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Imprensa

Morte de José Afonso salvou cantautores da ostracização

25/04/2009
José Mário Branco cantava porque não podia falar. “Cantar era uma forma de escape, de socializar. E socializar, juntar o povo, era considerado perigoso”. Ana Bacalhau canta “o que a vida não diz” porque nunca poderá saber o que era não poder falar. “Sou uma sortuda por não conseguir sequer imaginar o que é ter um lápis azul”. Ele, hoje com 67 anos, ícone maior da resistência à ditadura, não sabe, mas inspirou a rapariga que pôs o país a entoar fon-fon-fon-fon . “Sem ele, os Deolinda nunca poderiam existir – e isso é assustador”, afirma a vocalista da banda, 30 anos, prestando-lhe pública homenagem. Elogiar o autor de “A cantiga é uma arma” é agradecer o privilégio de hoje poder dizer: “Agora sim, cantamos com vontade!/ Agora sim, ouço a liberdade!”

Foi privilégio que Mário Branco nunca teve, nem para cantar outras letras que não aquele épico do FMI: “Esta merda dos partidos é que divide a malta pá, é só paleio pá, o pessoal quer é trabalhar!”, nem mesmo depois de cortada a fita do 25 de Abril, nem mesmo apesar de garantir que a sua liberdade “chegou muito antes da data”. Parece contradição, mas não é. “Decidi ser livre quando escolhi não ir para a guerra matar os meus irmãos; quando escolhi pagar o preço pelas minhas opções”. O preço foi ser preso aos 19 anos e depois fugir para França – ele e mais cem mil portugueses. Foi lá que começou a tocar viola, foi lá que permaneceu, refugiado, dez anos. E foi depois de vir de lá, já Portugal brindava à Liberdade, que surpreendentemente continuou “a ser marginalizado”. Em 1982, “o disco que juntava o ‘FMI’ com o ‘Ser Solidário’ foi recusado por oito editoras” porque ele “era visto como um cantautor amaldiçoado”. Era como se tivesse que continuar a ser punido, vá lá saber-se porquê.

Editou o disco graças à confiança do público. À entrada de uma série de concertos no Teatro Aberto, em Lisboa, entregou uma carta em que escreveu: “Queria fazer este disco. Se me confiar o seu dinheiro…” E as pessoas confiaram, os concertos esgotaram e o disco saiu. Mas só mais tarde, em 1987, com a morte de Zeca Afonso, as editoras deram tréguas. “Perceberam que tinham irremediavelmente perdido um grande mestre e que valia a pena terem mais respeito pelos que restavam”. Foi então convidado a editar a sua obra integral. Até começou a ser “tratado por Senhor”, e Mário Soares quis condecorá-lo. Rejeitou. “O condecorador tem que estar à altura do condecorado”. Para Branco, a liberdade que temos “é meramente formal”. Não lhe preenche o sonho. Bacalhau diz ter ” tanto medo de a perder”, que celebra sempre o 25 de Abril.
Jornal de Notícias

“Seremos muitos, seremos alguem” em Vigo

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Festival "Cantar José Afonso"

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