{"id":8453,"date":"2007-12-17T09:38:00","date_gmt":"2007-12-17T09:38:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=8453"},"modified":"2021-12-17T11:39:33","modified_gmt":"2021-12-17T11:39:33","slug":"zeca-de-corpo-e-alma-texto-de-viriato-teles-para-o-espectaculo-de-cristina-branco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/zeca-de-corpo-e-alma-texto-de-viriato-teles-para-o-espectaculo-de-cristina-branco\/","title":{"rendered":"ZECA DE CORPO E ALMA &#8211; Texto de Viriato Teles para o espect\u00e1culo de Cristina Branco"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">Se \u00e9 verdade que a melhor maneira de avaliar o talento de um autor \u00e9 pela capacidade que a sua obra tem de suportar a eros\u00e3o do tempo, ent\u00e3o n\u00e3o pode haver quaisquer d\u00favidas acerca da genialidade de Jos\u00e9 Afonso. As suas can\u00e7\u00f5es resistiram como poucas \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es culturais e sociais que o mundo viveu nos \u00faltimos 50 anos, e nem os temas mais conjunturais, resultantes de condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e pol\u00edticas espec\u00edficas, padecem daquele mal que torna algumas m\u00fasicas t\u00e3o datadas que, passadas as circunst\u00e2ncias que lhes deram origem, n\u00e3o conseguem ser ouvidas sen\u00e3o como simples documentos ou provas testemunhais de uma \u00e9poca. E o certo \u00e9 que na hist\u00f3ria universal da m\u00fasica popular, s\u00e3o poucos os compositores que conseguiram uma intemporalidade t\u00e3o completa como sucede com Jos\u00e9 Afonso: juntemos-lhe Lennon e McCartney, Brel e Ferr\u00e9, Roger Waters e Paul Simon, Chico Buarque e Frank Zappa \u2013 e veremos que a lista fica quase completa.<br \/>Este facto faz com que a sua obra seja particularmente apetec\u00edvel para muitos int\u00e9rpretes, sobretudo os mais jovens, que encontram aqui quase tudo aquilo que um cantor exigente e de bom gosto pode desejar: uma imensid\u00e3o de temas bel\u00edssimos, consistentes, actuais e de uma modernidade que n\u00e3o se apaga. Al\u00e9m disso, Zeca Afonso \u00e9 um compositor de caracter\u00edsticas genuinamente populares, mas que nem por isso deixa de ser profundamente ecl\u00e9tico: a sua m\u00fasica re\u00fane os elementos essenciais da tradi\u00e7\u00e3o lusitana aliados ao jazz, \u00e0s m\u00fasicas populares de \u00c1frica e da Europa, aos grandes cl\u00e1ssicos e ao que de melhor produziram os contempor\u00e2neos \u2013 tal como a sua poesia conjuga os cancioneiros medievais com a escola brechtiana, a l\u00edrica tradicional com a l\u00f3gica dos surrealistas, a interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e o experimentalismo mais ousado.<br \/>Assim, n\u00e3o \u00e9 de admirar que, no ano em que se cumpre o 20\u00ba anivers\u00e1rio do  desaparecimento f\u00edsico de Zeca, surjam diversos projectos, dos mais diferentes int\u00e9rpretes, todos eles tendo por base a obra \u00edmpar do criador de Gr\u00e2ndola, Vila Morena. \u00c9 uma obra t\u00e3o rica e t\u00e3o plural que faz\u00ea-lo se torna, convenhamos, uma tenta\u00e7\u00e3o. E, aberto como era \u00e0s novas tend\u00eancias e a encorajar os mais novos, Jos\u00e9 Afonso teria decerto aplaudido todos os que, partindo do seu trabalho, procuram ir mais longe \u2013 nos arranjos, nas interpreta\u00e7\u00f5es, nas atitudes \u2013 e tentam n\u00e3o apenas recriar as suas m\u00fasicas, mas, de certo modo, voltar a invent\u00e1-las.<br \/>\u00c9 o que se passa com Cristina Branco. Acompanhada por um conjunto de m\u00fasicos de excep\u00e7\u00e3o (que s\u00e3o tamb\u00e9m respons\u00e1veis pelos arranjos das dezasseis can\u00e7\u00f5es que integram este trabalho), Cristina n\u00e3o se limita a ser a voz, mas procura igualmente dar corpo \u00e0s m\u00fasicas que interpreta. F\u00e1-lo com zelo, grande entrega e um talento exemplar. Al\u00e9m disso, n\u00e3o se limitou a escolher algumas can\u00e7\u00f5es de Zeca, mas escolheu estas, o que torna o desafio ainda mais dif\u00edcil: \u00e9 que, se cantar Jos\u00e9 Afonso nunca \u00e9 f\u00e1cil, interpretar este conjunto de temas constitui um risco que s\u00f3 um(a) grande int\u00e9rprete consegue vencer.<br \/>Ora a Cristina, j\u00e1 o sab\u00edamos, \u00e9 uma grande int\u00e9rprete. \u00c9-o, pelo menos, desde h\u00e1 dez anos, quando se revelou publicamente como cantora. Cantora de fados, numa primeira fase, mas que rapidamente mostrou que queria (e podia) ser muito mais do que isso. Que j\u00e1 seria bastante \u2013 mas n\u00e3o o bastante, nem para ela, nem para n\u00f3s.<br \/>Dona de uma voz clara e personalizada, senhora de um estilo pr\u00f3prio, a Cristina n\u00e3o \u00e9, nem quer ser, uma cantora igual \u00e0s outras. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o tem de fazer nada de especial para ser diferente: basta-lhe ser como \u00e9, sem afecta\u00e7\u00f5es e sem se deixar corromper pelos v\u00edcios que fizeram com que v\u00e1rias fadistas da era p\u00f3s-Am\u00e1lia se tornassem como que clones umas das outras. Felizmente, a Cristina resistiu a essas tenta\u00e7\u00f5es de facilidade e por isso a\u00ed est\u00e1 agora, tal como \u00e9: inteira, consistente, respeitada pelos seus pares e, mais importante, pelo seu p\u00fablico. Afinal, n\u00e3o h\u00e1 nada mais dif\u00edcil do que a simplicidade, como nos ensinou o Zeca \u2013 e como nos mostra a Cristina.<br \/>A experi\u00eancia agora concretizada de dedicar um concerto \u00e0 m\u00fasica de Jos\u00e9 Afonso \u00e9 o resultado l\u00f3gico de um percurso, deste percurso de Cristina Branco. Na verdade, a m\u00fasica de Zeca est\u00e1 presente desde o in\u00edcio no trabalho e na vida da cantora: logo na sua primeira grava\u00e7\u00e3o de est\u00fadio, o \u00e1lbum \u00abMurm\u00farios\u00bb, cantou As Pombas, e mais recentemente, em \u00abUlisses\u00bb, nos brincou com uma primeira e muito fiel vers\u00e3o de Era Um Redondo Voc\u00e1bulo, uma das mais emblem\u00e1ticas e mais complexas can\u00e7\u00f5es de Jos\u00e9 Afonso.<br \/>Tenho para mim que o mais dif\u00edcil de cada vez que algu\u00e9m pretende fazer novas vers\u00f5es de temas antigos \u2013 sobretudo de can\u00e7\u00f5es t\u00e3o marcantes como s\u00e3o, por regra, todas os de Zeca \u2013 \u00e9 que n\u00e3o basta ser fiel \u00e0 forma e ao conte\u00fado dos originais, mas \u00e9 sobretudo importante manter intacto o seu esp\u00edrito. Porque cada can\u00e7\u00e3o tem uma alma pr\u00f3pria, que \u00e9 preciso respeitar e manter intacta, por maiores que sejam as transforma\u00e7\u00f5es, leg\u00edtimas, que o corpo possa sofrer. E \u00e9 isso que se sente neste concerto: cada tema aparece numa vers\u00e3o remo\u00e7ada, criativa e, frequentemente, muito arrojada. Em alguns casos haver\u00e1 decerto quem questione as solu\u00e7\u00f5es<br \/>adoptadas \u2013 que foram estas, mas poderiam com igual legitimidade ser outras \u2013 mas a verdade \u00e9 que, em todas as interpreta\u00e7\u00f5es, a alma da can\u00e7\u00e3o est\u00e1 l\u00e1.<\/div>\n<div align=\"justify\"><strong>Viriato Teles<\/strong><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se \u00e9 verdade que a melhor maneira de avaliar o talento de um autor \u00e9 pela capacidade que a sua obra tem de suportar a eros\u00e3o do tempo, ent\u00e3o n\u00e3o pode haver quaisquer d\u00favidas acerca da genialidade de Jos\u00e9 Afonso. 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