{"id":9006,"date":"2009-04-20T13:07:00","date_gmt":"2009-04-20T13:07:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=9006"},"modified":"2021-12-17T11:39:07","modified_gmt":"2021-12-17T11:39:07","slug":"onde-esta-a-grandola-de-jose-afonso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/onde-esta-a-grandola-de-jose-afonso\/","title":{"rendered":"Onde est\u00e1 a Gr\u00e2ndola de Jos\u00e9 Afonso?"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">Ainda \u00e9 a terra da Sociedade fraternidade oper\u00e1ria grandolense, mas O edif\u00edcio est\u00e1 encerrado h\u00e1 dois anos<\/p>\n<p>Havia duzentas pessoas na sala. Entre elas um agente da PSP. Fardado. Homem para n\u00e3o se abespinhar quando Jos\u00e9 Afonso cantou \u2018Os Vampiros\u2019, senhores \u00e0 for\u00e7a e mandadores sem Lei. Escondidos sob o palco palpitavam os livros que a Censura proibira \u2013 \u2018Subterr\u00e2neos da Liberdade\u2019, de Jorge Amado, partilhando p\u00e1ginas com \u2018O Caminho Fica Longe\u2019, de Verg\u00edlio Ferreira.<\/p>\n<p>Na noite de 17 de Maio 1964, no sal\u00e3o de festas da Sociedade Musical Fraternidade Oper\u00e1ria Grandolense, Jos\u00e9 Afonso cantou para trabalhadores da ind\u00fastria corticeira, camponeses, militantes do PCP na clandestinidade e um pol\u00edcia pouco convicto. O apre\u00e7o, m\u00fatuo, foi tal que, no fim do espect\u00e1culo, escreveu, numa folha de papel alma\u00e7o, &#8216;Gr\u00e2ndola, vila morena, terra da fraternidade&#8217; \u2013 oper\u00e1ria grandolense.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m sabe onde p\u00e1ra a folha com o poema original da can\u00e7\u00e3o que seria senha do 25 de Abril de 1974. &#8216;Desapareceu&#8217;, lamenta Maria Jos\u00e9 Pucarinho, professora de M\u00fasica na escola secund\u00e1ria e actual presidente da colectividade, tamb\u00e9m conhecida por \u2018M\u00fasica Velha\u2019, que Jos\u00e9 Afonso descreveu como &#8216;um local obscuro, quase sem estruturas, com uma biblioteca de evidentes objectivos revolucion\u00e1rios e uma disciplina aceite entre todos os membros, revelando j\u00e1 uma grande consci\u00eancia e maturidade pol\u00edticas&#8217;.<\/p>\n<p>Os livros que faziam parte da biblioteca est\u00e3o encaixotados. O sal\u00e3o onde naquela noite, h\u00e1 quase 45 anos, Zeca esbo\u00e7ou \u2018Gr\u00e2ndola\u2019 est\u00e1 vazio. Esquecidas no ch\u00e3o ficaram folhas de pauta onde saltitam semicolcheias de m\u00e3os dadas. J\u00e1 parou de chover l\u00e1 fora. H\u00e1 esperan\u00e7a de que a \u00e1gua cesse de correr c\u00e1 dentro. Maria Jos\u00e9 Pucarinho n\u00e3o disfar\u00e7a o desalento. &#8216;\u00c9 uma pena. Temos a escola de m\u00fasica, com 72 alunos, a funcionar aos s\u00e1bados na Universidade da Terceira Idade e a banda filarm\u00f3nica, com 47 m\u00fasicos, ensaia num antigo restaurante chin\u00eas.&#8217; \u00c9 assim h\u00e1 quase dois anos, desde que o edif\u00edcio, um antigo hospital, constru\u00eddo no s\u00e9culo XVII, encerrou para obras.<\/p>\n<p>Nada e criada em Gr\u00e2ndola, Maria Jos\u00e9 n\u00e3o conheceu pessoalmente Jos\u00e9 Afonso. Tinha oito anos quando se deu o 25 de Abril. &#8216;O meu pai estava em Marrocos. Eu tinha ficado com a minha m\u00e3e em casa. Lembro-me da euforia e do p\u00e2nico dela. N\u00e3o sab\u00edamos o que ia acontecer a partir da\u00ed.&#8217; Quando, de manh\u00e3, m\u00e3e e filha acordaram, o Pa\u00eds insone j\u00e1 tinha ouvido &#8216;Gr\u00e2ndola, vila morena, terra da fraternidade&#8217;. Passou \u00e0s 02h00 no programa \u2018Limite\u2019, da R\u00e1dio Renascen\u00e7a. Era o sinal de arranque para as tropas revoltosas mais distantes de Lisboa. O golpe corria bem.<\/p>\n<p>Na altura, Celso Nunes trabalhava como pintor em Paris, para onde emigrara em busca de melhor vida em 1964. &#8216;Fui \u00e0 banca comprar jornais e soube do que tinha acontecido, talvez mesmo antes de muitos portugueses que aqui estavam.&#8217; Regressou em 1979, ainda a tempo de conhecer o homem que celebrizara Gr\u00e2ndola. &#8216;Encontrei-o em \u00c9vora e depois em Set\u00fabal. Ele j\u00e1 estava doente.&#8217; Tanto tempo depois, ouvir \u2018Gr\u00e2ndola\u2019 continua a arrepi\u00e1-lo. &#8216;\u00c9 diferente para n\u00f3s, que sabemos porqu\u00ea e para quem ele escreveu aquele poema&#8217;, emociona-se Celso, que voltou para reparar cal\u00e7ado num estabelecimento aberto na rua das lojas.<\/p>\n<p>H\u00e1-de ser diferente tamb\u00e9m para Pedro Martins da Costa, de 66 anos, ex-vice-presidente da C\u00e2mara, que trouxe Jos\u00e9 Afonso \u00e0 vila. &#8216;Em 1964, eu estava em Lisboa, na tropa, e como eu havia mais gente da Fraternidade Oper\u00e1ria que l\u00e1 estava. Reun\u00edamos em tert\u00falia no caf\u00e9 Gelo e no Martinho, n\u00e3o o da Arcada, um estabelecimento com bilhar que havia nos Restauradores.&#8217; Entre o Gelo e o Martinho surgiu a ideia de convidar Carlos Paredes e Jos\u00e9 Afonso para um concerto. Escreveram-lhe para Faro, onde Jos\u00e9 Afonso era professor. &#8216;Em 1965 voltou e muitas vezes depois \u2013 gostava do conv\u00edvio e do ambiente igualit\u00e1rio da colectividade. T\u00e3o igualit\u00e1rio, dizia ele, que n\u00e3o se percebia quem era o vogal e quem era o presidente.&#8217;<\/p>\n<p>Na pra\u00e7a para onde se inclina a Sociedade Musical Fraternidade Oper\u00e1ria Grandolense existe actualmente um hotel de tr\u00eas estrelas, uma ludoteca e um centro de est\u00e9tica canina. Os tempos de fervor revolucion\u00e1rio parecem encontrar eco apenas no centro de trabalho do PCP, amea\u00e7ado de despejo, como reza uma faixa colocada a quase toda a largura.<\/p>\n<p>Montado na sua bicicleta, com caixote de pl\u00e1stico atado atr\u00e1s, Adriano Ant\u00f3nio Damasceno est\u00e1 de visita \u00e0 vila. &#8216;Moro numa fazenda l\u00e1 em baixo, onde tenho um gadozinho e os meus canitos.&#8217; O cantoneiro de limpeza reformado almo\u00e7a todos os dias no refeit\u00f3rio da C\u00e2mara Municipal de Gr\u00e2ndola. &#8216;T\u00eam l\u00e1 mulheres antigas a fazer o comer e eu gosto da comida antiga, com carne e couves&#8217;, explica, franzindo os olhos sob o bon\u00e9 de fazenda. N\u00e3o lhe faltam as palavras, capazes de enfrentar o sil\u00eancio mantido pelo trio de idosos que, ao longo da tarde, se desloca lentamente atr\u00e1s dos raios de Sol. &#8216;H\u00e1 aqui muitos velhotes. Em algumas aldeias j\u00e1 s\u00f3 h\u00e1 antigos&#8217;, nota Adriano. Era nesses tempos \u2013 &#8216;antigos&#8217; \u2013 que &#8216;a \u2018Gr\u00e2ndola\u2019 se ouvia muito&#8217;. Hoje n\u00e3o. &#8216;Hoje s\u00f3 se ouvem os cantores modernos.&#8217;<\/p>\n<p>Depois do 25 de Abril houve ocupa\u00e7\u00e3o de herdades. Formaram-se cooperativas de produ\u00e7\u00e3o \u2013 uma das quais corticeira, ligada \u00e0 Reforma Agr\u00e1ria. Mas, mais do que camponeses, os grandolenses sempre foram comerciantes e oper\u00e1rios corticeiros. \u00c9 ainda evidente o peso do com\u00e9rcio, agora com um toque multicultural resultante da instala\u00e7\u00e3o de lojas de chineses. O futuro parece, contudo, escrito nas ag\u00eancias imobili\u00e1rias. &#8216;Agora \u00e9 a ind\u00fastria da constru\u00e7\u00e3o civil que mais emprego d\u00e1&#8217;, observa Pedro Martins da Costa, que at\u00e9 h\u00e1 bem pouco tempo manteve aberta uma loja de relojoaria. Gr\u00e2ndola est\u00e1 \u00e0 espera dos grande empreendimentos imobili\u00e1rios e tur\u00edsticos que prometem fazer render a beleza da Costa Azul. Tr\u00f3ia (Grupo Sonae) \u00e9 ali ao p\u00e9. O Carvalhal (Grupo Esp\u00edrito Santo) n\u00e3o fica longe. Melides (grupo su\u00ed\u00e7o Volkart) \u00e9 a dois passos.<\/p>\n<p>Fim de tarde em Gr\u00e2ndola.Tocou para a sa\u00edda. Pelo Jardim 1\u00ba de Maio, que j\u00e1 foi 28 de Maio, caminham jovens em grupos. Balan\u00e7am os livros com despreocupa\u00e7\u00e3o. Sara, aluna do 11\u00ba ano, j\u00e1 soube a hist\u00f3ria de \u2018Gr\u00e2ndola, Vila Morena\u2019. &#8216;Era tipo c\u00f3digo, uma coisa esquisita.&#8217; Nem de prop\u00f3sito, passa perto o professor de Hist\u00f3ria. Ela encolhe-se e brinca: &#8216;Ai se ele soubesse que eu j\u00e1 n\u00e3o me lembro&#8230;&#8217; Mesmo sem saber exactamente o significado da can\u00e7\u00e3o, sente um certo orgulho pois \u00e9 por causa dela que &#8216;o pessoal de Set\u00fabal conhece Gr\u00e2ndola&#8217; e para l\u00e1 ruma a fim de celebrar o 25 de Abril. De qualquer forma, do que Sara, franja morena e unhas vermelhas, mais gostava era que houvesse uma discoteca na vila que deu nome \u00e0 can\u00e7\u00e3o. &#8216;Temos de ir a Alc\u00e1cer ou a Santiago&#8230; s\u00f3 l\u00e1 \u00e9 que h\u00e1 discotecas.&#8217; Em 1964, quando pela primeira vez l\u00e1 esteve, Jos\u00e9 Afonso viu em cada esquina de Gr\u00e2ndola um amigo e em cada rosto igualdade. Em Abril de 2009, Sara assume que s\u00f3 est\u00e1 desejando sair dali.<\/p>\n<p>Isabel Ramos &#8211; <a href=\"http:\/\/www.correiomanha.pt\/noticia.aspx?contentid=EBDF13BF-1E66-4B88-8D67-BA1AA5C18945&amp;channelid=00000019-0000-0000-0000-000000000019\">Correio da Manh\u00e3<\/a><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ainda \u00e9 a terra da Sociedade fraternidade oper\u00e1ria grandolense, mas O edif\u00edcio est\u00e1 encerrado h\u00e1 dois anos Havia duzentas pessoas na sala. Entre elas um agente da PSP. Fardado. Homem para n\u00e3o se abespinhar quando Jos\u00e9 Afonso cantou \u2018Os Vampiros\u2019, senhores \u00e0 for\u00e7a e mandadores sem Lei. 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