{"id":8055,"date":"2007-06-02T15:16:00","date_gmt":"2007-06-02T15:16:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=8055"},"modified":"2021-12-17T11:39:49","modified_gmt":"2021-12-17T11:39:49","slug":"passagem-de-zeca-afonso-por-belmonte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/passagem-de-zeca-afonso-por-belmonte\/","title":{"rendered":"Passagem de Zeca Afonso por Belmonte"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\"><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_NeDJGBTlLoA\/RmGKCWawCTI\/AAAAAAAAAuA\/Zs05CCnUA4g\/s1600-h\/tb_20042000111_cult4_foto.jpg\"><img alt=\"\" border=\"0\" id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5071486428378040626\" src=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_NeDJGBTlLoA\/RmGKCWawCTI\/AAAAAAAAAuA\/Zs05CCnUA4g\/s400\/tb_20042000111_cult4_foto.jpg\" style=\"cursor: hand; float: left; margin: 0px 10px 10px 0px;\" \/><\/a>&#8220;\u00d3 p\u00e1, desculpa l\u00e1 isso!&#8221;.<br \/>Zeca Afonso<\/p>\n<p>Atrevo-me a dizer que \u00e9 verdade que o bom senso me desaconselha a reproduzir certas palavras de Zeca Afonso sobre Belmonte. Creio mesmo que, em tempo de Comemora\u00e7\u00f5es dos 500 anos do Achamento do Brasil, por Pedro \u00c1lvares Cabral, navegador de raiz belmontense, seria politicamente correcto&#8230; omitir.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 certo que a sua intransig\u00eancia na defesa de princ\u00edpios e valores tornaria imperdo\u00e1vel desvirtuar as suas mem\u00f3rias. V\u00e9nias rituais nunca couberam na voz em que ressoava a poesia e o apelo \u00e0 fraternidade. \u00c9, por isso, proibido, imoral, esconder a fala do mist\u00e9rio duma rela\u00e7\u00e3o com as gentes e um lugar&#8230;<\/p>\n<p>Em 1938, diz &#8220;&#8230;fui para casa de meu tio (em Belmonte) onde vivi o pior ano da minha vida, o mais desgra\u00e7ado. O meu Tio era Presidente da C\u00e2mara, comandante da Legi\u00e3o, german\u00f3filo (&#8230;)&#8221;*. Foi um per\u00edodo &#8220;fechado&#8221;. Sentia-se s\u00f3, privado de contactos. Lembran\u00e7as que n\u00e3o oculta, justifica e ilumina em busca de outra verdade: o tio que assinava o &#8220;Sinal&#8221; e outras revistas, que faziam o elogio do esfor\u00e7o b\u00e9lico alem\u00e3o, que sintonizava a R\u00e1dio Paris colaboracionista&#8230; &#8220;teve uma coisa boa: ensinou-me cantigas populares antigas da Beira; ouvi-o cantar l\u00edricas de \u00f3peras (&#8230;)&#8221;*; acrescenta: &#8220;foi ele que me incutiu o gosto pela m\u00fasica&#8221;*.<\/p>\n<p>O prisma das cores \u00e9 m\u00faltiplo e de Belmonte ficaram imagens pol\u00edcromas. E guardou tamb\u00e9m o Professor Tavares &#8220;&#8230; que gostaria de ver porque era um indiv\u00edduo s\u00e9rio&#8221;; e os jogos populares (canicho e bilharda) em que n\u00e3o participava por ser &#8220;sobrinho do senhor doutor&#8221;.<\/p>\n<p>Na vila acontece-lhe a primeira &#8220;paixoneta&#8221;, por Helena Cabe\u00e7as que &#8220;&#8230; me desapareceu furtada por um indiv\u00edduo com muito mais experi\u00eancia do que eu&#8221;*; a segunda nasce tamb\u00e9m na localidade, por uma rapariga judia: &#8220;Nutri por ela uma paix\u00e3o inexprim\u00edvel e inenarr\u00e1vel&#8221;*. Amores que n\u00e3o eram confessados e eram vividos em tempo de passar f\u00e9rias na casa do Tio.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida que o passado que se conta, n\u00e3o pode ser se n\u00e3o imperfeito&#8230; e, (quantas vezes!) contradit\u00f3rio. Todavia, o saber que diz aquele Belmonte, a ternura com que acalentou as mem\u00f3rias desvelam a verdade de um lugar e de um tempo com vers\u00f5es verdadeiras&#8230;<\/p>\n<p>Talvez, por isso, ainda em Abril, em 1974, veio \u00e0 Beira e a Belmonte festejar a Esperan\u00e7a de um tempo novo. No Castelo teve uma recep\u00e7\u00e3o inigual\u00e1vel. Toda a gente sabia quem era Zeca Afonso, a liberdade rodopiava por ali a propiciar intimidades, cumplicidades, fraternidade. Zeca estava do lado dos desfavorecidos, ningu\u00e9m ignorava. Na vila tinha sido o &#8220;sobrinho do Senhor doutor&#8221;. No Castelo , ouviu, ent\u00e3o: &#8220;\u00d3 meu sacana n\u00e3o te lembras, quando me atiraste um calhau \u00e0s costas?&#8221; O Zeca olhou-o estremecido; condo\u00eddo abra\u00e7ou-o, e saiu-lhe &#8220;\u00d3 p\u00e1, desculpa l\u00e1 isso!&#8221;.<\/p>\n<p>Guardou esta hist\u00f3ria e lembrava-a, quando nos junt\u00e1vamos.<\/p>\n<p>As &#8220;meninas Martinho&#8221;, como dizia, tinham tamb\u00e9m lugar no \u00e1lbum da mem\u00f3ria. A \u00faltima vez que fal\u00e1mos, quando desaparecia a esperan\u00e7a de voltar \u00e0 Beira, pediu: &#8220;D\u00eaem um abra\u00e7o \u00e0s meninas Martinho&#8221;. E no dia em que a Z\u00e9lia Afonso, veio a Belmonte para participar na homenagem da C\u00e2mara Municipal, ao Zeca, em 1990, Judite Martinho ofereceu-lhe uma pe\u00e7a que confeccionara com carinho &#8220;&#8230; uma lembran\u00e7a para o enxoval da filha, da menina&#8221;.<\/p>\n<p>Em Belmonte, uma placa lembra Zeca Afonso; foi colocada em frente da casa doutro amigo &#8211; Zeca Argentina -, junto da Escola Prim\u00e1ria mais antiga, num largo que, pelo Natal, ouve a voz do Zeca:<\/p>\n<p>&#8220;Muita neve cai na serra,<br \/>Muita neve cai na serra,<br \/>S\u00f3 se lembra dos caminhos velhos,<br \/>Quem tem saudades da terra.&#8221;.<\/p>\n<p>Nota: * Jos\u00e9 A. Salvador, Livra-te do medo, Lisboa, A Regra do Jogo, 1984<\/p>\n<p>Maria Antonieta Garcia &#8211; 20.4.00 <\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;\u00d3 p\u00e1, desculpa l\u00e1 isso!&#8221;.Zeca Afonso Atrevo-me a dizer que \u00e9 verdade que o bom senso me desaconselha a reproduzir certas palavras de Zeca Afonso sobre Belmonte. Creio mesmo que, em tempo de Comemora\u00e7\u00f5es dos 500 anos do Achamento do Brasil, por Pedro \u00c1lvares Cabral, navegador de raiz belmontense, seria politicamente correcto&#8230; omitir. 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