{"id":7743,"date":"2007-02-24T13:15:00","date_gmt":"2007-02-24T13:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=7743"},"modified":"2021-12-17T11:40:05","modified_gmt":"2021-12-17T11:40:05","slug":"jose-afonso-os-herdeiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/jose-afonso-os-herdeiros\/","title":{"rendered":"Jos\u00e9 Afonso &#8211; Os herdeiros"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">Jos\u00e9 Afonso morreu h\u00e1 20 anos, mas a can\u00e7\u00e3o de interven\u00e7\u00e3o de que foi o principal int\u00e9rprete n\u00e3o desapareceu consigo. Pelo contr\u00e1rio. Duas d\u00e9cadas depois a influ\u00eancia de Zeca permanece viva e estende-se a todos os g\u00e9neros, do rock ao heavy metal e, em particular, ao hip-hop, a m\u00fasica urbana por excel\u00eancia deste in\u00edcio de s\u00e9culo.<\/p>\n<p>As mais notadas diferen\u00e7as residem nos prop\u00f3sitos (hoje mais sociais do que pol\u00edticos) e na linguagem, como reconheceu Sam the Kid, salientando, por\u00e9m, que \u201cos tempos eram outros\u201d.<\/p>\n<p>\u201cNaquela altura, antes do 25 de Abril, os m\u00fasicos eram pessoas mais intelectualizadas e a linguagem das suas can\u00e7\u00f5es era muito mais elaborada do que \u00e9 hoje. E acho que isso n\u00e3o se devia s\u00f3 \u00e0 censura. O \u2018Vampiros\u2019 \u00e9 um caso evidente, mas h\u00e1 outras letras cujas met\u00e1foras n\u00e3o apanho&#8230;\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Para o m\u00fasico, que confessa ter alguns discos de Jos\u00e9 Afonso (\u2018Cantigas do Maio\u2019, \u2018Vampiros\u2019, \u2018Com as Minhas Tamanquinhas\u2019), \u201ca linguagem do hip&#8211;hop \u00e9 mais directa, usa a linguagem da rua, o cal\u00e3o&#8230; O pr\u00f3prio Vitorino, que passou por esses tempos, j\u00e1 me disse isso\u201d, frisou.<\/p>\n<p>Destacando a \u201cpostura simples, humilde e de pessoa do povo\u201d de Jos\u00e9 Afonso, Sam the Kid estreou-se com can\u00e7\u00f5es de interven\u00e7\u00e3o em \u2018Pratica(Mente)\u2019, recentemente editado.<\/p>\n<p>\u201cTenho o \u2018Absten\u00e7\u00e3o\u2019, que \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o em que mostro a minha indiferen\u00e7a pela pol\u00edtica, mas a verdade \u00e9 que represento muitos jovens que n\u00e3o se sentem identificados com os pol\u00edticos que temos. Mas a can\u00e7\u00e3o tem uma mensagem de esperan\u00e7a\u201d, disse. Outro dos temas de interven\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201co \u2018Negociantes\u2019, em que abordo a realidade desde que o euro apareceu. As pessoas hoje t\u00eam de ter outra actividade porque s\u00f3 o emprego n\u00e3o d\u00e1 para viverem condignamente. Pelo meio meto a vis\u00e3o de um ex-presidi\u00e1rio, que n\u00e3o consegue arranjar emprego, falo dos pol\u00edticos e questiono para onde vai o dinheiro da reten\u00e7\u00e3o na fonte\u201d, confessou, antes de frisar que \u201ch\u00e1 que valorizar o hip-hop enquanto m\u00fasica e n\u00e3o apenas a mensagem\u201d.<\/p>\n<p>A influ\u00eancia de Jos\u00e9 Afonso \u00e9 tamb\u00e9m referida pelos Mundo Secreto, uma jovem forma\u00e7\u00e3o hip-hop. Francisco um dos membros do grupo, cresceu \u201ca ouvir os discos dele [Zeca Afonso] e n\u00e3o s\u00f3\u201d, disse, destacando o car\u00e1cter \u201cpositivo\u201d da mensagem das can\u00e7\u00f5es de Jos\u00e9 Afonso.<\/p>\n<p>ROCK AMOLECEU<\/p>\n<p>O hip-hop \u00e9 hoje a can\u00e7\u00e3o de interven\u00e7\u00e3o mais contundente, mas esse papel foi em tempos desempenhado pelo rock. Mas algo mudou, segundo Ant\u00f3nio Corte-Real, guitarrista dos UHF (filho de Ant\u00f3nio Manuel Ribeiro) e hoje \u00e0 frente dos Revolta, um grupo surgido precisamente com o prop\u00f3sito de cantar contra a apatia.<\/p>\n<p>\u201cAs bandas rock que sobreviveram, salvo raras excep\u00e7\u00f5es, viraram-se para a melodia f\u00e1cil (para passar na r\u00e1dio) e para as letras de amor. O intervencionismo perdeu-se\u201d, lamentou.<\/p>\n<p>Para o m\u00fasico, o exemplo maior de Jos\u00e9 Afonso reside no facto de \u201cnunca se ter calado, de ter sido sempre interventivo\u201d. \u201cE hoje\u201d, acrescentou, \u201ch\u00e1 necessidade de um outro intervencionismo. H\u00e1 liberdade mas n\u00e3o se fala. As pessoas acomodaram-se aos 60 canais de TV, \u00e0 internet&#8230; s\u00e3o utens\u00edlios importantes sim senhor, mas n\u00e3o nos podem tapar a vis\u00e3o\u201d, concluiu.<\/p>\n<p>MORTE POR ESCLEROSE<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Afonso morreu a 23 de Fevereiro de 1987 (aos 57 anos), no Hospital de Set\u00fabal, v\u00edtima de esclerose lateral amiotr\u00f3fica, uma doen\u00e7a degenerativa do sistema nervoso que se caracteriza por progressiva fraqueza e atrofia muscular.<\/p>\n<p>No seu \u00faltimo \u00e1lbum, \u2018Galinhas do Mato\u2019, de 1985, o cantor j\u00e1 n\u00e3o conseguiu cantar a totalidade das can\u00e7\u00f5es por ter perdido o controlo da musculatura da l\u00edngua.<\/p>\n<p>MUNDO SECRETO<\/p>\n<p>S\u00e3o a mais recente forma\u00e7\u00e3o hip-hop a \u2018estoirar\u2019 em Portugal e o hom\u00f3nimo \u00e1lbum de estreia \u2013 lan\u00e7ado este m\u00eas \u2013 est\u00e1 recheado de can\u00e7\u00f5es com mensagens positivas. Desde \u2018Ess\u00eancia (\u2018A Liberdade\u2019) at\u00e9 \u2018Pousa a Tua Gun\u2019, passando por \u2018Dias de Mudan\u00e7a\u2019. Mas \u00e9 \u2018GerAc\u00e7\u00e3o\u2019 quem melhor sintetiza o privil\u00e9gio da mensagem sobre a rima.<\/p>\n<p>&#8216;GERAC\u00c7\u00c3O&#8217;<\/p>\n<p>\u201cEm 1974 gritou-se liberdade! Dez anos depois, a minha gera\u00e7\u00e3o nasce. N\u00f3s somos os filhos da revolu\u00e7\u00e3o, daqueles que sonharam a liberdade de express\u00e3o. A nossa luta continua, come\u00e7a pela base (&#8230;)<\/p>\n<p>Em jeito de resumo, Tu podes escolher se \u00e9s um puto que v\u00ea, ou faz a cena acontecer. A revolu\u00e7\u00e3o est\u00e1 a\u00ed! A juventude n\u00e3o p\u00e1ra, e \u00e9 mais forte que uma t-shirt estampada do Che Guevara (&#8230;) Meu irm\u00e3o, tu \u00e9s o futuro na na\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o grita ac\u00e7\u00e3o! GerAc\u00e7\u00e3o!\u2019\u201d<\/p>\n<p>BOSS AC<\/p>\n<p>A den\u00fancia de situa\u00e7\u00f5es como o racismo sempre fizeram parte do vocabul\u00e1rio de Boss AC. Mas \u00e9 em \u2018Farto de &#8230;\u2019 (\u2018Ritmo, Amor e Palavras\u2019) que o rapper se mostra mais contundente.<\/p>\n<p>&#8216;FARTO DE&#8230;&#8217;<\/p>\n<p>\u201cFarto de ser o culpado sem ter culpa de nada, Ser rejeitado farto de conversa fiada, Farto deste sistema de mer** que nos engole, Farto destes pol\u00edticos a co\u00e7ar colh*** ao sol, Farto de promessas da treta; Sobem ao poder metem as promessas na gaveta, Farto de ver o pa\u00eds parado como uma lesma, Ver as moscas mudarem e a mer** ser a mesma, farto de os ver saltar quando os barcos naufragam, Quanto mais tiverem melhor, menos impostos pagam&#8230;\u201d<\/p>\n<p>SAM THE KID<\/p>\n<p>Por sugest\u00e3o do pai, Sam the Kid investiu finalmente no tema da pol\u00edtica. \u2018Absten\u00e7\u00e3o\u2019 \u00e9 o tema em causa e surge inclu\u00eddo em \u2018Pratica(Mente)\u2019, o mais recente \u00e1lbum de rimas do m\u00fasico-poeta. Mas h\u00e1 mais: \u2018Negociantes\u2019 \u00e9 outro dos retratos, sem papas na l\u00edngua, da realidade contempor\u00e2nea urbana portuguesa.<\/p>\n<p>&#8216;ABSTEN\u00c7\u00c3O&#8217;<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o sou licenciado nem recenseado, com paci\u00eancia, h\u00e1-de aparecer algu\u00e9m credenciado, com moral\/ Que me fa\u00e7a votar, me fa\u00e7a lutar, me fa\u00e7a notar, e fa\u00e7a esgotar a campanha eleitoral (&#8230;) Eu n\u00e3o voto, eu boicoto, mas crio as horas nocturnas, sei qu\u2019\u00e9 o meu futuro, mas n\u00e3o vou acordar cedo\/Pa p\u00f4r um voto nulo ao eleger um chulo ou um cherne, ou quem governe s\u00f3 com charme (&#8230;) Eu n\u00e3o preciso de reflex\u00e3o eu j\u00e1, tou decidido, eu s\u00f3 voto na verdade e n\u00e3o a vejo em nenhum partido&#8230;\u201d<\/p>\n<p>REVOLTA<\/p>\n<p>Com Ant\u00f3nio Corte-Real (UHF) \u00e0 frente, os Revolta apostam no punk-rock para agitar consci\u00eancias. \u201cPoliticamente incorrecto\u201d o trio faz quest\u00e3o de gritar bem alto os problemas dos portugueses. \u2018Ningu\u00e9m Manda em Ti!!!\u2019, \u00e9 o t\u00edtulo do \u00e1lbum de estreia a editar em breve e o alinhamento inclui temas como \u2018Bush\u2019 e \u2018Eu Quero Ser\u2019.<\/p>\n<p>&#8216;NINGU\u00c9M MANDA EM TI&#8217;<\/p>\n<p>\u201cNesta vida nada \u00e9 f\u00e1cil, Tudo custa mais do que devia, Ser banal ter lucro f\u00e1cil, Queres viver outro dia \u2013 \u00c9 proibido ter ideias, Pensar e falar, Se queres ser algu\u00e9m, Tens de fingir e aguentar \u2013 Ningu\u00e9m manda em ti, Mesmo que queira, Fecha os olhos e sorri. A vida inteira, A chuva miudinha N\u00e3o p\u00e1ra de molhar, Os olhares curiosos, Que te est\u00e3o a chatear \u00c9 um ciclo vicioso Que te est\u00e1 a seguir, S\u00f3 acabar\u00e1 no dia, Em que souberes resistir Ningu\u00e9m manda em ti, Mesmo que queira, Fecha os olhos e sorri, A vida inteira<\/p>\n<p>DR. SALAZAR<\/p>\n<p>Mais de 30 anos depois do 25 de Abril, os Dr. Salazar sofrem na pele a discrimina\u00e7\u00e3o pelo nome escolhido. O \u00e1lbum de estreia, \u2018Antes &amp; Depois\u2019 foi editado a expensas pr\u00f3prias e o metal industrial que praticam \u00e9 tamb\u00e9m um ve\u00edculo de cr\u00edtica social, como o denuncia o tema \u2018Falar do Mendigo\u2019. Ao vivo, curiosamente, tocam uma vers\u00e3o de \u2018Vejam Bem\u2019 de Jos\u00e9 Afonso.<\/p>\n<p>&#8216;FALAR DO MENDIGO&#8217;<\/p>\n<p>\u201cPerguntem ao mendigo, Que sobe a cal\u00e7ada, Rumo \u00e0 sopa dos pobres, Se viu passar a democracia; Perguntem a quem pede, se deixou de pedir, E a todos que lutam, se param de lutar (&#8230;) (&#8230;) Mas s\u00f3 h\u00e1 lugar inqu\u00e9rito pelo telefone, e a mat\u00e9ria \u00e9 do tipo Qual a figura mais In (&#8230;) (&#8230;) Adormece por fim no conforto do leito sujo, feito de trapos e peda\u00e7os de cart\u00e3o, perfumado de vinho reles, enquanto a humidade da noite, Se abate no sil\u00eancio cortada apenas pelo latido do c\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p><strong><br \/>Lu\u00eds F. Silva | Correio da manh\u00e3 | 23.2.07<\/strong><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Afonso morreu h\u00e1 20 anos, mas a can\u00e7\u00e3o de interven\u00e7\u00e3o de que foi o principal int\u00e9rprete n\u00e3o desapareceu consigo. Pelo contr\u00e1rio. 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