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Author: AJA
Home AJA Page 23
TestemunhosViriato Teles
10/02/2006By AJA

Um pássaro igual a ti

Provavelmente, o mundo está mesmo feito às avessas! Anda um tipo como este Zeca a vida inteira a dar a voz e o corpo pelas causas dos outros, passam-se anos a fio de viola às costas a cantar as utopias sonhadas no dia-a-dia, e acaba tudo assim. Estupidamente, numa madrugada de chuva indecisa, como se nada tivesse acontecido antes, como se tudo o passado não fosse senão um sonho longínquo.
Nós, no entanto, sabemos que não foi um sonho. Crescemos a ouvir Menino de Oiro e Os Vampiros, aprendemos de cor os versos de Vejam Bem e de Grândola. Aprendemos, com o Zeca Afonso de todos os cantares andarilhos, a saborear o gosto dos encantos e das emoções, a desejar e a lutar pelas cores da liberdade.
Com Zeca e os seus companheiros aprendemos, ainda, que é muito menos fácil formular perguntas que encontrar respostas. Que as veleidades da ‘vida artística’, na qual ele nunca se encaixou, são como os foguetes de romaria, que desaparecem no ar após um instante de brilho e que, portanto, o importante é estar vivo, ter como única certeza a inquietação permanente.
Há coisas assim, que parecem impossíveis. Depois vêm as inevitáveis cortesias-de-velórios, mas quanto a isso estamos conversados. Afinal somos um país de homenagens póstumas, não é? Que o digam o Adriano, Jorge de Sena, Fernando Pessoa. Que o diga agora o Zeca, ele que foi sempre tão dado a encolerizar-se com estas coisas.
Veja-se a Televisão, que esperou a sua morte para mostrar, lacrimosa, as suas cantigas. Veja-se o poder, que tudo lhe negou em vida, para descobrir agora (só agora, ó céus?) que, afinal, Zeca é um símbolo da democracia e da resistência antifascista! E proclama hossanas em sua glória, como se já não bastasse a dor que ficou.
Felizmente, os que aprenderam com Zeca as mais belas lições de liberdade já se aperceberam também de todo o ridículo que se esconde por detrás destes lamentos hipócritas. E sabem que José Afonso, poeta e trovador, não é dos que morrem assim, sem mais aquelas.
Sabemos que o sonho permanece, em cada esquina, em cada rosto, em bisca da terra da fraternidade. Quanto a ti, Zeca, faz como sempre fizeste até aqui: não lhes ligues, ri-te deles, lá desse cantinho onde agora te encontras, provavelmente a contar ao Adriano as últimas cá de baixo. Afinal, já sabes como é: o mundo está mesmo feito às avessas. Se assim não fosse ainda agora por cá te teríamos, a mandar vir como era teu hábito contra “essa cambada engravatada e escolopêndrica” que insiste em controlar a gente. E até vão fazer de ti nome de rua, imagina!
Olha: lá fora, aqui mesmo a dois passos desta mesa de onde te recordo, há um pássaro a recolher-se da chuva que, teimosa, vai caindo. Ou serão lágrimas? Seja como for, o pássaro é igualzinho a ti: por mais que tentem, ninguém consegue impedi-lo de voar.
Viriato Teles

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Fernando Assis PachecoTestemunhos
10/02/2006By AJA

Só me calham Dukes

José Afonso, Viriato Teles e Fernando Assis Pacheco em Azeitão. Foto de Joaquim Bizarro.
 
 
Privei pouquíssimo com o Zeca, não fiz parte dos seus amigos mais chegados, a última vez que estivemos juntos foi em casa dele e havia o sentimento pesado da morte que entrava já pela varanda, bulindo com os cortinados.
Estas efemérides são muito chatas porque, não tendo nós o dom da ressurreição, caímos não obstante num discurso tão próximo do evangélico que soa a falso. Vou tentar fugir-lhe.
A primeira vez que ouvi falar do Zeca já se dizia assim mesmo, Zeca, e não José Afonso. Cantava esplendorosamente o reportório do fado de Coimbra. Eu costumava não me intrometer nessas conversas tribais em que outros eram aparentemente exímios e tiravam todo o prazer da evocação dos grandes tenores e barítonos da escola local. Havia mesmo quem coleccionasse velhos discos de gramofone comprados a preços altos. A mim tanto se me dava: estava a tirocinar para utente nocturno do programa de jazz da Voz da América, vício que convinha não revelar aos então companheiros de esquerda, por sinal hoje bandeados na sua quase totalidade para a comarca de onde vem papel, papel a sério, sendo que vários deles até deputam, ó meu Deus!
Bom, não importa, eu era capaz de gostar do Zeca e do Duke Ellington, à vez ou ao mesmo tempo. Um solo a introduzir o Perdido parecia-me tão rico e tão cheio de música como qualquer canção da Beira Baixa ou dos Açores arregimentada pelo fado da cidade. O que eu não fazia era correr a foguetes para um sarau da Queima das Fitas, e escusassem de me lembrar as serenatas ditas monumentais na Sé Velha porque a essa hora onde eu já ia.
Ao Zeca habituei-me. Foi de resto fácil: andava no Orfeon Académico e ele tinha por hábito juntar-se ai grupo nas excursões, actuando em fim de festa. Era simplesmente o melhor. A voz mais bonita, a interpretação mais inteligente. Aí eu calava-me muito bem calado, cedendo ao instante mágico. Mas nunca falámos disso. Para quê, se eu devia parecer-lhe o que realmente parecia à vista desarmada, um pernóstico sem cura.
Também não assisti à guerrilha da balada em Coimbra, pelo motivo bem mais prosaico de uns anos de tropa com que a Sagrada Família me entreteve, mas na hora de fazer as malas escolhi dois discos de 45 r.p.m. do Zeca para irem estagiar comigo em Nambuangongo e Zala, de onde voltaram tingidos de um castanho avermelhado que era a vera cor da guerra. Foram muito ouvidos nos dois aquartelamentos, até pelos srs. oficiais de carreira, que não eram propriamente surdos e agradeciam uma musiquinha de fundo para empurrar o quinto ou sexto brande à noite, pouco antes do chichi-cama.
E pronto, acabarm-se os tiros, voltámos todos ou quase, o Zeca também tinha ido veranear a África (Moçambique, no seu caso),vieram uns versos, veio a música dele, ele às tantas foi para Setúbal e eu remanesci em Lisboa. Em vinte anos não nos teremos encontrado duas vezes vinte vezes. Mas tive ocasião de escrever sobre os discos dele, ou somente sobre ele, entrevistei-o em Caldas da Rainha, lá fui uma tarde a Azeitão com o Viriato Teles – a cena dos cortinados – e depois foi o fim.
Recordam-me duas histórias. Uma em 1960, em Paris, quando a meu pedido ele entrou numa livraria toda pinoca para requisitar gratuitamente a antologia do Maiakovski traduzida pela Triolet, que eu não tinha massas para comprar. Foi tudo rápido e brilhante e nem o Houdini teria feito aquele passe que o Zeca fez. Só faltaram as palmas.
A outra é o recital de despedida no Coliseu, insuportavelmente belo. Ele sobe ao palco, ajeita os óculos, baralha-se com os papéis, tenta descobrir ao longe – mas não é possível, as luzes cegam-no – uma cara conhecida com quem dividir a emoção do momento. A minha servia, mas o Zeca está longe e não me topa.
Digo-lhe adeus com a mão.
 
Fernando Assis Pacheco

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Testemunhos
10/02/2006By AJA

Portugal, José Zeca Afonso y la Revolución de los Claveles

Este mes se cumple el veinticinco aniversario de la “Revolución de los claveles”, movimiento militar de carácter progresista que contó con gran apoyo social y puso punto final a la dictadura salazarista en Portugal. A las cero horas de aquel histórico y primaveral 25 de Abril, el programa “Límites”, de Radio Renazenca, comenzó a emitir los acordes de “Grandola, Vila Morena”. Fue la consigna para poner en marcha el engranaje revolucionario. La la letra y la música eran de José Afonso, la figura más importante de la canción portuguesa de este siglo, y una pieza clave de la música popular de todo el mundo. “Zeca” Afonso dejó un legado de integridad y compromiso.
José Afonso ha sido una de las grandes glorias nacionales de Portugal, como Camoens -asegura el cantautor musical José Mario Branco, uno de los artistas que más cerca estuvo siempre de Zeca Afonso- y fue abandonado en sus horas bajas por algunos que le deben todo lo que son. Muchos ciudadanos de este país han aprendido a pensar y sentir gracias a él.
No se puede entender la importancia y la trascendencia de la obra artística de José Zeca Afonso, sin hacer una aproximación cabal a la personalidad humana y política de este irrepetible portugués nacido en Aveiro, quien murió sin reconocimiento oficial, a pesar de su enorme compromiso y su gran talento.
Durante toda su vida, mantuvo un inquebrantable compromiso artístico y político, primero contra la dictadura de Salazar y, al final de sus días, frente a la contrarrevolución encabezada por el Partido socialista de Mario Soares. Zeca fue consciente siempre de que su honradez navegaba a contracorriente, pero en ningún momento abandonó sus principios y su coherencia. Por eso detestaba el desencanto, que él calificaba como una mera justificación para los traidores.
Su defensa de la democracia popular, directa y no institucionalizada, le acarreó las críticas y el rechazo de algunos sectores políticos, incluso de izquierda. Zeca Afonso cantaba incesantemente para el pueblo, en cooperativas agrarias y comissioes de moradors, utilizando sus exquisitas creaciones como vehículo para las movilizaciones.
Físicamente más alto que la mayoría de sus paisanos, complexión fuerte, mirada profunda y aire tímido e introvertido, José Zeca Afonso sería el antidivo por excelencia. Sensible y depresivo en algún momento, era profundamente irónico y mordaz, tal cual resulta patente en muchas de sus creaciones.
En alguna actuación suya, y con frecuencia, olvidaba hasta versos de sus propias canciones. De ahí su permanente preocupación por conseguir siempre un atril para consultar la letra que él mismo creaba. En otro momento, algún espontáneo le sujetaba las notas o le soplaba cuando algún lapsus le asaltaba.
Zeca Afonso era muy aficionado al deporte; con el nombre de Cerqueira en los partidos de fútbol, sus jugadas con el siete a la espalda fueron jaleadas por los seguidores del grupo juvenil Académica de Oporto. Sentía especial predilección por el corredor Mamede, especie de Curro Romero del maratón, atleta genial y emperador de la espantada.
Programas deportivos y pocos más eran los que Zeca veía en televisión, un medio al que siempre tuvo en su punto de mira y al que ridiculizó en memorables canciones como Acupuntura en Odemira.
Durante los últimos años de vida, en su casa de Vila Nogueira, en Azeitao, cuando la atrofia muscular, que acabaría produciéndole la muerte, hacía mella en él, manteniendolo postrado en cama, Zeca se resistía a ser un televidente pasivo.
Hasta el último momento mantuvo una entereza y lucidez inusitadas; no se puede evitar el escalofrío y la emoción al recordarle frente a una mesilla repleta de pastillas de todas clases y colores, haciendo un esfuerzo para tomar una taza de café sin ayuda de nadie. Aún más, escuchando los versos de la impresionante Canción de la paciencia, incluida en el compendio Como se fora seu filho, que dice, entre otras estrofas, que Muchos soles y lunas nacerán,/ más olas en la playa romperán,/ ya no tiene sentido tener o no tener/ vivo con mi odio a mendigar./ Tengo muchos años para sufrir,/ más de una vida para andar,/ bebo la hiel amarga hasta morir./ Ya no tengo pena, sé esperar.
La puerta de entrada a su casa de Vila Nogueira, pueblecito situado entre Lisboa y Setúbal, tenía un cartel muy elocuente: Nao ao ley fascista da segurança. En su interior, multitud de detalles, cuadros y carteles alusivos al 25 de Abril dejaban claras sus inalterables posiciones políticas. Zeca Afonso nos dijo que “a mí me curaría de verdad otro 25 de Abril. Acabaría con todos mis problemas y dolencias. Lo peor de mi estado actual es ver cómo la situación política y social se deteriora cada vez más, sin poder contribuir a cambiar la inercia con todas mis fuerzas. De las conquistas del 25 de Abril sólo quedan algunas pequeñas libertades formales, cada vez más restringidas”.
Su domicilio fue centro de reunión y punto de referencia para mucha gente. Amigos de Portugal, de España y Francia se acercaban constantemente hasta aquel pueblecito, en la comarca de Azeitao, donde residía José Zeca Afonso, para verle, hablar y estar junto a él. También un grupo de niños del colegio local de diez o doce años, que editaba el periódico contra la dirección del centro, tenía instalada en casa del músico su infantil redacción.
Licenciado en Filosofía e Historia, José Zeca Afonso fue profesor de instituto hasta 1968, fecha en la que lo inhabilitan para ejercer cualquier puesto docente, como una represalia política. Hasta el año 1983 no se le reconocieron de nuevo sus derechos. Al morir, Zeca Afonso cobraba 30.000 pesetas mensuales de pensión. Entonces, era su único ingreso. Su productor musical, Arnaldo Trindade, quien le bautizó como el papa de la canción portuguesa, en símil poco afortunado, no le pagó nunca sus derechos de autor.
José Zeca Afonso comentaba con cierta amargura la gran desbandada de muchos antiguos progresistas portugueses, conocidos suyos, hacia posiciones cercanas al poder político y económico.
“Muchos se han vendido por un plato de lentejas y han justificado su actitud diciendo que estaban desencantados. Me gustaría saber de qué pueden estar desencantados, si aquí no se ha producido ninguna revolución. Lo que estamos viviendo es una contrarrevolción. Si hubiese cambiado algo, y no estuviesen de acuerdo, lo entendería. Pero este no es el caso. Ese desencanto no es más que una justificación para los que nunca han estado encantados y para todos esos traidores”.
Al realizar el menor acercamiento a la figura de José Zeca Afonso, resulta inevitable recordar, con todo el cariño del mundo, a Zélia, su entrañable compañera, mujer de una dimensión humana excepcional, e irrepetible, como José Zeca Afonso; junto a un nutrido grupo de amigos, Zélia impulsó la creación de la Associaçao José Afonso, con la pretensión de dar a conocer, en sus multiples facetas, el papel histórico de José Afonso y también su personalidad militante, como promover la difusión de toda su obra y contribuir a salvagaurdar su integridad y calidad, además de crear un centro de documentación sobre la vida y obra del artista portugués.
A pesar de haber concebido piezas ya clásicas, Zeca Afonso siempre fue muy autocrítico: “Me he dedicado durante años a componer canciones en condiciones precarias, más preocupado por conseguir una comunicación fuerte y por actuar políticamente, que por perfeccionar todo lo que yo quería de mi trabajo. He sido bastante cuidadoso y exigente pero, lógicamente, siempre he estado condicionado por mi intención propagandística”.
Siempre se manifestaba en contra de la denominación de canción protesta para con su obra: “El músico es quien protesta, no la canción”. Por eso mismo insistiría en la necesidad del claro compromiso ético de artista, o trabajador del arte, como él siempre decía.
Fue pionero en la reivindicación de las corrientes musicales africanas, y la influencia de aquellos sones está presente en toda su obra. También en esto se adelantaba a su tiempo. Canciones maestras, como Ailé, Ailé o Un homem novo veio da mata son elocuentes muestras. El elaborado lirismo de sus temas no dejó nunca lugar a la tibieza en el mensaje: tu muerte, pintor,/ reclama otra muerte igual,/ sólo ojo por ojo/ y diente por diente vale. Canta en A morte saiu à rua, un precioso y dramático tema dedicado a José Días Coelho, pintor y escultor comunista asesinado a tiros por la policía política de la dictadura salazarista (temible PIDE portuguesa, hermana de la BPS franquista), de día y en plena calle. En el Cantar Alentejano, una bella y sentida creación dedicada a la campesina antifascista Catarina Eufemia (embarazada cuando la asesinó un teniente de policía, con tres disparos a bocajarro), el mensaje es similar: Quien vio morir a Catarina/ no perdona a quien la mató.
José Mario Branco nos relataba, emocionado, cómo se realizó la grabación del tema, en un estudio francés: “El sistema de grabaciones hacía que, desde el principio de esa tarde, fuese el momento que debía grabar “Cantar Alentejano”; ¿vamos a ello, Zeca?, le dije. Naturalmente, preocupado por la factura del estudio. ¿No tienes nada para ir metiendo?, contestó; se veía que todavía no estaba dispuesto; el alma de Zeca, me dí yo cuenta después, estaba toda en el Alentejo, en los ojos de Catarina Eufémia. Como tantas veces le sucedía, andaba por el estudio de aquí para allá, dando pasos nerviosos, como un joven león en su jaula. Hasta que, ya al final de la tarde, dijo: “Salgo fuera, para ver a las vacas” (el estudio estaba en una finca rodeada de campos). Desapareció una o dos horas. Cuando volvió ya era casi de noche: “Vamos a grabar a Catarina”. Zeca, en mitad del estudio, solo y a oscuras, cantó. Una sola vez. Y esa es la que está en el disco. Nosotros, privilegiados espectadores, estábamos en la central técnica, todos llorando, incluido el técnico francés. “¿Consideráis que es mejor que cante esto otra vez?” “No Zeca, no. Está muy bien así”.
Actuó por última vez en directo en el Coliseu dos Recreios lisboeta, en 1983, precisamente el lugar donde, nueve años antes, “Grandola” se convirtió en un himno para la historia. Aquella velada quedó recogida en un disco vibrante, en el que José Afonso, canta, ya con ciertas dificultades, arropado por todos sus músicos y sus amigos más incondicionales.La enfermedad fue avanzando inexorablemente desde entonces hasta 1987, pero, a pesar de todo, compuso en este periodo temas para dos nuevos discos.
José Afonso Cerqueira dos Santos murió el 23 de febrero de 1987, con 58 años. Una multitud veló el cadáver en la capilla ardiente que tuvo lugar en el Club Naval de Setúbal, núcleo proletario del cinturón industrial de Lisboa, capital de la Revolución de los Claveles. Su entierro constituyó un último ejemplo: tras el féretro marchó primero el pueblo anónimo, coreando una vez tras otra sus canciones y enarbolando banderas rojas, simplemente, sin ningunas siglas, y claveles del mismo color; detrás, los gremios operarios, y por fin, enmascarados en el gentío, desfilaron algunos políticos que en vida de Zeca no se habrían atrevido a acercarse a él.
Muchos integrantes del sepelio iban de negro, a pesar de que Zeca había exigido que nadie se vistiera de luto por su muerte. Más de cien canciones, numerosos poemas, varios cortos de cine, media docena de obras de teatro y, sobre todo, aquel ejemplo de honestidad e integridad que constituyen su importante legado, junto a lo que supuso la Revolución de los Claveles.

Alfredo Disfeito

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Caetano VelosoLuís Pinheiro de AlmeidaTestemunhos
10/02/2006By AJA

O «London London» de Zeca

Londres, 1970, talvez. José Afonso gravava Traz Outro Amigo Também nos estádios da Pye. Ao lado, os Status Quo registavam o segundo álbum, Spare Parts mas tinham de o interromper de quando em quando para não prejudicar o andamento mais sereno de Zeca. Dois jovens técnicos tratavam do Zeca e do Bóris. E nem quando verteram um copo de café no gravador ficaram aflitos. Aflitos ficavam quando amiúde José Afonso tinha de interromper a gravação porque se esquecia da letra do que estava a cantar.
Londres fervilhava. Era o fim dos Beatles, do «Chelsea Drugstore» que os Stones cantavam, o aparecimento dos skinheads, a morte lenta dos hippies, da Carnaby Street e de King’s Road.
Mas havia outros motivos de interesse. Para Londres convergiam os exilados políticos de outros países, nomeadamente do Brasil. Entre eles, Gilberto Gil e Caetano Veloso que cedo conviveram com Zeca.
Nos intervalos das gravações, o Zeca jogava judo comigo em casa da Nina, em Oakley Street, no coração de Chelsea. A irmã, Manuela, cuidava das moedas no meter para não faltar a electricidade. O seu companheiro, José Labaredas, homem bom do Couço, amigo do Zeca, cantador de fados de Lisboa, assistia. Todos juntos éramos uma família. Faltava Rui Pato, meu vizinho da instrução primária em Coimbra. Por causa da crise académica de 1969, onde fora um dos dirigentes estudantis, a PIDE não o deixara sair do País.
Uma noite, fomos todos jantar a um dos restaurantes portugueses de Beauchamp Place, mesmo ao lado do Harrods. Ou foi no Fado ou na Caravela, já não me lembro. Eu, o Zeca Afonso, o Zé Labaredas, a Nina, a Manuela, a Milu, todas irmãs, o Gilberto Gil e o Caetano Veloso. Caldo-verde lembro que comemos.
No meio dos pastéis de bacalhau, Caetano Veloso confessou que estava atrapalhado. Os seus amigos do Brasil perguntavam-lhe como era a vida em Londres. Ele queria responder com uma canção, mas não sabia como.
E foi nessa noite londrina, num recanto bem português, que José Afonso trauteou o que viria a ser o famoso «London London» de Caetano Veloso. Sem créditos, a não ser para os que assistiram ao parto da canção.
Luís Pinheiro de Almeida

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Carlos Correia (Bóris)DiscografiaGrândolaTestemunhos
10/02/2006By AJA

«Grândola» gravada às 3 da manhã

Quando, naquela manhã de Abril de 1970, entrei no avião com destino a Londres, para gravar com o Zeca nos estádios da Pye, apenas sabia trautear alguns dos temas que, no conjunto, formariam o álbum intitulado Traz Outro Amigo Também.
De facto, a minha inclusão naquele trabalho tinha sido decidida poucos dias antes e por razões (como era hábito) um pouco fortuitas. O meu passado musical, muito mais ligado à guitarra eléctrica e ao rock (exercido em conjuntos «à Shadow» ou «à Beatle» como foram os HI-FI e os Álamos), tinha apenas uma única experiência na arca da MPP (Música Popular Portuguesa!) com o disco que tinha gravado com o Duarte e Ciríaco.
Assim, apesar de pouco credenciado para a tarefa, entrei facilmente nos temas e, recordo claramente, nunca receei falhar na sua execução em estúdio. Sei agora que esta confiança derivava directamente da universalidade da música do Zeca.
Acontecia-me afinal o que acontece quando contactamos com uma obra tão consistente como a do Zeca: parece-nos que já a conhecíamos há muito tempo e que, mais do que isso, ela já estava dentro de nós. Foi sempre assim com a música dele. Quando ele a expunha pela primeiríssima vez (às vezes ao telefone e a desoras) vinha a sensação inevitável de «eu já senti isto». E já. Só que o Zeca sabia traduzir tudo isso para um formato exteriormente inteligível.
À partida do aeroporto, a primeira surpresa: o Luís Filipe Colaço (homem da rádio, companheiro de Coimbra e ex-guitarrista dos Álamos), já dentro do avião, é chamado pelo comandante, mandado sair e retido em Lisboa pela DGS por dois ou três dias. Conseguiu juntar-se a nós em Londres, mais tarde, recorrendo sei lá a que expedientes para convencer os zelosos Pides da inocuidade da sua viagem.
À chegada, a segunda surpresa. A guitarra que, muito profissionalmente, levava sob o assento e sem caixa protectora, apresentava uma rachadela monumental que a tomava, para sempre, inútil.
Só os bons ofícios dos amigos que o Zeca tinha em Londres (o Zeca tinha amigos em toda a parte) permitiram arranjar uma guitarra decente para a gravação.
As sessões no estúdio começaram com o «Maria Faia» e com a delícia de trabalhar com uma máquina de 4 (quatro!) pistas. A abundância de meios técnicos, superiores aos que conhecíamos, foi inspiradora. Pude sobrepor várias faixas de guitarra, obtendo efeitos orquestrais que, na época, pareciam interessantes.
As onze faixas foram gravadas sem sacrifício em várias sessões diurnas, ao longo de duas semanas ponteadas por passeios pela grande capital que parecia, então, tão diferente do nosso meio natal.
Nos corredores alcatifados do hotel, o Zeca colocava a sua energia em demonstrações amigáveis de judo (modalidade que abraçara recentemente).
Dos muitos amigos que apareciam no estúdio para ver o grande autor-intérprete, como já era reconhecido, recordo o brasileiro tropicalista Gilberto Gil, exilado pela ditadura. Esteve presente na gravação de «Verdes São os Campos» e a introdução de guitarra – inventada na hora – teve a sua aprovação.
Terminado o trabalho e quando, já em Portugal, recebemos um exemplar do disco para avaliação, o Zeca reprovou-o por não gostar da mistura e deu instruções para esta ser feita de maneira diferente. Se havia (e havia) zonas em que o Zeca não fazia concessões, uma era de certeza a que dizia respeito ao ambiente musical das suas canções, especialmente se eram para colocar em disco.
Nos dois discos que gravei com ele, testemunhei esse perfeccionismo, inesperado num homem tão simples e que não era, de modo nenhum, um instrumentista, nem um conhecedor das subtilezas técnicas dos estúdios de gravação. Nem precisava ser.
Ainda conservo o protótipo rejeitado (um vinil). A venda do disco, editado pela Arnaldo Trindade, decorrera como era costume: um ou dois dias nas montras das lojas e, depois da proibição pela censura, clandestinamente e ao mesmo ritmo. Ficámos, provavelmente, a dever ao Sr. Arnaldo Trindade a edição de autores como o Zeca e o Adriano, em condições comercialmente tão adversas.
No ano seguinte – em Outubro/Novembro a minha segunda experiência discográfica com o Zeca. Aqui, já ele tinha ouvido as duas vozes portuguesas no exílio em Paris que traziam os sons novos que ele constantemente procurava. O José Mário Branco foi incumbido da direcção musical desse novo disco que viria a chamar-se Cantigas do Maio. Foi ele que enquadrou o Zeca num ambiente de trabalho bem estruturado e com o tacto humano adequado a não fazer o Zeca sentir-se engaiolado e artisticamente diminuído.A gravação decorreu num castelo-estúdio dos arredores de Paris e teve a colaboração (bem audível em algumas faixas) do Francisco Fanhais.
A direcção musical e a presença humana do Zé Mário Branco revelaram-se fundamentais para o bom sucesso do trabalho. O seu conhecimento do meio musical parisiense conseguiu trazer ao estúdio músicos de primeira categoria -como é o caso do percussionista Michel Delaport, com os seus sons indianos tão bem aproveitados no «Senhor Arcanjo».Foi aí que gravámos (em sessões, desta vez, nocturnas) o «Grândola» com o som dos passos obtido no exterior do castelo às três da manhã.A mistura final foi feita no estúdio e desta vez (abençoado Zé Mário) não foi rejeitada.Foi o meu segundo e último disco com o Zeca. A minha vida profissional afastou-me irremediavelmente do meio e só volto a vê-lo, anos mais tarde, no quarto de urna clínica em Coimbra. Já estava ferido de morte pela doença, mas pensava ainda em mais canções e tinha esperança.
Carlos Correia (Bóris)

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Rui PatoTestemunhos
10/02/2006By AJA

Ensaios na «Brasileira»

Conheci o Zeca nos meus 16 anos, tinha ele 33, já licenciado em Letras, a leccionar em Mangualde, mas aproveitando todas as folgas para vir a Coimbra, ansioso por mostrar aos amigos as suas últimas baladas.
Até essa altura, a sua actividade musical tinha sido, na década de 50 e princípio da de 60, a de um estudante com boa voz, que cantava no Orfeão e que, juntamente com o Rolim, Machado Soares, Goes, Levy Baptista, Lopes de Almeida, Portugal, Brojo e outros, se agrupavam para executar fados e guitarradas, actuando quer em espectáculos do Orfeão, quer em espectáculos da Tuna, quer em serenatas e, de vez em quando, para a gravação de um disco de fados.
Eu ouvi o seu nome, as primeiras vezes, ao meu pai que, como jornalista em Coimbra, fazia questão de viver intensamente a vida coimbrã, saltitando das tertúlias futrico-intelectuais para as académicas. E nestas últimas pontificava o Zeca, como o seu bom humor, com as suas permanentes distracções e com uma irreverência intelectual a que chamavam de «existencialista». Mais tarde, já com os meus 12 anos, ao tentar a minha sorte como aprendiz de fadista, acompanhando à viola rapazes da minha idade em guitarradas e fados, o nome do Zeca vinha à baila, a propósito dos fados que ele cantava como ninguém (os «Contos Velhinhos», «Aquela Moça da Aldeia», etc, etc.) e que nós tentávamos imitar no seu jeito de voz «caprina», como dizia o Menano. Mas em 1962, ano tumultuado em Coimbra, com a Academia envolvida numa das mais violentas crises estudantis, o Zeca, já cansado com aquilo a que chamou a «quinquilharia passadista do velho romantismo do Penedo», sempre que podia, vinha a Coimbra para sentir esse fervilhar das novas gerações.
Começa assim a sua fase de ruptura com aquilo que mais o tinha ligado até então à cidade, «o tanger dos bordões da viola, as casas de prego, as bicas nos cafés da Baixa e as arengas dos teóricos da bola».
Possuía, além disso, um profundo conhecimento do grave problema colonial, porque, além de ter em Moçambique muita família, fez algumas digressões com a Tuna e com o Orfeão às colónias. Era, também, um tempo de separação dolorosa com a mulher que lhe tinha dado os seus primeiros dois filhos.
É neste contexto de viragem, caldeada com muita angústia, que conheço o Zeca. A sua mudança deveu-se, no meu entender, ao seu amadurecimento intelectual, às profundas marcas deixadas pela desilusão afectiva, às mudanças do ambiente coimbrão, à desilusão dos primeiros anos de docência, às notícias de África e, muito principalmente, ao contacto com novos amigos como o Barahona, a Luísa Neto Jorge, o Luís Andrade, o Bronze, o Pité e tantos outros.
Ele vinha de Mangualde a Coimbra para mostrar aos amigos um outro tipo de música, sem o «espartilho da Guitarra de Coimbra» [com letra maiúscula no original], com uma grande liberdade rítmica e que necessitava apenas de uns leves acordes de viola para sublinhar o poema que era o mais importante da canção.
Assim nasce «Menino de Oiro», «Tenho Barcos, Tenho Remos», «Os Vampiros», «O Senhor Poeta», etc., ensaios muitas vezes feitos no segundo andar do Café Brasileira, ou em minha casa ou em qualquer República onde ele tinha o estatuto de «livre trânsito» quando vinha a Coimbra e necessitava de dormir.
Conseguiram-se os dois primeiros EP que tanto escândalo provocaram nos meus «amigos do fado». Foi considerado uma afronta à tradição. Mas os meios intelectuais e os meios operários de esquerda logo nos aproveitaram para saraus mais ou menos clandestinos. Zeca vai tentando o ensino, saltitando, depois de Mangualde para Aljustrel, Lagos, Faro, Alcobaça e de novo Faro.
Os ensaios eram poucos, feitos quase sempre nas férias. Foi a minha primeira oportunidade de conhecer o Algarve: em 1963, fiquei uma semana na sua casa, no n.º 68 da Rua Duarte Pacheco, em Faro. Partíamos de manhã com destino à ilha do Farol ou da Armona, de barco com a viola e uma ração de duas sanduíches e duas meloas. Quando eu não podia ir ter com ele, vinha ele a Coimbra à boleia ou então apanhava o comboio até à estação para a qual o pouco dinheiro que dispunha dava – «venda-me um bilhete de 60 escudos em segunda classe em direcção ao norte» -, fazendo o resto à boleia ou a pé e cá chegava cheio de fome, sem um tostão no bolso, e com um bornal com uma muda de roupa, alguns medicamentos e muitos livros.
Negociávamos, na altura, um contrato com a Rapsódia, que lhe desse alguma estabilidade económica. O Zeca pretendia quatro contos por mês e cinco por cento na percentagem das vendas. Mas partiu em Agosto de 1964 para África, sem conseguir esse «fabuloso contrato», mas feliz com o seu recente casamento com a Zélia. São dois anos em que semanalmente escreve para minha casa, com o remetente «caixa postal n.º 50-Beira», cartas repletas das suas próprias contradições, da sua instabilidade, mas cheias de notícias dessa África em ebulição. Terminavam sempre com o envio de abraços para o Serrano, Abílio, Rui Mendes e para toda a malta.
«Quero aí chegar a tempo de mandar rufar os tambores que para o efeito tenho ensaiados e ouvir o coro que ressuscitará o Lázaro do seu túmulo», escrevia ele em Março de 1965. E veio, pois em 1967 acabou por ser expulso de Moçambique por vários problemas com a administração colonial.
Volta e vai para Setúbal. Manda-me cassetes com as últimas músicas. Vou até Setúbal, de vez em quando, ficando aboletado na casa dele, na Quinta do Montalvão, lote 5-2.º esquerdo, com a Zélia e já com a sua terceira filha, a Joana, muito pequenita.
Mais dois LP e muitos espectáculos – Almada, Barreiro, Seixal, Vila Franca, Marinha Grande, etc., sempre casas cheias de gente de oposição ao regime da altura, muitos operários e estudantes, a PIDE a pairar e, por vezes, a intervir.
Entretanto, junta-se a nós o Adriano, o Manuel Freire, o Fanhais e outros que não me recordo. É bastante difícil avaliar o impacte que o contacto com figuras como o Zeca, o Adriano, o António Portugal, entre os 16 e os 20 e poucos anos, tem na formação da personalidade de um adolescente. Nessa altura, eu não tinha a noção da dimensão humana e intelectual desses amigos. O meu desgosto é ter tido uma fortuna enorme em ter amigos desse quilate e, na altura, sem a noção desse valor, não ter agarrado cada momento, deixando até, por vezes, que a memória me falhe e tantos momentos bonitos e ricos se percam.
A partir de 1968, devido à minha situação académica e à impossibilidade de o acompanhar ao estrangeiro para as gravações, deixo de ser o acompanhante habitual. Felizmente para o Zeca, pois assim conhece o Iglésias e o Bóris (Carlos Correia) que tocavam bastante melhor do que eu. Passo a vê-lo menos vezes, mas sempre que posso estou com ele para o acompanhar ou só para o ouvir. A última vez que pego numa viola ao seu lado e a seu pedido, foi no célebre espectáculo do Coliseu, pouco antes da sua morte.
Rui Pato

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Manuel AlegreTestemunhos
10/02/2006By AJA

José Afonso: De Coimbra até ao Sul

A voz que guardo dentro de mim não está gravada em nenhum disco: anda a cantar «contos velhinhos de amor, numa noite branca e fria», algures, em Coimbra.
Foi assim que conheci José Afonso, num Inverno de há muitos anos. Ainda se faziam serenatas, as raparigas agradeciam acendendo e apagando a luz três vezes e nós viajávamos pela noite dentro, «bêbados de coisas inextricáveis», como escrevia então Herberto Helder. Já a voz do José Afonso anunciava outras trovas, mas naquele tempo a Académica era ainda (foi-o sempre) a nossa dama, por ela sofríamos aos domingos no Calhabé ou nos campos do País onde chegávamos à boleia, de capa e moca, e sem um tostão no bolso. Até que um dia o Zeca resolveu partir para Marrocos. Conseguimos apanhá-lo a tempo, graças a uns ciganos nossos amigos. Mas a tentação do Sul já estava dentro dele. Ou talvez daquele azul de que fala Mallarmé e que era, de certo modo, a cor da sua voz. Ele era como a cigarra e precisava do espaço do Verão, Alentejo, Algarve, a planície, as areias e o mar. É preciso dizer que nessa altura já ele era distraído (nós dizíamos despistado). Uma noite estava a jantar em minha casa e de repente deu um salto na cadeira: onde é que deixei o meu filho? E lá fomos à procura. Mas o miúdo, habituado aos despistanços do pai, tinha ido tranquilamente do estádio para casa.
Tínhamos então grandes discussões. Eu já andava na militância política, o Zeca era, havia de ser sempre, um libertário em estado quase puro. Ainda se debatia a questão da arte e do empenhamento social e político do artista.
Teoricamente o Zeca era contra, mas as coisas foram mudando e quase sem darmos por isso todos nos fomos comprometendo cada vez mais. Foi primeiro o Decreto 40 900, contra a autonomia das associações e a resposta estudantil, com uma grande manifestação em Coimbra. E depois 1958, o general Delgado e aquele vendaval que varreu o País de lés a lés. Então o Zeca quis pegar em armas. Mas como?
Tivemos que recorrer às que tínhamos à mão: a poesia, a guitarra, o canto. A guitarra do António Portugal tornou-se de repente mais nervosa, experimentando novos ritmos e dissonâncias, e o Zeca aparece a trautear melodias estranhas. Até que saiu a «Balada do Outono». Foi uma iluminação. Assim como alguns poemas aparecem feitos, também aquela balada dava a impressão de ter estado sempre ali e de ter sido colhida no ar num dos momentos de distracção concentrada do Zeca. A canção de Coimbra não voltaria a ser a mesma, a música ligeira portuguesa também não. Aquela balada era nova e ao mesmo tempo muito antiga. Tudo estava nela: a tradição trovadoresca, os cantares de amigo, os romances populares. E também o espírito de um tempo de mudança.
Entretanto o Zeca partia para o Sul. E eu para Angola. Reencontrámo-nos no início de 1964, numa festa de recepção aos caloiros da Faculdade de Medicina no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Tinha eu acabado de regressar da prisão em Angola, estava com residência fixa em Coimbra, mas vim sem pedir licença.
Trazíamos a «Trova do Vento Que Passa». Cantou-a primeiro o Adriano, a seguir o Zeca, depois ambos. E acabámos em coro, na rua. Era assim, naquele tempo. As trovas e baladas tinham o ritmo da nossa inquietação, de uma luta, da nossa vida. E vieram o «Menino do Bairro Negro», «Os Vampiros», «O Coro dos Caídos». O Sul entraria na música do Zeca com o seu «Pastor de Bensafrim», o seu «Sol de Verão», Catarina, o Alentejo, a cigarra, o silêncio, o grande espaço, a sombra de uma azinheira e o calor da fraternidade. E depois a África, seus ritmos e seus tambores, na fase da maturidade. Vieram os exílios, as longas separações, as pequenas e grandes batalhas, o 25 de Abril, encontros, desencontros, reencontros. E a voz do Zeca sempre, a avisar e animar a malta.
Como os provençais da época de oiro, cuja lição Ezra Pound tão bem captou, José Afonso foi um grande trovador moderno, ligando de novo a poesia e a música. Desse modo renovou uma e outra e contribuiu para mudar a própria vida, como queria Rimbaud.
Foi um homem fraterno, despojado, por vezes até ao exagero. Mas era assim: um revolucionário franciscano, como lhe chamei, irritado por vezes com o seu desprendimento de tudo e de si mesmo. Talvez as sociedades não consigam suportar a força subversiva de um tal despojamento. Por isso o Zeca foi tantas vezes censurado. Por isso continua simultaneamente a encantar e a incomodar. Eu sei que gostariam de transformá-lo em álibi ou torná-lo inofensivo depois de morto. Mas não é possível. A sua voz está tão cheia de ternura que será irremediavelmente subversiva.
Como disse António Portugal: «Um homem cuja voz foi a nossa voz durante muitos anos e que ajudou a tomar possível o nosso encontro colectivo com uma identidade perdida e com um destino que hoje orgulhosamente assumimos.»
Talvez seja isso o que uns tantos não conseguem perdoar-lhe. Mas é com certeza por isso que ele continua a ser a nossa voz.
Manuel Alegre

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Paulo QueridoTestemunhos
08/02/2006By AJA

O músico

O músico que José Afonso foi é um tema que me deixa perplexo. Se eu disser Zeca Afonso!, toda a gente vai lembrar o Grândola Vila Morena. Alguns são capazes de se lembrar do Maio Maduro Maio. E mais alguns dos albuns dele dos anos em que era mais mediático (no sentido de aparecer nos media).
Mas isso é redutor. Desculpem: é de bimbo, mesmo. A obra musical e poética de José Afonso pode ser dividida em três períodos. O período do meio é de longe o menos importante da obra — apesar de ser infelizmente o que perdurou na memória colectiva de um país distraído.
Os primeiros albuns dele, ainda no tempo da ditadura, são obras primas. Ouvir, como eu estou a ouvir neste momento, De Capa e Batina, é mergulhar na História de Portugal dos anos 60. Nessa altura Portugal era um país rural e atrasado, sem classes médias, mergulhado na obscuridão por via do isolamento a que Salazar o conduziu (orgulhosamente sós — era, imaginem, o lema da altura). Os poemas de Zeca Afonso, sobretudo cantados por ele, reflectem a tristeza profunda e as angústias das pessoas.
Menina dos olhos tristes
O que tanto a faz chorar
O soldadinho não volta
do outro lado do mar
…
A lua que é viajante
é que nos pode informar
O soldadinho já volta
Do outro lado do mar
O soldadinho já volta
Está quase mesmo a chegar
Vem numa caixa de pinho
Desata vez o soldadinho
Nunca mais se faz ao mar
(in Menina dos Olhos Tristes, letra de Reinaldo Ferreira e música de José Afonso)
Cantado por ele, como um fado coimbrão, é de arrepiar. Espelha num instante — como nenhum livro sobre a guerra colonial é capaz de fazer — a crua realidade das meninas, senhoras e senhores desses anos em que as batalhas de Portugal para tentar manter as colónias esvaziavam o país quer de dinheiro quer de gente. Eram os homens novos que partiam para a guerra, deixando cá as namoradas, noivas, mães, pais numa permanente angústia. Milhares regressaram em caixões. Não havia família na “Metrópole” (Portugal continental) que não tivesse alguem no “Ultramar”, (as colónias), a dar o corpo às balas. Poucas famílias portuguesas terão passado os anos 60 sem a dor que é um jovem adulto morrer numa guerra.
Só quem viveu esses tempos sabe do que falo. As gerações mais novas NÃO precisam de passar por isso ou sequer de recordar. Mas ouvir e ler José Afonso é historicamente importante. É um pedaço da nossa História. É importante para a cultura portuguesa, mesmo que o Ministério da Cultura não pense assim. É só aí que quero chegar.
A revolução do 25 de Abril abriu um período extraordinário na criatividade e sobretudo no entusiasmo dos meios culturais. Tem hoje a Direita da blogosfera toda a razão quando se queixa do excesso cultural esquerdista da época. Visto daqui, de agora, é compreensível: era uma moda. É como hoje ir “às Docas”. É in (na altura não se usava a expressão). Ou como hoje blogar.
José Afonso participou activamente nesse período. Incansável, percorreu milhares de quilómetros pelo país fora com a guitarra às costas. O objectivo dele não era ganhar dinheiro com a música ou sequer ser famoso (no sentido big-brotheresco, ou warholiano que o termo hoje tem). O objectivo dele era levar às pessoas uma mensagem de esperança, de vida, de entusiasmo, porque os maus tempos (do fascismo) tinham acabado. Estávamos a construir um país novo (este, em que hoje vivemos) e as pessoas eram analfabetas: 37 por cento da população portuguesa não sabia ler e escrever. Através da música, Zeca chegava a elas. Passava a mensagem. Acelerava o processo de aculturação dessas massas ignorantes porque ignoradas.
A importância dele para a cultrura, nesses anos, foi menor. No sentido estrito apenas: é claro que foi grande, sobretudo por ele ter funcionado como um catalizador, uma autêntica pilha energética, que arrastava outros músicos e criadores criando um ambiente quase feérico na cultura musical portuguesa. De um sentido só, o revolucionário. Claro. Era a época.
Mais tarde, já cansado, já a revolução a esmorecer, já o país a solidificar, já a entrada para a então denomidada CEE (hoje União Europeia) às mãos de Mário Soares, já a democracia estabelecida e o capital a regressar, José Afonso voltou a ser um poeta do povo.
No seu último algum de originais (Galinhas do Mato, 1985) está longe do fado de Coimbra e da canção revolucionária. É porém ainda um baladeiro que reflecte o estado de alma de um país. Embora um tanto desfasado: o país era, por altura de 80, já o embrião do país de hoje, emocionalmente dividido ao meio. Zeca espelha um dos lados, o lado desiludido. O lado da Esquerda, a Esquerda desse tempo (hoje há uma nova Esquerda que já não vive de desilusões como está bem patente no Bloco de Esquerda e nos blogs como o Barnabé e o Blogue de Esquerda).
Ficam as dúvidas (ainda hoje as tenho, eu…) Como em Década de Salomé:
Estamos na Europa.
Civilizados
já cá faltava
uma maison
Pour la Patrie
plo Volkswagen
acabou-se a forragem
viva o Patron!
[…]
Aos grandes Super-Mercados
chega a cultura num bi-camion
Camões e Eça vendem-se
enlatados
lavados com “champon”
Acertou na mouche. Dos átrios das igrejas, dos salões de festas mal amplificados que lhes arruinaram gargantas (a ele e aos outros andarilhos de Adriano Correia de Oliveira a Sérgio Godinho, de José Mário Branco a Janita Salomé, de Vitorino a Júlio Pereira, de Né Ladeiras a Luís Represas, então um jovem muito jovem) das sessões de esclarecimento, dos comícios, da festa do Avante, a cultura foi passando para os super-mercados. Onde ainda hoje está. A massificação cultural, a amálgama, tem virtudes (que ele não cantou, embora eu suspeite que as detectou mas considerou menores face aos defeitos) e tem defeitos.
Na faixa Galinhas do Mato, do album homónimo, Zeca regressa à “sua” África e experimenta sonoridades novas. Seriam o seu caminho futuro não fosse a doença tê-lo levado dois anos volvidos. Aliás, esse album foi produto de uma gigantesca prova de amor prestada pelos camaradas de ofício: José Afonso, já doente, mal podia mexer-se e quase não cantava. Foram Júlio Pereira e José Mário Branco as traves mestras do album.
Pessoalmente considero históricos e fundamentais os primeiros albuns, até 1974, e os últimos dois albuns. Galinhas do Mato é uma obra experimental de um músico já acima dos sessenta, um recomeço, uma viragem, uma abertura, uma interrogação. Depois de ter sido um dos grandes cronistas do Portugal da segunda metade do século XX, foi isso que ele nos deixou antes de partir. Pela minha parte, agradeço.
Paulo Querido

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Paulo QueridoTestemunhos
08/02/2006By AJA

O Homem

Eu não tinha mais de seis anos. Era um Verão qualquer de meados de 60. Tínhamos uma casa na Praia de Faro, emprestada. A casa do Sr. Freitas — acabam de me recordar as minhas queridas irmãs. Havia um gira-discos a pilhas e candeeiros a petróleo. Eu vinha da água roxo, depois de horas incansáveis a mergulhar das pontes, com a Irmã Mais Nova. Eu não sabia nadar bem, mas usava braçadeiras insufláveis e com elas aventurava-me fosse para onde fosse, mesmo sem pé. À noite, depois do jantar, ouvíamos música. Otis Redding. Charles Aznavour. Coisas que os adolescentes da altura (os meus irmãos e primos) ouviam. E também Adriano Correia de Oliveira. E Zeca Afonso.
É a minha primeira recordação de José Afonso. Uns anos mais tarde, mas não muitos, lembro-me de estarmos na sala de estar e alguem toca à campaínha (coisa comum, vivíamos numa pensão). Subitamente o meu irmão corre a tirar do prato do gira-discos o 33 rotações que estávamos a ouvir.
Recordo-me lindamente da capa. Que não da música: eu teria uns 8, 9 anos. Perante o sururu, devo ter feito uma pergunta de puto e deram-me uma resposta básica, para puto entender: havia coisas que não se podiam ouvir, eram proibidas pela polícia, pela PIDE, e aquela era uma delas. Os porquês eram demasiado complexos para mim, muito puto. Mas aquilo encaixava em duas coisas: eu não gostar de polícias, porque o polícia de giro parava sempre os nossos jogos de bola na rua, e já ter ouvido nas conversas da tasca (tínhamos uma “casa de pasto” abaixo da pensão, é hoje um bar na famosa Rua do Crime, em Faro, que na realidade, irónica, se chama Rua do Prior) que havia um viajante (pensão e tasca eram frequentados sobretudo pelos caixeiros viajantes) que era informador da PIDE, fosse lá isso o que fosse, e o meu pai tinha ido responder qualquer coisa à PIDE uma vez. O meu pai era um homem absolutamente de Direita e cumpridor, embora houvesse coisas do Salazar que ele não gostava muito: não imagino porque terá lá ido.
A minha Irmã Mais Velha foi aluna do José Afonso em Faro, onde ele deu aulas. O meu Irmão também. Na então chamada Escola Industrial e Comercial de Faro. Ela recorda-se de um «mau professor, que faltava muito e era despistado. Não seguia o programa, falava de outras coisas». Certo e sabido era que por alturas de Abril ele ia faltar, pelo menos um mês. Os alunos sabiam porquê, recorda essa minha Irmã: «com o aproximar do 1º de Maio, a PIDE ia lá e engaioláva-o durante um mês».
O meu Irmão não partilha da mesma opinião dele como professor, talvez por ser já na altura mais politizado e, digamos, avançado que ela. Quando deixámos a Pensão Mirense (onde nasci) que foi a seguir pensão de putas e mais tarde o primeiro Lar de Estudantes da Associação da Universidade do Algarve (está à venda, decrépita, fica por cima do bar Ovelha Negra), surripiei a colecção “Vida Mundial”, onde ele se informava na altura. (Ainda tenho a capa do Homem na Lua.) Ontem o meu Irmão recordava, com alguma emoção, como o professor «usava os sapatos desatados». E «faltava para ir fazer as gravações em França».
Eu conheci José Afonso em circunstâncias muito diferentes. Muitos discos, prisões, revoluções depois. Em 1985/86. Conheci-o em circunstâncias no mínimo estranhas, num apartamento em Faro, na presença do então director do Tal & Qual, José Rocha Vieira, e do meu camarada jornalista Francisco Rosa, que tinha uma Dyane onde o Guilherme Silva Pereira fazia o Gagarine (sair por uma janela, passar pelo tecto e entrar pela janela oposta — em andamento). O Guilherme foi depois capa do Tal & Qual por causa duma cena qualquer. Era (acho que ainda é) uma figura controversa…
Zélia acompanhava José Afonso. Era um homem doente. Ajudávamo-lo a andar pegando-lhe por debaixo dos sovacos. Tinha um olhar absolutamente sereno. Conversava com brilho. Em voz pausada, por causa do esforço. Mas com inteligência e perspicácia.
Dias depois visitei-o na casa de Azeitão. Conversas soltas. Eu era personagem secundária no cenário. Lembro-me das estantes vergadas com o peso de centenas de livros. Conheci a Joana Afonso, filha dele (que entrevistei mais tarde para um pasquim chamado “O Rebelde” que foi percursor das revistas para adolescentes).
Lembro-me de um homem admiravelmente consciente da proximidade da morte e ainda assim um homem sereno, tranquilo. Forte. Estar junto de José Afonso era estar mergulhado numa paz activa, estimulante. Quando falava era um sábio. É essa a imagem que retenho dele: uma pessoa sábia, consciente das realidades do mundo, nada interessado em falar dele ou da doença, mas sim da actualidade. Com notável perspicácia, algum humor e um belo poder de antecipação das tendências sociais e políticas.
O José Afonso que eu conheci não é o Zeca Afonso comunista, não é o Zeca Afonso perigoso revolucionário, não é o Zeca Afonso maldito, aparentemente malquisto e incómodo, até hoje, à Esquerda e aos partidos que ajudou dando a cara por eles, mesmo que não lhes pertencesse (o José Afonso nunca pertenceu a nada senão à cultura portuguesa e ao povo português). Era uma pessoa que dava gosto conhecer, com quem dava gosto estar e conversar. Um pessoa de bom fundo e carácter vincado com opiniões sábias e nada extremas, bem pelo contrário.
Este “meu” José Afonso não tem também nada a ver com a “malta de Esquerda” desses tempos que, em período final do cavaquismo, desistiu de lutar pelos seus ideiais. O capital é mais forte, desisto: onde está o bom emprego, onde posso ir beber uns copos? O “meu” José Afonso, não fora a doença, teria continuado a lutar pelos seus ideais noutro palco. Um palco qualquer. Um palco onde ele fosse preciso. Há menos de um ano tive o grato prazer de conhecer alguns dos que não desistiram. Continuam a luta nos foruns prisões, associações, escolas, etc a defender os direitos individuais, a sensibilizar e educar as pessoas nos seus direitos e deveres. Quando conheci o António Pedro Dores lembrei-me do José Afonso e de pensar: é a mesma força. Há gente que não desiste de ser melhor e fazer os outros melhores. Ainda bem.
Paulo Querido

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AJA NorteImprensaNúcleos AJA
03/02/2006By AJA

Sacos para o pão com Zeca Afonso

Para assinalar aniversário da morte, panificadora e biblioteca lançam campanha cultural direitos reservados

Nos dias 24 e 25, haverá um espectáculo de homenagem a Zeca Afonso, que durará 30 horas

A empresa de panificação Pavico e a Biblioteca Raul Brandão, de Guimarães, voltam a unir esforços para uma nova campanha. Em Fevereiro, para assinalar a data da morte de Zeca Afonso, vão ser lançadas 100 mil embalagens de pão, em papel, com dados sobre a vida e obra do autor de “Os vampiros”.

As embalagens serão usadas nos vários postos de venda daquela empresa, no centro e periferia de Guimarães. A campanha “Pão com sonho” consta de uma biografia do cantor e letras das canções “Menino d’oiro” e “Utopia”, inscritas nas embalagens.

Francisco Fidalgo, da Pavico, sublinha que as campanhas “surtem efeito, porque reforçam a imagem da empresa” e, também, porque “já têm um público fiel, que pergunta pela próxima iniciativa”. A campanha “Pão com sonho” surge na sequência de outras resultantes da mesma parceria. A primeira surgiu em 1996, “Pão com livros”. Seguiram-se “Pão com poesia”, em 1997, “Pão com liberdade”, em 1999 (evocação dos 25 anos do 25 de Abril) e “Pão com Teatro”, em 2002.

Esta é uma das iniciativas de um amplo programa de homenagem ao cantor, promovido pela Associação José Afonso. O ponto alto é um mega-espectáculo, nos próximos dias 24 e 25, no Centro Cultural de Vila Flor, com duração de 30 horas

Joaquim Forte
Jornal de Notícias, 2006/01/02

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CoimbraNo verso dos versos
30/01/2006By AJA

Tecto do Mendigo

O “Tecto do Mendigo”, de José Afonso, nas paredes da república Boa-Bay-Ela. Notícia do Diário das Beiras de hoje. Foto de Rui Semedo.
Aqui só estão as quatro primeiras quadras, numa versão ligeiramente diferente da que consta do livro “José Afonso – Textos e Canções”, da editora Assírio e Alvim, de 1983, com coordenação e notas de J. H. Santos Barros.

Num lugar ermo
Só no meu abrigo
Aí terei meu tecto
E meu postigo

De longe em longe
À luz das madrugadas
Duas camisas
Quem não tem lavadas?

Aí serei meu dono
E companheiro
Dizei amigos
Se não sou solteiro

E se eu morrer
O tecto que não caia
Porque um mendigo
Dorme de atalaia

Fonte: guitarradecoimbra.blogspot.com

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Associação José AfonsoRádio
27/01/2006By AJA

Debate sobre a rádio e a música portuguesa

A Associação José Afonso com o apoio da Câmara Municipal de Setúbal, apresenta hoje na Biblioteca Municipal de Setúbal, Avenida Luisa Todi, pelas 21.30 o segundo debate sobre a música portuguesa e a rádio.
Depois do debate de 30 de Setembro (sexta-feira) ter contado com a presença de Sérgio Godinho, Luis Montez, José Fragoso e Sandi Gageiro, o de hoje terá a participação de:

Nuno Pacheco – Jornal Público
David Ferreira – EMI Valentim de Carvalho
Carlos Guerreiro – Gaiteiros de Lisboa
José Moças – Editora Tradisom

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AJA NortePoesiaTertúlias
25/01/2006By AJA

A poesia de José Afonso no Porto

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Canção de CoimbraNo verso dos versosOctávio SérgioPartituras e tablaturas
25/01/2006By AJA

Balada do Outono

Texto retirado do blog de Octávio Sérgio: guitarradecoimbra.blogspot.com



Águas passadas do rio,
Meu sono vazio
Não vão acordar;
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar.

Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar.

Águas do rio correndo
Poentes morrendo
Pràs bandas do mar;
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar.

Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar.

No refrão, o terceto final canta-se e repete-se.
Esquema do acompanhamento do canto:
1º terceto: Lá menor, 2ª Lá, Lá menor /// Sol maior, Lá menor /// Sol maior, Lá menor;
2º terceto: Lá menor, 2ª Lá, Lá menor /// Ré menor, Lá menor /// 2ª Lá, Lá menor;
Refrão:
1º dístico: Lá menor, Sol maior, Lá menor /// Lá menor, Sol maior, Lá menor;
o terceto: Lá menor, 2ª Lá, Lá menor /// Ré menor, Lá menor /// 2ª Lá, Lá menor;

Informação complementar:
Balada com refrão, em compasso ¾ e tom de Lá Menor. Esta é a primeira composição verdadeiramente da autoria de José Afonso. Segundo ele próprio nos diz, passou a designar as suas primeiras canções por “baladas”, não porque soubesse o significado do termo, mas para as distinguir do “chamado Fado de Coimbra” que começara por cantar desde os anos do Liceu D. João III em meados da década de 1940. José Afonso fez a composição, mas faltava-lhe o título. Parece que terá pensado em designá-la inicialmente por BALADA DO RIO (MONDEGO). Em troca de ideias com o Dr. António Menano, recentemente regressado de Moçambique, José Afonso seguiu a sugestão de Balada do Outono (Cf. O Comércio do Funchal, 01/06/1970).
A título explicativo, o próprio autor facultou os seguintes dados relevantes que nos permitem situar esta composição num período imediatamente anterior à ruptura estética que se intensificou após a campanha presidencial do General Humberto Delgado: “Mais propriamente Balada do Rio. Dominada ainda pelo velho espírito coimbrão, é o produto de um estado perpétuo de enamoramento ou como tal vivido, uma espécie de revivescência tardia da juventude. O trovador julga-se imprescindível, como um protagonista que a si próprio se interpela para convocar a presença das águas dos ribeiros e dos rios, testemunhas vivas do seu solitário cantar. A imagem do Basófias (nome porque é conhecido o Rio Mondego, na gíria coimbrã), que incha e desincha quando lhe apetece, deve ter influído na gestação da partitura. Uma certa disposição fisiológica propensa à melancolia explica o começo das dores sem falar na albumina anunciadora de futuras e promissoras partogéneses “ (Cf. “Cantares de José Afonso”, 2ª edição, Lisboa, AEIST, 1969, pág. 22). Na obra que acabamos de citar, a letra dos dois versos iniciais é Águas / E pedras do rio, letra essa que veio a ocorrer numa gravação realizada por José Mesquita em 1979.
Balada gravada pela primeira vez nos inícios de 1960, por José Afonso, acompanhado à guitarra por António Portugal/Eduardo de Melo e, à viola, por Manuel Pepe/Paulo Alão: EP “Balada do Outono”, Rapsódia, EPF 5085 – EP0089F, de 12 de Março de 1960. O registo de 1960 tem sido profusamente reeditado: LP “Baladas e Fados de Coimbra. José Afonso”, Porto, Edisco, EDL 18. 020, ano de 1982, Lado B, Faixa nº 6; CD “Dr. José Afonso. Os Vampiros”, Porto, Edisco, ECD-001, ano de 1987, faixa nº 12. A referida remasterização é omissa quanto à matriz original, ano de gravação e instrumentistas. Na primeira gravação, o trabalho de guitarra protagonizado por António Portugal é francamente desinteressante, limitando-se a curtas intervenções na abertura e no meio da peça. Quase todo o acompanhamento é suportado pelas violas, certamente a insistências do próprio autor.
Jorge Tuna aproveitou parte da melodia de “Balada do Outono” para trecho de abertura da sua “Rapsódia de Fados”, presente no EP “Coimbra à Noite”, RAPSÓDIA, EPF 5.179, de 13 de Agosto de 1962, gravado com Jorge Tuna/Jorge Godinho (gg) e Durval Moreirinhas/José Tito Mackay (vv). Este “pot pourri” encontra-se disponível no CD “Jorge Tuna. Coimbra”, Porto, Edisco, ECD 133, ano de 2000, faixa nº 1, sem quaisquer dados indicativos do ano de gravação ou da matriz fonográfica original.
Em finais dos anos 60 foi editado um LP de “Baladas e Canções”, Porto, OFIR, MAS 301, ano de 1967, contendo uma versão instrumental em viola nylon tocada por Rui Pato, versão essa disponível no CD “Baladas e Canções. José Afonso acompanhado à viola por Rui Pato”, Lisboa, EMI-Valentim de Carvalho, 7243 8 36617 2 5, ano de 1996, faixa nº 4. Nos dois casos, as faixas foram retiradas da matriz EP “Baladas e Canções”, Porto, OFIR, MAS 4.016, ano de 1964.
O autor voltou a gravar esta balada em 1981, acompanhado à guitarra por Octávio Sérgio e, à viola, por Durval Moreirinhas: LP “José Afonso – Fados de Coimbra”, Orfeu, FPAT 6011. O arranjo para guitarra de acompanhamento é de Octávio Sérgio, em tudo superior ao de 1960, de tal arte que passou a ser correntemente tocado por quase todas as formações activas nas décadas de 1980-1990.
Das gravações de José Afonso são ainda conhecidas as seguintes remasterizações:
-LP “José Afonso. Fados de Coimbra e outras canções”, Riso e Ritmo Discos, Lda., RR LP 2188, ano de 1987, Lado B, faixa nº 1, extraído do registo de 1960;
-CD “Coimbra Serenade”, Edisco, ECD 5, editado em 1992, extraído do registo de 1960 (remasterização do LP “Coimbra Serenade”, RAPSÓDIA, LDF 006, Lado A, Faixa nº 5, sem data, que se vendia em 1987/1988 a 600$00);
-CD “José Afonso – Fados de Coimbra”, Movieplay, SO 3003, editado em 1996, extraído do registo de 1960;
-CD “Fados e Guitarradas de Coimbra”, Volume I, Lisboa, Movieplay, MOV. 30.332, 1996, disco nº 1, faixa nº 7, extraído do registo de 1981;
-CD “José Afonso. Fados de Coimbra e outras Canções”, Movieplay, JÁ 8011, ano de 1996, faixa nº 6, com livreto assinado por José Niza, extraído do registo de 1981;
-Col. “Um Século de Fado”/Ediclube, CD Nº 4/Coimbra, emi 7243 5 20638 2 6, editado em 1999, extraído do registo de 1960.
José Afonso gravou a Balada do Outono uma 3ª vez, durante o concerto de 1983 no Coliseu de Lisboa, correndo no mercado tiragens provenientes desse espectáculo realizado no dia 29 de Janeiro de 1983:
-LP duplo “José Afonso ao vivo no Coliseu”, DIAPASÃO, DIAP 16050/1, ano de 1983, LP 1, Lado A, Faixa nº 5, acompanhado por Octávio Sérgio/Lopes de Almeida (gg) e António Sérgio/Durval Moreirinhas (vv). Deste registo se fizeram as seguintes remasterizações:
-CD “Zeca Afonso no Coliseu”, Strauss, ST 1021010035, ano de 1993;
-cassete “Zeca Afonso no Coliseu”, Strauss, ST 1021010036, ano de 1993.
Gravações disponíveis em compact disc de outros cantores:
-CD “Fados e Baladas de Coimbra – Coimbra tem mais encanto”, Vidisco, 11-80-1304, editado em 1991, a partir das gravações efectuadas por José Mesquita no LP “Fados e Baladas de Coimbra por Antigos Estudantes, RODA, SSRL 9001, ano de 1979, Lado A, Faixa nº 3, com acompanhamento da formação António Brojo/Jorge Gomes (gg) e Manuel Dourado/Aurélio Reis (vv). José Mesquita canta na parte introdutória o texto original “Águas e pedras do rio, meu sono vazio não vão acordar.”;
-CD “Fernando Machado Soares”, Philips, 838 108-2, sem data, compilação dos LP’s de 1986 e 1988, faixa nº 13. Remasterização efectuada a partir do LP “Serenata”, Polygram Discos, ano de 1988, faixa nº 3, acompanhado por José Fontes Rocha (g) e Durval Moreirinhas (v). Vocalização ultra-romântica, servida por um toque de guitarra banalíssimo;
-CD “Amanhecer em Coimbra – Tertúlia do Fado de Coimbra”, Porto, Edisco, ECD 15, ano de 1993, faixa nº 6. Canta Victor Nunes, acompanhado por José dos Santos Paulo/Álvaro Aroso (gg), José Carlos Teixeira/Eduardo Aroso (vv). O arranjo é da autoria de José S. Paulo. Vocalização eficaz de Victor Nunes. No livreto de acompanhamento do disco conta-se uma pequena história sobre a origem desta peça, relacionando a sua feitura com a viagem de José Afonso a Angola integrado na digressão do Orfeon, em Agosto de 1960. No entanto, esta informação não sintoniza com a data da 1ª gravação da obra, cujo disco preparado meses antes, em 12 de Março de 1960;
-CD “Meu Menino, Meu Anjo”, Porto, Fortes & Rangel, DCD 1038, ano de 1998, faixa nº 11. Grupo activo no Porto, com os cantores Nuno Oliveira e Delfim Lemos. Acompanhamento por Rui Vilas Boas (g) e Castro Lopes (v). A ficha técnica não identifica o cantor, sendo o arranjo transladado a partir de Octávio Sérgio (1981);
-duplo CD “José Mesquita. Coimbra das Canções, Trovas e Baladas”, Coimbra, sem editor, Janeiro de 2000, disco nº 2, faixa nº 2. O acompanhamento é feito por Carlos Jesus (g), Luís Filipe/Humberto Matias (vv), traduzindo-se numa presença excessiva do som da guitarra. No livreto do CD nº 2, embora a letra transcrita inicie com “Águas e pedras do rio”, José Mesquita canta a mesma letra que foi gravada por José Afonso. Saliente-se que do ponto de vista da melodia José Mesquita não canta exactamente a versão do autor (José Afonso), mas sim uma adaptação do próprio José Mesquita sobre um arranjo do Maestro José Firmino;
-CD “Quinteto de Coimbra. Guitarra e Canção de Coimbra”, Coimbra, Edição Quinteto de Coimbra/Casa de Fados, Lda., ano de 2001, faixa nº 3. A ficha técnica do disco não explicita quem seja o intérprete. A formação é constituída por Patrick Mendes/António Ataíde (vozes), Ricardo Dias (g) e Nuno Botelho/Pedro Lopes (vv). Predomina o trabalho instrumental das violas, salpicado nos separadores pela guitarra de Ricardo Dias, a seguir inequivocamente o arranjo de Octávio Sérgio (1981), embora tal se não mencione. O trabalho vocal é demasiado arrastado, com modulações em estilo soul ou até jazísticas e evitáveis esmorecimentos nas notas graves;
Não confundir esta composição com outra de Carlos Carranca, com letra e música diferentes: “Balada de Outono” (Canto os raios do Sol), letra de Carlos Carranca, música de José Reis, CD “Poesia para Todos. Carlos Carranca”, Cascais, Edição da Câmara Municipal de Cascais, sem data (2004), faixa nº 9, datando a referida composição de 1998.
“Balada do Outono” foi muito cantada a quatro vozes na década de 1990 pelo Coro dos Antigos Orfeonistas do OAC, tendo por base uma harmonização do Maestro José Firmino sobre o arranjo de Octávio Sérgio (1981). Esta versão foi gravada pelos Antigos Orfeonistas no Palácio de São Marcos, dias 30 de Abril e 1 de Maio de 1994, com regência de Augusto Mesquita e piano de Filipe Teixeira Dias, no CD “Coro dos Antigos Orfeonistas da Universidade de Coimbra, Polygram/Philips, 522662-2, de 1994.
Transcrição musical: Octávio Sérgio (2006)
Arranjo instrumental: Octávio Sérgio
Pesquisa e texto: José Anjos de Carvalho e António M. Nunes
Agradecimentos: Sandra Cerqueira (Edisco), SPA, Dr. José Reis (Pardalitos do Mondego), Dr. Rui Pato, Doutor José Mesquita

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Homenagens e tributos (2006)
24/01/2006By AJA

Homenagem a José Afonso em Guimarães

Numa cidade sem muros nem ameias…com gente igual por dentro e gente igual por fora

CENTRO CULTURAL VILA FLOR
Guimarães – 24 E 25 DE FEVEREIRO DE 2006

concertos | exposições | filmes | debates | livros | discos | etc.

Direcção artística e plástica de José Mário Branco e Hélder Costa (A Barraca)

GUIMARÃES recebe os amigos de José Afonso e dá-lhes guarida…

ORGANIZAÇÃO: Círculo de arte e recreio

APOIO:
ASSOCIAÇÃO JOSÉ AFONSO
ASSOCIAÇÃO 25 DE ABRIL
CAMARA MUNICIPAL DE GUIMARÃES
RÉGIE COOPERATIVA OFICINA

Mais informações em breve…

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António M. NunesJosé Anjos de CarvalhoNo verso dos versosOctávio Sérgio
18/01/2006By AJA

No lago do breu

Texto retirado do blog de Octávio Sérgio: guitarradecoimbra.blogspot.com

NO LAGO DO BREU
Música: José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos (1929-1987)
Letra: José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos (1929-1987)
Incipit: No Lago do Breu
Origem: Faro
Data: 1962

No Lago do Breu
Sem luzes no céu
Nem bom Deus
Que venha abrasar
Os ateus
No Lago do Breu.

No Lago do Breu
A noite não vem
Sem sinais
Que fazem tremer
Os mortais
No Lago do Breu.

Mas quem não for mau
Não vá
Que o céu não se compra
Dá
Não vejo razão
Pra ser
Quem teme e não quer
Viver
Sem luzes no céu
Só mesmo como eu
No Lago do Breu.

No Lago do Breu
Os dedos da noite
Vão juntos
Para amortalhar
Os defuntos
No Lago do Breu.

No Lago do Breu
A Lua nasce.
Mas ninguém
Pergunta quem vai
Ou quem vem
No Lago do Breu.

Mas quem não for mau
Não vá
Que o céu não se compra
Dá
Não vejo razão
Pra ser
Quem teme e não quer
Viver
Sem luzes no céu
Só mesmo como eu
No Lago do Breu.

No Lago do Breu
Meninas perdidas
Eu sei
Mas só nestas vidas
Me achei
No Lago do Breu.

Mas quem não for mau
Não vá
Que o céu não se compra
Dá
Não vejo razão
Pra ser
Quem teme e não quer
Viver
Sem luzes no céu
Só mesmo como eu
No Lago do Breu.

Canta-se cada estrofe seguida e repete-se o terceto final.
Informação complementar:
Canção com uma espécie de refrão atípico que resulta da repetição do terceto final de cada estrofe, em compasso 6/8 e tom de Mi menor, gravada por José Afonso, acompanhado à viola nylon por Rui Pato: EP Baladas de Coimbra, Porto, Rapsódia, EPF 5.182, Outubro de 1962, Lado 2, Faixa nº 3. A gravação decorreu em Coimbra, no antigo Convento de São Jorge, local onde os técnicos da editora montaram os dispositivos de captação sonora. A melodia é melancólica, remetendo para um estado de espírito depressivo vivido pelo autor na data da feitura da obra, conforme nos corroborou Rui Pato.
De acordo com declarações do próprio José Afonso, tratar-se-á de uma canção inspirada no repertório do cantor e compositor francês Georges Brassens (1921-1981), cujo título e letra interpelam a moral social vigente e a prática de frequência das casas de prostituição do Terreiro da Erva em Coimbra. cf. “Os cantares de José Afonso”, Lisboa, 1ª edição, 1968; idem, 2ª edição, Lisboa, Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico, 1969, págs. 46-47: “Balada de inspiração Brassens, define simultaneamente um estado de espírito e uma autobiografia, uma crise de consciência (destruição do sentimento de remorso) e um meio social (os prostíbulos do “Terreiro da Erva” ou os seus sucedâneos mais ou menos bem iluminados” (sic). Até à entrada da década de 1960 era nestas casas que estudantes e jovens mancebos em dia de inspecção militar faziam a sua iniciação sexual. O local da feitura da composição foi Faro, cidade onde José Afonso então residia e trabalhava como professor.
A letra integral é de árdua transcrição, pois nas estrofes o autor oscila entre a sextilha (1ª, 2ª, 4ª, 5ª, 7ª) e os 11 versos (3ª, repetida na 6ª e na 8ª). Rui Pato mitiga a influência de Brassens, a qual se teria feito sentir mais tarde (nesta fase havia mais de Jacques Brel e de Léo Ferré e ainda não as “brassenzadas” do tipo “Eu tive o Diabo na mão”), recordando ter-se deslocado propositadamente a Faro para ensaiar com José Afonso (informes de 12/01/2006). Rui Pato passou um mês de férias no Verão/1962 com José Afonso em Faro. Foi nas deambulações em improvisada jangada à Ilha do Farol que José Afonso alicerçou os rudimentos desta canção. José Afonso começou pela letra e só depois improvisou os rudimentos da melodia. Rui Pato recorda-se bem dos trauteios nascentes junto ao areal da Ilha do Farol, com José Afonso tomado de amores pela futura companheira Zélia Maria Agostinho.
As estrofes assimétricas, alternando entre 6 e 11 versos, a longa debitação da letra, o “refrão” atípico, a obsidiante presença da viola nylon, tudo foi pensado para erigir o tema em obra de protesto contra o que era convencional cantar-se e gravar-se em Coimbra. Tendo forma, No Lago do Breu rejeita abertamente a fórmula estrófica dos temas mais convencionalmente clássicos da CC. Nada de repetições canónicas, nada mudanças de frase antecipadamente reconhecíveis, nada de langorosos ais. O autor escuda-se no efeito surpresa e com ele se torna um intérprete surpreendente. O trabalho de acompanhamento é relativamente simples, pois José Afonso queria fazer alguns acordes na sua viola, embora soubesse antecipadamente que não conseguia seguir os dedos de Rui Pato. Fez-se a gravação com a viola de Rui Pato “meio desafinada” por forma a que José Afonso pudesse cantar e fazer no braço da sua viola os singelos acordes que sabia executar.
A referida gravação veio a ser remasterizada no LP Baladas e Fados de Coimbra, EDISCO, EDL 18.020, ano de 1982, Face B, Faixa nº 3, fonograma omisso quanto ao ano da gravação, matriz original e instrumentista. Versão disponível em compact disc: CD OS VAMPIROS, Edisco, 1987, faixa nº 9, com o título adulterado para “No Largo do Breu” (sic) e inclusão da letra no respectivo livreto. A letra, na edição em off-set das AAEE, de 1969, de “Cantares DE JOSÉ AFONSO” e em “JOSÉ AFONSO. Textos e Canções”, e na publicação Assírio e Alvim, de 1983, não está conforme os discos supra. O título nos discos é No Lago do Breu e, não, “Lago do Breu” como vem em Textos e Canções.
Este tema foi gravado também pelo cantor português activo em França Germano Rocha, em 1964, acompanhado à guitarra por Ernesto de Melo e Jorge Godinho e, à viola, por José Niza Mendes e Durval Moreirinhas (EP BLY 76153 e LP XBLY 86112, ambos da editora Barclay). A letra adoptada por Germano Rocha não corresponde à versão de José Afonso, e o título original aparece encurtado para “Lago do Breu”.
No site http://alfarrabio.um.geira.pt/zeca/cancoes/16.html, encontra-se uma transcrição incompleta da letra gravada por José Afonso, com título encurtado para “Lago do Breu” (cf. também o endereço https://aja.pt/discografia.htm, para as fontes fonográficas do autor conhecidas até ao ano de 2005, cujo rol está incompleto) e omissão integral dos refrões. A versão de das edições de 1968 e 1969 encontra-se no “Arquivo de Música de Língua Portuguesa”, da Universidade do Minho (http://natura.di.uminho.pt).
Este espécime foi gravado na Capela do Palácio de São Marcos da Reitoria da UC por Serra Leitão, no tom de Mi Menor, acompanhado pela formação José dos Santos Paulo/Octávio Sérgio (gg) e Aurélio Reis/Humberto Matias/José Tito Mackay (vv) no CD “15 anos depois… Antigos Tunos da Universidade de Coimbra”, Coimbra, ano de 2000, faixa nº 15. Neste registo, com introdução e arranjo de José dos Santos Paulo, o título sofreu adulteração para LARGO DO BREU (sic), sendo a identificação dos instrumentistas totalmente omissa.
A solfa desta canção encontra-se impressa na brochura do antigo sócio da TAUC António Carrilho Rosado Marques, “Cantares de José Afonso. Acompanhamentos para viola”, Évora, Edição do Autor, 1998, págs. 18-19.

Texto: José Anjos de Carvalho e António M. Nunes
Agradecimentos: Dr. Octávio Sérgio, Prof. José dos Santos Paulo, Dr. Rui Pato

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Bibliografia
16/01/2006By AJA

José Afonso na História


(Retirado do blog de Octávio Sérgio “guitarradecoimbra.blogspot.com”)

Página de abertura de um dos capítulos da obra colectiva coordenada por António Reis, “Portugal Contemprâneo (1958-1974)”, Volume 5, Lisboa, Publicações Alfa, 1990, pág. 337. Trata-se de uma obra muito desigual e fragmentária, dependendo a valia de cada capítulo do engenho e arte de cada um dos articulistas convidados. De facto, esta obra tem os seus historiadores, os seus curiosos, os seus articulistas e os seus croniqueiros. Não obstante alguns erros desculpáveis (mormente, 1ª coluna central, linhas 3-5), pela pena de António Duarte, José Afonso entra timidamente na História de Portugal.
Em termos de obras especializadas e de monografias, José Afonso sabe a pouco nas bibliotecas escolares portuguesas. Todas as vezes que se aproximam as comemorações da Revolução de 1974 e do Feriado de 25 de Abril, os alunos de História de 9º Ano em vão pedem a biografia de José Afonso e um “livro de letras” com a “Grândola”. Pois sim! O que nos vai valendo é o site da Associação José Afonso.
António M. Nunes

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José António GomesTestemunhos
03/01/2006By AJA

Louvor e memória de José Afonso

Na rádio inaudível que nos dão (salvam a honra do convento as Antenas 1 e 2 e pouco mais), ainda é possível escutar – mas não muito – uma ou outra voz mais ou menos consensual, em língua portuguesa. Bem como, por exemplo, algumas vozes brasileiras da moda (desiluda-se, porém, quem goste de António Carlos Jobim, Vinicius e Toquinho, João Gilberto, Elis, Chico Buarque, Edu Lobo ou Ivan Lins). Mas o grosso da «música» – e a palavra «grosso» tem aqui duplo sentido – é composto pelos mais comerciais subprodutos da indústria musical anglo-saxónica, alguns deles repetidos até à náusea.
Postas em música, as línguas portuguesa, francesa ou espanhola foram praticamente banidas das nossas ondas radiofónicas, vergadas ao peso do mau gosto e da chamada língua franca (um inglês básico para duros de ouvido e compreensão), no que configura uma autêntica ditadura imposta pela praga matraqueante das «playlists». Os cordelinhos – é bom de ver – movem-nos os conselhos de administração das empresas de radiodifusão, os obedientíssimos directores de programação e, no topo, as máquinas comerciais da indústria musical dominante. Todos argumentam ir ao encontro do «gosto» do grande público – esse gosto que eles próprios ajudaram a de/formar, por razões economicistas e, naturalmente, ideológicas.
Associadas ao quase ostracismo a que foram votados os «autores» de programas radiofónicos (recordem-se aqui os saudosos «Página 1», «Câmara de Eco», «23ª Hora», «Em Órbita» e «Os Cantores do Rádio» ou, em tempos mais recentes, «O Som da Frente»), tais são porventura as razões de fundo por que hoje não é possível escutar, na rádio, Adriano Correia de Oliveira e Francisco Fanhais, José Mário Branco e Fausto, Vitorino e Janita Salomé, Manuel Freire ou a Brigada Victor Jara. (Quanto à guitarra de Carlos Paredes, apenas se consegue ouvi-la como fundo musical de algumas reportagens ou então de peças breves dando notícia de homenagens à obra do genial compositor e intérprete.) Mercê de uma inteligente fusão da sua música com os ritmos e atmosferas sonoras da moda, ou graças à colaboração com músicos mais jovens que os praticam (como os Clã), Sérgio Godinho ainda logra marcar uns pontos nas rarefeitas ondas radiofónicas do nosso descontentamento. As quais – convém recordá-lo – utilizam espaço público de radiodifusão, mesmo se concessionadas ao sector privado.
Se quisermos contudo apontar um exemplo paradigmático desta velada censura à música popular urbana de qualidade, cantada em português, teremos naturalmente de falar em José Afonso.
Desde os seus primórdios coimbrões – marcados pelo benigno ascendente do chamado fado de Coimbra –, as canções de José Afonso sempre foram a simbiose perfeita de três aspectos a reter: uma poesia singular, uma voz única (de timbre e coloração inconfundíveis) e um talento inato para a melodia. E ao falarmos de melodia, e também de ritmos, não é possível esquecer a fidelidade desta música às raízes mais profundas da música popular portuguesa, mas também a sua dívida em relação aos ritmos da África e do Brasil, para não falar da irmã Galiza – que em devido tempo soube homenagear o cantor com um espectáculo e o descerramento de uma lápide no Auditório da Galiza, em Santiago de Compostela.
O que todavia irrita e inquieta os senhores da rádio talvez seja a aura indissipável de José Afonso como antifascista e democrata, a sua dimensão humana de companheiro fraterno e solidário, disponível para todo e qualquer combate em prol dos injustiçados deste mundo: os pobres, os sem-terra, os povos em luta pela sua dignidade e independência. José Afonso ridicularizou como ninguém o salazarismo, mais tarde a rede bombista e a recuperação capitalista após o 25 de Novembro. Mas cantou também o amor, a amizade, os direitos da mulher. E vazou tudo isto em versos e melodias de uma alta temperatura musical e poética, mesmo naquelas composições em que não renegou a sua intimidade, experiência pessoal e contradições, e se deixou imbuir (e bem) dos influxos da poética surrealista, de um aparente «nonsense» ou mesmo do espírito das fatrasias de raiz popular.
Por muito que muitos o prefiram ignorar, a imagem, a voz e a obra de José Afonso converteram-se em símbolos do 25 de Abril (será necessário recordar a «Grândola», o «Venham mais cinco», «Os índios da Meia-Praia», a «Utopia»?), expressão da resistência de um povo em combate pela liberdade e por uma vida digna.
Quase duas décadas após a sua morte, a música de José Afonso está mais viva e actuante do que nunca. Venceu, como poucas, a lei da morte e o efémero. Muitos a guardam na memória e em cassetes, velhos discos de vinil e CD. E continuam a escutá-la. Por vezes, quase clandestinamente. Isto porque a rádio, a nossa rádio, a silenciou e só conhece hoje um pacto com a mediocridade, o fácil, o insidioso pensamento único – o mesmo é dizer, sobrevive em inaceitável compromisso com tudo o que cheira a ignorância, a mortos-vivos e a mau viver.
José Afonso, esse, está vivo. E bem vivo. Até porque – não o esqueçamos – soube cantar também outros vivos ilustres: Airas Nunes e Camões, Lope de Vega e António Nobre, Reinaldo Ferreira, Ary dos Santos, António Quadros e outros mais, como Fernando Pessoa – esse que, num dia de inspiração, não resistiu a metaforizar Portugal na forma de um «comboio descendente», onde «uns riem por ver os outros / e os outros sem ser por nada».

José António Gomes

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Homenagens e tributos (2006)Imprensa
30/12/2005By AJA

José Afonso homenageado em Guimarães

2005/12/12

Espectáculo deverá durar 30 horas e servirá como rampa de lançamento para as comemorações dos 20 anos da morte de cantor, que terão lugar em 2007

A Associação José Afonso vai participar na organização de um mega-espectáculo de homenagem ao cantor de «Grândola Vila Morena», a realizar a 24 e 25 de Fevereiro de 2006, em Guimarães, anunciou hoje fonte do núcleo nortenho daquela estrutura.

O espectáculo, que deverá durar 30 horas, vai realizar-se no Centro Cultural Vila Flor, numa iniciativa do Centro de Arte e Recreio, com o apoio da Câmara Municipal de Guimarães, Associação 25 de Abril, Associação José Afonso e da Régie Cooperativa Oficina.

A direcção musical está a cargo de José Mário Branco, enquanto o encenador e dramaturgo Hélder Costa será o responsável pela cenografia e montagem, disse à Agência Lusa Paulo Esperança, responsável do Núcleo do Norte da Associação José Afonso, que acaba de ser reactivado, após um período de paralisação.

Paulo Esperança referiu que o espectáculo servirá como rampa de lançamento para as comemorações dos 20 anos da morte de José Afonso, que terão lugar em 2007.

Aquele responsável referiu que o programa da iniciativa será divulgado logo que esteja concluído.

“Portugal diário” – www.portugaldiario.iol.pt

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AJA NorteHomenagens e tributos (2006)
15/12/2005By AJA

O Zeca a norte

Ribeira do Porto.

Arcos de Miragaia.
“PÚCAROS BAR”.
Segunda-feira, 12 de Dezembro, 22 horas.

A porta abriu-se e achegaram-se dezenas de amigos do Zeca.
Embalados pelo generoso cartaz da Gabi, uns vinham com a viola, outros com os filhos, outros, apenas, com a alma feita pelo reencontro .
Éramos de Penafiel, de Famalicão, de Guimarães, de Ermesinde, de Gaia, de Matosinhos, da Maia… de muitos caminhos que se cruzaram, também, com o Zeca.
Na apresentação do Núcleo do Norte da Associação José Afonso éramos mais de cinquenta entre “finos” , “cimbalinos” e “Português Suave”.
Enquanto os “Maneis” e as “Marias” se acomodavam o Paulo e o Eduardo falavam dos objectivos , das iniciativas , dos próximos encontros, da AJA…e do Zeca. Correndo a sala o Jorge distribuía os últimos papeis do Tribunal Mundial sobre o Iraque e o discurso do Pinter/ Prémio Nobel da Literatura 2005.
Na mesa da “conspiração” uns dos “Maneis” falava entusiasmado das andanças em Matosinhos para a realização de uma nova sessão.
Noutra, o Tino explicava a iniciativa de Guimarães a 24 e 25 de Fevereiro do próximo ano. Até que outro dos “Maneis”, o Sampaio, agarrou na guitarra e cantou. E depois foi o Zé Luis e depois o Ramalho e depois o Pedro e o Carlos Jorge com poesia e depois o texto do José António e depois outra vez…foram muitos os que nos puseram o Zeca, de novo, em cima da mesa.
Às três da manhã, depois do Zé Silva e amigos, do Tino e nós todos, terem cantado a alegria …a cerveja parou.
Regressamos sabendo que da próxima virão mais cinco porque continua a ser preciso ver bem os cantares deste nosso andarilho. Enquanto há força.

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Homenagens e tributos (outros)
05/12/2005By AJA

“Sem muros nem ameias”

JOSÉ AFONSO NUMA CIDADE “SEM MUROS NEM AMEIAS… COM GENTE IGUAL POR DENTRO E GENTE IGUAL POR FORA

No dia 23 de Fevereiro de 1987,de sal de linguagem feita, José Afonso, mais uma vez, levantava voo e partia levando em si os caminhos do sonho e da utopia.
O homem que marchava ouvindo o brado da terra sussurrava a canção do vai…e vem como se nos espreitasse por detrás duma janela.
Com as suas tamanquinhas encaminhou-se para o comboio descendente.
No lago do breu a noite levava aquele a que o tempo já se habituara.
A dor na planície não chegou para nos embalar.
Mas, de não saber o que nos espera…não é inevitável ficarmos pela canção do desterro.
Decidimos, por isso, que o que faz falta é ver bem os cantares deste andarilho.
Vindo mais cinco ou trazendo simplesmente um ou outro amigo também, nem que seja numa sala mal iluminada, celebrar José Afonso será cantar o homem novo que virá enquanto houver força.
O Zeca ensinou que não há bandeira sem luta nem luta sem batalha.
Queremos que as águas passadas do rio um sono vazio venham acordar.
E que as águas das fontes não se calem e que as ribeiras não chorem porque ele continua a cantar.

POR ISSO, A 24 E 25 DE FEVEREIRO DE 2006 GUIMARÃES RECEBE OS AMIGOS DE JOSÉ AFONSO E DÁ-LHES GUARIDA.
Por iniciativa do “Círculo de Arte e Recreio” (CAR) a que se juntaram a “Associação José Afonso” (AJA), a “Associação 25 de Abril” (A25A) e a “Régie Cooperativa Oficina” (RCO), com o apoio da Câmara Municipal de Guimarães (CMG) vamos, de novo, falar de VIDA e chamar pelo Zeca dando início à lembrança de vinte anos de memórias que percorrem o triângulo mágico de África, Portugal, Galiza.
ESTA HOMENAGEM NACIONAL SERÁ O TRIBUTO A UM HOMEM MAIOR QUE O PENSAMENTO NUMA CIDADE SEM MUROS NEM AMEIAS COM GENTE IGUAL POR DENTRO E GENTE IGUAL POR FORA.

GUIMARÃES, 28 DE NOVEMBRO DE 2005

CÍRCULO DE ARTE E RECREIO
ASSOCIAÇÃO JOSÉ AFONSO
ASSOCIAÇÃO 25 DE ABRIL
RÉGIE COOPERATIVA OFICINA

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AJA Norte
30/11/2005By AJA

Núcleo do Norte da AJA

Apresentação do Núcleo do Norte da Associação José Afonso com a participação musical de:

José Luís
Manuel Sampaio
Manuel Valdrez…
… e de todos nós!

dia 12 de Dezembro, 2ª feira, 22h00, Púcaros-Bar, Arcos de Miragaia, Porto)

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BiografiaGeografias de uma vidaMoçambique
29/11/2005By AJA

José Afonso: Geografias de uma vida

“ALGUMA COISA DO QUE SOU E FUI, FOI EM VIAGEM”
José Afonso

 

A Associação José Afonso (AJA) inicia por ocasião da passagem do seu 18º aniversário, a mostra pública da 1ª realização do seu projecto “JOSÉ AFONSO – GEOGRAFIAS DE UMA VIDA”, este ano subordinado ao tema “MOÇAMBIQUE 1964 – 1967”.

 

O projecto da AJA assenta no intuito de revisitar os lugares por onde José Afonso passou e semeou o seu exemplo de cidadania, recolhendo testemunhos, notícia e documentação de toda a ordem, das suas vivências (sobretudo as de carácter cívico e cultural), ou mesmo das que indirectamente acabou por proporcionar. Anualmente, por ocasião do aniversário da AJA, far-se-á mostra pública da faceta exposicional dessa actividade. Assim, a 2 e 3 de Dezembro de 2005, às 21H00 no anfiteatro da Biblioteca Pública Municipal de Setúbal, decorrerão sessões em que veremos, ouviremos e falaremos sobre alguns exemplos de actividades que José Afonso desenvolveu quer na antiga Lourenço Marques (Maputo), quer na Cidade da Beira.

 

As colaborações de José Afonso em teatro e cinema que decorreram durante o período em análise serão o motivo central do evento, sendo importante referir que estas não esgotam, longe disso, a actividade de José Afonso nas referidas áreas.
Em 1965 José Cardoso, considerado um dos decanos do cinema moçambicano procede à montagem do seu primeiro filme de ficção, intitulado “O Anúncio”.
José Afonso assiste no Cine-Clube da Beira a essa operação e propõe ao autor a composição de uma canção para o filme. Aceite a oferta, surge “Vejam Bem”, que viria anos mais tarde a ser incluída no seu álbum “Cantares do Andarilho”.
Em Outubro de 1967, o filme participa no 1º Festival Nacional de Cinema de Amadores de Aveiro, e na crónica de F. Gonçalves Lavrador sobre o dito festival, publicada na Revista Vértice nº 291, de Dezembro de 1967, pode ler-se:
… “Nos filmes de enredo, ou seja, no cinema de ficção, uma grande distância separa dos restantes os dois filmes premiados, ex-aequo, na primeira posição, como aliás o júri quis destacar ao não atribuir qualquer segundo prémio.” “….Realmente , quer o “O Anúncio”, de José Cardoso (troféu de ouro do Clube dos Galitos, melhor argumento, melhor mensagem humana e melhor interpretação), quer… …revelam um cuidado sentido cinematográfico, com abandono de todas as retóricas mais ou menos gastas, de todos os artificialismos de ordem estética e de toda e qualquer tendência para o rodriguinho temático.”
“…”O Anúncio”, da Equipa Beira-64, sob a direcção de José Cardoso, foi a película mais apreciada pelo público, que lhe conferiu um prémio por votação …” “…Trata-se de um filme de construção muito clássica e linear, simples e límpido no seu desenvolvimento, parafraseando, imagèticamente e num tom que tem qualquer coisa de chaplinesco, uma canção de José Afonso com a qual abre (após uma portada com sons naturais) e finaliza. Eis uma obra que se deve apontar como um exemplo a todos.”
Por sua vez, na Revista “Tempo”, n.º 11 de 29 de Novembro de 1970, editada em Moçambique, numa crónica assinada por Maria de Lurdes, podia ler-se num artigo intitulado “Um grande cineasta da Beira”:
“ No pequeno cinema-estúdio do Bº da COOP (na cave do PH8) assistimos a uma das sessões que a Secção de Cinema de Amadores do Cine-Clube de Lourenço Marques faz às sextas-feiras”
“… A segunda parte da sessão ofereceu-nos uma surpresa ainda maior: a revelação de um cineasta da Beira, José Cardos, autor de três filmes: “Anúncio” que é a primeira realização do autor,…. “…em “Anúncio”, pequena história à maneira neo-realista, muito bem contada e com sequências de extraordinário conteúdo dramático e originalidade, o próprio José Cardoso interpreta a figura de um pobre diabo que após um dia desesperante à procura de emprego em vão, solitário e com fome, se vê compelido por um grupo de foliões a participar numa festa de Carnaval…”
“…O filme tem como fundo sonoro uma balada de José Afonso…”
“…O filme social está afinal ao alcance do cineasta amador.”
Em 7 de Fevereiro de 1971, o nº 332 do semanário moçambicano“A Voz de Moçambique”, faz capa total com uma imagem de José Afonso com o título “José Afonso a figura do ano”
Explicando a José Afonso esse galardão, menciona-se nas “… as razões de uma escolha”:
“… acordou-se, desta feita, na personalidade de José Afonso para “figura do ano” de V.M. …”
“ …Escolha feliz? Sim, se isso dependesse apenas da simpatia pessoal e da mensagem fraterna que constituem o carisma do trovador. Mas, de Moçambique?- perguntar-se-, legitimamente. Temos um punhado de razões a favor disso…”
“…Três LPs de nível excelente, meia dúzia de EPS, algumas deslocações ao estrangeiro, cifrando-se por um igual número de êxitos, convites honrosos e reconhecimento, por parte do público e da crítica. Em resumo ascese a uma maturidade artística a que corresponde o justo corolário da fama.”
“Ora, pensamos que um pouco de tudo isto nos cabe a nós, a Moçambique. Os factos acabados de relatar foram imediatamente precedidos pelo período de cerca de três anos que José Afonso viveu em Moçambique, e que supomos decisivos e frutuosos na gesta da sua personalidade artística. A quase totalidade das canções distribuidas pelos referidos LPs foi composta em Moçambique e algumas delas gravadas em primeira mão (por vezes em versões ligeiramente diferentes) em casa de amigos , sendo ainda frequentes – do Xipamanine à Ponta Gea – as alusões a um quotidiano que é nosso. …”, “… O perfil límpido de uma voz que é a imagem, sem adornos, da própria fraternidade bastava para aliciar a nossa simpatia e adesão…”, “… ao creditarmos a José Afonso o título da nossa escolha, expomos-lhe o débito a Moçambique. E ficamos quites.”
LOURENÇO MARQUES 1964 – 1965
Quando fui para o Maputo, então Lourenço Marques, em 1964, estava no início da minha fase mais ou menos organizada de cantor nos meios académicos, nas associações de estudantes e nas colectividades.
Infiltrei-me em alguns meios e ía conseguindo, com as minhas cantigas, dar os meus habituais recados.”
CIDADE DA BEIRA 1965 – 1967
Cheguei à Beira e aí fui imediatamente protegido pelo Cine-Clube local…
Comecei a conviver com aqueles sujeitos, encontrei um sentido enorme de camaradagem e de solidariedade entre os seus membros.
Era uma autêntica colónia e aí apercebi-me da actividade intensa por eles desenvolvida.
Em 23 de Agosto de 1966, o Teatro de Amadores da Beira (T.A.B.) leva a cena pela 1ª vez Bertolt Brecht em Portugal, com a peça “A Excepção e a Regra”. José Afonso compôs especialmente para o efeito 5 canções: “É para Urga” (aparece também referida como “A Caminho de Urga”), “Coro dos Tribunais”, “Eu marchava de dia e de noite (Canta o comerciante)” e “Ali está o rio” todas elas publicadas, e “Canta o Juíz” que nunca terá sido editada.
Em “Livra-te do Medo – Estórias & Andanças do Zeca Afonso” de José António Salvador, João Afonso dos Santos recorda “estórias” relativas ao facto, nomeadamente a do “censor” de serviço.
Mas a Beira em 65 e 66? “Havia a tal associação que resolveu promover as comemorações da Tomada da Bastilha como se estivéssemos em Coimbra. A direcção mandou fazer uma réplica da fachada da Sé Velha em cartão ou madeira para montar na praça onde se faria a sessão comemorativa. No programa incluíram-se fados e guitarradas. Cantaria eu e o meu irmão. Uma peça do Brecht “A Excepção e a Regra” e um tipo, que por coincidência também era o censor da Beira, fazia uma aula com uns doutores vestidos de “baby-dol” a apanhar violetas. O doutor da censura resolveu cortar Brecht e em alguns cortes permitiu-se mesmo “reescrevê-lo” à margem propondo modificações ao texto. Perante isto o meu irmão, e depois eu, disse logo:”se não há Brecht, eu não canto fados”. Isto uns dias antes da festa. Ora sem fados não haveria espectáculo e o censor não poderia fazer o seu número da aula das violetas… De modo que teve de dar o dito por não dito e autorizar a representação da peça. Foi assim que o Brecht apareceu pela primeira vez no império colonial. O Zeca musicou, então, as canções que vieram a integrar o álbum “Coro dos Tribunais”. Para o tal cavalheiro censor foi um sofrimento atroz autorizar o Brecht.”
Zeca Afonso foi expulso de Moçambique pela PIDE quando, em 1972, se deslocou a Lourenço Marques para visitar os pais.

 
 

OUTRA VOZ
Outra voz outra garganta
Outra mão que se estende à que tombara
Uma fagulha num palheiro acesa
Ó meus irmãos a luta já não pára
José Afonso

 

Escrito na prisão de Caxias

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Associação José Afonso
15/11/2005By AJA

Aniversário da Associação José Afonso

Dia 2 de Dezembro
21 horas
Biblioteca Municipal de Setúbal – Av. Luís Todi
Passagem do filme “O anúncio” (curta metragem) realizado por José Cardoso – decano do cinema Moçambicano e para o qual José Afonso compôs a canção “Vejam bem”.
Passagem de uma conversa filmada actualmente entre José Cardoso e Simões (outro activista do cineblube da Beira) fotógrafo e que nos enviou fotos da representação da peça “A excepção e a Regra” de Brecht realizada então no cineblube e para a qual José Afonso compôs 4 canções.
Debate animado pelo irmão do Zeca – João Afonso – então presidente do referido cineclube.

Dia 3 de Dezembro
21 horas
Biblioteca Municipal de Setúbal
Mostra em diaporama das fotos atrás referidas e de uma canção então gravada pelo Zeca. Com este mote iniciaremos um debate em princípio animado por Mário Barradas
que na mesma época viveu e se cruzou com o Zeca na então cidade de Lourenço Marques e que procuraremos que realce o envolvimento do José Afonso com o teatro.

Tentando aproveitar e reforçar a iniciativa (e porque a tal estamos comprometidos) faremos na tarde de sábado a assembleia geral para apreciação do plano de actividades para 2006 e eleição de nova direcção.

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Associação José AfonsoRádio
27/09/2005By AJA

A música portuguesa e a rádio

A Associação José Afonso com o apoio da Câmara Municipal de Setúbal está a organizar uma série de debates sobre a música portuguesa e a rádio.
Dia 30 de Setembro (sexta-feira) realizar-se-à o primeiro com a presença de Sérgio Godinho, Luis Montez, José Fragoso, moderado por Sandi Gageiro. O local é a Biblioteca Municipal de Setúbal, Avenida Luisa Todi, pelas 21.30.
O segundo debate está já agendado para dia 27 de Janeiro. Oportunamente daremos conta dos nomes que aí estarão presentes.
Apareçam.

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Prémio José Afonso
27/09/2005By AJA

Prémio José Afonso

O vencedor deste ano foi um outro Zeca, o Zeca Medeiros com o disco “Torna-viagem”.

Espectáculos: Recreios da Amadora. Os convites para os espectáculos são distribuidos no auditório da feira

Eis o programa:

Dia 29 de Setembro(5ª feira) DAZKARIEH
Dia 30 de Setembro(6ª feira) GUTO PIRES
Dia 1 de Outubro (5ª feira) Espectáculo Prémio José Afonso com José Medeiros e convidados.

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António M. NunesNo verso dos versosOctávio SérgioPartituras e tablaturas
15/09/2005By AJA

Menina dos olhos tristes

Retirado do blog http://guitarradecoimbra.blogspot.com (Blog mantido por Octávio Sérgio, guitarrista de Coimbra que acompanhou inúmeras vezes José Afonso)


MENINA DOS OLHOS TRISTES
(versão fonográfica de José Afonso)

Música: José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, dito José Afonso (1929-1987)
Letra: Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira, dito Reinaldo Fereira ((1922-1959)
Incipit: Menina dos Olhos Tristes
Origem: Algarve (Faro)
Data: ca. 1962-1963

Menina dos Olhos Tristes,
O que tanto a faz chorar?
-O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

Senhora de olhos cansados,
Porque a fatiga o tear?
-O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

Hum-Hum-Hum; Hum-Hum-Hum-Hum
Hum-Hum-Hum; Hum-Hum-Hum-Hum

Vamos, senhor pensativo,
Olhe o cachimbo a apagar,
-O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

Anda bem triste um amigo,
Uma carta o fez chorar.
-O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

Hum-Hum, etc.

A Lua que é viajante,
É que nos pode informar
-O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

O soldadinho já volta,
Está quase mesmo a chegar.
Vem numa caixa de pinho.
Desta vez o soldadinho
Nunca mais se faz ao mar.

Hum-Hum, etc.

Cantam-se as quadras duas a duas, como se fossem oitavas, sem qualquer repetição de versos ou de dísticos. Remata-se cada grupo com um trauteio (Hum-Hum) que serve de coro, a duas vozes. Segue-se o mesmo esquema no grupo final, com a 5ª estrofe (quadra) e a 6ª que é uma quintilha.
Canção musical de tipo estrófico, ilustrativa do Movimento da Balada, em compasso 6/8 e tom de Mi Menor, de melodia muito sentimental, como que a ilustrar o choro dos mortos regressados das frentes de combate em Angola, Guiné e Moçambique durante a Guerra Colonial (1961-1974). A 6ª estrofe (“O soldadinho já volta”) enforma mesmo de alguma morbidez na vocalização de José Afonso. O coro adquire uma coloração funérea.
José Afonso gravou esta canção pela primeira vez em 1969, com um notável arranjo e acompanhamento de Rui Pato na viola nylon: EP “Menina dos Olhos Tristes”, Porto, Orfeu, STAT-803, ano de 1969. Remasterização no CD “José Afonso. De Capa e Batina”, Lisboa, Movieplay JA 8000, ano de 1996, Faixa nº 9. O livreto transcreve o poema, mas não exactamente como José Afonso o canta. José Afonso segue uma dicção escorreita, apenas adulterando no 2º verso da 3ª quadra “Olhe” para “Ólhó”, proeza notável num cantor que raramente respeitava a traça original dos textos alheios.
Esta canção surge primeiramente fonografada por Adriano Correia de Oliveira, acompanhado na viola nylon por Rui Pato, em 1964. Adriano não respeita a sequência das estrofes, adultera a quintilha final e segue um trauteio diferente do adoptado por José Afonso. Altera a ordem das coplas, cantando a 3ª como se fosse a 2ª. Consultado sobre estas discrepâncias, Rui Pato sugere que a versão Adriano se encontra mais próxima da composição primitiva. Postas as coisas nestes termos, admitimos que José Afonso tenha corrigido e aperfeiçoado a sua composição com vista a uma versão definitiva que é a de 1969, tal qual a transcrevemos. Importa anotar que entre 1960-1964 Adriano gravou diversas obras ainda em fase de elaboração (de José Afonso e de Machado Soares), cujas versões ultimadas divergem das açodadas incursões de Adriano. Exemplificam estas situações peças como Canção Vai e Vem (cf. diferenças com Balada da Esperança), Senhora Partem Tão tristes (cf. registo de Fernando Gomes Alves), ou até mesmo adulterações intencionais de obras de autor como a Canção dos Malmequeres (de António Menano), passada a Balada do Estudante. Como é sabido, José Afonso radicou-se em Moçambique nos finais de Setembro de 1964, e talvez por isso mesmo não tenha então gravado a canção de sua autoria, abrindo assim a porta à versão Adriano.
Transcrevemos seguidamente o texto cantado por Adriano Correia de Oliveira:
Menina dos olhos tristes,
O que tanto a faz chorar?
O soldainho não volta
Do outro lado do mar.
Hum-Hum-Hum; Hum-.Hum; Hum-Hum
Vamos, senhor pensativo,
Olhe o cachimbo a apagar.
O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.
Hum-Hum, etc.
Senhora de olhos cansados
Porque a fatiga o tear?
O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.
Hum-Hum, etc.
Anda bem triste um amigo,
Uma carta o fez chorar.
O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.
Hum-Hum, etc.
A lua que é viajante,
É que nos pode informar.
O soldadinho “já volta”
“Está quase mesmo a chegar”.
Hum-Hum, etc.
“Vem numa caixa de pinho.
Nunca mais se faz ao mar.
Do outro lado do mar.
Desta vez o soldadinho
Nunca mais se faz ao mar”.
Hum-Hum, etc.
Coteje-se a letra interpretada por Adriano com a transcrição presente em Mário Correia, “Adriano Correia de Oliveira. Vida e Obra”, Coimbra, Centelha, 1987, pág. 103, pois na referida biografia consta apenas o poema integral original. Primeiro registo vinil presente no EP “Menina dos Olhos Tristes”, Porto, Orfeu, EP-ATEP 6275, ano de 1964, com arranjo e acompanhamento de Rui Pato na viola de cordas de nylon. Fez-se outra edição no LP “Adriano Correia de Oliveira”, LP-SB, ano de 1964; remasterização no duplo Lp vinil “Memória de Adriano Correia de Oliveira”, Porto, Orfeu/Riso e Ritmo Discos, ano de 1982, Disco 1, Face B, faixa 5. Na referida reedição constam as autorias correctas mas omitem-se o ano da gravação e o instrumentista. Remasterização compact disc na antologia “Adriano. Obra Completa”, Lisboa, Movieplay/Orfeu 35.003, ano de 1994 (CD “A Noite dos Poetas”, Orfeu 35.010, 1994, faixa 1), cuja coordenação esteva a cargo de José Niza. Neste caso omite-se a data da primeira gravação, mas identifica-se Rui Pato como instrumentista e arranjista.
Quanto ao autor da letra, Reinaldo Ferreira, ou melhor, Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira, nasceu em Barcelona pelos idos de 20 de Março de 1922. Veio a falecer de cancro pulmonar em Lourenço Marques, Moçambique, em 30 de Junho de 1959. Era filho do famoso jornalista e romancista policial “Repórter X”. Radicou-se em Lourenço Marques (Maputo) em 1941, cidade onde terminou os estudos liceais. Trabalhou como funcionário público e animador de programas radiofónicos na Rádio Clube de Moçambique. Adoeceu em 1958 e após tentativa infrutífera de tratamente na África do Sul, faleceu em 1959. Era de sua autoria o delicioso e muito conservador texto “Uma casa portuguesa”, gravado em disco por Amália Rodrigues. Autor de poemas belíssimos, a obra de Ferreira, “Poemas”, foi editada em 1960 na cidade de Lourenço Marques, em 1962 na Portugália (com prefácio de José Régio) e em 1998 na Vega. Ignoramos em que data Ferreira compôs a sua linda e triste Menina, sendo de aceitar que tivesse por horizonte a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) mas nunca a Guerra Colonial que não chegou a conhecer. Também não sabemos quando e em que circunstâncias José Afonso acedeu ao poema. Pode ter conhecido uma versão em manuscrito ou de página de jornal nas suas idas a Moçambique em 1949 (Orfeon), 1956 (TAUC), 1958 (TAUC a Angola) e 1960 (Orfeon a Angola). O mais certo é que tenha adquirido a edição lisboeta de 1962, ligada ao nome de José Régio. A Guerra Colonial tinha rebentado no ano anterior em Luanda (04/02/1961) e estava na memória a Operação Dulcineia (assalto ao Santa Maria, 21/01/1961).
Esta canção de José Afonso não mereceu qualquer trabalho de regravação após 1974 junto das vozes juvenis e respectivas formações activas em Coimbra. Eis um José Afonso timidamente recuperado e ternamente “perdoado” pelas alas conservantistas da CC, o mesmo não se podendo afirmar quanto à herança de Adriano. Aí a música é outra…
Para saber mais sobre o poeta Reinaldo Ferreira consulte htt://alfarrabio.um.geira.pt/reinaldo/index.html

Transcrição musical de Octávio Sérgio; pesquisa documental e texto de António M. Nunes

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Festival José Afonso (Coimbra)
21/06/2005By AJA

Festival José Afonso em Coimbra

Coimbra, Teatro Gil Vicente, de 16 a 24 de Junho 2005

Programa

16 Junho
(Astúrias) Llan de Cubel

17 Junho
(Quebec) La Bottine Souriante

18 Junho
(Irlanda) Dervish

22 Junho
(Escócia) Kornog
(Portugal) Realejo

23 Junho
(Galiza) Berroguetto

24 Junho
(Escócia) Shooglenifty
(Portugal) Galandum Galundaina

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José da Lata
10/05/2005By AJA

José da Lata


Uma das referências musicais de Zeca Afonso, editada em CD pela Direcção Regional de Cultura dos Açores. “José da Lata – O pastor do verbo”. Uma recolha de Artur Santos Posted by Hello

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