{"id":7950,"date":"2007-04-26T07:12:00","date_gmt":"2007-04-26T07:12:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=7950"},"modified":"2021-12-17T11:39:50","modified_gmt":"2021-12-17T11:39:50","slug":"zeca-contado-as-criancas-por-jose-jorge-letria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/zeca-contado-as-criancas-por-jose-jorge-letria\/","title":{"rendered":"Zeca contado \u00e0s crian\u00e7as por Jos\u00e9 Jorge Letria"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\"><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_NeDJGBTlLoA\/RjBRYRYVD8I\/AAAAAAAAAjY\/drn9gbIcBeM\/s1600-h\/zecaafonso.jpg\"><img alt=\"\" border=\"0\" id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5057631858961223618\" src=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_NeDJGBTlLoA\/RjBRYRYVD8I\/AAAAAAAAAjY\/drn9gbIcBeM\/s400\/zecaafonso.jpg\" style=\"cursor: hand; display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center;\" \/><\/a><br \/>Quando passam 20 anos da morte de Zeca Afonso e no m\u00eas que se celebram os 33 anos da revolu\u00e7\u00e3o dos cravos, chega \u00e0s livrarias o livro infantil Zeca Afonso \u2013 O andarilho da voz de ouro. Jos\u00e9 Jorge Letria, munindo-se da pureza encantat\u00f3ria da linguagem infantil, reconstr\u00f3i a hist\u00f3ria do menino ao homem, e Evelina Oliveira desenha a magia narrativa com cor e emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se Zeca foi a voz de ouro, sin\u00f3nimo de riqueza humana e trigo do futuro, este livro dedicado ao gr\u00e3o do trigo novo \u00e9 o instrumento que faltava para se passar esse testemunho \u00e0s nossas crian\u00e7as. Por isso, e j\u00e1, \u00abQue \u00e9 j\u00e1 tempo \/D\u2019embalar a trouxa \/E zarpar\u00bb em direc\u00e7\u00e3o ao futuro, \u00abVenham mais cinco\u00bb e tragam outros amigos tamb\u00e9m para que se obtenha uma seara robusta. Assim, os mi\u00fados de hoje poder\u00e3o perceber mais tarde o que \u00e9 ser-se maior que o pensamento, e porque as palavras e a voz de Zeca levam ao arrepio.<br \/>Homenagem \u00e0s crian\u00e7as, a Zeca Afonso e \u00e0 Liberdade, este livro da soberba colec\u00e7\u00e3o \u00abO Sol e a Lua\u00bb, da Campo das Letras, veicula ensinamentos indiz\u00edveis de sonho, coragem, resist\u00eancia \u00e0s amarguras, mas tamb\u00e9m educa a sensibilidade e as emo\u00e7\u00f5es. S\u00e3o propriedades de uma escrita com po\u00e9tica singular, a que Jos\u00e9 Jorge Letria h\u00e1 muito nos habituou, que provoca no leitor adulto uma inaudita como\u00e7\u00e3o. Um desafio de intimidades para pais e filhos, descoberta para os mi\u00fados, redescoberta para os gra\u00fados, num crescimento conjunto.<\/p>\n<p>Conta-se a hist\u00f3ria do menino Zeca, nascido em Aveiro, que desde muito cedo \u00abaprendeu o sentido da palavra longe\u00bb. As grandes viagens de barco que fazia para estar junto dos pais em territ\u00f3rios que \u00abPortugal ent\u00e3o dominava noutros continentes\u00bb, davam-lhe tempo para sonhar, mas tamb\u00e9m para escutar as suas primeiras inquieta\u00e7\u00f5es e medos. Em \u00c1frica fazia amigos, meninos negros com quem brincava numa fraternidade que o acompanharia toda a vida. Por isso, o menino Zeca n\u00e3o percebia a raz\u00e3o dos \u00abadultos brancos\u00bb, com a marca do poder e da autoridade, distinguirem as duas ra\u00e7as. Escolhia ent\u00e3o ser rebelde, \u00abporque era essa a sua maneira de ser livre\u00bb. Dividido entre \u00c1frica e Portugal, dois mundos onde tinha amigos, \u00absempre com o cora\u00e7\u00e3o a bater em dois lados ao mesmo tempo\u00bb, o menino andarilho crescia nesse desassossego que lhe tra\u00e7ava o rumo futuro, e que seria a sua sina e o seu drama.<\/p>\n<p>Refere-se que desde menino \u00abZeca aprendeu o valor que t\u00eam as ideias, coisas esquivas e imateriais que n\u00e3o se compram nem se vendem nas bancas do com\u00e9rcio, nos supermercados ou nas feiras\u00bb. Quando em Timor os pais foram feitos prisioneiros pelos japoneses e levados para um campo de concentra\u00e7\u00e3o, \u00abo menino, contendo as l\u00e1grimas da tristeza e da indigna\u00e7\u00e3o, aprendeu a n\u00e3o gostar da palavra \u201cguerra\u201d, a mesma que, mais tarde, o inquietaria e o levaria a fazer can\u00e7\u00f5es que falassem s\u00f3 de paz\u00bb.<\/p>\n<p>Por outro lado, se as ideias que ouvia aos tios de Aveiro eram de liberdade, outras ideias corriam em Belmonte, onde viveu, na casa do tio Filomeno que \u00abgostava de Salazar\u00bb, pelo qual foi obrigado a vestir a farda da mocidade portuguesa. Foi tamb\u00e9m l\u00e1 que aprendeu o outro nome para o Pap\u00e3o: Salazar. Mas o pap\u00e3o tinha um grande ponto fraco: n\u00e3o conseguia lidar com a for\u00e7a da palavra e encarcerava o pa\u00eds \u00abentre as grades do medo que mandara erguer por todo o lado\u00bb. Todavia, Zeca j\u00e1 tinha aprendido a rebeldia e, por isso, erradicado o des\u00e2nimo e o medo.<\/p>\n<p>\u00c9 em Coimbra, cidade que o formou e ouviu, que Zeca faz novas amizades e come\u00e7a a usar a voz de ouro para cantar. \u00c9 l\u00e1 que encontra Humberto Delgado, general sem medo da \u00absofreguid\u00e3o dos vampiros\u00bb, que acabou por \u00abperder as elei\u00e7\u00f5es que ganhou\u00bb, ousadia que lhe tirou a vida. \u00c9 tamb\u00e9m l\u00e1 que percebe que \u00abas grades piores at\u00e9 eram as que cada um deixava erguer no interior do que pensava e sonhava, tornando cada vez mais dif\u00edcil a livre partilha de ideias.\u00bb Por isso, estudava e cantava procurando actualizar as mensagens dos antigos fados de Coimbra, cultivando com palavras \u00abcerteiras\u00bb, \u00abpreocupadas com a vida das pessoas e com os seus problemas\u00bb, palavras de uni\u00e3o, porque \u00abcasadas com o sofrimento dos que menos tinham\u00bb para \u00abacordar os que o ouviam do sono resignado em que se tinham deixado cair sem quase se aperceberem disso\u00bb.<\/p>\n<p>Surgia naturalmente a defini\u00e7\u00e3o de \u00abCantor pol\u00edtico\u00bb. \u00abOs vampiros querem calar a voz que os desmascara e condena. Mas o cantor n\u00e3o se cala. E j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3. Est\u00e3o com ele outros, como Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire ou Francisco Fanhais\u00bb, entre muitos outros. Na p\u00e1gina 36 irrompe a narra\u00e7\u00e3o cont\u00edgua \u00e0 ilustra\u00e7\u00e3o do \u00faltimo concerto de Zeca, em 1983, no Coliseu dos Recreios em Lisboa, uma fremente catarse, ainda hoje sem explica\u00e7\u00e3o racional.<\/p>\n<p>O homem de err\u00e2ncias, criador do soberbo tema \u00abEra um redondo voc\u00e1bulo\u00bb \u2013 escrito na pris\u00e3o de Caxias \u2013 via fechar-se-lhe o seu ciclo de vida. Jos\u00e9 Jorge Letria descreve esse momento, da forma que se segue:<\/p>\n<p>Era uma madrugada de Fevereiro, fria e h\u00famida, e o ar come\u00e7ava a minguar-lhe nos pulm\u00f5es. Tinha chegado a hora de partir. Nessa madrugada, uma mulher de rosto luminoso e sorridente acercou-se dele e perguntou-lhe se queria a sua companhia. Respondeu-lhe que sim, reconhecendo nela a jovem que caminhara a seu lado em Coimbra, nos dias em que Humberto Delgado era nome da esperan\u00e7a portuguesa. Perguntou-lhe docemente:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9s tu que me vens buscar?<\/p>\n<p>E ela respondeu, apertando-lhe a m\u00e3o contra o peito:<\/p>\n<p>&#8211; Sim, \u00e9 comigo que vais partir, mas n\u00e3o penses que sou a Morte. Eu sou a Liberdade, aquela que sempre amaste e seguiste e que agora se erguer\u00e1 contigo nos ares, perseguindo um sonho que s\u00f3 acabar\u00e1 quando o \u00faltimo ser humano desaparecer deste planeta.<\/p><\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\"><b>Texto de Teresa S\u00e1 Couto<\/b><\/p>\n<p>Zeca Afonso \u2013 O andarilho da voz de ouro, texto de Jos\u00e9 Jorge Letria e ilustra\u00e7\u00f5es de Evelina Oliveira; Editorial Campo das Letras, Porto, Abril de 2007 <\/p><\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando passam 20 anos da morte de Zeca Afonso e no m\u00eas que se celebram os 33 anos da revolu\u00e7\u00e3o dos cravos, chega \u00e0s livrarias o livro infantil Zeca Afonso \u2013 O andarilho da voz de ouro. 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