{"id":9828,"date":"2011-02-25T16:23:00","date_gmt":"2011-02-25T16:23:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=9828"},"modified":"2021-12-17T11:38:16","modified_gmt":"2021-12-17T11:38:16","slug":"para-que-o-nao-esquecamos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/para-que-o-nao-esquecamos\/","title":{"rendered":"Para que o n\u00e3o esque\u00e7amos"},"content":{"rendered":"<div class=\"separator\" style=\"clear: both; text-align: justify;\">Tinha 57 anos e manteve, at\u00e9 ao remate dos dias, aquele sorriso meio-c\u00e2ndido, meio-malicioso, que lhe conferia o ar de menino de sempre. Pouco tempo antes convers\u00e1mos numa leitaria \u00e0 entrada das Escadinhas do Duque, das duas ou tr\u00eas tert\u00falias da zona a que cham\u00e1vamos o Tri\u00e2ngulo das Bermudas. N\u00e3o era um local de perdi\u00e7\u00e3o, ao contr\u00e1rio do que a alcunha pode querer dizer. Mas os encontros poderiam levar-nos pela noite adiante.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Os mes\u00e1rios dessas reuni\u00f5es eram, entre muito outros, fixantes e passantes, Herberto H\u00e9lder, Ant\u00f3nio Jos\u00e9 Forte, Ant\u00f3nio Carmo, Aldina Costa, Jos\u00e9 Carlos Gonz\u00e1lez, Ricarte-D\u00e1cio de Sousa, Adriano de Carvalho, Serafim Ferreira, Teresa Roby, Luiz Pacheco, os actores Fernando Gusm\u00e3o e Ant\u00f3nio Assun\u00e7\u00e3o, e por a\u00ed fora. Olho para tr\u00e1s e reconhe\u00e7o que esses encontros s\u00e3o irrepet\u00edveis, n\u00e3o s\u00f3 porque a morte j\u00e1 fez a sua ceifa como pelo facto de a atmosfera moral e afectuosa ser, agora, muito diferente. <\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Frequentei aqueles grupos durante anos. O &#8220;Di\u00e1rio Popular&#8221; era ali perto e dava-me jeito ir \u00e0 bebida e \u00e0 conversa com amigos, alguns dos quais (o Herberto, por exemplo) vinham dos bul\u00edcios da adolesc\u00eancia. O Zeca Afonso n\u00e3o era habitual; mas, naquele fim de tarde, sentou-se para conversar sonhos e esperan\u00e7as t\u00e3o antigos como o homem. &#8220;Estou a morrer devagarinho&#8221;, disse-me. E a voz era como se viesse do fundo do corpo. A frase impressionou-me pela coragem. Ele sabia que estava condenado e talvez quisesse dizer-me que o sabia. Falou, logo a seguir, de outras coisas. Olhava para este homem novo, atingido por uma doen\u00e7a medonha, e recordava a generosidade limpa e aberta de algu\u00e9m que dera tudo a todos e oferecera \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o o seu hino definitivo. <\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O Viriato Teles, grande jornalista que os senhores dos jornais t\u00eam laminado mas n\u00e3o destru\u00eddo, escreveu, sobre o amigo e companheiro, p\u00e1ginas definitivas, e conhece, como ningu\u00e9m, a dimens\u00e3o da grandeza de uma pessoa rara. Mas o Pa\u00eds ainda n\u00e3o homenageou o poeta admir\u00e1vel e o cantor de palavras claras que esteve sempre com as causas justas, as batalhas necess\u00e1rias e as urg\u00eancias que a Hist\u00f3ria exigia. Melhor do que n\u00f3s, fazem-no os galegos, para os quais Jos\u00e9 Afonso \u00e9 um marco e um s\u00edmbolo da dignidade e da probidade humanas. <\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Os textos de &#8220;interven\u00e7\u00e3o&#8221; que escreveu pertencem \u00e0 mais rigorosa selecta da l\u00edrica portuguesa. <\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Prov\u00eam, directamente, das fontes medievais e da tradi\u00e7\u00e3o de combate e cr\u00edtica da grande poesia. Zeca Afonso n\u00e3o facilitava a interpreta\u00e7\u00e3o dos seus poemas. A diversidade de leituras que prop\u00f5em sugeriu muitos estudos no estrangeiro e o respeito de duas ou tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es que ele distinguiu com a li\u00e7\u00e3o de um desprendimento total. <\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Comparar a obra do poeta \u00e0s &#8220;can\u00e7onetas&#8221; &#8220;dos&#8221; Deolinda, como por a\u00ed se tenta, \u00e9 um ultraje e uma demonstrada ignor\u00e2ncia. Mas estas compara\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o ing\u00e9nuas. Fazem parte do arsenal de apoucamento do Zeca, que um sector da vida portuguesa deseja, h\u00e1 muito promover. \u00c9 desnecess\u00e1rio. A for\u00e7a, a qualidade do imenso trabalho criador do autor de &#8220;Traz outro amigo tamb\u00e9m&#8221; n\u00e3o sofre paralelismo com outro qualquer. O que n\u00e3o passa de uma fun\u00e7anata divertida e tr\u00f4pega dificilmente poder\u00e1 ser levada a s\u00e9rio e entendida como &#8220;interven\u00e7\u00e3o social e ideol\u00f3gica.&#8221; As compara\u00e7\u00f5es s\u00e3o propositadamente estabelecidas (inclusive por alguma Imprensa desprez\u00edvel) para fomentar a confus\u00e3o e enganar tolos. A estrat\u00e9gia n\u00e3o \u00e9 nova. Ainda h\u00e1 quem n\u00e3o perdoe a Zeca Afonso a magnitude do seu talento e o cariz de uma arte que sempre recusou o panfleto sem desprezar a inten\u00e7\u00e3o de revolta. <\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">No dia 23 de Fevereiro completaram-se 24 anos sobre a data da morte de um grande poeta portugu\u00eas. \u00c9 muito bom que, sob outras roupagens, a sua m\u00fasica e as suas palavras sejam cantadas pelo pessoal mais novo e ouvidas por todos aqueles que possuem da arte um conceito diferente porque superior. Quanto a mim, que fui amigo deste portugu\u00eas incomum, deste artista sem paralelo, recordo-o com emo\u00e7\u00e3o, encantamento e orgulho. Ele faz parte do nosso comum patrim\u00f3nio moral, \u00e9tica e est\u00e9tico. <\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.jornaldenegocios.pt\/home.php?template=SHOWNEWS_V2&amp;id=470455\">Baptista-Bastos | Jornal de Neg\u00f3cios<\/a><\/div>\n<ul>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tinha 57 anos e manteve, at\u00e9 ao remate dos dias, aquele sorriso meio-c\u00e2ndido, meio-malicioso, que lhe conferia o ar de menino de sempre. Pouco tempo antes convers\u00e1mos numa leitaria \u00e0 entrada das Escadinhas do Duque, das duas ou tr\u00eas tert\u00falias da zona a que cham\u00e1vamos o Tri\u00e2ngulo das Bermudas. 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