{"id":9468,"date":"2010-03-13T00:04:00","date_gmt":"2010-03-13T00:04:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=9468"},"modified":"2021-12-17T11:38:32","modified_gmt":"2021-12-17T11:38:32","slug":"zeca-afonso-mora-aqui","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/zeca-afonso-mora-aqui\/","title":{"rendered":"Zeca Afonso mora aqui"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\">Disse Jorge Lu\u00eds Borges: Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crian\u00e7as, se tivesse outra vez outra vida pela frente. Escreveu Ant\u00f3nio Gede\u00e3o: Nesta insignific\u00e2ncia, gratuita e desvalida, Universo sou eu com nebulosas e tudo. William Shakespeare afirmou: E aprendes que n\u00e3o importa o quanto te importas, porque algumas pessoas simplesmente n\u00e3o se importam\u2026Tendo estas cita\u00e7\u00f5es como pre\u00e2mbulo do trabalho que irei construindo, tomando o papel como base e o conhecimento como ferramenta, lembro ainda como aperitivo as s\u00e1bias palavras do poeta militante Pablo Neruda: Morre lentamente quem se transforma em escravo do h\u00e1bito, repetindo todos os dias os mesmos trajectos, quem n\u00e3o muda de marca, n\u00e3o arrisca vestir uma nova cor, ou n\u00e3o conversa com quem n\u00e3o conhece. E porque tamb\u00e9m eu, Leonel Coelho, sou gente, relembro o que publiquei dirigido aos jovens: Aos que escrevem, aos que contam, ilustram, anotam, apontam, aos exclu\u00eddos, aos deserdados, aos de pouca ou nenhuma sorte, olha a todos com o cora\u00e7\u00e3o, com toda a tua alegria e grita-lhes \u2013 oh gente minha, Bom Dia. <\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Eu podia dizer a quem nos ler que vou agora falar sobre o Zeca, mas n\u00e3o. \u00c9 do Zeca que estou a falar quando afirma\u00e7\u00f5es, conselhos ou opini\u00f5es afloram como flores ou espadas de outros Zecas. O Zeca que eu conheci aqui na nossa Academia de Alhos Vedros, na nossa rua, ou na casita onde ainda moro, construi-se bebendo nas fontes que aqui invoco, que aqui recordo e com quem convirjo. O Zeca simples, humilde e enigm\u00e1tico que eu conheci era o nosso pombo-correio. Ele saltava de Set\u00fabal para a Baixa da Banheira, Seixal, Barreiro, e trazia tarjetas para recolhas de aux\u00edlio aos presos pol\u00edticos, escondia-se nas casas dos amigos, tinha a noite como companheira favorita e protectora. O Zeca com a sua guitarra, as velhas cal\u00e7as de bombazina e a sua esfiapada camisa aos quadradinhos, chegava e passado muito pouco tempo j\u00e1 toda a gente passava palavra: o Zeca est\u00e1 na Academia! E era a mar\u00e9-cheia. A extraordin\u00e1ria juventude expandia-se, agigantava-se e aconteciam palavras, olhares, entusiasmos. Era contagiante. Quando o evocamos no velho cemit\u00e9rio da Piedade, em Set\u00fabal, \u00e9 o seu incompar\u00e1vel entusiasmo que pretendemos reavivar, tal como o ferreiro reaviva a forja, a padeira anima o forno, ou o guerreiro limpa as armas em tempo de paz com guerras no horizonte. \u00c9 meu dever que cumpro com gosto, referir que \u00e9 pela m\u00e3o do meu velho amigo Dr. Afonso de Albuquerque que o Zeca Afonso desembarca, j\u00e1 n\u00e3o sei bem quando, aqui na Academia. Depois foram as sopinhas de couves quentinhas que a minha mulher servia ao Zeca. Partilh\u00e1vamos ent\u00e3o not\u00edcias sobre greves, pris\u00f5es, torturas e at\u00e9 assassinatos. A PIDE estava l\u00e1 fora, hedionda, trai\u00e7oeira e sempre pronta a saltar sobre n\u00f3s. Pela m\u00e3o do Zeca aqui vieram cantores, escritores, jornalistas, actores e pol\u00edticos: Padre Fanhais, Fausto, Benedito, Letria, Castrim, Alice Vieira, Rog\u00e9rio Paulo, Yevetutchenco, Sotomaior Cardia, Jo\u00e3o Mota, Grupos de Teatro, etc. Nunca houve nada programado na Academia. A sala era o palco. Passava-se a palavra e a festa estava no ar. Nas ruas mont\u00e1vamos vigil\u00e2ncia e muitas vezes corremos a PIDE \u00e0 pedrada at\u00e9 ao comboio. Merc\u00ea de tudo isso sentimos na pele os interrogat\u00f3rios, a pris\u00e3o e a tortura. A Academia era uma casa permanentemente vigiada e sempre perseguida. O Zeca deixou marcas indel\u00e9veis de luta e solidariedade em toda a juventude da nossa terra e da nossa regi\u00e3o. O Bairro Gouveia e as Arroteias foram os que mais livremente usufru\u00edram a contagiante personalidade do amigo Zeca. Aqui na Academia nunca ningu\u00e9m nos derrotou. A presen\u00e7a do Zeca era a nossa fortaleza e n\u00f3s bem sab\u00edamos que ainda havia o Lu\u00eds C\u00edlia e o grande Amig\u00e3o Adriano Correia de Oliveira, homem a quem me dobro e agrade\u00e7o o muito que aprendemos. N\u00e3o esquecer tamb\u00e9m o papel relevante que o Zeca teve na forma\u00e7\u00e3o da juventude daqui. Essa mesma juventude que acorreu em for\u00e7a \u00e0 grande manifesta\u00e7\u00e3o de luta e pesar que constituiu o funeral do estudante Ribeiro Santos, militante do MRPP assassinado pela PIDE decorria o ano de 1972. Foi ainda acerca da Guerra Colonial que Zeca Afonso mais lutou e ensinou, sendo por ele e por outros camaradas dados os primeiros e mais importantes passos contra aquela guerra t\u00e3o nefasta ao nosso povo e aos povos africanos.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Em rodap\u00e9, mas com as honras que lhe s\u00e3o devidas, de referir a m\u00e3o do Zeca na vinda \u00e0 Academia do Coro dos Amadores de M\u00fasica e do seu prestigiado maestro Fernando Lopes Gra\u00e7a, Areosa Feio, prestigiado anti-fascista, Manuel Cabanas e muitas outras figuras que honraram a nossa casa e acrescentaram \u00e0 nossa terra valores culturais, colocando-a na primeira fila da luta pelo derrube da ditadura salazarista. Jornais como o \u201cCom\u00e9rcio do Funchal\u201d, \u201cJornal do Fund\u00e3o\u201d e \u201cNot\u00edcias da Amadora\u201d, narraram em devido tempo os nossos combates, as nossas vit\u00f3rias. As can\u00e7\u00f5es do Zeca andavam por aqui de boca em boca. A presen\u00e7a do Zeca, o seu trabalho em clubes, tert\u00falias e festas, assume quinh\u00e3o relevante na vit\u00f3ria que aconteceu nas elei\u00e7\u00f5es de 1969. Nestas elei\u00e7\u00f5es a Uni\u00e3o Nacional salazarista saiu de rabo entre as pernas, cabisbaixos e vociferando amea\u00e7as. Na noite de 3 de Maio de 1970, a PIDE prendeu s\u00f3 duma assentada Stalin Jesus Rodrigues, Leonel Coelho, \u00c1lvaro Monteiro, Gravatinha Lopes, Zacarias, Matos, A. Chora e F. Cunha. Por tudo isto, o Zeca vive e ser\u00e1 sempre uma bandeira. Acabo por informar os mais descuidados que o Zeca \u00e0s vezes nem tinha dinheiro para uma sopa. E n\u00e3o esquecer que estamos a falar do Dr. Jos\u00e9 Afonso Cerqueira dos Santos, o poeta, o professor, o m\u00fasico, o lutador e o Amigo. Honra, pois, ao Zeca.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.blogger.com\/goog_1268438642765\">Leonel Coelho<\/a><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/luis-eg.blogspot.com\/2010\/03\/zeca-afonso-mora-aqui.html\">Mar\u00e7o\/2010<\/a><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Disse Jorge Lu\u00eds Borges: Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crian\u00e7as, se tivesse outra vez outra vida pela frente. Escreveu Ant\u00f3nio Gede\u00e3o: Nesta insignific\u00e2ncia, gratuita e desvalida, Universo sou eu com nebulosas e tudo. 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