{"id":8019,"date":"2007-05-13T17:01:00","date_gmt":"2007-05-13T17:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=8019"},"modified":"2021-12-17T11:39:49","modified_gmt":"2021-12-17T11:39:49","slug":"o-meu-amigo-zeca-ii-por-jose-niza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/o-meu-amigo-zeca-ii-por-jose-niza\/","title":{"rendered":"O meu amigo Zeca (II) por Jos\u00e9 Niza"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">Em 1969, pouco antes de ir para a guerra, eu tinha composto a m\u00fasica para duas pe\u00e7as do CITAC, encenadas por um dos maiores nomes do teatro europeu e disc\u00edpulo de Bertold Brecht: Ricard Salvat. A primeira, &#8220;A Excep\u00e7\u00e3o e a Regra&#8221; de Brecht. A segunda, &#8220;Castelao e a sua \u00e9poca&#8221;. Ambas foram proibidas e o Ricard Salvat acabou por ser preso pela PIDE e despejado em Badajoz, no dia em que come\u00e7ou a greve acad\u00e9mica de 69. Para esta segunda pe\u00e7a compus muitas can\u00e7\u00f5es, entre as quais &#8220;Cantar de Emigra\u00e7\u00e3o&#8221;, &#8220;Emigra\u00e7\u00e3o&#8221;, &#8220;Para Rosal\u00eda&#8221;. O &#8220;Cantar de Emigra\u00e7\u00e3o&#8221; era cantado em Coimbra por toda a malta e rapidamente se tornou um sucesso. De tal forma que hoje conhe\u00e7o mais de trinta vers\u00f5es cantadas em portugu\u00eas, galego, castelhano, franc\u00eas e alem\u00e3o. Foi nessa altura que verdadeiramente comecei a compor a s\u00e9rio e a ser conhecido no pequeno mundo da m\u00fasica portuguesa. A vers\u00e3o do &#8220;Cantar de Emigra\u00e7\u00e3o&#8221; que o Adriano lan\u00e7ou no seu LP &#8220;Cantaremos&#8221; (1970), fez o sucesso desse disco e levou o Adriano a escrever-me para a guerra e a pedir-me que fizesse todas as can\u00e7\u00f5es do seu \u00e1lbum seguinte. Mas, mais do que isso, ele e o Zeca propuseram-me ao Sr. Arnaldo para dirigir a produ\u00e7\u00e3o dos discos Orfeu. De certa forma foi isso que me abriu as portas para tudo o que depois vim a fazer na m\u00fasica portuguesa.<\/p>\n<p>Entretanto o Zeca continuava, anualmente, a semear aut\u00eanticas obras-primas: &#8220;Contos Velhos Rumos Novos&#8221; (1969), &#8220;Traz outro amigo tamb\u00e9m&#8221; (1970).<\/p>\n<p>E estamos chegados a Agosto de 1971, altura em que regressei da guerra e comecei a trabalhar na produ\u00e7\u00e3o dos discos Orfeu. Em cima da mesa estavam dois grandes projectos para lan\u00e7ar antes do Natal desse ano: o Zeca iria a Fran\u00e7a gravar um disco com direc\u00e7\u00e3o do Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco. E o Adriano ficaria em Lisboa (ainda estava na tropa) a gravar comigo o disco que eu tinha composto para ele. Como ambas as grava\u00e7\u00f5es foram feitas ao mesmo tempo eu n\u00e3o pude ir a Fran\u00e7a com o Zeca e fiquei em Lisboa a dirigir o disco do Adriano. Quando o Arnaldo Trindade ouviu os dois discos ficou em estado de choque musical: aquilo era muito mais do que ele sonhara!<\/p>\n<p>Entretanto \u2013 e tamb\u00e9m de Paris \u2013 vieram dois discos cantados por dois exilados pol\u00edticos, os seus \u00e1lbuns de estreia: &#8220;Mudam-se os tempos, Mudam-se as vontades&#8221;, do Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco e &#8220;Sobreviventes&#8221;, do S\u00e9rgio Godinho.<\/p>\n<p>Estes quatro discos foram quase simultaneamente postos no mercado. E aconteceu um terramoto, uma revolu\u00e7\u00e3o musical totalmente imprevista e inovadora na m\u00fasica popular portuguesa. Ao fim de mais de 35 anos ainda h\u00e1 r\u00e9plicas desse terramoto. As marcas que deixou continuam a ser a matriz e refer\u00eancia da m\u00fasica que hoje se faz em Portugal. Todos estes quatro discos figuram na lista apertada dos melhores discos da segunda metade do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>O curioso disto tudo \u00e9 que nenhum de n\u00f3s sabia o que os outros estavam a preparar. O Z\u00e9 M\u00e1rio e o S\u00e9rgio estavam em Paris e eu nem sequer os conhecia. O Zeca receava a genial encena\u00e7\u00e3o musical do Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco e nem sequer sabia para o que estava guardado. E o Adriano s\u00f3 depois de comigo entrar em est\u00fadio \u00e9 que soube o que verdadeiramente lhe iria acontecer.<\/p>\n<p>Nos anos seguintes produzi, ou dirigi, quatro importantes discos do Zeca: &#8220;Eu vou ser como a toupeira&#8221; (Madrid &#8211; 1972), &#8220;Venham mais cinco&#8221; (Paris \u2013 1973), &#8220;Coro dos Tribunais&#8221; (Londres \u2013 1974) e &#8220;Com as minhas tamanquinhas&#8221; (Lisboa \u2013 1976), os dois primeiros antes do 25 de Abril e os dois \u00faltimos, depois. A minha elei\u00e7\u00e3o para a Assembleia Constituinte e, depois, para a Assembleia da Rep\u00fablica, impediram-me de continuar a trabalhar com o Zeca &#8211; e na editora. O mais importante estava feito, o fascismo tinha sido derrubado e agora a m\u00fasica era outra.<\/p>\n<p>Produzir discos do Zeca, ainda por cima no estrangeiro, era qualquer coisa de fascinante, de cicl\u00f3pico e, sobretudo, uma experi\u00eancia diferente do habitual.<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ava com v\u00e1rias idas \u00e0 casa do Zeca, em Set\u00fabal, para escolher o report\u00f3rio, a direc\u00e7\u00e3o musical, os acompanhantes e o est\u00fadio onde ir\u00edamos gravar. Depois havia a insuport\u00e1vel, mas obrigat\u00f3ria, miss\u00e3o de enviar os poemas \u00e0 censura. Eu aqui inventei um truque que quase sempre funcionou e que aprendi nas artes da pesca: era o &#8220;engodo&#8221;. A verdade \u00e9 que \u00e0 ditadura n\u00e3o interessava calar totalmente o Zeca. Seria demasiado dr\u00e1stico e provocaria efeitos de &#8220;boomerang&#8221;. \u00c0 censura interessava sim, controlar o que o Zeca cantaria. Do mal, o menos. Percebendo isto, quando preparava um disco, por exemplo de 10 can\u00e7\u00f5es, eu pedia ao Zeca uns 15 poemas. Os que n\u00e3o eram para gravar \u2013 e nem sequer tinham sido por ele musicados \u2013 eram tamb\u00e9m os mais expl\u00edcitos e acirradores. Era sobretudo nesses que o l\u00e1pis azul colocava a morda\u00e7a, deixando luz amarela ou verde para os outros. A estupidez dos censores era equivalente \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o do dever cumprido: em 15 cortavam 5 e estava o dia ganho. E eu agradecia. O engodo tinha funcionado. Mas a tarefa n\u00e3o terminava aqui. Era preciso marcar est\u00fadio, combinar datas, tratar de viagens e hot\u00e9is, combinar cachets e contratar os m\u00fasicos, arranjar restaurantes e pagar as contas, dar umas ab\u00e9bias para as r\u00e1dios e para os jornais, tratar das capas dos discos e das fotografias. Quando as grava\u00e7\u00f5es eram l\u00e1 fora eu levava o dinheiro em notas de banco e pagava &#8220;cash&#8221;.<\/p>\n<p>Quando finalmente entr\u00e1vamos em est\u00fadio, no estrangeiro, era preciso explicar aos engenheiros de som que m\u00fasica era aquela, o que se pretendia, quem era o cantor.<\/p>\n<p>As grava\u00e7\u00f5es do Zeca eram diferentes das habituais em que, quando se entrava em est\u00fadio, j\u00e1 quase tudo estava previsto e preparado. Para ele, o est\u00fadio era sobretudo um laborat\u00f3rio de experi\u00eancias, uma sala de ensaios, um espa\u00e7o criativo. As solu\u00e7\u00f5es musicais eram geralmente encontradas no momento, \u00e0 custa de sucessivas tentativas. O meu drama \u00e9 que tudo aquilo tinha de come\u00e7ar e acabar em sete dias, que era o tempo reservado para as grava\u00e7\u00f5es. Se houvesse um atraso ter\u00edamos de regressar a penates porque no dia seguinte o est\u00fadio j\u00e1 era para outros. A verdade \u00e9 que os prazos foram sempre cumpridos.<\/p>\n<p>O primeiro disco que produzi para o Zeca foi &#8220;Eu vou ser como a toupeira&#8221; gravado em Madrid, em 1972. Nesse \u00e1lbum ele queria incluir a can\u00e7\u00e3o &#8220;A morte sa\u00edu \u00e0 rua&#8221; cuja letra, embora de forma n\u00e3o expl\u00edcita, denunciava o assassinato do pintor comunista Dias Coelho pela PIDE. O poema foi cortado pela censura. O Zeca ficou indignado. E eu n\u00e3o me conformei. O Director Geral de Informa\u00e7\u00e3o da altura era o Dr. Pedro Feytor Pinto, nascido e licenciado em Coimbra, que tocava umas pianadas e tinha pertencido \u00e0 Tuna Acad\u00e9mica, onde conheceu o Zeca. Era ele o chefe da censura. Telefonei-lhe e convidei-o para almo\u00e7ar. Durante o almo\u00e7o fino, na Varanda do Chanceler, convenci-o. &#8220;Afinal, quem \u00e9 que sabia quem era o Dias Coelho?&#8221; Sa\u00ed do restaurante com a autoriza\u00e7\u00e3o e uma conta choruda para o Arnaldo Trindade pagar. N\u00e3o h\u00e1 almo\u00e7os gr\u00e1tis.<\/p>\n<p>Quando gravava, o Zeca gostava de estar sempre acompanhado pelos amigos das cantigas, mesmo que n\u00e3o entrassem no &#8220;filme&#8221;. Aquilo proporcionava um clima de bom conv\u00edvio, com copos, conversas e muito humor. Para essa grava\u00e7\u00e3o eu reservei um grande apartamento nas Torres de Madrid onde todos fic\u00e1vamos, e que tinha duas vantagens: uma grande sala, onde pod\u00edamos ensaiar \u00e0 noite; e uma localiza\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima da sa\u00edda da cidade para os Est\u00fadios Cellada, a 12 kms da capital.<\/p>\n<p>A equipa que acolitava o Zeca tinha como suporte principal a viola do Carlos Alberto Moniz e integrava o galego Benedicto, grande amigo do Zeca, a Teresa Silva Carvalho e o Jos\u00e9 Jorge Letria.<\/p>\n<p>O arranque da grava\u00e7\u00e3o foi complicado. Ningu\u00e9m sabia verdadeiramente o que o Zeca queria. Nem ele era capaz de se explicar. A disciplina que o Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco tinha imposto no disco anterior (&#8220;Cantigas do Maio&#8221;), a que o Zeca se tinha submetido com alguma reserva, foi substitu\u00edda por algum excesso de improvisa\u00e7\u00e3o e de experimentalismo. Come\u00e7\u00e1mos por gravar as can\u00e7\u00f5es mais simples. Ao segundo dia, numa pausa da grava\u00e7\u00e3o, eu andava com o Zeca a passear no corredor. Pass\u00e1mos em frente da porta do est\u00fadio 2 e ouvimos uma viola muito bem tocada. Fic\u00e1mos ali, o guitarrista estava a ensaiar. O Zeca parou e disse: &#8220;\u00c9 mesmo disto que estamos a precisar! \u00d3 Niza vai l\u00e1 dentro e convida o gajo para se juntar \u00e0 malta!&#8221; Fui l\u00e1, expliquei-lhe ao que ia. O tipo achou o convite algo ins\u00f3lito mas aceitou. Este acaso do destino foi uma enorme mais-valia para o disco. O Carlos Villa, assim se chamava o guitarrista, deu um grande contributo para a sua valoriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma das can\u00e7\u00f5es que o Zeca queria incluir \u2013 &#8220;O av\u00f4 cavernoso&#8221;- era um tema dedicado ao Cardeal Cerejeira (ou ao Salazar, ou aos dois&#8230;) com uma m\u00fasica e um poema completamente fora do seu estilo habitual. O surrealismo do tema s\u00f3 podia ter um acompanhamento musical e coral igualmente ins\u00f3lito. Defendi que, ao contr\u00e1rio das regras, o papel da viola deveria ser o de destrui\u00e7\u00e3o da m\u00fasica e do poema.<\/p>\n<p>A ideia era um bocado abstrusa, mas o Zeca decidiu test\u00e1-la. Era o tal experimentalismo de que atr\u00e1s falei, Coube-me a mim acompanh\u00e1-lo. A primeira coisa que fiz foi desafinar a viola. Isso mesmo: desafinar a viola! O Zeca come\u00e7ou a cantar o tema, tal como o tinha criado, e eu a desconstru\u00ed-lo com notas desafinadas e acordes dissonantes: era a loucura l\u00facida! O resultado foi de espanto e aprova\u00e7\u00e3o. Com os coros aconteceu mais ou menos o mesmo. Mas faltava ainda o tempero das percuss\u00f5es. E a\u00ed ca\u00edmos num impasse. Par\u00e1mos a grava\u00e7\u00e3o para reflectir. Nesse intervalo fui ao bar do est\u00fadio e trouxe de volta uma cerveja e um &#8220;bocadillo de jamb\u00f3n&#8221; com aquele p\u00e3o branco e estaladi\u00e7o. Fui comer para o est\u00fadio, os microfones estavam ligados e o Zeca estava a descansar na &#8220;r\u00e9gie&#8221;. \u00c0s tantas, ia eu a passar ao lado de um dos microfones e dei uma dentada no p\u00e3o. O Zeca deu um grito de satisfa\u00e7\u00e3o: &#8220;Eh p\u00e1, era mesmo este som que eu queria para a percuss\u00e3o!&#8221; O t\u00e9cnico p\u00f4s a correr a fita onde estava a voz do Zeca e a minha viola. E eu fiquei no est\u00fadio a morder no &#8220;bocadillo&#8221; ao ritmo da m\u00fasica. Acho que dev\u00edamos ter mandado isto para o Guiness&#8230;<\/p>\n<p>No ano seguinte a grava\u00e7\u00e3o foi em Paris, no Est\u00fadio Aquarium. O Zeca resolveu \u2013 e bem \u2013 reconstituir a equipa de &#8220;Cantigas do Maio&#8221;, isto \u00e9, Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco e Gilles Sall\u00e9, o engenheiro de som. O Z\u00e9 M\u00e1rio estava \u00e0 nossa espera mas, sobre o que o Zeca ia cantar, a informa\u00e7\u00e3o que tinha era muito escassa. Foi o ano de &#8220;Venham mais cinco&#8221;. Talvez tenha sido a semana mais dura na vida musical do Z\u00e9 M\u00e1rio: de dia grav\u00e1vamos e \u00e0 noite ele ia escrever os arranjos para o dia seguinte. Quando chegou o fim da grava\u00e7\u00e3o nem podia com uma gata pelo rabo. Este disco cont\u00e9m algumas das melhores can\u00e7\u00f5es da obra do Zeca: &#8220;Venham mais cinco&#8221;, &#8220;Era um redondo voc\u00e1bulo&#8221;, &#8220;Que amor n\u00e3o me engana&#8221;, &#8220;A formiga no carreiro&#8221;, &#8220;Gast\u00e3o era perfeito&#8221; e algumas outras. Fic\u00e1mos instalados num dos melhores hot\u00e9is de Paris, o PLM (da cadeia Paris-Lyon-Marseille, recentemente inaugurado). Tudo era climatizado, as janelas dos quartos e de todo o hotel eram estanques, tudo funcionava com ar condicionado. O ar que respir\u00e1vamos era quente e absolutamente seco. O pior para a voz de qualquer cantor. O Zeca pediu-me para mudarmos de hotel, mas j\u00e1 estava tudo pago e o tempo ia passando. Ensinei-lhe um truque que tinha aprendido na Su\u00e9cia quando o tampo da minha guitarra estalou por causa do ar seco: abrir a torneira da \u00e1gua quente da casa de banho e deix\u00e1-la a correr. Era a \u00fanica forma de humidificar o ar. N\u00e3o resolveu totalmente o problema, mas ajudou.<\/p>\n<p>Quando o disco ficou pronto segui para Londres. Era l\u00e1 que se iria fazer o corte do acetato e fabricar o LP. 1973 foi o ano da grande crise do petr\u00f3leo. O vinil era um bem escasso e o que havia dispon\u00edvel j\u00e1 era reciclado. Quando fui \u00e0 f\u00e1brica, nos arredores de Londres, fiquei decepcionado: aquilo parecia mais uma carpintaria que uma f\u00e1brica de discos. A Pye Records tinha enganado a editora. Regressei a Lisboa com os primeiros discos e telefonei ao Zeca para os ouvirmos em minha casa. Ele foi ouvindo, ouvindo, com express\u00e3o carregada e sem coment\u00e1rios. Mas, no fim, disse que aquilo n\u00e3o correspondia \u00e0 qualidade do que t\u00ednhamos gravado em Paris e que n\u00e3o autorizava a venda. E tinha raz\u00e3o. A solu\u00e7\u00e3o de recurso foi fazer a edi\u00e7\u00e3o em Lisboa, numa f\u00e1brica onde ainda havia uma boa reserva de vinil do bom.<\/p>\n<p>Mal sab\u00edamos n\u00f3s que &#8220;Venham mais cinco&#8221; seria o \u00faltimo disco do Zeca antes do 25 de Abril.<\/p>\n<p>Em 1974, j\u00e1 depois da revolu\u00e7\u00e3o dos cravos, fomos gravar a Londres, desta vez com o Fausto na direc\u00e7\u00e3o musical. Havia uma grande expectativa e curiosidade em saber o que o Zeca iria cantar, finalmente liberto da PIDE e da censura. Foi igual ao que sempre tinha sido. Em Portugal vivia-se o Ver\u00e3o quente, os crist\u00e3os-novos da can\u00e7\u00e3o panflet\u00e1ria nasciam como cogumelos, numa corrida louca para se saber quem era mais revolucion\u00e1rio. O Zeca n\u00e3o embarcou nessa onda: a grande, longa e penosa marcha j\u00e1 ele a tinha ganho antes.<\/p>\n<p>Para essa grava\u00e7\u00e3o \u2013 e pela terceira vez \u2013 o Zeca voltou a convidar o Michel Delaporte, um percussionista franc\u00eas que o Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco lhe apresentara em &#8220;Cantigas do Maio&#8221;. O Michel tornara-se um m\u00fasico residente na sua discografia, que muito valorizou. Para al\u00e9m do Fausto, foram tamb\u00e9m a Londres o Carlos Alberto Moniz, o Adriano, o Vitorino e eu. A can\u00e7\u00e3o do disco foi &#8220;O que faz falta&#8221;.<\/p>\n<p>Foi uma grava\u00e7\u00e3o tranquila, \u00e0 inglesa, e na qual os t\u00e9cnicos brit\u00e2nicos tiveram alguma dificuldade em se integrar. At\u00e9 porque, naqueles tempos conturbados, a imagem medi\u00e1tica que as televis\u00f5es levavam ao mundo, era a de um Portugal a caminho de uma ditadura comunista. A Europa estava assustada com a amea\u00e7a de uma nova Cuba. Recordo-me de um dia, ao chegar ao est\u00fadio, um dos engenheiros de som ingleses me perguntar, preocupado, o que se estava a passar em Lisboa. Tinha havido um atentado numa ag\u00eancia da AIR FRANCE, um pequeno petardo tinha quebrado o vidro da montra. Debaixo do bra\u00e7o eu tinha um jornal londrino. Mostrei-lhe a primeira p\u00e1gina, ocupada com a not\u00edcia de 14 atentados do IRA, ocorridos na v\u00e9spera, na Oxford Street. &#8220;So What? Pois \u00e9, mas n\u00f3s j\u00e1 estamos habituados&#8230;&#8221; A conversa acabou logo ali.<\/p>\n<p>O papel do Adriano e do Vitorino nesta grava\u00e7\u00e3o foi mais de anima\u00e7\u00e3o do que de participa\u00e7\u00e3o. Cantavam nos coros e andavam a descobrir Londres. Uma tarde irromperam pelo est\u00fadio em grande euforia: tinham descoberto, mesmo ali ao lado, uma loja de um portugu\u00eas que vendia chouri\u00e7o alentejano, p\u00e3o caseiro e vinho tinto! O Zeca, j\u00e1 farto das comedorias inglesas e pudins de ma\u00e7\u00e3, ordenou \u00e0s tropas: &#8220;Vamos ao ataque!&#8221; Os dois engenheiros de som ficaram perplexos: interromper assim uma grava\u00e7\u00e3o ia contra os costumes do Reino de Sua Majestade, The Queen! Foram connosco e n\u00e3o se arrependeram. E ficaram a perceber que na vida ou na m\u00fasica, beber um copo ajudava \u00e0 festa: o que fazia falta era animar a malta.<\/p>\n<p>Em 1975 o Zeca fez greve \u00e0s grava\u00e7\u00f5es. N\u00e3o por falta de can\u00e7\u00f5es, mas por falta de tempo. Cantava em tudo o que era s\u00edtio. Apoiava os trabalhadores, sobretudo no Alentejo, na reforma agr\u00e1ria. Ou os pescadores do Algarve. Cantava no estrangeiro. O seu lema era: &#8220;Cantando espalharei por toda a parte&#8221;. Grande parte dessas viv\u00eancias e experi\u00eancias foi transformada em can\u00e7\u00f5es no seu disco seguinte &#8220;Com as minhas tamanquinhas&#8221;, um trabalho que na minha leitura, mais parece uma foto-reportagem musical. Neste disco o Zeca canta pessoas concretas e conta est\u00f3rias ver\u00eddicas: Kissinger, Teresa Torga, os \u00cdndios da Meia-Praia, Como se faz um Canalha (Aventino Teixeira), Al\u00edpio de Freitas. Um verdadeiro \u00e1lbum de can\u00e7\u00f5es em forma de fotografia. Neste trabalho o Zeca assumiu a orienta\u00e7\u00e3o musical e nele colaboraram, entre outros, Fausto, J\u00falio Pereira, Michel Delaporte, Quim Barreiros (!!!), Ramon Galarza, Vitorino e eu pr\u00f3prio. Foi o \u00faltimo disco que fiz com o Zeca.<\/p>\n<p>A partir daqui as suas grava\u00e7\u00f5es come\u00e7aram a ser mais espa\u00e7adas: &#8220;Enquanto h\u00e1 for\u00e7a&#8221; (1978), &#8220;Fura-Fura&#8221; (1979), &#8220;Fados de Coimbra e outras can\u00e7\u00f5es&#8221; (1981), &#8220;Como se fora seu filho&#8221; (1983) e &#8220;Galinhas do Mato&#8221; (1985). Neste \u00faltimo disco o Zeca j\u00e1 estava gravemente doente. Morreria dois anos depois, vitimado por uma doen\u00e7a incur\u00e1vel, do foro neurol\u00f3gico, com o estranho nome de esclerose lateral amiotr\u00f3fica.<\/p>\n<\/div>\n<div align=\"justify\">in <em><a href=\"http:\/\/www.oribatejo.pt\/\">www.oribatejo.pt<\/a><\/em><\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1969, pouco antes de ir para a guerra, eu tinha composto a m\u00fasica para duas pe\u00e7as do CITAC, encenadas por um dos maiores nomes do teatro europeu e disc\u00edpulo de Bertold Brecht: Ricard Salvat. A primeira, &#8220;A Excep\u00e7\u00e3o e a Regra&#8221; de Brecht. A segunda, &#8220;Castelao e a sua \u00e9poca&#8221;. 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