{"id":7858,"date":"2007-04-02T17:53:00","date_gmt":"2007-04-02T17:53:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=7858"},"modified":"2021-12-17T11:40:04","modified_gmt":"2021-12-17T11:40:04","slug":"zeca-afonso-o-professor-indisciplinador-de-almas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/zeca-afonso-o-professor-indisciplinador-de-almas\/","title":{"rendered":"Zeca Afonso \u2013 O Professor \u201cIndisciplinador de almas\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Decidi relembrar o Zeca Afonso como professor, uma vez que o poeta e o m\u00fasico t\u00eam um lugar \u00edmpar no panorama da cultura musical portuguesa e s\u00e3o por todos reconhecidos.<\/p>\n<p>\u201cDURANTE O EXERC\u00cdCIO DO PROFESSORADO, COLHI A MINHA EXPERI\u00caNCIA DE VIDA MAIS IMPORTANTE.\u201d<\/p>\n<p>\u201cTENTEI ASSUMIR A FUN\u00c7\u00c3O DE PROFESSOR, QUE N\u00c3O TINHA NADA A VER COM A TRADICIONAL.<\/p>\n<p>RECORDO-ME QUE TINHA GRANDES DIFICULDADES EM CONCILIAR OS DOIS ASPECTOS: A DISCIPLINA E O DI\u00c1LOGO. OS ALUNOS CHEGAVAM-ME REPRIMIDOS POR UM DETERMINADO SISTEMA DE ENSINO E VINHAM DESCARREGAR AS TENS\u00d5ES DA\u00cd RESULTANTES PARA AS MINHAS AULAS.<\/p>\n<p>A MAIOR PARTE DESSES ALUNOS ACEITAVA O PROFESSOR DENTRO DOS MOLDES TRADICIONAIS, REPRESSIVOS E AUTORIT\u00c1RIOS, E N\u00c3O DAVAM CR\u00c9DITO AO PROFESSOR QUE SE PUNHA NUMA POSI\u00c7\u00c3O DE DI\u00c1LOGO. ESPECIALMENTE EM MANGUALDE (1956)\u2026\u201d<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Afonso<\/p>\n<p>REGISTO BIOGR\u00c1FICO:<\/p>\n<p>Em fins da d\u00e9cada de 40, j\u00e1 aluno de Ci\u00eancias Hist\u00f3rico-Filos\u00f3ficas da Faculdade de Letras de Coimbra, destaca-se, \u00e0 semelhan\u00e7a do irm\u00e3o, como cantor de fados. <\/p>\n<p>1955-56  &#8211; Professor em Mangualde<\/p>\n<p>No ano lectivo 1955\/56,  para assegurar o sustento da fam\u00edlia, e embora n\u00e3o tendo ainda conclu\u00eddo o curso, come\u00e7a a dar aulas num col\u00e9gio privado em Mangualde. <\/p>\n<p>1956-57  &#8211; Professor em Aljustrel <\/p>\n<p>Foi professor de Hist\u00f3ria e Geografia no Externato D. Filipa de Vilhena, em Aljustrel.<\/p>\n<p>Em 1957\/58 \u00e9 professor em Lagos, seguindo-se nos anos subsequentes Lagos, Faro, Alcoba\u00e7a e de novo Faro.<\/p>\n<p>No arquivo da Escola Secund\u00e1ria Gil Eanes, em Lagos existem alguns documentos que comprovam a sua passagem como professor desta cidade.<\/p>\n<p>Segundo a documenta\u00e7\u00e3o \u00abpode comprovar-se que os anos de 1957\/58 foram tempos dif\u00edceis para Jos\u00e9 Afonso. <\/p>\n<p>Antes de poder leccionar nesta cidade algarvia, \u00e9 enviado para aquele estabelecimento, ent\u00e3o Escola Industrial e Comercial de Lagos, um documento do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o confirmando que Jos\u00e9 Manuel Cerqueira Afonso dos Santos estava apto para dar aulas; contudo, Zeca ter\u00e1 sido \u00abobrigado a assinar um documento onde declarou, pela sua honra, que n\u00e3o pertencia nem jamais pertenceria a associa\u00e7\u00f5es ou institutos secretos\u00bb.<\/p>\n<p>1958\/59 &#8211; Professor em Faro. <\/p>\n<p>Nas praias do Algarve. Zeca falava de \u00abfase de euforia, uma das mais felizes da sua vida\u00bb.<\/p>\n<p>Na Fuzeta, monta a sua \u00abtenda contemplativa\u00bb, percorre quil\u00f3metros \u00e0 beira-mar, \u00e0s vezes vai directamente para a escola, a pingar.<\/p>\n<p>Uma das suas grandes paix\u00f5es, o ensino:<br \/>\u00abQueria p\u00f4r os alunos a funcionar como pessoas, incutir-lhes o esp\u00edrito cr\u00edtico, fazer com que exercitassem a sua imagina\u00e7\u00e3o \u00e0 margem dos programas oficiais.\u00bb<\/p>\n<p>1959\/60 &#8211; Foi neste per\u00edodo (1959 -1960) professor de Franc\u00eas e de Hist\u00f3ria na Escola Comercial e Industrial de Alcoba\u00e7a.<\/p>\n<p>1960\/61\/62 &#8211; Professor em Faro. <\/p>\n<p>Escola Industrial e Comercial de Faro (hoje Escola Secund\u00e1ria Tom\u00e1s Cabreira), professor de franc\u00eas no Curso Geral de Com\u00e9rcio<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Afonso segue atentamente a crise estudantil de 1962. Em Faro convive com Luiza Neto Jorge, Ant\u00f3nio Barahona, Ant\u00f3nio Ramos Rosa e Manuel Pit\u00e9, e namora com Z\u00e9lia, natural da Fuzeta, que ser\u00e1 a sua segunda mulher e com quem ter\u00e1 mais dois filhos, Joana e Pedro.<\/p>\n<p>\u00c9 Jos\u00e9 Afonso quem nos diz: \u00abO conhecimento da Z\u00e9lia, num lugar do Algarve, reconciliou-me com a \u00e1gua fresca e com os tons maiores. Passei a fazer can\u00e7\u00f5es maiores\u00bb.<\/p>\n<p>Em 1963, conclui a licenciatura na Faculdade de Letras de Coimbra com uma tese sobre Jean-Paul Sartre: &#8220;Implica\u00e7\u00f5es Substancialistas na Filosofia Sartriana&#8221;.<\/p>\n<p>1964-67 &#8211; \u00c9 professor na Beira; <\/p>\n<p>Vai para Mo\u00e7ambique com Z\u00e9lia; <\/p>\n<p>Nos \u00faltimos dois anos, d\u00e1 aulas na Beira. <\/p>\n<p>Aqui musicou Brecht na pe\u00e7a A Excep\u00e7\u00e3o e a Regra. Em Mo\u00e7ambique nasce a sua filha Joana (1965).<\/p>\n<p>\u00abSe houve alguma coisa em \u00c1frica que me marcou definitivamente foi a realidade colonial. Quando eu parti ia preparado para enfrent\u00e1-la: sabia quais os seus contornos e o papel que me cabia como professor, quais os alunos que ia ensinar. Sabia tamb\u00e9m que ia ser um ve\u00edculo de transmiss\u00e3o ideol\u00f3gica de uma classe dominante. (&#8230;)<\/p>\n<p>Fiquei terrivelmente ligado \u00e0quela realidade f\u00edsica que \u00e9 a \u00c1frica, aquilo tem de facto qualquer coisa de estranho, uma for\u00e7a muito grande que nos seduz. O meu baptismo pol\u00edtico come\u00e7a em \u00c1frica. Estava a dois passos do oprimido\u00bb.<\/p>\n<p>1967\/68 &#8211;  Professor em Set\u00fabal; <\/p>\n<p>\u00c9 colocado como professor em Set\u00fabal (dava aulas de Hist\u00f3ria\u00bb no Liceu de Set\u00fabal), e a par das fun\u00e7\u00f5es lectivas come\u00e7a a aceitar convites para cantar em colectividades da Margem Sul. Fica sob a mira da PIDE que o passa a chamar com relativa assiduidade para prestar declara\u00e7\u00f5es no posto de Set\u00fabal.<\/p>\n<p>Sofre uma grave depress\u00e3o que o leva a ser internado durante 20 dias na Casa de Sa\u00fade de Belas. Quando sai da cl\u00ednica, recebe a not\u00edcia de que tinha sido demitido do ensino oficial.<\/p>\n<p>O PCP convida-o a aderir ao partido, mas Jos\u00e9 Afonso recusa invocando a sua condi\u00e7\u00e3o de classe. <\/p>\n<p>\u00abNunca fui um indiv\u00edduo com certezas dogm\u00e1ticas acerca de grupos ou partidos preferenciais. Comecei por me relacionar, sobretudo na Margem Sul, a associa\u00e7\u00f5es de estudantes fortemente politizadas, por um lado, e a determinadas organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, como por exemplo os Cat\u00f3licos Progressistas, por outro. Achava que todos aqueles grupos eram necess\u00e1rios para formar um movimento que conduzisse ao derrube do poder. Qual seria depois o partido ou organiza\u00e7\u00e3o que surgiria ap\u00f3s o derrube do poder, n\u00e3o sabia.\u00bb<\/p>\n<p>\u00c9 exclu\u00eddo do ensino oficial por raz\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Expulso do ensino, em 1968 dedica-se a dar explica\u00e7\u00f5es e a cantar com mais assiduidade nas colectividades da Margem Sul.<\/p>\n<p>Pelo Natal, edita o \u00e1lbum Cantares do Andarilho, com Rui Pato, primeiro disco para a Orfeu. O contrato \u00e9 sui generis: contra o pagamento de uma mensalidade (15 contos), Jos\u00e9 Afonso \u00e9 obrigado a gravar um \u00e1lbum por ano.<\/p>\n<p>AP\u00d3S O 25 DE ABRIL DE 1974 &#8211; Nesses meses (\u00abessa coisa magn\u00edfica que foi o PREC\u00bb), percorre o pa\u00eds de ponta a ponta, num sem fim de \u00absess\u00f5es\u00bb,  \u00abac\u00e7\u00f5es de dinamiza\u00e7\u00e3o\u00bb,  \u00abcampanhas de alfabetiza\u00e7\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p>Zeca assume a liberdade de uma forma plena, inebriante e intensamente fraterna. Realiza milhares de sess\u00f5es, apoia as mais diversas lutas. Realiza v\u00e1rias sess\u00f5es no estrangeiro, nomeadamente Brasil, Fran\u00e7a, RFA, Mo\u00e7ambique e Angola.<\/p>\n<p>\u00c9 reintegrado no ensino.<\/p>\n<p>1993 &#8211; \u00e9 publicado no Di\u00e1rio da Rep\u00fablica a designa\u00e7\u00e3o de Escola Secund\u00e1ria Dr. Jos\u00e9 Afonso, em homenagem ao professor-poeta-cantor e resistente antifascista, no Seixal.<\/p>\n<p>&#8220;Fui cantor porque deixei de ser professor e finalmente sou coisa nenhuma porque deixei de ser cantor&#8221;.<\/p>\n<p>Pensando que o ZECA foi professor&#8230; voltei o meu esfor\u00e7o de divulga\u00e7\u00e3o para os meus alunos, que n\u00e3o o conheceram e para quem estou a preparar um conjunto de actividades com v\u00e9rtice na obra de Jos\u00e9 Afonso. EM ABRIL\u2026 <\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/sol.sapo.pt\/blogs\/olindagil\/default.aspx\">Olinda Gil<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Decidi relembrar o Zeca Afonso como professor, uma vez que o poeta e o m\u00fasico t\u00eam um lugar \u00edmpar no panorama da cultura musical portuguesa e s\u00e3o por todos reconhecidos. \u201cDURANTE O EXERC\u00cdCIO DO PROFESSORADO, COLHI A MINHA EXPERI\u00caNCIA DE VIDA MAIS IMPORTANTE.\u201d \u201cTENTEI ASSUMIR A FUN\u00c7\u00c3O DE PROFESSOR, QUE N\u00c3O TINHA NADA A VER [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[77],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7858"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7858"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7858\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7858"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7858"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7858"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}