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Author: admin-aja
Home admin-aja Page 5
BiografiaDiscografiaImprensa
01/07/2014By admin-aja

Zeca Afonso: O génio que não sabia afinar a viola

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Homenagens e tributos
04/04/2014By admin-aja

Vhils esculpiu rosto de Zeca Afonso…

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BiografiaGrândolaTestemunhos
24/04/2013By admin-aja

Zeca Afonso e Grândola Vila Morena…

Zeca Afonso passou pela Estudantina de S. Domingos de Rana antes do 25 de abril. Atraves de testemunhos de Arnaldo Trindade, José Jorge Letria, Jose Manuel Tengarrinha, Tozé Brito e José Rodrigues, recordamos esses tempos da censura e a escolha de “Grândola Vila Morena” para ser a senha da Revolucao.

Reportagem: Laís Castro e Ana Laura Imagem e Edição: Ana Laura

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DiscografiaGrândolaImprensaNo verso dos versos
20/02/2013By admin-aja

Grândola, a caminhada de um poema

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DiscografiaGonçalo Frota
01/05/2012By admin-aja

O disco fraterno

Até 1971 e José Afonso entregar-se nas mãos de José Mário Branco – regressando de França com uma obra-prima na mala -, esta que se segue não era exactamente uma questão. O percurso de José Afonso era um somatório de experiências no sentido da consolidação de uma linguagem própria, primeiro soltando as amarras que temporariamente o haviam prendido a Coimbra, depois avançando com timidez para uma canção de magnetismo suficiente para atrair a música africana e as músicas populares portuguesas. Mas depois de Cantigas do Maio, de uma construção musical ambiciosa e sofisticada, e de um feito prodigioso para a história da música deste país, o caminho bifurca-se: passa a haver um Zeca Afonso do palco e um José Afonso do estúdio.
Nas suas actuações, Zeca far-se-ia sempre acompanhar por um viola e pouco mais, reduzindo a sua música ao osso, a uma função eminentemente política e a uma extensão da fraternidade – as canções como prolongamento de uma partilha maior de valores, lutase e crenças. Daí que, em 1972, quando avança para a gravação de Eu Vou Ser Como a Toupeira, o músico pareça querer recuperar igualmente essa ideia de espelho fiel: olha-se o estúdio e vê-se o palco. Ao contrário do que acontecera em Paris com José Mário Branco, aqui não há músicos de sessão, há antes uma convocatória distribuída entre amigos e companheiros de estrada portugueses e galegos. José Jorge Letria, que muitos palcos partilhara já com Zeca, foi um dos que seguiu para Madrid. As suas palavras caem dentro dessa definição: “Creio que ele procurava um compromisso entre o total improviso do palco e a rigidez planificada do estúdio de Hérouville. Para ele o clima era este – trabalho de grupo. Ele era um obcecado com o colectivo porque queria sempre diluir o seu protagonismo natural e legítimo. Ele era mais um. Era um companheiro, um camarada, um militante de base”.
A decisão é, de facto, levada quase até às últimas consequências. Em Eu Vou Ser Como a Toupeira a ficha técnica não nos diz quem tocou o quê. O “trabalho de grupo” varre para debaixo do tapete os protagonismos, as maiores contribuições e esconde também quem, na verdade, mal deixou a sua marca no disco. Há uma recusa de hierarquização. A obra colectiva é, no entender de José Jorge Letria, “uma expressão política do pensamento político” de José Afonso. Ele que subia a um palco e anunciava “Eu não sou um cantor, sou um animador”, ele que subia a um palco e declarava “Eu não faço espectáculos, faço sessões populares”, ele que olhava para as salas onde era convidado a actuar como “tribunas de comício” e para os concertos como “actos essencialmente políticos e não tanto artísticos”. Letria e Fanhais andavam com ele “numa roda-viva, sobretudo nas zonas operárias, desde os estaleiros de Viana até à Marinha Grande e ao Alentejo e Margem Sul”. Nessa altura, no período chamado “pós-Zip” – pós-69 -, actuavam juntos três e quatro vezes por semana.
Depois desses concertos, não raras vezes, Zeca acabava a pernoitar em casa de Letria, para os lados da Avenida de Roma, Lisboa. Foi nesse contacto mais íntimo e longe dos ouvidos indiscretos que o seu companheiro de tantos palcos tomou contacto com o método de composição: “Ele normalmente ia a trautear, a assobiar as canções e então precisava urgentemente de um gravador que tivesse ali ao pé para assobiar, trautear, registar uma estrofe ou duas”. “Depois”, acrescenta Carlos Alberto Moniz, “enchia a cassete, virava o lado, aquilo acabava e virava outra vez – chegava a levar quatro banhos de música e, claro, ia apagando as primeiras ideias”. As canções eram depois construídas em torno
dessa referência melódica base.
O ambiente de pouca planificação atravessa a semana de gravação nos Estúdios Cellada.
As músicas, segundo recordava José Niza, eram alinhavadas de véspera, no hotel, e levadas para estúdio sem uma forma final muito rígida. Os ensaios, lembra, Moniz, nunca foram algo que Zeca apreciasse especialmente. Tanto que o grupo chega a encontrar-se antecipadamente com o galego Benedicto Garcia em Setúbal, mas apenas “dois ou três dias antes” da partida para Madrid. Moniz conta até que, nessa mesma altura, e antes de um concerto importante na Fête de l’Humanité, em Paris, no mesmo palco por onde passariam Mikis Theodorakis ou Leonard Cohen, tinham passado uma semana na Fuzeta para ensaiar. Mas os ensaios acabavam sempre empurrados para fora dos dias. “O Zeca punha o seu kimono e íamos todos correr para a areia primeiro, antes de ensaiar. Como
pessoa talentosa que era, inventava tudo para não ensaiar. Corríamos na areia, ele ensaiava os passos de judo e depois à noite, antes do ensaio, era capaz de vir dizer ‘hoje dá ali um filme bestial’. Eu a pensar que era um Truffaut ou um Renoir e era um filme de kung fu. Mas íamos todos ver o kung fu e, no final, ele dizia ‘Bestial, agora que a gente descomprimiu o ensaio vai correr bem’ e ensaiávamos às tantas”.
A maioria dos músicos vai chegando de comboio à capital espanhola e ao grande apartamento que Arnaldo Trindade lhes alugara na Torre de Madrid -arranha-céus numa das principais artérias da cidade -, enquanto Zeca parte com Carlos Alberto Moniz e a sua mulher Maria do Amparo num dois cavalos vermelho. Para Letria, “ele percebe com o José Mário que há um horizonte orquestral que tem de aproveitar e que vai enriquecer a sua música. A partir desse momento acaba o clima de happening que caracteriza as gravações dele. Mas, apesar de tudo, o Eu Vou Ser Como a Toupeira ainda é marcado por esse clima, uma situação em que chegamos ao estúdio e nada está pré-programado”. Até por isso, Letria chega a pôr-lhe a questão de não ser “propriamente o instrumentista que Zeca
precisava de ter”, alguém como fora Bóris até aí e seria Yório Gonçalves daí em diante, na posição de guitarrista-âncora.
Só que o espírito que atravessava os vários quartos do apartamento conservava ainda “um ambiente de euforia colectiva que tinha muito de república coimbrã, daquela Coimbra académica, boémia, conspirativa”. À noite fazia-se o brainstorming em torno das canções, procedia-se a uma distribuição de funções e papéis – “amanhã avançamos com esta, tu tocas esta guitarra, tu tocas aquela, tu fazes a percussão” – e iam-se juntando ideias voadas de todos os lados, dando sustento e corpo à ideia de criação colectiva. A presença dos músicos galegos nesse grupo adquiriria uma dimensão simbólica – o papel de Benedicto (do grupo Voces Ceibes), Pepe Ébano ou Maîte é, ao contrário do de Carlos Villa, de uma diminuta relevância musical, fortificando e oficializando sobretudo a relação próxima com aquela região. Ainda hoje, de resto, José Afonso é celebrado na Galiza como um dos seus.
Mas de onde vinham estes dois pilares – José Jorge Letria e Carlos Alberto Moniz – com quem nunca tinha gravado antes? “Ao Zé Letria que também sofre de azia” – assim se lê na dedicatória que lhe faz de um poema escrito em Maio de 1973 na prisão de Caxias – conhecera-o em 1968, recém-regressado de Moçambique, num convívio universitário da Faculdade de Direito de Lisboa. Como também ele era um fazedor de canções em português, rapidamente integrou o pequeno grupo dos cantores de intervenção. Moniz, chegado dos Açores para estudar Agronomia, apresentava-se sempre na primeira fila das noites organizadas pela associação de estudantes no anfiteatro da sua faculdade, de guitarra descansada no colo, à espera que alguém desse por ele e o chamasse para o palco. Esse alguém foi Adriano Correia de Oliveira. “Não és tu o puto dos Açores?”. Moniz soltou um tímido “Sou”. “Então amanhã temos gravação”. Na gravação, de temas tradicionais açorianos, conheceu Zeca que com o mesmo desprendimento o informa: “vais tocar comigo também”. O terceiro pilar, José Niza, era um velho conhecido que acompanhava desde as digressões da Tuna Académica de Coimbra em 1958.
A partir daí, chegados ao estúdio, era sobretudo o instinto musical de Zeca que guiava o grupo, que seguia atrás de si. Na descrição de Letria “havia ali uma grande imprevisibilidade e um grande improviso, mas que correspondia a uma coisa em que todos acreditávamos muito que era uma intuição apuradíssima que ele tinha. Às vezes parecia uma coisa pouco sustentada e até ridícula, mas aquilo correspondia sempre a uma coisa estruturada, profunda, sentida, porque ele era realmente um génio musical. Nas palavras não mexia; agora, não cantava duas vezes a mesma coisa da mesma maneira”. O resto, na verdade, estava em permanente mutação, até porque os períodos de estúdio eram de grande ansiedade e nervosismo para José Afonso – que podia perder-se (nos seus passeios pela cidade ou em idas ao cinema), ter uma crise a que chamava “uma pedra no diafragma” ou outro acontecimento inesperado. Gravar, acredita Letria, era para Zeca “um martírio”. E só o fazia, acredita ainda, para justificar o adiantamento de Arnaldo Trindade.
Na verdade, acredita ainda mais um pouco, não sentia necessidade de registar as canções.
Apesar disso, era exigentíssimo, destoando em grande escala do comportamento tipo que estamos habituados a associar aos músicos mais canónicos: “estão sentados, a ouvir, não querem barulhos, sentados à frente da mesa de mistura e absolutamente concentrados”.
“O Zeca não”, ressalva. “Era um peripatético, andava permanentemente em circulação, de mãos nos bolsos, e tanto andava na régie como no estúdio. Mas com uma atenção permanente e total. E portanto vinham-lhe umas centelhas, umas iluminações, umas sugestões e isto mudava tudo”. Um desses momentos iluminados aconteceria quando, à procura de um som de percussão que não conseguiam encontrar, Zeca ouviu às tantas Niza num momento de pausa na régie a mastigar um bocadillo de presunto e percebeu que era esse o som que procurava, gravando-se então José Niza a comer com microfone cuidadosamente apontado à sua boca. Essas centelhas, no entanto, exigiam frequentemente aos instrumentistas uma descodificação em que importava uma sintonia mais poética do que propriamente musical. Segundo Moniz, “o Zeca conseguia transmitirnos o que queria, como os publicitários quando querem um jingle, dizendo coisas como ‘queria assim um som castanho, com um ataque entre o ferro e o bronze’. E a gente conseguia”.
Daí que as canções tenham chegado ao estúdio de Cellada não com uma forma final, fechada, mas antes em aberto, erguendo-se a partir dos esboços preparados mas abertas para as ideias em resposta àquilo que ia ficando cravado no esqueleto de cada tema. Um dos exemplos perfeitos deste método terá sido “No Comboio Descendente”, música sobre poema de Fernando Pessoa, congregador de uma série de palpites, sugestões e ideias que tornaram o seu registo especialmente sinuoso. Letria lembra igualmente “Ó Ti Alves”, com um forte cunho de Carlos Alberto Moniz, e que se socorre de parte de um pregão como tentativa de Zeca “aproximar-se o mais possível do clima de algumas canções numa perspectiva neo-realista dos sons que ouvira em África na infância ou mesmo mais tarde”.
Esse cunho, ressalva Moniz, faz de Eu Vou Ser Como a Toupeira um disco algo irregular, a que – para o bem e para o mal – falta “uma unidade nos arranjos”. Num tema é o cunho de Moniz que sobressai, noutro é o de Benedicto, noutro ainda é o de Niza, etc. Um dos temas que, curiosamente, não levantou dificuldades de maior foi aquele que serve de arranque ao álbum: “A Morte Saiu à Rua”. Na verdade, o problema com a canção fora anterior à partida para Madrid. Tentando ludibriar a censura, e depois de lhe perceber as manhas, José Niza pede a Zeca Afonso que o municie de poemas propositadamente mais carregados politicamente que não estão sequer previstos seguir para gravação. Servem apenas de manobra de distracção preparada para saciar a sede de cortes dos censores, preservando intacto o grupo de canções originalmente pensado para as gravações. No caso de Eu Vou Ser Como a Toupeira acontece que “A Morte Saiu à Rua”, tema-charneira do disco, é censurado num primeiro momento. Niza convida então o ex-coimbrão Pedro Feytor Pinto, ligado à censura, para um almoço no restaurante A Varanda do Chanceler. O acordo de cavalheiros entre ambos solta o tema e permite que todos aqueles que faziam parte do plano de gravação passem incólumes, sem riscos feitos a lápis azul.
E passou também, naturalmente, o tema que baptizou o álbum. Em entrevista ao próprio José Jorge Letria, então jornalista no República, Zeca reconhecia ter de se fazer modelo das toupeiras. Havia que “abrir galerias subterrâneas, ir rasgando caminho”. A canção, por muito bonita que fosse, não podia ser mero adorno.”

Gonçalo Frota, Maio de 2012*

* Texto escrito a propósito da reedição da obra de José Afonso pela editora Art Orfeu.

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Testemunhos
23/02/2012By admin-aja

José Afonso é de todos e não pertence a ninguém.

Sempre foi difícil vê-lo por inteiro, com a carga de símbolo da resistência a sobrepôr-se ao músico. 25 anos após a sua morte, continuamos a ver mais o homem político ou já vemos melhor o génio musical?

As iniciativas sucedem-se e continuarão a suceder-se. A data redonda potencia a homenagem. 25 anos. Um quarto de século sem José Afonso. Desde o início da semana decorre em Coimbra o ciclo Zeca Afonso – O rosto da utopia, que encerra hoje, no Café Santa Cruz, com uma tertúlia. Em Lisboa, a Associação José Afonso promove um espectáculo em que participarão Francisco Fanhais, Zeca Medeiros ou os Couple Coffee, na Academia de Santo Amaro, em Alcântara. E em Abril, a reactivada editora Orfeu iniciará a reedição da sua obra e em Braga, no Theatro Circo, o Canto D”Aqui celebra hoje e amanhã o legado de José Afonso e Adriano Correia de Oliveira, sobre cuja morte passam este ano três décadas.

Os espectáculos no Theatro Circo são obra de uma nova associação, chamada Amigos Maiores Que O Pensamento. A primeira frase do seu manifesto, exclamativa, é a seguinte: “Tempos de borrasca invadem-nos a alma!” E, em tempos de borrasca, continua o texto, precisamos do exemplo de Zeca e Adriano: “Há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não.”

É um José Afonso militante, símbolo da revolução do 25 de Abril, que ali sobressai: órfãos dele, precisamos de resgatar o seu exemplo. Mas precisará José Afonso e a sua obra desse resgate? 25 anos após a morte, o que resiste? O que fica da sua música, o que fica da sua humanidade vida fora? Falamos com Vitorino, que com ele conviveu e dele tanto bebeu na sua formação, e ouvindo músicos de uma geração posterior, com Tiago Sousa, autor de música instrumental, na tangente entre o erudito e o improviso jazz, que, à primeira vista, poucos pontos de contacto terá com José Afonso, e com Pedro Silva Martins, compositor nos Deolinda, que descende directamente da sua tradição. Sobressai a complexidade de alguém que não pode ser compartimentado.

Simplificar José Afonso é diminuí-lo. Para o ver realmente temos que o abraçar na sua totalidade. Citamo-lo: “Às vezes apetece-me acordar a chamar-me, por exemplo, António Silva Fragata Qualquer-Coisa Smith, a viver numa situação diferente, noutra terra, e não me habituar à minha personalidade, pública ou privada. Mas isso é cada vez menos possível: a gente agarra-se a uma carcaça, à biografia que nos atribuem, e ficamos indissoluvelmente ligados a isso.”

O que podia ter sido não é para aqui chamado. Não sabemos o que podia ter sido porque isso seria darmo-nos importância demasiada. Seria julgar que poderíamos continuar uma narrativa predefinida quando o homem independente que a construiu já não está entre nós.

O génio modesto

José Afonso morreu às três da madrugada de 23 de Fevereiro de 1987, em Setúbal, onde morava. O seu corpo cedeu por fim à esclerose lateral amiotrófica que o consumiu. Desaparecia aquele que será, porventura, o músico português mais importante do século XX. Desaparecia o génio modesto que foi cantor por, dizia ele, ter sido proibido de dar aulas durante o Estado Novo. Erguia a voz em denúncia das injustiças, desigualdades e atrocidades da ditadura (e das injustiças, desigualdades e atrocidades que se mantiveram em democracia) porque, muito simplesmente, um cidadão, seja ele cantor ou sapateiro, não pode fechar os olhos à realidade que o rodeia.

O que podia ter sido esse homem que contaria hoje 82 anos neste país e nesta Europa a viver uma profunda crise de tudo não é para aqui chamado. Não temos esse desplante. Para mais, quando há uma vida e a obra que a vida foi deixando com tamanha riqueza. Para mais, quando essa vida, biografada e recuperada a cada novo número redondo passado sobre a sua morte, continua a ser algo que não conseguimos abarcar totalmente.

José Afonso, nascido em Aveiro, descoberto cantor na Coimbra universitária, andarilho pelo Alentejo, pelo Algarve, pelo Douro ou pela Beira moçambicana, não é dado a simplificações. Não pode ser simplesmente o homem de cravo erguido cantando Grândola Vila Morena, não pode ser simplesmente o grande cantor que entoa Menino d”Oiro, oferecendo a canção à memória popular que não regista autoria. Perante a dificuldade em encarar o complexo, é fácil encontrar socorro no cliché. Mergulhando nos textos que se foram escrevendo até uma década após a sua morte, duas ideias surgem de forma recorrente. Que seria necessário passarem algumas gerações até conseguirmos olhá-lo de forma distanciada. Conseguiremos agora? Que era imprescindível recuperá-lo para as novas gerações, que já não o ouviam, que o desconheciam. Ouvirão agora?

Por inteiro

Vitorino, Tiago Sousa e Pedro Silva Martins são unânimes num ponto. José Afonso foi um marco absoluto na música portuguesa e deixou um legado inigualável. Vitorino começa por recordar a “ruptura” que fez em início de carreira num fado de Coimbra “que nunca mais evoluiu”. Aponta como foi, depois, responsável pelo início do “internacionalismo ao nível da música”, introduzindo “a música africana nas músicas ocidentais e dando pontapé de saída ao que se chama hoje world music“. Pedro Silva Martins não tem dúvidas: José Afonso “inventou a música popular portuguesa”. Teve a visão, “inédita até então”, de, “experimentando e inovando, olhar para aquilo que é Portugal e que é a música portuguesa”. E alcançar mais longe. Ou seja, pensar “o que poderia ser”.

Numa carreira que se estendeu desde o final da década de 1950 até 1985, data da edição do seu último álbum Galinhas do Mato, José Afonso foi músico em evolução e ruptura constante. A voz, de um timbre impressionante, aliou-se a uma força poética que irrompeu desde cedo. A música, a partir do momento em que colabora com José Mário Branco, em Cantigas do Maio (1971), ganha uma inventividade inaudita, com a abertura a novos instrumentos, com a riqueza do surrealismo de raiz popular a transbordar das letras para a música. E, depois disso, há as experiências rítmicas que levam jazz a padrões rítmicos minhotos, há África, que o marcou profundamente, a tornar-se indiscutivelmente sua.

Neste músico que não era propriamente um instrumentista de excepção – “tocava guitarra ainda pior do que eu”, sorri Vitorino -, tudo era vertido em música. “Era um homem extremamente culto nas Humanidades e tinha a fantasia delirante dos ibéricos, com paralelismo no realismo fantástico sul-americano”, aponta o cantor alentejano.

Aquela erupção de criatividade foi fundamental para a eclosão de uma das mais criativas gerações que a música portuguesa conheceu, a de José Mário Branco, Sérgio Godinho ou Fausto. E, nessa erupção de criatividade, estava inscrito o homem empenhado politicamente. O opositor do regime salazarista que, por isso, deu com as costas na prisão por mais de uma vez e que, naturalmente, viu a sua música censurada. O símbolo da resistência ao fascismo e, mais tarde, a voz do sonho revolucionário saído do 25 de Abril.

Durante muito tempo, essa dimensão sobrepôs-se à do músico – era sempre do político que se falava quando se falava de ou com José Afonso. “Essas coisas tendem ser sobrevalorizadas”, suspirava ele. Essas “coisas”, diz hoje Pedro Silva Martins, começam a ser desmistificadas. “A questão política foi, para o bem e para o mal, uma cruz que o seu legado carregou durante não sei quantos anos. Na nossa geração, talvez porque não vivemos e estejamos mais afastados daquela euforia política, conseguimos olhar para a sua música no seu todo e com uma visão descomprometida”.

Pedro Silva Martins não renega a relevância do comprometimento social no percurso de José Afonso, mas acentua que só podemos olhá-lo tendo em conta que “a personalidade artística pode ser independente da personalidade política”. Acolhendo-o na totalidade, há todo um mundo para aproveitar. A abrangência da sua influência é prova disso mesmo.

Um deus

As reedições que a Orfeu iniciará em Abril com Cantares do Andarilho (1968) e Contos Velhos, Rumos Novos (1969), que prosseguirá em Maio com Traz Outro Amigo Também (1970) e Cantigas do Maio (1971) e que se estenderá até Fura Fura (1979) – há a possibilidade de Fados de Coimbra e Outras Canções (1981) ser também abrangido -, serão acompanhadas de textos escritos por músicos cujas carreiras se iniciaram após a morte de José Afonso. Reúnem nomes tão diversos quanto a fadista Cristina Branco, o nosso interlocutor Pedro Silva Martins ou o rapper Valete.

Recuando uns anos, recuperamos uma entrevista ao Ípsilon em que B Fachada, nome incontornável da canção portuguesa da actualidade, exclama algo que muito desagradaria a um homem nada dado a pedestais: “Zeca é um deus”. Ao que acrescentou: “Mas é mais do que um deus interventivo, que isso não me traz grande efeito. A minha relação com ele é mesmo formal. Tem aquela coisa como letrista que praticamente não voltou a acontecer”. Ouçamos então, de seguida, Tiago Sousa. O pianista, autor dos celebrados Insomnia ou Walden”s Pond Monk e que assinou uma versão de A formiga no carreiro em (Re)Intervenção, álbum de homenagem editado pela Orfeu em 2010, vê na obra de José Afonso uma intemporalidade temática que reflecte na perfeição a actualidade. “Liga-me a ele a preocupação de fazer da música não só um aparelho espectacular de entretenimento” mas uma força “que tenta transformar a realidade em que vivem as pessoas”. Mantendo a independência do gesto: “Na minha opinião, o PCP absorveu-o para a sua narrativa, mas ceder a ela revela ignorância da obra. Como ele dizia “eu sou o meu próprio comité central””.

Vitorino recorda que com a morte de José Afonso se perdeu alguém que era um “aglutinador de amigos”, com quem se aprendia através do quotidiano, “naquele humor entre o Coimbrão e o surreal” que se manifestou até ao fim. “Tinha a capacidade de marchar ao lado do enterro.” E discorda com veemência dos que afirmam que a política em José Afonso obscurece o seu génio musical: “Sabe o que é que apaga o génio musical? É quererem pô-lo no cantinho do cantor. As ideias de esquerda são muito atacadas em Portugal porque o país é conservador, com uma direita sempre muito corrosiva e com poder nas unhas. Há um sentido redutor da sua obra por ele ser um homem da esquerda humanista que nunca se deixou embrulhar em partidos. Era, como todos nós, um homem com o coração à esquerda. Vermelho.”

Onde está então José Afonso? Em tudo o que se escreveu acima. Na absoluta singularidade do seu génio, na força das suas convicções, na sua humanidade desarmante. Tudo isso está na música. Como nos diz Tiago Sousa “ouvimos Zeca e reconhecemos Zeca, mas se utilizarmos soa demasiado a imitação. Há repercussões, seja em Sérgio Godinho e restantes contemporâneos, seja num B Fachada que vive do património que o Zeca usava, mas tentar melhorar aquilo que já foi feito é um acto inglório”.

Como resume Pedro Silva Martins, para criar algo de bom a partir de uma canção de José Afonso, “tem que se fazer próximo, e sendo próximo não será melhor”. Esse é o seu legado. Este: “Ouvindo a discografia toda, e ouvindo-a cronologicamente, compreende-se a evolução e o bichinho do génio a crescer com o tempo, com as viagens que fez, com a música que foi descobrindo, com o país que ouvimos desenvolver-se paralelamente [na música]”.

Numa entrevista a José Amaro Dionísio, publicada no semanário Expresso em 1985, José Afonso dizia: “Não me arrependo de nada do que fiz. Mais: eu sou o que fiz.” Na sua totalidade, foi imenso. E já conseguimos vê-lo como deve ser visto. Inteiro.

Mário Lopes, in Jornal Público, 23.2.2012

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“Pai, o Zeca morreu esta noite”

Para os mais velhos, os que em 1974 eram adultos, o dia em que Zeca Afonso morreu é um dia preciso. Lembram-se onde estavam e como souberam da notícia. Hoje, já se conseguem rir

a Apesar de ter sido amigo de Zeca Afonso, de terem frequentado a mesma tertúlia em Coimbra, cidade que o músico dizia ser um “caramujo” (“para onde quer que se vá, vai-se sempre ter à torre da universidade”), Abílio Hernandez (acima dos 60), professor da universidade, hesitou muito antes de aceitar o convite da Almedina Estádio – a livraria foi das poucas, se não a única, a organizar em Coimbra uma homenagem a Zeca Afonso nos 20 anos da sua morte (23 de Fevereiro de 1987).E Hernandez hesitou porque “tinha receio que estivesse muito pouca gente, que estivessem só velhos, e que fosse uma romagem de saudade”. Mas esteve muita gente na livraria de Coimbra, no sábado à noite. Jovens, de facto, apenas alguns.
Os jovens não ouvem Zeca Afonso? “É um cantautor muito conotado e é isso que faz com que não passe nas rádios. O Zeca é objectivamente censurado, apesar de hoje vivermos em liberdade”, diz José Jorge Letria (56 anos), também amigo de Zeca Afonso. Mas o músico acredita que os jovens “já se libertaram desse estigma”.
Para a geração que dominou a tertúlia de sábado, a geração que viveu o 25 de Abril já adulta, Zeca Afonso é uma das figuras artísticas mais importantes do século XX em Portugal. “Está para a música portuguesa como Jobim está para a brasileira”, diz Rui Pato (61), músico que tocou com Zeca Afonso.
Sentados à mesa, a desfiar memórias, a maior parte das vezes humorísticas, estiveram outros músicos que acompanharam Zeca, como Carlos Correia (também acima dos 60), figuras da resistência que actuaram com ele, como Manuel Freire (65 anos) e José Jorge Letria, e antigos estudantes de Coimbra que também conheceram Zeca, como José Mesquita (mais de 70 anos) e Abílio Hernandez.
Carruagem 3, lugar 7
Boa disposição não faltou. Falou-se do amor de Zeca Afonso ao judo e de como “estatelava” colegas no chão. “O Zeca era uma pessoa muito divertida. Tinha muitas obsessões. Uma delas era o judo, já era um perigoso cinturão amarelo. Quando fomos a Londres, o Zeca fazia os ensaios de judo no corredor do hotel vitoriano. As outras obsessões eram a música e a luta contra a ditadura”, contou Carlos Correia.
Rui Pato confidenciou à plateia como eram feitos os primeiros discos de Zeca Afonso: “Se eu vos disser, não acreditam. Vinha uma 4L com material do Porto. Levávamos uma carta dos senhorios para os caseiros analfabetos lerem, com autorização para gravar na quinta [a quinta do Mosteiro de S. Jorge de Milreu, actualmente propriedade da Universidade Vasco da Gama]. Estávamos em 1962 e, quando nos enganávamos, voltávamos ao princípio. Se passasse um carro, se se ouvisse uma galinha, voltava tudo ao início”. Durante muito tempo viajou “de borla” nos comboios de Portugal. Recebia postais de Zeca Afonso a combinar a hora, o dia e o sítio do ensaio. “Trate de preparar os dedos”, escrevia-lhe Zeca. Rui Pato levava sempre a viola, mesmo que não precisasse dela. “Punha-me na estação e vinha um senhor ter comigo e perguntava-me: “É o camarada Rui Pato? Carruagem 3, lugar 7.” E lá ia eu.” No meio de tudo isto, Rui Pato nem se apercebeu que estava a viver “um momento histórico da música portuguesa”.
A plateia riu quase sempre. Só quando se ouviu Menina dos olhos tristes se fez silêncio. Quando se começaram a ouvir os acordes do último espectáculo de Zeca Afonso na Queima das Fitas de Coimbra, em 1968, a sala mergulhou em tristeza. A gravação foi disponibilizada por José Mesquita, que sublinhou a importância de Zeca Afonso no fado de Coimbra.
“O Zeca era um grande poeta, indiscutivelmente”, defende Abílio Hernandez. “Era bom que se estudasse a poesia do Zeca, porque a sua lírica tem sido menosprezada, como se fosse apenas um veículo para transmitir um sentimento de resistência, que está na sua música. Mas o Zeca foi as duas coisas: músico e poeta.”
Contou Manuel Freire que, um dia, quando vinha do Canadá, encontrou o escritor Mário Zambujal e o músico Paulo de Carvalho no avião e perguntou-lhes por Zeca Afonso. Zambujal lamentou: “Acho que não se safa.” Manuel Freire tinha tido um acidente grave e, como a viagem fora atribulada e o avião desviado para Faro, mal pôde ligou à família para dizer que estava bem. Do outro lado, a filha mais velha respondeu apenas: “Pai, o Zeca morreu esta noite.” Passados 20 anos, os amigos do músico acreditam que a “memória do Zeca” se vai projectar sempre “no futuro”.

Maria João Lopes, in Jornal Público, 26.2.2017

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27/02/2006By admin-aja

O Zeca Afonso é o nosso Bach

Admiradores do cantor querem ver a obra
“fora do comum”
que ele deixou estudada em profundidade

Omnipresente, o espírito de José Afonso pairou, desde a tarde de sexta-feira até à madrugada de ontem, por todos os recantos do Centro Cultural Vila Flor, de Guimarães – até no parque de estacionamento se ouviam os discos do Zeca. No exterior, uma Chaimite e alguns soldados tornavam mais óbvia a relação umbilical com Abril. Debates, exposições, livros, filmes, documentários e, claro, muita música em dois concertos – com reminiscências do canto livre e dezenas de amigos em palco – atraíram mais de um milhar de pessoas (entre eles, três padres ou antigos sacerdotes) à homenagem que marcou os 19 anos da morte do cantautor. A canção, essa, continua viva. Aliás, ouviu-se dizer que foi dos maiores criadores universais, melhor do que os Beatles e só equiparável a Bach. Por isso, rompeu um clamor: “Estude-se o Zeca!”.
“Bach sintetizou tudo o que havia antes dele e reinventou o futuro. Depois dele, ninguém inventou mais nada. O Zeca Afonso é o nosso Bach”, sublinhou no debate o professor universitário Alípio de Freitas, ex-padre e guerrilheiro, companheiro de Che Guevara e precursor do Movimento dos Sem-Terra, a quem o cantor dedicou um tema quando ele era torturado nas prisões da ditadura brasileira. “Estudem-no profundamente, porque ele foi adiante de qualquer um”, exortou Alípio, num emocionado testemunho – em especial quando se referiu à canção que o ajudou a sair do cárcere e se tornou num símbolo da luta contra a opressão na América Latina.
O paralelismo entre José Afonso e os clássicos foi também estabelecido pelo crítico musical Octávio Fonseca – autor de livros sobre Carlos Paredes e José Mário Branco. “O Zeca utilizava compassos combinados, muito pouco usuais até na música erudita”, acentuou, no decurso de uma explicação técnica sobre a obra do cantor, ilustrada com temas em que a “linguagem metafórica é mais incompreendida”. “Poeta brilhante e melodista fora do comum com uma imaginação desabrida”, sintetizou o crítico musical, para quem a nova música popular portuguesa terá resultado da “transformação” que José Afonso operou na canção de Coimbra.

As “missas ateias e inócuas”
O padre Mário de Oliveira (da Lixa) preferiu traçar outro paralelismo: entre José Afonso e Jesus Cristo – ambos “politicamente perigosos”. E aludiu à força que a fé cristã e a revolução podem ter quando unidas, sem deixar de referir que o Zeca “se está burrifando” para as homenagens, preferindo ver “outros a lutar pelas suas causas”. Se assim não for, sublinhou Mário de Oliveira ao seu estilo demolidor, este tipo de iniciativas “não passam de missas ateias e inócuas e de feiras de vaidades”.
Na mesma linha, o jornalista Rui Pereira pediu “menos entronização e mais estudo” para a obra de José Afonso, enquanto outro jornalista, Viriato Teles, relembrou o sentido de humor do autor da senha do 25 de Abril, e pediu que haja sempre “festa” nas homenagens que lhe façam.
E foi isso mesmo que aconteceu durante os concertos de sexta e sábado à noite. A solo ou em grupo, misturados ou não, dezenas de amigos cantaram as músicas do Zeca – os contemporâneos, como Manuel Freire, Pedro Barroso e o padre Francisco Fanhais, evocando também alguns episódios desconhecidos. Os outros – como Amélia Muge, Canto Nono, Astedixie, Luanda Cozetti (filha de Alípio de Freitas) ou os galegos Uxía e Ardentía – mostrando a influência do Zeca na sua formação.

Alexandre Praça, in Jornal Público, 27.2.2006

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27/11/2005By admin-aja

Jorge Sampaio comove-se com as canções de José Afonso

O Presidente da República fez ontem em Grândola um comovido regresso ao passado, mais precisamente ao período que antecedeu o 25 de Abril de 1974 em que as canções de intervenção tiveram uma importância “significativa” para a democracia portuguesa. Depois de ter visitado a colectividade onde José Afonso actuou em 1964, a Fraternidade Operária, Jorge Sampaio reconheceu que as suas canções “ficam para sempre”. A cerimónia de homenagem nacional a José Afonso foi um tributo que a Câmara Municipal de Grândola quis prestar ao cantor “que se inspirou neste povo para a canção que foi a senha para o dia da libertação”, salientou Carlos Beato, presidente do município. A sessão foi preenchida com uma actuação da banda da Sociedade Filarmónica Fraternidade Operária, que interpretou vários temas de José Afonso, terminando com a ” Grândola Vila Morena” cantada pelas crianças da escola básica. “Fiquei muito contente por ver os jovens a interpretar Zeca Afonso”, destacou Jorge Sampaio, que se deixou envolver pelas orquestrações “bem conseguidas” pelos músicos da terra. Para o Presidente da República, as canções de intervenção que percorreram o universo contestatário do antigo regime “são momentos de história significativa da vida portuguesa”.Jorge Sampaio não pode ver o palco onde actuou José Afonso em 1964, “por se encontrar em muito mau estado e não haver verba para o recuperar”, lamentou um dirigente da Fraternidade Operária. José da Conceição, membro da direcção desta colectividade, a quem José Afonso enviou em 1964 a primeira versão das quatro que foram elaboradas para a canção ” Grândola Vila Morena”, recordou que quando o cantor lá entrou ficou siderado quando viu expostas obras de Lenine. “Um autor com uma leitura tão indigesta”, comentou Sampaio, admirado pela a ousadia dos grandolenses. Os sobressaltos que têm afectado a democracia portuguesa justifica a necessidade de senhas “como aquela que representou a canção chave da noite de 25 de Abril de 1974”, advertiu o Presidente da República. Por isso, frisou: “Me sinto comovido quando ouço as canções de Zeca Afonso”, recordando aquela vez que ouviu Grândola Vila Morena “ao serviço daquele dia inesquecível”. A sua vivência com o homenageado não foi muito forte, “mas tenho os seus discos, embora um pouco desarrumados”, revelou Sampaio, frisando que o seu relacionamento foi mais forte com Adriano Correia de Oliveira. Comentando o paralelismo entre a situação actual e a de antes do 25 de Abril de 1974, o chefe do Estado disse que “sobre a liberdade nada está definitivamente conquistado, tal como a liberdade de expressão que deve ser uma luta quotidiana”.Hélder Costa, natural de Grândola e director do Grupo de Teatro a Barraca, lembrou o percurso que fez ao lado de José Afonso. Primeiro em Coimbra onde estudou Direito e vivia na República do Prá-quistão, que Zeca Afonso visitava. “Nessa altura já era célebre pelas canções. Nós éramos amigos sendo ele mais velho”.Lembra-se de ele dedilhar as primeiras notas do “Menino é d’oiro” “e malta a gozá-lo para ele parar com a mariquice”.Depois convidou-o a vir até Grândola, onde o cantor ficou admirado “pela actividade cultural e artística” da Fraternidade Operária. Todos os anos em Maio esta colectividade realizava grandes manifestações culturais. Foi lá que Hélder Costa levou à cena a sua primeira peça de teatro ” Gota de Mel”, um libelo contra a guerra, que foi logo proibida.Assim, em 17 de Maio de 1964, a colectividade conseguiu levar Carlos Paredes e José Afonso a um espectáculo que ficou na memória do povo de Grândola e que acabou por se transformar no elemento criador da ” Grândola Vila Morena”. “O entusiasmo foi grande, foi uma loucura”, recordou Hélder Costa. Nessa noite estreou canções que ninguém sabia que tinha e passados uns dias mandou a letra da ” Grândola Vila Morena” para um dos directores da colectividade José da Conceição. O presidente da Câmara de Grândola, Carlos Beato, recordou no seu discurso de homenagem que “foi aqui que ele se inspirou encontrando amigos em todas as esquinas e foi aqui que ele imortalizou para sempre a Vila Morena”. Mais tarde, em 1971, José Mário Branco fez a orquestração em Paris onde o “Cantigas de Maio” foi gravado.

Carlos Dias, in Jornal Público, 25.10.2004

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