{"id":8098,"date":"2007-06-23T13:14:00","date_gmt":"2007-06-23T13:14:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=8098"},"modified":"2021-12-17T11:39:48","modified_gmt":"2021-12-17T11:39:48","slug":"julio-pereira-sobre-jose-afonso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/julio-pereira-sobre-jose-afonso\/","title":{"rendered":"J\u00falio Pereira sobre Jos\u00e9 Afonso"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\"><strong>Na revista do quarto Festival da M\u00fasica Popular Portuguesa, em 1991, J\u00falio Pereira escreveu o seguinte:<br \/><\/strong><br \/><strong><br \/><\/strong><br \/>\u201cSempre que assist\u00edamos a um concerto de m\u00fasica erudita, n\u00e3o importa agora de que tipo, Zeca mostrava-me sempre a verdade. Ele sentia, de facto, e por ficar fascinado perante uma outra m\u00fasica da qual era admirador, uma esp\u00e9cie de sensa\u00e7\u00e3o de frustra\u00e7\u00e3o, at\u00e9 de inferioridade, do g\u00e9nero: \u00abo que \u00e9 a minha m\u00fasica ao p\u00e9 de uma m\u00fasica t\u00e3o grande?\u00bb. \u00c9 evidente que eu n\u00e3o tinha resposta. Qualquer resposta era absurda: \u00abn\u00e3o se podem fazer compara\u00e7\u00f5es\u00bb ou \u00abo popular e o erudito s\u00e3o uma complementaridade\u00bb. Absurdas, porque o Zeca sabia muito bem tudo isso. Absurdas sim, porque aquele momento \u00e9 verdadeiro. Porque o fasc\u00ednio n\u00e3o passava levianamente pela nossa dimens\u00e3o. O que a Arte nos provoca \u00e9 isso mesmo: a no\u00e7\u00e3o do nosso exacto tamanho. A m\u00fasica n\u00e3o engana ningu\u00e9m, muito menos um m\u00fasico. A m\u00fasica \u00e9 que n\u00e3o deixa um m\u00fasico mentir. (&#8230;)<\/p>\n<p>Falo-te em abstracto de coisas concretas. Falo-te da melhor escola de m\u00fasica ou de outra coisa qualquer. Falo-te de experi\u00eancias reais, vividas, comuns a todos n\u00f3s. (&#8230;) Falo ainda de tudo o que nasce, ou do que nasce em n\u00f3s quando nos encontramos perante um outro m\u00fasico que admiramos. Nesse preciso momento somos pequenos. (&#8230;)<\/p>\n<p>Muitas das coisas da vida est\u00e3o mesmo ao nosso lado. E acredito que muito boa gente ao longo da sua exist\u00eancia, n\u00e3o se tenha apercebido dessa proximidade. \u00c9 sempre mais f\u00e1cil esperar o que j\u00e1 se sabe ser, do que o que n\u00e3o se sabe o que \u00e9. Venha da Natureza, venha do ser humano. Venha, ainda, da pr\u00f3pria m\u00fasica. E que esperas tu da vida, m\u00fasico? (&#8230;)<\/p>\n<p>Tens a\u00ed um gravador? Sabe-se l\u00e1 como, daquela boca saia uma melodia espantosa! E eu, eterno curioso, levava-a comigo e tentava harmoniz\u00e1-la. (&#8230;) Feliz e contente ia ter com ele mostrar-lhe o resultado. O inesperado era inevit\u00e1vel. O Zeca ouvia&#8230; \u2013\u201cMas n\u00e3o \u00e9 bem isso&#8230;\u201d \u2013 \u201cEsta can\u00e7\u00e3o \u00e9 uma hist\u00f3ria\u201d \u2013 \u201cDever\u00e1 ter uma atmosfera pr\u00f3pria\u201d. \u2013 \u201cEst\u00e1s a ver uma fogueira, com pessoas \u00e0 volta tendo \u00e0 roda dos tornezelos uns guizos?\u201d (&#8230;)<\/p>\n<p>\u00abQuem canta por conta sua, canta sempre com raz\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p>Percebes colega m\u00fasico, a verdade ir\u00f3nica desta frase? Os teu \u00eddolos, aqueles que admiras, aqueles sem os quais n\u00e3o passas, os que te p\u00f5em os pelinhos do bra\u00e7o eri\u00e7ados, t\u00eam na realidade, raz\u00e3o. Toda. Por isso mesmo, sempre que me tocares por conta tua, se \u00e9s mesmo m\u00fasico, acompanhar-te-ei sempre que o desejares. \u00c9 talvez a \u00fanica mat\u00e9ria que n\u00e3o precisa de escola para ser aprendida. E \u00e9 desta mat\u00e9ria que se faz a m\u00fasica.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>E tu, outro m\u00fasico, que julgas que j\u00e1 ouviste o suficiente, quando tocares Zeca, n\u00e3o v\u00e1s pela facilidade. Deixa-me sentir o Zeca quando tocas. N\u00e3o o subestimes com esse ritmo \u00abchapa 5\u00bb, ou essa harmonia complexada cheia de 13\u00aa monopolizando o arranjo. Essa m\u00fasica \u00e9 uma hist\u00f3ria. \u00c9 preciso encontrar a atmosfera pr\u00f3pria&#8230; Lembraste do que o Zeca dizia?\u201d.<\/p>\n<p><embed height=\"350\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/nHe65JOqjhs\" type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"425\" wmode=\"transparent\"><\/embed><br \/>&#8220;Faro Luso&#8221; tema retirado do disco&#8221;Geografias&#8221;<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na revista do quarto Festival da M\u00fasica Popular Portuguesa, em 1991, J\u00falio Pereira escreveu o seguinte:\u201cSempre que assist\u00edamos a um concerto de m\u00fasica erudita, n\u00e3o importa agora de que tipo, Zeca mostrava-me sempre a verdade. 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