{"id":8719,"date":"2008-08-04T21:06:00","date_gmt":"2008-08-04T21:06:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=8719"},"modified":"2021-12-17T11:39:29","modified_gmt":"2021-12-17T11:39:29","slug":"jose-afonso-por-daniel-abrunheiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/jose-afonso-por-daniel-abrunheiro\/","title":{"rendered":"Jos\u00e9 Afonso por Daniel Abrunheiro"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">1<br \/>A como\u00e7\u00e3o \u00e9 o mais evidente sinal de que tamb\u00e9m o cora\u00e7\u00e3o pode ser inteligente.<br \/>Se hoje (se ainda hoje) nos comovemos perante a voz, a figura e o exemplo de um tal Jos\u00e9 Afonso Cerqueira dos Santos \u2013 provavelmente, \u00e9 porque nos sucede sermos portadores de um cora\u00e7\u00e3o inteligente, de uma alma com mem\u00f3ria e, ainda, de algo a que se pode (e deve) chamar gratid\u00e3o.<\/p>\n<p>2<br \/>O tal senhor chamado Jos\u00e9 Afonso Cerqueira dos Santos tornou-se no Zeca. O Zeca de todos n\u00f3s. O Zeca como s\u00f3 ele. Nasceu em Aveiro no dia 2 de Agosto de 1929 e come\u00e7ou a resistir praticamente desde ent\u00e3o. Dizem que morreu no dia 23 de Fevereiro de 1987. A pessoa f\u00edsica, sim: morreu. O artista, o m\u00fasico, o cantor, o poeta e o compositor, esses todos que ele era em um s\u00f3 corpo, esses n\u00e3o morreram. N\u00f3s somos, hoje e aqui, amanh\u00e3 e acol\u00e1, a mais fundamentada prova de vida de Zeca Afonso.<\/p>\n<p>3<br \/>Poucos homens e poucas mulheres podem ser recordados como t\u00e3o altos. Poucas mulheres e poucos homens fizeram t\u00e3o bem rimar exist\u00eancia com resist\u00eancia. O Zeca Afonso foi sempre, \u00e9 na mesma e sempre ser\u00e1 um p\u00e1ssaro que nos falava de gaiolas. Um poeta do \u201craio de sol queimado\u201d. Popular sem populismo, libert\u00e1rio sem libertinagem, consciente da dupla condi\u00e7\u00e3o da vida: breve no corpo, perp\u00e9tua na voz. Temos de aprender a ouvi-lo de novo: ele continua a dizer o dia de hoje.<\/p>\n<p>4<br \/>Para o fim da vida, na \u00faltima das suas casas, tinha pelas paredes o rasto gr\u00e1fico do momento mais alto da sua e da nossa vida: o 25 de Abril de 1974. Foi dele que veio a madrugada cantora, a aurora marchante, os compassos morenos da primeira cidadania que, ao fim de tantos anos escuros, nos foi permitida. Zeca Afonso n\u00e3o era, n\u00e3o foi e n\u00e3o pode ser ouvido como a \u201ccassete\u201d do 25 de Abril. Jos\u00e9 Afonso \u00e9 o 25 de Abril \u2013 mais alguns homens e mais algumas mulheres.<\/p>\n<p>5<br \/>Das can\u00e7\u00f5es mais imediatas \u00e0s de maior densidade sem\u00e2ntica, o Zeca Afonso devolveu \u00e0 l\u00edngua cantada e \u00e0 m\u00fasica popular aquilo que, depois dele, lhes vem sendo indecorosamente roubado: a dignidade expressiva de um cora\u00e7\u00e3o inteligente e de um pensamento solid\u00e1rio. Ou seja: uma poesia e uma m\u00fasica que s\u00e3o, de facto e deveras, para todos.<\/p>\n<p>6<br \/>Da renova\u00e7\u00e3o da balada coimbr\u00e3 (a partir de novas ousadias harm\u00f3nicas, mel\u00f3dicas e l\u00edricas) \u00e0 inconfund\u00edvel obra pessoal dos discos posteriores, o Zeca Afonso \u00e9 sempre algu\u00e9m que nos trouxe algo para puro efeito de partilha. N\u00e3o h\u00e1 solid\u00e3o na m\u00fasica e na poesia de Jos\u00e9 Afonso. S\u00f3 h\u00e1 solidariedade. At\u00e9 porque nenhuma multid\u00e3o come\u00e7a sem se estar sozinho.<\/p>\n<p>7<br \/>Esquerda, extrema-esquerda, reviralho e revisionismo, direita e extrema-direita: todas as franjas do espectro pol\u00edtico-social do nosso Pa\u00eds, nos \u00faltimos 33 anos, continuam a ser tocadas pela gra\u00e7a magistral deste homem que queria tirar, do homem, o lobo do homem. A aparente facilidade da sua obra \u00e9, provavelmente, o \u00fanico engano que ele nos legou: a obra dele \u00e9 tudo menos f\u00e1cil. Mas \u00e9 de todos. Ele n\u00e3o ficou com ela s\u00f3 para ele. \u00c9 nossa.<\/p>\n<p>8<br \/>A gl\u00f3ria do Zeca Afonso n\u00e3o \u00e9 de pante\u00e3o nacional. N\u00e3o \u00e9 uma glor\u00edola de 10 de Junho, de verso e reverso de medalha. N\u00e3o aceitou nunca ser general. Era um homem de p\u00e3o, paz e pombas: era um portugu\u00eas, como h\u00e1 j\u00e1 t\u00e3o poucos. Pelos menos, com mem\u00f3ria de s\u00ea-lo: portugu\u00eas n\u00e3o aduaneiro, n\u00e3o mission\u00e1rio, n\u00e3o superior a ningu\u00e9m. \u00c9 uma estrela \u2013 certamente: mas uma estrela humilde. E pessoal. E transmiss\u00edvel.<\/p>\n<p>9<br \/>Depois do 25 de Abril fundador da nossa Liberdade, Jos\u00e9 Afonso Cerqueira dos Santos n\u00e3o chegou a existir fisicamente sequer 13 anos. Resta-nos, dele, a pedra a\u00e9rea, a pedra leve, a pedra definitiva dos seus versos humanistas e humanizadores. Isso e a estranha pureza da sua m\u00fasica nova, das suas can\u00e7\u00f5es em que \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil reconhecer a grandeza. O legado do Zeca \u00e9 o canto livre, mo\u00e7o, resistente e l\u00facido. N\u00e3o \u00e9 para trautear. \u00c9 para cantar mesmo.<\/p>\n<p>10<br \/>N\u00e3o h\u00e1 r\u00f3tulos a colar ao corpo deste oper\u00e1rio que hoje recordamos. O Zeca est\u00e1 para al\u00e9m de qualquer autocolante. N\u00e3o h\u00e1 gaveta onde o possamos arquivar sem risco de uma amn\u00e9sia mort\u00edfera. Por isso o celebramos em vida. Dizem que morreu h\u00e1 duas d\u00e9cadas. Talvez o portador de bilhete de identidade tenha cedido \u00e0 doen\u00e7a. O que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, de modo algum, \u00e9 renegar a evid\u00eancia da sua presen\u00e7a em cada madrugada. A noite s\u00f3 vem se nos esquecermos. Dele e de n\u00f3s.<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\"><a href=\"http:\/\/canildodaniel.blogspot.com\/2007\/04\/jos-afonso.html?showComment=1177669620000\"><\/p>\n<p>Retirado daqui<\/a><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1A como\u00e7\u00e3o \u00e9 o mais evidente sinal de que tamb\u00e9m o cora\u00e7\u00e3o pode ser inteligente.Se hoje (se ainda hoje) nos comovemos perante a voz, a figura e o exemplo de um tal Jos\u00e9 Afonso Cerqueira dos Santos \u2013 provavelmente, \u00e9 porque nos sucede sermos portadores de um cora\u00e7\u00e3o inteligente, de uma alma com mem\u00f3ria e, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[77],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8719"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8719"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8719\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8719"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8719"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8719"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}