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Cooperativa Eranova
Home Archive by Category "Cooperativa Eranova"

Category: Cooperativa Eranova

Associação José AfonsoCamilo MortáguaCentro de documentaçãoCooperativa EranovaSérgio Godinho
08/08/2022By admin-aja

Eranova: centro coordenador de artistas

Tendo como objetivo contrariar a habitual imagem herdada do período revolucionário, durante o qual as organizações de trabalhadores e as associações populares solicitaram a participação destes numa lógica de gratuitidade, a Eranova assumiu as funções de intermediação de artistas – “centro coordenador de artistas” -, criando para tal um serviço de marcação de sessões, ao mesmo tempo que procurava assegurar as melhores condições técnicas, logísticas e financeiras para os artistas envolvidos. No mesmo sentido, a Eranova proporcionou o desenvolvimento de novas dinâmicas na apresentação de espetáculos musicais organizados, em que participaram vários cantores e grupos de diversos géneros musicais, tais como o rock, o jazz, a música folk e, principalmente, na representação de alguns dos principais protagonistas da canção popular portuguesa, tais como José Afonso, Vitorino, Sérgio Godinho e Adriano Correia de Oliveira. Este último, expulso em 1981 da também cooperativa de dinamização cultural Cantarabril, criada no seio do PCP em 1979, integraria a Eranova até à sua morte, em outubro de 1982.

O crescente recurso a um grupo de reforço instrumental marcaria também as atuações de José Afonso em várias sessões e espetáculos organizados em Portugal e no estrangeiro, fazendo-se frequentemente acompanhar por vários músicos, tais como Fausto, Carlos Guerreiro, Sérgio Mestre, Janita Salomé e Júlio Pereira, entre outros, proporcionando-lhe um calendário regular de atuações ao vivo. Tendo como principal objetivo promover a descentralização cultural e apoiar a dinamização local de cooperativas e de outras estruturas de recreio e de cultura populares, seria também criado o GAEN – Grupo de Amigos da Eranova, que funcionaria como grupo de apoio e de intermediação com outras cooperativas e coletividades artísticas e populares. Até meados da década de 1980, a Eranova desenvolveria uma intensa atividade de produção e de coordenação de diversos eventos por iniciativa própria ou em colaboração, tais como cursos de alfabetização, cursos de construção de instrumentos musicais, cursos de formação de fantoches, projeção de filmes e ciclos de cinema, exposições de fotografia e de artesanato, venda de livros e discos, encontros de poesia popular e espetáculos de teatro, animação circense e música.

Uma das primeiras iniciativas da Eranova consistiu na organização de uma digressão de Sérgio Godinho em finais de 1978. A ligação entre o músico e a cooperativa resultava da proximidade que já tinha com a LUAR e, em particular, com Camilo Mortágua: «eu comecei a ouvir falar do Camilo Mortágua, que foi a alma da Eranova e do seu aparecimento, para aí em 1975. O Zeca tinha uma grande admiração pelo Camilo – mas mesmo uma grande admiração. Aliás, foi isso que o aproximou e também me aproximou um bocadinho, por arrasto, da LUAR». O músico acrescenta ainda: «a LUAR tinha um triunvirato um bocado especial, porque tinha o homem de acção (…), o Palma Inácio. Tinha o Camilo, que era um homem de acção mas com ideias políticas bastante definidas, e tinha o Fernando Pereira Marques que era o intelectual do trio. Sei que o Zeca (…) dizia uma coisa que é completamente justa: o Camilo é uma pessoa que faz. Faz acontecer as coisas. E, de facto, o Camilo sempre foi isso. Em inglês, chama-se um doer».

A capacidade organizativa e executiva de Camilo Mortágua, aliada à necessidade de suprir as dificuldades técnicas e logísticas das actuações ao vivo dos cantores, mobilizou esforços no sentido de se constituir uma estrutura que pudesse conferir algum grau de profissionalismo à actividade musical ao vivo. Segundo Godinho: «eu aderi com muito entusiasmo a essa ideia, porque achava que era mesmo assim. De facto, nesse momento, certos grupos de rock já estavam precisamente nessa senda, não é? Nessa senda, digamos, de haver espectáculos com princípio, meio e fim, uma aparelhagem e condições». Dada a sua participação na versão francesa do musical Hair entre 1969 e 1971, Sérgio Godinho estava habituado a condições técnicas e sonoras cuja ausência nas sessões populares ocorridas durante o período revolucionário limitava a eficácia das actuações. Este problema, aliado à falta de uma entidade que intermediasse o contacto entre músicos e organizadores locais, motivava queixas de vários cantores, entre eles José Afonso: “[a Eranova] vem na sequência de, por um lado, das queixas de todos nós, mas [sobretudo] das queixas do Zeca de que tinham que acorrer a todos os fogos e que andávamos a cantar de graça, e depois não havia organização. As coisas eram muito amadoras. (…) Quer dizer, eu próprio dizia isso. Havia uma contradição muito grande entre o cuidado que nós sempre pusemos, por exemplo, na instrumentação de um disco…»

A digressão de Godinho, intitulada “Sete Anos de Canções” em referência a um verso de Luís de Camões (“Sete anos de pastor Jacob servia”), percorreu várias cidades e vilas do país, sendo esta a primeira vez que Sérgio Godinho seria acompanhado por um grupo musical, o Grupo Provisório nº1, formado por Luís Caldeira (flautas), Zé Carrapa (violas), Paulo Godinho (baixo) e Paleka (bateria). Consistiu em mais de 20 espectáculos do Norte ao Sul do país, passando pelo Faro (Teatro Lethes), Alhos Vedros, Matosinhos, Porto (Cine-Teatro Vale Formoso), Bragança, Guimarães, Viana do Castelo, Coimbra (Cine-Teatro Avenida) e Lisboa (com várias noites no Teatro Maria Matos). Dada a falta de hábito, em algumas localidades, de apresentação de espectáculos com uma sequência de duas horas de canções para efeitos de escuta atenta, Sérgio Godinho recorda a surpresa de alguns membros do público: «havia pessoas que, realmente, perguntavam “mas não há variedades?”…achavam que era insólito preencher um espectáculo inteiro (…). Havia aquele hábito do imediatismo de só cantar umas cançõezinhas…». Esta maior profissionalização das actuações e a própria popularização do formato concerto longe dos grandes centros urbanos anteciparia, em alguns anos, a proliferação de novas estruturas de suporte dos grupos que surgiriam na viragem para a década de 1980, no período do designado «boom do rock português».

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Associação José AfonsoCentro de documentaçãoCooperativa Eranova
30/06/2022By admin-aja

Eranova: uma cooperativa cultural

Ao longo do período revolucionário português assistiu-se à dinamização do associativismo popular através da criação de centenas de comissões de trabalhadores, comissões de moradores, cooperativas e associações artísticas e culturais, sustentadas por dinâmicas próprias e por mecanismos de autogestão. Vários artistas, sobretudo músicos e cantores, assumem então um papel de intervenção direta no terreno, participando de forma voluntária e gratuita em sessões enquadradas na atividade político-partidária e em campanhas de dinamização e de ação cultural.

Contudo, as mudanças políticas desencadeadas pelo 25 de Novembro de 1975 teriam um impacto negativo imediato na atividade de militância político-cultural. Embora na nova Constituição aprovada em 1976 se procurasse estimular e fomentar a criação e a atividade cooperativa,o novo panorama político pós-revolucionário condicionaria o apoio à criação cultural e artística mais radicalizada.

Reagindo contra esta situação e dado o caráter deficitário geral de meios organizativos, técnicos e logísticos dos eventos ao vivo em Portugal neste período, vários cantores afirmaram a sua intenção de desenvolver estruturas para uma maior profissionalização da realização de espetáculos e de apoio à produção fonográfica. Este processo traduziu-se na organização de cooperativas de dinamização cultural, frequentemente conotadas com organizações partidárias, as quais forneceram a base ideológica para a radicalização do discurso contra as “formas de exploração capitalista” da arte e da cultura. Ainda em 1975, seriam disso exemplo a cooperativa Vozes na Luta criada pelo Grupo de Acção Cultural, próximo da UDP, assim como a cooperativa de edição discográfica Toma Lá Disco, criada por um grupo de cantores e poetas afetos ao PCP. Da mesma forma, vários artistas associados à esquerda revolucionária envolver-se-iam na projeção da plataforma FAPIR – Frente de Artistas Populares e Intelectuais Revolucionários, a qual apelava, segundo o seu manifesto (1976), à participação de todos os “artistas e intelectuais na ampla frente de unidade antifascista e anti-imperialista”, visando o “desenvolvimento de trabalho cultural conjunto ao serviço dos órgãos de vontade popular”, posicionando-se contra “as vias reformistas e sociais-democratas” e promovendo um discurso de “afirmação e impulsão da cultura popular”.

É neste contexto que, em março de 1978, é formalmente constituída a Cooperativa Eranova (doc. CDJA – Centro de Documentação José Afonso). Partindo da iniciativa de um conjunto de agentes culturais – músicos, animadores culturais, atores, técnicos de cinema e cineastas -, a cooperativa foi inicialmente pensada enquanto estrutura para a produção e animação cultural através do cinema, sendo registada como Cooperativa de Trabalhadores de Cinema SCARL. Assim, uma das primeiras ações da Eranova consistiu no apoio à produção e distribuição do filme/documentário Torre Bela – Uma cooperativa popular, realizado pelo alemão Thomas Harlan entre 1975 e 1977 e que retrata o processo de reforma agrária em Portugal.

Contando com o envolvimento de vários músicos, tais como Sérgio Godinho, Francisco Fanhais e José Afonso, assim como de Camilo Mortágua, antigo dirigente da LUAR – Liga de Unidade e Acção Revolucionária e dinamizador de inúmeras sessões de caráter político-cultural junto dos órgãos populares de base, não tardaria muito para a Eranova estender a sua atividade à música popular portuguesa, ao teatro, às artes circenses, à poesia e à animação cultural. 

Em junho de 1978, a Eranova realiza a Semana Etnográfica Etno78 no Teatro da Comuna, evento que se repetiria no mês seguinte em Setúbal, como forma de lançamento e de divulgação das atividades da cooperativa. Organizada em clima de festa, a Etno78 refletia as intenções da Eranova de desenvolver trabalho de dinamização cultural através de diferentes áreas artísticas, organizando para tal uma Mostra de Cinema Etnográfico em colaboração com as cooperativas Cinequipa e Cinequanon, a promoção e a venda de produtos regionais de gastronomia e artesanato, várias apresentações de músicas e danças de grupos folclóricos e regionais, uma exposição de fotografia e a atuação de José Afonso, Fausto, Vitorino, Francisco Fanhais e do GAC.

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