{"id":7684,"date":"2007-02-19T13:06:00","date_gmt":"2007-02-19T13:06:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=7684"},"modified":"2021-12-17T11:40:07","modified_gmt":"2021-12-17T11:40:07","slug":"correio-da-manha-especial-zeca-afonso-o-andarilho-na-juventude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/correio-da-manha-especial-zeca-afonso-o-andarilho-na-juventude\/","title":{"rendered":"Correio da manh\u00e3 | Especial Zeca Afonso | O Andarilho na juventude"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">Jos\u00e9 Afonso morreu h\u00e1 vinte anos. Inscrito nas p\u00e1ginas da Hist\u00f3ria como autor da can\u00e7\u00e3o que trouxe para a rua a Revolu\u00e7\u00e3o de Abril, \u00e9 recordado pelos seus colegas de liceu como um jovem ut\u00f3pico, distra\u00eddo e profundamente humano.<\/p>\n<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">Vinte e quatro de Fevereiro de 1987. Mais de trinta mil pessoas percorrem as ruas de Set\u00fabal entre a Escola Secund\u00e1ria de S. Juli\u00e3o e o Cemit\u00e9rio da Senhora da Piedade entoando can\u00e7\u00f5es de protesto. Uma das maiores manifesta\u00e7\u00f5es de que a cidade tem mem\u00f3ria. Greve? Movimento oper\u00e1rio? Estudantil? N\u00e3o. Na frente do cortejo segue um caix\u00e3o, coberto com um pano vermelho, e que vai levado em ombros por S\u00e9rgio Godinho, Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco, J\u00falio Pereira, Francisco Fanhais, Lu\u00eds C\u00edlia&#8230; O desfile, que, n\u00e3o fora a urna, mais parece uma festa, \u00e9 afinal o funeral de Zeca Afonso. Um mar de gente acompanhando o trovador de Abril \u00e0 sua \u00faltima morada. Cumprindo a sua vontade, ningu\u00e9m usa luto.<\/p>\n<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">\u201cQuando vi aquilo na televis\u00e3o mal podia acreditar: poderia ser o \u2018nosso\u2019 Zeca?\u201d Vinte anos depois de ver o amigo partir, feito \u201cum her\u00f3i nacional\u201d, o engenheiro Ant\u00f3nio Santos Silva ainda tem dificuldade em compenetrar-se de que o \u201cseu\u201d Zeca veio a tornar-se num s\u00edmbolo, uma figura quase irreal, um nome de rua, de escola, uma \u201cest\u00e1tua fria \u2018numa pra\u00e7a de gente madura\u2019\u201d, como escreveu no seu livro de 2000 sobre Zeca Afonso, sugestivamente intitulado \u2018Antes do Mito\u2019. Para ele, Jos\u00e9 Afonso continua a ser ainda hoje o seu companheiro de liceu, o \u201cgajo porreiro\u201d que chumbara duas vezes quando se conheceram em 1946. \u201cEra ent\u00e3o conhecido como o \u2018Torgup\u00eas\u2019, por falar uma linguagem na qual baralhava as s\u00edlabas. Carlos Couceiro, que chegara de Angola nesse ano, e que tamb\u00e9m veio a tornar-se engenheiro, era outro dos membros daquela \u201cturma de repetentes\u201d. \u201cQuando fal\u00e1vamos assim, com as s\u00edlabas trocadas, ningu\u00e9m nos entendia, tal era a velocidade\u201d, conta. Os dois velhos amigos estavam longe de imaginar que algum dia aquele rapaz desprendido, \u201ccompletamente desligado das coisas materiais e sem qualquer sentido pr\u00e1tico da vida\u201d viria a ser o Zeca Afonso, conhecido por todos, s\u00edmbolo da Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos e refer\u00eancia musical de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es. \u201c\u2018Que vai ser deste gajo?!\u2019 \u2013 era o que a malta pensava\u201d, refere Santos Silva no seu livro.<\/p>\n<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">Percorrendo as ruas da Alta de Coimbra, Santos Silva e Carlos Couceiro, pai do piloto Pedro Couceiro, aceitaram fazer para a Domingo uma viagem no tempo e na mem\u00f3ria, recordando alguns dos epis\u00f3dios passados com o \u2018seu\u2019 Zeca, na inoc\u00eancia dos verdes anos, quando o jovem estudante dava voz \u00e0s serenatas e os tr\u00eas saltavam os muros do liceu para penetrar nos bailes aos quais n\u00e3o tinham acesso por falta de dinheiro. Foi na sequ\u00eancia de uma noitada dessas \u2013 por sinal, frustrada, j\u00e1 que n\u00e3o tinham conseguido os seus intentos e a noite fora passada no alto do muro \u00e0 espera que a guarda montada, que patrulhava a avenida, dispersasse \u2013 que o jovem Zeca, estoirado pelas emo\u00e7\u00f5es da aventura, adormeceu na aula de Ci\u00eancias Naturais, em plena chamada. \u201cO professor chamou pelo n\u00famero dele, duas vezes\u201d recorda Santos Silva. \u201cOlh\u00e1mos. O Zeca dormia profundamente, encostado \u00e0 parede. \u2018Pronto!\u2019, pensei. \u00c9 desta. Vai ser expulso da aula e chumba o ano. Qual n\u00e3o foi o nosso espanto quando o professor leva o indicador aos l\u00e1bios e faz: \u2018Schiu!\u2019\u201d \u00c9 que, apesar de \u201cdistra\u00eddo\u201d e \u201cmau aluno\u201d, nas palavras dos seus velhos companheiros, Jos\u00e9 Afonso seduzia todos pela sua forma de ser aut\u00eantica, \u201csem poses\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">Zeca distinguia-se j\u00e1 entre os seus pares pela sua profunda avers\u00e3o a qualquer tipo de amarras ou forma de autoridade. Era conhecido o seu horror a pol\u00edcias que, mais tarde, lhe veio a trazer alguns dissabores assim como a quem o acompanhasse nas ocasi\u00f5es em que mostrava atitudes provocat\u00f3rias. Como daquela vez em que seguia no el\u00e9ctrico e resolveu contar em voz alta uma anedota sobre o ent\u00e3o Presidente do Conselho: \u201cQuando se queria falar do Salazar, para que ningu\u00e9m percebesse, dizia-se o Ant\u00f3nio\u201d, explica Santos Silva. E prossegue: \u201cdiz ent\u00e3o o Zeca: \u2018Olha, sabes, o Ant\u00f3nio tem um cancro&#8230; Coitadinho do cancro!\u201d Depois de muito se rirem, os dois amigos apeiam-se do el\u00e9ctrico, logo seguidos por outro indiv\u00edduo. \u00c9 ent\u00e3o que Santos Silva se apercebe que o companheiro ficou para tr\u00e1s: o outro tinha- -o agarrado pelos colarinhos. \u201cO Zeca, \u00e0 rasca, a tentar escapar e o tipo mostra- -lhe algo na pr\u00f3pria lapela: \u2018Sabes o que \u00e9 isto?\u2019. \u2018Sei l\u00e1 o que \u00e9 essa m&#8230;.\u2019, responde o Zeca. Aquela \u2018m&#8230;.\u2019 era uma ins\u00edgnia: o gajo era um PIDE. N\u00e3o sei como \u00e9 que ele escapou! Mas ele era assim, dava a volta a toda a gente! Disse \u2018m&#8230;.\u2019 a um PIDE e nem sequer foi preso!\u201d, remata o antigo colega, entre gargalhadas.<\/p>\n<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">Alguns anos antes deste epis\u00f3dio, contudo, muito inocente e longe de qualquer consci\u00eancia pol\u00edtica, o aluno do liceu deslocara-se com uma delega\u00e7\u00e3o de estudantes a Braga, para uma comemora\u00e7\u00e3o do 28 de Maio, data em que fora implantado o Estado Novo, e participara num momento de euforia no qual a multid\u00e3o acabara levantando em bra\u00e7os o Marechal Carmona. Uma experi\u00eancia empolgante, \u00e0 \u00e9poca, da qual mais tarde se envergonhava, exclamando, quando lha recordavam, com um sorriso meio comprometido: \u201cTu nem me fales nisso, p\u00e1!\u201d<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">Jos\u00e9 Afonso vivia ent\u00e3o com o irm\u00e3o mais velho, Jo\u00e3o, em casa da sua tia Avrilete. Santos Silva era h\u00f3spede e lembra que ali se revelou a faceta anticlerical do jovem: \u201cA tia Avrilete era muito devota e ia todos os dias \u00e0 missa. Um belo dia, \u00e0 sa\u00edda da igreja, a senhora caiu e partiu um bra\u00e7o. O Zeca, que estava sempre a gozar com a religiosidade da tia, n\u00e3o perdeu a oportunidade: \u2018Est\u00e1 a ver! Devia ter ficado em casa!\u2019. Mas a tia Avrilete apressou-se a garantir que ainda iria agradecer ao Senhor a gra\u00e7a concedida: \u2018Podia ter sido pior!\u2019 E o Zeca: \u2018N\u00e3o v\u00e1, olhe que ainda cai outra vez! E n\u00e3o \u00e9 que caiu mesmo?!!\u201d<\/p>\n<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">Em frente \u00e0 casa da tia Avrilete morava uma jovem costureirinha de origem humilde, Maria Am\u00e1lia, por quem o cantor n\u00e3o tardou a apaixonar-se. Casou \u00e0 revelia da fam\u00edlia e foi instalar-se com a esposa num quarto alugado paredes-meias com o insepar\u00e1vel Santos Silva. Foi ali que conheceram o Dr. Jorge P. com quem os jovens estudantes descobriram o cinema neo-realista italiano e autores como Jorge Amado e Pablo Neruda: \u201cDesconfi\u00e1vamos que ele era comunista, embora nunca nos tenha tentado \u2018engajar\u2019 no partido. Mas com ele assin\u00e1mos abaixo-assinados a favor dos presos pol\u00edticos, da Amnistia Internacional&#8230; foi, sobretudo para o Zeca, uma inicia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d. No entanto, quem realmente governava a casa era a m\u00e3e do Dr. Jorge P., Dona Guilhermina: \u201cEra uma chupista, via-nos apenas como h\u00f3spedes para dar lucro\u201d. A velha senhora, que poupava at\u00e9 na comida que servia para rentabilizar os ganhos, tinha ao seu servi\u00e7o uma criada chamada Maria, que explorava at\u00e9 mais n\u00e3o. \u201cEra v\u00ea-la, \u00e0s sete da manh\u00e3, j\u00e1 a lavar a roupa no tanque do quintal. Pois, certo dia, a mo\u00e7a adoeceu. Tossia que metia d\u00f3. Mas a D. Guilhermina, indiferente \u00e0 febre que lhe rosava as bochechas, recusava-se a chamar um m\u00e9dico\u201d. E ent\u00e3o, deu-se a gota de \u00e1gua, conta Santos Silva: \u201cNuma manh\u00e3, a Maria Am\u00e1lia foi dar com ela a lavar a roupa no quintal, com um frio de rachar. O Zeca ficou furioso: \u2018De certeza que o Dr. Jorge n\u00e3o sabe disto\u2019\u201d. Mas o dono da casa sabia. O desencanto foi demasiado. E Jos\u00e9 Afonso mudou-se com a mulher para um pequeno apartamento no Beco da Carqueja. Esperavam um filho e a situa\u00e7\u00e3o financeira era prec\u00e1ria. O casamento ressentia-se, n\u00e3o s\u00f3 dos fracos recursos como da diferen\u00e7a cultural entre ambos. Nesse per\u00edodo, os dois grandes amigos de Zeca viviam na Rep\u00fablica do Sobado Kakulo, e Carlos Couceiro recorda as muitas noites \u2013 e manh\u00e3s! \u2013 em que se deparou com o companheiro deitado, na sua cama, \u201ca dormir ferrado\u201d. \u201cQue rem\u00e9dio tinha eu sen\u00e3o estender um colch\u00e3o no ch\u00e3o!\u201d E, rindo, conta como o amigo lhe levava a capa e batina \u201cem muito melhor estado que as dele!\u201d e mesmo os sapatos: \u201cUm dia, o tipo at\u00e9 levou um sapato dele e um meu! Dei com ele na Baixa e disse-lhe: \u2018D\u00e1 c\u00e1 isso!\u2019 Nem se tinha apercebido.\u201d<\/p>\n<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">Deprimido com as dificuldades financeiras e com o casamento em crise, Jos\u00e9 Afonso trava um dia conhecimento com uma personagem descrita por Santos Silva como uma esp\u00e9cie de \u201chippie prematuro\u201d, pelo qual os dois jovens desenvolveram profunda admira\u00e7\u00e3o: \u201cVagueava pelo mundo em busca da \u2018luz do nada\u2019. Defendia o despojamento material e tinha preocupa\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas\u201d. Estavam criadas as condi\u00e7\u00f5es para o desenvolvimento de uma corrente filos\u00f3fica pessoal, a que Zeca deu o nome de Pantrampismo: tudo \u00e9 trampa. Os amigos chegaram a pensar publicar um jornal que servisse de suporte \u00e0quele original paradigma de pensamento. Para a publica\u00e7\u00e3o, que nunca chegou a ver a luz do dia, escreveram quadras e sonetos. Mas as circunst\u00e2ncias da vida n\u00e3o tardariam a separar os tr\u00eas amigos. Estava-se em 1953 e findavam os anos da inoc\u00eancia. Nada seria como antes. Para Santos Silva e Carlos Couceiro, o amor mal sucedido, a falta de dinheiro, os revezes na faculdade, as desilus\u00f5es com \u201co mundo real\u201d vieram a ser determinantes no g\u00e9nio criativo que ent\u00e3o despertou. Pois, se Jos\u00e9 Afonso j\u00e1 era ent\u00e3o conhecido como um razo\u00e1vel cantor de fados \u2013 dando voz \u00e0s guitarras de Ant\u00f3nio Portugal ou do pr\u00f3prio Carlos Couceiro e \u00e0s violas de Durval Moreirinhas e M\u00e1rio Barroso, entre outros \u2013, ainda n\u00e3o come\u00e7ara a escrever nem a compor. Sobrevivia a custo da mesada, algumas aulas particulares que dava e das costuras de Maria Am\u00e1lia que entretanto se empregara \u00e0 noite no Teatro Avenida a vender doces no intervalo das sess\u00f5es. <\/p>\n<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">No final dos anos cinquenta, \u00e0 beira do div\u00f3rcio e j\u00e1 a dar aulas, Zeca escreve as primeiras baladas. Em Coimbra, todos o conhecem. Frequenta a \u201cala esquerda\u201d da Brasileira, na qual desponta uma \u2018movida\u2019 intelectual. Poetas, jornalistas e artistas fazem ali longas tert\u00falias. Rui Pato, hoje m\u00e9dico e director do Hospital dos Cov\u00f5es, tinha ent\u00e3o 14 anos e desde os 11 tocava viola com v\u00e1rios m\u00fasicos em casa de Ant\u00f3nio Portugal \u2013 um grupo de jovens artistas conhecido como o \u2018Portugal dos Pequeninos\u2019. Foi numa das tert\u00falias da Brasileira que Zeca uma noite exclama: \u2018Preciso de uma viola!\u2019 O pai de Pato, jornalista no \u2018Primeiro de Janeiro\u2019, responde: \u2018O meu filho tem l\u00e1 uma viola\u2019. E leva \u201ca malta toda l\u00e1 para casa\u201d. Sentado a um canto, o adolescente observa Jos\u00e9 Afonso que toca \u2018O Menino de Oiro\u2019: \u201c\u00c0s tantas, vi que ele estava a engatilhar com aquilo. Muito a custo, l\u00e1 ganhei coragem e sugeri que talvez conseguisse acompanhar. Tinha aprendido viola cl\u00e1ssica e comecei a fazer um dedilhado muito simples mas que caiu ali bem. E o Zeca diz: \u2018Esse puto \u00e9 que me vai acompanhar\u2019! Passado uns dias estava num est\u00fadio de grava\u00e7\u00e3o!\u201d<\/p>\n<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">Iniciou-se ent\u00e3o a parceria que iria durar at\u00e9 ao final dos anos sessenta, quando Rui Pato acabou por ter de optar entre medicina e a m\u00fasica. Apesar do seu imenso talento, com quota parte de responsabilidade pelo sucesso de Zeca, optou pela primeira. Mas os dados estavam lan\u00e7ados: o menino d\u2019oiro iniciava a sua subida apote\u00f3tica rumo \u00e0 imortalidade. Onde chegou. Mas essa parte da est\u00f3ria, j\u00e1 todos a conhecem&#8230;<\/p>\n<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\"><strong>FILOSOFIA<\/strong><\/div>\n<div align=\"justify\">Ningu\u00e9m dava muito pelo rapaz, detestava amarras, tinha profunda avers\u00e3o \u00e0 autoridade. Zeca at\u00e9 deu nome a uma corrente filos\u00f3fica: o Pantrampismo; ou seja, tudo \u00e9 uma trampa. Depois descobriu a m\u00fasica. Ant\u00f3nio Pato acompanhava-o \u00e0 guitarra.<\/p>\n<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\"><strong>AS RECORDA\u00c7\u00d5ES DE MARIAZINHA<\/strong><\/div>\n<div align=\"justify\"><strong>FAM\u00cdLIA APARTADA<\/strong><\/div>\n<div align=\"justify\">A inf\u00e2ncia de Zeca ficou marcada pelas partidas dos pais e irm\u00e3 mais nova, Mariazinha, para Timor e depois para Mo\u00e7ambique. Depois dos primeiros anos em Angola com toda a fam\u00edlia junta, permanecia longos per\u00edodos em casa de familiares com o irm\u00e3o mais velho Jo\u00e3o, em Belmonte e em Coimbra. Mariazinha, hoje com 75 anos, recorda as dif\u00edceis separa\u00e7\u00f5es: \u201cEu era muito ligada ao Zeca. O meu irm\u00e3o Jo\u00e3o era mais fechado. Lembro-me de um almo\u00e7o em Lisboa, antes da nossa partida para Mo\u00e7ambique. As l\u00e1grimas corriam-me pela cara. Quase tiveram de me arrancar de junto dele.\u201d Mas a rela\u00e7\u00e3o entre os dois irm\u00e3os manteve-se sempre. Foi Mariazinha que, juntamente com os pais, acabou por \u201ccriar\u201d os filhos mais velhos de Zeca que, ironicamente, cresceram longe dos pais, tal como ele pr\u00f3prio crescera. Numa ocasi\u00e3o, Zeca foi a Mo\u00e7ambique visitar a fam\u00edlia. Acabou por l\u00e1 ficar 24 horas. Foi levado pela PIDE. Quando regressou a Portugal, Mariazinha assistiu a alguns concertos, como o do Coliseu: \u201cTremiam-me as pernas. Eu nunca via serenamente os espect\u00e1culos do meu irm\u00e3o\u201d. Acabou por acompanh\u00e1-lo mais regularmente na \u00faltima fase da sua vida. No dia do enterro, quando viu a multid\u00e3o e tomou no\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o atingida por Zeca, ficou \u201cassombrada\u201d. E recorda as palavras do filho naquela tarde: \u201cM\u00e3e, o tio Zeca j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 nosso\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<div align=\"justify\"><strong><\/strong><\/div>\n<div align=\"justify\"><strong>GR\u00c2NDOLA VILA MORENA<br \/>A HIST\u00d3RIA DO HINO<\/strong><\/div>\n<div align=\"justify\">De todas as can\u00e7\u00f5es de Zeca que ficaram para a hist\u00f3ria da m\u00fasica portuguesa, \u2018Gr\u00e2ndola Vila Morena\u2019 ficou como \u00edcone incontornavelmente associado \u00e0 liberdade.H\u00e9lder Costa, hoje director art\u00edstico do Teatro A Barraca, natural daquela vila alentejana, contou \u00e0 Domingo a est\u00f3ria da can\u00e7\u00e3o que serviu de senha aos militares de Abril: \u201cNa primeira metade dos anos 60, o Pa\u00eds estava em polvorosa. As lutas estudantis de 62 tinham desencadeado um movimento de greves oper\u00e1rias e, em Gr\u00e2ndola, a Sociedade Fraternidade Oper\u00e1ria Grandolense fazia mexer toda a regi\u00e3o\u201d. Espect\u00e1culos de teatro, concertos e happenings sucediam-se na colectividade tamb\u00e9m conhecida como \u2018M\u00fasica Velha\u2019. Foi ali que H\u00e9lder Costa, que estudava em Coimbra, levou, em Maio de 64, dois artistas j\u00e1 conhecidos para fazer um espect\u00e1culo com um programa aliciante: \u201cPrimeira parte \u2013 Carlos Paredes; segunda parte \u2013 Zeca Afonso\u201d.Impressionado com o ambiente de solidariedade e luta que se sentia na \u2018M\u00fasica Velha\u2019, o m\u00fasico regressou a casa e dois dias depois enviou uma carta a um dos directores da Sociedade, Jos\u00e9 da Concei\u00e7\u00e3o. Nela vinha um conjunto de quadras: o original de \u2018Gr\u00e2ndola Vila Morena\u2019. \u201cE n\u00e3o \u00e9 que o sacana perdeu a carta?!\u201d, exclama H\u00e9lder Costa. Mesmo assim, a can\u00e7\u00e3o nasceu, foi orquestrada em Paris v\u00e1rios anos mais tarde por Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco&#8230; e o resto faz parte da Hist\u00f3ria.<\/p>\n<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\"><strong>EM CD DUPLO<\/strong><\/div>\n<div align=\"justify\"><strong>REGRESSO DO CANTOR<\/strong><\/div>\n<div align=\"justify\">Os 20 anos da morte de Zeca s\u00e3o pretexto para numerosas manifesta\u00e7\u00f5es de Norte a Sul do pa\u00eds, entre espect\u00e1culos, debates e edi\u00e7\u00f5es de discos. A Farol M\u00fasica lan\u00e7a agora a reedi\u00e7\u00e3o de uma colect\u00e2nea cujo original saiu em 1983 sob a chancela da Orfeu, em triplo disco de vinil, pela primeira vez em Portugal. S\u00e3o trinta can\u00e7\u00f5es, datadas entre 1968 e 1981.<\/p>\n<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\"><strong>A CAN\u00c7\u00c3O DE NOBRE GUEDES<\/strong><\/div>\n<div align=\"justify\"><strong>&#8216;VENHAM MAIS CINCO&#8217;<\/strong><\/div>\n<div align=\"justify\">Jos\u00e9 Afonso foi um homem indiscutivelmente ligado \u00e0 Esquerda, embora sempre se tenha recusado a ser arrumado em qualquer partido. Apesar disso, a sua dimens\u00e3o universal permitiu-lhe granjear admiradores em todas as cores do espectro pol\u00edtico. Lu\u00eds Nobre Guedes, um dos rostos mais conhecidos do CDS-PP, \u00e9 um deles e at\u00e9 chegou a eleger \u2018Venham Mais Cinco\u2019 como a sua can\u00e7\u00e3o favorita. N\u00e3o poupa elogios a Zeca que define como \u201cum poeta extraordin\u00e1rio e um m\u00fasico fant\u00e1stico\u201d, dotado de \u201cuma voz bel\u00edssima\u201d. Lembra-se de o ouvir ainda no tempo do antigo regime, numa \u201cr\u00e1dio meio-clandestina que havia a\u00ed\u201d e possui mais do que um disco daquele \u201cgrande artista\u201d. A quem possa estranhar que um homem assumidamente de Direita goste tanto de um cantor de posi\u00e7\u00e3o radicalmente oposta \u00e0 sua, Nobre Guedes responde sem rodeios: \u201cA arte n\u00e3o \u00e9 de Esquerda nem de Direita!\u201d<\/div>\n<p><strong>Myriam Zaluar | 2007-02-18 <\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Afonso morreu h\u00e1 vinte anos. Inscrito nas p\u00e1ginas da Hist\u00f3ria como autor da can\u00e7\u00e3o que trouxe para a rua a Revolu\u00e7\u00e3o de Abril, \u00e9 recordado pelos seus colegas de liceu como um jovem ut\u00f3pico, distra\u00eddo e profundamente humano. Vinte e quatro de Fevereiro de 1987. 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