{"id":9367,"date":"2009-12-10T22:50:00","date_gmt":"2009-12-10T22:50:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=9367"},"modified":"2021-12-17T11:38:33","modified_gmt":"2021-12-17T11:38:33","slug":"as-voltas-de-um-andarilho-por-teresa-sa-couto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/as-voltas-de-um-andarilho-por-teresa-sa-couto\/","title":{"rendered":"&#8220;As Voltas de um Andarilho&#8221; por Teresa S\u00e1 Couto"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\">As Voltas de um Andarilho \u2013 Fragmentos da vida e obra de Jos\u00e9 Afonso de Viriato Teles: eis um documento raro sobre um sonho agarrado \u00e0 vida concreta, firmado no telurismo portugu\u00eas e bra\u00e7os estendidos a outros lugares do mundo onde despontava a utopia; uma voz sobre uma das vozes da resist\u00eancia ao fascismo, que rasgou as sombras e iluminou quem nelas vivia; um di\u00e1logo entre gera\u00e7\u00f5es sobre \u00abo que faz falta\u00bb, o idealismo, a persist\u00eancia na luta pela Liberdade.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><img id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5413745292853550034\" style=\"cursor: pointer; display: block; height: 250px; margin-bottom: 10px; margin-left: auto; margin-right: auto; margin-top: 0px; text-align: center; width: 388px;\" src=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_uSakL4fZ7Cs\/SyF8qRz6m9I\/AAAAAAAAA80\/PCRSeYo9qjw\/s400\/zeca_vt.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/p>\n<div style=\"text-align: center;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-size: small;\">Viriato Teles e Jos\u00e9 Afonso (1980)<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: center;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\u00abMais uma vez, a luz. Mas aqui, desta vez, sem misticismo. Para o Viriato tratou-se s\u00f3 de erguer a l\u00e2mpada sobre as extraordin\u00e1rias fun\u00e7\u00f5es do Zeca, e nisso encontrar quem n\u00f3s temos saudades de ser\u00bb, diz S\u00e9rgio Godinho no Pref\u00e1cio titulado \u00abA que dist\u00e2ncia est\u00e1 o Zeca?\u00bb. E luz \u00e9 o substantivo genes\u00edaco que nomeia esta obra alagada de mem\u00f3ria, que palavras emiss\u00e1rias e imagens perpetuam, para grande felicidade nossa. Na base, uma segura, minuciosa e depurada investiga\u00e7\u00e3o da vida de Jos\u00e9 Afonso, que casa factos reais com lugares interiores, s\u00f3 mensur\u00e1veis pelo tempo, porque \u00e9 a narra\u00e7\u00e3o do tempo que aqui encontramos, o tempo social, pol\u00edtico, insurrecto. Depois, a mestria da composi\u00e7\u00e3o, marca inilud\u00edvel da escrita de Viriato Teles, que transforma entrevistas e reportagens em edif\u00edcios sensoriais e de comprometimento \u00edmpar com o leitor.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Editada em 1999, e esgotad\u00edssima, a obra \u00e9 republicada pela Ass\u00edrio &amp; Alvim \u00abcom algumas actualiza\u00e7\u00f5es, correc\u00e7\u00f5es e acrescentos\u00bb, assim dito por Viriato Teles. Clara \u00e9 tamb\u00e9m a miss\u00e3o que o jornalista e escritor cumpre soberanamente: \u00abparticipar, tanto quanto poss\u00edvel, na luta contra o esquecimento, que \u00e9 como se sabe um dos v\u00edcios portugueses mais comuns\u00bb.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-style: italic; font-weight: bold;\">A voz e o legado<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m da hist\u00f3ria da vida de Jos\u00e9 Afonso, Viriato Teles transmite-nos um exemplo de vida de quem fez do compromisso com o seu tempo uma forma de se manter vivo. Um exemplo testemunhado por Viriato, pelo estreito contacto com Zeca, documentado nas entrevistas que lhe fez e nos encontros \u00absem marca\u00e7\u00e3o nem \u201cagenda\u201d pr\u00e9via, ao sabor dos acasos e das lutas\u00bb.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Desvenda-se na raiz o homem nascido para encarnar uma aspira\u00e7\u00e3o que tatuou numa exist\u00eancia andarilha, mobilizado pelo apelo solid\u00e1rio do Outro, na demanda da \u201cirmandade\u201d. O \u00abtrovador de muitos sonhos\u00bb, que nos anos 60, em Coimbra, criava baladas e \u00ababria uma revolu\u00e7\u00e3o musical e po\u00e9tica que abalou a estrutura da can\u00e7\u00e3o ligeira portuguesa\u00bb, cedo ter\u00e1 percebido que a m\u00fasica seria uma forma de chegar \u00e0s popula\u00e7\u00f5es. A esta juntou o gosto de \u00abensinar os filhos dos outros\u00bb, com a lecciona\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria e o envio de recados atrav\u00e9s das aulas.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\u00abUm provocador, por instinto\u00bb, refere Viriato Teles. \u00abA m\u00fasica \u00e9 comprometida quando o m\u00fasico, como cidad\u00e3o, \u00e9 um homem comprometido\u00bb, e \u00abo que \u00e9 preciso \u00e9 criar desassossego\u00bb; \u00abacima de tudo, \u00e9 preciso agitar, n\u00e3o ficar parado, ter coragem, quer se trate de m\u00fasica ou de pol\u00edtica. E n\u00f3s, neste pa\u00eds, somos t\u00e3o pouco corajosos que, qualquer dia, estamos reduzidos \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de \u201chomenzinhos\u201d e \u201cmulherzinhas\u201d. Temos \u00e9 que ser gente, p\u00e1!\u00bb, diz Zeca, regista-o Viriato, dizendo-nos tamb\u00e9m que Zeca se esquivava constantemente a falar de m\u00fasica, sendo ela o ponto de partida para outras divaga\u00e7\u00f5es:<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\u00abPraticamente nunca canto por gosto\u00bb, diz Zeca em 1980, \u00abPrefiro estudar, agradar-me-ia tirar outro curso, \u00e0s vezes at\u00e9 me passa pela cabe\u00e7a que gostava de mudar de personalidade, como as personagens de Pirandello\u00bb. Eram (e s\u00e3o) caminhos de um homem livre que \u00abvive na recusa do oportunismo, na an\u00e1lise permanente das suas posi\u00e7\u00f5es, na interroga\u00e7\u00e3o constante\u00bb, portador da consci\u00eancia contra o conformismo, \u00abum verdadeiro e incorrig\u00edvel independente\u00bb; era o timbre de um homem livre, que afirmou ser o seu pr\u00f3prio \u201ccomit\u00e9 central\u201d, que decidiu, em 1985, apoiar a candidatura de Maria de Lurdes Pintassilgo \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, que apoiou as lutas anti-imperialistas na Am\u00e9rica Latina, que se ligou a \u00abgrupos de apoio \u00e0 Reforma Agr\u00e1ria, nomeadamente na Alemanha e na Holanda\u00bb e fez parte do Comit\u00e9 Central de Apoio \u00e0 Frente Polis\u00e1rio.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Com a destreza que lhe \u00e9 caracter\u00edstica, Viriato Teles capta e regista em breves linhas a s\u00edntese perfeita do homem Jos\u00e9 Afonso: Zeca, na sua casa em Azeit\u00e3o, \u00absimultaneamente bem-disposto e mordaz, por vezes at\u00e9 impiedoso\u201d, perante o \u201cperguntador\u201d\u00bb, entre a viola, a um canto, um retrato de Che Guevara, na parede e \u00abuma faian\u00e7a com o texto de Gr\u00e2ndola Vila Morena\u00bb, a encher o espa\u00e7o todo.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\u00c9 sobre este homem que, com alguma vergonha pela iniquidade lusa, vem a li\u00e7\u00e3o da Galiza: a grande homenaxe, uma \u00abfesta rubra, viva e alegre\u00bb, em Maio de 1987, \u201cum testemunho de solidariedade\u201d, uma li\u00e7\u00e3o que culminou, em Maio de 2009, com a inaugura\u00e7\u00e3o, em Santiago de Compostela, do Parque Jos\u00e9 Afonso, perto do local onde em 10 de Maio de 1972 Zeca cantou pela primeira vez em p\u00fablico Gr\u00e2ndola Vila Morena.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Por c\u00e1, a intemporalidade das suas mensagens clareia-se no interesse das novas gera\u00e7\u00f5es de m\u00fasicos e nas constantes vers\u00f5es das suas cantigas. Na Discografia Anotada do autor de \u201cOs Filhos da Madrugada\u201d, Viriato Teles mostra-nos o \u00abZeca para al\u00e9m de Zeca\u00bb, o registo dos int\u00e9rpretes de Zeca at\u00e9 \u00e0 actualidade, desde Adriano Correia de Oliveira, que interpretou a Balada da Esperan\u00e7a, em 1961, at\u00e9 R\u00e3o Kyao, com os temas \u201cBalada de Outono\u201d e \u201cMenino d\u2019Oiro\u201d, de 2009.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><strong>Teresa S\u00e1 Couto<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">As Voltas de um Andarilho \u2013 Fragmentos da vida e obra de Jos\u00e9 Afonso<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Viriato Teles, Ass\u00edrio &amp; Alvim, 2009<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/orgialiteraria.com\/?p=1466\">Retirado do blogue Orgia Liter\u00e1ria<\/a><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As Voltas de um Andarilho \u2013 Fragmentos da vida e obra de Jos\u00e9 Afonso de Viriato Teles: eis um documento raro sobre um sonho agarrado \u00e0 vida concreta, firmado no telurismo portugu\u00eas e bra\u00e7os estendidos a outros lugares do mundo onde despontava a utopia; uma voz sobre uma das vozes da resist\u00eancia ao fascismo, que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":9368,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[93,86,105],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9367"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9367"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9367\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9368"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9367"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9367"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9367"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}