{"id":8121,"date":"2007-07-08T14:23:00","date_gmt":"2007-07-08T14:23:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=8121"},"modified":"2021-12-17T11:39:48","modified_gmt":"2021-12-17T11:39:48","slug":"zeca-afonso-conjugar-o-verbo-ser","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/zeca-afonso-conjugar-o-verbo-ser\/","title":{"rendered":"Zeca Afonso: conjugar o verbo ser"},"content":{"rendered":"<div>\n<p><strong>Excertos substanciais da entrevista concedida por Jos\u00e9 Afonso ao jornalista e escritor Jos\u00e9 Amaro Dion\u00edsio em Junho de 1985.<br \/>\n<\/strong><strong><\/strong><br \/>\n\u00c9 belo, talentoso e honesto \u2013 e declinar esta adjectiva\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas conduz facilmente a esse estado de orgulho e humildade que a hist\u00f3ria cultural do pa\u00eds tem rematado demasiadas vezes pela trag\u00e9dia e quase sempre pela excomunh\u00e3o. Aqui como em qualquer parte do mundo tirar-se-ia maior proveito do ser canhestro, med\u00edocre e torpe, a trindade gloriosa dos winners que nesta viragem dos dias os media de bom senso e gosto corrente \u00e0 falta de ideais um pouco menos fossilizados voltam a identificar com a trafulhice da pol\u00edtica e dos neg\u00f3cios. Contra tal mar\u00e9 Jos\u00e9 Afonso fez claramente quest\u00e3o de cultivar duas ou tr\u00eas ideias sem cota\u00e7\u00e3o na bolsa: convic\u00e7\u00f5es, a palavra dada, a abjec\u00e7\u00e3o ao parasitismo ideol\u00f3gico e institucional. Hoje como ontem, aqui como n\u00e3o importa onde, h\u00e1 poucas pessoas assim em cada gera\u00e7\u00e3o. A sublinh\u00e1-lo n\u00e3o deixa de ser curiosa a com\u00e9dia que num pa\u00eds socialmente aviltado e politicamente traficado, onde os princ\u00edpios sofrem sorrateiro esc\u00e1rnio no dicion\u00e1rio do lucro, Jos\u00e9 Afonso tenha sido uma refer\u00eancia \u00e9tica para essa gera\u00e7\u00e3o de esquerda que hoje est\u00e1 no poder, nos v\u00e1rios poderes, para a\u00ed cultivar a mistifica\u00e7\u00e3o intelectual, a desonestidade moral e uma repugnante falta de escr\u00fapulos a troco das migalhas da \u201cdemocracia burguesa\u201d que nos tempo \u00e1ureos do seu esquerdismo tal esquerda acusava o int\u00e9rprete de Cantigas de Maio de defender. E acusava-o porqu\u00ea? Porque em pleno fascismo ele participava em reuni\u00f5es e espect\u00e1culos de agita\u00e7\u00e3o ao lado de pessoas ou integrando organiza\u00e7\u00f5es que para os puros da revolu\u00e7\u00e3o e do marxismo-leninismo-mao\u00edsmo n\u00e3o estavam \u00e0 altura dos horizontes vermelhos que profetizavam. Activista de \u201cuma festa colaborante\u201d, bateu-se por ela. Terno e agressivo, sarc\u00e1stico e sensual, cantor de ra\u00edzes populares e de Edmundo Bettencourt, credor de um trabalho fortemente personalizado mas sempre aberto \u00e0 cria\u00e7\u00e3o colectiva, sentimental ir\u00f3nico, andarilho dos grandes espa\u00e7os, implac\u00e1vel quando confrontado com a hipocrisia, humilde, prec\u00e1rio, contradit\u00f3rio e teimoso mas nunca sect\u00e1rio, atrevido frente \u00e0 doen\u00e7a, Jos\u00e9 Afonso vive como s\u00f3 os melhores sabem viver: solit\u00e1rio e solid\u00e1rio, intransigente e dial\u00e9ctico, leal nos \u00f3dios e nas paix\u00f5es. O resultado ele sabe qual \u00e9:<\/p>\n<p>Tudo est\u00e1 vazio e morto<br \/>\nNa abalada dos caminhos<br \/>\nE os homens est\u00e3o sozinhos.<\/p>\n<p>E di-lo \u00e0 sua maneira nesta entrevista. A biografia deste pa\u00eds excessivas vezes subalterno \u00e9 flagrante na persist\u00eancia de um Portugal dos Pequeninos, feito de epis\u00f3dios a submiss\u00f5es estrangeiras, imp\u00e9rios castrados, fugas reais, governos humilhantes, obedi\u00eancias servis, uma cong\u00e9nita incapacidade de revolta colectiva e individual. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m um Portugal dos grandes, habitado por essas resist\u00eancias discretas que ao indecoro do salve-se quem puder tem preferido ao longo da hist\u00f3ria o desenlace da solid\u00e3o moral e f\u00edsica, do ex\u00edlio interior e exterior, muitas vezes do suic\u00eddio. Jos\u00e9 Afonso \u00e9 uma criatura desse Portugal dos grandes. S\u00ea-lo-\u00e1 para sempre, porque homens assim nunca morrem. (\u2026) Fisicamente debilitado aos 55 anos, ergue no entanto a mesma cabe\u00e7a altiva que pequenas e grandes multid\u00f5es conhecem de tr\u00eas d\u00e9cadas de cantorias e confrontos, dezena e meia de \u00e1lbuns, centenas de milhar de discos, espect\u00e1culos sem conta, v\u00e1rias vezes cantor do ano e v\u00e1rios discos de ouro, bandeira enfim do 25 de Abril. Pessoalmente lembro-me dele de cal\u00e7as arrega\u00e7adas a apanhar caranguejos na Ria de Faro em certos fins de tarde mais soalheiros, era ent\u00e3o professor numa escola da cidade e eu seu aluno \u2013 que apenas agora, quase trinta anos depois, volta a encontr\u00e1-lo cara a cara. Um dia, talvez na cantina, ouvi-lhe uma coisa que na altura me pareceu despropositada mas cujo sentido n\u00e3o tardaria a perceber \u2013 e que em 1968 se tornou um facto. Algo como isto: se correrem comigo do ensino n\u00e3o h\u00e1 problema, agarro numa viola e vou cantando por a\u00ed a fora. Est\u00e1vamos em 1961 e ele era praticamente desconhecido.<\/p>\n<p><strong>Direita, esquerda. S\u00e3o no\u00e7\u00f5es que ainda determinam a sua rela\u00e7\u00e3o com o mundo?<br \/>\n<\/strong><strong><\/strong><br \/>\n<em>N\u00e3o de forma manique\u00edsta. Nunca fiz isso e hoje ainda menos. Estamos sempre a mudar dentro daquilo que somos profundamente. A verdade \u00e9 que a minha forma\u00e7\u00e3o de origem \u00e9 crist\u00e3. At\u00e9 ao fim da adolesc\u00eancia eu ia regularmente \u00e0 missa, assistia ao santo of\u00edcio, confessava-me. Hoje passa-se algo como o regresso \u00e0s origens, n\u00e3o porque me tenha tornado de novo cat\u00f3lico praticante, evidentemente, mas percebo que no fundo tenho uma concep\u00e7\u00e3o religiosa do universo. Vi um dia destes O Evangelho Segundo S\u00e3o Mateus, de Pasolini, e fiquei perturbado. E estou a ler autores como S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz e S\u00e3o Francisco de Assis. H\u00e1 uma esp\u00e9cie de reencontro com os ensinamentos de Cristo, n\u00e3o o Cristo institucional e eclesi\u00e1stico da minha inf\u00e2ncia, mas o Cristo dos que t\u00eam fome e sede de justi\u00e7a.<br \/>\n<\/em><em><\/em><br \/>\n<strong>E o marxismo, o leninismo, o mao\u00edsmo, a extrema esquerda?<br \/>\n<\/strong><strong><\/strong><br \/>\n<em>H\u00e1 um cruzamento dos dois tipos de forma\u00e7\u00e3o. O marxismo, em sentido lato, n\u00e3o esgota o que eu penso, muito embora continue a reconhecer as suas descobertas fundamentais, como o conceito da aliena\u00e7\u00e3o, a mais-valia, at\u00e9 mesmo a luta de classes. E h\u00e1 ainda o existencialismo. Fiz ali\u00e1s a tese de licenciatura, m\u00e1, sobre Sartre, e em particular sobre O Ser e o Nada. De resto nunca disse que era marxista, stricto sensu \u2013 ali\u00e1s seria incapaz de ler alguma coisa como O Capital, no seu conjunto. O meu envolvimento nas coisas foi sempre de car\u00e1cter existencial, a partir da observa\u00e7\u00e3o directa de situa\u00e7\u00f5es que me revoltaram e que t\u00eam a ver com o mundo do trabalho, da fam\u00edlia, ou com no\u00e7\u00f5es muito gerais como a luta anti-imperialista, o direito dos povos \u00e0 autonomia, etc. \u00c9 algo que passa mais pela sensibilidade, pela maneira como cada um se move no mundo, do que por quest\u00f5es de principio ou de filosofia.<br \/>\n<\/em><em><\/em><br \/>\n<strong>\u00c9 uma imagem bastante mais tolerante do que aquela que se cola ao seu perfil p\u00fablico.<\/strong><\/p>\n<p><em>N\u00e3o renego nada do que fiz, mas tamb\u00e9m n\u00e3o receio corrigir a minha imagem perante mim pr\u00f3prio adoptando atitudes nas quais me sinto bem e combatem os meus \u00e1libis internos e autojustificativos.<\/em><\/p>\n<p><strong>Que \u00e1libis?<\/strong><\/p>\n<p><em>Finalmente sou um pequeno-burgu\u00eas, filho de um juiz supremo que fez carreira nas col\u00f3nias. Isto e uma inf\u00e2ncia vivida na solid\u00e3o deixa marca de cuja import\u00e2ncia muitas vezes s\u00f3 nos damos conta muito tarde. Quando fui preso tive bem consci\u00eancia das minhas limita\u00e7\u00f5es.<br \/>\n<\/em><em><\/em><br \/>\n<strong>Que limita\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p><em>Bem, n\u00e3o estou a fazer uma confiss\u00e3o para que me absolvam, mas tenho mais p\u00e9s de barro do que se poder\u00e1 pensar.<br \/>\n<\/em><em><\/em><br \/>\n<strong>Mas voc\u00ea \u00e9 tido como um intelectual que sempre esteve do lado oposto ao poder, de todos os poderes, e que age de acordo com as suas convic\u00e7\u00f5es. Corajoso e frontal.<br \/>\n<\/strong><strong><\/strong><br \/>\n<em>S\u00e3o palavras.<\/em><\/p>\n<p><strong>Enfim, \u00e9 o que pensa muita gente.<\/strong><\/p>\n<p><em>Frontal, sim. Corajoso, n\u00e3o. O medo foi sempre um sentimento que conviveu comigo. O medo a que se sobrepunha uma sensa\u00e7\u00e3o de ang\u00fastia, g\u00e9nero \u201ccomo \u00e9 que me vou comportar em tal ou tal situa\u00e7\u00e3o?\u201d. Pouco depois dos Acordos de Alvor fiz uma digress\u00e3o com o Fausto a Angola e vivemos situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis. Tamb\u00e9m a\u00ed tive medo, v\u00e1rias vezes.<br \/>\n<\/em><em><\/em><br \/>\n<strong>Disse-se na altura que lhe tinham querido bater em palco.<\/strong><\/p>\n<p><em>Ou mais do que isso. Tudo come\u00e7ou numa confer\u00eancia de imprensa em que eu defendi o MPLA contra os outros movimentos. A partir da\u00ed as provoca\u00e7\u00f5es acompanharam-nos por todo o lado. Tipos da UNITA, da PIDE, que ainda por l\u00e1 andavam, da FNLA, etc. Foram uns bons caga\u00e7os.<br \/>\n<\/em><em><\/em><br \/>\n<strong>Mas alguma vez deixou de fazer, por medo, alguma coisa que entendia dever fazer?<br \/>\n<\/strong><strong><\/strong><br \/>\n<em>Em geral n\u00e3o. Mas houve uma vez, durante a campanha de Otelo, em 76, o carro dele tinha sido baleado ali para os lados de Lamego e a certa altura p\u00f5e-se o problema de ir ou n\u00e3o ir a Viseu. Dizem-nos que a cidade estava agitada com uma data de retornados que nos queriam limpar o sebo. Bem, eu fui dos que fez press\u00e3o para n\u00e3o irmos, e n\u00e3o fomos.<br \/>\n(\u2026) Ap\u00f3s o 25 de Abril pus-me \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o das comiss\u00f5es de trabalhadores, moradores, de grupos, para animar as lutas que faziam nos seus locais de trabalho. Ent\u00e3o recebia cartas, telefonemas, deputa\u00e7\u00f5es de fac\u00e7\u00f5es opostas que reivindicavam a lideran\u00e7a das lutas e a justeza das teorias que apresentavam. Acabei por ser obrigado a analisar montes de documentos antes de decidir se havia de ir cantar ou n\u00e3o ao s\u00edtio tal, e como. Mas este tipo de coisas n\u00e3o se passou s\u00f3 comigo, h\u00e1 pessoas que se desgastaram bastante mais. Os tipos do GAC, por exemplo. Ou o Adriano. O Adriano chegava a ter de andar \u00e0 porrada por essas aldeias fora. Houve casos em que o padre da terra utilizava a missa para avisar a popula\u00e7\u00e3o contra os comunistas que iam chegar. Em Maceira da Nazar\u00e9 as pessoas puseram-se uma noite ao largo durante o espect\u00e1culo, ou na soleira da porta, ou atr\u00e1s das janelas, empoleiradas, etc, por causa do padre. E cant\u00e1mos com microfones mais do que rudimentares ligados a cornetas de circo em vez de colunas. Era uma coisa que acontecia com frequ\u00eancia, e se pergunt\u00e1vamos aos organizadores \u201cmas voc\u00eas querem que a gente cante com cornetas?\u201d, os tipos admiravam-se muito. \u201cO qu\u00ea? Voc\u00eas duvidam desta aparelhagem? Olhem que isto faz um berreiro dos diabos!\u201d. E fazia, claro. Era um caga\u00e7al de tal ordem que acab\u00e1vamos por pedir que desligassem aquilo e p\u00fanhamo-nos a cantar vira. Apareciam ent\u00e3o uns velhinhos do asilo ou coisa parecida que fazem pares \u00e0 boca de cena e dan\u00e7avam\u2026 Outras vezes, como \u00e9ramos um grupo que defendia a iniciativa popular, convid\u00e1mos para cantar quem quisesse. E aconteciam coisas do diabo, do g\u00e9nero um tipo a cantar fados marialvas \u00e0 brava depois de n\u00f3s termos acabado de fazer uma prelec\u00e7\u00e3o a favor da igualdade de sexos. Ou uma voz l\u00e1 atr\u00e1s a gritar \u201cA gente quer \u00e9 gajas!\u201d. Esta das gajas foi num foyer, em Paris, numa sess\u00e3o para portugueses, marroquinos e espanh\u00f3is. Estava a casa cheia. No fim eles vinhem at\u00e9 junto do palco e punham-se a olhar para as nossas mulheres. Os coment\u00e1rios eram de desarmar qualquer um. A pouco e pouco perdi por completo as esperan\u00e7as de atribuir aos cantores qualquer papel providencial, senti-me mais como uma Supico Pinto de esquerda a distribuir engodos. Uma vez na Marinha Grande estava eu a cantar \u201c\u00d2 meu Potugal t\u00e3o lindo \/ \u00d3 meu Portugal t\u00e3o belo \/ Metade \u00e9 Jorge de Brito \/ Metade \u00e9 Jorge de Melo\u201d e aparece ao meu lado um espont\u00e2neo coxo que \u00e0 cad\u00eancia da m\u00fasica atirava a perna incrivelmente longe e gritava \u201cN\u00e3o h\u00e1 pai para o coxo \/ N\u00e3o h\u00e1 pai para o coxo\u2026\u201d. S\u00e3o momentos verdadeiramente memor\u00e1veis das campanhas de politiza\u00e7\u00e3o da M\u00fasica Popular Portuguesa.<\/em><\/p>\n<p><strong>Se voltasse a cantar faria um percurso diferente?<\/strong><\/p>\n<p><em>N\u00e3o voltaria a cantar.<br \/>\n<\/em><em><\/em><br \/>\n<strong>Em nenhuma circunst\u00e2ncia?<br \/>\n<\/strong><strong><\/strong><br \/>\n<em>Em nenhuma circunst\u00e2ncia. Para o p\u00fablico, n\u00e3o. At\u00e9 porque possivelmente n\u00e3o teria nada de novo a apresentar. E acho que as coisas devem acabar quando n\u00e3o adiantam nada. De resto sou obrigado a concluir que o meu trabalho como cantor \u00e9 menor\u2026 A cr\u00edtica em geral reduz-me ao autor das Cantigas de Maio, o que quer dizer que antes e depois n\u00e3o fiz nada que preste. \u00c9 uma bela cr\u00edtica de m\u00fasica, a nossa! Tem-me proporcionado not\u00e1veis baboseiras sobre o trabalho de colegas, trabalho esse que em qualquer pa\u00eds decente seria suficiente para afirmar o m\u00e9rito dum cantor, pelo menos.<br \/>\n<\/em><em><\/em><br \/>\n<strong>N\u00e3o voltaria a cantar, \u00e9 claro nesse ponto e j\u00e1 explicou porqu\u00ea. Mas est\u00e1 arrependido de ter participado em toda essa actividade de agita\u00e7\u00e3o?<br \/>\n<\/strong><strong><\/strong><br \/>\n<em>De forma alguma, e que isso fique tamb\u00e9m claro. N\u00e3o me arrependo de nada do que fiz. Mais: eu sou aquilo que fiz. Embora com reservas acreditava o suficiente no que estava a fazer, e isso \u00e9 o que fica. De resto nunca confundi as coisas, sempre disse o que hoje continuo a dizer: uma viola \u00e9 uma viola, uma can\u00e7\u00e3o \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o se pode confundir isso com armas e granadas. Nenhum instrumento musical faz tiro curvo.<\/em><\/p>\n<p><strong>Que pode pedir a uma can\u00e7\u00e3o ent\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><em>Que fa\u00e7a bem aquilo que tem a fazer, que \u00e9 do dom\u00ednio da frui\u00e7\u00e3o musical, com o que isso implica de voz, arranjos, ritmos, inten\u00e7\u00e3o, energia. No meu caso o que fiz foi procurar conciliar isso com as ra\u00edzes da nossa cultura musical reflectindo uma certa ordem de preocupa\u00e7\u00f5es sociais, de solidariedade e afectividade.<br \/>\n<\/em><em><\/em><br \/>\n<strong>Musicalmente fez o que queria fazer?<\/strong><\/p>\n<p><em>N\u00e3o. Gostaria de ter trabalhado muito mais na investiga\u00e7\u00e3o dos instrumentos, das lendas, da m\u00fasica regional. E fiz demasiadas sess\u00f5es sem concretizar o que queria, como se depreende do que estou a contar.<br \/>\n<\/em><em><\/em><br \/>\n<strong>Na \u00faltima fase da sua carreira manifestou desejo de suscitar o interesse dos jovens para o seu trabalho. Em que consistiria essa fase?<br \/>\n<\/strong><strong><\/strong><br \/>\n<em>Gostaria de ajudar a mostrar \u00e0 juventude que h\u00e1 alternativas, no estrito campo da frui\u00e7\u00e3o musical, a certas correntes puramente comerciais, como a maior parte do rock que nos metralha os ouvidos de manh\u00e3 \u00e0 noite. A m\u00fasica irlandesa nunca passou por aqui, tal como a occitana, a afro-cubana, e mesmo muito da m\u00fasica africana.<\/em><\/p>\n<p><strong>Tem pena de n\u00e3o ter realizado esse trabalho?<br \/>\n<\/strong><strong><\/strong><br \/>\n<em>N\u00e3o. Afinal de contas tudo o que fiz como cantor foi porque n\u00e3o pude continuar a ser professor. Em resumo foi cantor porque deixei de ser professor e finalmente sou coisa nenhuma porque deixei de ser cantor. Estou preparado portanto para renunciar de boa vontade ao que n\u00e3o fiz.<\/em><\/p>\n<p><strong>Esse tom de ren\u00fancia n\u00e3o se aplica contudo \u00e0 pol\u00edtica.<br \/>\n<\/strong><strong><\/strong><br \/>\n<em>N\u00e3o, embora hoje confira um papel mais modesto \u00e0 luta pol\u00edtica. Pode modificar estruturas, mas n\u00e3o remove uma sociedade, n\u00e3o transforma um homem noutro homem. Admito que a revolu\u00e7\u00e3o seja uma utopia, mas no meu dia a dia procuro comportar-me como se ela fosse tang\u00edvel. Continuo a pensar que devemos lutar onde existe opress\u00e3o, seja a que n\u00edvel for. De resto tenho pouca autoridade para falar porque a minha contribui\u00e7\u00e3o foi bem pobre. Nunca estive na luta armada, nem sequer fui torturado.<\/em><\/p>\n<p><strong>Mas esteve preso v\u00e1rias vezes.<\/strong><\/p>\n<p><em>Sempre pequenas deten\u00e7\u00f5es. A maior foi de 21 dias. Estive incomunic\u00e1vel mas nunca me torturaram fisicamente.<\/em><\/p>\n<p><strong>A prop\u00f3sito de pris\u00f5es e luta armada. Qual \u00e9 a sua posi\u00e7\u00e3o sobre a guerrilha urbana, o chamado terrorismo?<\/strong><\/p>\n<p><em>Penso que \u00e9 um recurso leg\u00edtimo. Sabemos hoje que os programas de partidos, as promessas eleitorais, a igualdade dos cidad\u00e3os perante a lei, o parlamentarismo, enfim, todas essas tretas s\u00e3o armadilhas de uma imensa minoria que vive luxuosamente \u00e0 custa de uma imensa maioria. O Estado democr\u00e1tico revelou-se t\u00e3o arbitr\u00e1rio como qualquer outro, serve antes de mais nada para impor as leis relativamente \u00e0s quais se constitui em excep\u00e7\u00e3o. Por outro lado embora haja partidos que se aproximam mais dos interesses dos trabalhadores e outros que s\u00e3o contra esses interesses a verdade \u00e9 que a escolha entre os partidos A, B, C ou D acaba por n\u00e3o oferecer uma alternativa de fundo aos privil\u00e9gios de Estado uma vez que todos eles se movem segundo a mesma l\u00f3gica que cria um fosso entre o cidad\u00e3o comum e os senhores do Poder. Perante um quadro destes acho absolutamente leg\u00edtima a guerrilha urbana. N\u00e3o faz a revolu\u00e7\u00e3o, presta-se mesmo a alguns equ\u00edvocos, mas tem ao menos a vantagem de radicalizar a indigna\u00e7\u00e3o e sobretudo de repor pontos de equil\u00edbrio numa rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as em que o cidad\u00e3o comum \u00e9 permanentemente ludibriado pelo discurso e pelas artimanhas dos profissionais da pol\u00edtica. S\u00f3 \u00e9 pena que a guerrilha urbana em Portugal seja t\u00e3o incipiente e n\u00e3o tenha ainda apontado as armas para onde deve apontar. A partir da altura em que o fizer talvez a classe pol\u00edtica se d\u00ea conta de que os brandos costumes do bom povo portugu\u00eas n\u00e3o s\u00e3o uma fatalidade do destino.<br \/>\n(\u2026) Admito-o hoje sem retic\u00eancias: n\u00e3o temos revolucion\u00e1rios, n\u00e3o temos sido um povo de grandes revolucion\u00e1rios. Mas uma esquerda que n\u00e3o consegue juntar mais dumas mil pessoas numa manifesta\u00e7\u00e3o contra a visita de Ronald Reagan \u00e9 uma esquerda que n\u00e3o existe.<br \/>\n<\/em><em><\/em><br \/>\n<strong>Admite que a fim e ao cabo os povos t\u00eam os governos que merecem?<\/strong><\/p>\n<p><em>Tenho oscilado entre recusar essa conclus\u00e3o e admiti-la. \u00c9 um facto que no povo portugu\u00eas h\u00e1 uma tend\u00eancia para a subservi\u00eancia, para se curvar perante a autoridade, para o compadrio, os favores, para o deixar andar. Mas tudo isso existe ao lado de uma certa trucul\u00eancia e dignidade. Conhe\u00e7o muito bem os alentejanos, por exemplo. S\u00e3o pessoas pobres, talvez sem grande combatividade, mas existe nelas uma dignidade perturbante. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil pis\u00e1-las, embora pare\u00e7a f\u00e1cil abusar delas durante muito tempo.<\/em><\/p>\n<p><strong>Segundo a antiga Comiss\u00e3o de Extin\u00e7\u00e3o da PIDE\/DGS os processos efectivamente levados a tribunal por actividade pol\u00edtica antes do 25 de Abril n\u00e3o chegaram a atingir 3 mil pessoas ao longo de 48 anos. \u00c9 um quadro um pouco diferente daquele que a oposi\u00e7\u00e3o gostava de publicitar e que ainda hoje reivindica.<\/strong><\/p>\n<p><em>Antes do 25 de Abril n\u00f3s conhec\u00edamos de Norte a Sul do pa\u00eds as pessoas que se atreviam a lutar realmente contra o regime \u2013 e eram de facto muito menos do que se gostava de dizer. Alguns intelectuais afirmam ainda hoje que a nossa gera\u00e7\u00e3o, a minha gera\u00e7\u00e3o, foi muito castigada, mas eu n\u00e3o penso isso. Mesmo a repress\u00e3o foi adaptada aos bons costumes deste povo. N\u00e3o se mata um governante em Portugal h\u00e1 75 anos. Isso diz tudo, se pensarmos que tivemos o regime fascista mais longo da hist\u00f3ria contempor\u00e2nea.<br \/>\n<\/em><em><\/em><br \/>\n<strong>Por outro lado esses intelectuais est\u00e3o hoje no Poder. Um pouco por todo o lado, dos gabinetes ministeriais ao IPC, da Gulbenkian ao Governo de Macau, da Comiss\u00f5es da CEE \u00e0s empresas p\u00fablicas e \u00e0 Comunica\u00e7\u00e3o Social. Na noite da vig\u00edlia a Otelo Saraiva de Carvalho esteve l\u00e1 voc\u00ea, o V\u00edtor Wengorovius, Lu\u00eds Galv\u00e3o Teles, Lu\u00eds Moita e poucos mais. Que \u00e9 feito dos seus amigos de Coimbra, das baladas, da resist\u00eancia, do famoso PREC?<\/strong><\/p>\n<p><em>Pela minha parte n\u00e3o tenho grande coisa a dizer sobre isso. Acho que os intelectuais deste pa\u00eds t\u00eam os Soares que merecem. \u00c9 realmente uma gera\u00e7\u00e3o que gosta de se apresentar a si mesma como v\u00edtima da desilus\u00e3o. Para mim \u00e9 uma atitude de trai\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o t\u00eam a coragem de confessar e por isso inventaram grandes malabarismos. Depois encostam-se ao PS, ao PSD ou a qualquer outra muleta do poder. Digamos que s\u00e3o pessoas que n\u00e3o me interessam.<br \/>\n<\/em><em><\/em><br \/>\n<strong>O que acaba por ser curioso \u00e9 que voc\u00ea contesta a democracia parlamentar com a mesma veem\u00eancia com que contestou o fascismo.<br \/>\n<\/strong><strong><\/strong><br \/>\n<em>O problema \u00e9 que os direitos formais t\u00eam cada vez menos conte\u00fado pr\u00e1tico. As liberdades formais n\u00e3o servem para nada se n\u00e3o tiverem consequ\u00eancias no dia a dia das pessoas. Teoricamente n\u00e3o h\u00e1 censura, n\u00e3o existe repress\u00e3o policial ao n\u00edvel da pol\u00edtica, pode-se portanto falar, escrever, etc. Mas os mecanismos de coer\u00e7\u00e3o e discrimina\u00e7\u00e3o permanecem. Mais subtis, mais pulverizados, mas permanecem. O que n\u00e3o quer dizer que eu n\u00e3o preferia a democracia formal ao fascismo, \u00e9 evidente. Mas no fundo a liberdade \u00e9 antes de mais nada a liberdade de se viver melhor. Por isso a liberdade para o doutor M\u00e1rio Soares \u00e9 uma coisa e para o tipo que est\u00e1 sem sal\u00e1rios ou sem emprego ou sem casa \u00e9 outra. Em quase toda a regi\u00e3o de Set\u00fabal h\u00e1 fome, mulheres casadas e raparigas prostituem-se para comer. Que sentido faz falar a estas pessoas da liberdade da democracia? Claro, h\u00e1 uma data de gente que vive melhor do que antes do 25 de Abril, mas \u00e0 custa de clientelismos partid\u00e1rios e favores pol\u00edticos que n\u00e3o afirmam propriamente os trunfos dum regime. (\u2026)<\/em><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Excertos substanciais da entrevista concedida por Jos\u00e9 Afonso ao jornalista e escritor Jos\u00e9 Amaro Dion\u00edsio em Junho de 1985. \u00c9 belo, talentoso e honesto \u2013 e declinar esta adjectiva\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas conduz facilmente a esse estado de orgulho e humildade que a hist\u00f3ria cultural do pa\u00eds tem rematado demasiadas vezes pela trag\u00e9dia e quase sempre [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[107],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8121"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8121"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8121\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8121"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8121"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8121"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}