{"id":7672,"date":"2007-02-17T19:26:00","date_gmt":"2007-02-17T19:26:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aja.pt\/wp\/?p=7672"},"modified":"2021-12-17T11:40:07","modified_gmt":"2021-12-17T11:40:07","slug":"nos-20-anos-da-partida-de-zeca-afonso-por-helena-langrouva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aja.pt\/en\/nos-20-anos-da-partida-de-zeca-afonso-por-helena-langrouva\/","title":{"rendered":"Nos 20 anos da partida de Zeca Afonso, por Helena Langrouva"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">Um trabalho antigo a refundir e um projecto avan\u00e7ado, a aguardar apoio. No pr\u00f3ximo dia 23 de Fevereiro passam vinte anos sobre a morte de Zeca Afonso. Parece que o tempo tem contribu\u00eddo para guardar a sua mem\u00f3ria. Porque n\u00e3o est\u00e1 esquecido, nos jornais, nos meios de comunica\u00e7\u00e3o social, nas sess\u00f5es de homenagem.<\/p>\n<p>Quando, em 1978-1979, eu preparava, na Universidade de Paris III &#8211; La Sorbonne Nouvelle &#8211; a minha p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o &#8211; D.E.A &#8211; em Estudos Portugueses e Brasileiros- op\u00e7\u00e3o Literaturas, no qual se estudava, com o prestigiado Professor Raymond Cantel, literatura de cordel brasileira e poesia popular brasileira, propus fazer uma sess\u00e3o de semin\u00e1rio sobre a poesia cantada do cantautor Jos\u00e9 Afonso. Fiz um trabalho de pesquisa e reflex\u00e3o sobre a obra de Jos\u00e9 Afonso que n\u00e3o chegou a ser publicado nem em franc\u00eas nem em portugu\u00eas nessa \u00e9poca. J\u00e1 me foi pedido recentemente que refundisse e actualizasse o texto para ser publicado nas duas l\u00ednguas. Os in\u00fameros compromissos que me t\u00eam ocupado nestes \u00faltimos anos em que, trabalhando sempre sozinha, publiquei finalmente quatro dos meus livros &#8211; que re\u00fanem trabalho de uma vida &#8211; e trabalhei durante um ano para o volume de Homenagem ao Professor Lu\u00eds de Sousa Rebelo- Humanismo para o nosso Tempo, n\u00e3o me foi poss\u00edvel tirar uns meses para refundir e actualizar esse meu trabalho sobre Jos\u00e9 Afonso. Espero faz\u00ea-lo ao longo deste ano, depois de concluir entretanto outros compromissos que ainda me esperam.<\/p>\n<p>Entretanto, em 2000, elaborei todo um projecto diferente sobre Jos\u00e9 Afonso que foi reelaborado e refundido em 2005-2006, para o qual tive, em 2006, o apoio do Prof. M\u00e1rio Vieira de Carvalho, Secret\u00e1rio de Estado da Cultura. O projecto n\u00e3o foi para a frente em 2006 &#8211; era para sair em 2007, nos vinte anos da morte de Jos\u00e9 Afonso &#8211; por falta de subs\u00eddios e porque os m\u00fasicos que convidei para trabalhar comigo exigiam ser muito bem pagos. Tenho esperan\u00e7a de conseguir, atrav\u00e9s de uma Associa\u00e7\u00e3o que me apoie, a aquisi\u00e7\u00e3o de fundos para que t\u00e3o belo projecto se realize.<\/p>\n<p>Procurei conhecer Jos\u00e9 Afonso para me ajudar no meu trabalho sobre a sua obra. Eu vivia no estrangeiro e vinha passar f\u00e9rias a Sintra. Ent\u00e3o lembro-me de um amigo o acompanhar um dia, no ver\u00e3o de 1978, a Sintra, para nos encontrarmos e falarmos sobre a sua obra. J\u00e1 a sua sa\u00fade come\u00e7ava a ficar debilitada, mas a chama da sua alma do maior g\u00e9nio da m\u00fasica popular portuguesa espraiava o seu fulgor at\u00e9 ao fim, em encontros que se prolongaram durante alguns anos. Esses encontros cimentaram a procura de entendimento da sua obra e contribu\u00edram inesperadamente tamb\u00e9m para eu ser por ele reconhecida como a pessoa diferente de todas as que o rodeavam &#8211; &#8220;amiga s\u00fabita e diferente&#8221;, escreveu na dedicat\u00f3ria de um dos livros das suas can\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o editado por Viale Moutinho. Diferente, penso eu &#8211; nunca lhe perguntei a raz\u00e3o &#8211; porque estava apenas comprometida comigo pr\u00f3pria a tentar entender a sua obra para tamb\u00e9m a transmitir nas minhas aulas, no tempo em que fui leitora na universidade de Rouen, Fran\u00e7a, e para escrever o melhor poss\u00edvel o meu estudo.<\/p>\n<p>De regresso a Portugal, eu morava em Colares &#8211; Sintra e, ao tentar experimentar todos os graus de ensino, concorri para ser professora de Portugu\u00eas e Hist\u00f3ria do ent\u00e3o Ciclo Preparat\u00f3rio, na escola Sarrazola, Colares. Para grande surpresa dos meus colegas, uma boa parte das minhas aulas de portugu\u00eas, para crian\u00e7as e jovens adolescentes do ciclo preparat\u00f3rio era o estudo, seguido de canto em coro de can\u00e7\u00f5es de Zeca Afonso que ecoavam pelos corredores da Escola. N\u00e3o me livrei de coment\u00e1rios, porque as pessoas n\u00e3o entendiam por que raz\u00e3o eu tomava esta liberdade. N\u00e3o raro os alunos diziam no in\u00edcio de cada aula: &#8220;Ent\u00e3o, stora, qual \u00e9 a can\u00e7\u00e3o para hoje?&#8221; E deliciavam-se com a beleza e o sentido profundo das palavras, as melodias a que eram t\u00e3o perme\u00e1veis.<\/p>\n<p>No fim do ano escolar de 82-83, a escola Sarrazola de Colares organizou uma festa no espa\u00e7o de uma antiga col\u00f3nia de f\u00e9rias que pertencia ent\u00e3o \u00e0 Quimigal, perto de Almo\u00e7ageme. Como os ouvidos de toda a gente j\u00e1 se tinham habituado \u00e0s can\u00e7\u00f5es de Zeca Afonso, cantadas em coro pelos meus alunos, pensei que o melhor seria levar folhas para distribuir pelas cerca de quinhentas pessoas entre alunos, professores e funcion\u00e1rios da escola, para a nossa festa. Os meus alunos acharam que era uma excelente ideia. Ent\u00e3o eles constitu\u00edram-se em v\u00e1rios n\u00facleos espa\u00e7ados no meio de todos os outros e distribu\u00edram as folhas com as can\u00e7\u00f5es de Zeca Afonso, por colegas, professores e funcion\u00e1rios. Para grande alegria e surpresa nossa conseguimos &#8211; os meus alunos e eu &#8211; p\u00f4r toda a escola Sarrazola de Colares a cantar em coro can\u00e7\u00f5es de Zeca Afonso. Ele tamb\u00e9m recebeu esse documento que foi distribu\u00eddo na festa e soube com muito agrado deste acontecimento que em princ\u00edpio ter\u00e1 sido \u00fanico, pelo menos at\u00e9 \u00e0quela data, em Portugal. Para mim foi uma experi\u00eancia extraordin\u00e1ria p\u00f4r toda uma escola a cantar.<\/p>\n<p>Estudei canto popular, canto lit\u00fargico, canto gregoriano e canto l\u00edrico muito a fundo, ao longo da vida, lutei com muitas dificuldades, tudo \u00e0 minha custa, com muitas vicissitudes para arranjar acompanhadores, mas nunca desisti, participei em concertos. Em Fran\u00e7a, os meus amigos gravaram muito do que eu cantava a solo.<\/p>\n<p>O meu maior respeito pela presen\u00e7a \u00fanica de Jos\u00e9 Afonso como cantor e autor levou-me a n\u00e3o lhe dizer que eu tamb\u00e9m cantava. Limitei-me a ouvir o que ele dizia j\u00e1 para o fim da sua vida, quando, para o seu \u00faltimo disco- Galinhas do Mato- convidou cantores e cantoras para cantarem algumas das can\u00e7\u00f5es que ele j\u00e1 n\u00e3o podia cantar. E ele dizia, a prop\u00f3sito de uma can\u00e7\u00e3o cantada por Helena Vieira: &#8220;Afinal escrevo can\u00e7\u00f5es que d\u00e3o para todo o tipo de vozes, at\u00e9 de pessoas, como a Helena Vieira, que cultivam o canto l\u00edrico cl\u00e1ssico&#8221;. Esse foi um dos discretos desafios, entre muitos outros que Zeca Afonso me deixou para sempre.<\/p>\n<p>Espero que os meus dois projectos sobre Jos\u00e9 Afonso avancem e possam sair at\u00e9 finais deste ano de 2007 ou mais tarde, se for poss\u00edvel e se conseguir apoio financeiro, atrav\u00e9s de uma Associa\u00e7\u00e3o que me ajude para este fim. Fica aqui o apelo.<\/p>\n<p>Helena Santos C. Langrouva (14.02.2007). <\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um trabalho antigo a refundir e um projecto avan\u00e7ado, a aguardar apoio. No pr\u00f3ximo dia 23 de Fevereiro passam vinte anos sobre a morte de Zeca Afonso. Parece que o tempo tem contribu\u00eddo para guardar a sua mem\u00f3ria. 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