{"id":7741,"date":"2007-02-24T13:05:00","date_gmt":"2007-02-24T13:05:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=7741"},"modified":"2021-12-17T11:40:06","modified_gmt":"2021-12-17T11:40:06","slug":"os-lugares-de-zeca-afonso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/os-lugares-de-zeca-afonso\/","title":{"rendered":"Os lugares de Zeca Afonso"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">Nos 20 anos da morte de uma refer\u00eancia maior da m\u00fasica portuguesa, a VIS\u00c3O trilhou os passos do cantor andarilho. Seguiu-lhe as deambula\u00e7\u00f5es, as viagens, os retrocessos, as circunvaga\u00e7\u00f5es. Dos tempos que eram de \u00abembalar a trouxa e zarpar\u00bb, \u00e0s bolandas do PREC, a \u00abanimar a malta\u00bb. Roteiro de uma geografia sentimental e musical. N\u00e3o perca a galeria multim\u00e9dia<\/p>\n<p>Havia uma chamin\u00e9. E uma amurada. E um conv\u00e9s. Era um barco a vapor, est\u00e1 bem de ver. Ronceiro, ainda a cheirar \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o industrial. Adornava, da proa \u00e0 r\u00e9, consoante a vaga. Tropicalizava-se o Atl\u00e2ntico, a cada milha navegada. A carreira do costume, da metr\u00f3pole \u00e0s col\u00f3nias, nos anos trinta. A bordo, seguia um mi\u00fado de cal\u00e7\u00f5es. Zeca Afonso, a ro\u00e7ar os 3 anos. Sozinho, naquele len\u00e7ol oce\u00e2nico, que cobria, sabe-se l\u00e1, que assombros, que mostrengos. Instalada em Angola, a fam\u00edlia mandara-o vir de Aveiro. Retirado do aconchego caseiro de primas e tias maternas, embarcou neste seu baptismo naval, entregue a um tio afastado, rec\u00e9m-casado, mais atento aos recolhimentos da lua-de-mel do que ao puto de cal\u00e7\u00f5es. Com tanto de aflito como de desamparo, ancorou-se na m\u00e3o de um velho mission\u00e1rio, o \u00abhomem das barbas brancas\u00bb, de quem nunca mais se h\u00e1-de esquecer.<\/p>\n<p>Quarenta anos depois. Sozinho, outra vez. S\u00f3 que no lugar dos horizontes abertos, Zeca Afonso tem-nos apertados, entre as quatro paredes da cela, em Caxias. E regressa a este ancoradouro de inf\u00e2ncia, \u00abao velho vapor ronceiro em que apenas um velho mission\u00e1rio se lembrara de que uma crian\u00e7a existia. O velho desapareceu, inesperadamente, num pequeno porto do Zaire e deixou-me s\u00f3\u00bb \u2013 escreveu em Prosema II. Mais cedo ou mais tarde, regressamos sempre \u00e0 viagem inicial.<\/p>\n<p>Como se fosse a marca antecipada do seu destino de andarilho, serve agora de cais de embarque para uma viagem no tempo, 20 anos passados sobre a sua morte (23 de Fevereiro de 1987). \u00c9 a primeira etapa do concerto Redondo Voc\u00e1bulo a oriente (Macau e Banguecoque), do sobrinho Jo\u00e3o Afonso e do pianista Jo\u00e3o Lucas. Em ano de homenagens: reedita-se uma colect\u00e2nea (Farol M\u00fasica), Cristina Branco editar\u00e1 em disco as m\u00fasicas de Zeca que tem cantado com uma banda de jazz, no S. Luiz, em Lisboa, sucedem-se, por todo o Pa\u00eds, concertos, debates, homenagens dispersas. Curtas para um autor de m\u00fasicas que desafiam todas as genealogias e se tornaram patrim\u00f3nio fundamental da cultura portuguesa. Zeca Afonso foi compositor, t\u00e3o incatalog\u00e1vel na arte como na pol\u00edtica. Foi anarquista por voca\u00e7\u00e3o, solid\u00e1rio por devo\u00e7\u00e3o, poeta por inquieta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m o irm\u00e3o, Jo\u00e3o Afonso, dois anos mais velho, na biografia \u00abfraternal\u00bb que escreveu, haveria de iniciar a narrativa de uma vida, com o levantar de \u00e2ncora do Mouzinho (o nome do navio), e com aquele deambular pelo conv\u00e9s do pequeno navegador solit\u00e1rio. Convencido, diz, de que \u00abZeca bebeu aqui, nesta inf\u00e2ncia remota de embarcado alguma coisa do seu vezo de andarilho\u00bb. E acrescenta: \u00abZeca tem a divaga\u00e7\u00e3o no sangue, \u00e9 um esp\u00edrito n\u00f3mada, espartilhado entre as quatro paredes deste nosso espa\u00e7o sedent\u00e1rio, comprimido contra o oceano.\u00bb Da\u00ed aquele seu ar abstracto, o seu temperamento a\u00e9reo, a sua propens\u00e3o errante, o seu aparente desprendimento, o desassossego \u00abde embalar a trouxa e zarpar\u00bb. \u00abDessa sorte de navegar, no mar ou em terra, se embeberam as suas can\u00e7\u00f5es, numa obsess\u00e3o inconsciente.\u00bb<\/p>\n<p>\u00abO Zeca era um g\u00e9nio. N\u00e3o gosto de empregar esta palavra levianamente. Somos todos geniais. Pois. Mas o Zeca era \u2018mesmo\u2019 genial. E muito queria que isto n\u00e3o fosse um consenso mas um dado adquirido. A diferen\u00e7a \u00e9 subtil, mas fundamental\u00bb (nas palavras de S\u00e9rgio Godinho). Ou nas de outro compagnon de route, Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco: \u00abSempre cuidando (e com que mestria!) dos aspectos formais das suas can\u00e7\u00f5es, ele sobrelevava sistematicamente a sua potencial utilidade para as pequenas e grandes causas da Humanidade. Sentia-se mais \u00e0 vontade na pele de testemunha activa do seu tempo do que na de um poeta prospector de eternidades. Certamente por saber, como sempre souberam os grandes, que \u00e9 sempre do solit\u00e1rio combate contra a mat\u00e9ria que acaba por nascer o sentido da obra criada.\u00bb<\/p>\n<p>Muita \u00e1gua haveria de correr por baixo do vapor Mouzinho, do primeiro ao \u00faltimo cais. \u00c1guas revoltas, outras enremoinhadas, outras mais mansas, outras turvas&#8230; Muitas vezes havia de navegar Zeca Afonso, abaixo da linha de \u00e1gua, afundado no loda\u00e7al da ditadura. Muitas vezes, haveria de correr nos r\u00e1pidos do PREC, a acudir \u00e0s solicita\u00e7\u00f5es das colectividades, a \u00abavisar a malta\u00bb, a arrastar a voz \u00e0 custa de infus\u00f5es de eucalipto. Muitas vezes, gritou \u00abterra \u00e0 vista\u00bb, outras tantas viu desaparecer o \u00abbom porto\u00bb do seu horizonte. E tudo se acabou estupidamente, numa madrugada de chuva indecisa, sem nunca ter atracado na \u00abcidade sem muros nem ameias\u00bb da sua utopia. \u00abAlguma coisa do que sou e fui foi em viagem\u00bb, disse Zeca Afonso ao jornalista Jos\u00e9 A. Salvador. Cantor maldito, autor da can\u00e7\u00e3o-senha da revolu\u00e7\u00e3o, foi alvo de silenciamentos sistem\u00e1ticos, pela ditadura e tamb\u00e9m pela democracia. Confirmam-no os parcos registos, testemunhos das suas rar\u00edssimas passagens pela RTP ou as censuras expl\u00edcitas nas r\u00e1dios \u2013 por ignor\u00e2ncia, esquecimento, m\u00e1-f\u00e9, ou pura pequenez.<\/p>\n<p>\u00abSou, no fundo, fruto de muitas gentes, de muitos lugares, de muitos dissabores\u00bb, disse uma vez Zeca Afonso. A VIS\u00c3O tra\u00e7a-lhe agora o itiner\u00e1rio musical e sentimental, atrav\u00e9s de dez apeadeiros. Um percurso pisado \u00abcom as tamanquinhas do Zeca\u00bb, numa express\u00e3o roubada ao CD de homenagem dos Couple Coffee, que ser\u00e1 editado em Mar\u00e7o. A vocalista da dupla \u00e9 Luanda, 38 anos, filha de Al\u00edpio de Freitas, o revolucion\u00e1rio celebrizado pela can\u00e7\u00e3o com o seu nome. Afinal, \u00absomos n\u00f3s os teus cantores\u00bb.<\/p>\n<p>AVEIRO<br \/>\u00abEste rio este rumo esta gaivota\/ que outro fumo deverei seguir\/ na minha rota?\u00bb Utopia, in Como Se Fora seu Filho (1983).<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Manuel Cerqueira Afonso dos Santos nasceu a 2 de Agosto de 1929, na \u00abparte da cidade voltada para o realismo e para o mar\u00bb. Filho de um magistrado e de uma directora de escola infantil, foi irm\u00e3o do meio de tr\u00eas. Colocado o pai em Angola, a fam\u00edlia deixou-o pequeno, confiado a uns tios. De sa\u00fade fr\u00e1gil, n\u00e3o o queriam os pais em terras t\u00f3rridas e carregadas de paludismo. At\u00e9 que as precau\u00e7\u00f5es cederam \u00e0s saudades e a m\u00e3e mandou-o vir. E l\u00e1 segue Zeca, desamparado, no tal Mouzinho, ao encontro de uns pais e irm\u00e3o de quem n\u00e3o se lembra e de uma irm\u00e3 que, entretanto, aparecera. A casa onde nasceu era escola (dirigida pela m\u00e3e), passou a banco; agora, confirma o irm\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o existe. S\u00f3 h\u00e1 tr\u00eas anos a autarquia deu o seu nome a uma rua de um bairro novo de Aveiro. Ali\u00e1s, n\u00e3o faz ten\u00e7\u00f5es de participar em qualquer homenagem.<\/p>\n<p>ANGOLA<br \/>\u00abUm homem novo\/veio da mata\/ de armas na m\u00e3o\/ n\u00e3o \u00e9 soldado\/ de profiss\u00e3o\/ \u00c9 guerrilheiro\/ na sua aldeia\/ A m\u00e3e o diz\/ duma fazenda\/ faz um pa\u00eds\u00bb<br \/>Um Homem Novo Veio da Mata, in Enquanto H\u00e1 For\u00e7a (1978)<\/p>\n<p>\u00ab\u00c1frica \u00e9 uma p\u00e1tria m\u00edtica para mim, antes de ser p\u00e1tria pol\u00edtica, uma \u00c1frica revolucion\u00e1ria e socialista.\u00bb As trovoadas, que fendiam os c\u00e9us e incendiavam o capim. As travessias dos rios em barca\u00e7as. As nuvens de gafanhotos. As viagens pelas picadas. A bicharada oculta pelo mato. As febres quart\u00e3s. Os gavi\u00f5es que filavam de alto os pintos e desafiavam as fisgadas dos irm\u00e3os Afonso&#8230; Do Cu\u00edto, a fam\u00edlia mudou-se para a paisagem domesticada de Luanda, ainda assim cheia de potencialidades para uma inf\u00e2ncia \u00e0 solta, em horizontes rasgados. Depois ainda h\u00e1-de seguir para Mo\u00e7ambique, onde, conta o irm\u00e3o Jo\u00e3o Afonso \u00e0 VIS\u00c3O, Zeca colheu as mais marcantes mem\u00f3rias infantis, como os mergulhos do fim de tarde ou o sabor de uma manga verde.<\/p>\n<p>BELMONTE<br \/>\u00abGast\u00e3o era perfeito\/ conduzido por seu dono\/ em sonol\u00eancias afeito\/ \u00e0s picadas dos mosquitos\u00bb Gast\u00e3o era Perfeito, in Venham mais Cinco (1973)<\/p>\n<p>O dealbar dos anos 40 vem encontrar o \u00abmenino zequinha\u00bb como porta-bandeira, a fazer a sauda\u00e7\u00e3o nazi, de cal\u00e7as \u00e0 golfe, bivaque e um cintur\u00e3o com um grande S (farda da Mocidade Portuguesa), a marcar o passo no pelot\u00e3o de mi\u00fados pelas ruas de Belmonte. Na terra e na fam\u00edlia pontificava o tio Filomeno (que lhe inspirou a can\u00e7\u00e3o em ep\u00edgrafe), presidente da C\u00e2mara, comandante da Legi\u00e3o, homem de ardente vassalagem a Salazar, admirador de Franco e german\u00f3filo. \u00abLondres comme Cartago sera d\u00e9truite!\u00bb, assim soavam as emiss\u00f5es nocturnas na \u00abtelefonia\u00bb l\u00e1 de casa. Quase todas as noites partia um comboio para a Alemanha hitleriana. Era o neg\u00f3cio do volfr\u00e2mio. Mas disto, Zeca, com 10 anos, ainda n\u00e3o percebia nada. S\u00f3 sabia que aquele regresso \u00e0 metr\u00f3pole (por causa dos estudos) foi sentido como um degredo. Ainda por cima, sendo ele ali visto como \u00abum menino agasalhado\u00bb, sobrinho do senhor doutor, que n\u00e3o podia participar nos jogos com os outros mi\u00fados da vila. Fez a\u00ed a quarta classe, espartilhado entre a chateza dos dias, o acanhamento da paisagem, a monotonia das missas, paixonetas por declarar, e uma tia que lhes racionava a \u00e1gua, de guarda ao jarro, atr\u00e1s da porta, \u00abcomo um \u00edndio sioux\u00bb: \u00abO pior ano da minha vida\u00bb. Da escola guardava recorda\u00e7\u00f5es traumatizantes, \u00abenxurros monumentais de porrada\u00bb. Zeca era distra\u00eddo, patologicamente distra\u00eddo. O professor tinha o h\u00e1bito de o suspender pelas orelhas, \u00abcomo se aquela tormentosa ascens\u00e3o tivesse o m\u00e9rito inverso de o fazer descer \u00e0 terra\u00bb, conta Jo\u00e3o Afonso: \u00abA imensidade africana que Zeca trazia na cabe\u00e7a e nos sentidos j\u00e1 n\u00e3o cabia nos par\u00e2metros concretos do didactismo escolar.\u00bb<\/p>\n<p>COIMBRA<br \/>\u00ab\u00c1guas\/ das fontes calai\/ \u00d3 ribeiras chorai\/ Que eu n\u00e3o volto\/ a cantar\u00bb Balada do Outono in Baladas e Can\u00e7\u00f5es (1967)<\/p>\n<p>Noitada na sala de bilhar do Caf\u00e9 da Brasileira, em Coimbra. Muitas das can\u00e7\u00f5es de Zeca Afonso h\u00e3o-de nascer assim, instigadas pelo colectivo, e pelo entusiasmo, noite fora. \u00c9 preciso algu\u00e9m que o acompanhe \u00e0 viola. Zeca liberta as can\u00e7\u00f5es dos \u00abpruridos coimbr\u00f5es\u00bb, do lirismo convencional e lamechas, do narcisismo autocomplacente dos que envergam capa e batina, como se fossem capas de cavaleiro andante. Levanta-se uma urg\u00eancia s\u00fabita: precisava-se de algu\u00e9m que tocasse viola. Ergue-se um adolescente que, por acaso, estava ali com o pai. \u00c9 o princ\u00edpio de uma amizade e de uma parceria de oito anos; \u00abuma das mais enriquecedoras experi\u00eancias da minha vida\u00bb, conta hoje Rui Pato, 58 anos, m\u00e9dico pneumologista, presidente do Conselho de Administra\u00e7\u00e3o do Centro Hospitalar de Coimbra, que come\u00e7ou, nessa mesma noite, a acompanhar Zeca Afonso. \u00abImagine-se o que representou para mim, com apenas 14 anos, essa oportunidade de lidar de perto com dois mestres como Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira.\u00bb Ele estava no 4.\u00ba ano do liceu, Zeca j\u00e1 homem feito, licenciado (em Hist\u00f3rico-Filos\u00f3ficas), j\u00e1 defendera a sua tese sobre Sartre, j\u00e1 se tinha casado e separado (dois filhos), feito a tropa? J\u00e1 tinha corrido o circuito das rep\u00fablicas e da bo\u00e9mia coimbr\u00e3, j\u00e1 enveredara pelo semiproletariado das aulas e explica\u00e7\u00f5es, num regime de sobreviv\u00eancia endurecido, j\u00e1 estava debaixo de olho da PIDE. \u00abTenho uma soma de experi\u00eancias que daria para uma novela dostoievskiana\u00bb, escreve em 1962. Zeca e Pato partem pelo Pa\u00eds, em concertos (sobretudo em colectividades populares e associa\u00e7\u00f5es de estudantes), \u00e0 boleia ou de comboio (\u00abhavia sempre algu\u00e9m que nos dizia \u2018apare\u00e7am na esta\u00e7\u00e3o, na composi\u00e7\u00e3o tal&#8230;\u2019, e estava l\u00e1 sempre um camarada que nos transportava de borla\u00bb). Dentro da caixa da viola seguiam Avantes! e outros jornais clandestinos. A vis\u00e3o po\u00e9tico-estudantil, \u00abdo her\u00f3i da capa e batina\u00bb, esmoreceu \u00e0 medida que tomava contacto com as desigualdades sociais. A sua m\u00fasica tamb\u00e9m mudou. \u00abEle costumava dizer que n\u00e3o queria o canto amarrado nos arames da guitarra\u00bb, conta Rui Pato. Foi o momento de viragem de Zeca Afonso, de rebeli\u00e3o, quase. \u00abCarrego essa m\u00e1goa h\u00e1 anos, a de eu pr\u00f3prio n\u00e3o ter tido a clarivid\u00eancia suficiente para perceber, na altura, o passo hist\u00f3rico que se estava a dar\u00bb, continua.<\/p>\n<p>MAFRA<br \/>\u00abAo cair da madrugada\/ No quartel da guarda\/ Senhor General\/ Mande embora a sentinela\/ Mande embora e n\u00e3o lhe fa\u00e7a mal\u00bb Ronda dos Paisanos, in Baladas e Can\u00e7\u00f5es (1967)<\/p>\n<p>A tropa foi o buraco negro na sua biografia. Um tempo v\u00e1cuo. Aborrecia-se mortalmente, n\u00e3o atinava com a culatra, com o percutor, o dente de armar, nem com formaturas e rotinas pautadas a toque de clarinete&#8230; \u00abFui o menos classificado de todo o curso por falta de aprumo militar\u00bb, contava. Limitou-se a criar anticorpos, nas palavras do irm\u00e3o, \u00abcontra todas as formas de constrangimento pessoal\u00bb. A incompatibilidade com as tecnologias era quase gen\u00e9tica. Nunca usou rel\u00f3gio, s\u00f3 muito tarde conseguiu acertar nos bot\u00f5es REC e PLAY do gravador, inventou um sistema de pautas para consumo pr\u00f3prio. E quando, anos mais tarde, em Mo\u00e7ambique, se meteu a tirar a carta de condu\u00e7\u00e3o, o instrutor, depois de tantos alheamentos e aus\u00eancias, voltou-se para ele e perguntou: \u00abO senhor \u00e9 assim a modos que poeta, n\u00e3o \u00e9?\u00bb Outra vez, entrou em casa, dirigiu-se ao frigor\u00edfico e sentou-se a comer pudim. E estranhou: a mulher n\u00e3o costumava fazer pudim&#8230; Tinha entrado na casa de um vizinho.<\/p>\n<p>ALGARVE<br \/>\u00abSomos filhos da madrugada\/ Pelas praias do mar nos vamos\/ \u00c0 procura de quem nos traga\/ Verde Oliva de flor no ramo\u00bb, Canto Mo\u00e7o in Traz Outro Amigo Tamb\u00e9m (1970)<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Afonso est\u00e1 convencido de que esta m\u00fasica ter\u00e1 nascido dos passeios de barco que o irm\u00e3o fazia com os amigos Ant\u00f3nio Barahona e Lu\u00edza Neto Jorge pelas praias do Algarve. Zeca falava de \u00abfase de euforia, uma das mais felizes da sua vida\u00bb. Na Fuzeta, monta a sua \u00abtenda contemplativa\u00bb, percorre quil\u00f3metros \u00e0 beira-mar, \u00e0s vezes vai directamente para a escola, a pingar. Umas das suas grandes paix\u00f5es, o ensino. \u00abQueria p\u00f4r os alunos a funcionar como pessoas, incutir-lhes o esp\u00edrito cr\u00edtico, fazer com que exercitassem a sua imagina\u00e7\u00e3o \u00e0 margem dos programas oficiais.\u00bb A cantoria, como lhe chamava, nunca a \u00absuperlativizou\u00bb: \u00abQuando me dizem que aquilo que fa\u00e7o tem interesse, enfim, respeito a opini\u00e3o das pessoas, e digo que sim senhor, tem interesse?\u00bb, explicou ao jornalista Viriato Teles. Os algarvios viam passar o forasteiro, despassarado, com olhos de son\u00e2mbulo, abismado pela paisagem. Desconfiados ainda mais, quando este come\u00e7ou a namorar Z\u00e9lia, uma filha da terra, sua futura mulher (de quem tem mais dois filhos). Foi um namoro clandestino, \u00ab\u00e0 siciliana\u00bb, em cada esquina um mirone, em cada rosto um informador.<\/p>\n<p>GR\u00c2NDOLA<br \/>\u00abEm cada esquina um amigo\/ Em cada rosto igualdade\u00bb Gr\u00e2ndola, Vila Morena, in Cantigas do Maio (1971)<\/p>\n<p>Uma \u00fanica vez Zeca Afonso se deslocou \u00e0 vila alentejana, antes de compor a can\u00e7\u00e3o. Foi l\u00e1 actuar, com Rui Pato, em 1964, a convite da Sociedade Musical Fraternidade Oper\u00e1ria Grandolense: \u00abUm local quase sem estruturas nenhumas, com uma biblioteca de evidentes objectivos revolucion\u00e1rios, uma disciplina generalizada e aceite entre todos os membros, o que revelava j\u00e1 uma grande consci\u00eancia e maturidade pol\u00edtica.\u00bb Gravou a can\u00e7\u00e3o que deu notoriedade \u00e0quela terra, num castelo-est\u00fadio dos arredores de Paris. Os passos iniciais foram captados na gravilha, \u00e0s tr\u00eas da manh\u00e3. Cantou-a pela primeira vez a na Galiza e, quando soube que fora senha para o arranque dos capit\u00e3es revoltosos de 1974, n ia 25 de Abril, j\u00e1 Zeca Afonso tinha arrancado para o Carmo, misturado entre as chaimites e os arroubos da massa an\u00f3nima, a assistir ao \u00faltimo acto do Estado Novo. \u00abS\u00f3 mais tarde, quando recome\u00e7aram os ataques fascistas e a Gr\u00e2ndola era cantada nos momentos de maior perigo ou entusiasmo, me apercebi de tudo o que ela significava \u2013 e naturalmente tive uma certa satisfa\u00e7\u00e3o.\u00bb<\/p>\n<p>MO\u00c7AMBIQUE<br \/>\u00abO barco foi andando\/ e a Nanga vi\/ Foi a saudade aumentando\/ longe da\u00ed\/ A gente\/ na minha terra n\u00e3o canta assim\/ como eu ouvi\u00bb Carta a Miguel Dj\u00e9j\u00e9, in Traz Outro Amigo Tamb\u00e9m (1970).<\/p>\n<p>Duas encomendas do correio faziam estalar a mais completa felicidade na casa dos sobrinhos de Zeca (filhos da irm\u00e3 mais nova, Mariazinha), em Mo\u00e7ambique. \u00abOs livros do Tintin e os discos do meu tio\u00bb, conta Jo\u00e3o Afonso, 40 anos, tamb\u00e9m cantor. Um dia, apareceu-lhes em carne e osso. Regressa \u00e0s paisagens indomesticadas da inf\u00e2ncia, aos cheiros, \u00e0s cores, aos ritmos, mas era-lhe doloroso, trabalhar numa ordem social que abominava: \u00abO meio do branco colonizador.\u00bb Dava aulas aos meninos de fam\u00edlia e fora do per\u00edodo lectivo ministrava as suas li\u00e7\u00f5es \u2013 o \u00fanico branco a faz\u00ea-lo \u2013 numa associa\u00e7\u00e3o de negros. \u00abInfiltrei-me em alguns meios e ia conseguindo, com as minhas cantigas, dar os meus habituais recados.\u00bb Ao olhos da PIDE, Zeca passou de sujeito inc\u00f3modo a tipo perigoso.<\/p>\n<p>CAXIAS<br \/>\u00abEra um redondo voc\u00e1bulo\/ Uma soma agreste\/ Revelavam-se ondas\/ em maninhos dedos\/ polpas seus cabelos\/ res\u00edduos de lar\u00bb Era um Redondo Voc\u00e1bulo in Venham Mais Cinco (1973)<\/p>\n<p>At\u00e9 que um dia, j\u00e1 em Portugal, a PIDE bateu-lhe \u00e0 porta e o filho mais velho veio abrir. H\u00e1 muito que estes agentes da (des)ordem lhe atazanavam a vida e obrigavam o cantor andarilho a tornar-se ainda mais andarilho, a mudar de poiso constantemente. Embicaram com uma quadra (cantada mas nunca gravada) que lhes dizia directamente respeito \u2013 \u00abNa Rua Ant\u00f3nio Maria \/ da primaz institui\u00e7\u00e3o\/ vive a maior confraria\/ desta v\u00e1lida na\u00e7\u00e3o\u00bb \u2013, passando ao largo de outras m\u00fasicas com \u00f3bvias e gravosas refer\u00eancias, como o Av\u00f4 Carvernoso ou o Vejam Bem&#8230; A PIDE n\u00e3o consegue catalog\u00e1-lo, nem no PCP, nem na LUAR, nem enquanto cat\u00f3lico de esquerda. Mais tarde, numa altura em que os tempos n\u00e3o est\u00e3o para independ\u00eancias pessoais, em que \u00e9 quase obrigat\u00f3rio ter r\u00f3tulos, e andar de clich\u00e9 atrelado, faz a sua afirma\u00e7\u00e3o de independ\u00eancia pol\u00edtica: \u00abEu sou o meu pr\u00f3prio comit\u00e9 central.\u00bb Era ele mesmo, sem etiquetas. Tal como a sua m\u00fasica. Confinado \u00e0s quatro paredes da cela durante 21 dias, alarga os horizontes atrav\u00e9s do l\u00e1pis e do papel. Escreve poemas e prosemas, de labir\u00ednticas significa\u00e7\u00f5es, a letra do Redondo Voc\u00e1bulo, e a do Bombons de Todos os Dias, uma m\u00fasica \u00abde um surrealismo afonsino marcado\u00bb, que se manteve in\u00e9dita at\u00e9 ao ano passado, quando o sobrinho Jo\u00e3o a resgatou de uma velha cassete caseira, guardada por um amigo galego, agora gravado no novo disco Outra Vida.<\/p>\n<p>AZEIT\u00c3O<br \/>\u00abEstamos na Europa civilizada\/ j\u00e1 c\u00e1 faltava uma maison\/ pour la patrie p\u2019lo Volskswagem\/ acabou-se a forragem\/ Viva o Patron!\u00bb D\u00e9cada de Salom\u00e9, in Galinhas do Mato (1985)<\/p>\n<p>Porta aberta na casa de Zeca Afonso, em Azeit\u00e3o. As pessoas entravam, instalavam-se na sala \u2013 e traziam um amigo tamb\u00e9m. Nos \u00faltimos tempos, quando a doen\u00e7a (esclerose lateral amiotr\u00f3fica) j\u00e1 lhe tolhia os movimentos e a fala, Al\u00edpio de Freitas \u00e9 um dos convivas naquela sala. Faz-lhe um relat\u00f3rio completo das not\u00edcias, dos acontecimentos, das fofocas pol\u00edticas? O andarilho j\u00e1 n\u00e3o pode ir ao mundo, vai o mundo at\u00e9 ele. Ainda que aquele n\u00e3o fosse de todo o mundo com que sonhou, \u00abZeca continuava a achar que era poss\u00edvel mud\u00e1-lo\u00bb. Era um \u00abut\u00f3pico c\u00e9ptico\u00bb, nas palavras de Jo\u00e3o Afonso. As portas (as de Abril) fecharam-se, achava ele, mas continua a comportar-se como se as janelas tamb\u00e9m servissem de sa\u00eddas de emerg\u00eancia, \u00abcomo se a revolu\u00e7\u00e3o fosse poss\u00edvel\u00bb. Deixara para tr\u00e1s um per\u00edodo de febril agita\u00e7\u00e3o, de peregrina\u00e7\u00e3o por todo o Pa\u00eds, em concertos pelas aldeias fora, \u00abquando a popula\u00e7\u00e3o se juntava para resolver o problema da escola ou de calcetar a rua\u00bb. Levou a solidariedade ao limite, tocou em condi\u00e7\u00f5es inveros\u00edmeis, esfalfou-se, extenuou-se, esfor\u00e7ou a garganta, passou noites em branco, teve por \u00fanica compensa\u00e7\u00e3o a satisfa\u00e7\u00e3o militante. Al\u00edpio era amigo, n\u00e3o de longa data, \u00abmas era como se fosse\u00bb. N\u00e3o se conheciam quando Zeca comp\u00f4s a m\u00fasica sobre o revolucion\u00e1rio portugu\u00eas preso, torturado, h\u00e1 anos incomunic\u00e1vel na terr\u00edvel fortaleza de Santa Cruz, na Ba\u00eda da Guanabara, Rio de Janeiro (Al\u00edpio de Freitas in Com as Minhas Tamanquinhas, 1976). Quando finalmente, em 1980, \u00e9 libertado, Al\u00edpio, hoje com 78 anos (a idade que Zeca teria), professor universit\u00e1rio e presidente da Associa\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 Afonso, foi ao seu encontro: \u00abN\u00e3o dissemos nada. Abra\u00e7\u00e1mo-nos. Com a n\u00edtida sensa\u00e7\u00e3o de que j\u00e1 nos conhec\u00edamos? Foi como se nos tiv\u00e9ssemos reencontrado ap\u00f3s uma longa viagem.\u00bb Provavelmente aquela em que havia uma chamin\u00e9, uma amurada e um \u00abmission\u00e1rio das barbas\u00bb. A primeira viagem \u2013 aquela a que todos regressamos.<\/p>\n<p><strong>Ana Margarida de Carvalho \/ VIS\u00c3O n\u00ba 729 23 Fev. 2007<\/strong><\/p>\n<p>FONTES: Um Olhar fraterno, Jo\u00e3o Afonso, Caminho; Textos e Can\u00e7\u00f5es, Rel\u00f3gio de \u00c1gua; As Voltas de um Andarilho, de Viriato Teles, Ulmeiro; O Rosto da Utopia, de Jos\u00e9 A. Salvador, Terramar; Associa\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 Afonso; Farol M\u00fasica<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos 20 anos da morte de uma refer\u00eancia maior da m\u00fasica portuguesa, a VIS\u00c3O trilhou os passos do cantor andarilho. Seguiu-lhe as deambula\u00e7\u00f5es, as viagens, os retrocessos, as circunvaga\u00e7\u00f5es. Dos tempos que eram de \u00abembalar a trouxa e zarpar\u00bb, \u00e0s bolandas do PREC, a \u00abanimar a malta\u00bb. Roteiro de uma geografia sentimental e musical. N\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[86],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7741"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7741"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7741\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7741"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7741"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aja.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7741"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}