{"id":7690,"date":"2007-02-19T18:09:00","date_gmt":"2007-02-19T18:09:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=7690"},"modified":"2021-12-17T11:40:06","modified_gmt":"2021-12-17T11:40:06","slug":"vinte-anos-sempre-com-zeca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/vinte-anos-sempre-com-zeca\/","title":{"rendered":"Vinte anos sempre com Zeca"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">Duas d\u00e9cadas j\u00e1 se passaram sobre o desaparecimento f\u00edsico de Jos\u00e9 Afonso, e no entanto parece que foi ontem. Apesar disso, desde essa triste madrugada de Fevereiro de 1987, o mundo mudou como nenhum de n\u00f3s podia ent\u00e3o imaginar que mudasse. Desde o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica \u2013 que, nessa altura, quase todos n\u00f3s ainda acredit\u00e1vamos ser eterna ou, pelo menos, muito duradoura \u2013 at\u00e9 \u00e0 unipolariza\u00e7\u00e3o dos dias de hoje e \u00e0 consequente submiss\u00e3o do mundo \u00e0 vontade imperial da superpot\u00eancia sobejante, tudo se tornou bem diferente do que poderia supor-se vinte anos atr\u00e1s.Vinte anos \u00e9 a idade de uma gera\u00e7\u00e3o. E a gera\u00e7\u00e3o desta idade, afundada em incertezas e com muito menos esperan\u00e7as do que as que a antecederam, dificilmente consegue vislumbrar uma qualquer \u00abcidade sem muros nem ameias\u00bb onde o presente e o futuro fa\u00e7am sentido. N\u00e3o \u00e9 uma gera\u00e7\u00e3o rasca, mas \u00e9 sem d\u00favida uma gera\u00e7\u00e3o \u00e0 rasca, afogada no quotidiano globalizado do consumo e da precariedade.O mundo mudou imenso, de facto, nestes vinte anos. Mas n\u00e3o tanto que tenha feito com que as can\u00e7\u00f5es de Jos\u00e9 Afonso ficassem fora de moda ou se tornassem meros documentos de um tempo passado. E n\u00e3o s\u00f3 porque universalidade e intemporalidade s\u00e3o duas caracter\u00edsticas centrais de toda a obra de Zeca \u2013 as suas m\u00fasicas de h\u00e1 quarenta anos mant\u00e9m hoje a mesma frescura e a mesma modernidade que tinham quando foram escritas \u2013 mas porque a vida real se encarregou de negar todos os sonhos que, num dia de Abril, cheg\u00e1mos a acreditar que estavam prestes a concretizar-se. Trinta anos depois do \u00abdia inicial\u00bb, os vampiros e os eunucos voltaram a estar activos e dominantes. E se hoje n\u00e3o temos (ainda) um outro av\u00f4 cavernoso a comandar as nossas vidas, \u00e9 s\u00f3 porque a m\u00e3e Europa n\u00e3o deixa. A verdade \u00e9 que muitos dos pressupostos pol\u00edticos e sociais que ditaram a cria\u00e7\u00e3o de tantas can\u00e7\u00f5es do Zeca voltaram a instalar-se no nosso quotidiano. E tamb\u00e9m por isso estas palavras permanecem t\u00e3o dolorosamente actuais.Mas n\u00e3o \u00e9 por isso \u2013 n\u00e3o s\u00f3 por isso \u2013 que estas can\u00e7\u00f5es se mant\u00eam dentro do prazo de validade. A verdade \u00e9 que todas elas possuem essa qualidade \u00fanica que distingue os grandes mestres dos criadores vulgares: a capacidade de resistir ao tempo e de o ultrapassar. Re-ouvindo hoje o legado de Jos\u00e9 Afonso, dificilmente encontramos os chamados temas \u00abdatados\u00bb. E no entanto eles existem (sobretudo nos discos da segunda metade da d\u00e9cada de 70, muito marcados pelas lutas do per\u00edodo revolucion\u00e1rio), mas as marcas temporais das situa\u00e7\u00f5es concretas que lhes deram origem n\u00e3o chegam para fazer com que, actualmente, essas m\u00fasicas percam o interesse ou se nos apresentem como meros documentos testemunhais de uma \u00e9poca.Pelo contr\u00e1rio: as can\u00e7\u00f5es de Zeca, mesmo aquelas que reflectem e retratam determinados epis\u00f3dios ou momentos hist\u00f3ricos espec\u00edficos, conseguem sempre ter uma dimens\u00e3o musical e po\u00e9tica que n\u00e3o se confina nunca ao seu pr\u00f3prio tempo. Desde \u00abA Morte Saiu \u00e0 Rua\u00bb at\u00e9 ao mobilizador \u00abCoro da Primavera\u00bb, todas elas foram capazes de resistir ao grande ju\u00edzo do tempo e se nos apresentam hoje como obras t\u00e3o ou mais modernas do que muitas produ\u00e7\u00f5es dos nossos dias. E a prova est\u00e1 na quantidade de jovens m\u00fasicos que continuam a ter em Zeca uma refer\u00eancia essencial.\u00c9 tudo isto que esta exposi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m nos recorda, a par com a evoca\u00e7\u00e3o de uma vida \u00edmpar de um ser humano excepcional, pol\u00edtica e socialmente comprometido com os mais nobres ideais. A tudo isto acresce o facto de se tratar de uma iniciativa com a marca de uma institui\u00e7\u00e3o que fez hist\u00f3ria e ocupa um lugar de destaque no universo cultural portugu\u00eas: o MC-Mundo da Can\u00e7\u00e3o, que desde h\u00e1 quase 40 anos tem desempenhado um papel central na divulga\u00e7\u00e3o da melhor m\u00fasica que se faz em Portugal e no Mundo. Tal como o Zeca \u2013 que, vinte anos depois, teima em permanecer vivo atrav\u00e9s das palavras e da m\u00fasica que hoje s\u00e3o patrim\u00f3nio de todos n\u00f3s \u2013 tamb\u00e9m o MC se recusa a morrer e promete continuar. De p\u00e9, enfrentando todas as adversidades, disposto a resistir, sempre. Ou, pelo menos, enquanto h\u00e1 for\u00e7a. <\/div>\n<p><b>Viriato Teles<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Duas d\u00e9cadas j\u00e1 se passaram sobre o desaparecimento f\u00edsico de Jos\u00e9 Afonso, e no entanto parece que foi ontem. Apesar disso, desde essa triste madrugada de Fevereiro de 1987, o mundo mudou como nenhum de n\u00f3s podia ent\u00e3o imaginar que mudasse. 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