesmo tempo as imagens poéticas ganham uma autonomia e grandeza que ultrapassam a compreensão do menino. A estrela d’alva, visível ao amanhecer, é o planeta Vénus, também denominada de estrela da tarde, visível ao cair da noite. É a ela que o cantor delega a protecção da criança e, por ela ainda não ter aparecido, a substitui. Mas essa substituição , ao nível do texto, é dupla. Outra estrela tomar o lugar da estrela d’alva na ausência dessa, porque a criança, para não se sentir abandonada na noite, necessita, se não da luz concreta e real, pelo menos da ideia da permanência. Por isso, a voz do cantor evoca as trovas e cantigas, pondo todo o universo nocturno ao serviço do menino e colocando-o numa espécie de redoma para que nada de mal lhe possa acontecer. Ao prometer a estrela para a manhã seguinte ele garante a restituição da ordem visível em que a criança se move.
A estrela d’alva é o elo entre a noite e a manhã, a maior estrela no céu na perspectiva humana, mas no fim do poema o cantor torna-a pequena, à dimensão da criança, para a integrar no seu mundo infantil, tal como procede com a noite, transformada em menina cansada.
A singular beleza desta “Canção de embalar” reside na sequência das suas imagens, em que o ponto de partida é o menino pequenino, para depois evocar o universo todo e, no final, reduzi-lo ao tamanho de uma criança: um acto de amor transformado em cantiga.
Num texto lírico não musicado, “Fui ontem ao Norte”, que deve ter sido escrito nos anos que precederam o 25 de Abril, ou seja, em proximidade temporal com a “Canção de embalar”, o tema da opressão política invade a linguagem poética e torna-a hermética.

Fui ontem ao Norte
era ainda cedo
guizos tremiam numa feira de gado
Caras extintas por dentro
Caíam das janelas
Perguntei se era ali
a batina do cacique
a mentira das reses
nos açougues
Ao longo da torreira
Cresciam as uvas
De súbito
fechei os olhos
Sons estridentes
rompiam as paredes
Duma casa em ruínas
A suástica luzia
num círculo
de sinais obscuros
Como a morte
Fez-se noite
Ergui o punho
À onda que passava

À primeira leitura, o poema parece “contar” um incidente numa aldeia algures no norte do país em que a irrupção dos sinais do fascismo contradiz uma aparente calma e pacatez. No entanto, deste o início do texto o tom é tudo menos idílico, porque não existe voz humana a acompanhar o tinir alegre dos guizos, e as “caras extintas por dentro” acusam uma ameaça não expressa. O único ser humano que fala é o elemento que vem de fora, o “eu lírico”, um intruso que ousa fazer perguntas acerca do cacique (de batina…) e do gado que vai ao engano para o açouge, uma provocação a que ninguém responde.
E é exactamente neste momento que o texto passa para um nível diferente. Porque, como é que se exprime, em palavra poética, o que não é expresso em palavras? Como se torna visível a indesmentível verdade da opressão? José Afonso opta por um paradoxo. Ao fechar os olhos, como se fosse no negativo de uma fotografia, o que estava oculto sobressai iluminado na sua mente. Sons estridentes sobrepõem-se aos guizos, e a suástica fala mais alto do que o silêncio das caras extintas. Esta imagem é tão forte que inverte as leis da natureza, porque, de repente, a morte ensombra a manhã transformando-a em noite. O punho erguido, sinal de resistência, surge no fim do poema como única resposta possível, não verbal, a uma realidade em que a palavra desapareceu, uma imagem tanto mais expressiva se considerarmos as muitas outras imagens de resistência na poesia de José Afonso. Nomeadamente nos textos musicados, ele invoca a própria cantiga ou a voz do cantor como portadoras de esperança e da vontade de continuar a luta. Mas neste poema, a lógica textual exclui a voz audível como contraponto ao silêncio opressor. A imagem fica: “No pasaran!”
Os dois poemas que escolhi – e que, recordo, terão sido escritos num arco temporal muito fechado – revelam uma fascinante contradição. O primeiro, ao anoitecer, é um texto luminoso. O segundo, à torreira do sol, é um texto ensombrado (não sei se não deveria antes dizer assombrado). Na sua dimensão poliédrica, está neles presente o cunho inconfundível do autor, o seu DNA. E só me resta esperar que as entidades que procuram identificar o genome literário sejam mais rápidas do que as suas congéneres na biologia – que se vão agora dedicar ao cavalo (animal que aliás muito prezo).


Elfriede Engelmayer
(Texto para o debate “José Afonso, a obra poética”, integrado na iniciativa “Com José Afonso, 20 anos de caminho”, organizada pela AJA-Norte (Núcleo da Associação José Afonso) e o Clube Literário do Porto. Porto, CLP, 16 de Fevereiro de 2007
)

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Poesia
02/09/2006By AJA

Insisto não ser tristeza

Insisto não ser tristeza
Soluçar sobre uma mesa

E mais não ser deste mundo
Meter navios no fundo

Num caminho de esqueletos
Sempre se plantam gravetos

E se a velhice for tua
Senta-a no meio da rua.

José Afonso

in «José Afonso – Textos e canções», Relógio D’Água, 2000
Disponível aqui

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Elfried EngelmayerPoesia
19/05/2006By AJA

Texto de Evocação de José Afonso por Elfriede Engelmayer

Núcleo do Norte da Associação José Afonso (AJA) na Câmara Municipal de Matosinhos

As canções de José Afonso foram a porta pela qual entrei em Portugal para ficar. Num verão longínquo, durante o qual frequentei um curso de língua portuguesa em Lisboa, a nossa professora fez-nos ouvir o Zeca. Regressada à Áustria, minha terra natal, e apesar de ainda não conhecer a totalidade da sua produção, decidi escrever a minha tese sobre a sua lírica. Mais tarde, ao longo de um ano em que vivi em Lisboa para iniciar o trabalho de pesquisa, conheci pessoalmente José Afonso – que se tornou meu mestre, não só em relação à sua obra, mas também a este país que ele amava e que ao mesmo tempo o desesperava.

Nesse tempo, o Zeca já era um cantautor consagrado, e no entanto, o meu projecto de tese causou-lhe algum espanto, porque em Portugal ninguém se tinha lembrado de fazer algo de parecido. E mesmo hoje em dia, passados quase vinte anos sobre a sua morte, neste país os seus textos não constam de nenhuma antologia lírica, nem encontramos o seu nome referido nas histórias da literatura portuguesa. Será que a música ensombrou os seus textos?

Não há dúvida de que as numerosas adaptações, variações e reinterpretações e o uso de uma canção de José Afonso em circunstâncias festivas ou reivindicativas provam a sua canonização. Mas por outro lado continuam ignorados os seus textos, musicados ou não, uma obra lírica de mais de 300 páginas, com uma evolução ao longo das décadas, marcada por influências literárias, circunstâncias sociais e desenvolvimento pessoal. Poderia descrever essa evolução como um arco que se inicia com textos inspirados em tradições populares, nos fados e baladas de Coimbra, na lírica de Camões e Pessoa, entre outros, passando por influências surrealistas e fases de grande hermetismo como resposta à censura da época, passando também, logo depois do 25 de Abril, por uma “abertura” discursiva (e nesse aspecto, José Afonso foi um dos poucos no campo da literatura cuja produção reflectiu também formalmente a revolução de 1974). Mas foi também o desencanto que moldou a sua poesia, e naqueles anos entre 1978 e a morte, os seus textos documentam a história deste país e sobretudo a sua história pessoal.

A crítica literária portuguesa tem manifestos problemas em reconhecer um valor autónomo à lírica do Zeca. Se, no universo das canções de intervenção em geral, existem letras que, sem música, perdem a sua força, não é este o caso dos textos de José Afonso. É verdade que a música transforma e intensifica o texto (e poderia aqui lembrar, numa outra escala, as versões musicais que Franz Schubert fez a partir dos poemas de Goethe); mas parece-me óbvio que a autonomia do texto depende simplesmente da sua qualidade e não da circunstância de ser ou não musicado.

Para explicar o fenómeno do desconhecimento de que é vítima ainda hoje em dia o poeta José Afonso, gostaria de desenvolver um pouco mais uma tese que já defendi em outras ocasiões. É o rótulo de “político” que veda a entrada da poesia de José Afonso no campo da literatura reconhecida. Gostaria de deixar bem claro que, em minha opinião, “político” não é apenas um rótulo, mas uma realidade; só que não pode pôr em causa outra realidade, a “estética”. Esse veredicto, aliás, tem uma longa tradição e peca por cegueira e erros de lógica. É mais um gesto de “vade retro” do que um julgamento baseado em critérios científicos.

Senão, vejamos: no caso da lírica de José Afonso, a qualidade de “político” nem sequer é sempre intrínseca ao texto, mas muitas vezes é devida às circunstâncias em que o texto surgiu e em que depois chegou ao público (ouvinte). São disso exemplo “Grândola, vila morena”, mas também os cerca de vinte poemas que nasceram na prisão de Caxias e de que há pouco tempo só conhecíamos como canções criadas pelo próprio Zeca “Era um redondo vocábulo” (do disco Venham mais cinco, de 1973) e “De sal de linguagem feita” (de Fura fura, editado em 1978). Surgiu agora um inédito, que João Afonso interpreta no seu mais recente álbum Outra vida (2006). Trata-se do texto “Ao Zé Letria que também sofre de azia”, escrito em Caxias a 11 de Maio de 1973, e intitulado agora “Bombons de todos os dias”.

O hermetismo inerente a todos esses poemas é a consequência do isolamento físico e psíquico de que José Afonso foi alvo na prisão, mas também da necessidade de cifrar a mensagem.

A suposta contradição entre valores poéticos e políticos que a crítica literária académica tantas vezes invoca, encontra o seu reflexo em abordagens isoladas do poema político sem fazer a ligação dialéctica entre eles, ou seja, a interpretação estética só analisa a forma artística, enquanto a abordagem ideológica só avalia o conteúdo. Mas é paradoxalmente por causa do seu valor “ideológico” no sentido mais lato do termo que o valor artístico do poema político nem sequer é tomado em conta.

E que fazer dos inúmeros poemas de José Afonso que não foram musicados e/ou que não são políticos? Que fazer de facetas do poeta e homem que admirava os textos de Santa Teresa D’ Ávila e de São João da Cruz? Ou que propôs ao Padre Mário fazer um LP inspirado no seu livro Maria de Nazaré com o argumento de que “aquela Maria de Nazaré que canta um Deus que derruba os poderosos dos seus tronos e levanta os pequenos, despede de mãos vazias os ricos e enche de bens os esfomeados é uma mulher revolucionária”? (jornal fraternizar Nº 161, Abril/ Junho 2006. Padre Mário no Café Concerto, “E quanto ao poder que vá para a puta que o pariu!”)

O que distingue os textos políticos de José Afonso do chavão e os torna poesia não é diferente da qualidade que torna poesia os seus textos não-políticos. O chavão é sempre redução, é o chapéu que cobre as particularidades. Mas a literatura nasce sempre do particular, do subjectivo, para poder ser lida como universal. A título de exemplo gostaria de pegar em dois poemas, “Inúteis eram as vozes”, texto não musicado e escrito em Caxias, e “Benditos”, musicado e parte do disco Galinhas do mato.

Inúteis eram as vozes e as palavras
O cativeiro preso dos sentidos
Abre-se uma comporta e nada altera
A matéria dura de que é feita a vida
Ferros pedaços brancura nunca vista
E um rio que não pára nem descansa
Que perfeita modorra não se esconde
Nesta vasa indecisa e aos ouvidos
Chegam silvos cantantes gargalhadas
E tudo dói como se fora treva
Como se fora vinho esta névoa

Mesmo se não soubéssemos onde e em que circunstâncias nasceu este poema, percebíamos que o texto assenta no contraste entre um fora e um dentro, entre um mundo em movimento povoado de sons de barcos e pessoas, onde o tempo passa normalmente, e a clausura de um indivíduo separado desse mundo. Isolamento e dor caracterizam a sua situação, a inutilidade e, provavelmente, a impossibilidade de comunicação. Os muros da prisão não são nomeados. Mas também não é preciso, eles estão lá, no texto. O poema poderia não tratar da prisão de Caxias, mas sempre tratará da experiência extrema do cativeiro. O elo entre estes dois mundos separados são as imagens do “cativeiro represo dos sentidos” e da comporta que se abre, é um elo meramente imaginário porque “a matéria dura de que é feita a vida” fica inalterada. Este poema, por partir de uma situação pessoal de limite e ao mesmo tempo encontrar meios literários adequados para transportar a sua mensagem, consegue não só exprimir, de uma maneira universal, o sofrimento do indivíduo preso, mas transforma-se ao mesmo tempo numa acusação. A mais-valia do texto reside, a meu ver, exactamente no facto de essa acusação não ser directamente expressa por palavras.

Por fim, e no fim da minha (espero) breve intervenção, convido-os a olhar um pouco mais de perto o poema “Benditos”.

Já fui neve no mar
Já fui espada na mão
Já fui a corda
Da lira a vibrar

Já fui servo de um Deus
Vida e morte num momento
Já nasci no barlavento
Já fui como a erva do chão

Bendito seja o pão
Bendita seja a dor
Benditas as portas do amor
Já fui favo de mel
Cajado de pastor
Já fui a nuvem correndo no céu

Já fui ceptro de um rei
Arco-íris num instante
Já fui vento do Levante
Já fui andarilho e cantor

Bendita seja a paz
Bendita sejas tu
Benditos os peixes do azul

Não há, na literatura que conheço, um texto de despedida que mais me comova. E não é por ter conhecido pessoalmente José Afonso.

Só há duas formas de verbo ao longo do poema: o passado que nomeia tudo o que o “eu” já foi “em vida” e o conjuntivo que projecta o desejo da bênção num futuro que já não faz parte do texto (e do tempo do “eu” que fala). De entre aquilo que o “eu” já foi, aparecem fenómenos da natureza, como “a neve no mar”; instrumentos como a “espada na mão”; aparece a caracterização como “servo de um Deus” e “andarilho e cantor”; momentos existenciais como vida/nascimento e morte. É um inventário de identidades de quem parte e se quer reassegurar daquilo que já foi.

E a partir dessa (s) identidade (s) que nitidamente destroem as fronteiras entre o que é considerado humano e não-humano, é proferida a bênção a todos os aspectos pretensamente simples da vida como o pão e a paz, a beleza e o amor, em suma, à criação.

Mas onde fica quem abençoa? Não há presente no poema, a não ser o acto de fala de quem se lembra daquilo que foi e que deixa um legado. É um legado de uma pessoa que já está a partir e que fez as pazes com todos os seus caminhos e desvios. Se olharmos de perto as enumerações que surgem no texto, vemos contradições. Quem foi espada na mão, não foi, ao mesmo tempo, favo de mel; quem foi cajado de pastor, não foi, ao mesmo tempo, andarilho e cantor. Mas quem foi tudo o que o texto diz, em momentos diferentes, sem renegar nada do seu passado, encontra-se no lugar certo.

A despedida poética e a outra despedida de José Afonso não se fizeram com amargura. Por sugestão dele, o título do último disco estava para ser “Nem o pai morre nem a gente almoça”. E é espantoso que um dos traços mais marcantes da sua obra seja a força que dá para viver. Deveria ouvir-se mais a sua música, ler mais os seus textos. Pode viciar, mas os efeitos secundários são benéficos.

Elfriede Engelmayer

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AJA NortePoesiaTertúlias
25/01/2006By AJA

A poesia de José Afonso no Porto

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