{"id":7849,"date":"2007-03-30T09:13:00","date_gmt":"2007-03-30T09:13:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=7849"},"modified":"2021-12-17T11:40:04","modified_gmt":"2021-12-17T11:40:04","slug":"zeca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/zeca\/","title":{"rendered":"Zeca"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">A evoca\u00e7\u00e3o dos 20 anos do desaparecimento de Jos\u00e9 Afonso, soou-me como estranha. Qualquer coisa entre a hipocrisia e um consenso apodrecido \u00e0 volta de um nome, de um criador.<br \/>Durante todo o dia da \u00faltima sexta-feira, ouviram-se na r\u00e1dio depoimentos de quase toda a gente que importa no mundo art\u00edstico, cultural e musical.<br \/>Uma parte dos depoentes elogiou o artista e o cidad\u00e3o, evocando a sua condi\u00e7\u00e3o de independente, de homem livre e de criador genial.<br \/>As can\u00e7\u00f5es do Zeca passaram numa r\u00e1dio p\u00fablica, que o ignora olimpicamente em todos os outros dias do ano, e as interven\u00e7\u00f5es de elogio consensual seguiram-se de forma quase mec\u00e2nica.<br \/>Discordo desta forma de evoca\u00e7\u00e3o que, em nome de um unanimismo bacoco, pretende limar arestas desrespeitando a mem\u00f3ria de quem, apesar de nunca ter pertencido a partido algum, sempre soube tomar partido pelos explorados e oprimidos.<br \/>Teria seguramente sido mais \u00fatil, dar a conhecer o criador pelas suas pr\u00f3prias palavras, explicando que o pintor cantado na can\u00e7\u00e3o onde a morte saiu a rua, n\u00e3o era uma figura de fic\u00e7\u00e3o, chamava-se Jos\u00e9 Dias Coelho e foi assassinado pela pol\u00edcia pol\u00edtica no princ\u00edpio da d\u00e9cada de 60 do s\u00e9culo passado, que a Catarina que ceifeiras viram em vida<br \/>e que Baleiz\u00e3o viu morrer, n\u00e3o era produto da imagina\u00e7\u00e3o do poeta mas uma figura real, assassinada durante uma jornada de luta por melhores condi\u00e7\u00f5es de vida nos campos.<br \/>Jos\u00e9 Afonso era um homem inconformado, solid\u00e1rio, lutador, que acreditava na possibilidade da sublime utopia de uma cidade de homens iguais e s\u00e3o estas caracter\u00edsticas, aliadas a um raro g\u00e9nio criador, que faz dele um homem vivo por muitos anos que passem sobre o seu desaparecimento.<br \/>Vemos as capas de revistas que enaltecem as figuras dos banqueiros, e ouvimos o Zeca a cantar: anda ver o deus banqueiro\/ que engana \u00e0 hora e que rouba ao m\u00eas\/ H\u00e1 milh\u00f5es no mundo inteiro\/ O galinheiro \u00e9 de dois ou tr\u00eas.<br \/>Ouvimos os discursos do primeiro-ministro e lembramo-nos da s\u00e1tira contida na quadra: A palavra socialismo\/ como est\u00e1 hoje mudada\/ De colarinhos \u00e0 Texas\/ Sempre muito aperaltada.<br \/>Pressentimos as nossas gentes a encolher os ombros de des\u00e2nimo, incapazes de lutar pela mudan\u00e7a e percebemos a actualidade do recado: O que faz falta \u00e9 agitar a malta.<br \/>Lemos algumas declara\u00e7\u00f5es produzidas durante a campanha para o referendo sobre a interrup\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria da gravidez e n\u00e3o podemos deixar de pensar nos versos finais da Arcebisp\u00edada: Igreja dos privil\u00e9gios\/ Mataste o Cristo a galope\/ Tamb\u00e9m Franco, o assassino\/ Mandou benzer o garrote.<br \/>O Zeca est\u00e1 sempre presente. Nas suas mensagens, na sua frontalidade, na sua forma de se afirmar sempre do mesmo lado. Querer fazer desta figura \u00fanica, um \u00edcone consensual pode ser um passo para silenciar tudo o que \u00e9 importante na sua mensagem de apelo \u00e0 coragem, \u00e0 irrever\u00eancia e ao esp\u00edrito inconformista e inconformado.<br \/>Acabo como ele acabou uma can\u00e7\u00e3o editada em single em 1975 e posteriormente no \u00e1lbum Enquanto h\u00e1 for\u00e7a: N\u00e3o sei quem seja de acordo\/ Como vamos terminar\/ Vinho velho, vinho novo\/ viva o Poder Popular.<\/p>\n<p>Eduardo Luciano <\/p><\/div>\n<div align=\"justify\"><a href=\"http:\/\/www.dianafm.com\/index.php?option=com_content&amp;task=view&amp;id=5111&amp;Itemid=24\">Diana FM online<\/a><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A evoca\u00e7\u00e3o dos 20 anos do desaparecimento de Jos\u00e9 Afonso, soou-me como estranha. 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