{"id":8030,"date":"2007-05-20T16:30:00","date_gmt":"2007-05-20T16:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=8030"},"modified":"2021-12-17T11:39:49","modified_gmt":"2021-12-17T11:39:49","slug":"jose-afonso-cantares-de-um-andarilho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/jose-afonso-cantares-de-um-andarilho\/","title":{"rendered":"Jos\u00e9 Afonso, cantares de um andarilho"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\"><em><strong>Texto de Augusto M. Seabra publicado no &#8220;Expresso&#8221; a 29 de Janeiro de 1983, dia do \u00faltimo concerto de Jos\u00e9 Afonso, no Coliseu dos Recreios de Lisboa.<br \/><\/strong><\/em><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_NeDJGBTlLoA\/RlB4s1sT9xI\/AAAAAAAAAro\/aifM7dwOVAo\/s1600-h\/Sem+t%C3%83%C2%ADtulo-1.jpg\"><\/a><br \/>O concerto de Jos\u00e9 Afonso, hoje, no Coliseu, \u00e9 um acontecimento excepcional. Um acontecimento que no entanto deve ser tratado nos seus exactos termos, isto \u00e9, dum m\u00fasico, poeta e cantor que, finalmente, se apresenta num concerto pensado como tal.<br \/>Por si s\u00f3, o atraso com que este concerto se verifica \u00e9 sintom\u00e1tico dalgumas das contradi\u00e7\u00f5es que pesam sobre Jos\u00e9 Afonso, sobretudo o sobrevalorizar da componente pol\u00edtica &#8220;de protesto&#8221;, &#8220;de interven\u00e7\u00e3o&#8221;, sobre os aspectos po\u00e9tico-musicais.<br \/>Ele foi (\u00e9) de facto, um s\u00edmbolo de transforma\u00e7\u00f5es na can\u00e7\u00e3o e mesmo &#8211; pela associa\u00e7\u00e3o entre o seu tema &#8220;Gr\u00e2ndola, Vila Morena&#8221; e o 25 de Abril no processo hist\u00f3rico-pol\u00edtico; a op\u00e7\u00e3o de se ligat fundamentalmente a certas tend\u00eancias e lutas foi sua. Em nenhum caso se poder\u00e1 no entanto esquecer o dado primeiro: ele n\u00e3o teria uma tal import\u00e2ncia se n\u00e3o fosse o m\u00fasico que \u00e9.<br \/>Ao olhar principalmente para o passado discogr\u00e1fico de Jos\u00e9 Afonso n\u00e3o pretendo reduzi-lo a um valor ultrapassado, mas sim analisar sinteticamente aquilo que o distingue. Se opto por abordar fundamentalmente o per\u00edodo anterior ao 25 de Abril, \u00e9 porque creio que apesar dalguns temas (por exemplo, &#8220;Teresa Torga\u201d do \u00e1lbum ComAs Minhas Tamanquinhas), ou da op\u00e7\u00e3o poss\u00edvel que era o lado A do \u00e1lbum Fura, Fura (integralmente preenchido com as can\u00e7\u00f5es que fez para o espect\u00e1culo Z\u00e9 do Telhado da Barraca), n\u00e3o s\u00f3 h\u00e1 posteriormente uma certa indefini\u00e7\u00e3o da sua obra, como ela foi afectada por problemas t\u00e9cnicos e contratuais que n\u00e3o s\u00e3o da sua responsabilidade.<\/p>\n<p>DO FADO \u00c0 BALADA<\/p>\n<p>Come\u00e7ou ele no fado de Coimbra (como nos recordaria o disco que, inesperadamente talvez, gravou em 1981), ou seja, numa tradi\u00e7\u00e3o musical urbana perfeitamente circunscrita, o que \u00e9 caso raro, j\u00e1 que por defini\u00e7\u00e3o aquele tipo de tradi\u00e7\u00f5es tende a miscigenar-se.<br \/>A especificidade do fado talvez explique algo do percurso singular que seria posteriormente o de Jos\u00e9 Afonso. Num dos mais belos discos portugueses que conhe\u00e7o, Baladas e Can\u00e7\u00f5es (de 1967), ele estava ainda dependente do fado &#8211; sobretudo no estilo vocal- e ao mesmo tempo j\u00e1 para al\u00e9m dele, num esp\u00edrito algo trovadoresco em que o lirismo mel\u00f3dico dominava, mormente em temas como &#8220;Can\u00e7\u00e3o Longe, Os Bravos e Trovas Antigas&#8221;.<br \/>Era ainda, como era apresentado, o Dr. Jos\u00e9 Afonso (com tudo o que isso tem de coimbr\u00e3o), que se encontrava com o que seria durante muito tempo o seu companheiro na viola, Rui Pato.<br \/>Dessa altura e dos anos seguintes, fica-nos sobretudo um Jos\u00e9 Afonso &#8220;cantor de protesto&#8221; (&#8220;Os Vampiros&#8221;, &#8220;Menino do Bairro Negro&#8221;) ou ainda muito ligado a Coimbra (&#8220;Menino de Ouro&#8221;), que foi progressivamente incluindo no seu repert\u00f3rio can\u00e7\u00f5es populares rurais. Entre a produ\u00e7\u00e3o desse per\u00edodo, registada sobretudo em EP\u201ds, um tema como &#8220;Can\u00e7\u00e3o do Mar&#8221;, \u00e9 no entanto j\u00e1 revelador, quer no aspecto vocal, quer no instrumental, duma consci\u00eancia de que a ideia po\u00e9tica se concretiza tamb\u00e9m no tratamento musical.<br \/>O Jos\u00e9 Afonso que mais directamente conhecemos \u00e9 no entanto o que surge em finais dos anos 60, e quando do contrato com a etiqueta Orfeu, numa s\u00e9rie de \u00e1lbuns iniciados com Cantares do Andarilho. A voz est\u00e1 mais segura, encorpada, e sobretudo h\u00e1 um not\u00e1vel recriar (por vezes, em aut\u00eanticas par\u00e1frases) de linhas mel\u00f3dicas tradicionais. Nos sete \u00e1lbuns editados durante esse per\u00edodo, at\u00e9 Coro dos Tribunais (publicado j\u00e1 ap\u00f3s o 25 de Abril, mas que conclui o per\u00edodo), creio que se podem distinguir fundamentalmente duas faces:<br \/>a) Uma, directamente iniciada com Cantares do Andarilho, prossegue nos \u00e1lbuns seguintes, Contos Velhos, Rumos Novos e Traz Outro Amigo Tamb\u00e9m &#8211; embora neste, Carlos Correia (B\u00f3ris) substitua Rui Pato na viola, altera\u00e7\u00e3o relativamente importante &#8211; e \u00e9 retomada mais tarde, j\u00e1 ap\u00f3s Cantigas do Maio, em Eu Vou Ser Como a Toupeira.<br \/>b) A outra concentra-se fundamentalmente nos dois \u00e1lbuns com arranjos de Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco, Cantigas do Maio e Venham mais Cinco, e prossegue ainda no trabalho com Fausto em Coro dos Tribunais.<\/p>\n<p>TRADI\u00c7\u00d5ES POPULARES<\/p>\n<p>A diferencia\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 absoluta porque alguns dos temas dos discos da primeira faceta ligam-se estreitamente \u00e0 segunda, mas creio que \u00e9 pertinente sobretudo se se atender a que a simplicidade mel\u00f3dica dominante da primeira \u00e9 substitu\u00edda na segunda por uma certa lux\u00faria e inven\u00e7\u00e3o sonora, ligadas a diferentes caracter\u00edsticas po\u00e9ticas.<br \/>Digamos que a primeira faceta \u00e9 ainda e sobretudo um prolongamento da balada, com um encontro directo com tradi\u00e7\u00f5es populares, e expressa-se sobretudo em temas como &#8220;Natal dos Simples&#8221;, &#8220;Tecto na Montanha&#8221; e &#8220;Vejam Bem&#8221; (todos de Cantares do Andarilho), num hino como &#8220;Canto Mo\u00e7o&#8221;, no bel\u00edssimo tema que \u00e9 &#8220;Traz Outro Amigo Tamb\u00e9m&#8221; (ambos do \u00e1lbum com o t\u00edtulo do \u00faltimo). Um caso \u00e0 parte \u00e9 &#8220;A Morte Saiu \u00e0 Rua&#8221;, de Eu Vou Ser Como A Toupeira. Caso \u00e0 parte porque, suponho, s\u00f3 o facto de Jos\u00e9 Afonso ter sido escolhido, por leitores dum jornal (o Di\u00e1rio de Lisboa) como representante de Portugal num Festival da Can\u00e7\u00e3o (do Rio de Janeiro) e ter escolhido apresentar-se com essa can\u00e7\u00e3o, permitiu a sua posterior grava\u00e7\u00e3o. Caso \u00e0 parte porque, sendo uma das mais liminares &#8220;can\u00e7\u00f5es de protesto&#8221; (\u00e9 uma homenagem a Jos\u00e9 Dias Coelho, militante comunista assassinado pela PIDE, com uma simbologia tradicional &#8211; &#8220;a foice duma ceifeira&#8221;, &#8220;o som da bigorna&#8221;), sobreleva todas as outras na sua qualidade musical.<\/p>\n<p>O DISCO MAIOR<\/p>\n<p>Creio ser no entanto na outra faceta, e no que a ela se liga, que se encontra o mais original Jos\u00e9 Afonso. Ser\u00e1 de recordar os discos que a assinalam.<br \/>Cantigas do Maio \u00e9 evidentemente o disco maior e que melhor sintetiza o m\u00fasico (ocorre-me que h\u00e1 uns anos, quando o disco foi votado por cr\u00edticos como o melhor \u00e1lbum portugu\u00eas de sempre, Jos\u00e9 Afonso reagiu algo mal, falando em que isso seria social-democrata &#8211; n\u00e3o percebo porque \u00e9 que o seria uma tal constata\u00e7\u00e3o da qualidade musical, a n\u00e3o ser como elogio \u00e0 social-democracia, o que n\u00e3o era evidentemente o objectivo).<br \/>Se exceptuarmos &#8220;Mulher da Erva\u201d (de for\u00e7ado bucolismo), todos os temas s\u00e3o not\u00e1veis. A componente pol\u00edtica combina-se com um excepcional trabalho vocal em &#8220;Cantar Alentejano&#8221;, com a fraternidade coral em &#8220;Gr\u00e2ndola, Vila Morena\u201d. &#8220;Milho Verde&#8221; prossegue o report\u00f3rio de temas populares, ligando-se a &#8220;Cantigas do Maio&#8221; que, com &#8220;Maio, Maduro Maio&#8221; e &#8220;Coro da Primavera&#8221; representam uma vertente sempre importante na obra de Jos\u00e9 Afonso, o do retomar simb\u00f3lico do ciclo natural das esta\u00e7\u00f5es. Propositadamente, deixo de fora, por enquanto, &#8220;Senhor Arcanjo&#8221; e &#8220;Ronda das Mafarricas&#8221;.<\/p>\n<p>IMAGIN\u00c1RIO DO ABSURDO<\/p>\n<p>\u00c9 que penso que essas duas can\u00e7\u00f5es, como ali\u00e1s outras anteriores, sobretudo a titular de Cantares do Andarilho e ainda &#8220;Sete Fadas Me Fadaram&#8221; e &#8220;O Av\u00f4 Cavernoso&#8221; (de Eu Vou Ser Como a Toupeira), e outras posteriores, como &#8220;Tenho Um Primo Convexo&#8221; e &#8220;A Presen\u00e7a das Formigas&#8221; (de Coro dos Tribunais), se ligam directamente com o que me parece o \u00e1lbum mais pessoal de Jos\u00e9 Afonso, Venham Mais Cinco, constituindo o que ele tem, musical e poeticamente, de mais original, e muitas vezes, de esquecido.<br \/>Originalidade que se revela na excepcional adequa\u00e7\u00e3o entre os poemas de Ant\u00f3nio Quadros (Pintor), poemas m\u00e1gicos de bruxas e fadas, em que est\u00e1 latente a sombra dum imagin\u00e1rio africano, entre esses poemas, e a forma como Jos\u00e9 Afonso os musicou &#8211; \u00e9 &#8220;Cantares do Andarilho&#8221;, \u00e9 &#8220;Ronda das Mafarricas&#8221;, \u00e9 &#8220;Sete Fadas Me Fadaram&#8221;.<br \/>Essa adequa\u00e7\u00e3o liga-se directamente com caracter\u00edsticas importantes nos pr\u00f3prios poemas de Jos\u00e9 Afonso e nas suas m\u00fasicas. Neles se manifesta um imagin\u00e1rio do absurdo, do &#8220;non-sense&#8221; algo surreal, com constantes refer\u00eancias animal\u00edsticas, antropof\u00e1gicas, f\u00edsicas e matem\u00e1ticas. S\u00e3o poemas como: &#8220;Senhor Arcanjo\/Vamos jantar\/Caem os Anjos\/Num alguidar\/Hibernam t\u00edbias\/Suspiram r\u00e3s\/ Comem orqu\u00eddeas\/Nas barbac\u00e3s&#8221;, &#8220;Era um redondo voc\u00e1bulo\/Uma soma agreste\/Revelavam-se ondas\/Em maninhos dedos&#8221; (&#8220;Era um redondo voc\u00e1bulo&#8221;, seguramente uma das suas mais belas e inventivas can\u00e7\u00f5es); &#8220;Tenho um primo convexo\/Fadado para amnistias\/Em torno de ele nadam\/ Plantas carn\u00edvoras\/Agitando como plumas\/ As cordas viol\u00e1ceas&#8221;; &#8220;A presen\u00e7a das formigas\/Nesta oficina caseira\/A regra de tr\u00eas composta\/\u00c0s tantas da madrugada&#8221;.<br \/>Musicalmente, este imagin\u00e1rio afirma-se na fus\u00e3o entre a inventiva mel\u00f3dica e o recurso, mais r\u00edmbrico que r\u00edtmico, a percuss\u00f5es africanas e brasileiras, numa capacidade de cria\u00e7\u00e3o de ambientes sonoros que chega a recorrer apenas a sons isolados como envolventes (n\u00e3o suportes) da linha mel\u00f3dica da voz (&#8220;O Av\u00f4 Cavernoso&#8221;) &#8211; s\u00e3o cantares do andarilho.<br \/>Mas, ainda de Venham Mais Cinco, n\u00e3o podem deixar de se referir dois temas excepcionais, &#8220;Que Amor N\u00e3o Me Engana&#8221;, que o acompanhamento de harpa, flauta e violoncelo, envolve como que uma &#8220;can\u00e7\u00e3o de concerto&#8221;, e &#8220;Se Voaras Mais ao Perto&#8221;, espantoso tema trovadoresco, inclusive na forma como a voz tende ao falsete.<br \/>Se t\u00e1o m\u00faltiplas refer\u00eancias musicais exteriores se podem encontrar assim na obra de Jos\u00e9 Afonso, adoptadas de forma muito pessoal, \u00e9 porque ele nunca deixou de se interessar pela multiplicidade das m\u00fasicas.<br \/>O meu contado pessoal com ele, por exemplo, passa por n\u00e3o sei quantos concertos de jazz, ou pelas manifesta\u00e7\u00f5es de m\u00fasica contempor\u00e2nea para as quais, h\u00e1 uns dez anos, tantas vezes fiquei encarregue de o avisar, telefonando para Set\u00fabal: na Gulbenkian, iam executar uma obra de Xenakis, de Penderecki, de Stockhausen&#8230;<br \/>Com tanto atraso, temos esta noite a oportunidade de nos lembrarmos desta simples evid\u00eancia &#8211; Jos\u00e9 Afonso \u00e9 um grande m\u00fasico.<\/p>\n<p>Augusto M. Seabra<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto de Augusto M. Seabra publicado no &#8220;Expresso&#8221; a 29 de Janeiro de 1983, dia do \u00faltimo concerto de Jos\u00e9 Afonso, no Coliseu dos Recreios de Lisboa.O concerto de Jos\u00e9 Afonso, hoje, no Coliseu, \u00e9 um acontecimento excepcional. 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