{"id":8613,"date":"2008-04-26T15:34:00","date_gmt":"2008-04-26T15:34:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=8613"},"modified":"2021-12-17T11:39:31","modified_gmt":"2021-12-17T11:39:31","slug":"balada-de-outono-texto-de-maria-eduarda-barbosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/balada-de-outono-texto-de-maria-eduarda-barbosa\/","title":{"rendered":"Balada de Outono | Texto de Maria Eduarda Barbosa"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">Foi custoso chegar at\u00e9 aqui. Todos os dias, desde que partiste, n\u00e3o deixaste de estar comigo. Vezes sem conta te digo coisas lindas quando acabo de ler as tuas mensagens via CD.<br \/>Ontem, 5\u00aa feira,eu dizia ao Daniel que,no Ver\u00e3o passado,gostaria de ter\u00ab pegado em ti\u00bb e levar-te ao \u00abDi\u00e1rio do Minho\u00bb, mas que tinha medo,medo de me perder, medo de me encontrar\u2026Daniel de S\u00e1, uma alma sens\u00edvel que eu conheci nos caminhos da blogosfera, dos mares dos A\u00e7ores, disse-me que, al\u00e9m de nunca mais te ter ouvido desde que partiste, relatara-me um epis\u00f3dio, deveras pungente, aquando do fat\u00eddico dia e que passo a citar:\u00abQuando ele morreu, eu ouvi a not\u00edcia na r\u00e1dio, cheguei \u00e0 escola (minha mulher j\u00e1 estava na sala), e disse-lhe s\u00f3 isto:\u00abJ\u00e1 morreu.\u00bb Entretanto, tinha engolido umas l\u00e1grimas pelo caminho, poucos metros. Pelo que viram em mim e na reac\u00e7\u00e3o de Maria Alice, os seus alunos perguntaram: \u00abEra da fam\u00edlia da Sr\u00aa professora?\u00bb Ela, como n\u00e3o conseguia explicar melhor, respondeu que sim\u2026(raios, escrevi isto com um n\u00f3 na garganta e os olhos a humedecerem. N\u00e3o volto a falar do Zeca. Pelo menos com gente que goste dele tanto como tu, Dica, e n\u00e3o precise de que se o lembre.)\u00bb.<br \/>Andei o resto da tarde com este texto na cabe\u00e7a, no percurso que fiz ao Campus de Gualtar (U.Minho) para ver uma exposi\u00e7\u00e3o sobre Miguel Torga e fazer a inscri\u00e7\u00e3o num percurso torguiano ao Ger\u00eas em que fiz quest\u00e3o de me inscrever. O mesmo aconteceu no percurso que fiz at\u00e9 ao supermercado e no regresso a casa. O texto do Daniel n\u00e3o me sa\u00eda da cabe\u00e7a e fazia-me recuar. N\u00e3o quero, dizia. \u00c9 penoso tocar no Zeca, dizia para comigo. Como se pode tocar em algo que, mexendo, faz doer?<br \/>Tem de ser, algu\u00e9m me contariava, aqui, no \u00abterra\u00e7o\u00bb.<br \/>Pois bem, assim seja!<br \/>Na impossibilidade de n\u00e3o ter a grandeza suficiente para te elevar como mereces, h\u00e1 um per\u00edodo do ano em que eu te recordo demais\u2026o Outono!<br \/>O Outono leva-me a p\u00f4r tudo em causa; h\u00e1 como que um ciclone que p\u00f5e tudo fora do s\u00edtio. Depois passa, como todos os ciclones, como tudo aquilo que respira e se apaga, tamb\u00e9m. Aqui entras tu, Zeca.<br \/>Em Agosto passado, estavas no Espa\u00e7o Ferrer Correia, em Coimbra, e eu fui visitar-te. Como sabes, sou uma chata, ando sempre atr\u00e1s de ti. Conhe\u00e7o de cor as tuas mensagens musicais, as tuas poses na fotografia, as tuas charadas nos espect\u00e1culos ao vivo que fazia quest\u00e3o de n\u00e3o perder, o teu jeito de pegar no adufe em palco, a tua forma de falar para a \u00abmalta\u00bb. Tudo isso est\u00e1 comigo. N\u00e3o esque\u00e7o nunca. Assim como as tuas mem\u00f3rias que n\u00e3o caberiam aqui. Quero ficar por Coimbra, lembrar essa tarde em que te \u00abvi\u00bb. Estavas lindo, mais uma vez. E se h\u00e1 coisa que sempre me provocaste, foi arrepio-sempre! Desta vez foi enorme\u2026olha s\u00f3 o que me esperava\u2026! (\u2026E n\u00e3o consigo continuar\u2026!Bolas!).Dica, v\u00e1 l\u00e1!<br \/>\u2026\u00abAquela\u00bb que eu adoro, sabes? Estava em grande plano, bem guardada na vitrine e tu sabes como eu gosto de a cantar-\u00abBalada do Outono\u00bb!<br \/>N\u00e3o sei o que me deu. Fitei-te bem nos olhos e, sem mais nem porqu\u00ea, comecei a cant\u00e1-la:\u00ab\u00c1guas das fontes calai\/\u00f3 ribeiras chorai\/que eu n\u00e3o volto a cantar\/rios que v\u00e3o dar ao mar\/deixem meus olhos secar.\u00bb.N\u00e3o parei. Quando chego ao fim da letra, volto-me e reparo no Z\u00e9, de m\u00e3os nos bolsos, com um sorriso(aquele!)como poucas vezes lhe vejo!-De satisfa\u00e7\u00e3o, de prazer, de lembran\u00e7a, de orgulho\u2026parecia uma crian\u00e7a quando est\u00e1 a ser levada para o mundo da fantasia\u2026chorei e dei-me conta, mais uma vez de que, este homem, Jos\u00e9 Afonso, sem querer, p\u00f5e a brandura da gente a renascer, os sentidos a ferver.<br \/>\u00c9 que na poesia de Jos\u00e9 Afonso, encontramos \u00abnoites de l\u00e1grimas\u00bb, \u00abdias claros\u00bb que h\u00e3o-de vir, amores pueris, dor, gemido, alento, desalento, sol, lua, mar, rios, meninos, charlat\u00e3es, falsos profetas, \u00abvampiros\u00bb, povo, sempre povo, fraternidade, igualdade, \u00abgente igual por dentro, gente igual por fora\u2026\u00bb<br \/>Como prefaciou Urbano Tavares Rodrigues no LP-\u00abCantares do Andarilho\u00bb-(\u2026)Jos\u00e9 Afonso, trovador, \u00e9 o mais puro veio de \u00e1gua que torna o presente em futuro porque \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o, arranca a chama do amanh\u00e3.<br \/>No tumulto da contesta\u00e7\u00e3o, na marcha de m\u00e3os dadas, com flores entre os l\u00e1bios, \u00e9 ele a figura de proa, o arauto, o aedo, o humilde, o m\u00faltiplo, o doce, o soberbo cantador da revolta e da bonan\u00e7a. Singelo, Jos\u00e9 Afonso do Algarve doirado, dos barcos de vela parada, do Alentejo infinito sem reden\u00e7\u00e3o, dos pinhais da melancolia, dos amores sem medida, do sabor de ser irm\u00e3o\u2026Jos\u00e9 Afonso \u00e9 a primeira voz da massa que avan\u00e7a em lume de vaga, \u00e9 a mais alta crista e a mais terna fa\u00falha de luar na praia c\u00f3lera da poesia, da balada nova.\u00bb<br \/>Que a tua voz, Zeca, n\u00e3o se canse nunca de dizer, de cantar:\u00abCidade, sem muros nem ameias\/gente igual por dentro\/gente igual por fora\u00bb-valores pelos quais tu sempre lutaste e cantaste com a tua voz \u00fanica, cristalina, pungente, sagrada.<br \/>Ser\u00e1s eterno para os que sentem arrepio na palavra e na voz, quando ouvidas por trovadores, por profetas,como tu!<\/p>\n<p><strong>Braga, 12 de Outubro 2007<\/strong> <\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi custoso chegar at\u00e9 aqui. Todos os dias, desde que partiste, n\u00e3o deixaste de estar comigo. 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