{"id":8644,"date":"2008-05-04T10:14:00","date_gmt":"2008-05-04T10:14:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=8644"},"modified":"2021-12-17T11:39:30","modified_gmt":"2021-12-17T11:39:30","slug":"como-a-toupeira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/como-a-toupeira\/","title":{"rendered":"Como a toupeira"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">H\u00e1 qualquer coisa de obsceno nos ecos medi\u00e1ticos \u2014 e, sobretudo, televisivos \u2014 suscitados pela passagem dos 20 anos sobre a morte de Jos\u00e9 Afonso (2 Agosto 1929 &#8211; 23 Fevereiro 1987). N\u00e3o se trata de recusar o seu lugar na hist\u00f3ria da m\u00fasica popular portuguesa do s\u00e9culo XX (de uma import\u00e2ncia, a meu ver, apenas igualada por figuras como Am\u00e1lia Rodrigues). Muito menos se pretende p\u00f4r em causa a sinceridade emocional e a riqueza hist\u00f3rica de muitas evoca\u00e7\u00f5es que, nos \u00faltimos dias, t\u00eam surgido nos mais diversos \u00f3rg\u00e3os de informa\u00e7\u00e3o. Permito-me, ali\u00e1s, sublinhar o trabalho de inventaria\u00e7\u00e3o e divulga\u00e7\u00e3o da(s) mem\u00f3ria(s) desenvolvido pela Associa\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 Afonso, com prolongamentos muito interessantes no respectivo blog.<br \/>O que est\u00e1 em causa \u00e9 de outra natureza. E decorre do pr\u00f3prio labor de apagamento e normaliza\u00e7\u00e3o que os valores dominantes no espa\u00e7o medi\u00e1tico t\u00eam imposto ao pa\u00eds. Assim, Jos\u00e9 Afonso (como muitas outras refer\u00eancias da nossa hist\u00f3ria cultural) est\u00e1 longe de ser um nome com uma presen\u00e7a regular no nosso quotidiano. Bem pelo contr\u00e1rio: a cultura dominante vive de uma banaliza\u00e7\u00e3o de todas as formas de consumo que, seja qual for a visibilidade que ciclicamente confere a determinadas obras, tende a favorecer atitudes de alheamento, indiferen\u00e7a e at\u00e9 desprezo em rela\u00e7\u00e3o a tudo que envolva algum valor patrimonial. Da\u00ed a obscenidade destes dias: as televis\u00f5es que programam horas infinitas de telenovelas (n\u00e3o exactamente com bandas sonoras de Jos\u00e9 Afonso&#8230;) e celebram a demagogia imediatista dos reality shows, s\u00e3o essas mesmas televis\u00f5es que p\u00f5em os seus pivots, com rostos muito graves e palavras muito oficiais, a exaltar as virtudes de Jos\u00e9 Afonso e da sua m\u00fasica&#8230; Algo soa a falso.<br \/>A situa\u00e7\u00e3o agrava-se atrav\u00e9s da pr\u00f3pria &#8220;politiza\u00e7\u00e3o&#8221; que, declaradamente ou n\u00e3o, tende a envolver a heran\u00e7a de Jos\u00e9 Afonso. Entendamo-nos: n\u00e3o h\u00e1 cantor mais pol\u00edtico que Jos\u00e9 Afonso. Mas \u00e9 um erro fulcral \u2014 isto \u00e9, cultural \u2014 pretender transform\u00e1-lo em pe\u00e7a incauta dos jogos florais da classe pol\u00edtica, por exemplo com a esquerda a querer fazer dele uma bandeira sua, ou a direita a tentar reduzi-lo a coisa abstracta e liofilizada.<br \/>O drama de tudo isto n\u00e3o \u00e9, repare-se, que Jos\u00e9 Afonso possa suscitar vis\u00f5es controversas ou at\u00e9 grandes clivagens ideol\u00f3gicas ou culturais. O drama enraiza-se num ambiente \u2014 cultural, medi\u00e1tico, televisivo \u2014 que congela as nossas mem\u00f3rias mais genu\u00ednas para, de vez em quando, apenas por obra e gra\u00e7a do calend\u00e1rio, as tirar da cartola para promover grandes festas e pequen\u00edssimas ideias. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil ser como a toupeira&#8230; que esburaca.<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<p>Texto retirado do <a href=\"http:\/\/sound--vision.blogspot.com\/2007\/02\/como-toupeira.html\">blogue <\/a>de Nuno Galopim e Jo\u00e3o Lopes<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 qualquer coisa de obsceno nos ecos medi\u00e1ticos \u2014 e, sobretudo, televisivos \u2014 suscitados pela passagem dos 20 anos sobre a morte de Jos\u00e9 Afonso (2 Agosto 1929 &#8211; 23 Fevereiro 1987). 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