José Afonso lembrado um pouco por todo o País | “Primeiro de Janeiro”
21 de Fevereiro de 2007
21 de Fevereiro de 2007
Abílio Hernandez, Carlos Correia, José Jorge Letria, José Mesquita, Manuel Freire, Rui Pato.
Nos 20 anos sobre a morte do Zeca Afonso vamos falar do homem, do poeta, do cantor.
Durante a sessão irá ser passada uma gravação audio inédita.
Livraria Almedina
Estádio Cidade de Coimbra
Rua D. Manuel I, n.° 26 e 28
Coimbra
“Um Redondo Vocábulo” é o nome do espectáculo que traz ao território João Afonso e João Lucas, num “concerto intimista” em que vão interpretar uma selecção das canções “menos conhecidas” de José Afonso. As receitas do concerto, que tem lugar amanhã, às 20:30, no pequeno auditório do Centro Cultural, revertem a favor da construção de uma escola em Timor-Leste. A iniciativa partiu da Casa de Portugal em Macau que, há um ano, visitou aquele país e se apercebeu das necessidades das crianças de uma cidade do interior.
De acordo com a presidente da direcção da Casa de Portugal, Maria Amélia António, a ideia surgiu também por este o ano do 20o aniversário da morte de Zeca Afonso. “A homenagem ao homem que ele foi seria fazer algo que soubéssemos que ele também faria com muito gosto”, salientou.
Para os músicos, o projecto, que é recente, cresceu depois do convite da Casa de Portugal e principalmente pela causa a que se dedica. “Temos prazer em ajudar a pôr uns quantos tijolos na escola de Timor-Leste”, afirmou João Afonso explicando que também o seu tio, José Afonso, esteve muito ligado à causa timorense.
O facto de terem seleccionado temas menos familiares ao público pretende ser uma forma de “contribuir para uma leitura diferente de José Afonso”, frisou João Afonso. Por sua vez, João Lucas considera que a escolha das músicas não obedeceu a um motivo específico mas nasceu “de uma mistura de circunstâncias que estão mais relacionadas com o gesto estritamente musical de José Afonso e não sócio-político”. Isto porque, de acordo com o pianista, “por vezes dá-se muita importância a essas questões e uma parte do génio fica perdida”.
As canções têm todas em comum o facto de serem “brilhantes e complexas do ponto de vista musical, ao nível do carácter intuitivo, no contexto da música popular”, referiu João Lucas. A cumplicidade entre os músicos facilitou o arranjo dos temas. “Temos um grande respeito pela obra de José Afonso e uma proximidade muito grande com as canções”, sublinhou João Lucas.
Através da voz de João Afonso e da música ao piano de João Lucas, este pretende também ser um passeio cronológico por “um momento muito importante da vida de José Afonso que foi a infância”, destacou o vocalista do projecto “Um Redondo Vocábulo”. É uma leitura do autor “no sentido de mostrar, através de alguns poemas e canções, a atitude de liberdade de José Afonso”.
Relativamente ao concerto de amanhã à noite, e porque depois partem para Banguecoque onde repetem a actuação na Embaixada de Portugal, os artistas consideram que “em Macau a palavra será mais valorizada, porque os textos valem muito pelas palavras”. Para João Afonso, “é um pouco como se Macau servisse de prova dos nove”.
João Afonso, que soma a sua quinta passagem pelo território, confessou que a sua maior curiosidade “é ir à parte velha da cidade e ver como cresceu Macau”. Mas o músico tem outro desejo, que esta passagem pela RAEM o faça criar algo novo, tal como aconteceu quando, em 1999, cá esteve pela última vez e compôs um tema inspirado na cidade.
Durante a actuação no território, que conta com um tema inédito de José Afonso intitulado “Bombons Todos os Dias”, os músicos interpretam também baladas como “Papuça”, “Pombas Brancas” ou “Redondo Vocábulo”.
A Sociedade Portuguesa de Autores associa – se às comemorações do 20º Aniversário da morte de José Afonso, com uma sessão a realizar no dia 23 de Fevereiro, pelas 18.30H, no Auditório Maestro Frederico de Freitas, (Av. Duque de Loulé, 31 – Lisboa) em que serão evocadas a vida e a obra do cantor e autor. Samuel interpretará algumas das suas canções mais conhecidas.Viriato Teles
Myriam Zaluar | 2007-02-18
~ Poesia ~
Paula Seca
Sila Santos
~ Música ~
Jorge Quaresma
Luís Manuel
Fátima Santos
José Luis Iglésias
“Os Fantoches de Kissinger”
“A Morte Saiu à Rua”
“Vejam Mais Cinco”
Sport Club Português 51-55 Prospect Street Newark, NJ 07105
Contactos: Fátima Santos, musicanocoracao1@hotmail.com, www.fatimasantos.com
Quando, em 1978-1979, eu preparava, na Universidade de Paris III – La Sorbonne Nouvelle – a minha pós-graduação – D.E.A – em Estudos Portugueses e Brasileiros- opção Literaturas, no qual se estudava, com o prestigiado Professor Raymond Cantel, literatura de cordel brasileira e poesia popular brasileira, propus fazer uma sessão de seminário sobre a poesia cantada do cantautor José Afonso. Fiz um trabalho de pesquisa e reflexão sobre a obra de José Afonso que não chegou a ser publicado nem em francês nem em português nessa época. Já me foi pedido recentemente que refundisse e actualizasse o texto para ser publicado nas duas línguas. Os inúmeros compromissos que me têm ocupado nestes últimos anos em que, trabalhando sempre sozinha, publiquei finalmente quatro dos meus livros – que reúnem trabalho de uma vida – e trabalhei durante um ano para o volume de Homenagem ao Professor Luís de Sousa Rebelo- Humanismo para o nosso Tempo, não me foi possível tirar uns meses para refundir e actualizar esse meu trabalho sobre José Afonso. Espero fazê-lo ao longo deste ano, depois de concluir entretanto outros compromissos que ainda me esperam.
Entretanto, em 2000, elaborei todo um projecto diferente sobre José Afonso que foi reelaborado e refundido em 2005-2006, para o qual tive, em 2006, o apoio do Prof. Mário Vieira de Carvalho, Secretário de Estado da Cultura. O projecto não foi para a frente em 2006 – era para sair em 2007, nos vinte anos da morte de José Afonso – por falta de subsídios e porque os músicos que convidei para trabalhar comigo exigiam ser muito bem pagos. Tenho esperança de conseguir, através de uma Associação que me apoie, a aquisição de fundos para que tão belo projecto se realize.
Procurei conhecer José Afonso para me ajudar no meu trabalho sobre a sua obra. Eu vivia no estrangeiro e vinha passar férias a Sintra. Então lembro-me de um amigo o acompanhar um dia, no verão de 1978, a Sintra, para nos encontrarmos e falarmos sobre a sua obra. Já a sua saúde começava a ficar debilitada, mas a chama da sua alma do maior génio da música popular portuguesa espraiava o seu fulgor até ao fim, em encontros que se prolongaram durante alguns anos. Esses encontros cimentaram a procura de entendimento da sua obra e contribuíram inesperadamente também para eu ser por ele reconhecida como a pessoa diferente de todas as que o rodeavam – “amiga súbita e diferente”, escreveu na dedicatória de um dos livros das suas canções, então editado por Viale Moutinho. Diferente, penso eu – nunca lhe perguntei a razão – porque estava apenas comprometida comigo própria a tentar entender a sua obra para também a transmitir nas minhas aulas, no tempo em que fui leitora na universidade de Rouen, França, e para escrever o melhor possível o meu estudo.
De regresso a Portugal, eu morava em Colares – Sintra e, ao tentar experimentar todos os graus de ensino, concorri para ser professora de Português e História do então Ciclo Preparatório, na escola Sarrazola, Colares. Para grande surpresa dos meus colegas, uma boa parte das minhas aulas de português, para crianças e jovens adolescentes do ciclo preparatório era o estudo, seguido de canto em coro de canções de Zeca Afonso que ecoavam pelos corredores da Escola. Não me livrei de comentários, porque as pessoas não entendiam por que razão eu tomava esta liberdade. Não raro os alunos diziam no início de cada aula: “Então, stora, qual é a canção para hoje?” E deliciavam-se com a beleza e o sentido profundo das palavras, as melodias a que eram tão permeáveis.
No fim do ano escolar de 82-83, a escola Sarrazola de Colares organizou uma festa no espaço de uma antiga colónia de férias que pertencia então à Quimigal, perto de Almoçageme. Como os ouvidos de toda a gente já se tinham habituado às canções de Zeca Afonso, cantadas em coro pelos meus alunos, pensei que o melhor seria levar folhas para distribuir pelas cerca de quinhentas pessoas entre alunos, professores e funcionários da escola, para a nossa festa. Os meus alunos acharam que era uma excelente ideia. Então eles constituíram-se em vários núcleos espaçados no meio de todos os outros e distribuíram as folhas com as canções de Zeca Afonso, por colegas, professores e funcionários. Para grande alegria e surpresa nossa conseguimos – os meus alunos e eu – pôr toda a escola Sarrazola de Colares a cantar em coro canções de Zeca Afonso. Ele também recebeu esse documento que foi distribuído na festa e soube com muito agrado deste acontecimento que em princípio terá sido único, pelo menos até àquela data, em Portugal. Para mim foi uma experiência extraordinária pôr toda uma escola a cantar.
Estudei canto popular, canto litúrgico, canto gregoriano e canto lírico muito a fundo, ao longo da vida, lutei com muitas dificuldades, tudo à minha custa, com muitas vicissitudes para arranjar acompanhadores, mas nunca desisti, participei em concertos. Em França, os meus amigos gravaram muito do que eu cantava a solo.
O meu maior respeito pela presença única de José Afonso como cantor e autor levou-me a não lhe dizer que eu também cantava. Limitei-me a ouvir o que ele dizia já para o fim da sua vida, quando, para o seu último disco- Galinhas do Mato- convidou cantores e cantoras para cantarem algumas das canções que ele já não podia cantar. E ele dizia, a propósito de uma canção cantada por Helena Vieira: “Afinal escrevo canções que dão para todo o tipo de vozes, até de pessoas, como a Helena Vieira, que cultivam o canto lírico clássico”. Esse foi um dos discretos desafios, entre muitos outros que Zeca Afonso me deixou para sempre.
Espero que os meus dois projectos sobre José Afonso avancem e possam sair até finais deste ano de 2007 ou mais tarde, se for possível e se conseguir apoio financeiro, através de uma Associação que me ajude para este fim. Fica aqui o apelo.
Helena Santos C. Langrouva (14.02.2007).
Dorme meu menino a estrela d’alva
Já a procurei e não a vi
Se ela não vier de madrugada
Outra que eu souber ser p’ra ti
Outra que eu souber na noite escura
Sobre o teu sorriso de encantar
Ouvir s cantando nas alturas
Trovas e cantigas de embalar
Trovas e cantigas muito belas
Afina a garganta meu cantor
Quando a luz se apaga nas janelas
Perde a estrela d’alva o seu fulgor
Perde a estrela d’alva pequenina
Se outra não vier para a render
Dorme qu’inda a noite é uma menina
Deixa-a vir também adormecer
Essa densidade que acabei de referir deve-se ao uso, nas quatro estrofes com versos de nove sílabas, à chamada técnica de leixa-pren que retoma elementos do último verso de uma estrofe para os integrar e alargar no primeiro verso da estrofe seguinte. Assim nasce um tecido textual em que o fim do poema remete outra vez para o início. A voz do adulto tem a função de sossegar a criança, de a acompanhar na sua viagem para o sono, mas ao mesmo tempo as imagens poéticas ganham uma autonomia e grandeza que ultrapassam a compreensão do menino. A estrela d’alva, visível ao amanhecer, é o planeta Vénus, também denominada de estrela da tarde, visível ao cair da noite. É a ela que o cantor delega a protecção da criança e, por ela ainda não ter aparecido, a substitui. Mas essa substituição , ao nível do texto, é dupla. Outra estrela tomar o lugar da estrela d’alva na ausência dessa, porque a criança, para não se sentir abandonada na noite, necessita, se não da luz concreta e real, pelo menos da ideia da permanência. Por isso, a voz do cantor evoca as trovas e cantigas, pondo todo o universo nocturno ao serviço do menino e colocando-o numa espécie de redoma para que nada de mal lhe possa acontecer. Ao prometer a estrela para a manhã seguinte ele garante a restituição da ordem visível em que a criança se move.
A estrela d’alva é o elo entre a noite e a manhã, a maior estrela no céu na perspectiva humana, mas no fim do poema o cantor torna-a pequena, à dimensão da criança, para a integrar no seu mundo infantil, tal como procede com a noite, transformada em menina cansada.
A singular beleza desta “Canção de embalar” reside na sequência das suas imagens, em que o ponto de partida é o menino pequenino, para depois evocar o universo todo e, no final, reduzi-lo ao tamanho de uma criança: um acto de amor transformado em cantiga.
Num texto lírico não musicado, “Fui ontem ao Norte”, que deve ter sido escrito nos anos que precederam o 25 de Abril, ou seja, em proximidade temporal com a “Canção de embalar”, o tema da opressão política invade a linguagem poética e torna-a hermética.
Fui ontem ao Norte
era ainda cedo
guizos tremiam numa feira de gado
Caras extintas por dentro
Caíam das janelas
Perguntei se era ali
a batina do cacique
a mentira das reses
nos açougues
Ao longo da torreira
Cresciam as uvas
De súbito
fechei os olhos
Sons estridentes
rompiam as paredes
Duma casa em ruínas
A suástica luzia
num círculo
de sinais obscuros
Como a morte
Fez-se noite
Ergui o punho
À onda que passava
À primeira leitura, o poema parece “contar” um incidente numa aldeia algures no norte do país em que a irrupção dos sinais do fascismo contradiz uma aparente calma e pacatez. No entanto, deste o início do texto o tom é tudo menos idílico, porque não existe voz humana a acompanhar o tinir alegre dos guizos, e as “caras extintas por dentro” acusam uma ameaça não expressa. O único ser humano que fala é o elemento que vem de fora, o “eu lírico”, um intruso que ousa fazer perguntas acerca do cacique (de batina…) e do gado que vai ao engano para o açouge, uma provocação a que ninguém responde.
E é exactamente neste momento que o texto passa para um nível diferente. Porque, como é que se exprime, em palavra poética, o que não é expresso em palavras? Como se torna visível a indesmentível verdade da opressão? José Afonso opta por um paradoxo. Ao fechar os olhos, como se fosse no negativo de uma fotografia, o que estava oculto sobressai iluminado na sua mente. Sons estridentes sobrepõem-se aos guizos, e a suástica fala mais alto do que o silêncio das caras extintas. Esta imagem é tão forte que inverte as leis da natureza, porque, de repente, a morte ensombra a manhã transformando-a em noite. O punho erguido, sinal de resistência, surge no fim do poema como única resposta possível, não verbal, a uma realidade em que a palavra desapareceu, uma imagem tanto mais expressiva se considerarmos as muitas outras imagens de resistência na poesia de José Afonso. Nomeadamente nos textos musicados, ele invoca a própria cantiga ou a voz do cantor como portadoras de esperança e da vontade de continuar a luta. Mas neste poema, a lógica textual exclui a voz audível como contraponto ao silêncio opressor. A imagem fica: “No pasaran!”
Os dois poemas que escolhi – e que, recordo, terão sido escritos num arco temporal muito fechado – revelam uma fascinante contradição. O primeiro, ao anoitecer, é um texto luminoso. O segundo, à torreira do sol, é um texto ensombrado (não sei se não deveria antes dizer assombrado). Na sua dimensão poliédrica, está neles presente o cunho inconfundível do autor, o seu DNA. E só me resta esperar que as entidades que procuram identificar o genome literário sejam mais rápidas do que as suas congéneres na biologia – que se vão agora dedicar ao cavalo (animal que aliás muito prezo).
“Um Redondo Vocábulo” é o título do espectáculo promovido pela Casa de Portugal em Macau que João Afonso e João Lucas irão protagonizar a 15 de Fevereiro e que percorrerá canções menos conhecidas de Zeca Afonso.
HOMENAGEM A JOSÉ AFONSO
23 E 24 DE FEVEREIRO 2007
CENTRO CULTURAL VILA FLOR GUIMARÃES

PROGRAMA
Integrado na Homenagem a José Afonso, o Cineclube de Guimarães apresenta o filme de António da Cunha Telles, “Continuar a Viver” (Os Índios da Meia Praia) com música de José Afonso. Cunha Telles filmou a experiência levada a cabo após o 25 de Abril de 1974 na comunidade piscatória da Meia Praia, em Lagos. Entre 74 e 76 foi ensaiado um projecto que implicou a substituição das casas tradicionais por moradias de pedra e a tentativa de criação de uma cooperativa de pesca.
Dia 23 EXPOSIÇÃO
“O que faz falta”
MUNDO DA CANÇÃO
Grande auditório
Participação Teatral: TERB; G.T. Coelima; G.T. Campelos; G.T. Citânia Associação Juvenil
Participação Musical: Dino Freitas, Zecafusão – Let the Jam Roll, Ajaforça, Manuel Abreu, Carlos Cunha, Academia de Música Valentim Moreira de Sá, Luís Almeida, Amigos de Guimarães, Tun’obebes, Nicolinos
Dia 24 Concerto 15h30
Banda Militar do Porto
Pequeno Auditório
Dia 24 Teatro 16h30
“O Incorruptível”
de Hélder Costa com interpretação de Gil Filipe
Pequeno auditório
Dia 24 Debate 17h30
Vida e Obra de José Afonso
Alípio de Freitas, Mário Barradas, José Mário Branco, Hélder Costa, José António Gomes
Pequeno Auditório
Dia 24 Concerto 21h30
“Maio Maduro Maio” (José Mário Branco, Amélia Muge e João Afonso) e Ardentía
Poesia de Manuela de Freitas
Grande auditório
Durante o mês de Fevereiro
“Pão com sonho” – pavico
Sacos de pão com biografia e poemas de José Afonso
Organização
Círculo de Arte e Recreio
Associação José Afonso
Associação 25 de Abril
A Oficina
Apoios
Câmara Municipal de Guimarães
CICP – Centro Infantil e Cultural Popular
Convívio
Associação Académica da Universidade do Minho
Cineclube de Guimarães
Pavico
Academia de Música Valentim Moreira de Sá
Bilhetes à venda
Centro Cultural Vila Flor
http://www.aoficina.pt/
Preços
Sexta-feira 10 €
Sábado 15 €
Contactos
Telf. 253 424 700
Fax 253 424 710
E-mail geral@aoficina.pt
A FORMIGA NO CARREIRO (25 Canções para Abril) é um espectáculo musical construído sobre Canções de José Afonso.
Companhia De Mente
Rua Moita Dianteira, Lote 4 1ºD, 3505-416 FRAGOSELA DE CIMA
VISEU – PORTUGAL
companhiademente@gmail.com – Tel. 232488425 / 919822930
Este espectáculo terá como cantor principal José Carlos Barbosa, também “Zeca”. Nasceu em Viana do Castelo, em Agosto de 1956. Desde muito novo acompanhou a evolução da música portuguesa, particularmente dos compositores e cantores da resistência. Desde sempre cantou por todo o norte de Portugal, em diversos espaços públicos, tendo gravado e editado em 2003, um trabalho em CD, “Sentidos Afectos”, com a participação de João Afonso. Trata-se de um percurso pela poesia portuguesa ligada aos afectos.
Este evento conta com a colaboração, entre outros, da Associação José Afonso, que se dedica à preservação e divulgação, nas suas múltiplas facetas, da personalidade e obra do artista e do homem que agora recordamos.
Em 1988 – um ano após Zeca Afonso ter partido, em viagem, para o outro lado da terra (expressão que, semanticamente, parece representar a palavra “utopia”) –, tive a grata oportunidade de entrevistar para um programa da Rádio Felgueiras uma outra figura proeminente do reportório nacional, Eduardo Luís Cortesão, professor catedrático de Psiquiatria, psicanalista, falecido em 1991, e que muito se notabilizou por ter fundado, em 1958, e desenvolvido o Grupo de Estudos de Grupanálise em Portugal.
Na altura, Eduardo Luís Cortesão pertencia a um dos órgãos sociais da AJA, sendo João Afonso dos Santos o presidente da direcção. Obviamente, o programa de rádio, de duas horas, foi inteiramente dedicado ao estudo sobre a vida e a obra do Zeca.
Decorridos dezanove anos após essa entrevista, considero que o seu conteúdo e a sua essencial mensagem se mantêm, praticamente, actuais. Eis um excerto da mesma:
RF – Senhor Professor, o que pensa sobre a vida e a obra de José Afonso?
Eduardo Luís Cortesão – Penso que na história de um país é importante que haja figuras que possam merecer o nosso respeito e que sejam alvo da nossa estima. José Afonso é uma figura histórica do património artístico do nosso povo, porque José Afonso foi um homem com coragem, foi um homem que lutou, foi um homem bom, foi um homem que soube amar, foi um artista e um poeta excepcional.
A mensagem de José Afonso tem sido deliberadamente esquecida e reprimida e não publicada e asfixiada e ofuscada pelos poderes políticos que estão neste país. Isso constitui, para mim, um crime grave, visto que os nossos jovens, a nossa juventude, as mulheres e os homens deste país necessitavam de saber mais pormenores do que foi a vida, do que foi a coragem desse grande português.
RF – Poder-se-á dizer que José Afonso, comportando-se à maneira de uma criança feliz num bairro de lata, era filho do Maio de 68 e pai, juntamente com outros, de Abril de 74. Concorda comigo, senhor Professor?
Eduardo Luís Cortesão – Eu concordo consigo. Mas creio que José Afonso tem dentro dele as raízes e a herança de Viriato, de Afonso Henriques, de todos os lutadores (…). Ele representa algo, que é o filho do povo com nobreza e com modernidade. Isto é muito importante, porque, neste momento, é que no nosso país se pretende falar de modernidade, o país, os homens e as mulheres não estão correctos, estão envelhecendo, estão caquécticos de estupidificação. E José Afonso foi um homem da modernidade, foi um homem que lutou, louvou e defendeu aquilo que é actual mas sempre em relação com o passado e numa perspectiva futura.
(…) Eu conheci José Afonso e convivi com ele muito intimamente durante um período curto de tempo e não tenho qualquer dúvida que o que se justificava neste momento é que se fizesse um filme sobre a vida de José Afonso, um filme sobre a sua mensagem. Porque nós, portugueses, neste momento somos um país triste; somos um país pobre de ideias; somos um país de indivíduos cinzentos, que se levantam tristemente, que rancorosamente labutam pelo seu pão, que fazem negócios doidos. Nós, neste momento, somos um país sem poesia, sem beleza, e José Afonso devia ser evocado, porque foi num outro período histórico de Portugal, em que se viveu, realmente, a escuridão, a estupidificação e o abandono, que ele apareceu e deu alma e esperança a muito de nós.
RF – O que podemos fazer por Abril?
Eduardo Luís Cortesão – (…) Falar com pessoas que sejam jovens como você, falar com jovens como eu, que não desesperamos, não somos pessimistas e continuamos a alertar para aquilo que há de belo e que há de positivo na nossa cultura. (…) Nós não devemos desesperar, não devemos desistir, ainda que, neste momento, já não tenhamos o Zeca Afonso para cantar connosco que é preciso “avisar a malta”. É, talvez, necessário que façamos algo semelhante: que continuemos aquela mensagem tão pura, tão nobre, tão viril, tão corajosa, que esse grande amigo, esse grande português nos deixou.
José Carlos Pereira
No debate/tertúlia: José Carlos Pereira, Alexandre Manuel, Gabriela Alves, Alípio de Freitas, filhos e netas de Adriano, Paulo Alão e Adão Coelho.4 de Fevereiro de 2007amadeuf@gmail.com
Passam tempos difíceis no nosso país e nas nossas gentes.Não são muitas as vozes que se levantam contra injustiças, discriminações emediocridades que nos fazem recordar os tempos miseráveis e desprezíveis davelha ditadura.E não são muitas as vozes de revolta, porque os poderes políticos e culturaisque são o “posso, quero e mando” do nosso dia a dia, pouco tiveram a ver com aluta do povo português e a data libertadora do 25 de Abril.Por isso mesmo, por ignorancia ou cobardia, ocultam a memória das marcasindeléveis desses anos de violencia e de esperança.”Somos nós os teus cantores”, bela imagem do Canto da Primavera e do ” Sol quehá-de nascer”.Para que se recorde que essas palavras são eternas na procurade um Mundo melhor.
HÉLDER COSTA
Elfriede Engelmayer
Felgueiras está na agenda de um acontecimento cultural a nível nacional, no próximo dia 3, sendo o concelho que vai abrir o ciclo de festas nacionais em homenagem a José Afonso, no mês em que se completam 20 anos após a sua morte, ocorrida a 23 de Fevereiro de 1987. Porto e Guimarães são algumas das diversas regiões que vão prestar tributo ao músico, no âmbito de parcerias entre o núcleo do norte da Associação José Afonso (AJA) e colectividades locais. Zeca Afonso, tido como um dos ícones da liberdade em Portugal e figura marcante da música portuguesa, será lembrado em vários pontos do país durante todo o ano de 2007. Na passada terça-feira, a direcção da Casa do Povo da Longra convocou uma conferência de imprensa no Hotel Horus para dar a conhecer oficialmente que aquela associação cultural vai arrancar, no primeiro sábado de Fevereiro, nas suas instalações, com o evento de tributo inaugural ao autor de “Grândola” e que, para tal, conta com a parceria da AJA (núcleo do norte) e com o apoio da Associação 25 de Abril e do Sindicato dos Professores. A iniciativa de Felgueiras denomina-se “Somos Nós os Teus Cantores”, em que será também evocado Adriano Correia de Oliveira, cujo falecimento prematuro completa 25 anos em Outubro, a quem, na altura, a Casa do Povo e a AJA prestarão igual tributo. Nessa conferência de imprensa, estiveram presentes Adão Coelho (presidente da CP Longra), José Carlos Pereira (membro activo das duas associações), o coronel Rui Castro Guimarães, da Associação 25 de Abril, e António Baldaia, do Sindicato dos Professores do Norte.
Música: José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos (1929-1987)
Letra: mote de autor desconhecido; voltas de Luis Vaz de Camões (ca. 1524-1580)
Origem: Setúbal?Data: 1970
Verdes são os campos
Da cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.
Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De erva vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.(…)
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.
Verdes são os campos
Da cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.
Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.
Transcrição musical: Octávio Sérgio (2007)
Texto: José Anjos de Carvalho e António Manuel Nunes
Retirado do blog http://guitarradecoimbra.blogspot.com
20 de Janeiro de 2007 – Júlio Murraças
Link para a petição: http://www.petitiononline.com/ja25ja/petition.html
“Zeca Afonso – 20 Anos Depois” Programa
20 de Janeiro – 22:00h
Espectáculo com CLAUD
Lançamento do disco “Contradições”
Fórum Cultural José Manuel Figueiredo – Baixa da Banheira
Preço dos Bilhetes: 5 euros
27 de Janeiro – 22:00h
Espectáculo com Vitorino
“Tudo! Alentejo, Amor, Lisboa”
Fórum Cultural José Manuel Figueiredo – Baixa da Banheira
Preço dos Bilhetes: 12,50 euros
23 de Fevereiro – 15:45h
Romagem à Capa de Zeca Afonso
Concentração no Cemitério de Setúbal
Organização: Academia Musical 8 de Janeiro
24 de Fevereiro – 21:00h
Poesia – Palavras e Música
Biblioteca Municipal – Pólo de Alhos Vedros
24 de Fevereiro – 22:00h
Espectáculo com Brigada Vítor Jara
“Ceia Louca”
Fórum Cultural José Manuel Figueiredo – Baixa da Banheira
Preço dos Bilhetes: 7,50 euros
24 de Fevereiro
Festa Popular – Desporto, Música, Gastronomia…
Escola Básica 2, 3 José Afonso – Alhos Vedros
Com o título “Quem se despiu na via pública, onte, às 4 da tarde?”, no Diário de Lisboa (7.5.75), Rogério Rodrigues conta a história de uma mulher “de que não se conhecia o nome”, que ontem, às quatro da tarde, fazia strip-tease enquanto dançava, ao centro do cruzamento da Avenida Miguel Bombarda com a Avenida 5 de Outubro.”Visivelmente surpreendidos, alguns espectadores da cena, invulgar em ruas de Lisboa, dirigiram-se para a mulher no intento de a proteger das vistas de quem passava e de quem parava, persuadi-la a vestir-se e abandonar o local. No meio da confusão, surge o repórter António Capela, que começa a disparar. Os populares, indignados com o que consideram ‘uma baixeza moral’, investem sobre ele, insultam-no, empurram-no, agridem-no e só a intervenção do proprietário da drogaria vizinha impede que não lhe partam a máquina. (…) Entretanto a mulher tinha sido levada para o limiar de um prédio com porteira à porta. Já vestida, olhava apática para as pessoas que a rodeavam. Dizem-me que se chamava Maria Teresa. ‘Não sou Maria. Não sou Teresa. Tenho muitos nomes.’ Tinha os lábios encortiçados e recusava o copo de água que lhe ofereciam.””Quem se despiu na via pública, ontem, às 4 da tarde?”. interroga-se o jornalista. que passa a contar o percurso de vida, entretanto averiguado, de uma mulher de 41 anos, divorciada, sucessivamente actriz de revista, emigrante no Brasil, cantora de fado e que agora, no intervalo de tratamentos no Júlio de Matos, “mudava discos no pick-up” de uma boite em Benfica.Usava o nome de Teresa Torga “porque há um escritor que se chama assim” e ela gostava muito de ler, conta uma vizinha. A última vez que o repórter a viu seguia ela num carro da polícia para a esquadra do Matadouro.Zeca Afonso lê a crónica, magnífica, põe-lhe notas e voz, e imortaliza-a.Esta história começa em 1972…
Nesse ano, num dia em Janeiro, uma orquestra holande
sa de instrumentos de sopro nascia em Amsterdão. O nome que adoptaram foi o título da sua primeira composição: ‘De Volharding’. Em tradução literal, qualquer coisa como ‘Perseverança’ ou ‘Persistência’.
Tocavam em tudo o que era manifestações de rua, fosse contra a guerra do Vietnam, pela democratização da universidade ou a favor do aborto. De acordo com a sua filosofia o grupo dirigia-se a si mesmo e não obedecia a dirigentes…
Vinte anos mais tarde, a orquestra ainda existe. Com outros membros, é certo (da formação original, mais não restam do que dois ou três nomes), continuando a tocar temas que fizeram (a sua) história.
Entre os mais conhecidos, alguns que nos são particularmente gratos. Estão neste caso, ‘Grândola’ e ‘Coro da Primavera’. E é aqui que entra o Zeca…
Porque isso aconteceu, já todos os leitores estão neste momento a imaginar. . .
Até 1974, Portugal ‘não existia’ nos meios de informação holandeses.
Para além dos ‘heróis’ nacionais da época (que incluíam símbolos como Fátima, Salazar e Eusébio), parcas eram as referências na imprensa local ao nosso país.
A partir desse ano, e pelas razões que muitos de nós persistem em não esquecer, ‘surgiu’ mais um país no mapa da Europa democrática. Indelevelmente ligado a esse ano e data histórica estava uma canção que passou a fazer parte do património cultural da resistência e solidariedade holandesa. Não passava semana, que a televisão não transmitisse imagens do nosso país, invariavelmente acompanhadas das estrofes da ‘Grândola’.
Na verdade, a canção chegaria à Holanda muito antes do Zeca… Este passaria (praticamente despercebido) pelo circuito emigrante de Amsterdão na sua primeira visita àquela cidade em Setembro de 1974 e, só quase dois anos mais tarde, cantaria pela primeira vez para o público holandês.
Nessa altura, perante uma assistência de 5.000 espectadores que, de braço dado e a uma temperatura ambiente de 13 graus negativos, repetiram as estrofes da canção obrigando o cantor a actuar em dois palcos na mesma noite do Festival da Contra-Cultura, em Utrechí.
Com ‘Grândola’ eleito hino da ‘resistência europeia’, a popularidade da música portuguesa não parou de aumentar…
É aqui que entra o Amilcar.
AMILCAR VASQUES DIAS
Chegado à Holanda em 1974, Amilcar Vasques Dias – um
estudante-compositor de música contemporânea – cedo entraria em contacto com o circuito musical holandês. Aí conheceria Louis Andriessen, fundador e principal impulsionador do ‘De Volharding’, através de quem chegaria àorquestra com quem começou a trabalhar.
Amilcar é convidado a fazer arranjos de composições do Zeca para o ‘De Volharding’, que serão gravadas posteriormente. Datam desse período, as gravações de ‘Grândola’ e ‘Coro da Primavera’ e, posteriormente, ‘Amor Militante’ baseado num poema de Manuel Alegre.
Mais tarde, já com José Afonso doente e durante um concerto de homenagem que lhe foi feito no ‘Melkweg’ de Amsterdão (Abril de 1985), e que juntou mais de 50 artistas em palco, lá estavam, lado a lado, a orquestra ‘De Volharding’ e o Amilcar, que tocou piano nessa noite…
“Na viagem de regresso de Moçambique para Portugal comecei a curtir saudades, como agora se diz. E durante a viagem de barco, fiz «Lá no Xipangara» canção meramente rememorativa – evocativa de personagens e lugares que inseri no meu álbum «Coro dos Tribunais».” José Afonso
Lá no Xipangara
Lá no Xepangara
Vai nascer menino
Dentro da palhota
Tem a seu destino
Lá no Xepangara
Fica muito bem
Deitado na esteira
Ao lado da mãe
Há-de ter um nome
Lá prò fim do ano
Se morrer de fome
Tapa-se com um pano
Se tiver já corpo
Rega-se com vinho
Se não cair morto
Chama-se menino
Se tiver umbigo
Corta-se à navalha
Tira-se uma tripa
Faz-se uma mortalha
Pretinho de raça
Sempre desconfia
Se o musungo passa
Diz muito bom dia
Quando for mufana
E já pedir pão
Dá-se uma lambada
Vem comer à mão
Mais uma patada
Vai-te embora cão
Dá-se-lhe porrada
Porque é mandrião
Lá prò fim do ano
Quando já for moço
Guarda-se o tutano
Fica pele e osso
Quando já for homem
Tira-se o retrato
Come na cozinha
Chama-se mainato
Se mudar de vida
Vai para o contrato
No fundo da mina
Fica mais barato
Quando já for velho
Chama-se tratante
Dá-se-lhe aguardente
Morre num instante


“República” foi gravado em Roma, em 30 de Setembro e 1 de Outubro de 1975, nos Estúdios das Santini Edizioni. Álbum de solidariedade para com o jornal República e a Reforma Agrária, editado em 1975, com interpretações de Zeca e de Francisco Fanhais, que inclui um tema inédito, «Foi no Sábado Passado», escrito a propósito de uma manifestação de solidariedade com a revolução portuguesa, realizada em Roma. Os outros temas são: «Para não dizer que não falei de flores», do brasileiro Geraldo Vandré, «Se os teus olhos se vendessem», «Canta camarada», «Eu hei-de ir colher macela», «O pão que sobra à riqueza», «Vampiros», «Senhora do Almortão», «Letra para um hino» e «Ladaínha do Arcebispo».
Editado por iniciativa conjunta do Manifesto e das organizações Lotta Continua e Vanguardia Operaria, nunca foi distribuído em Portugal. O produto da venda dos discos destinava-se ao apoio da Comissão de Trabalhadores do Jornal “República” ou, caso o jornal fosse entretanto extinto, ao Secretariado Provisório das Cooperativas Agrícolas de Alcoentre.

Retirado de: www.folkmagazine.info/cartoon.htm

Discurso do Benedicto na sua homenagem em Lugo
Benedicto García Villar
11 de marzo do 2006
A Associação José Afonso fará a inauguração da sua sede em Setúbal, no próximo sábado, dia 18 de Novembro a partir das 16 horas. Apareçam e tragam um amigo também.
Associação José Afonso
Rua Damão 26 – 28
2900-340 Setúbal
Para mais informações: 265. 185 580

Digo que partiu e digo que ficou. Na memória, no afecto e no retrato que está aqui, ao meu lado, junto do Cardenal, do Cristo de Dali, do Che, do Gregorio Bezerra e dos companheiros da Fortaleza de Santa Cruz. Estamos todos aqui, nas fotos, na lembrança e na música, em diálogo permanente sobre o presente e sobre o futuro, aquele futuro do qual não desistiremos jamais… Esperem um pouco… Eu volto Já… Tenho de ir ao quintal respirar e conversar com as árvores porque o coração se me aperta com a presença-ausência do Zeca. E dos outros. E eu que pensava que a vida já me tinha endurecido o bastante para contrariar a emoção. Mas não.
Ementa Aperitivos, prato (três opções de prato sob inscrição prévia), fruta ou bolo, café, vinhos, sumos, água
Preço 13 euros – Limite máximo de participantes: 50
Inscrições Gabriela Marques gabrielammarques@gmail.com Paulo Esperança 91 771 19 64
Música membros do grupo “Ajaforça”, João Teixeira, Tino Flores, entre outros
Postal virtual com José Afonso
Ilustração realizada em 2005 por Augusto Mota e logo posta a circular entre amigos através de e-mail. O poema, da autoria de Luís Serrano, data de Novembro de 1983, e vem publicado na obra “Entre Sono e Abandono”, Aveiro, Estante Editora, 1990.
A fotografia que serviu de base ao trabalho do artista foi captada em Leiria, logo após uma sessão de canto livre que contou com a participação de José Afonso.
[imagem enviada por Augusto Mota em 15 de Outubro de 2006]
Retirado do blog: http://guitarradecoimbra.blogspot.com
Júlio Pereira
(Músico e amigo do Zeca)
E se de todas as bocas saísse hoje a palavra liberdade?
E se saíssemos das casas conforto, comodismo
E na rua olhássemos a miséria de frente,
A hipocrisia que alastra,
O egoísmo do eu feito preocupação diária?
E se em vez de sobreviver
Vivêssemos?
E se a indignação fosse decreto,
Obrigatoriedade, dever cívico a cumprir?
E se a miséria fosse crime público
E quem a permite, julgado e condenado pela lei?
E se disséssemos ao Zeca:
Olha pá, tentámos manter Abril vivo
Mas os cravos hoje são todos sintéticos como a liberdade.
Olha Zeca, a malta perdeu a memória
Esqueceu a história e não vai em revoluções
Senta-se no sofá e faz zapping ao mundo.
E o povo Zeca, já não ordena
O povo, Zeca, esqueceu o que é fraternidade!
Poema da Encandescente
(…)
AMN: Estamos a caminhar para os finais dos anos 40…
APB: Sim. Entretanto aparece o Zeca Afonso, à volta de 1948, também cantando exclusivamente o fado tradicional. Eu, em 1952, exactamente, fiz discos de 78 rotações com o José Afonso, Luiz Goes e Fernando Rolim. É, digamos, depois dos discos do Menano, do Paradela, do Lucas Junot, a primeira vez que são lançados discos de 78 rotações com os três cantores que depois vieram a ser uma Segunda Geração de Ouro. O Luiz Goes, repare, trazia atrás de si um património musical formidável. O tio dele, o Armando Goes, tinha, como sabe, o estilo que nem sempre era o do fado tradicional. Ele insistiu no fado lisboeta, cantou sonetos e o Luiz Goes continuou a herança do tio.
AMN: Estes discos de 1952 eram já um projecto artístico diferenciado em relação às heranças recebidas? Gravou apenas porque havia necessidade de novos discos no mercado, pensou, estudou, ensaiou, ou as gravações foram espontâneas?
APB: Não! Foi um projecto diferente. Não foi espontâneo. Com a aproximação dos Anos 50, aí por 1951, eu venho para Coimbra, para a Universidade. Em minha casa surge uma tertúlia, a Tertúlia do Calhabé. Tertúlia com quem? Com um sujeito que ainda está vivo e que é funcionário da Assistência Social, que era o José Rodrigues, um apaixonado pelo estilo do Artur Paredes e seu conviva. Ele era sobretudo um cultor da guitarra, da guitarra do Artur Paredes e teve uma grande importância na minha formação e na do Portugal também. E com o José Rodrigues e com o Florêncio Neto de Carvalho – que era um homem que tinha uma virtude extraordinária. Conhecia muito bem o fado de Coimbra e sabia interpretar (=imitar) o estilo de cada um dos cantores da Primeira Geração de Ouro, então resolvemos chamar o Fernando Rolim, o Zeca, o Goes e o Machado Soares que entrou mais tarde. E resolvemos que as coisas tinham caído numa tal decadência…
AMN. Vocês tinham consciência dessa “decadência” artística?
APB: Tivemos a noção dessa crise e pensámos “nós temos de fazer um estudo das raízes!” Com o trabalho discográfico do Artur Paredes e o apoio do José Rodrigues surge um “Renascimento”. Em minha casa começámos a fazer exactamente esse trabalho. O Florêncio de Carvalho o que é que fazia? Quando aparecia um rapaz, ele dizia, “ó pá, tu tens uma voz estupenda para cantar, eu vou-te ensinar fados do Bettencourt como ele os cantava”. E depois cantava-lhe à maneira do Bettencourt, do Paradela, do Menano. Depois corrigia o cantor, obrigava-o a dizer o poema. Havia toda uma aprendizagem que era no sentido de primeiro saber o que estava a cantar, reproduzir o conteúdo do poema e dar-lhe depois expressão na música dentro do estilo. Outros teriam um estilo mais parecido com o Menano… de facto, houve um trabalho de sapa, de estudo e de recolha, de regresso às raízes dos anos 20. Mas atenção, o Florêncio representava já algo de progresso, introduzia já o seu contributo. O Florêncio também cantava, embora tivesse problemas de garganta e tivesse muitas vezes dificuldades de cantar, mas sobretudo tinha uma expressividade extraordinária.
Os discos surgem como consequência desse treino, desse estudo. Os discos aparecem, deliberadamente, como uma forma de afirmação e de “reposição”.
AMN: Havia uma lacuna fonográfica de quase 30 anos…
APB: Não era fácil. As empresas de gravação eram poucas e não tinham muitos meios. O Fado de Coimbra estava num gueto, verdadeiramente num gueto! Ainda hoje lhe devo dizer uma coisa, o grande mal disto tudo está em a Canção de Coimbra ser sempre associada restritamente ao meio de Coimbra, é sempre considerada como uma música urbana muito local. Nunca adquiriu um estatuto na música ligeira portuguesa, ao contrário do Fado de Lisboa. Ainda hoje na rádio, é difícil, é raro, pode contar pelos dedos o número das situações em que está a ouvir música diversa e no meio da música sai uma canção de Coimbra. É raro! Felizmente que aparece, mas é raro.
Tinha havido ali um hiato tremendo e aqueles discos tiveram uma enorme aceitação. Os discos foram gravados aqui em Coimbra no Emissor Regional, em condições muito fracas, e depois passadas a 45 rotações e 33 rotações e cassetes. O Portugal já nessa altura entrou. Foi o meu 2º guitarra nesses discos. Quando eu me vou embora para a Suiça em 1954 – o meu trajecto vai até 54, de 1943-1944 até 54 – , o Portugal vai continuar o nosso trabalho.
Em toda a minha época, eu cito o João Bagão, cito o José Maria Amaral, o Carvalho Homem, o Manuel Branquinho (embora o Manuel Branquinho nunca tenha sido um guitarrista, em meu entender, eu sou oficial do mesmo ofício, que se tivesse afirmado muito significativamente. Quando reaparece, mais tarde, é a cantar). Como violas eram o Aurélio Reis, que já era uma figura habitual, era o Eduardo Tavares de Melo, o Mário Castro. Na minha geração isto foi o núcleo fundamental.
I
E há apenas isto: um homem, companheiro de estrelas e de remos, no arrasto da nossa esperança, rodeado de prados e agruras, e afolhagem de certa guitarra encarnada.
II
E esse homem, pregoeiro da brisa da madrugada, de pulso livre e coração descoberto, à mesa tingida pela luz a que nos sentamos sempre, apenas canta, apenas joeira palavras e miséria, pressagiando coisas bem afortunadas: um céu azul, sem vínculos, sobre o relento do nosso chapéu e um laranjal para o alfange do mendigo.
III
E é um cantar amargo, um cantar de amigo, colher de vento, fímbria do trigo, o que nos deixa a voz garrida desse homem, exonerado do seu próprio chão, ó chão castrado d’alegria, com o olhar pregado nas ruelas atulhadas pelo silvo das crianças do mondego ou na flauta, crivo de águias, de bensafrim.
IV
Ó terreiros da erva, ó terreiros da fome, ó íngremes quebradas do medronho, ó ror de dores, ó ror d’amores, quanto ror de foices tínhamos presas aos pulsos para rasgar, ao sabor dos vales do vento, este pedaço de terra morta e devassada, onde cresce a nossa ira, que as bagas do mar ferviam, junto aos campos cor de lima e de limão.
V
E esse homem, no fresco tingir da outra margem, vigia a crista das colinas, rasga janelas nas ribeiras, remonta às eiras onde as nossas costas são flor da rosa e suão, e queima, no tear das trovas, a dor panfletária das noites e dos dias, e vai-se juntando, como um pensamento puro e repercutido no ladrar dos cães, à garganta dos caminhos, aos vãos das escadas onde dorme a erva cidreira, lavando a luz dos nossos olhos, pernoitando também o olhar nos nossos pratos vazios, enquanto os nossosfilhos vazam grandes eiras de sal, sôbolos rios que vão por babilónia.
VI
E essa voz assim cerzida, memória de romãs e arestas cruas, assim aberta a todos os homens que chegam, a todos os homens que partem – amigos e inimigos são a província e a colheita do seu sonho – essa voz, fermento e febre de terno regadio, eis que nos é promessa dum grande dia sobre as pedras manchadas pelas nossas toalhas de malva: as nossas mãos, em pleno tumulto de armas e auroras, ditando o peso e a sentença que carregavam.
VII
E, no usufruto das clareiras que rasgamos por toda a parte, das bandeiras que desfráldamos até às vertentes dos muros e das amuradas, esse homem de novo começa a cantar:fragorde sarças sobre a sombra dos ombros, passos e pássaros na descarga do limiar das noites e dos dias para outros promontórios, e a gadanha movendo a substância putrificada dos presídios e das mansões, e a cor liminar das laranjas do mar, e o azul arável do céu, tudo, por assim dizer, que enchesse, como um frémito, o leito dos rios, a estrela das montanhas, macerando folhas de acanto.
VIII
E assim vos digo: esta voz sobe a prumo e é a folha púrpura das casas, quando amanhece, e é o rumo do pastor, céu abaixo: com a sua manta de açafrão e suas pombas bravas, e é a rede que se lança sobre as abelhas, logo que atravessadas pelas linhas do fogo, e é a fresca flor da nossa mão em vão julgada.
Voz dentro sangue, matriz do nosso sangue, terra indivisa: sangue e rosas.
in “Cantares” | Fora do texto, 1995 | 4ª edição
Insisto não ser tristeza
Soluçar sobre uma mesa
E mais não ser deste mundo
Meter navios no fundo
Num caminho de esqueletos
Sempre se plantam gravetos
E se a velhice for tua
Senta-a no meio da rua.
José Afonso
in «José Afonso – Textos e canções», Relógio D’Água, 2000
Disponível aqui

Na noite de 9 de Setembro, no Bar Café do Mercado da Ribeira, lembramos o Zeca e as suas canções. O compositor e escritor Andrés Stagnaro é o nosso convidado especial….
O bar café do Mercado da Ribeira recebe, na noite de 9 de Setembro o compositor e escritor uruguaio Andés Stagnaro, que nos dará a conhecer o seu albúm “Las canciones de José Afonso”.
Para homenagear o Zeca contamos também com a actuação de alguns musicos residentes deste bar.
Contamos consigo a partir das 22h30.
Reserve a sua mesa através do 210 312 600 / 01 ou 210 312 605.