{"id":9064,"date":"2009-05-08T21:10:00","date_gmt":"2009-05-08T21:10:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=9064"},"modified":"2022-03-05T15:30:21","modified_gmt":"2022-03-05T15:30:21","slug":"testemunho-de-francisco-colaco-sobre-a-passagem-de-jose-afonso-por-aljustrel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/testemunho-de-francisco-colaco-sobre-a-passagem-de-jose-afonso-por-aljustrel\/","title":{"rendered":"Jos\u00e9 Afonso por Aljustrel"},"content":{"rendered":"<p>Caros amigos de Jos\u00e9 Afonso,<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">Procurando no google informa\u00e7\u00f5es sobre o Externato D. Filipa de Vilhena de Aljustrel, descobri o vosso blogue. A passagem de Jos\u00e9 Afonso como docente por aquele col\u00e9gio particular foi t\u00e3o ef\u00e9mera que leva a alguns autores e bi\u00f3grafos a situ\u00e1-la incorrectamente do ponto de vista cronol\u00f3gico. Tenho constatado essa falha nalgumas publica\u00e7\u00f5es e textos. Eu fui um dos alunos priviligiados desse hist\u00f3rico col\u00e9gio, fundado no in\u00edcio da d\u00e9cada de 50 do s\u00e9culo passado, pela Dr\u00aa Am\u00e9lia Palma Brito, licenciada em germ\u00e2nicas, e o Eng\u00ba Tec. de Qu\u00edmica Francisco Serrano Gordo. A sua funda\u00e7\u00e3o, que na \u00e9poca constitu\u00edu um empreendimento arrojado, devido \u00e0s dificuldades econ\u00f3micas dos promotores e aos exigentes requisitos impostos pelo Minist\u00e9rio para a sua legaliza\u00e7\u00e3o, visto que se tratavam de cidad\u00e3os n\u00e3o gratos ao Regime, representou uma grande oportunidade para os filhos de uma classe m\u00e9dia local ter acesso ao ensino secund\u00e1rio. Nasci no in\u00edcio de 1944, entrei para o Col\u00e9gio com 10 anos, no ano lectivo de 1954\/55. Foi num belo dia de Outubro, no in\u00edcio do ano lectivo de 1957\/58, portanto no meu 4.\u00ba ano, que nos aparece um j\u00f3vem professor de cabelos encaracolados, de \u00f3culos de miope, com um sorriso af\u00e1vel, descontra\u00eddo, que se sentava em cima das nossas carteiras, com uma linguagem e um poder de comunica\u00e7\u00e3o inusitados, que encantavam as nossas aulas de Geografia e Hist\u00f3ria. O contraste era demais evidente com a pedagogia tradicional dos outros professores a que est\u00e1vamos habituados. E naquele col\u00e9gio n\u00e3o havia a austeridade que existia noutros estabelecimentos de ensino cong\u00e9neres! N\u00e3o nos esque\u00e7amos que viv\u00edamos em Aljustrel, vila mineira alentejana de fortes tradi\u00e7\u00f5es de luta e de irrever\u00eancia!<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Mas esse encanto foi infelizmente sol de pouca dura, pois passado cerca de um m\u00eas, fomos brutalmente surpreendidos com o an\u00fancio da sua partida intempestiva, facto que causou naturalmente uma enorme decep\u00e7\u00e3o para todos n\u00f3s. Com efeito o Dr. Jos\u00e9 Afonso, como na altura o trat\u00e1vamos, embora ele n\u00e3o tivesse ainda concluido a  licenciatura, com a sua singularidade rapidamente grangeou a nossa simpatia. Nessa \u00e9poca, para vos dar uma no\u00e7\u00e3o de escala, o concelho de Aljustrel tinha uma popula\u00e7\u00e3o de 17.535 h, dos quais residiam na freguesia de Aljustrel 9.560 h, nas Minas, ent\u00e3o exploradas por uma companhia belga,  trabalhavam cerca de 1.000 oper\u00e1rios e quadros administrativos, o Col\u00e9gio era frequentado, do 1.\u00ba ao 5.\u00ba ano, por cerca de 100 alunos! Podiam-se contar pelos dedos de uma m\u00e3o os alunos que eram filhos de oper\u00e1rios&#8230;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A partida do jovem professor, constitu\u00edu uma manifesta\u00e7\u00e3o expont\u00e2nea de simpatia por parte dos alunos, que o acompanharam em massa, numa manh\u00e3 de triste mem\u00f3ria, \u00e0 esta\u00e7\u00e3o de C.F. de Aljustrel, ent\u00e3o chefiada pelo Sr. Tonicha, pai do cantor\/compositor\/trovador Francisco Naia (tamb\u00e9m seu ef\u00e9mero aluno, mas que ele exageradamente fabula na sua auto-biografia&#8230;)! A nossa decep\u00e7\u00e3o foi tanto maior quando descobrimos depois que ele era um dos melhores int\u00e9rpretes do fado coimbr\u00e3o. Ele foi de Aljustrel directamente para a Escola Industrial\/Comercial de Lagos, certamente com melhores vantagens. No entanto nunca cheg\u00e1mos a conhecer as causas verdadeiras da sua abalada. Ele estava a atravessar um per\u00edodo dif\u00edcil da sua vida (separa\u00e7\u00e3o da sua companheira?). Quanto \u00e0 exactid\u00e3o do ano lectivo (1957\/58), n\u00e3o tenho qualquer d\u00favida, pois lembro-me perfeitamente da sala de aula do 4\u00ba ano (o col\u00e9gio tinha apenas 5, cada uma correspondendo, durante anos \u00e0 fio, a cada um dos respectivos anos escolares). Recordo-me que est\u00e1vamos no ano lectivo que foi terminar com um per\u00edodo de muita agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, as campanhas eleitorais de Arlindo Vicente e Humberto Delgado, que abalaram profundamente o Regime, e as ruas de Aljustrel constitu\u00edram um palco desse alvoro\u00e7o, com manifesta\u00e7\u00f5es massivas da popula\u00e7\u00e3o aquando da passagem de ambos os candidatos e as pris\u00f5es que se registaram nas v\u00e9speras do &#8220;acto eleitoral&#8221; (queria dizer far\u00e7a). Ent\u00e3o os alunos mais velhos do col\u00e9gio do 5.\u00ba ano j\u00e1 discutiam &#8220;pol\u00edtica&#8221; com os professores situacionistas (alguns filhos de oposicionistas, v\u00e1rias vezes presos, dos quais alunos me recordo do meteorologista Olavo Rasquinho e do Edmundo Silva, ex-Sheik).<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O reencontro do Zeca com as gentes de Aljustrel d\u00e1-se anos mais tarde na B\u00e9lgica, com alguns exilados pol\u00edticos, fundadores da APEB (Associa\u00e7\u00e3o de Emigrados na B\u00e9lgica), tais como Francisco Rasquinho, Ant\u00f3nio Palma Brito e Jos\u00e9 Soares. Depois do 25 de Abril, curiosamente, ele s\u00f3 tem oportunidade de actuar uma vez em Aljustrel, num espect\u00e1culo onde cantaram e tocaram os grupos corais dos mineiros e da C\u00e2mara, a Filarm\u00f3nica, o Zeca e o Fausto (o Vitorino encontrava-se ent\u00e3o numa tourn\u00e9e na Jugosl\u00e1via com o grupo coral do Redondo). Este espect\u00e1culo, organizado pela Sociedade Musical Aljustrelense, da qual eu era presidente, realizou-se no jardim p\u00fablico, numa tarde de forte can\u00edcula do dia 23 de Julho de 1978. Surpreendente e tristemente a ades\u00e3o do p\u00fablico n\u00e3o correspondeu \u00e0s espectativas, e a can\u00edcula n\u00e3o pode explicar tudo&#8230; Que contraste  com a manifesta\u00e7\u00e3o de carinho que os seus alunos lhe testemunharam \u00e0 sua despedida de Aljustrel, 20 anos antes! Mas nem tudo foi negativo, depois de um jantar com v\u00e1rios casais amigos, subimos \u00e0 colina do santu\u00e1rio de Nossa Senhora do Castelo, que fica no alto da vila, \u00fanico local onde nessa noite se podia respirar, partilh\u00e1mos numa fraterna tert\u00falia uns momentos inolvid\u00e1veis de poesia, com poetas locais, Manuel Edmundo da Silva, Jo\u00e3o dos Santos, Ant\u00f3nio Cardoso Ferreira. Recordo-me que tamb\u00e9m esteve presente o cineasta Rui Sim\u00f5es que, pouco tempo antes, tinha rodado em Aljustrel, algumas cenas do &#8220;Bom Povo Portugu\u00eas&#8221;. Nesse dia o Zeca e a Z\u00e9lia pernoitaram em minha casa.<\/div>\n<p>S\u00f3 mais tarde, em Setembro de 1984, voltei a encontrar o Zeca em Tavira, na companhia do Pedro, mas j\u00e1 muito debilitado pela doen\u00e7a que o minava.<\/p>\n<p>Aqui deixo o meu testemunho da breve passagem e rela\u00e7\u00e3o do grande Zeca com Aljustrel.<\/p>\n<p>Cordiamente<\/p>\n<p>Francisco Cola\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Caros amigos de Jos\u00e9 Afonso, Procurando no google informa\u00e7\u00f5es sobre o Externato D. Filipa de Vilhena de Aljustrel, descobri o vosso blogue. A passagem de Jos\u00e9 Afonso como docente por aquele col\u00e9gio particular foi t\u00e3o ef\u00e9mera que leva a alguns autores e bi\u00f3grafos a situ\u00e1-la incorrectamente do ponto de vista cronol\u00f3gico. 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