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Sérgio Godinho

A escrita de canções, segundo Sérgio Godinho, à beira dos 40 anos de carreira

16/01/2010

Sérgio Godinho quer editar este ano um novo álbum, mas a breve prazo terá no horizonte uma efeméride à qual ainda não tinha dado importância: os 40 anos de carreira, desde que lançou “Sobreviventes”, em 1971.
A efeméride foi mencionada sexta-feira à noite, numa “aula” que o músico português deu na Escola do Hot Clube de Portugal (HCP), em Lisboa, no âmbito de uma série de encontros organizados por aquele clube de jazz.
As “masterclasses Hot Club Songwriter”, que terminam no domingo, permitem ao público conhecer melhor intérpretes e compositores de áreas distintas da música portuguesa.
No caso de Sérgio Godinho, foram duas horas de conversa que, sem que se desse por isso, se desvendaram detalhes e experiências somadas de uma carreira longa, mas que aponta sobretudo para o que está ainda por ser fazer.
“Eu distraio-me com as efemérides e não me interessam muito. Neste momento tenho outras prioridades, quero fazer um disco de originais este ano”, sublinhou o autor, que tem já um punhado de canções
Sérgio Godinho revelou que gostaria de o ter editado em 2009, encurtando a distância em relação a “Ligação Directa”, que data de 2006, mas outras criações se sobrepuseram, como a banda sonora da série televisiva “Equador”, a interpretação da peça “Onde vamos morar”, dos Artistas Unidos, e a escrita dos poemas de “O sangue por um fio”.
A sessão de sexta-feira foi uma das mais concorridas desta primeira série de encontros do Hot Clube de Portugal, com uma audiência feita sobretudo de estudantes da escola de jazz com vontade de saber modos de composição e influências de carreira.
É tido um dos mais originais músicos da sua geração, com mestria no uso da língua portuguesa, mas Sérgio Godinho confessou que no começo da carreira não conseguia escrever em português e que, salvo honrosas excepções, nem lhe agradava muito a música portuguesa.
“Mas quando o Zeca [Afonso] apareceu, deu-me um abanão que foi muito importante”, disse.
Zeca Afonso seria, então, um dos dos principais estímulos do seu trabalho, e um dos mais citados na sessão de sexta-feira. A ele juntaram-se Jacques Brel, Caetano Veloso, Chico Buarque e toda a bossa nova, Beatles, Bob Dylan e Rolling Stones.
Somando tudo isto a um “crescimento com muitos géneros de música nos ouvidos” e a um espírito auto-didacta, o resultado é – segundo descrição do próprio – uma música “urbana, com componentes folk, rock, jazz e música tradicional”.
Está condensada em mais de vinte discos – fora os que estão para vir – com canções que podem ter destinatários, personagens, frescos da realidade, esboços de narrativas, com experiências suas, mas nunca auto-biográficas.
A intenção final será sempre “tocar as pessoas num determinado ponto da sua sensibilidade”, mas também “dar interrogações, porque têm que ser incomodadas”.
Depois de Sérgio Godinho, as “aulas” dos convidados do HCP prosseguem hoje com o rapper Sam the Kid e terminam no domingo com o músico João Manuel Vieira.
Antes de Sérgio Godinho, pela Escola do clube de jazz passaram Fernando Ribeiro e Pedro Paixão, dos Moonspell, Tiago Bettencourt, Manuela Azevedo e Hélder Gonçalves, dos Clã, e o fadista Camané.
Com esta iniciativa, o HCP pretende ainda chamar a atenção para a situação de impasse que o mais antigo clube de jazz português vive desde o incêndio que atingiu em Dezembro a cave onde funcionava, na Rua da Alegria, em Lisboa.
A direcção do clube procura uma sala alternativa naquela praça, por uma questão de proximidade com o antigo local e de fidelização de público, habituado a frequentar aquele espaço.
O clube de jazz estuda uma solução a partir de quatro ou cinco hipóteses sugeridas pela autarquia, até que se proceda à reabilitação do prédio onde funcionou ao longo dos últimos 60 anos.
Jornal I

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