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  • 100 Anos de José Afonso
February 2006
Home 2006 February
TestemunhosXoán Gutían
28/02/2006By AJA

Texto de Xoán Gutián

(Texto enviado a Viriato Teles)

Amigo Viriato, amigos do Zeca: Foi alá polo ano 1972. Moi poucos na Galiza sabían do Zeca e moi poucos coñecían a realidade dura e triste de Portugal. En maio daquel ano chegou a Compostela da man do Zeca un ar novo que nos falaba de liberdade, de solidariedade, de paz. Sobre o escenario do Burgo das Nacións cantou por vez primeira en público oseu “Grândola”.¡Que lonxe estabamos de saber o que esa canción significaría no futuro! Pero, ¡que cerca sentimos aquela tarde ó pais amigo,a súa realidade, o seu combate!. Foi a vosa canción, pero tamén foi para sempre nosa.Tiña eu 17 anos e non esquecerei nunca aquel día. A voz do Zeca, transparente e luminosa, marcou para sempre a miña traxectoria persoal:Portugal, quer dicir os portugueses (que non hai máis patria que os homes),converteuse xa para sempre nunha constante na miña vida. Foi o mellor regaloque recibín e nunca poderei pagar a débeda que teño contraída.Pasaron logo moitas cousas..A vida dá moitas voltas e eu pasei de ser o mozo deslumbrado pola voz e a poesía do Zeca a ser “o home do armario”… Zelia,Joana e Pedro saben do que falo. Nunca esquecerei. Agora, cando teño dúbidase cando me sinto triste, pego na viola e canto…Sempre Zeca. Seguirán existindo miserias, explotacións, crimes e torturas – existe Guantánamo, por citar un caso- pero o futuro vai ser moito mellor porque andan polo ar as notas das cancións do Zeca, a súa voz, a súa palabra, quenos axudan a saber que o mundo será, máis cedo que tarde, unha cidade sen muros ne ameias.E cando as cousas van mal, cando o pao que comes sabe a merda, o que faz falta é lembrar ó Zeca: cantor, amigo e mestre. Obrigado polos esforzos que facedes mantendo viva a memoria dun artista irrepetible e dun cidadán exemplar.Desde Galiza, unha aperta forte do amigo 
Xoán Guitián
Facultade de Química-Biblioteca
Avda. das Ciencias, s/n15782 – Santiago
xguitian@hotmail.com

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ImprensaTestemunhos
27/02/2006By admin-aja

O Zeca Afonso é o nosso Bach

Admiradores do cantor querem ver a obra
“fora do comum”
que ele deixou estudada em profundidade

Omnipresente, o espírito de José Afonso pairou, desde a tarde de sexta-feira até à madrugada de ontem, por todos os recantos do Centro Cultural Vila Flor, de Guimarães – até no parque de estacionamento se ouviam os discos do Zeca. No exterior, uma Chaimite e alguns soldados tornavam mais óbvia a relação umbilical com Abril. Debates, exposições, livros, filmes, documentários e, claro, muita música em dois concertos – com reminiscências do canto livre e dezenas de amigos em palco – atraíram mais de um milhar de pessoas (entre eles, três padres ou antigos sacerdotes) à homenagem que marcou os 19 anos da morte do cantautor. A canção, essa, continua viva. Aliás, ouviu-se dizer que foi dos maiores criadores universais, melhor do que os Beatles e só equiparável a Bach. Por isso, rompeu um clamor: “Estude-se o Zeca!”.
“Bach sintetizou tudo o que havia antes dele e reinventou o futuro. Depois dele, ninguém inventou mais nada. O Zeca Afonso é o nosso Bach”, sublinhou no debate o professor universitário Alípio de Freitas, ex-padre e guerrilheiro, companheiro de Che Guevara e precursor do Movimento dos Sem-Terra, a quem o cantor dedicou um tema quando ele era torturado nas prisões da ditadura brasileira. “Estudem-no profundamente, porque ele foi adiante de qualquer um”, exortou Alípio, num emocionado testemunho – em especial quando se referiu à canção que o ajudou a sair do cárcere e se tornou num símbolo da luta contra a opressão na América Latina.
O paralelismo entre José Afonso e os clássicos foi também estabelecido pelo crítico musical Octávio Fonseca – autor de livros sobre Carlos Paredes e José Mário Branco. “O Zeca utilizava compassos combinados, muito pouco usuais até na música erudita”, acentuou, no decurso de uma explicação técnica sobre a obra do cantor, ilustrada com temas em que a “linguagem metafórica é mais incompreendida”. “Poeta brilhante e melodista fora do comum com uma imaginação desabrida”, sintetizou o crítico musical, para quem a nova música popular portuguesa terá resultado da “transformação” que José Afonso operou na canção de Coimbra.

As “missas ateias e inócuas”
O padre Mário de Oliveira (da Lixa) preferiu traçar outro paralelismo: entre José Afonso e Jesus Cristo – ambos “politicamente perigosos”. E aludiu à força que a fé cristã e a revolução podem ter quando unidas, sem deixar de referir que o Zeca “se está burrifando” para as homenagens, preferindo ver “outros a lutar pelas suas causas”. Se assim não for, sublinhou Mário de Oliveira ao seu estilo demolidor, este tipo de iniciativas “não passam de missas ateias e inócuas e de feiras de vaidades”.
Na mesma linha, o jornalista Rui Pereira pediu “menos entronização e mais estudo” para a obra de José Afonso, enquanto outro jornalista, Viriato Teles, relembrou o sentido de humor do autor da senha do 25 de Abril, e pediu que haja sempre “festa” nas homenagens que lhe façam.
E foi isso mesmo que aconteceu durante os concertos de sexta e sábado à noite. A solo ou em grupo, misturados ou não, dezenas de amigos cantaram as músicas do Zeca – os contemporâneos, como Manuel Freire, Pedro Barroso e o padre Francisco Fanhais, evocando também alguns episódios desconhecidos. Os outros – como Amélia Muge, Canto Nono, Astedixie, Luanda Cozetti (filha de Alípio de Freitas) ou os galegos Uxía e Ardentía – mostrando a influência do Zeca na sua formação.

Alexandre Praça, in Jornal Público, 27.2.2006

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Homenagens e tributos (2006)
27/02/2006By AJA

Algumas imagens da homenagem

Continuem a enviar mais imagens para a AJA, de forma a podermos ilustrar melhor o que se passou durante os dois dias de homenagem a José Afonso.

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Associação José AfonsoHomenagens e tributos (2006)
24/02/2006By AJA

Programa da homenagem a José Afonso em Guimarães

FEV/ MARÇO | GUIMARÃES
“PÃO COM SONHO”
(distribuição de milhares de sacos de embalagem de pão com dados biográficos e alguns poemas de José Afonso) Iniciativa da “Pavico”
Concentração Vimaranense de Panificação Lda e Biblioteca Municipal Raul Brandão

23 FEV/ 13 ABRIL | BIBLIOTECA MUNICIPAL RAUL BRANDÃO GUIMARÃES EXPOSIÇÃO: “ZECA AFONSO: O SONHO CANTADO”
Exposição da responsabilidade da Biblioteca Municipal Raul Brandão

Zeca Afonso: história de uma vida
Coimbra e os tempos de estudante
A obra – discografia – obras principais
O cantor e a sua criatividade musical: anatomia de uma carreira

24 FEV | 18 H | CENTRO CULTURAL VILA FLOR
ABERTURA DA INICIATIVA
Exposição da responsabilidade da Associação José Afonso
Bancas de livros e discos a cargo da AJA, “Mundo da Canção”, “As Formigas de Macieira da Lixa”
Espaço de mostra de objectos e documentos pessoais sobre José Afonso

18H30 | CENTRO CULTURAL VILA FLOR
ESPAÇO CAFÉ-CONCERTO
LANÇAMENTO DO LIVRO“ZECA SEMPRE”
Livro de depoimentos de autores galegos e portugueses sobre José Afonso da responsabilidade da Editora portuense – ARCA DAS LETRAS
Animação musical de rua

21H30 | CENTRO CULTURAL VILA FLOR | AUDITÓRIO GRANDE | 15 Euros
CONCERTO
MANUEL FREIRE
PEDRO BARROSO
JOÃO LOIO
DE OUTRA MARGEM (galaico-português)
CHAMASTE-ME´Ó
DINO FREITAS
MANUEL DE OLIVEIRA

24h | CENTRO CULTURAL VILA FLOR
ESPAÇO CAFÉ- CONCERTO
MÚSICA E POESIA DE JOSÉ AFONSO
Ambiente de Café – Concerto

25 FEV | 10H 3O | CENTRO CULTURAL VILA FLOR
WORKSHOP” SOB O TEMA: “(RE) VIVER ABRIL COM ZECA AFONSO – PARA UMA DIDÁCTICA DE UNIDADE”
Orientada para o sector do ensino, da responsabilidade do Sindicato dos Professores do Norte, com apoio editorial e audiovisual

A PARTIR DAS 15 H | CENTRO CULTURAL VILA FLOR
EMISSÃO “NON STOP” DE VÍDEO E PROJECÇÃO DO FILME “O ANÚNCIO”DO REALIZADOR JOSÉ CARDOSO
José Afonso participa neste filme interpretando “Vejam Bem”, para o qual compôs esta canção

CENTRO CULTURAL VILA FLOR
ANIMAÇÃO DE RUA NO ÁTRIO E JARDINS
Participação de alguns dos grupos integrantes dos elencos dos concertos

17H | CENTRO CULTURAL VILA FLOR
“JOSÉ AFONSO, O MÚSICO, O POETA, O HOMEM” DEBATE/CONFERÊNCIA
Moderado pelo jornalista RUI PEREIRA, este debate terá a participação de: ALÍPIO DE FREITAS, JOSÉ VIALE MOUTINHO, OCTÁVIO FONSECA, PADRE MÁRIO DE OLIVEIRA E VIRIATO TELES em representação do “mc”-MUNDO DA CANÇÃO,

21H30 | CENTRO CULTURAL VILA FLOR | AUDITÓRIO GRANDE | 15 Euros
CONCERTO
ARDENTÍA (Galiza)
AMELIA MUGE
LUANDA COZETTI
FRANCISCO FANHAIS
JOSE FANHA
ZÉ PERDIGÃO
CANTO NONO
ASTEDIXIE
UXIA (Galiza)

24H | CENTRO CULTURAL VILA FLOR
ESPAÇO CAFÉ- CONCERTO
MÚSICA E POESIA DE JOSÉ AFONSO
Ambiente de Café – Concerto

Os bilhetes para os dois concertos no Centro Cultural de Vila Flor são 15 Euros cada ou 25 Euros se adquirir os dois. À venda no site http://www.aoficina.pt/html/

Para saber como chegar até ao Centro Cultural de Vila Flor consulte também o mesmo site.

Organização do C.A.R. – CIRCULO DE ARTE E RECREIO (GUIMARÃES)
com o apoio de:

AJA- ASSOCIAÇÃO JOSÉ AFONSO
ASSOCIAÇÃO ACADÉMICA DA UNIVERSIDADE DO MINHO
A25A-ASSOCIAÇÃO 25 DE ABRIL
BIBLIOTECA MUNICIPAL RAUL BRANDÃO (GUIMARÃES)
CICP-CENTRO INFANTIL, CULTURAL E POPULAR (GUIMARÃES)
CMG-CÂMARA MUNICIPAL DE GUIMARÃES
CINECLUBE DE GUIMARÃES
PAVICO (GUIMARÃES)
REGIE COOPERATIVA OFICINA (GUIMARÃES)
SPN-SINDICATO DOS PROFESSORES DO NORTE
MC- MUNDO DA CANÇÃO
ÁRVORE-COOPERATIVA CULTURAL

CONTACTO | homenagemjoseafonso@aoficina.pt | circulodearteerecreio@hotmail.com

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Homenagens e tributos (poesia)João Pedro Grabato Dias
24/02/2006By AJA

Soneto para o José Afonso

O sílex maxilar abaixa e vibra,
viva rocha fremindo o escárnio e a dor
dos outros, que a sua é apenas flor
enrazinhada ao maxilar e frívola

quase, como quem não pretende. Víboras
de ar contente enpinam-se ao calor
da alheia orelha, e passado e amor
e presente e gente, ganham a estrídula

razão que inda não tinham. No paul
de vicioso bafo, um tremendal
de coxas rãs coaxam no azul

um vazio silênclo. E à barragal
do porto aconchegado em ocul-
ta estultícia chega um vento de sal…

João Pedro Grabato Dias*

*Pseudónimo de António Quadros (Viseu, 1933-Santiago de Besteiros, 1994) estudou Pintura na Escola Superior de Belas-Artes do Porto, e Gravura e Pintura a Fresco em Paris. Em 1964 parte para Lourenço Marques. Foi pintor e professor, mas também artista gráfico, ilustrador, ceramista, escultor, fotógrafo, cenógrafo e pedagogo. Trabalhou em arquitetura, apicultura, comunicação, biologia e ecologia, privilegiando uma abordagem interdisciplinar. Escreveu e publicou poesia sob diferentes pseudónimos: João Pedro Grabato Dias, com 40 e Tal Sonetos de Amor e Circunstância e Uma Canção Desesperada (1970), O Morto (1971), A Arca (1971), 21 Laurentinas (1971), Pressaga (1974), Facto/Fado (1986), O Povo É Nós (1991) e Sagapress (1992); Frey Ioannes Garabatus, com o poema épico-paródico As Quybyrycas (1972, prefácio de Jorge de Sena); Mutimati Barnabé João, ficcionado guerrilheiro morto em combate, com os poemas Eu, o Povo (1975), com o poema homónimo musicado por José Afonso/ Fausto Bordalo Dias e integrado no disco Enquanto há força, 1978. Coordenou, com Rui Knopfli, os cadernos de poesia Caliban. Regressa a Portugal em 1984, e leciona na Universidade do Algarve e na Faculdade de Arquitetura do Porto, continuando a pintar e a escrever. Uma parte da sua obra plástica está antologiada no livro O Sinaleiro das Pombas (2001).

𝗟𝗲𝗶𝘁𝘂𝗿𝗮 𝗿𝗲𝗰𝗼𝗺𝗲𝗻𝗱𝗮𝗱𝗮

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Homenagens e tributos (2006)Imprensa
21/02/2006By AJA

Avalancha cultural nos 20 anos de Zeca

O ‘cantautor’ Zeca Afonso vai ser homenageado dias 24 e 25 em Guimarães, com debates, concertos, animação de rua e o lançamento de um livro. Trata-se de um dos mais vastos programas de sempre à volta do compositor português falecido em 23 de Fevereiro de 1987.
O tributo, intitulado “No caminho dos 20 anos”, inclui dois concertos no Centro Cultural Vila Flor, o primeiro dos quais dia 24, com Manuel Freire, Pedro Barroso, João Loio, De Outra Margem, Chamaste-me Ó, Dino Freitas e Manuel de Oliveira. Dia 25, actuam os galegos Ardentía e Uxia, a par de Amélia Muge, Luanda Cozetti, Francisco Fanhais, José Fanha, Zé Perdigão, Canto Novo e Astedixie.
A anteceder o primeiro concerto, a editora Arca das Letras vai lançar “Zeca Sempre”, livro de depoimentos de autores galegos e portugueses sobre o cantor.
Na tarde do segundo dia, haverá um debate sobre “José Afonso, o músico, o poeta e o homem”, moderado pelo jornalista Rui Pereira e com a participação de Alípio de Freitas, José Viale Moutinho, Octávio Fonseca, padre Mário de Oliveira e Viriato Teles. O programa inclui também a exposição “Zeca Afonso o sonho cantado”, que estará patente na Biblioteca Raul Brandão entre 23 de Fevereiro e 13 de Abril.
Um “workshop” intitulado “(Re)Viver Abril com Zeca Afonso – Para um didáctica de unidade”, animação de rua, emissão de vídeo e a projecção do filme “O Anúncio”, de José Cardoso, em que José Afonso interpreta “Vejam Bem”, são outras iniciativas.
Poesia nos sacos de pão
A homenagem integra ainda, a partir da meia-noite dos dois dias, sessões de música e poesia de José Afonso. “Pão com Sonho” é outra iniciativa do tributo, que consiste na distribuição, em Fevereiro e Março, de milhares de sacos de pão com dados biográficos e alguns poemas de José Afonso.
Os bilhetes para os concertos custam 15 euros (um dia) e 25 euros (dois dias). O programa é organizado pelo Círculo de Arte e Recreio, associações José Afonso e 25 de Abril, e Régie Cooperativa Oficina, com o apoio da Câmara de Guimarães e de instituições da cidade.

Jornal de Noticias

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LobãoMariana d´Almeida y Piñon
10/02/2006By AJA

Zeca Afonso e Lobão

Quando li, e ouvi, o verso “o que é preciso é animar a malta”, de uma composição de Zeca Afonso, fiquei extasiada. E mais ainda ao ler, e ouvir, “…Eles comem tudo/ E não deixam nada./ No chão do medo/ Tombam os vencidos…”, de outra composição do famoso músico-poeta português. E o “chão de medo” fez-me lembrar Lobão, o revolucionário músico-poeta brasileiro, que compôs “Perdoa a fúria do meu sonho/ A violência me distrai/ Pois a violência…/ É você!”. Na dinâmica dos dois compositores encontrei um ponto comum: a perpetuação do instante emocional, político e/ou amoroso, que revoluciona.
Embora a realidade dos dois seja bem diferente, une-os a batalha contra os colonialismos políticos e burocráticos que dimensionam a Música Popular como peça mercantil, ou Produto, não como Arte. “Zeca Afonso gerou, entre os Anos 60 e 70, o que se pode nomear como a mais autêntica Música Lusófona ao aplicar nas suas composições as variantes sócio-políticas e culturais que conheceu em Portugal, Moçambique e Angola, e isso determinou que pusesse de lado a Guitarra Portuguesa, no modelo ´fado-balada´ de Coimbra, para passar a trabalhar com a Viola e outros instrumentos, no que ganhou uma estética musical peculiar, com uma sonoridade tirada dos confins das músicas populares portuguesa e africana…”, escreveu o poeta J. C. Macedo, que conheceu e até acompanhou Zeca Afonso em vários eventos sócio-políticos, na efervescência do ´processo revolucionário em curso´ [prec]. O próprio poeta encarava, na época, a questão “lusofonia” como um palavrão a ser estudado com maior cuidado, mas é certo que caiu muito bem no contexto da explicação sobre a sonoridade conseguida por Zeca Afonso. E este, no conjunto da sua Obra, não poderia ser adotado nunca como peça mercantil ideal pelas editoras convencionais: Zeca Afonso era a antítese do artista-para-consumo. Quer o regime fascista de Salazar, quer as editoras que lhe publicavam os trabalhos fonográficos, tentaram muitas vezes silenciar aquela Voz-Poema… Assim acontece com “…Lobão, o brasileiro que canta o Amor com a mesma paixão da Revolta Social, porque o estado emocional determina a Arte, determina a Sociedade…”, na definição de Prof. Mário Gonçalves de Castro. Os dois músicos e poetas do que agora é chamado ´espaço lusófono´ concentraram os seus esforços no desvendamento das peculiaridades estética do Povo, e nesse trabalho proporcionaram a si mesmos “uma meta-linguagem de rupturas, [re]criadora da mais valiosa participação artística do Povo: a Estética estabelecida como chave para a Nação mental”, no dizer de João Barcellos, a propósito da “ruptura que só o é ao gerar a ´coisa´ nova, o ´ser´ novo, não o continuísmo…”. E foi o que eu percebi ao ler e ouvir Zeca Afonso para logo envolver Lobão.
O cântico poético é um dos caminhos da Liberdade. No final de 2004, a moçambicana Céline Abdullah ofereceu-me uma coletânea de trabalhos de Zeca Afonso que ela havia registrado em fita magnética, e uma carta – ouçamos a bela negra de Moçambique, em parte da ´orientação´: “[…] e se queres saber o que é Cultura Libertadora, ouve com atenção o canto de intervenção de Zeca Afonso, pois, ele, mais do que muitos portugueses e africanos armados até aos dentes, ajudou a libertar os nossos povos da tirania colonialista, que tem pilares no Catolicismo e na Cavalaria medieval. Para os portugueses e africanos sabedores da História recente, ouvir e cantar Zeca Afonso é não deixar cair a Revolução”. E ouvi. E li. E quis retribuir. O que fiz com a remessa de alguns trabalhos de Lobão, “porque ele, Lobão, é o mais fecundo e talentoso músico-poeta do Brasil autêntico, além de ser o brasileiro em ruptura com o sistema consumista que quer a sua alma revolucionária esmagada”, escrevi na carta. Que, antes de enviar, li para o amigo João Barcellos… “Sim, o Lobão é, hoje, um paradigma da Cultura Brasileira não-oficial, e pode-se aferir politicamente o seu trabalho com o de Zeca Afonso na emergência de uma Anarquia geradora do processo artístico-cultural revolucionário”, ouvi. Uns quarenta dias depois do início de 2005, Céline Abdullah endereçou-me um e-mail: “Realmente, Mariana, a Revolução está por todo o lado, e Lobão representa isso contra tudo o que é o fundamental do ´politicamente correcto´. Gostei de conhecer Lobão e o outro lado do Brasil que o mundo não conhece, ou conhece pouco. Agora, é preciso objectivar a união de esforços revolucionários, ou a acção de artistas e de intelectuais vai continuar isolada”. Gosto de Música, e gosto de dedilhar a minha viola, mas nunca pensei envolver-me tão profundamente em um assunto tão ´quente´ como são os do português Zeca Afonso e do brasileiro Lobão. Creio que um desafio até para muitos críticos do ramo…
Zeca Afonso [José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, 1929-1987] nasceu em Aveiro, uma região que foi a ´mãe´ de uma Consciência – verdadeiramente – Portuguesa, e em tenra idade partiu para acompanhar os pais nos seus afazeres profissionais em Angola e em Moçambique, mas voltou para fazer os estudos secundário e superior, em Coimbra, para ser, depois, professor. Os seus primeiros trabalhos discográficos foram publicados em 1953: eram fados de Coimbra. Ainda nesses Anos 50 conhece o alvor de uma política destinada a derrotar eleitoralmente Salazar: a campanha do general Humberto Delgado. Para ele, conhecedor da precariedade social em que o Catolicismo e o Salazarismo haviam mergulhado o Povo Português, a Campanha de Delgado iria abrir portas para democratização. Iria… o ditador manobrou nos bastidores para evitar a vitória daquele que havia ousado gritar “Obviamente, demito-o!” e ordenou que a polícia política o eliminasse da vida pública e política. Mas esse fato político mexeu com Portugal, e mexeu mais ainda com a emoção anti-fascista da jovem intelectualidade e dos artistas não engajados ao regime. Assassinado “o general sem medo”, em 1965, três anos depois, em plena era de terrorismo de Estado, “o professor Zeca Afonso foi expulso do Ensino e iniciou a sua peregrinação cultural e política contra o Fascismo; os comunistas queriam-no nas suas trincheiras, mas ele nunca seria um opositor politicamente correcto, mas ele-mesmo com o Povo…”, como escreveu J. C. Macedo.
Das suas viagens para Angola e Moçambique, ainda nas atividades universitárias, Zeca Afonso aprofundou os seus conhecimentos acerca da ´batida´ musical e emocional da África, assim como Lobão faz agora no reconhecimento da genuína musicalidade que é construída nos morros e favelas brasileiras, principalmente no Rio de Janeiro, musicalidade que é urbana e é rural, pela cumplicidade das levas migratórias. E “…com o conhecimento da diversidade cultural do Povo Português, Zeca Afonso transformou-se no elo captador-difusor dos quereres e dos sonhos do Ser-Português sem nunca esquecer o caminho africano…” [idem]. É esse Zeca Afonso, que já havia composto “Grândola, Vila Morena”, em 1964, a balada-senha que sinalizou o Golpe de Estado de ´25 de Abril de 1974´, revolucionário e agitador cultural, que vai marcar as gerações imediatas do ant e do pós ´25 de Abril´.
Lobão [João Luiz Woerdenbag Filho, 1957] foi, principalmente nos Anos 80, compositor. Tinha tudo para ser mais um carioca a olhar, de maneira turística, “o Brasil dos mafiosos e mesquinhos percursos da classe média que, afinal, sustenta uma Nação de elites dengosamente perdidas no abraço sanguinário do Capitalismo global e colonizador, do qual são cobaias e são escravas”, na análise do Prof. Carlos Firmino. Em vez disso, Lobão percebeu, como Zeca Afonso havia percebido em Portugal, a agressividade institucional que cercava o Povo, e nesse sufoco fez a leitura do não-Amor que o Consumismo e a Política incutiam/incutem no Povo Brasileiro. “Não é difícil pra quem não tem emoções/ Vendem crises/ Vendem misérias/ Vendem tudo até em mil prestações/ Estão brincando”, canta ele na e para a mais abrangente das linguagens: o eco da Consciência.
A práxis artística de Lobão, que tem base no Pop e no Rock´n Roll, ganhou ´batida´ brasileira ao compor para artistas como as cantoras Elza Soares e Marina Lima –, ´batida´ que ilustra o ganho cultural da amplidão musical rural que inundou os morros e favelas cariocas, e assim nasceu um Lobão ´pop-roqueiro´ com densidades melódicas entre a balada marcadamente amorosa e o canto corrosivo da urbanidade criminosamente policiada. Tão policiada que artistas, nascidos até no combate a esse status quo social, passaram [e passam…] a fazer parte do Consumismo mais hediondo e que escraviza o Povo. Aquela ação de Ética pregada por Zeca Afonso na caminhada anti-fascista passou a ser, diante da abjeta atitude da classe média e dos artistas engajados, a mesma ação de Lobão, porque é preciso conscientizar a Classe a que pertencemos para ganharmos o Povo para a luta da melhoria da Vida, da Liberdade. Isolado, mas consciente e ativamente anti-colonialista, Lobão trabalha a sua Obra discográfica e social nos circuitos alternativos, como bancas de jornais, feiras, web, rádios e imprensa comunitária. Tudo aquilo que, em princípio, o ´pop-roqueiro´ não pode ser, ele é e prova que pode e sabe sobreviver enquanto marginal ao Sistema Consumista, além de ter consigo o apoio significativo da juventude mais atenta ao quotidiano da problemática dita ´brasileira´. Mas isso faz com que a Indústria Fonográfica o persiga ainda mais, a ponto de o cantor Zeca Baleiro sair a público, no jornal ´O Estado de S. Paulo´, de 02.08.2002, acusando […] a gravadora Universal Music de querer “desmoralizar” o músico Lobão, ao exigir publicamente que ele pague direitos autorais pelo uso de uma música de Baleiro no álbum A Vida É Bela (1999).
“O cachê que recebi por minha participação é impagável – a satisfação de fazer parte de um disco histórico e belo”, afirmou Baleiro. “Se a indústria fonográfica reclama do projeto de lei que a trata, presumidamente, como fraudadora, que aja então com clara transparência, que conquiste a credibilidade pública com a lisura e evite a prática de golpes baixos como esse”, acrescentou. Zeca é contratado da gravadora […]
O que engrandeceu, pelo reconhecimento público, o caminho ético que Lobão trilha isolado, mas contando com a solidariedade pontual da Classe artística menos ´vendida´. Na maioria esmagadora, os chamados “artistas populares” são os vinculados à Indústria Fonográfica e que, a partir dela, emprestam a sua imagem pública para enfeitar a propaganda de produtos industriais das grandes empresas locais e multinacionais; no entanto, Artista Popular é aquela pessoa que cria e recria a ´batida´ poética e musical que nas comunidades, sendo que alguma dessa produção verdadeiramente comunitária só chega ao grande público quando artistas integrados no Espírito das Tradições neles se inspiram e com eles fazem parcerias. Quando a Classe Artística, notabilizada mais pelas chamadas publicitárias do que pelo trabalho, se vende ao vender outros produtos, ela passa a estar com o Consumismo, deixa de ser Povo, e aí, ao falar de Povo/Popular é já uma caricatura da pessoa que iniciou a carreira artística no balanço tradicional popular… Nesse aspecto é que Zeca Afonso e Lobão, no enquadramento das suas circunstâncias culturais e geográficas, mais se parecem…
Um dos trabalhos fonográficos que mais gosto de Lobão é “Noite”, no qual uma ´base´ Tecno agrega todas as batidas do Pop-Rock ao Samba passando pela Bossa-Nova, e é um trabalho representativo da caminhada artística e cultural desse genial brasileiro do Rio de Janeiro. O seu suporte criativo é um Pensamento conectado com as realidades do Quotidiano que passa pelas suas próprias realidades de Artista consciente e livre.
Entre Zeca Afonso e Lobão existem diferenças estéticas e ideológicas, mas, nos respectivos países, ambos marcaram/marcam uma presença política e cultural de transgressão aos cânones do Poder estabelecido – o político, o religioso e o econômico.
Vivemos o Ano 5 do Séc. 21 e eu sou uma mulher, professora e artista visual, que acabou de conhecer um personagem-marco da História recente de Portugal, e que se confronta com um campo de ação, também artístico e também político, de um personagem-marco da História contemporânea do Brasil. O que encontrei? Um ponto comum onde a Transgressão é o motor libertador e a chave para a Resistência, ou, como me lembrou Céline Abdullah, “…a linguagem da força moral contra todos os colonialismos…”.
Zeca Afonso é profundamente agressivo ao cantar “O povo é quem mais ordena…”, e leio e ouço a mesma agressividade no canto de Lobão em plena obscenidade social e política: “Porque sou bem pretinho/ Pensam que sou marginal […]/ Fui metido a bam-bam-bam/ Católico apostólico soterrado no divã/ Preto vota ´em branco´ / Contestando a razão/ A gente é branco e preto/ Preto e branco… É tudo irmão”. Tudo pela Ruptura. Tudo para que o Povo se perceba Gente e ganhe forças para conquistar o espaço que meia dúzia usurpa em nome de deuses e/ou de mitos familiares grafitados na memória falsa dos manuais escolares. Sem se transgredir não se derrubam muros nem fronteiras, sem se transgredir não se conquista a Liberdade.
Falar de Zeca Afonso e de Lobão não é, propriamente, falar de uma roda de viola – também é, mas… –, é mais falar de atos contemporâneos. Em rodas de artistas e intelectuais já ouvi que “…o Lobão é resto da produção de Cultura Consumista. Ele foi feito pelo Sistema e agora cospe em quem lhe deu nome comercial!”. O que é uma observação completamente equivocada. E mesmo que assim fosse, todas as pessoas têm o direito de arrepiar caminho quando a vivência quotidiana e profissional não lhe faz bem, porque aprendemos da Vida dando as duas faces para bater. Ora, seria o mesmo que dizer: “o fascista Salazar deixou crescer o Zeca Afonso porque sabia que o próprio Sistema não o absorvia e lhe tolhia a carreira. O que faz falta a alguns críticos de Música é serem, de fato, o-Crítico com conhecimento de causa… Entre os dois nem faço comparações, porque cada um tem a sua época/circunstância. A grande Lição social, artística, e política de Zeca Afonso e de Lobão, é terem conseguido construir linguagens próprias e contemporâneas e nelas mostrarem ao Povo, o que fala português em Portugal e no Brasil, como na África, que a grandeza da Humanidade está em ser vivida na plenitude da Liberdade… transgredindo, transgredindo sempre…!

Mariana d´Almeida y Piñon
Professora de Artes Visuais
São Paulo / SP – Br, 2005.

Notas:
MACEDO, J. C. [poeta e ensaísta] – “Zeca Afonso, um anarquista no contra-ponto do capitalismo”, art., Lisboa-Pt, 1974. [Do arquivo de Johanne Liffey.]
CASTRO, Mário G. de [professor e foto-jornalista] – “Na toca do anti-colonialismo com Lobão, ou a certeza de que a Anarquia é a solução para a Paz”, art., Campinas/SP – Br, 2003.
BARCELLOS, João [escritor, jornalista cultural] – “Ruptura: ou a Anarquia filosófica cria uma nova identidade humana, ou o Colonialismo fará de nós simples peças para compra e venda”, ensaio-palestra, Web / TN Comunic & Jeroglífo, Buenos Aires – Arg., 1998.
ABDULLAH, Céline [bioquímica] – “Orientação Para Uma Jovem Brasileira Que Adora Ser Livre”, carta, São Paulo / SP – Br, 2004.
DELGADO, Humberto [1906-1965] – “[…] Militar, opositor do regime colonial salazarista, foi assassinado pela polícia política [PIDE] numa emboscada armada na Espanha, em Villanuena del Fresno, perto de Badajoz, onde também foi morta a sua secretária, a brasileira Arajaryr Moreira Campos. Humberto Delgado reuniu em torno de si as esperanças de Democracia que o Povo Português acalentava contra o sufoco social e econômico instalado por Salazar, com apoio tácito e visível da Igreja Católica. Ao ser questionado sobre Salazar, caso fosse eleito Presidente da República, o general declarou Obviamente, demito-o!… A desassombrada declaração incendiou Portugal e, muito especialmente, a juventude intelectual e militar. O seu assassinato aprofundou ainda mais o sentimento de medo em que Portugal já vivia, e do qual só se libertaria 9 anos depois, com o golpe militar de ´25 de Abril´…” [BARCELLOS, João – in “O Terrorismo Do Estado Novo Salazarista Sob As Bençãos Do Catolicismo”, art., Rio de Janeiro / Br, 1990].
FIRMINO, Carlos [professor] – “Os Medos/Erros Da Classe Média Que Fizeram Mais Ricas As Elites Fascistas Do Brasil”, ensaio, Campinas/SP – Br, 1997.

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GalizaImprensa estrangeira
10/02/2006By AJA

José Afonso, el alma de Portugal

Enigmático, escéptico, despistado… Creador con denominación de origen, este sencillo portugués encarnó, en vida, la simbiosis equilibrada de un dilema eterno: el arte por el arte y el arte por la idea.
En Portugal, la figura artística y humana de José Afonso viene siendo protagonista desde hace tiempo de una ya densa bibliografía (1), de la que es buena muestra “Zeca Afonso, as voltas de um andarilho”, libro escrito por el periodista Viriato Teles y avalado por sus tres ediciones en portugués. En esta ocasión, el autor basó su trabajo en una meticulosa pesquisa de hemeroteca para elaborar un volumen en el que compila una serie de entrevistas a través de las cuales se nos muestra en su conjunto la personalidad humana de este creador, ambivalente en su doble faceta artístico-social.
El título resulta de lo más elocuente, al tratarse de un trabajo basado en las vivencias del artista: andarín es el apelativo atribuido en esta ocasión a José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos (tal es el nombre completo del cantor). Persona, más que personaje, nacida en Aveiro el 2 de agosto de 1929, trasladado de niño al continente africano, emprendió tiempo después un contínuo deambular geográfico, fruto del cual van surgiendo reflexiones sobre diversos temas que llenan de contenido los distintos apartados en los que está dividida la obra que se nos ofrece.
En su edición portuguesa, el también cantautor luso Sérgio Godinho escribe un breve prólogo en el que sintetiza la poliforme personalidad de su colega, a la sazón protagonista, en su capacidad para unir tantas referencias en una obra creativa única. Posteriormente, el propio Teles, en tanto que autor, se sincera en su intención cuando manifiesta participar en una lucha contra el olvido, hoy tan en boga. Y, ciertamente, ahora que los músicos y cantores portugueses contemplan una mayor facilidad para la difusión de su arte, bueno será historiar tiempos pasados que perviven en el presente, como prueban la cantidad de versiones que de un tiempo a esta parte vienen poniendo en solfa el cancionero del que fue precursor y líder aglutinante de la canción lusitana.
En la introducción del libro se reproduce una frase del propio Afonso: “La realidad es todo: es aquello que existe, aquello que nosotros suponemos que existe y aquello que nosotros inventamos. Hay más cosas en la realidad de las que mucha gente piensa”. Frase muy apropiada, por cierto, para su canción “Utopía” (del disco “Como se fora seu filho”, Sassetti / Ventilador Music, 1984).

ARTISTA CÍVICO

Es opinión común entre quienes trataron en vida a José Afonso su desinterés dialéctico por la propia actividad artística que desarrollaba. En sus encuentros con otros colegas, el artista era más dado a hablar de cualquier otro tema que no del estrictamente musical. Naturalmente, esta actitud está bien reflejada en las páginas de un libro en el que su autor manifiesta que “Zeca prefiere hablar de personas y de la vida, de las cosas que van aconteciendo aquí y allí a lo largo de los años”. El propio artista se refiere en reiteradas ocasiones a esta actitud vital: “Soy una decepción para los músicos”. Incluso recurre a una especie de desdoblamiento para diseccionar su rol artístico como cantor, por una parte, y su faceta cívica como persona, por la otra: “Una cosa es mi actividad musical, la función lúdica de la música; otra cosa es el hombre político que soy. Ahora, cómo armonizan las dos cosas aún lo estoy por saber”.
Lógicamente, su decantación ideológica por la izquierda en general es otro de los contenidos presentes a lo largo de la publicación, hasta el punto de que, a menudo, el lector puede encontrarse más ante un agitador social que ante un creador artístico. De hecho, llegó a afirmar que “prácticamente nunca canto por gusto”.
Los apuntes biográficos aparecen salpicados en el relato de Teles, que da cuenta de su época de estudiante en la Facultad de Letras de la Universidad de Coimbra, donde comenzó su incipiente actividad musical. Posteriormente ejerció la docencia como profesor ambulante en diversas localidades –Alcobaça, Lagos, Faro…– hasta que fue expulsado de la enseñanza –Setúbal, 1967–. Como quiera que estos episodios tienen lugar en plena dictadura salazarista, no es de extrañar que fuese encarcelado en el año 1970. Menos dramática fue la anécdota que el propio Afonso y su público padecieron en su día en la Facultad de Ciencias de la Universidad de Lisboa, donde tuvo que cantar a oscuras, sin micrófono, porque la instalación eléctrica fue saboteada por dos policías disfrazados de ¡electricistas!
Sin embargo, este clarísimo posicionamiento político no le impidió reflexionar y ser crítico con sus propios compañeros de viaje, cuando se refirió a algunos de ellos como “sujetos que ingresan en un partido como si estuviesen en un club o en una iglesia. Eso les lleva a rechazar a otros individuos que tienen una actividad convergente o semejante a la de ellos, pero que pertenecen a otro grupo distinto”.
Llegado el momento de recordar el hito histórico que se produjo en Portugal el 25 de abril de 1974, hay que hacer referencia forzosa a su canción “Grândola, vila morena”, utilizada como contraseña por los impulsores del golpe de estado que reconduciría el país a la democracia. Posteriormente, el periodo iniciado entonces permitió a la nueva canción una mayor difusión que la dispensada anteriormente, en que incluso era censurada. Esta normalidad incluía una mayor facilidad para grabar y difundir discos. De hecho, cualquier oyente que tuviera a su alcance ciertas emisoras de radio lusas durante el verano de 1974, bien podría hacer una especie de bachillerato acelerado en canción portuguesa. Al tiempo, regresaban algunos cantores exiliados, mientras que en el propio país una artista tan asociada al anterior régimen (sic) como la mismísima Amália Rodrigues grabaría en un single (Columbia, 1974; posteriormente incluida en “Fandangueiro”, Columbia, 1977) su propia versión de la emblemática pieza.
El momento histórico que vivió el país durante aquella época es reflejado en algunas páginas del libro, destacando al respecto el llamado processo revolucionário em curso –PREC–, término con el que se designó el clima de agitación política, social y cultural que se vivió durante los años 1974 y 1975. Fue un periodo que condicionó la semántica del cancionero, en el que predominaban palabras de orden como “paz”, “pan”, “habitación”, “salud” o “educación”. Coherentemente, los cantores, como activistas sociales que eran, asumieron con su colaboración una entrega a tareas pendientes, como varias campañas de alfabetización. Este enorme reto también tiene su correlación en el repertorio de Zeca Afonso cuando cantó “O que faz falta é agitar a malta” en el tema “O que faz falta” (del disco “Coro dos tribunais”, Orfeu, 1974).

ARTESANO DE LA CANCIÓN

Sorprenderá siempre a quien conozca la obra de José Afonso el tratamiento, a menudo exquisito, con que cuidó sus grabaciones, en contraste con ese aparente desinterés por su actividad artística. Se trasladó fuera de su Portugal vivencial cuando la ocasión requirió ir a estudios de Madrid, París o Londres. Claro que la desmitificación de su oficio encuentra el razonamiento del propio artista, cuando declara al autor del libro: “Hago música como quien hace un par de zapatos. Sólo intento alinear sonidos y volverlos coherentes entre sí como quien hace un utensilio”. A oídos del aficionado, resalta en su amplio repertorio la variedad tímbrica y de contenidos musicales con que enriquece buena parte de sus canciones. Aunque para el propio Zeca no parece tan importante: “Lo que nosotros hacemos es siempre una cosa muy periclitante: meter en tres minutos una canción y conseguir un efecto único”.
La primera grabación de Zeca Afonso data de 1953. Se titula “Baladas de Coimbra” (Rapsódia) y en ella incluía, entre otros temas, “Fado das águias”, considerada su primera composición. Era un disco con cuatro canciones, en formato ep y de 78 revoluciones por minuto, como otros varios que registró ya durante la siguiente década de los años sesenta. El formato de larga duración lo estrenaría en 1967 con “Baladas e cançoes” (Ofir) y un repertorio en el que se dejaba notar la influencia del músico Edmundo Bettencourt, hombre decisivo en aquella época.
Más adelante, en el apartado dedicado exclusivamente a la discografía, Viriato Teles va detallando el contenido de las distintas grabaciones, resultando una guía especialmente útil para aficionados incipientes, que deben saber de la importancia, e incluso vigencia, de discos como “Cantigas do Maio” (Movieplay Portuguesa), grabado a finales de 1971 y en el que los contenidos surrealistas, apuntados en anteriores registros, aparecen aquí asumidos en su plenitud, al tiempo que inmortalizaba la versión original del citado “Grândola, vila morena”. Mención especial hace el propio artista de su disco “Com as minhas tamanquinhas” (Movieplay Portuguesa, 1976), un trabajo, según el autor del libro, “de temática política pero claramente diferenciado de las tentaciones más primarias del llamado realismo socialista”.
Nuevas grabaciones van manteniendo la continuidad del artista: En “Fura fura” (Orfeu, 1979), Zeca Afonso se acompaña del joven grupo Trovante. Posteriormente, materializa una vuelta a sus orígenes en “Fados de Coimbra e outras cançoes” (Movieplay Portuguesa, 1982). En este disco incluyó otra de sus canciones emblemáticas: “Balada de outono”. Grabada originalmente en 1960, simbolizó la evolución que la música portuguesa comenzaba a experimentar en aquella época. Aunque el propio artista trató una vez más de desmitificar tal razonamiento, cuando declaró al respecto: “Designé mis primeras canciones como baladas no porque supiese exactamente el significado del término, si no para distinguirlas del fado de Coimbra que comenzara a cantar y con el que, personalmente, llegué a una fase de saturación”. Así y todo, esta empatía con el cancionero popular de su país permaneció perceptible a lo largo de toda su obra, al igual que la música procedente de las antiguas colonias –Angola y Mozambique–, destacando en este último aspecto su condición de precursor, habida cuenta de la vigencia actual de los sonidos africanos en el contexto de las músicas del mundo.

ZECA AFONSO, EL MITO

Los discos se sucedían en la carrera de José Afonso, quien, al margen de los estudios de grabación, registraría en directo el que sería su gran acontecimiento: un recital espectacular en el Coliseu de Lisboa el 29 de enero de 1983 –más tarde se reproduciría en Oporto–, organizado por la Cooperativa Artística Eranova y en el que se sucedieron acompañando al cantor una serie de colectivos e individualidades artísticas, al tiempo que desde el palco era recordado Adriano Correia de Oliveira, compañero de vivencias creativas y universitarias fallecido prematuramente en 1982 con tan sólo 40 años de edad. Entre los participantes en aquel histórico encuentro estaba el principal superviviente de los cantores allí presentes: el sin par Fausto, que precisamente en este 2003 verá publicado su nuevo disco, cuyo contenido se anuncia como evocador de aquella época.
Y es que, tal como refleja el libro, todo este movimiento de canción portuguesa se desarrolló durante este periodo con un claro espíritu colectivo. Zeca era el aglutinante, la persona en torno a la cual iba germinando toda una dinámica artístico-social. Algunos de aquellos compañeros de viaje volverían a reunirse en el que sería su último disco: “Galinhas do mato” (Transmédia, 1985), producción que recopiló material disperso que el artista tenía grabado en casetes, posteriormente trabajado en estudio por José Mário Branco y Júlio Pereira. En esta ocasión, además de canciones, también se incluyeron varios temas exclusivamente instrumentales. Una vez más, el artista combina ciertos experimentos sonoros con nuevos cánticos de temática social. Ironiza sobre la integración europea en “Década de Salomé” y se muestra lírico y tierno en “Benditos”. Versatilidad consubstancial a lo largo de su trayectoria que, quizá mejor que nadie, describió una perfecta desconocida entre nosotros. Se llama Elfriede Engelmayer y realizó al respecto una tesis de doctoramiento (“Utopie und vergangenheit: das liedwerk des portugiesischen sängers José Afonso”, Universidad de Viena, Austria, 1985) en la que se puede leer: “José Afonso, el poeta, vive en la sombra de Zeca Afonso, el cantor político”. La cita fue recogida también por Viriato Teles en su cuaderno “Música popular portuguesa, uma bibliografia” (Câmara Municipal de Amadora, Portugal, 2001).
Los homenajes que se le tributaron en vida completan el relato sobre su incidencia social. Éstos comenzaron a lo largo de todo Portugal y después continuaron tanto en Madrid como en Galicia. Especialmente espectacular fue el celebrado el 31 de agosto de 1985 en el auditorio del Parque de Castrelos, en Vigo, con la participación de un enorme elenco de artistas, tanto gallegos como portugueses, y en el que coincidieron algunos cantores de la época de Zeca junto a nombres de la entonces incipiente nómina folk. A saber: Jei Noguerol, Miro Casabella, Doa, Na Lúa, Fuxan os Ventos, Amélia Muge, Vitorino… Otros músicos, como el grupo Clunia Jazz, ampliaron el espectro artístico del homenajeado. El lema que encabezó el festival fue “Galiza a José Afonso”, quedando registrado para la posteridad en un compacto del mismo título editado por Edicións do Cumio en el año 1999.
Pero el autor se detiene especialmente en los actos póstumos celebrados simultáneamente en varias ciudades gallegas durante mayo de 1987, apenas tres meses después de su fallecimiento. Fue aquel un tributo en el que tuvo una especial responsabilidad organizativa el cantor gallego Benedicto, con quien Zeca compartió durante varios años cantidad de escenarios y que con el tiempo llegaría a ser su principal anfitrión galaico. En aquella ocasión, el múltiple homenaje consistió en una serie de conferencias y recitales sobre el cantor y su amplio mundo con la participación de nombres tan representativos como la coral De Ruada, Emilio Cao, Luis Pastor, Maria del Mar Bonet, Milladoiro o Pi de la Serra, entre otros. En esta ocasión, y como reclamo genérico de tan amplio despliegue, se utilizó el título de uno de sus discos: “Enquanto há força” (Orfeu, 1977). La solidaridad en torno al artista fue, pues, tan patente como necesaria, ante el delicado estado de salud en que se encontraba durante la década de los años ochenta, habida cuenta de su precaria situación económica.
Y llegado a este punto, el lector se preguntará, tal vez, cómo fue posible un final semejante para un creador de tan enorme talento. Quizá la respuesta adecuada sea la que se nos ofrece en palabras del periodista António Duarte: “José Afonso murió pobre porque nunca pactó con el sentido común, con la comercialidad, con el poder, con lo fácil y gratuito”. Por su parte, el propio intérprete declaró en su día que “somos un país de cantineros y de vendedores, que vendieron en las Africas, en Brasil, en Extremo Oriente… Ahora somos un país de pequeños comerciantes y estamos a vendernos los unos a los otros, aún apuntando al respecto que se dan excepciones que escapan a esta regla general”.
De su grave enfermedad y posterior fallecimiento el 23 de febrero de 1987, queda para el recuerdo la inmensa concurrencia a su entierro, que hizo del mismo una muestra póstuma de adhesión popular. Mientras, en Portugal las autoridades políticas no decretaron luto oficial.

Xoán Manuel Estévez
Publicado na revista Batonga! – Janeiro, 2003

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EntrevistasViriato Teles
10/02/2006By AJA

O que é preciso é criar desassossego

A conversa que se segue aconteceu em finais de Novembro de 1985, por ocasião da gravação de Galinhas do Mato, e foi originalmente publicada no Se7e. Foi das últimas entrevistas que José Afonso concedeu, numa altura em que o seu estado de saúde se agravava dia após dia. Apesar disso, falava do futuro com algum entusiasmo e uma força interior que quase faziam esquecer a enfermidade sem cura que o atormentava.
A sua inclusão no livro Zeca Afonso: As voltas de um andarilho justifica-se, a meu ver, por isso mesmo, por esse sentido dialéctico exemplar que as suas palavras transmitem. Propositadamente, mantive intacto o diálogo original, apesar do carácter datado e circunstancial de algumas das suas declarações – nomeadamente as relativas a questões de ordem política, como o seu apoio à candidatura presidencial de Lourdes Pintasilgo, cuja campanha então se iniciara.

Parte significativa desta conversa refere-se, como é óbvio, ao derradeiro disco de José Afonso, produzido por José Mário Branco e Júlio Pereira, que também nele participam como intérpretes, ao lado de Helena Vieira, Né Ladeiras, Luís Represas, Janita Salomé e as duas filhas deste, Marta e Catarina. Foi «um trabalho de equipa muito bonito», nas palavras de Zé Mário. «Uma coisa que transcendeu a própria ternura», acrescenta Júlio Pereira. Tal como a cavaqueira que se segue.

– Este disco vai, se calhar, surpreender muita gente, que te julgava acabado para a música…

–Talvez. Eu, a princípio, achei que não valia a pena, não estava a ver-me assim no papel de compositor. Por mim punha uma pedra no assunto e ficaria o ‘Como Se Fora Seu Filho’ o meu último disco. Mas a verdade é que tinha por aí algum material, disperso por algumas cassetes, que, se calhar era pena ficar aqui perdido. E achei que as pessoas que estavam mais próximas de mim, até em termos de assiduidade, de acompanharem e se interessarem pelas coisas que eu aqui tinha eram, de facto, o Zé Mário Branco e o Júlio Pereira. E foram eles que insistiram nessa ideia, que seria necessário utilizar essas músicas para um novo disco.

– Além do que agora foi gravado, existem ainda outros inéditos…

– Sim, algumas coisas. Umas que ainda são dos meus primeiros tempos de professorado, em Setúbal, outras feitas em África ou no barco, quando fui colocado em Moçambique. Há coisas que são só pequenos trechos musicais, não são propriamente canções.

– Este disco tem também canções dessa altura?

– Tem. O tema ‘Galinhas do Mato’, por exemplo, é, talvez, o mais representativo. Tem uma certa sugestão africana de ritmos e coros, é uma música que eu pus na prateleira, à espera de um dia ter um texto que se enquadrasse. E há o ‘Tu Gitana’, uma música que eu fiz com uma ‘letra-robot’, a letra de uma canção de Vila Viçosa que eu cantei muito em Coimbra, no grupo que deu origem ao Coral da Faculdade de Letras. Descobri que essa letra se coadunava perfeitamente com aquela música que eu tinha feito.

– É essa que é cantada, no disco, pela Helena Vieira…

– É e, aliás, acho que é admiravelmente cantada. Estas duas músicas são talvez de 1968, portanto anteriores a quase todas as que eu fiz para o ‘Como Se Fora Seu Filho’. A mais recente é, talvez, a ‘Alegria da Criação’, que foi feita para a peça Fernão, Mentes?”.

– Dizia eu que este disco pode surpreender muita gente. Até porque é feito segundo um esquema que creio ser mais ou menos inédito em Portugal: é, digamos, um disco de autor, com a maioria das interpretações entregues a outros cantores…

– Isso é uma coisa que, para lá das condicionantes que obrigaram a que assim fosse, me dá um certo contentamento. Até porque, neste caso, se pode escolher a voz apropriada para cada tipo de canção. O ‘Tu Gitana’, por exemplo, nunca poderia ser cantado por mim, nem mesmo quando eu tinha voz para cantar. Tem uma tessitura, uma escala de tal ordem que só uma mulher com uma voz educada como a Helena Vieira a poderia cantar.

– O Júlio Pereira e o José Mário Branco coordenaram o trabalho de arranjos. Vocês mantiveram-se em contacto com regularidade?

– Sim, sim. O Júlio, por exemplo, não dava um passo que fosse fora do meu conhecimento. E a ‘Alegria da Criação’ é uma canção cujo arranjo coral e instrumental se deve ao Zé Mário. É claro que muito embora eu tenha concebido muitos dos arranjos, ao longo deste meu trabalho, não conseguiria fazer este disco sem a participação do Júlio e do Zé Mário, que foram uns excelentes colaboradores. Estávamos em contacto telefónico quase permanente e, no estúdio, estive regularmente a par do que se foi fazendo. Mas o trabalho de bases foi feito por eles, embora eu soubesse o que quer o Júlio, quer o Zé Mário iam fazer. Eles gravavam previamente o que faziam e eu dava sugestões a partir daí, imitando sons, dando imagens, sei lá… É muito, difícil explicar isto tudo, é um processo empírico…

– Estás, portanto, satisfeito?

– Eh, pá! Pela primeira vez, isto deu-me um prazer bastante grande. Talvez pelo facto de serem outras pessoas a cantar, mas também pelo tipo de músicas… O ‘Agora’ ou o ‘Galinhas do Mato’, por exemplo, eram coisas que estavam na prateleira e cheguei a admitir não poder gravar. ‘Galinhas do Mato’ é uma canção demasiado africana, demasiado ligada às minhas memórias de infância, e pensei que não encontraríamos uma solução instrumental para ela. Mas, afinal, com a ajuda de um computador, conseguiu-se.

– Um computador?

– Um computador, nas mãos do Júlio Pereira. Mete sons vários, desde o kissange, percussões e outros sons mais ou menos electrificados ou plastificados mas que são exactamente tipo som artesanal. E tivemos que recorrer às vozes das mulheres do Coro de Oeiras, um bocadinho modificadas, de modo a criar aquele ambiente africano. E, além disso, contámos com as filhas do Janita que, no caso presente, parecem duas pretinhas a cantar… Eu fiquei surpreendido porque, no final, o resultado é de tal ordem que eu me senti transportado aos meus quatro ou cinco anos, quando estive no planalto do Bié. E há outras coisas: uma música chamada ‘Tarkovsky’, em que utilizámos quase arbitrariamente o nome do cineasta russo porque, a dada altura, eu pensei criar um ambiente, num coro sem palavras, que tivesse um pouco de África e da Rússia. Imagina-te no ‘Andrei Rubliov’ ou, de uma forma geral, nos filmes do [Andrei] Tarkovsky. E lá se fez, com a ajuda da trompa do Adácio Pestana e da voz do Janita.

– Essa música representa, de algum modo, uma homenagem ao Tarkovsky?

– De certo modo. Até porque os filmes dele me impressionaram bastante e deixa-me dizer-te que estou convencido que dificilmente ele poderia fazer, no Ocidente, os filmes que, apesar de todas as limitações que teve, fez na União Soviética. Aquele ‘peso’, aquela ligação telúrica à ‘mãe Rússia’, aqueles personagens espantosos que ele criou, tudo isto é difícil reproduzir aqui, quer na Europa, quer nos Estados Unidos. Por isso a música também é uma homenagem. Sabes?, eu quando falo de coisas de música, falo também muito de questões extramusicais, para dar o ambiente. Socorro-me muito de imagens, de espaços e até da mímica. Quando estou diante de um tipo que vai cantar as minhas coisas bamboleio-me, faço caretas para ele se situar na interpretação que idealizei. Foi um trabalho de equipa excelente, sem qualquer tipo de asperezas, com um entendimento espantoso entre a malta…

– Coisa que nem sempre é fácil, na música…

– Pois não. Isto é tudo um bocado confuso, o que nós fazemos é sempre uma coisa muito periclitante: meter em três minutos uma canção e conseguir um efeito único… Mas que a música, entre aspas, ‘popular portuguesa’ continua viva acho que sim. E a prova é que têm saído coisas, cada músico tem qualquer coisa de seu, não se confunde com outro. Há uma marca pessoal, que é desejável.

– ‘Música popular portuguesa’ entre aspas? Porquê?

– Porque esse conceito é muito polémico. Não sei se lhe chame música de texto, música social, música de intenção política, música de intervenção. São tudo conceitos muito indefinidos, mas música popular é ainda mais polémico. Senão voltamos outra vez para a discussão sobre música popular e música tradicional e eu não quero entrar nisso. Prefiro dizer ‘a música da minha área’ ou ‘da nossa área’, abrangendo um conjunto de colegas ou ex-colegas que sempre estiveram nestas coisas, que sempre tiveram um percurso próprio.

– A própria intenção e a intervenção política são hoje, por vezes, postas de parte por alguns colegas teus…

– Pois é, mas também não quero entrar nessa área. Isso é um problema de consciência. Eu sempre disse que a música é comprometida quando o músico, como cidadão, é um homem comprometido. Não é o produto saído do cantor que define esse compromisso mas o conjunto de circunstâncias que o envolvem com o momento histórico e político que se vive e as pessoas com quem ele priva e com quem ele canta. Tipos como o Daniel Viglietti, por exemplo, são cantores com um inegável perfil político e militante, também. Se isso é viável e de que maneira não sei…

– Mas tu, por exemplo, continuas activo a comprometido politicamente. Ainda há poucos dias apelaste ao voto na APU para as eleições autárquicas…

– Não consigo nem pretendo estar fora das coisas. Este meu apelo ao voto na APU, não é um apelo paternalista, mas fruto da constatação directa, através da minha experiência como cidadão, que as vereações mais honestas, que dão prioridade a coisas essenciais como saneamentos básicos, escolas e jardins de infância, são efectivamente as da APU. Posso citar Coruche, Moura, Seixal, Mértola… E, tomando estes casos como padrão, eu não hesito em dizê-lo às pessoas, se é que a minha presença tem alguma força. Uma coisa é a minha actividade musical, a fruição lúdica da música, outra coisa é o homem político que sou. Agora como é que as duas coisas se harmonizam, ainda estou para saber…

– As Presidenciais estão também a chegar. Já tomaste posição?

– Decidi ontem [22 de Novembro de 1985] apoiar a engenheira Maria de Lourdes Pintasilgo. A política não é o reino do absoluto, estamos numa conjuntura que não aponta para nenhuma acção popular e revolucionária. Afirmar isto era pura demagogia. Portanto eu apoio um candidato que dê margem para determinadas movimentações a que eu chamo de contra-poder… E começo a desconfiar a sério da rigidez partidária. Entendo que, efectivamente, há partidos mais aconselháveis que outros e sou de opinião que não há conciliação entre uma perspectiva de esquerda e uma perspectiva de direita, autoritarista e reaccionária. Continuo a perfilhar convictamente estes pontos de vista, mas isso não me impede de apoiar uma personagem interessante, de grande carisma pessoal como é a Lourdes Pintasilgo. Que, a meu ver, está muito mais ligada a uma conotação de esquerda, de mudança, do que os outros. Há quem se esqueça que o Salgado Zenha foi o arauto do antigonçalvismo, do antipêcêpismo, da ‘Carta Aberta’. E que foi pela boca dele que se fizeram os mais duros ataques à CGTP. Há quem se esqueça, mas eu não tenho falta de memória, pelo menos nestas coisas… Podes escrever isto tudo que eu disse…

– E lá estamos nós a falar de política…

– Como é que da política se chega à música e da música à consciência? Eh, pá, eu acho que as coisas podem estar ou não ligadas, depende do lado para onde estivermos virados. Mas o que é preciso é criar desassossego. Quando começamos a procurar álibis para justificar o nosso conformismo, então está tudo lixado! E, quando isso acontecer comigo, eu até agradeço que os meus amigos me chamem à atenção e me critiquem. No campo da música continuo interessadíssimo, nesta área e fora dela. Acho que, por exemplo, é necessário que exista um grupo como o Opus Ensemble, um músico como o Victorino d’Almeida. Ou como o Rão Kyao, embora nem sempre goste das últimas coisas dele – mas isso é outro problema. E, na área do chamado rock português, em relação à qual eu sou muito reticente, há, por exemplo, os Jáfumega, que eu vi há tempos e de quem gostei bastante, fiquei sinceramente impressionado. Estou interessado, sim, pelo que por cá se faz. Acho que, acima de tudo, é preciso agitar, não ficar parado, ter coragem, quer se trate de música ou de política. E nós, neste país, somos tão pouco corajosos que, qualquer dia, estamos reduzidos à condição de ‘homenzinhos’ e ‘mulherzinhas’. Temos é que ser gente, pá!

Entrevista de Viriato Teles
Se7e – 27 de Novembro de 1985

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Fernando Assis PachecoTestemunhos
10/02/2006By AJA

Só me calham Dukes

José Afonso, Viriato Teles e Fernando Assis Pacheco em Azeitão. Foto de Joaquim Bizarro.
 
 
Privei pouquíssimo com o Zeca, não fiz parte dos seus amigos mais chegados, a última vez que estivemos juntos foi em casa dele e havia o sentimento pesado da morte que entrava já pela varanda, bulindo com os cortinados.
Estas efemérides são muito chatas porque, não tendo nós o dom da ressurreição, caímos não obstante num discurso tão próximo do evangélico que soa a falso. Vou tentar fugir-lhe.
A primeira vez que ouvi falar do Zeca já se dizia assim mesmo, Zeca, e não José Afonso. Cantava esplendorosamente o reportório do fado de Coimbra. Eu costumava não me intrometer nessas conversas tribais em que outros eram aparentemente exímios e tiravam todo o prazer da evocação dos grandes tenores e barítonos da escola local. Havia mesmo quem coleccionasse velhos discos de gramofone comprados a preços altos. A mim tanto se me dava: estava a tirocinar para utente nocturno do programa de jazz da Voz da América, vício que convinha não revelar aos então companheiros de esquerda, por sinal hoje bandeados na sua quase totalidade para a comarca de onde vem papel, papel a sério, sendo que vários deles até deputam, ó meu Deus!
Bom, não importa, eu era capaz de gostar do Zeca e do Duke Ellington, à vez ou ao mesmo tempo. Um solo a introduzir o Perdido parecia-me tão rico e tão cheio de música como qualquer canção da Beira Baixa ou dos Açores arregimentada pelo fado da cidade. O que eu não fazia era correr a foguetes para um sarau da Queima das Fitas, e escusassem de me lembrar as serenatas ditas monumentais na Sé Velha porque a essa hora onde eu já ia.
Ao Zeca habituei-me. Foi de resto fácil: andava no Orfeon Académico e ele tinha por hábito juntar-se ai grupo nas excursões, actuando em fim de festa. Era simplesmente o melhor. A voz mais bonita, a interpretação mais inteligente. Aí eu calava-me muito bem calado, cedendo ao instante mágico. Mas nunca falámos disso. Para quê, se eu devia parecer-lhe o que realmente parecia à vista desarmada, um pernóstico sem cura.
Também não assisti à guerrilha da balada em Coimbra, pelo motivo bem mais prosaico de uns anos de tropa com que a Sagrada Família me entreteve, mas na hora de fazer as malas escolhi dois discos de 45 r.p.m. do Zeca para irem estagiar comigo em Nambuangongo e Zala, de onde voltaram tingidos de um castanho avermelhado que era a vera cor da guerra. Foram muito ouvidos nos dois aquartelamentos, até pelos srs. oficiais de carreira, que não eram propriamente surdos e agradeciam uma musiquinha de fundo para empurrar o quinto ou sexto brande à noite, pouco antes do chichi-cama.
E pronto, acabarm-se os tiros, voltámos todos ou quase, o Zeca também tinha ido veranear a África (Moçambique, no seu caso),vieram uns versos, veio a música dele, ele às tantas foi para Setúbal e eu remanesci em Lisboa. Em vinte anos não nos teremos encontrado duas vezes vinte vezes. Mas tive ocasião de escrever sobre os discos dele, ou somente sobre ele, entrevistei-o em Caldas da Rainha, lá fui uma tarde a Azeitão com o Viriato Teles – a cena dos cortinados – e depois foi o fim.
Recordam-me duas histórias. Uma em 1960, em Paris, quando a meu pedido ele entrou numa livraria toda pinoca para requisitar gratuitamente a antologia do Maiakovski traduzida pela Triolet, que eu não tinha massas para comprar. Foi tudo rápido e brilhante e nem o Houdini teria feito aquele passe que o Zeca fez. Só faltaram as palmas.
A outra é o recital de despedida no Coliseu, insuportavelmente belo. Ele sobe ao palco, ajeita os óculos, baralha-se com os papéis, tenta descobrir ao longe – mas não é possível, as luzes cegam-no – uma cara conhecida com quem dividir a emoção do momento. A minha servia, mas o Zeca está longe e não me topa.
Digo-lhe adeus com a mão.
 
Fernando Assis Pacheco

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TestemunhosViriato Teles
10/02/2006By AJA

Um pássaro igual a ti

Provavelmente, o mundo está mesmo feito às avessas! Anda um tipo como este Zeca a vida inteira a dar a voz e o corpo pelas causas dos outros, passam-se anos a fio de viola às costas a cantar as utopias sonhadas no dia-a-dia, e acaba tudo assim. Estupidamente, numa madrugada de chuva indecisa, como se nada tivesse acontecido antes, como se tudo o passado não fosse senão um sonho longínquo.
Nós, no entanto, sabemos que não foi um sonho. Crescemos a ouvir Menino de Oiro e Os Vampiros, aprendemos de cor os versos de Vejam Bem e de Grândola. Aprendemos, com o Zeca Afonso de todos os cantares andarilhos, a saborear o gosto dos encantos e das emoções, a desejar e a lutar pelas cores da liberdade.
Com Zeca e os seus companheiros aprendemos, ainda, que é muito menos fácil formular perguntas que encontrar respostas. Que as veleidades da ‘vida artística’, na qual ele nunca se encaixou, são como os foguetes de romaria, que desaparecem no ar após um instante de brilho e que, portanto, o importante é estar vivo, ter como única certeza a inquietação permanente.
Há coisas assim, que parecem impossíveis. Depois vêm as inevitáveis cortesias-de-velórios, mas quanto a isso estamos conversados. Afinal somos um país de homenagens póstumas, não é? Que o digam o Adriano, Jorge de Sena, Fernando Pessoa. Que o diga agora o Zeca, ele que foi sempre tão dado a encolerizar-se com estas coisas.
Veja-se a Televisão, que esperou a sua morte para mostrar, lacrimosa, as suas cantigas. Veja-se o poder, que tudo lhe negou em vida, para descobrir agora (só agora, ó céus?) que, afinal, Zeca é um símbolo da democracia e da resistência antifascista! E proclama hossanas em sua glória, como se já não bastasse a dor que ficou.
Felizmente, os que aprenderam com Zeca as mais belas lições de liberdade já se aperceberam também de todo o ridículo que se esconde por detrás destes lamentos hipócritas. E sabem que José Afonso, poeta e trovador, não é dos que morrem assim, sem mais aquelas.
Sabemos que o sonho permanece, em cada esquina, em cada rosto, em bisca da terra da fraternidade. Quanto a ti, Zeca, faz como sempre fizeste até aqui: não lhes ligues, ri-te deles, lá desse cantinho onde agora te encontras, provavelmente a contar ao Adriano as últimas cá de baixo. Afinal, já sabes como é: o mundo está mesmo feito às avessas. Se assim não fosse ainda agora por cá te teríamos, a mandar vir como era teu hábito contra “essa cambada engravatada e escolopêndrica” que insiste em controlar a gente. E até vão fazer de ti nome de rua, imagina!
Olha: lá fora, aqui mesmo a dois passos desta mesa de onde te recordo, há um pássaro a recolher-se da chuva que, teimosa, vai caindo. Ou serão lágrimas? Seja como for, o pássaro é igualzinho a ti: por mais que tentem, ninguém consegue impedi-lo de voar.
Viriato Teles

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Caetano VelosoLuís Pinheiro de AlmeidaTestemunhos
10/02/2006By AJA

O «London London» de Zeca

Londres, 1970, talvez. José Afonso gravava Traz Outro Amigo Também nos estádios da Pye. Ao lado, os Status Quo registavam o segundo álbum, Spare Parts mas tinham de o interromper de quando em quando para não prejudicar o andamento mais sereno de Zeca. Dois jovens técnicos tratavam do Zeca e do Bóris. E nem quando verteram um copo de café no gravador ficaram aflitos. Aflitos ficavam quando amiúde José Afonso tinha de interromper a gravação porque se esquecia da letra do que estava a cantar.
Londres fervilhava. Era o fim dos Beatles, do «Chelsea Drugstore» que os Stones cantavam, o aparecimento dos skinheads, a morte lenta dos hippies, da Carnaby Street e de King’s Road.
Mas havia outros motivos de interesse. Para Londres convergiam os exilados políticos de outros países, nomeadamente do Brasil. Entre eles, Gilberto Gil e Caetano Veloso que cedo conviveram com Zeca.
Nos intervalos das gravações, o Zeca jogava judo comigo em casa da Nina, em Oakley Street, no coração de Chelsea. A irmã, Manuela, cuidava das moedas no meter para não faltar a electricidade. O seu companheiro, José Labaredas, homem bom do Couço, amigo do Zeca, cantador de fados de Lisboa, assistia. Todos juntos éramos uma família. Faltava Rui Pato, meu vizinho da instrução primária em Coimbra. Por causa da crise académica de 1969, onde fora um dos dirigentes estudantis, a PIDE não o deixara sair do País.
Uma noite, fomos todos jantar a um dos restaurantes portugueses de Beauchamp Place, mesmo ao lado do Harrods. Ou foi no Fado ou na Caravela, já não me lembro. Eu, o Zeca Afonso, o Zé Labaredas, a Nina, a Manuela, a Milu, todas irmãs, o Gilberto Gil e o Caetano Veloso. Caldo-verde lembro que comemos.
No meio dos pastéis de bacalhau, Caetano Veloso confessou que estava atrapalhado. Os seus amigos do Brasil perguntavam-lhe como era a vida em Londres. Ele queria responder com uma canção, mas não sabia como.
E foi nessa noite londrina, num recanto bem português, que José Afonso trauteou o que viria a ser o famoso «London London» de Caetano Veloso. Sem créditos, a não ser para os que assistiram ao parto da canção.
Luís Pinheiro de Almeida

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Testemunhos
10/02/2006By AJA

Portugal, José Zeca Afonso y la Revolución de los Claveles

Este mes se cumple el veinticinco aniversario de la “Revolución de los claveles”, movimiento militar de carácter progresista que contó con gran apoyo social y puso punto final a la dictadura salazarista en Portugal. A las cero horas de aquel histórico y primaveral 25 de Abril, el programa “Límites”, de Radio Renazenca, comenzó a emitir los acordes de “Grandola, Vila Morena”. Fue la consigna para poner en marcha el engranaje revolucionario. La la letra y la música eran de José Afonso, la figura más importante de la canción portuguesa de este siglo, y una pieza clave de la música popular de todo el mundo. “Zeca” Afonso dejó un legado de integridad y compromiso.
José Afonso ha sido una de las grandes glorias nacionales de Portugal, como Camoens -asegura el cantautor musical José Mario Branco, uno de los artistas que más cerca estuvo siempre de Zeca Afonso- y fue abandonado en sus horas bajas por algunos que le deben todo lo que son. Muchos ciudadanos de este país han aprendido a pensar y sentir gracias a él.
No se puede entender la importancia y la trascendencia de la obra artística de José Zeca Afonso, sin hacer una aproximación cabal a la personalidad humana y política de este irrepetible portugués nacido en Aveiro, quien murió sin reconocimiento oficial, a pesar de su enorme compromiso y su gran talento.
Durante toda su vida, mantuvo un inquebrantable compromiso artístico y político, primero contra la dictadura de Salazar y, al final de sus días, frente a la contrarrevolución encabezada por el Partido socialista de Mario Soares. Zeca fue consciente siempre de que su honradez navegaba a contracorriente, pero en ningún momento abandonó sus principios y su coherencia. Por eso detestaba el desencanto, que él calificaba como una mera justificación para los traidores.
Su defensa de la democracia popular, directa y no institucionalizada, le acarreó las críticas y el rechazo de algunos sectores políticos, incluso de izquierda. Zeca Afonso cantaba incesantemente para el pueblo, en cooperativas agrarias y comissioes de moradors, utilizando sus exquisitas creaciones como vehículo para las movilizaciones.
Físicamente más alto que la mayoría de sus paisanos, complexión fuerte, mirada profunda y aire tímido e introvertido, José Zeca Afonso sería el antidivo por excelencia. Sensible y depresivo en algún momento, era profundamente irónico y mordaz, tal cual resulta patente en muchas de sus creaciones.
En alguna actuación suya, y con frecuencia, olvidaba hasta versos de sus propias canciones. De ahí su permanente preocupación por conseguir siempre un atril para consultar la letra que él mismo creaba. En otro momento, algún espontáneo le sujetaba las notas o le soplaba cuando algún lapsus le asaltaba.
Zeca Afonso era muy aficionado al deporte; con el nombre de Cerqueira en los partidos de fútbol, sus jugadas con el siete a la espalda fueron jaleadas por los seguidores del grupo juvenil Académica de Oporto. Sentía especial predilección por el corredor Mamede, especie de Curro Romero del maratón, atleta genial y emperador de la espantada.
Programas deportivos y pocos más eran los que Zeca veía en televisión, un medio al que siempre tuvo en su punto de mira y al que ridiculizó en memorables canciones como Acupuntura en Odemira.
Durante los últimos años de vida, en su casa de Vila Nogueira, en Azeitao, cuando la atrofia muscular, que acabaría produciéndole la muerte, hacía mella en él, manteniendolo postrado en cama, Zeca se resistía a ser un televidente pasivo.
Hasta el último momento mantuvo una entereza y lucidez inusitadas; no se puede evitar el escalofrío y la emoción al recordarle frente a una mesilla repleta de pastillas de todas clases y colores, haciendo un esfuerzo para tomar una taza de café sin ayuda de nadie. Aún más, escuchando los versos de la impresionante Canción de la paciencia, incluida en el compendio Como se fora seu filho, que dice, entre otras estrofas, que Muchos soles y lunas nacerán,/ más olas en la playa romperán,/ ya no tiene sentido tener o no tener/ vivo con mi odio a mendigar./ Tengo muchos años para sufrir,/ más de una vida para andar,/ bebo la hiel amarga hasta morir./ Ya no tengo pena, sé esperar.
La puerta de entrada a su casa de Vila Nogueira, pueblecito situado entre Lisboa y Setúbal, tenía un cartel muy elocuente: Nao ao ley fascista da segurança. En su interior, multitud de detalles, cuadros y carteles alusivos al 25 de Abril dejaban claras sus inalterables posiciones políticas. Zeca Afonso nos dijo que “a mí me curaría de verdad otro 25 de Abril. Acabaría con todos mis problemas y dolencias. Lo peor de mi estado actual es ver cómo la situación política y social se deteriora cada vez más, sin poder contribuir a cambiar la inercia con todas mis fuerzas. De las conquistas del 25 de Abril sólo quedan algunas pequeñas libertades formales, cada vez más restringidas”.
Su domicilio fue centro de reunión y punto de referencia para mucha gente. Amigos de Portugal, de España y Francia se acercaban constantemente hasta aquel pueblecito, en la comarca de Azeitao, donde residía José Zeca Afonso, para verle, hablar y estar junto a él. También un grupo de niños del colegio local de diez o doce años, que editaba el periódico contra la dirección del centro, tenía instalada en casa del músico su infantil redacción.
Licenciado en Filosofía e Historia, José Zeca Afonso fue profesor de instituto hasta 1968, fecha en la que lo inhabilitan para ejercer cualquier puesto docente, como una represalia política. Hasta el año 1983 no se le reconocieron de nuevo sus derechos. Al morir, Zeca Afonso cobraba 30.000 pesetas mensuales de pensión. Entonces, era su único ingreso. Su productor musical, Arnaldo Trindade, quien le bautizó como el papa de la canción portuguesa, en símil poco afortunado, no le pagó nunca sus derechos de autor.
José Zeca Afonso comentaba con cierta amargura la gran desbandada de muchos antiguos progresistas portugueses, conocidos suyos, hacia posiciones cercanas al poder político y económico.
“Muchos se han vendido por un plato de lentejas y han justificado su actitud diciendo que estaban desencantados. Me gustaría saber de qué pueden estar desencantados, si aquí no se ha producido ninguna revolución. Lo que estamos viviendo es una contrarrevolción. Si hubiese cambiado algo, y no estuviesen de acuerdo, lo entendería. Pero este no es el caso. Ese desencanto no es más que una justificación para los que nunca han estado encantados y para todos esos traidores”.
Al realizar el menor acercamiento a la figura de José Zeca Afonso, resulta inevitable recordar, con todo el cariño del mundo, a Zélia, su entrañable compañera, mujer de una dimensión humana excepcional, e irrepetible, como José Zeca Afonso; junto a un nutrido grupo de amigos, Zélia impulsó la creación de la Associaçao José Afonso, con la pretensión de dar a conocer, en sus multiples facetas, el papel histórico de José Afonso y también su personalidad militante, como promover la difusión de toda su obra y contribuir a salvagaurdar su integridad y calidad, además de crear un centro de documentación sobre la vida y obra del artista portugués.
A pesar de haber concebido piezas ya clásicas, Zeca Afonso siempre fue muy autocrítico: “Me he dedicado durante años a componer canciones en condiciones precarias, más preocupado por conseguir una comunicación fuerte y por actuar políticamente, que por perfeccionar todo lo que yo quería de mi trabajo. He sido bastante cuidadoso y exigente pero, lógicamente, siempre he estado condicionado por mi intención propagandística”.
Siempre se manifestaba en contra de la denominación de canción protesta para con su obra: “El músico es quien protesta, no la canción”. Por eso mismo insistiría en la necesidad del claro compromiso ético de artista, o trabajador del arte, como él siempre decía.
Fue pionero en la reivindicación de las corrientes musicales africanas, y la influencia de aquellos sones está presente en toda su obra. También en esto se adelantaba a su tiempo. Canciones maestras, como Ailé, Ailé o Un homem novo veio da mata son elocuentes muestras. El elaborado lirismo de sus temas no dejó nunca lugar a la tibieza en el mensaje: tu muerte, pintor,/ reclama otra muerte igual,/ sólo ojo por ojo/ y diente por diente vale. Canta en A morte saiu à rua, un precioso y dramático tema dedicado a José Días Coelho, pintor y escultor comunista asesinado a tiros por la policía política de la dictadura salazarista (temible PIDE portuguesa, hermana de la BPS franquista), de día y en plena calle. En el Cantar Alentejano, una bella y sentida creación dedicada a la campesina antifascista Catarina Eufemia (embarazada cuando la asesinó un teniente de policía, con tres disparos a bocajarro), el mensaje es similar: Quien vio morir a Catarina/ no perdona a quien la mató.
José Mario Branco nos relataba, emocionado, cómo se realizó la grabación del tema, en un estudio francés: “El sistema de grabaciones hacía que, desde el principio de esa tarde, fuese el momento que debía grabar “Cantar Alentejano”; ¿vamos a ello, Zeca?, le dije. Naturalmente, preocupado por la factura del estudio. ¿No tienes nada para ir metiendo?, contestó; se veía que todavía no estaba dispuesto; el alma de Zeca, me dí yo cuenta después, estaba toda en el Alentejo, en los ojos de Catarina Eufémia. Como tantas veces le sucedía, andaba por el estudio de aquí para allá, dando pasos nerviosos, como un joven león en su jaula. Hasta que, ya al final de la tarde, dijo: “Salgo fuera, para ver a las vacas” (el estudio estaba en una finca rodeada de campos). Desapareció una o dos horas. Cuando volvió ya era casi de noche: “Vamos a grabar a Catarina”. Zeca, en mitad del estudio, solo y a oscuras, cantó. Una sola vez. Y esa es la que está en el disco. Nosotros, privilegiados espectadores, estábamos en la central técnica, todos llorando, incluido el técnico francés. “¿Consideráis que es mejor que cante esto otra vez?” “No Zeca, no. Está muy bien así”.
Actuó por última vez en directo en el Coliseu dos Recreios lisboeta, en 1983, precisamente el lugar donde, nueve años antes, “Grandola” se convirtió en un himno para la historia. Aquella velada quedó recogida en un disco vibrante, en el que José Afonso, canta, ya con ciertas dificultades, arropado por todos sus músicos y sus amigos más incondicionales.La enfermedad fue avanzando inexorablemente desde entonces hasta 1987, pero, a pesar de todo, compuso en este periodo temas para dos nuevos discos.
José Afonso Cerqueira dos Santos murió el 23 de febrero de 1987, con 58 años. Una multitud veló el cadáver en la capilla ardiente que tuvo lugar en el Club Naval de Setúbal, núcleo proletario del cinturón industrial de Lisboa, capital de la Revolución de los Claveles. Su entierro constituyó un último ejemplo: tras el féretro marchó primero el pueblo anónimo, coreando una vez tras otra sus canciones y enarbolando banderas rojas, simplemente, sin ningunas siglas, y claveles del mismo color; detrás, los gremios operarios, y por fin, enmascarados en el gentío, desfilaron algunos políticos que en vida de Zeca no se habrían atrevido a acercarse a él.
Muchos integrantes del sepelio iban de negro, a pesar de que Zeca había exigido que nadie se vistiera de luto por su muerte. Más de cien canciones, numerosos poemas, varios cortos de cine, media docena de obras de teatro y, sobre todo, aquel ejemplo de honestidad e integridad que constituyen su importante legado, junto a lo que supuso la Revolución de los Claveles.

Alfredo Disfeito

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Carlos Correia (Bóris)DiscografiaGrândolaTestemunhos
10/02/2006By AJA

«Grândola» gravada às 3 da manhã

Quando, naquela manhã de Abril de 1970, entrei no avião com destino a Londres, para gravar com o Zeca nos estádios da Pye, apenas sabia trautear alguns dos temas que, no conjunto, formariam o álbum intitulado Traz Outro Amigo Também.
De facto, a minha inclusão naquele trabalho tinha sido decidida poucos dias antes e por razões (como era hábito) um pouco fortuitas. O meu passado musical, muito mais ligado à guitarra eléctrica e ao rock (exercido em conjuntos «à Shadow» ou «à Beatle» como foram os HI-FI e os Álamos), tinha apenas uma única experiência na arca da MPP (Música Popular Portuguesa!) com o disco que tinha gravado com o Duarte e Ciríaco.
Assim, apesar de pouco credenciado para a tarefa, entrei facilmente nos temas e, recordo claramente, nunca receei falhar na sua execução em estúdio. Sei agora que esta confiança derivava directamente da universalidade da música do Zeca.
Acontecia-me afinal o que acontece quando contactamos com uma obra tão consistente como a do Zeca: parece-nos que já a conhecíamos há muito tempo e que, mais do que isso, ela já estava dentro de nós. Foi sempre assim com a música dele. Quando ele a expunha pela primeiríssima vez (às vezes ao telefone e a desoras) vinha a sensação inevitável de «eu já senti isto». E já. Só que o Zeca sabia traduzir tudo isso para um formato exteriormente inteligível.
À partida do aeroporto, a primeira surpresa: o Luís Filipe Colaço (homem da rádio, companheiro de Coimbra e ex-guitarrista dos Álamos), já dentro do avião, é chamado pelo comandante, mandado sair e retido em Lisboa pela DGS por dois ou três dias. Conseguiu juntar-se a nós em Londres, mais tarde, recorrendo sei lá a que expedientes para convencer os zelosos Pides da inocuidade da sua viagem.
À chegada, a segunda surpresa. A guitarra que, muito profissionalmente, levava sob o assento e sem caixa protectora, apresentava uma rachadela monumental que a tomava, para sempre, inútil.
Só os bons ofícios dos amigos que o Zeca tinha em Londres (o Zeca tinha amigos em toda a parte) permitiram arranjar uma guitarra decente para a gravação.
As sessões no estúdio começaram com o «Maria Faia» e com a delícia de trabalhar com uma máquina de 4 (quatro!) pistas. A abundância de meios técnicos, superiores aos que conhecíamos, foi inspiradora. Pude sobrepor várias faixas de guitarra, obtendo efeitos orquestrais que, na época, pareciam interessantes.
As onze faixas foram gravadas sem sacrifício em várias sessões diurnas, ao longo de duas semanas ponteadas por passeios pela grande capital que parecia, então, tão diferente do nosso meio natal.
Nos corredores alcatifados do hotel, o Zeca colocava a sua energia em demonstrações amigáveis de judo (modalidade que abraçara recentemente).
Dos muitos amigos que apareciam no estúdio para ver o grande autor-intérprete, como já era reconhecido, recordo o brasileiro tropicalista Gilberto Gil, exilado pela ditadura. Esteve presente na gravação de «Verdes São os Campos» e a introdução de guitarra – inventada na hora – teve a sua aprovação.
Terminado o trabalho e quando, já em Portugal, recebemos um exemplar do disco para avaliação, o Zeca reprovou-o por não gostar da mistura e deu instruções para esta ser feita de maneira diferente. Se havia (e havia) zonas em que o Zeca não fazia concessões, uma era de certeza a que dizia respeito ao ambiente musical das suas canções, especialmente se eram para colocar em disco.
Nos dois discos que gravei com ele, testemunhei esse perfeccionismo, inesperado num homem tão simples e que não era, de modo nenhum, um instrumentista, nem um conhecedor das subtilezas técnicas dos estúdios de gravação. Nem precisava ser.
Ainda conservo o protótipo rejeitado (um vinil). A venda do disco, editado pela Arnaldo Trindade, decorrera como era costume: um ou dois dias nas montras das lojas e, depois da proibição pela censura, clandestinamente e ao mesmo ritmo. Ficámos, provavelmente, a dever ao Sr. Arnaldo Trindade a edição de autores como o Zeca e o Adriano, em condições comercialmente tão adversas.
No ano seguinte – em Outubro/Novembro a minha segunda experiência discográfica com o Zeca. Aqui, já ele tinha ouvido as duas vozes portuguesas no exílio em Paris que traziam os sons novos que ele constantemente procurava. O José Mário Branco foi incumbido da direcção musical desse novo disco que viria a chamar-se Cantigas do Maio. Foi ele que enquadrou o Zeca num ambiente de trabalho bem estruturado e com o tacto humano adequado a não fazer o Zeca sentir-se engaiolado e artisticamente diminuído.A gravação decorreu num castelo-estúdio dos arredores de Paris e teve a colaboração (bem audível em algumas faixas) do Francisco Fanhais.
A direcção musical e a presença humana do Zé Mário Branco revelaram-se fundamentais para o bom sucesso do trabalho. O seu conhecimento do meio musical parisiense conseguiu trazer ao estúdio músicos de primeira categoria -como é o caso do percussionista Michel Delaport, com os seus sons indianos tão bem aproveitados no «Senhor Arcanjo».Foi aí que gravámos (em sessões, desta vez, nocturnas) o «Grândola» com o som dos passos obtido no exterior do castelo às três da manhã.A mistura final foi feita no estúdio e desta vez (abençoado Zé Mário) não foi rejeitada.Foi o meu segundo e último disco com o Zeca. A minha vida profissional afastou-me irremediavelmente do meio e só volto a vê-lo, anos mais tarde, no quarto de urna clínica em Coimbra. Já estava ferido de morte pela doença, mas pensava ainda em mais canções e tinha esperança.
Carlos Correia (Bóris)

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Rui PatoTestemunhos
10/02/2006By AJA

Ensaios na «Brasileira»

Conheci o Zeca nos meus 16 anos, tinha ele 33, já licenciado em Letras, a leccionar em Mangualde, mas aproveitando todas as folgas para vir a Coimbra, ansioso por mostrar aos amigos as suas últimas baladas.
Até essa altura, a sua actividade musical tinha sido, na década de 50 e princípio da de 60, a de um estudante com boa voz, que cantava no Orfeão e que, juntamente com o Rolim, Machado Soares, Goes, Levy Baptista, Lopes de Almeida, Portugal, Brojo e outros, se agrupavam para executar fados e guitarradas, actuando quer em espectáculos do Orfeão, quer em espectáculos da Tuna, quer em serenatas e, de vez em quando, para a gravação de um disco de fados.
Eu ouvi o seu nome, as primeiras vezes, ao meu pai que, como jornalista em Coimbra, fazia questão de viver intensamente a vida coimbrã, saltitando das tertúlias futrico-intelectuais para as académicas. E nestas últimas pontificava o Zeca, como o seu bom humor, com as suas permanentes distracções e com uma irreverência intelectual a que chamavam de «existencialista». Mais tarde, já com os meus 12 anos, ao tentar a minha sorte como aprendiz de fadista, acompanhando à viola rapazes da minha idade em guitarradas e fados, o nome do Zeca vinha à baila, a propósito dos fados que ele cantava como ninguém (os «Contos Velhinhos», «Aquela Moça da Aldeia», etc, etc.) e que nós tentávamos imitar no seu jeito de voz «caprina», como dizia o Menano. Mas em 1962, ano tumultuado em Coimbra, com a Academia envolvida numa das mais violentas crises estudantis, o Zeca, já cansado com aquilo a que chamou a «quinquilharia passadista do velho romantismo do Penedo», sempre que podia, vinha a Coimbra para sentir esse fervilhar das novas gerações.
Começa assim a sua fase de ruptura com aquilo que mais o tinha ligado até então à cidade, «o tanger dos bordões da viola, as casas de prego, as bicas nos cafés da Baixa e as arengas dos teóricos da bola».
Possuía, além disso, um profundo conhecimento do grave problema colonial, porque, além de ter em Moçambique muita família, fez algumas digressões com a Tuna e com o Orfeão às colónias. Era, também, um tempo de separação dolorosa com a mulher que lhe tinha dado os seus primeiros dois filhos.
É neste contexto de viragem, caldeada com muita angústia, que conheço o Zeca. A sua mudança deveu-se, no meu entender, ao seu amadurecimento intelectual, às profundas marcas deixadas pela desilusão afectiva, às mudanças do ambiente coimbrão, à desilusão dos primeiros anos de docência, às notícias de África e, muito principalmente, ao contacto com novos amigos como o Barahona, a Luísa Neto Jorge, o Luís Andrade, o Bronze, o Pité e tantos outros.
Ele vinha de Mangualde a Coimbra para mostrar aos amigos um outro tipo de música, sem o «espartilho da Guitarra de Coimbra» [com letra maiúscula no original], com uma grande liberdade rítmica e que necessitava apenas de uns leves acordes de viola para sublinhar o poema que era o mais importante da canção.
Assim nasce «Menino de Oiro», «Tenho Barcos, Tenho Remos», «Os Vampiros», «O Senhor Poeta», etc., ensaios muitas vezes feitos no segundo andar do Café Brasileira, ou em minha casa ou em qualquer República onde ele tinha o estatuto de «livre trânsito» quando vinha a Coimbra e necessitava de dormir.
Conseguiram-se os dois primeiros EP que tanto escândalo provocaram nos meus «amigos do fado». Foi considerado uma afronta à tradição. Mas os meios intelectuais e os meios operários de esquerda logo nos aproveitaram para saraus mais ou menos clandestinos. Zeca vai tentando o ensino, saltitando, depois de Mangualde para Aljustrel, Lagos, Faro, Alcobaça e de novo Faro.
Os ensaios eram poucos, feitos quase sempre nas férias. Foi a minha primeira oportunidade de conhecer o Algarve: em 1963, fiquei uma semana na sua casa, no n.º 68 da Rua Duarte Pacheco, em Faro. Partíamos de manhã com destino à ilha do Farol ou da Armona, de barco com a viola e uma ração de duas sanduíches e duas meloas. Quando eu não podia ir ter com ele, vinha ele a Coimbra à boleia ou então apanhava o comboio até à estação para a qual o pouco dinheiro que dispunha dava – «venda-me um bilhete de 60 escudos em segunda classe em direcção ao norte» -, fazendo o resto à boleia ou a pé e cá chegava cheio de fome, sem um tostão no bolso, e com um bornal com uma muda de roupa, alguns medicamentos e muitos livros.
Negociávamos, na altura, um contrato com a Rapsódia, que lhe desse alguma estabilidade económica. O Zeca pretendia quatro contos por mês e cinco por cento na percentagem das vendas. Mas partiu em Agosto de 1964 para África, sem conseguir esse «fabuloso contrato», mas feliz com o seu recente casamento com a Zélia. São dois anos em que semanalmente escreve para minha casa, com o remetente «caixa postal n.º 50-Beira», cartas repletas das suas próprias contradições, da sua instabilidade, mas cheias de notícias dessa África em ebulição. Terminavam sempre com o envio de abraços para o Serrano, Abílio, Rui Mendes e para toda a malta.
«Quero aí chegar a tempo de mandar rufar os tambores que para o efeito tenho ensaiados e ouvir o coro que ressuscitará o Lázaro do seu túmulo», escrevia ele em Março de 1965. E veio, pois em 1967 acabou por ser expulso de Moçambique por vários problemas com a administração colonial.
Volta e vai para Setúbal. Manda-me cassetes com as últimas músicas. Vou até Setúbal, de vez em quando, ficando aboletado na casa dele, na Quinta do Montalvão, lote 5-2.º esquerdo, com a Zélia e já com a sua terceira filha, a Joana, muito pequenita.
Mais dois LP e muitos espectáculos – Almada, Barreiro, Seixal, Vila Franca, Marinha Grande, etc., sempre casas cheias de gente de oposição ao regime da altura, muitos operários e estudantes, a PIDE a pairar e, por vezes, a intervir.
Entretanto, junta-se a nós o Adriano, o Manuel Freire, o Fanhais e outros que não me recordo. É bastante difícil avaliar o impacte que o contacto com figuras como o Zeca, o Adriano, o António Portugal, entre os 16 e os 20 e poucos anos, tem na formação da personalidade de um adolescente. Nessa altura, eu não tinha a noção da dimensão humana e intelectual desses amigos. O meu desgosto é ter tido uma fortuna enorme em ter amigos desse quilate e, na altura, sem a noção desse valor, não ter agarrado cada momento, deixando até, por vezes, que a memória me falhe e tantos momentos bonitos e ricos se percam.
A partir de 1968, devido à minha situação académica e à impossibilidade de o acompanhar ao estrangeiro para as gravações, deixo de ser o acompanhante habitual. Felizmente para o Zeca, pois assim conhece o Iglésias e o Bóris (Carlos Correia) que tocavam bastante melhor do que eu. Passo a vê-lo menos vezes, mas sempre que posso estou com ele para o acompanhar ou só para o ouvir. A última vez que pego numa viola ao seu lado e a seu pedido, foi no célebre espectáculo do Coliseu, pouco antes da sua morte.
Rui Pato

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Manuel AlegreTestemunhos
10/02/2006By AJA

José Afonso: De Coimbra até ao Sul

A voz que guardo dentro de mim não está gravada em nenhum disco: anda a cantar «contos velhinhos de amor, numa noite branca e fria», algures, em Coimbra.
Foi assim que conheci José Afonso, num Inverno de há muitos anos. Ainda se faziam serenatas, as raparigas agradeciam acendendo e apagando a luz três vezes e nós viajávamos pela noite dentro, «bêbados de coisas inextricáveis», como escrevia então Herberto Helder. Já a voz do José Afonso anunciava outras trovas, mas naquele tempo a Académica era ainda (foi-o sempre) a nossa dama, por ela sofríamos aos domingos no Calhabé ou nos campos do País onde chegávamos à boleia, de capa e moca, e sem um tostão no bolso. Até que um dia o Zeca resolveu partir para Marrocos. Conseguimos apanhá-lo a tempo, graças a uns ciganos nossos amigos. Mas a tentação do Sul já estava dentro dele. Ou talvez daquele azul de que fala Mallarmé e que era, de certo modo, a cor da sua voz. Ele era como a cigarra e precisava do espaço do Verão, Alentejo, Algarve, a planície, as areias e o mar. É preciso dizer que nessa altura já ele era distraído (nós dizíamos despistado). Uma noite estava a jantar em minha casa e de repente deu um salto na cadeira: onde é que deixei o meu filho? E lá fomos à procura. Mas o miúdo, habituado aos despistanços do pai, tinha ido tranquilamente do estádio para casa.
Tínhamos então grandes discussões. Eu já andava na militância política, o Zeca era, havia de ser sempre, um libertário em estado quase puro. Ainda se debatia a questão da arte e do empenhamento social e político do artista.
Teoricamente o Zeca era contra, mas as coisas foram mudando e quase sem darmos por isso todos nos fomos comprometendo cada vez mais. Foi primeiro o Decreto 40 900, contra a autonomia das associações e a resposta estudantil, com uma grande manifestação em Coimbra. E depois 1958, o general Delgado e aquele vendaval que varreu o País de lés a lés. Então o Zeca quis pegar em armas. Mas como?
Tivemos que recorrer às que tínhamos à mão: a poesia, a guitarra, o canto. A guitarra do António Portugal tornou-se de repente mais nervosa, experimentando novos ritmos e dissonâncias, e o Zeca aparece a trautear melodias estranhas. Até que saiu a «Balada do Outono». Foi uma iluminação. Assim como alguns poemas aparecem feitos, também aquela balada dava a impressão de ter estado sempre ali e de ter sido colhida no ar num dos momentos de distracção concentrada do Zeca. A canção de Coimbra não voltaria a ser a mesma, a música ligeira portuguesa também não. Aquela balada era nova e ao mesmo tempo muito antiga. Tudo estava nela: a tradição trovadoresca, os cantares de amigo, os romances populares. E também o espírito de um tempo de mudança.
Entretanto o Zeca partia para o Sul. E eu para Angola. Reencontrámo-nos no início de 1964, numa festa de recepção aos caloiros da Faculdade de Medicina no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Tinha eu acabado de regressar da prisão em Angola, estava com residência fixa em Coimbra, mas vim sem pedir licença.
Trazíamos a «Trova do Vento Que Passa». Cantou-a primeiro o Adriano, a seguir o Zeca, depois ambos. E acabámos em coro, na rua. Era assim, naquele tempo. As trovas e baladas tinham o ritmo da nossa inquietação, de uma luta, da nossa vida. E vieram o «Menino do Bairro Negro», «Os Vampiros», «O Coro dos Caídos». O Sul entraria na música do Zeca com o seu «Pastor de Bensafrim», o seu «Sol de Verão», Catarina, o Alentejo, a cigarra, o silêncio, o grande espaço, a sombra de uma azinheira e o calor da fraternidade. E depois a África, seus ritmos e seus tambores, na fase da maturidade. Vieram os exílios, as longas separações, as pequenas e grandes batalhas, o 25 de Abril, encontros, desencontros, reencontros. E a voz do Zeca sempre, a avisar e animar a malta.
Como os provençais da época de oiro, cuja lição Ezra Pound tão bem captou, José Afonso foi um grande trovador moderno, ligando de novo a poesia e a música. Desse modo renovou uma e outra e contribuiu para mudar a própria vida, como queria Rimbaud.
Foi um homem fraterno, despojado, por vezes até ao exagero. Mas era assim: um revolucionário franciscano, como lhe chamei, irritado por vezes com o seu desprendimento de tudo e de si mesmo. Talvez as sociedades não consigam suportar a força subversiva de um tal despojamento. Por isso o Zeca foi tantas vezes censurado. Por isso continua simultaneamente a encantar e a incomodar. Eu sei que gostariam de transformá-lo em álibi ou torná-lo inofensivo depois de morto. Mas não é possível. A sua voz está tão cheia de ternura que será irremediavelmente subversiva.
Como disse António Portugal: «Um homem cuja voz foi a nossa voz durante muitos anos e que ajudou a tomar possível o nosso encontro colectivo com uma identidade perdida e com um destino que hoje orgulhosamente assumimos.»
Talvez seja isso o que uns tantos não conseguem perdoar-lhe. Mas é com certeza por isso que ele continua a ser a nossa voz.
Manuel Alegre

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Paulo QueridoTestemunhos
08/02/2006By AJA

O músico

O músico que José Afonso foi é um tema que me deixa perplexo. Se eu disser Zeca Afonso!, toda a gente vai lembrar o Grândola Vila Morena. Alguns são capazes de se lembrar do Maio Maduro Maio. E mais alguns dos albuns dele dos anos em que era mais mediático (no sentido de aparecer nos media).
Mas isso é redutor. Desculpem: é de bimbo, mesmo. A obra musical e poética de José Afonso pode ser dividida em três períodos. O período do meio é de longe o menos importante da obra — apesar de ser infelizmente o que perdurou na memória colectiva de um país distraído.
Os primeiros albuns dele, ainda no tempo da ditadura, são obras primas. Ouvir, como eu estou a ouvir neste momento, De Capa e Batina, é mergulhar na História de Portugal dos anos 60. Nessa altura Portugal era um país rural e atrasado, sem classes médias, mergulhado na obscuridão por via do isolamento a que Salazar o conduziu (orgulhosamente sós — era, imaginem, o lema da altura). Os poemas de Zeca Afonso, sobretudo cantados por ele, reflectem a tristeza profunda e as angústias das pessoas.
Menina dos olhos tristes
O que tanto a faz chorar
O soldadinho não volta
do outro lado do mar
…
A lua que é viajante
é que nos pode informar
O soldadinho já volta
Do outro lado do mar
O soldadinho já volta
Está quase mesmo a chegar
Vem numa caixa de pinho
Desata vez o soldadinho
Nunca mais se faz ao mar
(in Menina dos Olhos Tristes, letra de Reinaldo Ferreira e música de José Afonso)
Cantado por ele, como um fado coimbrão, é de arrepiar. Espelha num instante — como nenhum livro sobre a guerra colonial é capaz de fazer — a crua realidade das meninas, senhoras e senhores desses anos em que as batalhas de Portugal para tentar manter as colónias esvaziavam o país quer de dinheiro quer de gente. Eram os homens novos que partiam para a guerra, deixando cá as namoradas, noivas, mães, pais numa permanente angústia. Milhares regressaram em caixões. Não havia família na “Metrópole” (Portugal continental) que não tivesse alguem no “Ultramar”, (as colónias), a dar o corpo às balas. Poucas famílias portuguesas terão passado os anos 60 sem a dor que é um jovem adulto morrer numa guerra.
Só quem viveu esses tempos sabe do que falo. As gerações mais novas NÃO precisam de passar por isso ou sequer de recordar. Mas ouvir e ler José Afonso é historicamente importante. É um pedaço da nossa História. É importante para a cultura portuguesa, mesmo que o Ministério da Cultura não pense assim. É só aí que quero chegar.
A revolução do 25 de Abril abriu um período extraordinário na criatividade e sobretudo no entusiasmo dos meios culturais. Tem hoje a Direita da blogosfera toda a razão quando se queixa do excesso cultural esquerdista da época. Visto daqui, de agora, é compreensível: era uma moda. É como hoje ir “às Docas”. É in (na altura não se usava a expressão). Ou como hoje blogar.
José Afonso participou activamente nesse período. Incansável, percorreu milhares de quilómetros pelo país fora com a guitarra às costas. O objectivo dele não era ganhar dinheiro com a música ou sequer ser famoso (no sentido big-brotheresco, ou warholiano que o termo hoje tem). O objectivo dele era levar às pessoas uma mensagem de esperança, de vida, de entusiasmo, porque os maus tempos (do fascismo) tinham acabado. Estávamos a construir um país novo (este, em que hoje vivemos) e as pessoas eram analfabetas: 37 por cento da população portuguesa não sabia ler e escrever. Através da música, Zeca chegava a elas. Passava a mensagem. Acelerava o processo de aculturação dessas massas ignorantes porque ignoradas.
A importância dele para a cultrura, nesses anos, foi menor. No sentido estrito apenas: é claro que foi grande, sobretudo por ele ter funcionado como um catalizador, uma autêntica pilha energética, que arrastava outros músicos e criadores criando um ambiente quase feérico na cultura musical portuguesa. De um sentido só, o revolucionário. Claro. Era a época.
Mais tarde, já cansado, já a revolução a esmorecer, já o país a solidificar, já a entrada para a então denomidada CEE (hoje União Europeia) às mãos de Mário Soares, já a democracia estabelecida e o capital a regressar, José Afonso voltou a ser um poeta do povo.
No seu último algum de originais (Galinhas do Mato, 1985) está longe do fado de Coimbra e da canção revolucionária. É porém ainda um baladeiro que reflecte o estado de alma de um país. Embora um tanto desfasado: o país era, por altura de 80, já o embrião do país de hoje, emocionalmente dividido ao meio. Zeca espelha um dos lados, o lado desiludido. O lado da Esquerda, a Esquerda desse tempo (hoje há uma nova Esquerda que já não vive de desilusões como está bem patente no Bloco de Esquerda e nos blogs como o Barnabé e o Blogue de Esquerda).
Ficam as dúvidas (ainda hoje as tenho, eu…) Como em Década de Salomé:
Estamos na Europa.
Civilizados
já cá faltava
uma maison
Pour la Patrie
plo Volkswagen
acabou-se a forragem
viva o Patron!
[…]
Aos grandes Super-Mercados
chega a cultura num bi-camion
Camões e Eça vendem-se
enlatados
lavados com “champon”
Acertou na mouche. Dos átrios das igrejas, dos salões de festas mal amplificados que lhes arruinaram gargantas (a ele e aos outros andarilhos de Adriano Correia de Oliveira a Sérgio Godinho, de José Mário Branco a Janita Salomé, de Vitorino a Júlio Pereira, de Né Ladeiras a Luís Represas, então um jovem muito jovem) das sessões de esclarecimento, dos comícios, da festa do Avante, a cultura foi passando para os super-mercados. Onde ainda hoje está. A massificação cultural, a amálgama, tem virtudes (que ele não cantou, embora eu suspeite que as detectou mas considerou menores face aos defeitos) e tem defeitos.
Na faixa Galinhas do Mato, do album homónimo, Zeca regressa à “sua” África e experimenta sonoridades novas. Seriam o seu caminho futuro não fosse a doença tê-lo levado dois anos volvidos. Aliás, esse album foi produto de uma gigantesca prova de amor prestada pelos camaradas de ofício: José Afonso, já doente, mal podia mexer-se e quase não cantava. Foram Júlio Pereira e José Mário Branco as traves mestras do album.
Pessoalmente considero históricos e fundamentais os primeiros albuns, até 1974, e os últimos dois albuns. Galinhas do Mato é uma obra experimental de um músico já acima dos sessenta, um recomeço, uma viragem, uma abertura, uma interrogação. Depois de ter sido um dos grandes cronistas do Portugal da segunda metade do século XX, foi isso que ele nos deixou antes de partir. Pela minha parte, agradeço.
Paulo Querido

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Paulo QueridoTestemunhos
08/02/2006By AJA

O Homem

Eu não tinha mais de seis anos. Era um Verão qualquer de meados de 60. Tínhamos uma casa na Praia de Faro, emprestada. A casa do Sr. Freitas — acabam de me recordar as minhas queridas irmãs. Havia um gira-discos a pilhas e candeeiros a petróleo. Eu vinha da água roxo, depois de horas incansáveis a mergulhar das pontes, com a Irmã Mais Nova. Eu não sabia nadar bem, mas usava braçadeiras insufláveis e com elas aventurava-me fosse para onde fosse, mesmo sem pé. À noite, depois do jantar, ouvíamos música. Otis Redding. Charles Aznavour. Coisas que os adolescentes da altura (os meus irmãos e primos) ouviam. E também Adriano Correia de Oliveira. E Zeca Afonso.
É a minha primeira recordação de José Afonso. Uns anos mais tarde, mas não muitos, lembro-me de estarmos na sala de estar e alguem toca à campaínha (coisa comum, vivíamos numa pensão). Subitamente o meu irmão corre a tirar do prato do gira-discos o 33 rotações que estávamos a ouvir.
Recordo-me lindamente da capa. Que não da música: eu teria uns 8, 9 anos. Perante o sururu, devo ter feito uma pergunta de puto e deram-me uma resposta básica, para puto entender: havia coisas que não se podiam ouvir, eram proibidas pela polícia, pela PIDE, e aquela era uma delas. Os porquês eram demasiado complexos para mim, muito puto. Mas aquilo encaixava em duas coisas: eu não gostar de polícias, porque o polícia de giro parava sempre os nossos jogos de bola na rua, e já ter ouvido nas conversas da tasca (tínhamos uma “casa de pasto” abaixo da pensão, é hoje um bar na famosa Rua do Crime, em Faro, que na realidade, irónica, se chama Rua do Prior) que havia um viajante (pensão e tasca eram frequentados sobretudo pelos caixeiros viajantes) que era informador da PIDE, fosse lá isso o que fosse, e o meu pai tinha ido responder qualquer coisa à PIDE uma vez. O meu pai era um homem absolutamente de Direita e cumpridor, embora houvesse coisas do Salazar que ele não gostava muito: não imagino porque terá lá ido.
A minha Irmã Mais Velha foi aluna do José Afonso em Faro, onde ele deu aulas. O meu Irmão também. Na então chamada Escola Industrial e Comercial de Faro. Ela recorda-se de um «mau professor, que faltava muito e era despistado. Não seguia o programa, falava de outras coisas». Certo e sabido era que por alturas de Abril ele ia faltar, pelo menos um mês. Os alunos sabiam porquê, recorda essa minha Irmã: «com o aproximar do 1º de Maio, a PIDE ia lá e engaioláva-o durante um mês».
O meu Irmão não partilha da mesma opinião dele como professor, talvez por ser já na altura mais politizado e, digamos, avançado que ela. Quando deixámos a Pensão Mirense (onde nasci) que foi a seguir pensão de putas e mais tarde o primeiro Lar de Estudantes da Associação da Universidade do Algarve (está à venda, decrépita, fica por cima do bar Ovelha Negra), surripiei a colecção “Vida Mundial”, onde ele se informava na altura. (Ainda tenho a capa do Homem na Lua.) Ontem o meu Irmão recordava, com alguma emoção, como o professor «usava os sapatos desatados». E «faltava para ir fazer as gravações em França».
Eu conheci José Afonso em circunstâncias muito diferentes. Muitos discos, prisões, revoluções depois. Em 1985/86. Conheci-o em circunstâncias no mínimo estranhas, num apartamento em Faro, na presença do então director do Tal & Qual, José Rocha Vieira, e do meu camarada jornalista Francisco Rosa, que tinha uma Dyane onde o Guilherme Silva Pereira fazia o Gagarine (sair por uma janela, passar pelo tecto e entrar pela janela oposta — em andamento). O Guilherme foi depois capa do Tal & Qual por causa duma cena qualquer. Era (acho que ainda é) uma figura controversa…
Zélia acompanhava José Afonso. Era um homem doente. Ajudávamo-lo a andar pegando-lhe por debaixo dos sovacos. Tinha um olhar absolutamente sereno. Conversava com brilho. Em voz pausada, por causa do esforço. Mas com inteligência e perspicácia.
Dias depois visitei-o na casa de Azeitão. Conversas soltas. Eu era personagem secundária no cenário. Lembro-me das estantes vergadas com o peso de centenas de livros. Conheci a Joana Afonso, filha dele (que entrevistei mais tarde para um pasquim chamado “O Rebelde” que foi percursor das revistas para adolescentes).
Lembro-me de um homem admiravelmente consciente da proximidade da morte e ainda assim um homem sereno, tranquilo. Forte. Estar junto de José Afonso era estar mergulhado numa paz activa, estimulante. Quando falava era um sábio. É essa a imagem que retenho dele: uma pessoa sábia, consciente das realidades do mundo, nada interessado em falar dele ou da doença, mas sim da actualidade. Com notável perspicácia, algum humor e um belo poder de antecipação das tendências sociais e políticas.
O José Afonso que eu conheci não é o Zeca Afonso comunista, não é o Zeca Afonso perigoso revolucionário, não é o Zeca Afonso maldito, aparentemente malquisto e incómodo, até hoje, à Esquerda e aos partidos que ajudou dando a cara por eles, mesmo que não lhes pertencesse (o José Afonso nunca pertenceu a nada senão à cultura portuguesa e ao povo português). Era uma pessoa que dava gosto conhecer, com quem dava gosto estar e conversar. Um pessoa de bom fundo e carácter vincado com opiniões sábias e nada extremas, bem pelo contrário.
Este “meu” José Afonso não tem também nada a ver com a “malta de Esquerda” desses tempos que, em período final do cavaquismo, desistiu de lutar pelos seus ideiais. O capital é mais forte, desisto: onde está o bom emprego, onde posso ir beber uns copos? O “meu” José Afonso, não fora a doença, teria continuado a lutar pelos seus ideais noutro palco. Um palco qualquer. Um palco onde ele fosse preciso. Há menos de um ano tive o grato prazer de conhecer alguns dos que não desistiram. Continuam a luta nos foruns prisões, associações, escolas, etc a defender os direitos individuais, a sensibilizar e educar as pessoas nos seus direitos e deveres. Quando conheci o António Pedro Dores lembrei-me do José Afonso e de pensar: é a mesma força. Há gente que não desiste de ser melhor e fazer os outros melhores. Ainda bem.
Paulo Querido

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AJA NorteImprensaNúcleos AJA
03/02/2006By AJA

Sacos para o pão com Zeca Afonso

Para assinalar aniversário da morte, panificadora e biblioteca lançam campanha cultural direitos reservados

Nos dias 24 e 25, haverá um espectáculo de homenagem a Zeca Afonso, que durará 30 horas

A empresa de panificação Pavico e a Biblioteca Raul Brandão, de Guimarães, voltam a unir esforços para uma nova campanha. Em Fevereiro, para assinalar a data da morte de Zeca Afonso, vão ser lançadas 100 mil embalagens de pão, em papel, com dados sobre a vida e obra do autor de “Os vampiros”.

As embalagens serão usadas nos vários postos de venda daquela empresa, no centro e periferia de Guimarães. A campanha “Pão com sonho” consta de uma biografia do cantor e letras das canções “Menino d’oiro” e “Utopia”, inscritas nas embalagens.

Francisco Fidalgo, da Pavico, sublinha que as campanhas “surtem efeito, porque reforçam a imagem da empresa” e, também, porque “já têm um público fiel, que pergunta pela próxima iniciativa”. A campanha “Pão com sonho” surge na sequência de outras resultantes da mesma parceria. A primeira surgiu em 1996, “Pão com livros”. Seguiram-se “Pão com poesia”, em 1997, “Pão com liberdade”, em 1999 (evocação dos 25 anos do 25 de Abril) e “Pão com Teatro”, em 2002.

Esta é uma das iniciativas de um amplo programa de homenagem ao cantor, promovido pela Associação José Afonso. O ponto alto é um mega-espectáculo, nos próximos dias 24 e 25, no Centro Cultural de Vila Flor, com duração de 30 horas

Joaquim Forte
Jornal de Notícias, 2006/01/02

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