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José Anjos de Carvalho
Home Archive by Category "José Anjos de Carvalho"

Category: José Anjos de Carvalho

António M. NunesJosé Anjos de CarvalhoNo verso dos versosOctávio SérgioPartituras e tablaturas
13/02/2010By AJA

Tenho barco, tenho remos

Música: José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos (1929-1987) Letra: popular (alentejana) Incipit: Tenho barcos, tenho remos Origem: Faro Data: 1962 Tenho barcos, tenho remos, Tenho navios no mar; Tenho o amor ali defronte E não lhe posso chegar. Tenho navios no mar, (bis) Tenho o amor ali defronte Não me posso consolar. (bis) Já fui nau, já fui navio Já fui chalupa, escaler; Já fui moço, já sou homem, Só me falta ter mulher. Só me falta ter mulher, (bis) Já fui moço, já sou homem Já fui chalupa, escaler. Os versos das quadras vocalizam-se sem repetições. Os tercetos são bisados no 1.º verso e o primeiro terceto é bisado também nos dois últimos versos.. Esquema do acompanhamento: Quadra: Sol, Sol Sol, 2ªSol Dó, Sol 2ªSol, Sol; Terceto: Dó, Sol Dó Sol Sol, Dó Sol, 2ªSol, Sol; Informação complementar Composição musical estrófica para 2.º tenor solista, com compasso indefinido, a pender para o quaternário, com desenvolvimento na tonalidade de Sol Maior. Nas vocalizações protagonizadas por José Afonso e António Bernardino afirma-se como uma obra literário-musical de grande beleza e intensidade dramática. A 1ª quadra, como popular que é, tem diversas variantes. No 1º dístico, uma delas é «… tenho redes», em vez de remos. Na gravação de José Afonso, estão implícitas no 2.º dístico duas variantes e uma outra encontra-se numa gravação do Rancho Coral e Etnográfico do Povo de Serpa (EP ALVORADA, AEP 60.920). A 2.ª quadra também tem variantes. No 1º verso, «Já fui nau,…» e parece-nos que “Já fui mar…” seja corruptela por deficiente aprendizagem de outiva. Também se encontram variantes no 2º e no 3º verso e, no 4º verso. A variante que se afigura de assinalar é a da substituição do verbo ser por ter, que parece ser mais apropriada (Só me falta ter mulher). Nas suas actuações orfeónicas e também na viagem com a TAUC ao Brasil, no Verão de 1925, o antigo estudante e aplaudidíssmo serenateiro Agostinho Fontes Pereira de Melo cantou a quadra jocosa: Já fui mar, já fui navio, Já fui chalupa e escaler, Já fui rapaz, já sou homem, Falta agora ser mulher. O tema popular alentejano, com solfa, foi recolhido por Pedro Fernandes Tomás, Canções portuguesas (do século XVIII à actualidade), Coimbra, Imprensa da Universidade, 1934, pág. 134. Esta é seguramente uma obra-referência do Movimento da Balada. José Afonso gravou esta canção em 1962, acompanhado exclusivamente à viola de cordas de nylon por Rui Pato (disco RAPSÓDIA, EPF 5.182, de 45 rpm). Em Cantares de José Afonso, Lisboa, 1969, AEIST, 1969, pág. 49, vem (incompletamente) a letra gravada por José Afonso e, em nota de rodapé, a indicação da existência de um barco que pertencia a uma pequena sociedade constituída por Manuel Pité, António Barahona, José Louro, António Bronze e José Afonso (ver também João Afonso dos Santos, José Afonso. Um olhar fraterno, Lisboa, Caminho, 2002, pág. 159). A 1ª e 2ª quadras são contudo muito anteriores à existência do dito barco e ao nascimento do próprio José Afonso. Disponível em long play: LP José Afonso – Baladas e fados de Coimbra, Edisco, EDL 18.020, editado em 1982. Espécime recuperado e gravado por António Bernardino, com acompanhamento de viola de cordas de nylon por Rui Pato, em 1983, na antologia Tempo(s) de Coimbra, editada em 1984 e reeditada em 1990. Na primeira metade da década de 1990 o tema é gravado pela Tertúlia do Fado de Coimbra, na voz de José Miguel Baptista que não canta exactamente como José Afonso, música e letra: CD Tertúlia do Fado de Coimbra – Amanhecer em Coimbra, Edisco, ECD 15, editado em 1993. Outra abordagem marcante da década de 1990 foi efectuada por Victor Almeida e Silva, acompanhado por Paulo Soares e Carlos Costa: CD Trova Lírica, Lisboa, Movieplay PE 51.013, ano de 1994, faixa nº 14, aqui com um arranjo guitarrístico peculiar de Paulo Soares. No registo referido vem omitida a autoria da música e apenas se indica “popular” para a letra. Há ainda notícia de outra gravação pelo grupo Guitarras do Mondego, sem indicação do nome do cantor: CD Gerações, ano de 2003, faixa nº 9, sendo seguido o arranjo de guitarra concebido por Paulo Soares em 1994. Esta formação é constituída por João Couceiro/Nuno Lages (cantores), Paulo Conceição/Pedro Manso (gg) e Pedro Gama (viola). Transcrição: Octávio Sérgio (2010), baseada na interpretação do autor Pesquisa e texto: José Anjos de Carvalho e António M Nunes Projecto: Recolha e preservação de temas da Canção de Coimbra.
Comentário de Jorge Rino: Parte da letra é mais velha do que vento norte e é brasileira. Quase de certeza que não é de invenção do orfeonista que a cantou ou disse na digressão do Orfeon ao Brasil. Eis o que eu tinha de outiva e que confirmei com o livro dos anos 60 e que estava à mão: Ariano Suassuna – Auto da Compadecida “Versinho” de Canário Pardo que a mãe de João Grilo cantava para ele adormecer
Já fui barco, fui navio, Mas hoje sou escaler. Já fui menino, fui homem, Só me falta ser mulher. Pode ouvir-se o autor, acompanhado por Rui Pato, na viola.

Pesquisa e texto: José Anjos de Carvalho e António M. Nunes

Tenho bnarcos, tenho remos - Canta José Afonso sound bite
Retirado do blogue “Guitarra de Coimbra” de Octávio Sérgio

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António M. NunesJosé Anjos de CarvalhoNo verso dos versosOctávio SérgioPartituras e tablaturas
23/01/2007By AJA

Verdes são os campos

Música: José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos (1929-1987)
Letra: mote de autor desconhecido; voltas de Luis Vaz de Camões (ca. 1524-1580)
Origem: Setúbal?Data: 1970

Verdes são os campos
Da cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,

De erva vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.(…)

Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Verdes são os campos
Da cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,

De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

Informação complementar:Canção melodia singela e agradável efeito auditivo, em compasso quaternário (4/4), originariamente no tom de Fá# Maior, com uma espécie de refrão atípico. Na presente transcrição adopta-se a afinação de Coimbra, ficando a melodia em Lá Bemol Maior.Uma das versões impressas mais recuada destas redondilhas com voltas e mote alheio, consta na edição de 1598, de Estêvão Lopes.“Verdes são…” foi gravada por José Afonso em Londres no ano de 1970, nos estúdios Pye Records. Integrou o LP “Traz Outro Amigo Também”, ORFEU STAT 055, do ano de 1970, tendo sido o cantor acampanhado em viola de cordas de nylon não por Rui Pato mas por Carlos Correia (Bóris).Na letra, José Afonso socorre-se de um mote alheio (Verdes são os campos), glosado por Luis de Camões em duas “voltas” de oitavas.O cantor pouco ou nada altera em termos de mote (quadra) ede 1ª volta. Contudo, nos versos dois e três do mote, moderniza “assi” para “assim” e toma “de” por “da”. Na 2ª volta suprime os primeiros quatros versos (Gados, que pasceis,/Com contentamento,/Vosso mantimento/Não o entendereis), construindo a oitava com os quatro versos finais da 1ª volta.Após terminar a 2ª oitava, o cantor volta a repetir o texto, mantendo-se dentro da melodia.Para acabar, canta apenas uma quadra (Isso que comeis), deixando incompleta a 2ª oitava. José Afonso segue uma dicção vincadamente conimbricense, onde merece destaque o dizer “ovêlhas”.Não se conhece notícia de cantores ligados à CC que tenham regravado este espécime, nem de translado em notação impressa. O seu repousado ar de salão como que se adequa a renovados tratamentos e a incursões de meias sopranos, possibilitando diversificações reportoriais. Embora o tema mais conhecido deste disco de 1970 seja “Traz Outro Amigo Também”, popularizado a partir de uma gravação feita ao vivo no Jardim de Santa Cruz de Coimbra (com o grupo de António Portugal, disco “Zeca em Coimbra”, Fotosonoro SPA 83), pode considerar-se que o tema “Verdes são…” é a chave de encerramento do Movimento da Balada.Original disponível no CD “Jose Afonso. Traz Outro Amigo Também”, Lisboa, Movieplay, JA 8003, ano de 1996, faixa nº 9, com discutível transcrição da letra em 4 quadras.

Transcrição musical: Octávio Sérgio (2007)
Texto: José Anjos de Carvalho e António Manuel Nunes

Retirado do blog http://guitarradecoimbra.blogspot.com

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António M. NunesJosé Anjos de CarvalhoNo verso dos versosOctávio Sérgio
18/01/2006By AJA

No lago do breu

Texto retirado do blog de Octávio Sérgio: guitarradecoimbra.blogspot.com

NO LAGO DO BREU
Música: José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos (1929-1987)
Letra: José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos (1929-1987)
Incipit: No Lago do Breu
Origem: Faro
Data: 1962

No Lago do Breu
Sem luzes no céu
Nem bom Deus
Que venha abrasar
Os ateus
No Lago do Breu.

No Lago do Breu
A noite não vem
Sem sinais
Que fazem tremer
Os mortais
No Lago do Breu.

Mas quem não for mau
Não vá
Que o céu não se compra
Dá
Não vejo razão
Pra ser
Quem teme e não quer
Viver
Sem luzes no céu
Só mesmo como eu
No Lago do Breu.

No Lago do Breu
Os dedos da noite
Vão juntos
Para amortalhar
Os defuntos
No Lago do Breu.

No Lago do Breu
A Lua nasce.
Mas ninguém
Pergunta quem vai
Ou quem vem
No Lago do Breu.

Mas quem não for mau
Não vá
Que o céu não se compra
Dá
Não vejo razão
Pra ser
Quem teme e não quer
Viver
Sem luzes no céu
Só mesmo como eu
No Lago do Breu.

No Lago do Breu
Meninas perdidas
Eu sei
Mas só nestas vidas
Me achei
No Lago do Breu.

Mas quem não for mau
Não vá
Que o céu não se compra
Dá
Não vejo razão
Pra ser
Quem teme e não quer
Viver
Sem luzes no céu
Só mesmo como eu
No Lago do Breu.

Canta-se cada estrofe seguida e repete-se o terceto final.
Informação complementar:
Canção com uma espécie de refrão atípico que resulta da repetição do terceto final de cada estrofe, em compasso 6/8 e tom de Mi menor, gravada por José Afonso, acompanhado à viola nylon por Rui Pato: EP Baladas de Coimbra, Porto, Rapsódia, EPF 5.182, Outubro de 1962, Lado 2, Faixa nº 3. A gravação decorreu em Coimbra, no antigo Convento de São Jorge, local onde os técnicos da editora montaram os dispositivos de captação sonora. A melodia é melancólica, remetendo para um estado de espírito depressivo vivido pelo autor na data da feitura da obra, conforme nos corroborou Rui Pato.
De acordo com declarações do próprio José Afonso, tratar-se-á de uma canção inspirada no repertório do cantor e compositor francês Georges Brassens (1921-1981), cujo título e letra interpelam a moral social vigente e a prática de frequência das casas de prostituição do Terreiro da Erva em Coimbra. cf. “Os cantares de José Afonso”, Lisboa, 1ª edição, 1968; idem, 2ª edição, Lisboa, Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico, 1969, págs. 46-47: “Balada de inspiração Brassens, define simultaneamente um estado de espírito e uma autobiografia, uma crise de consciência (destruição do sentimento de remorso) e um meio social (os prostíbulos do “Terreiro da Erva” ou os seus sucedâneos mais ou menos bem iluminados” (sic). Até à entrada da década de 1960 era nestas casas que estudantes e jovens mancebos em dia de inspecção militar faziam a sua iniciação sexual. O local da feitura da composição foi Faro, cidade onde José Afonso então residia e trabalhava como professor.
A letra integral é de árdua transcrição, pois nas estrofes o autor oscila entre a sextilha (1ª, 2ª, 4ª, 5ª, 7ª) e os 11 versos (3ª, repetida na 6ª e na 8ª). Rui Pato mitiga a influência de Brassens, a qual se teria feito sentir mais tarde (nesta fase havia mais de Jacques Brel e de Léo Ferré e ainda não as “brassenzadas” do tipo “Eu tive o Diabo na mão”), recordando ter-se deslocado propositadamente a Faro para ensaiar com José Afonso (informes de 12/01/2006). Rui Pato passou um mês de férias no Verão/1962 com José Afonso em Faro. Foi nas deambulações em improvisada jangada à Ilha do Farol que José Afonso alicerçou os rudimentos desta canção. José Afonso começou pela letra e só depois improvisou os rudimentos da melodia. Rui Pato recorda-se bem dos trauteios nascentes junto ao areal da Ilha do Farol, com José Afonso tomado de amores pela futura companheira Zélia Maria Agostinho.
As estrofes assimétricas, alternando entre 6 e 11 versos, a longa debitação da letra, o “refrão” atípico, a obsidiante presença da viola nylon, tudo foi pensado para erigir o tema em obra de protesto contra o que era convencional cantar-se e gravar-se em Coimbra. Tendo forma, No Lago do Breu rejeita abertamente a fórmula estrófica dos temas mais convencionalmente clássicos da CC. Nada de repetições canónicas, nada mudanças de frase antecipadamente reconhecíveis, nada de langorosos ais. O autor escuda-se no efeito surpresa e com ele se torna um intérprete surpreendente. O trabalho de acompanhamento é relativamente simples, pois José Afonso queria fazer alguns acordes na sua viola, embora soubesse antecipadamente que não conseguia seguir os dedos de Rui Pato. Fez-se a gravação com a viola de Rui Pato “meio desafinada” por forma a que José Afonso pudesse cantar e fazer no braço da sua viola os singelos acordes que sabia executar.
A referida gravação veio a ser remasterizada no LP Baladas e Fados de Coimbra, EDISCO, EDL 18.020, ano de 1982, Face B, Faixa nº 3, fonograma omisso quanto ao ano da gravação, matriz original e instrumentista. Versão disponível em compact disc: CD OS VAMPIROS, Edisco, 1987, faixa nº 9, com o título adulterado para “No Largo do Breu” (sic) e inclusão da letra no respectivo livreto. A letra, na edição em off-set das AAEE, de 1969, de “Cantares DE JOSÉ AFONSO” e em “JOSÉ AFONSO. Textos e Canções”, e na publicação Assírio e Alvim, de 1983, não está conforme os discos supra. O título nos discos é No Lago do Breu e, não, “Lago do Breu” como vem em Textos e Canções.
Este tema foi gravado também pelo cantor português activo em França Germano Rocha, em 1964, acompanhado à guitarra por Ernesto de Melo e Jorge Godinho e, à viola, por José Niza Mendes e Durval Moreirinhas (EP BLY 76153 e LP XBLY 86112, ambos da editora Barclay). A letra adoptada por Germano Rocha não corresponde à versão de José Afonso, e o título original aparece encurtado para “Lago do Breu”.
No site http://alfarrabio.um.geira.pt/zeca/cancoes/16.html, encontra-se uma transcrição incompleta da letra gravada por José Afonso, com título encurtado para “Lago do Breu” (cf. também o endereço https://aja.pt/discografia.htm, para as fontes fonográficas do autor conhecidas até ao ano de 2005, cujo rol está incompleto) e omissão integral dos refrões. A versão de das edições de 1968 e 1969 encontra-se no “Arquivo de Música de Língua Portuguesa”, da Universidade do Minho (http://natura.di.uminho.pt).
Este espécime foi gravado na Capela do Palácio de São Marcos da Reitoria da UC por Serra Leitão, no tom de Mi Menor, acompanhado pela formação José dos Santos Paulo/Octávio Sérgio (gg) e Aurélio Reis/Humberto Matias/José Tito Mackay (vv) no CD “15 anos depois… Antigos Tunos da Universidade de Coimbra”, Coimbra, ano de 2000, faixa nº 15. Neste registo, com introdução e arranjo de José dos Santos Paulo, o título sofreu adulteração para LARGO DO BREU (sic), sendo a identificação dos instrumentistas totalmente omissa.
A solfa desta canção encontra-se impressa na brochura do antigo sócio da TAUC António Carrilho Rosado Marques, “Cantares de José Afonso. Acompanhamentos para viola”, Évora, Edição do Autor, 1998, págs. 18-19.

Texto: José Anjos de Carvalho e António M. Nunes
Agradecimentos: Dr. Octávio Sérgio, Prof. José dos Santos Paulo, Dr. Rui Pato

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