{"id":9592,"date":"2010-05-07T13:35:00","date_gmt":"2010-05-07T13:35:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=9592"},"modified":"2021-12-17T11:38:19","modified_gmt":"2021-12-17T11:38:19","slug":"jose-afonso-vivo-e-presente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/jose-afonso-vivo-e-presente\/","title":{"rendered":"Jos\u00e9 Afonso: vivo e presente"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\">Desde os seus prim\u00f3rdios coimbr\u00f5es \u2013 marcados pelo benigno ascendente do chamado fado de Coimbra \u2013, as can\u00e7\u00f5es de Jos\u00e9 Afonso sempre foram a simbiose perfeita de tr\u00eas dons: uma poesia singular, uma voz \u00fanica (de timbre e colora\u00e7\u00e3o inconfund\u00edveis) e um inato talento para a melodia. E ao falarmos de melodia, e tamb\u00e9m de ritmos, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel esquecer a fidelidade desta m\u00fasica \u00e0s ra\u00edzes mais profundas da m\u00fasica popular portuguesa, mas tamb\u00e9m a sua d\u00edvida em rela\u00e7\u00e3o aos ritmos da \u00c1frica e do Brasil, para n\u00e3o falar da irm\u00e3 Galiza \u2013 que sempre soube homenagear este nosso cantor com espect\u00e1culos, com discos, com vers\u00f5es recriadas das suas can\u00e7\u00f5es e at\u00e9 com uma l\u00e1pide no Audit\u00f3rio da Galiza, em Santiago de Compostela.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Mas, al\u00e9m da sua qualidade musical intr\u00ednseca e da perenidade das suas cantigas (reinterpretadas por tantos artistas: Vitorino e Janita, Cristina Branco, Jacinta e tantos outros), tamb\u00e9m nos toca e nos marca, cada vez mais fundo, a indissip\u00e1vel aura de Jos\u00e9 Afonso como antifascista, democrata, lutador radical por um Socialismo verdadeiro. Toca-nos e serve-nos de exemplo a sua dimens\u00e3o humana de companheiro fraterno e solid\u00e1rio, dispon\u00edvel para todo e qualquer combate em prol dos injusti\u00e7ados deste mundo: os pobres, os sem-terra, os povos em luta pela sua dignidade e independ\u00eancia, os guerrilheiros da esperan\u00e7a. Jos\u00e9 Afonso ridicularizou como ningu\u00e9m o salazarismo, mais tarde a rede bombista e a recupera\u00e7\u00e3o capitalista ap\u00f3s o 25 de Novembro. Mas cantou tamb\u00e9m o amor, a amizade, os direitos da mulher. E vazou tudo isto em versos e melodias de alta temperatura musical e po\u00e9tica, mesmo naquelas composi\u00e7\u00f5es em que n\u00e3o renegou a sua intimidade, a sua experi\u00eancia pessoal e contradi\u00e7\u00f5es, e se deixou imbuir (e bem) dos influxos do surrealismo, de um aparente nonsense ou do esp\u00edrito das fac\u00e9cias populares.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Por muito que muitos o prefiram ignorar, a imagem, a voz e a obra de Jos\u00e9 Afonso converteram-se em s\u00edmbolos do 25 de Abril (ser\u00e1 necess\u00e1rio recordar a \u00abGr\u00e2ndola\u00bb, o \u00abVenham mais cinco\u00bb, \u00abOs \u00edndios da Meia-Praia\u00bb, a \u00abUtopia\u00bb?), express\u00e3o da resist\u00eancia de um povo em combate pela liberdade e por uma vida digna.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Vinte e tr\u00eas anos ap\u00f3s a sua partida (nasceu em Aveiro, em 2 de Agosto de 1929 e morreu em Set\u00fabal, em 23 de Fevereiro de 1987), a m\u00fasica de Jos\u00e9 Afonso est\u00e1 mais viva e actuante do que nunca. Venceu, como poucas, a lei da morte e o ef\u00e9mero. Muitos a guardam na mem\u00f3ria e em cassetes, velhos discos de vinil e CD. E continuam a escut\u00e1-la. Isto porque a r\u00e1dio, a nossa r\u00e1dio, a silenciou e s\u00f3 conhece hoje um pacto com a mediocridade, o f\u00e1cil, o insidioso pensamento \u00fanico.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Jos\u00e9 Afonso, esse, est\u00e1 vivo. E bem vivo. A prova \u00e9 ter-nos deixado alguns recados para o deprimente tempo em que vivemos. Um tempo de \u00abprimos convexos\u00bb que n\u00e3o parecem aperceber-se das \u00abplantas carn\u00edvoras\u00bb e dos \u00abcorvos\u00bb que, cada vez mais, os\/nos cercam e \u00abtrincam os calos\u00bb: os bancos e a alta finan\u00e7a, os grandes grupos econ\u00f3micos, os senhores gestores da riqueza deles e da mis\u00e9ria dos outros, as ag\u00eancias de rating (esp\u00e9cie de rotweilers do capitalismo), os direct\u00f3rios pol\u00edticos da Uni\u00e3o Europeia \u2013 peritos em garrotear os povos \u2013 e os seus representantes em Portugal, que h\u00e1 mais de 30 anos desgovernam este desgra\u00e7ado pa\u00eds. Termino, por isso, com um poema de Jos\u00e9 Afonso adequado aos dias de hoje:<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Tenho um primo convexo<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Tenho um primo convexo<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Fadado para amnistias<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Em torno dele nadam<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Plantas carn\u00edvoras<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Agitando como plumas<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">As cordas viol\u00e1ceas<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O meu primo dormita<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Glu glu entre palmeiras<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Suspenso numa rede<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">De suor e pregui\u00e7a<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Corvos bicam-lhe os p\u00e9s<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Trincam-lhe os calos<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Enquanto a tarde jaz<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">E a m\u00e3o suspende<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O gesto de acord\u00e1-lo<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">E a terra treme<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Mas de nada o meu primo se apercebe<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/ainocenciadescompensada.blogspot.com\/\"><b>Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Gomes<\/b><\/a><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">NELA \u2013 N\u00facleo de Estudos Liter\u00e1rios e Art\u00edsticos da ESE do Porto<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde os seus prim\u00f3rdios coimbr\u00f5es \u2013 marcados pelo benigno ascendente do chamado fado de Coimbra \u2013, as can\u00e7\u00f5es de Jos\u00e9 Afonso sempre foram a simbiose perfeita de tr\u00eas dons: uma poesia singular, uma voz \u00fanica (de timbre e colora\u00e7\u00e3o inconfund\u00edveis) e um inato talento para a melodia. 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