{"id":7708,"date":"2007-02-21T11:03:00","date_gmt":"2007-02-21T11:03:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=7708"},"modified":"2021-12-17T11:40:06","modified_gmt":"2021-12-17T11:40:06","slug":"a-sessao-no-luso-com-jose-afonso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/a-sessao-no-luso-com-jose-afonso\/","title":{"rendered":"A sess\u00e3o no Luso com Jos\u00e9 Afonso"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">&#8220;A noite estava fresca e escura, sem lua que se visse sobre os telhados, mal iluminada pelos pontos de luz fracos e parcamente disseminados. Na rua n\u00e3o havia qualquer movimento especial, como n\u00e3o havia nas escadas dando acesso ao vest\u00edbulo da sede do simp\u00e1tico clube do Barreiro velho. A d\u00favida tomava conta do esp\u00edrito, j\u00e1 de si inquieto, do jovem estudante que tivera aulas em Lisboa at\u00e9 tarde: \u00abE se n\u00e3o fosse fidedigna a informa\u00e7\u00e3o surgida por via familiar e rodeada do secretismo pr\u00f3prio do tempo?\u00bb: Vai haver uma sess\u00e3o de baladas no Luso com o Jos\u00e9 Afonso!&#8230; transmitira, em jeito de confid\u00eancia, o primo Caria.&#8221;<br \/>&#8220;\u2014 Quando? \u2014 antecipara-se o jovem aos restantes inter-locutores receosos.<br \/>\u2014 Nos princ\u00edpios de Novembro, telefonou o Z\u00e9 bicas&#8230;<br \/>\u2014 Se fora parente distinto, ent\u00e3o a informa\u00e7\u00e3o era digna cr\u00e9dito, s\u00f3 faltava apurar a data.<br \/>A ang\u00fastia moment\u00e2nea fazia tolher os passos, ainda no corredor, onde se situavam os balne\u00e1rios. N\u00e3o se via ningu\u00e9m, a porta ao fundo estava encostada, a d\u00favida j\u00e1 dilacerava: \u00abSe calhar n\u00e3o era hoje? Ou ent\u00e3o foi cancelada!&#8230;\u00bb<br \/>Empurrada devagarinho, a porta do sal\u00e3o abriu-se, enquanto o cora\u00e7\u00e3o batia descompassado de d\u00favida e esperan\u00e7a, para logo pular de alegria e emo\u00e7\u00e3o, o sal\u00e3o estava literalmente cheio, talvez 300-400 pessoas.<br \/>A sess\u00e3o j\u00e1 tinha come\u00e7ado, no palco uma viola (Rui Pato) acompanhava uma voz feminina terna e timbrada (Teresa Paula Brito), num blue ou algo do g\u00e9nero (Summertime). O calor das palmas revelava o entusiasmo dos presentes, algumas caras conhecidas, poucos jovens da zona (faltava esclarecimento e mobiliza\u00e7\u00e3o entre a malta).<br \/>A seguir a poesia dita com muita alma (Odete Santos e a Marcha Almandenim) e uma explica\u00e7\u00e3o para a n\u00e3o participa\u00e7\u00e3o do Adriano Correia de Oliveira, tamb\u00e9m presente: \u00abEstava na tropa e n\u00e3o lhe era permitido cantar.\u00bb Assobio, algu\u00e9m ensaia um grito isolado: \u00abAbaixo a guerra!\u00bb, sem seguidores. No fim acabaria por cantar em coro, mas naquele momento segurava os pap\u00e9is com as letras que o memor\u00e1vel Zeca Afonso come\u00e7ava a cantar.<br \/>Por cada interven\u00e7\u00e3o a sala explodia em aplausos e gritos. Para al\u00e9m dos m\u00e9ritos do cantor, algo mais ali se celebrava, era Portugal amorda\u00e7ado abrindo o grito de protesto contra a tirania, pela voz do poeta que melhor fazia a sua den\u00fancia. A poesia generosa e revolucion\u00e1ria despertava a vontade de participar no combate \u00e0 repress\u00e3o que prendia e torturava a resist\u00eancia \u00e0 ditadura. Como de resto neste caso tamb\u00e9m iria acontecer.<br \/>Na plateia um novo grito se juntava, cada vez com mais insist\u00eancia, conforme o poeta-cantor avan\u00e7ava na noite. Tanto podia ser interpretado como uma acusa\u00e7\u00e3o, como um pedido:<br \/>\u2014 Vampiros! Vampiros!<br \/>Algu\u00e9m da organiza\u00e7\u00e3o (\u00c1lvaro Monteiro) explicava no palco ser aquela uma sess\u00e3o comemorativa de um anivers\u00e1rio (Cine-Clube do Barreiro), devendo-se evitar complica\u00e7\u00f5es. A resposta da plateia foi eloquente, gritando com mais for\u00e7a ainda:<br \/>\u2014 Vampiros! Vampiros! Vampiros!<br \/>Um assistente perto da porta, com ar de quem tinha vindo de longe, comentava judiciosamente:<br \/>\u2014 A can\u00e7\u00e3o est\u00e1 proibida! \u00c9 um risco desnecess\u00e1rio cant\u00e1 -la N\u00e3o insistam!<br \/>Ouvindo o reparo contrariador, mais vozes se juntaram ao imenso coro e o poeta cantou, com centenas de gargantas embargadas de emo\u00e7\u00e3o:<br \/>Se algu\u00e9m se engana com seu ar sisudo, E lhes franqueia as portas \u00e0 chegada, Eles comem tudo, eles comem tudo! Eles comem tudo e n\u00e3o deixam nada!<br \/>Se h\u00e1 acontecimentos que marcam uma gera\u00e7\u00e3o, a sess\u00e3o de Canto e Poesia, promovida no dia 11 de Novembro de 1967, pela direc\u00e7\u00e3o do Cine -Clube do Barreiro, em colabora\u00e7\u00e3o com o Luso Futebol Clube, ficar\u00e1 para sempre gravada no cora\u00e7\u00e3o dos barreirenses. Dos que estiveram presentes, como daqueles que depois ouviram contar, se \u00e9 que \u00e9 poss\u00edvel transmitir a emo\u00e7\u00e3o at\u00e9 \u00e0s l\u00e1grimas duma noite inesquec\u00edvel.&#8221;<\/div>\n<div align=\"left\"><strong>Armando Sousa Teixeira<br \/><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-weight: normal;\"> Texto: do livro &#8220;A Industria e a Luta em Desenvolvimento&#8221;<br \/>Barreiro, Uma Historia de Trabalho Resist\u00eancia e Luta <\/span><\/strong><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;A noite estava fresca e escura, sem lua que se visse sobre os telhados, mal iluminada pelos pontos de luz fracos e parcamente disseminados. Na rua n\u00e3o havia qualquer movimento especial, como n\u00e3o havia nas escadas dando acesso ao vest\u00edbulo da sede do simp\u00e1tico clube do Barreiro velho. 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