{"id":8115,"date":"2007-07-05T20:59:00","date_gmt":"2007-07-05T20:59:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=8115"},"modified":"2021-12-17T11:39:48","modified_gmt":"2021-12-17T11:39:48","slug":"pela-memoria-contra-o-esquecimento-julio-murracas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/pela-memoria-contra-o-esquecimento-julio-murracas\/","title":{"rendered":"Pela mem\u00f3ria, contra o esquecimento &#8211; J\u00falio Murra\u00e7as"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">Para n\u00e3o deixar que, mesmo temporariamente, o Esquecimento enterre a Mem\u00f3ria, trazemos \u00e0 lem\u00adbran\u00e7a sinais de um tempo em que, como recentemente recordou Manuel Alegre, havia o fascismo e havia a guerra, havia a guitarra do Portugal e do Paredes, as vozes do Zeca e do Adriano. E, a par da brutal repress\u00e3o pol\u00edtica havia tamb\u00e9m, ac\u00e7\u00f5es, hoje felizmente consideradas inconceb\u00edveis e ris\u00edveis, como aquela lembrada por Zeca Afonso numa entrevista ao &#8220;Sete&#8221; em 83, &#8221; em que os pol\u00edcias anda\u00advam pelos jardins a ver quais os parzinhos enla\u00e7ados para lhes pedirem a identifica\u00e7\u00e3o e os levarem para a pris\u00e3o&#8221;. Mas havia sempre algu\u00e9m que resist\u00eda, algu\u00e9m que dizia n\u00e3o, lembramos n\u00f3s. E a cantiga era uma arma, que o regime fascista n\u00e3o queria deixar funcionar. Para tal, recorria aos meios repressivos que tinha, nos quais volunt\u00e1riamente se inclu\u00edam, entre outros governadores civis, presidentes de c\u00e2mara e administradores de bairro. Sempre A Bem da Na\u00e7\u00e3o, todos cumpriam, servil e fervorosamente, o seu papel na m\u00e1quina policial do Estado, denunciando entre si a ocorr\u00eancia de actos tidos por subversivos, com o claro e propositado objectivo final de informar a pol\u00edcia pol\u00edtica -Pide\/DGS-, e manter o regime. Neste sentido, e para exemplificar, em 17-4-70, reinava a ilus\u00f3ria &#8220;Primavera Marcelista&#8221;, o governador civil de Lisboa transmitia ao administrador de bairro da Amadora o conte\u00fado de uma circular do gabinete do Ministro do Interior (Doc.l), no qual fazia saber que &#8220;As informa\u00e7\u00f5es recebidas atrav\u00e9s da P.S.P. mostram que o Padre Fanhais desenvolve em todo o Pa\u00eds uma actividade indesej\u00e1vel cantando baladas cujos temas n\u00e3o se compadecem com o clima rmJral que \u00e9 preciso manter para assegurar a defesa do Ultramar e garantir a integridade da P\u00e1tria.&#8221; Menos c\u00e9lere no cumprimento dos seus deveres foi o governador civil de Santar\u00e9m, que enviou a mesma circular 4 dias depois para o presidente da c\u00e2mara municipal da mesma cidade. A velocidades diferentes, o sistema repressivo funcionava. Contudo n\u00e3o impedia a multiplica\u00e7\u00e3o dos &#8220;espect\u00e1culos\/conv\u00edvios&#8221; que se iam realizando, &#8220;algumas vezes at\u00e9 clandestinos&#8221;, sem sequer submeter as can\u00e7\u00f5es \u00e0 obrigat\u00f3ria censura pr\u00e9via, desafiando as regras impostas pela ditadura. Ultrapassado pela persist\u00eancia e coragem dos seus opositores, o governo n\u00e3o desistia e aprefei\u00e7oava os seus m\u00e9todos: Afonso Marchueta, governador civil de Lisboa, em aditamento a anterior circular, enviava a transcri\u00e7\u00e3o de um of\u00edcio da Direc\u00e7\u00e3o dos Servi\u00e7os de Espect\u00e1culos aos seus delegados concelhios (Doc.II), onde se preconizavam medidas mais dr\u00e1sticas, tendentes a dificultar a realiza\u00e7\u00e3o dos espect\u00e1\u00adculos e limitar os seus protagonistas, indicando alguns nomes &#8220;a cujos programas n\u00e3o deve ser conce\u00addido o visto: Padre Francisco Fanhais, Zeca Afonso (Dr. Jos\u00e9 Afonso), Barata Moura, Manuel Freire, etc.&#8221;. Meses mais tarde, em Mar\u00e7o de 1971, outra missiva (Doc.III) acrescentava a esta lista outros nomes: Adriano Correia de Oliveira, Rui Mingas, (Jos\u00e9) Jorge Letria, Tossan, Deniz Cintra e o Grupo Intr\u00f3ito, classificando como &#8220;os mais extremistas&#8221; Padre Francisco Fanhais, Zeca Afonso e Manuel Freire, e &#8220;mais moderados&#8221; os restantes&#8230; Em 73, ano de &#8220;elei\u00e7\u00f5es&#8221;, o regime continuava a isolar-se, interna e externamente, e a afundar-se em fatais contradi\u00e7\u00f5es. Ainda assim, continuava a procurar aperfei\u00e7oar os m\u00e9todos repressivos para impedir que as vozes dos cantores da Liberdade se fizessem ouvir, para o que contava com os seus Venerandos e Obrigados ser\u00advidores. E \u00e9 neste quadro, onde, em clubes e colectividades recreativas e associa\u00e7\u00f5es estudantis, os &#8220;conv\u00edvios&#8221; eram cada vez mais usuais, que em 27 de Mar\u00e7o o ministro Gon\u00e7alves Rapazote, transmite a todos os governadores civis e presidentes de c\u00e2mara, a indica\u00e7\u00e3o para a adop\u00e7\u00e3o do conjunto de medidas suge\u00adridas pelo director geral da Cultura Popular e Espect\u00e1culos (Doc.IV), com o intuito de dificultar a sua con\u00adcretiza\u00e7\u00e3o, tornando mais exigente a aquisi\u00e7\u00e3o do visto e impondo a necessidade de exercer press\u00e3o &#8216;Junto dos organizadores, dos exploradores dos recintos ou dos dirigentes das institui\u00e7\u00f5es onde se saiba que devem ser realizados&#8230;&#8221; Mais tarde, a 29 de Mar\u00e7o de 1974, no Coliseu dos Recreios de Lisboa, sob a habitual vigil\u00e2ncia polici\u00adal, teve lugar o Encontro da Can\u00e7\u00e3o Portuguesa, com a participa\u00e7\u00e3o, entre outros, de Zeca Afonso, a quem a Pide e a censura apenas deixou cantar &#8220;Milho Verde&#8221; e &#8220;Gr\u00e2ndola, Vila Morena&#8221;. Esta ultima, sugeriu a elementos do MFA que se encontravem presentes a senha do movimento libertador. Pouco tempo depois, como \u00e9 sabido, a ditadura ca\u00edu dando lugar \u00e0 Liberdade e Solidariedade, permitin\u00addo ver mais de perto a UTOPIA: cidade sem muros nem ameias.<\/div>\n<p><\/p>\n<div align=\"center\"><a href=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/_NeDJGBTlLoA\/Ro1cy5p13WI\/AAAAAAAAA3g\/Yw-AUPO37fI\/s1600-h\/doc1.jpg\"><img alt=\"\" border=\"0\" id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5083821583910690146\" src=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/_NeDJGBTlLoA\/Ro1cy5p13WI\/AAAAAAAAA3g\/Yw-AUPO37fI\/s400\/doc1.jpg\" style=\"cursor: hand; display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center;\" \/><\/a> Doc.I<\/div>\n<div align=\"center\"><a href=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/_NeDJGBTlLoA\/Ro1cr5p13VI\/AAAAAAAAA3Y\/XFw48DSsjhY\/s1600-h\/doc2.jpg\"><img alt=\"\" border=\"0\" id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5083821463651605842\" src=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/_NeDJGBTlLoA\/Ro1cr5p13VI\/AAAAAAAAA3Y\/XFw48DSsjhY\/s400\/doc2.jpg\" style=\"cursor: hand; display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center;\" \/><\/a> Doc.II<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_NeDJGBTlLoA\/Ro1cjpp13UI\/AAAAAAAAA3Q\/hXODy1VMGs8\/s1600-h\/doc3.jpg\"><img alt=\"\" border=\"0\" id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5083821321917685058\" src=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_NeDJGBTlLoA\/Ro1cjpp13UI\/AAAAAAAAA3Q\/hXODy1VMGs8\/s400\/doc3.jpg\" style=\"cursor: hand; display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center;\" \/><\/a><br \/>Doc.III<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_NeDJGBTlLoA\/Ro1cbpp13TI\/AAAAAAAAA3I\/_SQpFpxXS-Q\/s1600-h\/doc4.jpg\"><img alt=\"\" border=\"0\" id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5083821184478731570\" src=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_NeDJGBTlLoA\/Ro1cbpp13TI\/AAAAAAAAA3I\/_SQpFpxXS-Q\/s400\/doc4.jpg\" style=\"cursor: hand; display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center;\" \/><\/a> Doc.IV<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para n\u00e3o deixar que, mesmo temporariamente, o Esquecimento enterre a Mem\u00f3ria, trazemos \u00e0 lem\u00adbran\u00e7a sinais de um tempo em que, como recentemente recordou Manuel Alegre, havia o fascismo e havia a guerra, havia a guitarra do Portugal e do Paredes, as vozes do Zeca e do Adriano. 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