{"id":8338,"date":"2007-10-16T09:52:00","date_gmt":"2007-10-16T09:52:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=8338"},"modified":"2021-12-17T11:39:34","modified_gmt":"2021-12-17T11:39:34","slug":"carta-a-um-filho-de-um-deus-maior","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/carta-a-um-filho-de-um-deus-maior\/","title":{"rendered":"CARTA A UM \u201cFILHO DE UM DEUS MAIOR \u201d"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\"><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_NeDJGBTlLoA\/RxSKlK4GqNI\/AAAAAAAABV4\/KvRYH47ctmQ\/s1600-h\/adriano.jpg\"><img alt=\"\" border=\"0\" id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5121871047406561490\" src=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_NeDJGBTlLoA\/RxSKlK4GqNI\/AAAAAAAABV4\/KvRYH47ctmQ\/s200\/adriano.jpg\" style=\"cursor: hand; float: left; margin: 0px 10px 10px 0px;\" \/><\/a>J\u00e1 o tempo se ia habituando a navegar por mares adversos e a buscar na inquieta\u00e7\u00e3o da noite a sa\u00edda para o quotidiano das ruas da amargura.<\/p>\n<p>J\u00e1 o tempo se ia habituando a lamber as esquinas ao sabor das fugas que atormentavam o esp\u00edrito e o corpo.<\/p>\n<p>J\u00e1 o tempo se ia habituando a avisar em surdina que se erguiam muros em volta dos subterr\u00e2neos da liberdade.<\/p>\n<p>J\u00e1 o tempo se ia habituando a entoar can\u00e7\u00f5es com l\u00e1grimas como se o choro acalmasse o \u00f3dio a uma vida feia, amea\u00e7ante sempre a rondar os confins do desespero.<\/p>\n<p>J\u00e1 o tempo se ia habituando!<\/p>\n<p>Com outros vieste do fundo do tempo a bordo das barcas novas.<\/p>\n<p>Chegaste de mansinho erguendo a voz com pressa de viver naquela terra assombrada.<\/p>\n<p>Sentiste ao que vinhas e cantaste o m\u00eas onde come\u00e7ava a m\u00e1goa dizendo que nunca poderiam ser os rostos a bater \u00e1 porta do poema.<\/p>\n<p>Ao vento que passava perguntavas o que j\u00e1 sabias; que o vento calava a desgra\u00e7a e por isso nada dizia.<\/p>\n<p>Pediste uma capa negra, uma rosa negra que virasse as costas \u00e0 saudade.<\/p>\n<p>Fizeste-nos namorar com a menina de olhos tristes \u00e0 espera do soldadinho que nunca mais havia de chegar.<\/p>\n<p>Ensinaste-nos a falar com a lua viajante que nos trazia as m\u00e1s not\u00edcias: o soldadinho, afinal, voltava numa caixa de pinho do outro lado do mar.<\/p>\n<p>Disseste-nos que eras livre como as aves, que os cora\u00e7\u00f5es que nascem livres n\u00e3o se podem acorrentar, que n\u00e3o h\u00e1 ventos que n\u00e3o prestem nem mar\u00e9s que n\u00e3o convenham.<\/p>\n<p>Pediste ao Tejo que lavasse bancos e empresas de comedores de dinheiro, pal\u00e1cios e vivendas, casebres e bairros de lata porque a uns fartam e a outros matam.<\/p>\n<p>Foste dizendo, cantando, avisando at\u00e9 que sa\u00edste aparelhando um barco abandonado na praia num Outubro em ressaca das mar\u00e9s vivas, vividas.<\/p>\n<p>Desses tempos t\u00e3o perto continuam a caminhar \u2013 exactamente aqui ao lado \u2013 os amigos que j\u00e1 partiram, os amores e os desamores, as vit\u00f3rias e as derrotas, todas as causas, passadas, presentes e futuras, o mundo que quiseste mudar.<\/p>\n<p>Desses tempos t\u00e3o perto continuam a caminhar \u2013 exactamente aqui ao lado \u2013 todos os sonhos, mesmo aqueles que j\u00e1 foram esquecidos, as utopias que parecem loucas, as alegrias e as tristezas que t\u00eam assolado este palmilhar de estrada.<\/p>\n<p>Porque nos ensinaste a haver sempre algu\u00e9m que resiste, sempre algu\u00e9m que diz n\u00e3o, por teres ajudado a descobrir a sa\u00edda do vale escuro passaste a caminhar, desta vez n\u00e3o ao lado, mas para sempre dentro da vida de um povo.<\/p>\n<p>Fazendo-nos ao mar para que n\u00e3o fiquemos cercados continuaremos por isso a acender no teu, o nosso cigarro.<\/p>\n<p>Outubro,16,2007<\/p>\n<p>Paulo Esperan\u00e7a<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 o tempo se ia habituando a navegar por mares adversos e a buscar na inquieta\u00e7\u00e3o da noite a sa\u00edda para o quotidiano das ruas da amargura. 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